quinta-feira, 1 de maio de 2008

Confissões

O João Silvino da Conceição me enfrentou outro dia, no SENAC, onde acontecia o seminário Educação, Direitos Humanos e Diversidade, promoção Conselho Estadual de Educação, gestão Josias Albuquerque. E o enfrentamento do João veio em forma de uma pergunta, no intervalo: - Você tem coragem de dizer, aqui, algumas confissões pessoais?
A resposta se deu em frases ditas sem arrependimentos nem precauções desmedidas, gravadas: - João Silvino, meu irmão, aos sessenta e cinco anos, mais pra partida que pra chegada, confesso-lhe que gosto muito das idéias gravitacionais, aquelas que atraem outras idéias. Creio que um novo mundo está surgindo sob o signo da dromologia, a ciência da velocidade. Gosto imensamente da minha vida docente, tendo tido três amores institucionais na vida: a Fundação Joaquim Nabuco, a UNICAP e a FCAP-UPE, onde completei recentemente quarenta anos de atividades ininterruptas. Não acredito em inteligência emocional, mas concordo integralmente com Rubem Alves, esse arretado que ainda ensina muitíssimo com seus livros, quando ele aponta para uma emoção inteligente, aquela que percebe e se compromete com uma indignação planetária, diante da sorte dos milhões sem-terra, sem-renda, sem-escola, sem-teto, sem-carinho, sem-capacidade de dar a volta por cima, porque cidadão só de mentirinha em tempos de escolhas eleitorais. Tenho ojeriza por uma cultura de fingimento que está tomando conta do mundo inteiro, onde pela mídia se propala concepções e feitos não vivenciados, a mesclar confusamente distúrbios de aprendizagem com distúrbios de ensinagem. Curto muito uma boa leitura, acredito que o atual século está sendo virado de ponta cabeça, onde o créu acontecerá em todos os setores, civis, militares e eclesiásticos, em todos os gêneros e orientações sexuais, infância e juventude a nos rejuvenescer, apesar das as limitações e artimanhas elaboradas contra as autenticidades da meninada. Acredito que todas as religiões estão carecendo de uma recauchutagem, requerendo novas maneiras de falar de Deus para uma juventude que tende a possuir uma espiritualidade distanciada das denominações religiosas. Entendo que todos os seres humanos representam a imagem de Deus de uma forma ou de outra, devendo ser respeitados pelo que são, as crenças abandonando sua dependência na culpa como fator motivador de comportamento. Creio possuir um senso de humor e gosto de ouvir/contar anedotas e histórias de todos os naipes, concordando com Rubem Alves quando ele diz que “mentiras velhas são um desrespeito à inteligência daqueles a quem são dirigidas”. Abomino os que foram gerados em pé numa rede, enroladíssimos por dentro e por fora, incapazes de engrenar idéias sementeiras, somente emitindo idéias vagaluminosas, aquelas que alumiam só em lugares indevidos. Sou crente na Eternidade, radicalmente transecumênico, acreditando que todas as religiões conduzem à Base da Nossa Existência, expressão feliz do teólogo protestante Paul Tillich. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo, cada um possuindo um lado da balança mais preponderante. Não sei beber, nem dançar, acredito que baitas defeitos meus. Sou avô de carteirinha e curtidor de uma filha e dois filhos, gerados em passados de muita dignidade conjugal. Vibro com Drummond, quando ele diz, no livro Amor Natural, página 25: “A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar...” Fico a imaginar determinadas pessoas que não possuem nem o riso da bunda. Lamento que não haja legislação que puna a estupidez, a presunção, a ausência de simancolidade e a incapacidade de entender a ciência como um “conjunto de palpites provisórios”, como dizia Karl Popper. E amo mais o meio-ambiente, ratificando o Manoel de Barros, segundo Alves: “o cu da formiga é mais importante que uma usina nuclear”.
Abracei o João Silvino e fui correspondido.
(Texto publicado no Portal da Globo Nordeste)

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