quarta-feira, 28 de março de 2007

Pernambuco na Corte Inglesa

Numa cafeteria do Recife de muito boa clientela, outro dia captei um papo de duas socialites, o assunto girando sobre a fotografia tirada em Londres por uma pernambucana sendo devidamente amolegada no seio direito pelo sabidamente meio-embriagado príncipe inglês William, segundo da lista de sucessão do trono. Reproduzo o papo entre a conversa das duas madames, preservando a identidade delas da melhor maneira possível:
- Achei o maior barato, o destaque da mídia pernambucana, diante daquela foto incrível, onde o príncipe William, fingindo-se pra lá de Marrakesh, amassa um dos seios da Naná, irmã da Lulu e da Didi, lembra-se dela?
- Lembro-me, sim. Ela até escreveu, dias atrás, um e-mail para minha filha mais velha, dizendo que estava freqüentando cada ambiente nobre de fazer inveja, com gente de muita grana e influência. A fotografia comprova a granfinagem do ambiente. Minha dúvida é se ela teria concordado com o amasso.
- Claro que concordou, darling. Um bom amasso nada tem de relâmpago. Afinal de contas, quem é que não se sentiria prestigiado com a mão boba de um príncipe a massagear o peito de quem, ainda muito jovem, necessita mostrar seus “talentos” para o mundo inteiro. Capaz dela sair na próxima Playboy.
- Com certeza, amiga, a amolegada dada pelo príncipe deverá integrar o Currículum Vitae da pernambucana, pois não é todo santo dia que um seio nordestino se vê principescamente amassado, valorizando nossa gente e o nosso turismo. Já imaginou o marketing: Conheça a Inglaterra e consiga uma amolegadinha legal de um príncipe empilecado. Ou: Com os novos soutiens sulanca, seus peitos ficarão bem mais sedutores diante das mãos dos herdeiros britânicos”. Ou ainda: “Estudar inglês é ter uma oportunidade de dizer ‘oh, my God’, diante de uma amassadinha de príncipe herdeiro”. Ou: “Ganhe duas mil libras, sendo fotografada num amasso de peito!!”
- Pena que a minha filha não tenha ainda os seios desenvolvidos, apesar dos seus vinte anos. Mas já bolei a solução: através de um bocado de silicone, deixarei eles em ponto de bala, pra mão nenhuma de príncipe perder a oportunidade. Afinal de contas, não deve ser todo dia que um príncipe embriagado mete a mão nos peitos de alguém.
- Será que Pernambuco vai usar a fotografia da amolegação no trade turístico? Imagine o cartaz: Pernambuco, lugar de peitos de verdade, não necessitando de qualquer enchimento. Venha e comprove a autenticidade deles.
Parabenizo a Naná pelo “V” de vitória explicitado na fotografia. Parecia querer dizer: vale duas mil libras!!! Segundo ela mesma disse, “o príncipe sabia muito bem onde estava com a mão”.
Envio minhas congratulações ainda para a mãe da Naná. Segundo ela, ele não apalpou o seio dela, apenas segurou mais em cima. Príncipe não apalpa, príncipe apenas ampara. Ela também garante que a Naná não é prostituta, no que está absolutamente correta, posto que a foto é estática, não possuindo aquele vai-e-vem que bem caracteriza outras circunstâncias.
Dizer que a Naná não tem faro comercial é outra bobagem monumental. Ela tem e muito. Soube vender a foto, arranjou um emprego num hotel, as funções ainda não devidamente explicitadas.
Creio que a Naná deve aproveitar os nove meses que o “visto” lhe concedeu. Para aprender a usar o “V” com mais assiduidade. Aprimorar-se na língua do príncipe, demonstrar que será profissionalmente competente nas Relações Internacionais, ainda que esteja nos primeiros passos, passos que nada rima com amassos.
Desejo para a Naná um futuro de muitos amassos. Quem sabe, ao regressar, ela não abra um MBA (muito bem amassados) sobre como ganhar dinheiro com fotografias.
Ao príncipe herdeiro, embriagado na foto, ainda que com bom troféu na mão, os votos de um futuro sóbrio numa realeza que de longa data principia a ser decadente, embora tenha muitas doses pela frente.
Pela conversa das madames, ambas também estavam ansiosas por um amasso de príncipe herdeiro.

Equilíbrio ou Oportunismo

Não causa espanto algum, salvo para desligados e oportunistas de plantão, a declaração presidencial recente classificando os usineiros brasileiros de heróis mundiais. Tinha o mesmo Lula, tempos atrás, 1985, por ocasião de uma entrevista concedida à Folha de São Paulo, 29 de dezembro, opinião inteiramente diversa: “sou daqueles que não admitem a existência das classes sociais”. E também dizia: “na medida em que a gente perceber que pela via parlamentar, pela via puramente eleitoral, você não conseguirá o poder, eu assumo a responsabilidade de dizer à classe trabalhadora que ela tem que procurar outra via”.
Duas épocas, dois pensares, oportunidades calculadas por quem se tornou gradativamente um egocrata, tal e qual aquele monarca francês que acreditava que o Estado era ele próprio. Um líder de massa que amplia o seu ufanar imaginando-se messias latino, estrategicamente anestesiando os marginalizados, pairando acima do bem e do mal, continuadamente aplaudido pelas massas mediante assistencialismos diversos e mil e um pronunciamentos curtos de baixo calibre.
Tudo isso acontece sob a conivência abjeta do silêncio dos intelectuais ditos progressistas, que apenas ratificam a tese “se existe estamento oportunista, sobretudo quando silencia, este é o dos chamados intelectuais”. Para não falar dos intelectuais achincalhadores, que nominam de idiotas e imbecis os que não comungam com seus costumes e não aplaudem suas bandas de música, empoleirados que estão num bem-bom gerontológico.
Diz o filósofo Roberto Romano, em relação aos silenciosos: “grande parte deles falou em demasia quando seus protetores partidários eram unanimidade no jogo do poder”. E até cita uma ex-destacada dama da filosofia, outrora linha de frente da ribalta esquerdista: “quando Lula fala, tudo se ilumina, tudo se esclarece”. Seguramente ela não atentou para a reflexão de Harold Bloom: "a filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo sempre suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder"
Disse outro dia: Não tenho nenhuma predileção por xenofobias, sejam elas quais forem. Mas não me sinto civicamente confortável, observando alguns pronunciamentos ardorosos em favor de uma generalizada privatização, quando facilmente se verifica, até mesmo por cima dos panos, interesses avassaladoramente despudorados, sem a mínima preocupação com o social e o pátrio. Como também não me permito concessões gratuitas e apoios irrestritos àqueles que, defensores extremados do setor público, apenas advogam a manutenção de privilégios espúrios, prevaricações mil, incompetências travestidas de cargos pomposos e salários magnificentes, às custas de todos, o social ficando apenas num discurso para palanques e entrevistas sorridentes.
Urge um imediato programa de reestruturação nacional, inclusive político-partidário. Para travar o bom combate diante das expressividades comodistas e procedimentos políticos bandidos. Para erradicar as causas de uma desacreditação dos poderes públicos. Eliminando-se, pela efetividade dos conseqüentes, os sinais visíveis de um novo barbarismo, seqüela das ampliações econômico-sociais entre os que têm e os que nada possuem, estes já em explícita guerra civil.
É dever persistir reconstruindo os fatos históricos dos nossos ontens sob um prisma estratégicamente idôneo, nunca embusteiro nem embromador. O próprio Umberto Eco, em memorável entrevista, declarava que "a Terra é redonda: não se pode ir à esquerda demais". E explicava: a força de perseguir a idéia mais extrema, a mais provocadora, a mais "inovadora", acaba por dar a volta e se ver situada na extrema direita.
Os exemplos são centenas. Parece até que o Lula leu Umbertro Ecco, dado seu incomensurável orgasmo cívico pelos novos heróis mundiais, os usineiros brasileiros.
Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 28.03.2007

segunda-feira, 19 de março de 2007

Carta aberta a Dom Oscar Romero

Recife, 18 de março de 2007

Reverendíssimo Dom:

Sempre agradecendo a Deus pela sua passagem terrestre, finda em 24 de março de 1980 quando do seu brutal assassinato, e jamais esquecendo sua bravura e o seu nunca acovardamente na defesa dos menos favorecidos, envio-lhe alguns escritos de pessoas que muito o amavam, todos relacionados com a tentativa de guilhotinamento intelectual do Jon Sobrino, aquele teólogo jesuíta de família vasca, que nasceu em 1938 em Barcelona e que chegou a El Salvador, para exercer inclusive a docência na Universidad Centroamericana José Simeón Cañas, a partir de 1957. E que colaborava bastante com o senhor, tendo escapado de morrer, por estar viajando, quando dos assassinatos de seis colegas jesuítas dele, em novembro de 1989.
Lembra-se que ele era considerado um dos colaboradores mais notáveis nas áreas da Cristologia, da Eclesiologia e da Espiritualidade da Teologia da Libertação? E que o senhor gostava de recomendar dois dos seus livros, Jesus, o Libertador, e Fé em Jesus Cristo, trabalhos que ainda fomentam a fé e a coragem de dezenas de milhares de latinos, inclusive os de língua portuguesa, que adquiriram as edições da Vozes?
Lamentavelmente, amado bispo, dias atrás deste mês de março, a Congregação para a Doutrina da Fé, antigamente chamada de Santo Ofício, pródiga em nada criar e de intensa vocação condenatória, de passado nada recomendável, emitiu um documento cala-a-boca, muito semelhante àquele emitido contra o Leonardo Boff, impondo ao teólogo Jon Sobrino um silêncio definitivo.
A condenação do Santo Ofício causou perplexidade nos que buscam a libertação do homem todo e de todos os homens, tornando libertos inclusive os que se imaginam fiscais do pensar alheio. A imposição do teólogo Jon Sobrino dá continuidade às ameaças sofridas pelos também teólogos Hans Küng (1975 e 1980), Jacques Pohier (1979), Schillebeeckx (1980, 1984 e 1986), Charles Curran (1986), Tissa Balasurya (1997), Anthony de Mello (1998), Reinhard Messner (2000), Jacques Dupuis e Mariano Vidal (2001) e Roger Haight (2004). Para aqui não falar das inúmeras vítimas dos castradores de segunda classe, que tentaram abater, no Nordeste Brasileiros tomado aqui como exemplo, mentes privilegiadas como a da teóloga Ivonne Gebara e a do escritor e também sacerdote Aloysio Fragoso.
A punição de Jon Sobrino, um dos teólogos contemporâneos mais sérios, indignou os de boa cepa reflexológica, os nunca-ovelhados, os pensantes da contemporaneidade, os paulinos sempre renovados pelo Espírito, os que não seguem acabrestados os ditames do poder maior. E o sofrimento entre nós, brasileiros, ampliou-se diante da proximidade da visita do pontífice ao Brasil, quando canonizará o Galvão, aquele cara bem bonzinho que distribuía umas pilulazinhas cura-tudo, da cabeça ao dedão do pé. Antenando ainda os militantes cristãos mais conscientes para a presença, entre nós, de quem deseja propagar fundamentalismos tridentinos, na ânsia de abocanhar os fiéis de regiões ainda sub-desenvolvidas.
Observe, Dom Romero, os testemunhos abaixo. São todos eles belíssimas bandeiras de lutas contra a perversão praticada por quem busca com ardor, embora inútil, arrancar da História as trilhas fincadas pelo Concílio Vaticano II:
Frei Betto: “O papa Bento XVI, às vésperas de sua primeira viagem à América Latina, faz um gesto que imprime um gosto amargo às boas-vindas: condena o teólogo jesuíta Jon Sobrino. ... O parecer condenatório da comissão da Congregação parte de preconceitos. A leitura das obras de Sobrino revela que, em nenhum momento, ele nega a divindade de Jesus. Nega é o docetismo, heresia já condenada pela Igreja nos primeiros séculos da era cristã, baseada na idéia de que Jesus , de humano, só tinha a aparência, em tudo mais era divino. ... O que está por trás da censura a Sobrino é a visão latino-americana de um Jesus que não é branco nem tem olhos azuis. Um Jesus indígena, negro, moreno, migrante; Jesus mulher, marginalizado, excluído. Aquele Jesus descrito no capítulo 25 de Mateus: faminto, sedento, maltrapilho, enfermo, peregrino. Jesus que se identifica com os condenados da Terra e dirá a todos que, frente a tanta miséria, se portam como o bom samaritano: ‘O que vocês fizeram a um dos menores de meus irmãos, a mim o fizeram (Mt 25,40)’”.
Roberto Zwetsch: “De certa forma, Sobrino passa a ser agora, involuntariamente, o símbolo de um recado do Vaticano aos que ainda guardam boa lembrança do Vaticano II (1962-1965) e dos encontro dos bispos em Medellin (1968) e Puebla (1979). ... É isto que estará em jogo nos bastidores da V CELAM e certamente terá repercussões também no âmbito ecumênico entre as demais igrejas cristãs”.
Eduardo Hoonaert: “Mais um capítulo numa dolorosa história que já vai longe: a ‘penitência perpétua’ imposta a Jon Sobrino. ... A questão de fundo, que aparece na condenação de Jon Sobrino, está na teimosia que caracteriza grandes instituições. Resistindo a qualquer tentativa de reformulação de suas fórmulas (sempre passageiras), elas se precipitam para a morte. A história já comprovou suficientemente que grandes impérios se destroem a si mesmos, por um processo que o historiador inglês Toynbee chamou de híbris (autoconfiança exagerada, falta de percepção da realidade, prepotência). Foi o que aconteceu sucessivamente com o império babilônico, o império persa, o império romano e recentemente o império soviético. A prepotência do Vaticano fica patente nas palavras usadas para afastar Jon Sobrino do ensino eclesiástico.”
Jung Mo-Sung – “O que está por detrás da punição de Jon Sobrino e também de uma boa parte das disputas que ocorrerá na V CELAM é a compreensão do papel da Igreja Católica no mundo e da sua relação com o Reino de Deus. ... Se a Igreja pretende criar um novo sentido para a palavra pobre para se ver como a instituição mais importante no mundo, poderá escrever documentos e notificações, mas o mundo não lhe ouvirá, pois nem conseguirá entender o que ela quer dizer”.
Ivanise Bombonatto – “Ao resgatar a densidade teológica do seguimento de Jesus, Jon Sobrino traz relevante contribuição para o cenário da reflexão cristológica. Colabora para a reaproximação da categoria da história, reforça o caráter soterológico da cristologia e a relacionalidade do conhecimento teológico, redescobre o valor do testemunho martirial. A cristologia de Jon Sobrino é uma cristologia eclesial, situada no reino da vida em contante confronto com o reino da morte, dialogante a aberto ao futuro.”
Leonardo Boff – “O espanhol Jon Sobrino é um dos teólogos mais sérios, mais evangélicos, diria até que é um dos teólogos mais santos que temos. Por isso, sua condenação tem uma gravidade especial”.
Acredito piamente, Dom Oscar Romero, que a condenação praticada pela antiga Santa Inquisição, devidamente endossada pelo seu ex-Comissário, seguramente fará despertar em cada cristão, num contexto que se transmuda muito velozmente e que se conscientiza cosmicamente, a sua capacidade de proclamar com efetividade a Boa Nova, sem temor censorial algum, atentando para o aprimoramento contínuo de uma autoconsciência elevada, compreendendo cada um seus pontos fortes e fracos diante da Mensagem do Homão de Nazaré, separando bem o joio do trigo. E com o hábito de encarecer ao seu derredor avaliações periódicas e construtivas, que possibilitarão a descoberta das potencialidades ainda ocultas por preconceito, frágil ousadia ou não-enxergância. Nunca arrefecendo uma sede de aprender e apreender, para multiplicar a criatividade na efetivação de novas oportunidades missionárias, sempre dotado de um sólido respeito pelas diferenças, transcendendo bairrismos, ideologias e maniqueísmos ultrapassados, próprios dos que não se conformam com o desenvolvimento da cultura contemporânea.
Tudo faz crer, amadíssimo Dom Romero, que alguns patrões mundiais ainda não perceberam as emergências citadas no parágrafo anterior. Entre os que desejam ser mais notados, o presidente Bush e o papa Bento XVI. Ambos com um portentoso viés: o de se imaginarem salvadores do mundo através da imposição de um pensamento único, desconhecendo a mutabilidade crescente dos cinco continentes.
Espero ver o Jon Sobrino firme e forte. Minha avó dizia que “quem muito se abaixa o bernardino aparece”. Uma lição que guardo até hoje bem dentro do meu coração. Há necessidade de Jon Sobrino permanecer na atual Igreja dele? Se afirmativo, qual a disposição dos seus irmãos mentalmente mais abertos de, intelectual e pastoralmente, enfrentar os inquisitoriais de plantão?
Gosto dos que mantêm a cabeça erguida, sem enodoar a altivez, quando cônscio dos deveres cumpridos. Sabendo travar o bom combate, mesmo quando as farpas parecem querer cantar de galo, ainda que desatreladas da verdade dos fatos relacionados com os autênticos procedimentos evangelizadores que favorecem e aceleram a construção do Reino.
Cada vez mais convencido estou: quem crucifica cotidianamente o Senhor da História são aqueles que, intra-eclesialmente, se postam como donos da verdade, sem atentar para a tarefa mais indispensável, a da libertação de todos, sonho acalentado por muitos milhões de excluídos.
Todo cuidado é pouco, já advertia o Senhor nas suas pregações, com as orações sem ações concretas. Um cristão que se esconde do mundo, covardemente, sem ampliar sua capacidade de agir construindo mais, muito se distancia da mensagem do Nazareno.
Na minha modésta opinião, a punição do Jon Sobrino, além dos fatores acima citados, relaciona-se com a ideologia do III Reich. E é exprimida por uma certa náusea de se perceber evoluindo, há muitos milhões de anos, a partir de um núcleo primata, quando o desejado, pelos olhos verdes e ares de superioridade mal disfarçada, seria a de ser um ente diretamente advindo de raça pura. Como se o Homão de Nazaré fosse um nascido de uma mãe ariana.
Vou ficando por aqui. Recomende-me sempre ao Pai, para que eu possa continuar sendo agraciado com os Ventos do Alto. Que me são indispensáveis na minha caminhada terrestre, como um obstinado aprendiz de tudo.
Com muita saudade da sua presença,

Rev. Fernando Antônio Gonçalves

sábado, 17 de março de 2007

Mensagem Cristã & Comunicação

Confesso, reconhecendo sempre as minhas portentosas limitações filosofais, uma admiração acentuada por Paul Tillich (1886-1965), notável teólogos dos anos 1900, um dos representantes mais significativos do existencialismo religioso.
Através de uma escrita não-hermética, ele apresenta em suas análises teológicas duas características: seu método de correlação, apontando as interdependências existentes entre as questões humanas e as respostas propostas nas Sagradas Escrituras; e uma linguagem teológica simbólica, envolvendo a economia, as ciências e os demais setores da atividade humana.
Asseverando que a teologia conservadora sofre de “um efeito casulo” (ao se vincular apenas com aquilo que ela classifica como revelação divina), Tillich acredita que reflexões teológicas devem entrelaçar-se, à ciência, à política, à ética, à sociologia, à antropologia, à bioética, à medicina, à paleontologia, à psicologia social e às ciências da comunicação. Numa complexidade que repudia os dualismos cartesianos (corpo x alma, homem x mulher, certo x errado, céu x terra, etc), tudo emergindo de uma contínua dialética teologia sistemática x teologia apologética.
Dentre as leituras por mim escolhidas para o período momesco 2007, uma publicação da Fonte Editorial me fascinou, também angustiando-me sobremaneira: Paul Tillich – Textos Selecionados, uma seleção de Eduardo de Proença. Nela, a parte 2 – A Comunicação da Mensagem Cristã: uma Questão para Ministros e Professores Cristãos foi mote para três releituras. Nela, alguns questionamentos do Tillich merecem atenção redobrada de ministros e professores de escolas dominicais: Como deve ser focada a mensagem do Nazareno para pessoas do nosso tempo? Como ela deve ser comunicada?
No entender de Tillich, “comunicar o Evangelho significa colocá-lo diante das pessoas até que elas estejam prontas para decidir a favor ou contra ele”. Pois “tudo que se pode fazer é tornar possível uma genuína decisão”. E faz um questionamento-arremate: “Onde estão vivendo as pessoas para as quais devemos comunicar o Evangelho de uma maneira que elas sejam capazes de tomar uma decisão genuína?
Depois do alumbramento que a leitura do texto de Tillich proporciona, bom seria não sentir qualquer tipo de angústia. Mas ela chega sem pedir licença, quando se percebe a crescente alienação que reina nas áreas cristãs, afugentando uma juventude, por natureza sensível à pós-modernidade.
Repensar novos procedimentos comunicacionais evangelizadores, eis o desafio das igrejas cristãs, em benefício de uma juventude que busca “enxergâncias” e “binoculizações” compatíveis com o que seja existência integrada. Para tanto, as Igrejas (com suas lideranças leigas inclusive) necessitam melhor capturar as novas realidades sociais, políticas e econômicas, capacitando-se para a edificação de cenários futuros, abandonando as palavras vazias, as culturas de fingimento e as arapucas de engaiolar abobados.
Compete aos evangelizadores, conscientes de suas missões, a assimilação do que realmente importa, aprimorando o trinômio conhecimento x criatividade x solidariedade a favor dos excluídos, num agir socialmente comprometido com os ditames do Homão de Nazaré, favorecendo neles o poder de exercer sua cidadania cristã de maneira dignificante (Fp 1,27).
O apóstolo Paulo, que realmente fundou a Igreja Cristã, posto que Jesus era judeu e buscava tão somente reestruturar o judaísmo da época, livrando-o do legalismo e tornando-o efetivamente reformado, nos fala do privilégio de cada um contribuir (2Co 8,7). Alicerçando a formação de novos quadros, capazes de revitalizar a Mensagem do Nazareno, eliminando os dualismos que se encontram de muito sepultados.
Sonhar com um Amor-a-Deus universalmente revigorado deve ser mote contínuo de todos que percebem entre os céus e a terra mais coisas do que a vã filosofia.

quarta-feira, 14 de março de 2007

A Sabedoria do Consumo

Se houvesse indicações sobre as mais significativas personalidades brasileiras, para um dos primeiros lugares votaria sem titubear no rabino Nilton Bonder, líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil. Seu livro último, Ter ou Não Ter, Eis a Questão - Campus 2006 – deveria servir de mote para as denominações que interpretam a busca da posse como uma “malignidade espiritual”, posto que, segundo o próprio Bonder, “não é possível ser sem ter”. Segundo ele, deve-se destruir as barreiras de uma hipocrisia religiosa estabelecida entre os conceitos de “ser” e “ter”, para se reconstruir as linhas mestras de uma Economia do Desejo capaz de revelar valores substantivos.
Bonder analisa um tipo de posse que, além de não ter características pecaminosas, se torna alicerce indispensável à própria existência. E se lança na contra-mão do senso comum da moral e da espiritualidade abobada: “toda vez que o ‘ter’ for originado numa necessidade, se fará instrumento e nutriente do ‘ser’, ou seja, reforçará a medida e a limitação que configuram nossa experiência de ‘ser’. Toda vez que o ‘ter’ se apropriar de algo que foge à limitação real do ‘ser’, que prescindir de uma necessidade real que o justifique, diminuirá o tônus e tornará flácida a experiência do ‘ser’”.
O questionamento principal do Bonder – Como foi que o mundo ficou assim: medido pela capacidade aquisitiva, com sonhos que se traduzem em consumos, sentidos e tendências que são originárias do mercado? – aponta para duas vertentes elucidativas: responsabilizar a ignorância para evitar defrontar-se com outras “inteligências” é a primeira; a segunda, a busca da imprescindibilidade da posse, em vez de tratá-la como mera patologia.
Nilton Bonder ratifica o pensar de Abraham Joshua Heschel, falecido em 1972, um dos mais importantes teólogos judeus contemporâneos: “Existem conceitos mortos e conceitos vivos. Um conceito morto já foi comparado a uma pedra que se planta na terra. Um conceito vivo é como uma semente” ... “A religião não nos é concedida, de uma vez por todas, como algo que possamos guardar num cofre. Ela precisa ser recriada o tempo inteiro”.
O livro do Bonder não deve ser lido bruscamente, como se lê uma revista semanal de superficialidades fuxicosas, atualmente em evolutivas vendas nas bancas de revistas, sintoma preocupante do desenvolvimento mental da classe média brasileira. Suas constatações merecem reflexões de causalidade, aquelas que buscam os porquês, pois nada é casual.
Algumas das boas cutucações do rabino Bonder, engenheiro pela Universidade de Colúmbia, PhD em Literatura Hebraica pelo Jewish Theological Seminary, induzem instantes de reflexão amadurecida: “Tenho encontrado tanto Reis buscando os segredos dos sapateiros como sapateiros infelizes porque não conseguem ser Reis”; “O erro mais comum de nossa civilização é acreditar que a posse é uma realidade, de que coisas possam ser tomadas por outras coisas e que isso não seja uma forma de acoplar medidas”; “Quem rouba tem menos ‘Eu’, menos posse de si”; “A velhice repleta de desejos de posse reflete uma inócua tentativa de conter a morte e resistir às novas demandas do organismo”; “Há magnatas que ao construir sua vida e sua fortuna interagem profundamente com o mundo e muito possuem. Há pobres que se protegem do risco e do esforço e pouco possuem. Há magnatas que nada ou pouco levarão deste mundo, e despojados com invejáveis bagagens de posse e que deste mundo muito levarão”.
Vale a pena ler o texto do Nilton Bonder. Que em seus livros aponta para a dinâmica das pausas em nossas existências. Pausas que, nas crises, favorecem a recuperação do sentido da caminhada, onde a realidade da Verdade beija a do Amor. A ratificar Leonardo Boff, outro arretado do espaço religioso: “O sub-aproveitamento do potencial da vida humana é a mais terrível das experiências humanas, o desperdício de vida constitui a pior miséria humana”.