sábado, 27 de junho de 2009

Achados Silvínicos

Num dos restaurantes da cidade, acompanhado da Melba e de alguns casais amigos, eis que recebo um abraço entusiasmante do João Silvino da Conceição, sempre acompanhado de Dona Conceição, sua inspiração dia-e-noite, mente livre e sempre solta, muitos quilômetros bem dados, serenidade ímpar, sarada das louracidades artificiais que só luzem vagalumemente.
Sem mas nem meio mas, o Silvino foi logo pa-pum, igualzinho aquele comercial JC:
- Encontrei uma arma literária de alto poder metralhatório, que muito me auxiliará na minimização da esculhambação que está reinando no Congresso Nacional, transformado num valhacouto para um monte de safadões, eleitos pela imbecilidade eleitoral dos alienados, que está desesperando os congressistas de mesmo, um infeliz mínimo que se encontra de mãos e pés amarrados!
A curiosidade logo se estampou nos presentes, favorecendo uma imediata explicação silvínica, Dona Conceição postando-se sentada entre mim e o Faguinho Silva, admirando a apresentação feita pelo maridão:
- Pessoal, quem agora desejar arrebentar a boca do balão de político nojento, basta adquirir o Dicionário Brasileiro de Insultos. De autoria do pesquisador Altair J. Aranha, edição Ateliê Editorial, o dicionário é bom demais para quem não tem força física e habilidades marciais para estapear políticos safados, usando um repertório pouco conhecido para deixá-los de cueca, sem nenhum dólar dentro. E sem castelo e sem afetos, sem contratações secretas, com um monte de desafetos os aguardando na boca das urnas, ano que vem.
E o João Silvino começou a dar exemplos:
- Tem senador que tornou-se apatetado ao retirar sua assinatura do pedido de CPI da Petrobrás no Senado Federal. Uma CPI bem conduzida somente trará benefícios para a nossa maior estatal brasileira, que não deve ser “casa de mãe Joana” para “acobertâncias” que deixam embostelados acionistase e o povo brasileiro. A gente brasileira também necessita ser menos “inhenta”, criticando bem muito os bancos “onzenários”, aqueles que estão cobrando juros astronômicos, “encegueirados” pelo lucro fácil, num país que não se dá ao respeito intransigente pela cidadania de todos.
Com os aplausos advindos das mesas do derredor, o João Silvino não perdeu tempo. Subiu na cadeira, respirou fundo, e mandou lasqueira:
- Não desejo ser “sequista”, como alguns idiotizados da oposição, “lambaios” metidos a besta, que apenas se fingem demagogicamente de impolutos, quando não passam de “pimponetes” palacianos, de ações “abodegadas” e mãos quase sempre bem aproximadas dos bagos do mandante, perfeitos “arre-burrinhos arremangadores”.
O papo esquentou.Todos os presentes desejavam manusear o Dicionário Brasileiro de Insultos, para através dele explicitar suas críticas aos demais. Foram coletadas por quem estava de papel e bic algumas preciosidades. Que merecem ser aqui transcritas. Eis as principais:
- Nunca vi o Congresso Nacional com tantos “aspones”. E a Fundação Getúlio Vargas perdeu uma excelente oportunidade de não meter a mão em cumbuca, pois seus técnicos altamente qualificados tornaram-se “astênicos” quando lá puseram os pés.
- E o Parque Dona Lindu, aquele bolo “gougre”? Parece até assombração, ninguém desejando concluí-lo. Todo mundo de costas...
- Para político “manheiro”, “crapuloso” e “louvaminheiro”, vai chegar o dia do pé-na-bunda popular, quando os eleitores souberem diferenciar, em todos os partidos, os sérios e comprometidos dos “marralheiros”, “enteomaníacos” e os metidos a “cumba”.
- O brasileiro precisa abandonar as posturas de “foba”. E enfiar os políticos “pacovas” nos buracos que merecem, deixando-os com cara de “piquira”, “desamados” mesmo, sem nenhum “miché”.
As manifestações terminaram, a pedido do João Silvino, por volta das quatro horas da tarde. A Dona Conceição dava ar de enfastiada, embora feliz com o desempenho do maridaço.
Seguramente, uma tarde convincentemente cidadanizadora aquela. Cheguei em casa com uma esperança redobrada no futuro nacional.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Leituras para as férias

Se eu pudesse, recomendaria a cada um de meus irmãos leitores reservar diariamente, nas suas próximas férias, um tempo para leituras para leituras "desabusantes", aquelas que "despequenizam" interiores, agigantando esperanças num futuro mais dignificante para todos os povos e nações.
As sugestões abaixo, eu as envio para vários gostos e estados d'alma, convicto de não ser dono do mundo, mas tão somente um dos filhos do Dono, de temperamento cabrítico, admirador de carteirinha de um único irmão que é o Libertador de todos nós outros.
- A Realidade das Pequenas Coisas - A psicologia do cotidiano - Francesca Emiliani, SENAC-SP, 2009. A autora, psicóloga social italiana, analisa os pequenos fatos que, aparentemente desapercebidos, alteram humores, balançam o emocional, alterando previsibilidades e trajetórias. Para ela, a vida cotidiana exige dois requisitos basilares: conhecer e pensar. Sem eles, as interpretações e as comparações tornam-se alienados, fantasiosos todos, desestabilizandos caminhares existenciais, favorecendo fundamentalismos religiosos e sectarismos ideológicos. Uma apreensão saudável da cotidianidade é a melhor garantidora de uma salutar caminhada social, profissional e espiritual, cidadanizadora por excelência.
- Galileu, Anticristo, uma biografia – Michael White, Record, 2009. Segundo o jornal The Guardian, “um alerta excepcionalmente profundo sobre os horrores da teocracia – tanto na repressão contra a individualidade como na inevitável estagnação da ciência”. Considerado do mesmo tope de Newton, Einstein e Darwin, a biografia de Galileu é um apanhado das suas extraordinárias realizações científicas, incluindo a monumental trombada por ele dada nos socavões de pouco enxergamento da Igreja de Roma. O embate entre o gênio da ciência e os inquisitoriais da Igreja é minuciosamente explicitado em páginas inesquecíveis. A vida de Galileu pode ser definida como uma caminhada repleta de tramas e intrigas, perpetradas pelos que buscavam manter, à luz da ignorância científica, suas auto-preservações e influências sobre as massas cegadas pelo obscurantismo religioso mais tosco. Uma reflexão de Galileu é mundialmente conhecida: “Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sensibilidade, razão e intelecto pretendia que limitássemos seu uso”.
- Novo Testamento – história, escritura e teologia – Daniel Marguerat (org), Loyola, 2009. A idéia do organizador é a de “oferecer ao leitor iniciante uma visão global dos problemas históricos e literários levantados pela redação de cada livro do Nova Testamento, mas sem deixá-lo perdido numa profusão de referências”. Todas as colaborações sendo explicitadas sob concepções evolutivas, não esclerosadas. A coletânea é dividida em seis partes: A tradição sinótica e os Atos dos Apóstolos; A literatura paulina; A tradição joanina; As epístolas católicas; A história do canon; A crítica textual. O manual, ao contrário dos que pensam que a exegese histórico-crítica é uma disciplina imobilizada em seus procedimentos, efetiva uma demonstração evidente de uma renovação das categorias literárias clássicas.
- Formação Ética – Do tédio ao respeito de si – Yves de la Taille, Artmed, 2009. O autor, professor titular da Universidade de São Paulo, francês naturalizado brasileiro e especializado em desenvolvimento moral, divide seu texto em dois grandes blocos. No primeiro, Plano Ético, ele desenvolve uma análise sedutora da cultura do tédio e da cultura do sentido. Na segunda, Plano Moral, ele expões a cultura da vaidade e a cultura do “respeito de si”. Num ainda início de século, onde se fala muito de ética num mundo que parece dela não sofrer influência, o livro proporciona a construção de estratégias educacionais, nos mais variados segmentos sociais, capazes de alterar, mesmo a muito longo prazo, o atual estágio de descalabro moral planetário.
- Satã, uma biografia – Henry Ansgar Kelly, Globo, 2008. O autor, Professor Emérito da Universidade da Califórnia, USA, comprova que, com base nas Sagradas Escrituras, não existe a menor menção a Satã, entendido como poderoso inimigo de Deus. Segundo Kelly, “os demônios citados nos primeiros textos que compõem a Bíblia agem como promotores públicos celestiais, funcionários angélicos encarregados de patrulhar a Terra e testar as virtudes dos homens com a devida autorização divina”. Na orelha do livro está explicitado: “Para Henry Ansgar Kelly, o sombrio carrasco de rabo e chifre não existe: foi inventado por textos escritos séculos depois da Bíblia. O que, segundo o autor, impediu-nos de conhecer o verdadeiro Satã, a quem este livro pretende reabilitar”.
Para que os mentalmente mais raquíticos, leigos e clérigos, não me critiquem por ter dado conhecimento de um livro muito bem estruturado sobre o Danadão, concluo as sugestões de boas leituras, com dois preciosos lançamentos da editora Loyola. Ei-los:
- Deus no pensamento filosófico – Emerich Coreth, Loyola, 2009. Se o ateísmo teórico está em plano secundário, o ateísmo prático continua a ampliar sua influência nos quatro cantos do planeta, onde vive-se e pensa-se sem Deus, a pergunta sobre Deus não estando mais presente no mundo contemporâneo. O autor, um sacerdote jesuíta, expõe um trabalho filosófico de mais de cinquenta anos, sem abordar temas e problemas teológicos, encontrando-se também isento de aparatos científicos. Um texto que merece uma leitura atenta.
- Os filósofos e a questão de Deus – Luc Langlois e Yves Charles Zarka )orgs), Loyola, 2009. Uma questão domina, hoje, os principais centros mundiais de Ciências Humanas: “É possível superar o niilismo, que às vezes assume a figura de novos deuses, cuja forma extrema conduziu o século XX à catástrofe e à barbárie inauditas?” Tal questionamento é complementado por outros dois: “O que resta de um saber sobre Deus, de um saber sobre aquele que ultrapassa todos os saberes?” e “O modo como os filósofos pensarem Deus pode abrir caminhos na direção da alteridade, da transcendência?” A ideia dos organizadores e a de proporcionar um consistente repensar sobre Deus, reinserindo-O na história da filosofia. O trabalho resultou de um colóquio realizado em Quebec, abril de 2002, muito emboraalguns textos tenham sido redigidos posteriormente.
Para não torrar a paciência de muitos, alguns que até arrepiam os cabelos só em contemplar a capa de um livro de Filosofia, eis uma muito oportuna sugestão última:
- Como estudar filosofia – guia prático para estudantes – Clare Saunders, David Mossley, George Ross, Danielle Lamb e Julie Closs, Artmed, 2009. Texto elaborado por professores universitários e revisado tecnicamente pelo Dr. Valério Rohden, pós-doutoramento efetivado na Universidade de Munster, Alemanha, atualmente docente da UFRS e da Universidade Luterana do Brasil. E destinado aos alunos de graduação, também de muita utilidade para graduados, pós-graduados e seminaristas distanciados das lides filosofais, por deficiências próprias ou institucionais. Após uma apreensibilidade consistente dos temas desenvolvidos pelo livro, todos poderão principiar a ler textos filosóficos, preparar-se para debates e discussões, escolher temas paradissertações e ensaios, estruturar argumentos, detectar plágios, assimilar termos técnicos e usar uma biblioteca e a Internet.
Para não dizer que não falei de romances, eis um de muito bom nível:
- O brasileiro voador – Márcio de Souza, Record, 2009 – Romanceando a vida de Santos Dumont, o autor dá asas à imaginação, sem desrespeitar a história, contando cenas impagáveis da vida do pai da aviação. Não pretendendo ser exaustiva, essa biografia romanceada de Santos Dumont proporciona agradáveis momentos de uma leitura prazerosa, sempre utilizando um inteligente estilo humoral. Leitura apropriada para quem deseja continuar feliz com a Vida.
Boas férias para todos!! E que o Homão da Galileia nos ajude a suportar a fedentina que atualmente exala do Congresso Naional, produto de uma série de irresponsabilidades, inclusive as praticadas pela alienação de milhões de eleitores.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Germinários Cristãos

Promovo com os meus botões de pijama, nas vigílias noturnas ao lado de quem muito amo, uns debates que imagino saudáveis para a ampliação das minhas reflexões sobre os tempos tríbios de agora, utilizando uma expressão do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, autor mundialmente aplaudido dos conhecidos Casa Grande & Senzala, Sobrados & Mocambos e Além do Apenas Moderno, para citar apenas três das suas memoráveis construções analíticas. Por tempo tríbio, entendia o mestre de Apipucos, como gostava de ser chamado, a inter-ação dos três tempos – passado, presente e futuro – sobre os mais diversos complexos sociais, uns nostalgicamente voltados para passados, outros excelentes antecipadores de futuros.
Na minha caminhada cristã, com mais de duas décadas convivendo com Dom Hélder Câmara, ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, ainda hoje sem substituto à altura numa Arquidiocese de passados altaneiros, aprendi a diferenciar essências cristãs de circunstâncias cristãs, evangelizações de oportunismos financeiros, ações empreendedoras proféticas de mesmices cúlticas cavilosas, bem como salvação de igreja.
A última das diferenciações acima eu a assimilei do sacerdote Ivan Illich, o Monsenhor de Cuernavaca, México, célebre autor de Sociedade sem Escola, um sucesso editorial brasileiro dos meus tempos de pós-graduação na PUC-RJ, 1973, onde convivi com talentos inesquecíveis, como Cláudio de Moura Castro e Osmar Fávero (professores), Lenice Moura, Cecília Puntel Motta e Jether Pereira Ramalho (colegas de turma daqueles “tempos de coturnos torturadores”).
Do Jether fui presenteado com um livro, guardado até hoje com irrestrita admiração pelo autor e intensa saudade daqueles tempos de estudos: Jesus Cristo Libertador, de Leonardo Boff. Uma leitura que ampliou meu compromisso com o Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador. A partir dele, dediquei atenção mais acentuada a tudo que dizia respeito às manifestações cristãs, engajando-me posteriormente na Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, então sob a batuta evangelizadora de Dom Hélder Câmara, uma personalidade inteiramente dissociada dos maneirismos e cavilosidades vaticanas, profundamente transreligioso, radicalmente voltado para um mundo mais digno e dignificante para todos.
Posteriormente, já na condição de anglicano, recebi outro livro-presente memorável do bispo anglicano de Santa Maria, Dom Jubal Neves, por quem nutro uma imensa admiração fraterna, dada sua condição de bispo-pastor, da sua liderança cativadora e da sua incrível capacidade de degustar um baita e suculento churrasco. De autoria de John Hick, um teólogo e filósofo da religião de renome mundial, A Metáfora do Deus Encarnado foi editado em língua portuguesa pela Editora Vozes, 2000, causando-me um impacto diferenciado do livro do Boff, que açoitava o autoritarismo, o burocratismo e o hermetismo pouco democrático da organização vaticana como um todo.
O livro do teólogo John Hick, bem mais teologal que o de Boff, propunha uma nova concepção dogmática para um Cristianismo que se encontrava afastando celeremente da Ciência e da Consciência de milhões, tornando-se somente significativo nas regiões mais carentes de uma contempoaneidade técnico-científica-cultural. Seu livro seguinte, Teologia cristã e pluralismo religioso: o arco-íris das religiões, por mim adquirido em 2005, em São Paulo, sedimentou em meu interior uma certeza: os seminários cristãos necessitavam de uma reforma significativa em seus conteúdos teológicos e doutrinários, posto que estavam servindo de abrigo a personalidades que ansiavam por “comandos proclamadores” eivados de obsolescências múltiplas, alienatórias e anestesiantes, destinadas tão somente às mentes proprietárias de densas “transitividades ingênuas”, aqui usando o jargão do educador pernambucano Paulo Freire, autor do intensamente lido Pedagogia do Oprimido.
E foi quando uma idéia à época me ocorreu: Germinários Cristãos como uma proposta de seminário que não fingiria apenas subsistir.
Germinários Cristãos seriam instituições radicalmente interdisciplinares, compostas de comprometidos com uma transreligiosidade cabrítica capaz de fomentar debates reestruturadores consistentes, que desconstruíssem e reconstruíssem evangelizações cativadoras capazes de congregar Ciência e Fé, espelhando-se na reflexão poética de Cora Coralina, que, tal e qual Jesus, não tinha formação acadêmica e nem era psicóloga, se comportando em seus escritos como uma cidadã dotada de incontáveis enxergâncias intuitivas. O poema Aos Moços, da poetisa goiana, que sempre me reenergiza como uma oração cristã libertadora, proclama:

O tempo muito me ensinou,
ensinou a amar a vida,
não desistir da luta,
recomeçar na derrota,
renunciar a pensamentos negativos,
acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
Crer numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa.
Creio na fraternidade universal,
na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança , generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência e na
descoberta de uma profilaxia futura
dos erros e violências do presente.
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

Nos Germinários Cristãos seriam amplamente explicitados e debatidos, sem cavilosidades nem histrionismos, autores como John Hick, John Shelby Spong, Hans Jonas, Albert Schweitzer, Freud, Nietzsche, Geza Vermes, Richard Dawkings, Rubem Alves, John Robinson, Sanders, Bornkamm, Karen Armstrong, Saramago, Leonardo Boff, Otto Maduro, Hans Küng, Elaine Pagels, entre tantos outros, a favorecer um conteúdo instrucional e catequético capaz de fomentar novos talentos, sem nunca acalentar temores e tremores, desalienadores por derradeiro.
A título de exemplos, sugeriria duas afirmações interessantes e oportunas para debates oportunos. Uma delas é do próprio John Hick, que em 1977, com seu livro The Myth of God Incarnate, provocou intensa histeria nos conservadores e reacionários ambientes episcopais britânicos, tendo sido até acusado de ter “sucumbido às hostilidades de uma personalidade demoníaca” : “Os teólogos jamais foram capazes de tornar inteligível a idéia de que Jesus tem duas naturezas, uma humana e a outra divina. Como pode um indivíduo histórico ser ambas as coisas, humanamente finito e divinamente infinito, humanamente frágil e divinamente onipotente, humanamente ignorante e divinamente onisciente, humanamente criado e divinamente o criador do universo?”.
A outra afirmação seria do bispo anglicano John Shelby Spong: “Os judeus compreenderam que Deus não habitava templos nem altares construídos pela mão humana. Os cristãos do século XXI precisam agora compreender que Deus não habita credos nem doutrinas teológicas elaboradas com palavras humanas”.
Da minha parte, continuo estudando, reconhecendo-me em contínua metamorfose, embora aluno sempre aprendiz. Reconhecendo em meu caminhar tapas-e-beijos que Deus é a Base da Nossa Existência, como maravilhosamente Paul Tillich identificou a Criação.

PS. Texto concluído num Dia de São João, 24-06-2009, reverenciando todos aqueles, das mais variadas denominações, que proclamam a urgência de um Cristianismo mais consciente de si mesmo, uma proposta cativante diante dos evolutivos recursos cognitivos de uma nunca estagnada consciência global .

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Chacoalhar para um pensar melhor

Não sei se alguém já teve a oportunidade de tentar comparar a trajetória do presidente Lula com o contido em A República, de Platão (427-347 a.C.), naquele episódio da caverna. Para os leitores mais curiosos, relato num vapt-vupt o texto platônico. Seguinte: alguns seres humanos estão aprisionados numa caverna, da qual só percebem o fundo da dita. O trânsito feito do lado de fora, seres e coisas passando, só é percebido através das sombras projetadas no fundo da caverna, constituindo para os prisioneiros sua única realidade. Libertando-se um deles, eis que ele vai até o lado de fora, percebendo que as sombras até então observadas eram apenas aparências, cópias toscas e grosseiras, distorcidas das imagens captadas no exterior da caverna. Voltando ao interior da gruta, é zombado pelos companheiros que não tiveram a felicidade dele, considerado louco diante da sua intenção de querer explicar como é a realidade da não-caverna. E continuaram sem querer enxergar a realidade menos distorcida.
O presidente Lula foi um que saiu da caverna, viu o lado de fora e tenta mostrar aos seus companheiros de partido outra realidade, fazendo uso da sua intuição política, merecedora de elogios até de ferrenhos adversários. Como líder sindicalista, o presidente percebeu a emersão, a partir dos anos 70, das novas fisionomias das sociedades ocidentais, marcada pela falência das grandes utopias, inclusive religiosas, lastreadas no consumismo, no individualismo, no hedonismo e nas novas tecnologias da informação. Que agigantou um sentimento de “imediaticidade” planetária, tornando todos menos pacientes e mais alérgicos à perda de tempo.
Lamentavelmente, o presidente, com suas iniciativas de “paisão” do mundão menos favorecido e com seu assistencialismo acrítico não propiciou o crescimento da cidadania dos beneficiados. Que deveriam rejeitar toda escravidão; que deveriam saber escolher por si mesmos, repudiando as manipulações; e que desenvolveriam um individual modo próprio de ser, numa vocação pessoal que jamais se instrumentalizaria.
As consequências da não-cidadania estão explicitadas em pesquisas várias: o desânimo para o trabalho e a dependência do protecionismo estatal, além de uma ausência de compromisso pessoal, comunitário ou sindical, numa desmotivação para com o coletivo. Ampliando-se as crendices e as superstições, muitas delas alimentadas pela própria prática assistencialista, que favorece a emersão de culturas de fingimento, de sepulcros caiados e da ausência de mínimos conteúdos éticos comunitários.
Sejamos generosos com nossos tropeços, corajosos em nossas convicções e fiéis a nossos princípios. Desconfiando sempre das imperiais certezas e jamais embarcando na canoa dos embromadores de palanque. E nunca rejeitando a reflexão do Marquês de Maricá: “A mediocridade em tudo é uma garantia e penhor de segurança e tranquilidade, sendo a passividade sua filha predileta”.
A hora é de multiplicar esforços para a “viabilização do impossível”. Lastimando menos, concretizando mais. Assimilando diariamente a lição de Charles Chaplin, o imortal Carlitos: “Viva!!! Bom mesmo é ir a luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante”.
Jamais reneguemos o apelo feito, um dia, por quem sabia das coisas, Bertolt Brecht: “Nós pedimos com insistência:/ Não digam nunca: isto é natural! / Diante dos acontecimentos de cada dia. / Numa época em que reina a confusão. / Em que corre sangue, / Em que se ordena a desordem, / Em que o arbitrário tem força de lei, / Em que a humanidade se desumaniza. / Não digam nunca: isso é natural!!
Lição final para todos: O discernimento correto revela-nos a verdadeira natureza de uma corda e remove o doloroso medo ocasionado pela nossa crença ilusória de ser ela uma cobra.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ensino na Encruzilhada

Outro dia vi uma manchete num jornal de grande circulação nacional: Até teólogo e bibliotecário dão aulas de física. Trazia um subtítulo: Levantamento mostra descompasso entre a formação do professor e o que ele tem de ensinar, em todas as disciplinas. Segundo aquele periódico, 27% dos docentes do país de 1ª. a 4ª. série não possuem habilitação mínima exigida. E mais: 15.982 é o total de professores, dos 1,8 milhão, que só estudaram até o nível fundamental e que, portanto, não possuem condições adequadas para estruturação do saber infantil, mormente em tempos de velozes mutabilidades sociais, que deixam atordoados até os mais qualificados para a função magisterial.
Uma pergunta se instala entre os que acompanham o desempenho da educação brasileira depois da nossa constituição última, apelidada de cidadã: por que as pesquisas comparativas mostram que alunos igualmente pobres se saem melhor em colégios particulares do que em unidades públicas?
Muito embora a renda familiar não seja fator único a influenciar os resultados escolares (localização geográfica, escolaridade dos pais, entre outros, também são levados em conta), as escolas particulares se saem melhores que as públicas, para as mesmas faixas de renda familiar. Por que o denominado “efeito escola” (desempenho da unidade) é maior entre as unidades de ensino particular do que as públicas? Pesquisa feita pela economista Ana Maria Franco com base no SAEB (exame do MEC que avalia a educação básica) mostra que o “efeito escola” é de 24% a 33% nas unidades de ensino privado, enquanto na rede pública tal efeito varia entre 21% a 27%.
A explicação é dada pelo pesquisador Naércio Menezes Filho, autor de recente estudo sobre desempenho escolar: “Na particular, um professor pode ser demitido se faltar demais e outro pode ser promovido quando se destacar”.
O depoimento de um operador de máquina, em São Paulo, que leva a filha de 8 anos diariamente e de bicicleta para uma escola particular de pequeno porte, revela que embora a escola não seja das melhores, sua filha seguramente terá um desempenho melhor do que se estivesse frequentando uma unidade pública estadual. E completa: “Tenho sobrinhos que estudam em escola pública e a gente ouve muitas histórias de professores agredidos, vê na TV casos de morte dentro da sala de aula. Na escola particular estão seguros e têm um estudo melhor”.
Em livro da editora Contraponto intitulado A Economia Política do Governo Lula, os seus dois autores, economistas Luiz Filgueiras e Reinaldo Gonçalves, manifestam-se profundamente preocupados com a formação das futuras gerações brasileiras, considerando da maior relevância as avaliações feitas sobre as evoluções acontecidas nos últimos anos. Dizem eles: “a questão da escolarização é fundamental para o desenvolvimento social, político e econômico”. E denunciam, com base nos levantamentos feitos pelo IBGE/PNAD: “em 2004-2005, aumentou a proporção de jovens entre 15 e 17 anos fora da escola, comparativamente a 2003”.
A consequência dos dados acima é compreensível por qualquer pessoa sã: “Considerando as mortes de jovens por armas de fogo, o Brasil tem o mais elevado índice em um painel de 65 países”. Índices elevados também gerados pelas taxas de desemprego entre os jovens de 10 a 17 anos: de 11,5% em 1995 para 21,5% em 2005. E pelo aumento do consumo de tabaco, bebidas alcoólicas, maconha, solventes e cocaína. Somente entre os jovens de 12 a 17 anos, a proporção de jovens que consomem bebidas alcoólicas aumentou de 48,3% (2001) para 54,3% (2005).
Entre as conclusões apresentadas pelos economistas Filgueiras e Gonçalves, duas estão refletidas nos indicadores acima. A primeira diz respeito à distribuição de renda: o governo Lula não apresenta desempenho superior ao governo FHC. A segunda: a oposição não consegue constituir alternativas políticas relevantes.
Consequência muito temerária: uma cultura de fingimento exteriorizada por gregos e troianos e a bandidagem correndo solta até no Congresso Nacional.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

ENEM, um vestibular diferente

Creio que o ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio necessita ser amplamente esclarecido para o pessoal discente que se encontra no Ensino Médio das unidades escolares brasileiras, públicas e privadas. Alertando os futuros vestibulandos para os objetivos que estarão sendo perseguidos a partir dos próximos exames do segundo semestre, onde a “decoração” cederá lugar a reflexões embasadas na cultura geral e na visão contemporânea do mundo.
Dias atrás, recebi da família mineira da minha mulher uma apostila de questões para o ENEM muito bem feita, contendo conteúdo atualizado, revisado e comentado por especialistas qualificados em língua portuguesa, matemática, geografia, história, química, física e biologia. Com exercícios gabaritados que deveriam estar bem assimilados pelos docentes do ensino médio, capacitando-os mais para uma indispensável transmissão de conhecimento.
Chamaria a atenção de professores e alunos para algumas “advertências” contidas na primeira página da apostila: “A prova do ENEM é muito diferente de um vestibular tradicional. ... Valorizam-se as competências – capacidade do aluno em lidar com situações diversas – e as habilidades – a concretização dessas competências. Há uma grande preocupação com a formação do aluno para o exercício da cidadania. Por isso, a prova do ENEM é elaborada de forma a favorecer o aluno que conhece os problemas brasileiros e se preocupa com a sua solução. ... De um modo geral, o aluno é convidado a refletir, a estabelecer relações e pôr em prática seus conhecimentos, sem a preocupação de definir se estes pertencem a um campo específico do saber. ... Esta apostila não se propõe a apresentar uma lista de macetes técnicos que fatalmente não poderiam ser aprofundados em um curto curso preparatório.”
Permitam-me os leitores a transcrição dos conteúdos das disciplinas exigidas além de Língua Portuguesa. Ei-los: Matemática: Conjuntos numéricos, Média aritmética simples, Funções e equações, Matrizes, Determinantes, Sistema linear, Progressões aritméticas, Progressões geométricas, Probabilidade, Introdução à Estatística, Geometria plana e Geometria espacial. Química: Química Geral, Físico-química e Química orgânica. Física: Mecânica, Movimento retilíneo, Queda livre, Leis de Newton, Hidroestática, Calor, Estudo dos gases, Estados físicos da matéria, Ótica, Ondas, Acústica, Eletricidade e magnetismo, Eletrodinâmica, Física moderna, Noções de física nuclear, Efeito fotoelétrico e Raio X. Biologia: Bioquímica celular, Citologia, Histologia, Genética, Reprodução, Embriologia, Fisiologia humana, Diversidade dos seres vivos, Evolução e Ecologia.
Um dia, alguém escreveu: “Um alerta muito lá de dentro para os vestibulandos: o futuro já chegou desde ontem. O profissional de um amanhã que já se encontra devidamente instalado em nosso derredor, além dos saberes específicos, necessita ter um nível cultural denso, uma visão abrangente, um nível ético e uma férrea disciplina, capaz de reoxigenações contínuamente relevantes. Os impactos causados pelas inovações tecnológicas forçarão uma elevação da qualificação convivencial de todos, favorecerecendo parcerias múltiplas, tudo devidamente gerenciado por habilidades mentais que rejeitem ingenuidades e preconceitos, e as incapacidades de aliar eficazmente um enxergar técnico e uma visão holística profundamente humanizada. Para os profissionais XXI, os desafios não são intransponíveis, desde que abandonadas as mesmices dos ontens”.
Quem escreveu o alerta acima não desconhecia uma advertência célebre do economista Celso Furtado, um dos maiores talentos brasileiros, paraibano de nascimento: "Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de auto-destruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas ".
A era do Vestibular ENEM veio para ficar, com os aperfeiçoamentos que se fizerem necessários. E chegou para dar um puxavão de orelhas nas escolas públicas brasileiras, que necessitam capacitar-se mais para uma educação de qualidade que não sejam apenas histriônicas palavras de ordem de campanha salarial.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Orfandade de ideias

Algumas semanas atrás, assistindo palestra num evento de natureza social, tive a oportunidade de tecer alguns minutos de prosa com a psicóloga-pesquisadora Maria do Carmo Camarotti, a palestante, que ressaltou em seu papo uma preocupação significativa: a atual orfandade de ideias em nosso país. E eu concordei plenamente com o seu pensar.
Uma questão há muito tempo deveria estar presente nas esferas dos setores públicos, privados e eclesiásticos brasileiros: por que a Índia, que detém índices sociais mais desconfortáveis que o Brasil, possui níveis de criminalidade bem menores que os nossos? Será que, por aqui, a sociedade se encontra preocupada mais em fortalecer um punhado de “doutores”, ao invés de edificar uma comunidade de cidadãos, onde cada um compreenda seus deveres e direitos? Será que a postura cada vez mais individualista da nossa gente não consolidou uma cultura de fingimento, que transformou as manifestações tidas e havidas por solidárias em ardilosos procedimentos de como alavancar vantagens financeiras? Será que os vergonhosos quantitativos da nossa indigência social não favorecem apenas iniciativas assistencialistas, gritinhos histéricos de “vem, Senhor Jesus!” ou teses acadêmicas, estas resvalando para os fundos das estantes das bibliotecas, lá mofando sem intenção de qualquer operacionalidade? Será que famílias destroçadas somente são aquelas situadas abaixo de um determinado nível de renda, quando milhões de famílias das classes médias e altas de há muito também não sabem ser família, por hedonismo autofágico, insuficiência cultural, boçalidade técnica e espiritualidade de faz-de-conta, colocando num mesmo saco um dolorismo da boca pra fora, uma emocionalidade debilóide e um como-deus-quis que agride os principais ensinamentos das grandes religiões do planeta?
No evento, me chamou atenção um pronunciamento de um oficial reformado, da Marinha se não me falha a memória. Segundo ele, o mundo, hoje, estaria mais preocupado com o ter do que com o ser, pouco se lixando, tal e qual aquele deputado bandido do nosso quase putrefato Congresso Nacional, para os comentários emitidos no Ter ou Ser, livro de Erich Fromm, editado em 1977.
Tem plena razão aquele participante: hoje, efetivando-se o revelado em documento de 1848 – “tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo que era sagrado é profanado ...” - está valendo tudo para se ganhar dinheiro, mesmo destruindo milhares de inocentes no Iraque, mesmo pinotando pelada em frente às câmeras de TV, mesmo esterilizando os próprios ideais do passado para não prejudicar os resultados eleitorais de 2010, próximo ano eleitoral.
Embora não-marxista nem estatizante, defendo um Estado Nacional soberano, onde determinadas funções constitucionais deveriam ser por ele executadas, entre elas Educação, Saúde e Segurança Pública, todas solidamente consubstanciadoras de uma Cidadania que não diferenciasse sobrenomes, escolaridades, religiões, gêneros, etnias, preferências sexuais e áreas geográficas. Uma Cidadania que libertasse sem libertinagens, que democratizasse sem xenofobismos, que se solidarizasse com os menos favorecidos sem torná-los dependentes, educando-os sem as bobajadas do pegajoso tratamento de “tio” e “tia”, como bem denunciou Paulo Freire, em Professor, Sim, Tia, Não!
Seria interessante, sugestão apenas, que alguns eventos sociais dedicassem uma das suas sessões ao tema Construção da Cidadania Brasileira, tendo como ponto referencial o conto O Nascimento do Cidadão, de Moacyr Scliar, incluído na História da Cidadania, uma coletânea da Editora Contexto, integralmente elaborada por especialistas brasileiros.
A cidadanidade é um processo contínuo e nunca intermitente. Que teve princípios mas jamais terá fim. Um amálgama composto de História, Filosofia, Sociologia, Política, Ética, Comunicação e Direito, com uma baita pitada de solidariedade para com os menos favorecidos, cujo destino será o destino de todos nós. Se quisermos chegar, em nossa travessia terrestre, a um algum porto menos inseguro.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Darwin, 200 anos

Resolvi ler mais sobre Darwin, no ano do bicentenário do seu nascimento. Na Livraria Cultura, indago do maior vendedor de lá, o Cláudio Rocha, acerca de algum lançamento recente sobre quem tanto contribuiu para o desenvolvimento da genética, da neurociência, da psicologia e do desenvolvimento sustentável. Algum lançamento que me proporcionasse respostas para algumas indagações: “Como uma teoria tão simples pode abranger tantas áreas do conhecimento? Como lidar com nossas próprias barreiras de crenças e costumes? Seremos nós apenas grandes primatas? E nossos comportamentos serão apenas resultado de transmissão genética? O que nos aproxima ou nos distingue de nossos semelhantes?”. Respostas que se distanciassem das mentes tridentinas e dinossáuricas que não estão querendo arribar dos tablados recifenses, hoje mundialmente referenciada como uma capital onde a Inquisição, que de santa nunca teve patavina, persiste em manifestar-se ridicularmente, ainda que metendo menos medo que a história da “perna cabeluda”, aquela peraltice muito bem divulgada pelo Geraldo Freire, uma inteligência radiofônica que dá um orgulho danado na gente.
Foi na Cultura que tomei contato com o livro Charles Darwin – em um futuro não tão distante, organizado por Maria Isabel Landim e Cristiano Rangel Moreira. Editado pelo Instituto Sangari, 2009, uma organização fundada em 1993, na Inglaterra, por Antoni Sangari, contando com uma representação em São Paulo. Uma leitura muito recomendada para quem deseja ser profissional e pesquisador, indispensável para todo bolsista de Iniciação Científica.
Tomei conhecimento que o Instituto Sangari tinha realizado um exposição intinerante sobre Charles Darwin, ano passado, beneficiando as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia e Curitiba, alcançando memoráveis aplausos.
Como as comemorações do Ano de Darwin estão muito longe de serem concluídas, seria interessante que as áreas culturais pernambucanas procurassem estabelecer contato com o Instituto Sangari, consultando sobre as possibilidades de trazer para nossa capital a exposição acima citada, também comemorando os 150 anos da Origem das espécies, o livro seu mais conhecido. Que muito complementaria as informações contidas no livro dos professores Maria Isabel Landim e Cristiano Rangel Moreira.
Segundo material de divulgação, “a verdade é que qualquer leigo inteligente é capaz de entender ao menos o essencial de uma dada teoria científica, mas para isso ele precisa de um "vocabulário" ou "alfabeto" básico da área -- mais ou menos como as pessoas precisam saber o que são átomos e moléculas para conseguir entender química. O grande mérito do livro, produzido pelo Instituto Sangari, reconhecido por suas ações na área de divulgação científica, é trazer para o leitor esse vocabulário, com textos curtos, objetivos e precisos”.
Que os nossos gestores públicos percebam: quem sabe adquirir conhecimento está ciente que ele jamais se tornará findo, o mundo sendo propriedade de todos, dos mais debilitados inclusive. Que exigem ser amparados na sua dignificação terrestre, para que as nações tornem-se pacíficas, sob ares mais distributivistas, cidadanizadas sem esmorecimentos nem nostalgias, iluminando escuros, fortalecendo uma crescente solidariedade universal, no silêncio redentor de cada amanhecer em Deus. Creio que a primeira finalidade do ensino definida por Montaigne – “mais vale uma cabeça bem-feita que uma cabeça bem cheia” – continua válida, num mundo incerto e inseguro, onde o preparo deve se consolidar no sentido contrário ao de um ceticismo contagioso.
Que a juventude, incentivadas pelos gestores públicos e empresariais, sem moralismos nem puritanismos vexaminosos, saiba assimilar os ensinamentos germinais dos notáveis da Ciência, separando o joio do trigo, menosprezando o chulo, rejeitando a mediocridade travestida de evento cultural, percebendo-se construtora legítima dos amanhãs nacionais soberanamente edificados.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

sábado, 6 de junho de 2009

Anjos e Demônios

Assisti o filme e muito o apreciei. Enredo de final surpreendente, com apelo para um diálogo mais fecundante entre Religião e Ciência, numa ação convergente pela emersão de uma nova humanidade de muita luz e intensa solidariedade, sem menosprezo de um desenvolvimento científico e tecnológico favorável a todos os povos e nações.
Quando o Dom Hélder Câmara proclamou que a Igreja será santa e pecadora, ele queria ressaltar a fragilidade humana, com suas ambições e despautérios, inúmeros, por vaidade e cobiça, buscando sobressair-se aos verdadeiramente ajustados à Mensagem do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador. O Dom não desconhecia o lado negro do Cristianismo, onde incontáveis candidatos a Bispo de Roma se estribaram em táticas muito distanciadas dos mais elementares princípios éticos. Para se ter uma idéia, basta citar o que aconteceu entre 873 e 1003: 33 papas e quatro anti-papas, dez dos quais foram barbaramente assassinados, muitos deles sendo presos e exilados. Um tempo denominado pelos historiadores de “período da pornocracia”.
Temos que reconhecer que o Cristianismo de todos os tempos, com suas múltiplas denominações e tendências, congregou anjos e demônios, do clero e do laicato. Em todas as regiões do planeta.
A perplexidade até hoje se estampa nos escritos dos analistas contemporâneos. Como foi possível que o Império que crucificara o Nazareno tenha decidido que o Cristianismo seria a religião do Estado apenas trezentos anos depois do Gólgota? Um império onde mulheres eram consideradas animais de propriedade dos pais e maridos, portadores de direito pleno de nelas bater e matá-las. Um império onde o mesmo imperador mandou assassinar o próprio filho, a mulher, o sogro e o cunhado. E que perseguiu inúmeros seguidores da Boa Nova que apenas buscavam cumprir o Evangelho em sua plenitude. Naquela época de Constantino, muitos foram mortos, outros exilados sem direito a qualquer bem, outros reduzidos à condição de meros escravos.
Mais recentemente, século XIX, os ingleses se especializaram no tráfico de drogas, comercializando gigantescas quantidades de ópio à China, cujo imperador de então tinha proibido as negociações, consideradas ilícitas. Em três ocasiões, 1848, 1856 e 1858, os ingleses bombardearam portos chineses para impor a liberdade de comerciar produtos alucinógenos. A História classifica tais agressões como Guerras do Ópio.
Nos tempos de século XX, não se pode pôr de lado a influência do Cristianismo no desenvolvimento do nazismo, do fascismo, do extermínio de judeus, na Guerra Espanhola, algumas autoridades até abençoando torturadores e esquadrões da morte no Brasil, no Peru, na Bolívia, na Argentina e na Indonésia.
O filme também não se esquivou de encarecer sutilmente a restauração da dignidade de Galileu Galilei, um cientista cuja inteligência sobrepairava muitos acima das intrigas, fuxicos e conspirações do seu tempo.
Certamente não foram “anjos” que transformaram a Santa Sé numa potência financeira, administradora de fortunas incalculáveis”. Atualmente, a cidade do Vaticano tem três instituições financeiras: a APSA, que funciona como um banco central, o Ministério da Economia e o IOR, sigla muito conhecida do Instituto de Obras Religiosas, também apelidado de “o banco do Papa”.
Por uma deferência especial, o filme Anjos e Demônios não toca, nem de leve, nos escândalos da pedofilia, uma perversão sexual eclesiástica que remonta, ao que tudo indica, aos primeiros tempos do século XVII, quando o padre Joseph Calasanz, fundador da Ordem dos Piaristas, proibiu que os abusos sexuais praticados por seus sacerdotes contra crianças se tornassem do conhecimento público.
A época está a exigir esclarecimentos, perdões e arrependimentos. Principalmente dos maiorais das nossas inúmeras denominações cristãs. Para que, enaltecido o trigo e devidamente segregado o joio, possamos ver um Cristianismo mais fortalecido entre todos aqueles que, nunca sendo ovelhas, desejam continuar bons cabritos cristãos.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Encruzilhada de todos os nós

O fato aconteceu, tempos atrás não muito distantes, a merecer reprodução que busca desabestalhar os mais desatentos, muitos deles portadores de pós-graduações e mais num sei o quê mais, infelizmente titulações que apenas favorecem o acúmulo de saberes, nunca estando devidamente voltados para a inventividade empreendedora e a imaginação criadora.
Num matar-saudades acompanhado de salgadinhos e da Márcia Ângela, irmã universitária, uma história foi contada por Lauro Wittmann, professor da Universidade do Paraná, acontecida na residência de um dos seus amigos, que buscava contratar os serviços de uma profissional do lar.
Entrevistando uma delas e solicitando as suas pretensões salariais, ouviu singular resposta:
- "Depende. Se for para trabalhar com penso, é mais caro. Se for para trabalhar sem penso é mais barato.”
Diante do atordoamento geral, a explicação convincente:
- "Se o senhor quiser que eu pense como administrar o dia-a-dia da sua casa é um preço. Mas se o senhor quiser apenas que eu cumpra as suas ordens, o preço será menor .”
Nós, brasileiros, estamos precisando de dirigentes, inclusive religiosos, "com penso.” Que percebam que a realidade se encontra num patamar muito distanciado dos "olimpiquismos" academicistas, dos burocratismos pedantocráticos e dos populismos maneiros dos apenas assistencialistas.
Recentemente, Edward Bono, um expert em criatividade gerencial, reproduziu um pensamento de Albert Einstein – tudo mudou, exceto nosso modo de pensar -, interrogando por sua vez: Será que é tarde demais para mudar o nosso modo de pensar?. E o cientista da Relatividade faz uma reflexão importante, numa época que parece ser de pensamento único: quando se está inserido num sistema, onde o derredor está se comportando da mesma maneira, é muito difícil imaginar alternativas, embora elas existam, inúmeras delas mehores que as atuais.
De Edward Bono retiro um questionamento: “Será que algum dia o domínio por meio da agressão vai chegar a ser substituído pelo domínio por meio da sabedoria?” Segundo ele, haverá amplas possibilidades de êxito para a eliminação da agressão, se alguns pontos essenciais forem conquistados: que se promova o valor, em seus sentidos mais consistentemente humanos; que se pense naquilo que pode ser mais intensamente do que naquilo que é; que as universidades, sem menosprezo dos ontens, pensem mais voltadas para os amanhãs desafiadores que se aproximam. E aqui eu substituiria universidades por denominações religiosas.
Nunca abandonemos a fórmula de Pascal - sabemos muito pouco para sermos dogmático e muito para sermos cético - defendendo a vida criativa dos assaltos próprios de um tempo que menospreza a Filosofia e a Espiritualidade, que asfixia a estratégia em detrimento de táticas imediatistas, oportunistas quase todas, algumas até ostensivamente diversas das orientações do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador, que viveu entre nós com muito “penso”.
PS. Ainda sensibilizado com as explanações sobre Espiritualidade feitas por Dom Luiz Prado, Bispo Emérito Anglicano e atual Reitor do SETEK – Seminário Anglicano de Porto Alegre, por ocasião do recente Concílio Diocesano da Igreja Anglicana do Rio de Janeiro, comecei a ler um livrinho notável, A Onda é o Mar – Espiritualidade Mística, de Willigis Jüger, Editora Vozes, 2009. Uma personalidade profundamente inserida na tradição místico-contemplativa do cristianismo ocidental, tendo se submetido, durante doze anos, a capacitações na prática do Zen. Uma leitura que muito fortalece a relação de cada ser humano com a Criação, independente da religião, professada ou não. No prefácio, o autor declara que o livro “foi escrito para pessoas que, apesar de pertencerem ao ambiente cultural cristão, não foram batizados ou não se sentem (mais) como fazendo parte da Igreja.”

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Leituras para melhor compreensão

Na minha condição de cristão sempre inquieto, graças a Deus, tenho observado uma crescente pesquisa em torno do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador: sua chegada, sua missão, seus propósitos, seus parentescos e suas estratégias para que as boas novas fossem bem assimiladas. Os trabalhos de Juan Arias (Jesus, esse grande desconhecido), Philip Yancey (A Bíblia que Jesus lia), Vera Maria Bombonato (Seguimento de Jesus), Jacques Duquesne (Jesus, a verdadeira história), Marie Vidal (Um judeu chamado Jesus), Martin Forward (Jesus, uma pequena biografia), Jon Sobrino (Jesus, o libertador), Beatrice Bruteau (Jesus segundo o judaísmo), Israel Knohl (O Messias antes de Jesus), John Dominic Crossan (Uma biografia revolucionária sobre Jesus), Frédéric Lenoir (Cristo Filósofo), Geza Vermes (A religião de Jesus), Jürgen Moltmann (O Caminho de Jesus Cristo), Armand Puig (Jesus, uma biografia), Terry Eagleton (Jesus Cristo / Os Evangelhos), Gerd Theissen (O movimento de Jesus), Rudolf Bultmann (Jesus) e A.N. Wilson (Jesus, um retrato do homem), entre tantos outros, comprovam o empenho de especialistas, de orientações várias, agnósticas também, em elucidar lacunas deixadas pelos Evangelhos canônicos. Inclusive lançando mão de documentos autênticos, de antiguidade comprovada, embora não aceitos oficialmente nos primordiais tempos da era cristã. A partir de um deles, os Manuscritos do Mar Morto, se pode entender melhor o contexto judaico da vivência de Jesus, inclusive o conceito emergente de messianismo catastrófico.
No último feriadão, li com marcador à mão o trabalho de Antonio Piñero, catedrático de Filologia Neotestamentária da Universidade Complutense de Madri, intitulado O Outro Jesus Segundo Evangelhos Apócrifos, editado conjuntamente pela Mercuryo e Paulus. Com base nas fontes não aceitas como canônicas ou inspiradas, algumas delas datadas dos dois primeiros séculos da era cristã, Piñero consegue de forma esplendorosa elucidar algumas obscuridades contidas no Novo Testamento: a concepção, o nascimento e as primeiras peraltices do Prometido, a situação conjugal Maria-José e os fuxicos da época diante da gravidez de uma jovem de apenas 16 anos, os irmãos do Menino, os ensinamentos secretos de Jesus e a assunção de Maria, um fato não registrado nos evangelhos oficiais, embora relatado num dos classificados como apócrifos.
Para se ter uma idéia, Antônio Piñero estudou minuciosamente cada um dos 36 documentos considerados inautênticos, dividindo-os em quatro grandes grupos. E expõe suas conclusões através de um estilo descomplicado. Um dos capítulos mais significativos do livro analisa os questionamentos feitos pelos Doze e alguns seguidores (Mc 4,11ss). E mostra como Jesus ensinava aos seus mais próximos de um modo pedagogicamente formativo, preparando sua equipe para as pregações futuras, a serem efetivadas sem mais a sua presença.
As lições do Mestre podem ser explicitadas através de quatro princípios basilares, já bastante propagados antes mesmo do seu nascimento: 1. A melhor parte do ser humano e a mais autêntica é o espírito, uma centelha divina consubstancial com a divindade, da qual se origina por emanação; 2. Por um processo complicado, necessário e adverso – a ser em breve esclarecido -, essa centelha divina está presa na matéria, isto é, no corpo do ser humano e nesse mundo material. Mas o Eu verdadeiro do ser humano, a centelha divina, tem sua pátria na eternidade; 3. A centelha divina deve tomar consciência de seu ser e voltar ao lugar de onde procede; 4. Um ser divino desce do âmbito superior em missão de resgate, com sua revelação lembrando ao ser humano que ele possui essa centelha, o ilumina e o instrui sobre o modo de fazê-la retornar ao lugar de origem.
Na literatura considerada apócrifa, informações sobre Jesus contribuem para melhor compreender a caminhada do Homão da Galiléia, apenas lamentando-se a constatação feita por João, no último versículo do seu extraordinariamente diferente evangelho: “Jesus fez muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos”.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Bravura de mulher

Outro dia eu li uma declaração da atriz Fernanda Montenegro que muito me entusiasmou: “Os anos dão uma consciência que não tem preço”. E tal constatação cai como uma luva na pessoa da senadora Marina Silva, que também é articulista, às segundas-feiras, da Folha de São Paulo. Uma leitura para mim tornada obrigatória semanalmente.
Num dos seus últimos textos, a senadora alerta para as consequências da Medida Provisória 458, recém-aprovada na Câmara de Deputados. A MP pretende legalizar milhares de posses de terras públicas com até 1.500 hectares nos estados classificados como amazônicos.
Segundo a senadora, a MP 458 “chancela o festival de grilagem na região e abre portas para mais concentração agrária”. E denuncia a consagração da política do fato consumado: avança-se sobre áreas públicas com a segurança de, em breves, tudo estará legalizado. Um incentivo portentoso para novos surtos de grilagem, “beneficiando os grandes em nome dos pequenos e da questão social.
A senadora apresenta dados do próprio INCRA: as mini e as pequenas propriedades de até quatro módulos fiscais, quatrocentos hectares de terra, representam 80% do total, muito embora ocupem apenas 11,5% da área. Em contrapartida, as médias e grandes propriedades, sendo apenas 20% do todo, ocupam OITENTA E OITO E MEIO POR CENTO da área.
A bravura da senadora Marina Silva está prenhe de muita maturidade política e férrea convicção de que “um processo de regularização fundiário bem conduzido é essencial para estabelecer e promover direitos e para combate estrutural do desmatamento”. O que não será viabilizado com a MP 458, que contribuirá para legalizar e capitalizar grileiros, favorecendo a desestruturação de seis anos de atuação do próprio Governo Federal na redução do desmatamento regional.
Segundo dados internéticos, a Amazônia é a maior floresta tropical do planeta, estendendo-se por uma área de 6,4 milhões de quilômetros quadrados, 63% no Brasil e o restante distribuídos por Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Guiana, Suriname, Equador e Guiana Francesa. A Amazônia Legal abrange os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e grande parte do Maranhão, correspondendo a cerca de 61% do território brasileiro (5.217.423 km2). Segundo o IBGE, possui 20 milhões de habitantes (IBGE, 2000), o que resulta numa baixa densidade demográfica. E para quem ainda não atentou para o problema água, a Amazônia guarda cerca de um quinto das reservas de água doce do mundo.
A senadora Maria enumera rapidamente as principais ameaças que estão afetando a Amazônia: grilagem (posse ilegal de terras mediante documentos falsos), desmatamentos, queimadas, madeireiras predatórias, expansão da fronteira pecuária e agrícola (soja principalmente no Mato Grosso), fiscalização insuficiente, impunidade, caça e pesca sem controle, contrabando de animais, o que torna a floresta cada vez mais vulnerável aos efeitos do aquecimento global.
Para se ter uma idéia dos estragos causados, em 2004, o setor madeireiro extraiu o equivalente a 6,2 milhões de árvores. O Pará é o principal produtor de madeira amazônica, representando 45% do total produzido e concentra 51% das empresas madeireiras. E 75% da área desmatada, na Amazônia, é ocupada pela pecuária, praticamente uma cabeça de gado por hectare.
A sociedade civil brasileira organizada deve exercer uma pressão consequente sobre o Governo Federal, exigindo mais recursos financeiros para a intensificação da fiscalização, uma presença mais efetiva do Ibama, Polícia Federal e Exército ao longo das estradas clandestinas detectadas por satélite, apreendendo os equipamentos ilegalmente utilizados. Além de proteger os direitos e as terras dos povos indígenas.
De parabéns a senadora Marina Silva, em sua luta pela sua visão abrangente sobre a questão amazônica. Em nome do bem público e do respeito pelas leis florestais.
(Publicada no Jornal do Commercio, 20.05.2009, Recife-Pernambuco)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Idiotas e demagogos

Nos últimos tempos, observo alguns profissionais lamentarem não analisar com mais acuidade alguns dos atuais problemas contemporâneos por não possuírem um conhecimento mais apropriado de História, quer mundial, quer nacional, quer das suas próprias regiões.
Na área da graduação universitária, então, a ausência de conteúdo de História é dose pra elefante. Outro dia, num bate papo descontraído, afirmei que na Grécia antiga, pai da Democracia, existiam os idiotas e os demagogos. Idiotas eram todos aqueles que não se interessavam pelo debate dos assuntos públicos, enquanto por demagogos eram classificados aqueles que se destacavam na área pública, habilidosos na conquista do apoio da maioria para suas iniciativas e projetos.
Demagogos, na Grécia antiga, eram os condutores do povo, que lideravam as assembléias, acelerando as decisões, seja por consenso, seja pela maioria dos presentes com direito a voto, posto que excluíam as mulheres, os jovens, os escravos, os idosos e os estrangeiros. O significado do termo demagogo modificou-se com o tempo, hoje adquirindo um outro sentido.
Entretanto, os idiotas de ontem estão se multiplicando nos tempos de agora. Em nome de interesses particulares, alguns estão menosprezando atos e fatos políticos que influenciarão as suas existências. Outros, mais voltados para um ganhar-dinheiro-de-qualquer-maneira, se auto-proclamam “apolíticos”, como se todos nós não fôssemos políticos, embora não-partidários, o que é outra coisa completamente diferente.
Convencido estou que a barbárie se amplia consideravelmente quando os idiotas (no sentido grego e tambem contemporâneo) se multiplicam, sob o lema do “ter que levar vantagem em tudo”, adeptos que são do “depois do meu, o resto que se dane”.
Recordo-me de alguns idiotas encontrados na vida. Um deles, adepto fervoroso dos tempos ditatoriais, um dia me perguntou por que eu desejava ter cada vez mais senso crítico, quando deveria estar remando a favor da maré que acoitava os privilegiados, utilizando meus poucos neurônios para ganhar dinheiro e sustentar melhor a família e ainda ter umas “minas” de acréscimo, pois o que valia mesmo “era ter dinheiro no pé do cipa”.
Fico a imaginar a qualidade de vida do derredor de um idiota desses. Talão (de cheque) em vez de talento. Arroto substituindo o pensar. O passado nunca existindo, a História às vezes apresentada zombeteiramente através das conversas imbecis de se jogar fora, na latrina.
Para os filhos dos idiotas que pressentem que devem ser diferentes, indo muito mais além da pasmaceira cotidiana dos seus tempos familiares de agora, também distanciando-se quilômetros das drogas, três iniciativas são salutares por excelência: afastar-se da rotina, enfrentar o desconhecido e motivar-se para adquirir novos saberes fora do seu campo profissional. Sempre percebendo que nenhuma instituição ensina sucesso, conforme a lição imorredoura de Galileu Galilei: “Não se pode ensinar nada a um homem: só é possível ajudá-lo a encontrar a coisa dentro de si”.
Para os idiotas de todas as idades e contas correntes, religiões e credos hedonistas, o Domenico de Mais, em seu livro A Emoção e a Regra, nos convida para uma nova maneira de enxergar o macro-derredor: “Nessa nova sociedade, que privilegia a produção imaterial, as necessidades do indivíduo são outras: tempo e privacidade, amizade, amor, ócio inteligente e enriquecedor, e a convivialidade. A última coisa que interessa é a ostentação”.
Se eu pudesse, gostaria de enviar a todos os idiotas do planeta uma conclamação, parodiando a feita pelo Karl Marx, nos meados do século XIX. Um alerta que muito beneficiaria uma nova humanidade: “Idiotas de todo mundo, percebei-vos quão tolos estais sendo, para deleite dos que os querem escravos de amanhãs sem democracia !!”.
PS. Toda misericórdia para os que, imaginando-se argutos, imaginam estar escanteando os inteligentes que estão de há muito percebendo eles, gozando sem dó nem piedade.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)