sábado, 30 de dezembro de 2006

Vida Universitária

Num seminário realizado numa universidade do centro-oeste, um dos temas, Vida Universitária, coube a este norte-riograndense, pernambucanizado na Assembléia Legislativa e recifensizado na Câmara de Vereadores. O tema poderia ser desenvolvido sob dois prismas. O primeiro, apologético, agradante, massageador, triunfalista. O segundo, essencialmente crítico, buscando contribuir para a melhoria de comportamentos discentes, docentes, administrativos e organizacionais, evitando-se a tão conhecida obsolescência institucional, que mumifica, atrofia a criatividade, acelera o esclerosamento do saber e enseja o Phdeísmo, aquela virose que intoxica o diplomado, deixando-o com um ar de soberba absoluta, “um valor antidemocrático por excelência”, na expressão utilizada por Fernando Savater, filósofo espanhol contemporâneo, num dos seus últimos textos, Os Sete Pecados Capitais.
Com um bocado de quilômetros rodados por vocação na área das Ciências da Administração, enumerei algumas das atuais dificuldades enfrentadas por um Coordenador de Curso, ou Diretor de Centro/Faculdade. Umas relacionadas com a instituição de ensino, outras inerentes aos próprios acadêmicos. Outras tantas ligadas ao engessamento curricular.
A primeira delas diz respeito a sacrificados professores temporários, alguns deles com dez, doze anos de provisoriedade, à espera de concurso que o torne integrado de mesmo à vida acadêmica.
A segunda dificuldade é a precariedade das bibliotecas, que impossibilitam aos interessados um acesso rápido ao que existe de mais atualizado. A não-atualização dos acervos bibliotecários vitima a criticidade, favorecendo uma cultura de fingimento, traduzida num volume crescente de informações internética sem a devida mastigação transformadora, tornando-as conhecimento.
Uma terceira dificuldade procede do corpo discente. E a culpa não é totalmente deles. O ensardinhamento das salas de aula é um dos fatores desestimulantes. Salas com 60, 70, 80, 100 alunos, por mais que sejam utilizadas modernas técnicas de comunicação, não favorecem uma integração docente/discente compatível com as exigências de um mundo que necessita ser desindividualista, mais parceria e menos competitividade, mais construção conjunta que samba de uma nota só. Salvo honrosas exceções, raras as instituições que possuem consistentes programações culturais não-embromatórias, tampouco segurança efetiva que proporcione comparecimentos sem as agonias de um final de noite de alta periculosidade.
Além disso, os ciclos básicos estão servindo de meras casas de passagem, sem precupações maiores com a integração discente/universidade. Para não falar das desatenções para com jovens de 16/17/18 anos, quase crianças, muitos advindos de escolas que apenas ensinam como ultrapassar as barreiras do vestibular, para não falar, aqui, das excepcionalmente inteligentes, que anseiam por algo mais denso que o apreendido pela grande maioria nos anos anteriores.
Em relação a cotas, aplaudo a iniciativa da Universidade de Pernambuco, em destinar um percentual das suas vagas para alunos da escola pública, sejam eles de qualquer etnia. Uma iniciativa concreta de favorecer a pressão sobre a melhoria gradativa da escola pública do ensino fundamental.
No mais, compete às entidades supervisoras exercerem funções emuladoras, endurecendo quando necessário, ainda que sem perder a ternura jamais. Sempre diferenciando conceitos vivos de conceitos mortos, Reis buscando segredos dos sapateiros e sapateiros infelizes porque não conseguem ser Reis.A dinamização da vida acadêmica de uma instituição, excluídas as metidas a de nível superior, requer uma tesão acadêmica permanente, professores, alunos, dirigentes e funcionários. Sem a “celebração permanente da mediocridade”, um ritual de muito agrado dos fingidos e amacacados.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Um Olhar sobre a Cidade

UM OLHAR SOBRE A CIDADE (*)
Dom Hélder Câmara

Meus queridos amigos:
Neste fim de ano, quando somos tentados a um balanço nos 360 dias que Deus colocou em nossas mãos, perdoem, mas me lembro da Oração do Palhaço. Escutem a oração e, depois, direi que ligações, aparentemente absurdas, tem esta prece com a nossa vida...
Diz o Palhaço, o Comediante:
Senhor! A maquilagem espessa recobre o meu rosto
Nem mesmo eu consigo reconhecer-me
Durmo durante o dia e pálido desperto
Para tornar-me outro durante o calor do espetáculo.

Mudando a condição e escondendo a idade
Devo representar papéis tristes ou alegres.
Fazem rir os trejeitos do meu rosto triste
Não é para mim que rolam muitas lágrimas.

Representei comédias ... Vivi dramas ...
O que resta de mim não o sei muito bem
Só Vós, Senhor,
podereis conhecer minha alma
e todos os corpos que tomei de empréstimo.

Pode parecer quase ofensivo que eu me lembre de nós todos lendo, ouvindo, meditando esta oração do Palhaço.
Mas quem é na vida, por mais amor que tenha à verdade, por mais sede que tenha de autenticidade, que não se veja obrigado, diante da sociedade, tão pouco sincera, a usar, de vez em quando, máscaras ou, pelo menos, meias-máscaras ?! ...
Feliz de quem encontra algum amigo verdadeiro e algum canto de paz, onde a gente possa tirar tudo que é máscara e ser a gente mesmo... Sem sofisticação. Sem enganos. Sem medo de ser mal entendido ou mal interpretado!...
Ah meus Amigos, como a vida poderia ser incomparavelmente mais simples! O terrível é que cada um de nós fica esperando que os outros se consertem, emendem de vida, melhorem...
E se nós começássemos o Ano Novo com a decisão de não complicar desnecessariamente a vida? ...
Prece também muito oportuna, como preparação de Ano Novo, é esta que atribuem ao Almirante Hart:
Daí-nos forças, Senhor
para aceitar com serenidade
tudo o que não pode e não deve ser mudado
Daí-nos coragem
para mudar ou tentar mudar
o que pode e deve ser mudado
E daí-nos sabedoria para distinguir
o que pode e o que não pode
o que deve e o que não deve
sofrer mudanças!
Sábado, 28.12.1974

(*) Extraído do Boletim O DOM, Informativo do Instituto Dom Hélder Câmara, Ano 3, n° 17, dezembro de 2006.

ESCLARECIMENTOS:
O nosso muito amado Dom Hélder Câmara, então Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife, evangelizava diariamente, através de um programa radiofônico por ele chamado de Um Olhar Sobre a Cidade. O acima escrito é cópia fiel da reflexão do Dom num final de ano, há 32 anos!!
Desejando um Feliz 2007 para todos, homenageio um pastor que muito amei na face da Terra, dele recebendo lições inesquecíveis de Justiça e Paz!!
Quem desejar abeberar-se mais das reflexões de Dom Hélder Câmara, pode acessar o endereço
www.domhelder.com.br, reproduzido em português, inglês, alemão, italiano, espanhol e francês. E quem apreciar música clássica poderá ainda fazer download da Sinfonia dos Dois Mundos.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Reflexões Cidadãs

Qual deveria ser o papel primordial de um cidadanizador, aquele que deseja um mundo mais dignificante, a conflitividade ensejando ultrapassagens periódicas, as posturas desumanizadoras sendo abominadas por gregos e troianos? A tarefa de repassar reflexões e iniciativas que elevem a compostura da Humanidade pode ser uma resposta. Através de variados procedimentos, qualquer um pode contribuir para o aprimoramento civilizatório. Imaginemos alguns:
- "Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de auto-destruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas". (Celso Furtado ).
- "A velha divisão de direita e esquerda acabou se assemelhando mais a duas seitas puritanas, uma lamentosamente conservadora, a outra posando de revolucionária mas usando a lamentação acadêmica como maneira de fugir ao comprometimento no mundo real". (Robert Hughes, crítico de artes australiano)
- "A filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo sempre suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder". (Harold Bloom)
- "As pessoas querem respostas imediatas para as suas aflições . É por isso que as seitas estão crescendo enquanto as religiões tradicionais estão perdendo fiéis. O fenômeno de crer num líder capaz de nos ensinar a remover os obstáculos para os nossos objetivos pessoais não é novo, mas se reforça nos momentos de crise". (Esdras Guerreiro, USP)
- “No Brasil de hoje há poucos homens de esquerda, porém muitos esquerdeiros. Estes vivem da gesticulação revolucionária e de ficções verbais”. (Guerreiros Ramos)
Poderíamos obter, por exemplo, os Dez Mandamentos de um desenvolvimento econômico irmão siamês de um desenvolvimento social:
1. Participamos de um único cosmo, cada um sendo reflexo dele, nele também refletindo esperanças, conquistas e humilhações;
2. Os acidentes da vida obrigam os seres humanos a adotar costumes que os levam a esquecer a parte imortal deles próprios;
3. Quem diz "eu prometo", sem ter base para cumprir a promessa, é um mentiroso;
4. Se aprendemos o que significa viver com livros, somos forçados a torná-los parte da nossa vida;
5. Política significa o governo do ser humano e isso só pode ser feito em posições de poder legítimo;
6. Se a democracia não pode tolerar a presença de altos padrões de aprendizagem, então a própria democracia se torna questionável;
7. Cultura não deve ser usada para superar preocupações instintivas com o país, colocando em seu lugar uma lealdade falsa e alimentando uma perigosa falta de sensibilidade para com a política real;
8. Quem só possuir visão "econômica" não poderá, de forma consistente, acreditar na dignidade do ser humano ou no status especial da arte e da ciência;
9. Quando a luz dos grandes textos estiver para sempre obscurecida pelas chamas ardentes da interpretação fantasiosa, nossa janela para o mundo estará irremediavelmente fechada;
10. Todos os talentos não passam de recursos para a felicidade de todos.
A melhor forma de treinar é jogar. Nariz empinado, peito erguido e uma vontade gota-serena de atravessar o Rubicão. Descobrindo novas crenças, complementando-se uns com os outros, assumindo um fazer com gosto, apesar das pedras e cotoveladas. Sempre seguindo adiante, repetindo alto e bom som a frase preferida daquela solteirona, inaugurada na adolescência e de motor muitas vezes reajustado: "Eu sou um continente. Vibro com todas as coisas".
PS. Um 2007 mais solidário com a Cidadania Brasileira, meus sinceros votos.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Para Não Entornar o Caldo

Vez por outra, ultimamente com mais freqüência, tenho ouvido um ditado muito antigo, ainda dotado de notável contemporaneidade: “em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Os últimos níveis de desemprego, o exército dos que ainda não conseguiram a primeira colocação na vida e a imensa maioria dos nunca incluídos no mercado de trabalho, desencantam meio mundo e muito envergonham os cidadanizados.
Não me canso de repetir, talvez até quixotescamente: “quem semeia ventos colhe tempestades”. Torna-se necessário desanestesiar o quanto antes a sociedade civil brasileira, ultimamente enebriada com um plano de estabilidade que deveria ser entendido como ponto de partida, jamais de chegada, essencialmente meio para se atingir um nível de maior dignidade para todos os segmentos sociais brasileiros, mormente os menos favorecidos.
Denuncia-se a ausência de uma finalidade humana nas políticas de planejamento que perambulam, vez por outra, pelos noticiários jornalísticos e televisivos, somente fala, jamais ação concreta. Todo o Brasil está a reclamar, pelos seus segmentos mais conscientes, por propostas e alternativas viáveis. E os do Nordeste, cansados de remendos e trapalhadas, clamam por um programa de desenvolvimento de bom calibre, que efetivamente faça integrar o todo regional no todo maior, brasileiro.
Todo consenso desprepara para opções e os conflitos são equacionados por um toma-lá-dá-cá descaradamente espúrio, explícito mais que bunda de índio ainda não-civilizado. Castra a criatividade cívica, aniquila a mais autêntica das solidariedades, a que faz recuperar cegos, coxos e paralíticos, reduzindo tudo a esmolismos grotescos, praticados com vistas lançadas para os resultados das urnas, em outubro próximo.
O educador Paulo Freire, um pernambucano de reconhecida notoriedade no seu campo profissional, costuma dizer que todo oprimido nutre um profundo desprezo por ele próprio, posto que emocionalmente é um dependente, satisfazendo-se com qualquer mil-réis, um ôi-querido ou um telegrama-padrão, desses que são passados pelos sabidos às vésperas de mais um aniversário dos lesos.
Tenho colecionado algumas frases, ditas por beatos e santonas que semanalmente estão nos templos sagrados, olhos farisaicamente marejados diante das advertências evangélicas: “O mundo sempre teve pobre”... “Dos pobres Deus sabe cuidar”... “Quem nasce pra capim, nunca vai chegar a rosa” ... “É dando que se recebe é coisa para maricões”... “Cada um tem a sua história”... “Ninguém muda o que está traçado”. E por aí vai, com armas e bagagens de forte conteúdo asinário.
Eu com meus botões, fico às vezes a imaginar como seríamos hoje, se não possuíssemos uma imensa capacidade de curtir Carnaval, São João, São Pedro, Dia dos Namorados, Pais, Mães, Sogra, pra não falar dos finais de semana praieiros, forrozeiros e roqueiros, repletos de muito seio, suor e cerveja...

Nascimento do Menino

De repente, num dia qualquer de um final de dezembro, completou-se o tempo da parição. O casebre era rústico, de taipa e chão de barro batido. No apertado quintal, duas árvores e um pedaço de jornal velho que noticiava estrondoso baile de carnaval, gastos alibabásticos, desbunde total, os vários sexos em desvairamentos faraônicos, tudo em prol das criancinhas de rua da cidade.
A dor apertando mais. Calor brabo, três da tarde, um domingo. Ao lado do magro colchão de palha estendido no chão do único dormitório, a Elisabete, prima também descendente de Aarão, aguardava o instante maior. Possuía tanta bondade que o seu filho João iria anunciar a Boa Nova, de há muito já profetizada por uns santos homens já falecidos, que pregavam a libertação de todos. Com Maria – a prima parturiente – e os demais familiares, acreditava que um dia os famintos seriam cumulados de bens e os maus ricos despedidos de mãos vazias. Lembrando-se do Papa Paulo VI – “Não é lícito aumentar a riqueza dos ricos e o poder dos fortes, confirmando a miséria dos pobres e tornando maior a escravidão dos oprimidos” – orgulhava-se de pertencer a uma associação de moradores, num bairro de classe operária.
Elisabete também sabia que só blá-blá-blá não resolveria problema algum, a solução sempre advindo da organização e da união de todos para a concretização dos sonhos acalentados. Segundo ela, sonhando muitos estavam, embora ficassem restritos aos sonhos, não aceitando críticas, partindo para o desaforamento como se moleques de rua fossem, sem a serenidade das lideranças consolidadas.
A parteira chegara. Os panos e as toalhas, fervidos em caldeirão sobre carvão, a postos. As contrações ampliadas, embora a felicidade muito atenuasse as dores sentidas. Em minutos, Emmanuel exteriorizou-se rapidamente, sendo envolvido em faixas e deitado numas palhas doadas pelos da redondeza, solidariedade presente e sempre atenta aos gritos de fome e de angústia dos desempregados, das prostitutas que terão prioridade de ingresso na Festa de Encerramento e dos chacinados por uma violência desenfreada, efeito maior de uma injustiça cinicamente mantida pelos que controlam um sistema financeiro instalado na contra-mão da História.
Sadio, Emmanuel chegara. Foi circuncidado no oitavo dia e apresentado ao Chefão de Tudo, conforme recomendava uma cartilha muito lida: “Todo macho que abre o útero será consagrado ao Senhor”. E dos muitos testemunhos, o de Simeão, um velho estivador aposentado por invalidez, foi o que calou mais fundo: “Esse Menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos”.
A aparência luminosa do garoto contagiava. O Maurício Primaz, o Sebastião Bispo, o Jubal Ternura Grandona, a Rosemary Ministra, a Valéria com dissertação aprovada, o Pierre Maestro, o Campozana Portuga, o Gustavo Saet e a Ana, o Aldenor e a Dany, o Joelson Tesoureiro, o Filadelfo e a Dulcy, o Senomar Legis e a Gabriela Futura Mamãe, o Sérgio Catedral, o Guaraná Jamais Coca, o Peixoto Capelão Tiradentes e um bocado de gente amada vibraram com a chegada do Filho da Maria. E prometiam ser d’Ele companheiros de Vida, para a difusão de um amor sem preconceitos, sem opressores, sem ódio e sem medo, onde ninguém fosse menos que ninguém, sem consumismos desenfreados, num agir corajoso e viril, fruto indispensável de uma evangelização essencialmente libertadora.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Hora de Reinventar-se

Nestes tempos de pós-modernidade, deixamos de lado os valores da FÉ e da RAZÃO, disputando nacos, olvidando a advertência do querido Dom Hélder Câmara, sempre amado arcebispo emérito de Olinda e Recife: "O Cristianismo que difundimos no Continente, atribuindo tudo a Deus e quase não apelando para a iniciativa e a responsabilidade do homem chamado, pelo Criador, a dominar a natureza, a completar a Criação, a conduzir a História, alimentou nas Massas latino-americanas um sentimento passivo, fatalista e mágico".
Está na hora de as Igrejas Cristãs, sem firulas nem fricotes, perseguirem uma auto-avaliação corajosa, descobrindo seus próprios pontos fracos, suas comunicações deficientes, oferecendo um serviço religioso que contemple as aspirações espirituais da nossa gente, num servir capaz de exprimir louvores, contemplações e adorações autenticadas pela palavra do Senhor da História, convencendo todos sem enganações nem baboseiras.
Aplaudo firmemente a indagação feita por Lucas 14,28: “Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la?” O que talvez o apóstolo não avaliou na devida conta, os tempos eram bem outros, foi o agigantamento da cobiça na construção dessas torres, hoje também transmissoras, multiplicadoras de muitos milhões de dólares, advindos de idiotizados e desesperançados, que imaginam soluções mágicas para velhos e cruciantes problemas, solucionáveis todos, se percebermos melhor e mais eficazmente a Mensagem do Homão de Nazaré.
Juntemos sadias mentes cristãs, antes que seja tarde demais. Para conquistar os jovens, receber os descaminhados, compreendendo que o amanhã já chegado será muitíssimo diferenciado de um hoje que já se está indo embora em desabalada carreira. A palavra testemunhal ainda é do pe. Yves Congar, um dos teólogos que mais fizeram para restabelecer o diálogo entre as Igrejas e o mundo contemporâneo: “Diz-se que a Igreja não interessa mais a ninguém, que a maioria dos homens deixou de esperar dela algo que tenha o peso do real. Isso não é exato. Uma decepção dá a medida de uma esperança, um despeito a medida de um amor. Se não se esperasse mais nada da Igreja, não se falaria tanto dela...
Uma crise torna-se saudável quando muitos não se contentam em ser apenas uma crítica aos outros, mas quando se torna, muito oportunamente, um julgamento de si mesma. E isso somente advirá com mais capacitação, terra e saúde, melhor distribuição de renda e mais participação, no Brasil, dos severinos de maria, homenageados em Vida e Morte Severina, do pernambucaníssimo poeta João Cabral de Mello Neto.

Para Lideranças Tímidas

Outro dia, num livro de um diácono permanente - Técnicas de Planejamento Pastoral, Gianfranco Orfano, Vozes, 2004 – deparei-me com uma historieta bastante oportuna, de grande valia para os que, ainda imaginando que hábito faz o monge, gostariam de ampliar sua capacidade de liderar pessoas ou instituições.
A historieta é mais ou menos a seguinte:
Um homem se encontrava perdido no deserto, morrendo de sede. Quase se arrastando chegou a uma cabana velha abandonada. Nos fundos da construção, um bomba toda enferrujada. Com ajuda da manivela, bombeou-a sem parar, nada acontecendo. Todo desapontado, notou uma garrafa situada no canto esquerdo da peça. Nela, um bilhete: “Você precisa primeiro preparar a bomba, derramando sobre o bocal o conteúdo desta garrafa. Depois faça o favor de enchê-la antes de partir, para favorecer o próximo viajante.”
O sedento se viu num dilema atroz: beberia a água da garrafa para sobreviver ou despejaria seu conteúdo na bomba? E se a bomba não funcionasse?
Meio desconfiando, despejou todo o conteúdo da garrafa no gargalo da bomba e começou a bombear. Chiando sem fim, a bomba expeliu um fiozinho d’água, instantes depois jorrando água cristalina em grandes quantidades.
Ao sair, o homem deixou um acréscimo no bilhete: “Creia-me, funciona. Você precisa despejar a água toda antes de poder obtê-la de volta”.
A lição que fica: planejar é ter coragem de aceitar desafios!
Todo líder de mesmo, que tem a consciência plena das suas responsabilidades, desenvolve suas atividades profissionais sob três questões dialeticamente desafiadoras: o que quer alcançar, a que distância se encontra aquilo que se quer alcançar e o que fazer concretamente (em tal prazo) para diminuir progressivamente essa distância.
De uma coisa os líderes devem sempre levar na mais alta consideração: as ações apenas eficientes em nada contribuirão para a transformação das estruturas. As ações necessitam ser eficazes, efetivamente transformadoras. Nunca deixando de sobressair dois primorosos mandamentos gerenciais: 1. Quanto menos recursos existentes, mais as ações necessitam ser planejadas; 2. Os autoritários, os “donos da verdade” e os acomodados não querem nem saber de planejamento.
Tem líder que detesta a conflitividade, buscando sempre a prática da cooptação, imaginando que todo mundo tem preço. Não percebe, porque se imagina acima do bem e do mal, que conflito não é algo sempre negativo, não percebendo que ele somente será negativo quando não se sabe lidar com ele. E não percebe que, em inúmeros casos, os conflitos atuam como sintomas da necessidade de urgentes mudanças e reconversões.
Um dia, anos passados, um economista escreveu: Para inúmeros, que seja melhorado o bom, descobrindo-se a essência das missões individuais e coletivas. Que a argila impulsione um caminhar de propósitos de passos largos, correndo-se o risco de fazer coisas inéditas, mesmo recapturadas de fatos passados, até ridicularizados. Amanhã, imaginar-se daqui a quinze anos será um exercício prazeroso para os amantes da Eternidade. A emergir sentimentos ainda ocultos, espiritualidades incompletas, choros contidos e texturas descoradas por desintegrações múltiplas. Rompida as barreiras, que se aborde com a serenidade que resta as razões mais recônditas dos propósitos fingidos. Reconhecendo que as verdadeiras urgências são cada vez mais raras, os erros de previsão avolumando-se na ordem do dia, as exceções desmarcadas porque finalmente dispensáveis.
Como seria salutar se os líderes de todos os naipes – civis, militares e religiosos – lessem refletidamente sobre o que, um dia, escreveu o muito notável Fernando Pessoa, o poeta lusitano hoje reconhecido mundialmente: “O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos, e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância extrema - o cargo que exerce, a posição social, a fortuna que tem....”
Todo líder deve discernir sobre tudo e todos, ficando sempre com o que é bom, tal e qual já nos advertia o lúcido Paulo de Tarso, o incansável bandeirante dos gentios. (1Ts 5,21)

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Desabafo

"Nossa maturidade nos conduz a um verdadeiro reconhecimento de nossa situação diante de Deus. Deus quer que saibamos que devemos viver como quem administra sua vida sem ele. O Deus que está conosco é aquele que deserta de nós. O Deus que nos permite viver no mundo sem a hipótese funcional de Deus, é aquele diante do qual permanecemos continuamente. Diante de Deus e com Deus, vivemos sem ele."
Este trecho de autoria de Dietrich Bonhoeffer abre o prefácio de John Shelby Spong, bispo episcopal anglicano de Newark por 24 anos, no seu livro UM NOVO CRISTIANISMO PARA UM MUNDO NOVO - A FÉ ALÉM DOS DOGMAS, Verus Editora, 2006.
A leitura do livro do bispo Spong seguramente esclarecerá mentes e aclarará os corações daqueles que desejam ser proprietários da Mensagem Cristã, utilizando-a como argumento para as mais descabidas discriminações e os mais abjetos propósitos, tal e qual fazem os déspotas de ontem e os contemporâneos. Os mesmos que, sob propósitos enviesados, amedrontam os de criticidade mais frágeis, os que ainda se encontram numa transitividade ingênua, expressão utilizada pelo Paulo Freire, um educador pernambucano de talento.
Inúmeros "pagam com o exílio sua lentidão de libertar-se de interesses obsoletos", desabafo de Christian Duquoc, frade dominicano e teólogo dos mais respeitados no exterior, autor do A TEOLOGIA DO EXÍLIO, recentemente lançado pela Editora Vozes.
Num tempo de incontestável degradação da prática cristã, vivemos as primeiras épocas de uma nova teologia da revelação, onde o respeito radical pelas diferenças deverá ser o balizador único de uma convialidade fraterna. Caso contrário, estaremos expondo pedaços de Cristo em múltiplas satisfações de subjetivismos matreiros, ignorando o brado paulino que jamais ignorou que "uma multidão só existe quando participa de algum modo de uma unidade".
Desculpem-me o desabafo de um final de noite, numa vigília de mãe com Alzheimer que principia seu caminho de volta ao Pai. Mas achei-o necessário, diante de centenas de e-mails recebidos, manifestações de pretensas lideranças que desejam impor pensamento único aos Filhos da Criação, autores que se imaginam herdeiros únicos do mapa do Caminho.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Bicudo, Rebeldia Cidadã

Uma energizante leitura, o Minhas Memórias, do dr. Hélio Bicudo, lançada pela Martins Fontes. Um texto que descortina horizontes, posto que é chegado o tempo de ouvir mais as pessoas. Sem os comportamentos dos que, sem criticidade, aplaudem tudo que vem do poder, agredindo o que se origina nas áreas contrárias.
Classifico o dr. Bicudo como um homem público que dignificou uma cidadania alicerçada ao longo de décadas de atividades conscientes e consistentes. Cidadania ampliada nos anos 70, diante do agigantamento dos poderes discricionários do Estado através do AI-5, favorecendo a emersão de assassinatos atribuídos a uma organização que se auto-denominava Esquadrão da Morte. E o livro traz nomes e sobrenomes.
Se me fosse possível, enviaria as memórias do dr. Hélio Bicudo para cada promotor brasileiro, para prefeitos e governadores, deputados federais e estaduais, senadores e vereadores, religiosos e seminaristas, professores e alunos, corporações policiais civis e militares, Ongs e sindicalistas. Com uma advertência na dedicatória: deixar de dar velhas respostas faz sempre cessar um desserviço extremamente nocivo. E um incentivo, utilizando a expressão consagrada da notável judia Hannah Arendt: toda banalização do mal exige um reavivamento comportamental embasado nos princípios fundamentais dos Direitos Humanos, cabendo às forças da sociedade civil exercerem pressões cidadãs, coibindo os abusos e as distorções. E ainda anexaria, a título de salutar alerta, um texto de Nelson Rodrigues, datado de março de 1969: “Estamos todos comprometidos. A imprensa, o rádio e a televisão, porque dão cobertura promocional às bestiais execuções. Nós é que cruzamos os braços. Os membros do Esquadrão da Morte são retocados, idealizados. Criou-se o mito selvagem e irresistível. Nem se pense que a matança seja impopular”.
A leitura de Minhas Memórias é concluída com um posfácio de Dom Paulo Evaristo Arns, uma das personalidades mais atuantes do clero brasileiro, sacerdote que honrou sua caminhada episcopal. Um desassombrado, que assim testemunhou sobre o dr. Hélio: “neste livro impressiona a sua declaração ‘a minha Igreja, a dos excluídos’ ... Para mim sempre chamou a atenção o seu total devotamento, sem se importar com os riscos, à causa de Deus entre os homens”.
A leitura do livro emociona os que possuem vergonha na cara e sonham com amanhãs brasileiros sem mensalões, sanguessugas, gaiatices midiáticas e protecionismos familiares. A sinceridade demonstrada pelo dr. Hélio Bicudo energiza: “Temo não exagerar quando afirmo que a administração Lula é um fracasso. ... Quando vejo a política social em prática, lembro-me dos coronéis que distribuíam botinas para os eleitores. ... Descobri que sonhar ficou impossível dentro do PT”.
Sua análise não defende os que não merecem: “Após a eleição do Lula, o PT foi se transformando em correia de transmissão da vontade do Executivo, o que denota seu esvaziamento como partido de natureza popular e socialista”. Uma verdade bem dita por quem não se utiliza de bajulações imbecilóides para agradar os que estão temporariamente no poder. Um posicionamento de quem, aos 84 anos, não se curva aos messias planaltinos, continuando a sonhar com uma Nação soberana e socialista, onde todos possam manifestar-se sem temor de espécie alguma. E vai além: “O que ocorreu no PT – com a expulsão, entre outros quadros, da senadora Heloísa Helena – é um mau exemplo. Que as punições do PT sirvam – à luz de princípios internacionais aceitos pelo Brasil – para uma reflexão sobre a importância da liberdade de pensamento e expressão no trato da coisa pública”.
Uma das pessoa mais propositivas que conheci, quando na Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, pastoral Hélder Câmara, foi o dr. Bicudo. Minhas Memórias impulsiona para novos amanhãs de luta, sem renegar a bravura daquele que dignificou o Ministério Público Brasileiro.

Quem planta, colhe

Chamado de Fleming, era um pobre fazendeiro escocês, de recursos financeiros espremidos, a feira semanal resultando num esforço danado para ajuntar uns trocados. Um dia, quando trabalhava para ganhar a vida e o sustento dos seus, o estropiado escocês escutou um desesperado pedido de socorro, vindo de um pântano situado nas proximidades dos seus hectares.
Largando de pronto suas ferramentas de lavorar, Fleming correu até o local do pedido de SOS. Lá chegando, testemunhou um menino atolado até a cintura, envolvido por uma lama negra movediça, atemorizado, tentando se safar da morte que o rondava. Por meio de uma corda, Fleming livrou o garoto de um terrível final vida.
No dia seguinte, uma carruagem de luxo, puxada por seis portentosos cavalos árabes, chega à precária habitação do fazendeiro. Aberta a porta pelo cocheiro, eis que fidalgo elegantemente vestido desce, se apresentando como o pai do garoto resgatado.
- Eu quero recompensá-lo pela sua bravura solidária, disse o nobre. Você salvou a vida do meu filho mais velho, o herdeiro maior dos meus bens.
- Não, eu não posso aceitar qualquer pagamento pelo que fiz, respondeu o mais que nobilíssimo fazendeiro, recusando a oferta.
Naquele momento, um dos filhos mais novos do fazendeiro chegou à porta do casebre, chamando a atenção do nobre visitante.
- É seu filho? perguntou o fidalgo.
O "sim" do fazendeiro foi pronunciado alto e bom som, orgulhosamente, com a certeza de ter sido contemplado com a mega-sena do Criador.
- Permita-me, então, meu amigo, que eu lhe faça uma proposta concreta. Deixe-me levar seu garoto para lhe oferecer uma educação de boa qualidade. Se o jovem possuir o seu caráter, ele se tornará um profissional de muito bom conceito, tornando-se um homem admirado, do qual você terá muito orgulho.
Consentimento dado, tempos depois eis que o filho do fazendeiro Fleming laureou-se no St. Mary's Hospital Medical School de Londres, tornando-se mais tarde conhecido no mundo como Sir Alexander Fleming, o descobridor da penicilina, a salvação de milhões de pessoas.
Anos depois, eis que outro filho do nobre adoece gravemente, vitimado por uma braba pneumonia. O quadro clínico, bastante sombrio, prenunciava um desagradável desenlace. Felizmente, para alegria imorredoura do ricaço, uma terapia à base de penicilina livrou o jovem da moléstia. A penicilina descoberta pelo cientista Alexander Fleming, o filho do fazendeiro escocês pobre.
O nome do nobre? Sir Randolph Churchill. O nome do filho dele? Sir Winston Churchill, um dos maiores fenômenos políticos de todos os tempos.
Alguém disse, certa feita, que a gente colhe o que a gente planta. Quem planta mesquinheza, colhe mesquinheza. E os que semeiam grandeza, colhem generosidades múltiplas.
Tenho uma forte admiração pelos que sabem como sobrepujar os narcisismos selvagens dos incapazes. E os que possuem criatividade mínima, posto que portadores de uma ímpar invulgaridade. E que desconhecem que é a jornada, jamais a chegada, que importa, devendo-se nela embarcar todos aqueles que, sabendo fazer a hora, nunca esperam acontecer. O propósito da vida é sobreviver para conquistar, evitar tensões desnecessárias, saber perder para ganhar posteriormente, sacudindo a poeira e dando a volta por cima, para desesperança daqueles que, de alma pequena, jamais chegarão à Pasárgada do pernambucaníssimo Manuel Bandeira.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Megabobajadas

Nada irrita mais meio mundo que conversa de abestado, aquele que se encontra integralmente desligado de tudo e de todos, como se o tempo tivesse estacionado, aguardando a integração dos que historicamente ficaram nos anteontens. Vez por outra deparo-me com um, de carro zerinho, relógio gota serena e celular dos mais tampas, olhar de desdém para com o resto da humanidade e frases pré-fabricadas, tiradas geralmente de um senso comum defasado que não bota ninguém pra frente.
Dias atrás, numa capital nordestina, praieira por excelência e bem dotada turisticamente, “enfrentei” duas horas de convivência com um “homus bobus” sulista, travestido de entendido em fatos e feitos da conjuntura contemporânea, “especializado” em coisa nenhuma e despreocupado com as regras gramaticais e as estruturas lógico-formais da epistemologia para principiantes.
Racista, embora nitidamente não-branco, confessava sua irritação com todos aqueles que defendiam os menos favorecidos, estes considerados farinha de mesmo saco. Explicitamente eqüino nas Ciências Humanas, acreditava que a pena de morte seria a melhor das soluções para os atuais índices de criminalidade, não admitindo tampouco a ação do Estado na proteção e fomento dos despossuídos. E ainda considerava que o objetivo último do bem viver estava intrinsecamente vinculado a três fatores: mulher, dinheiro e poder, o lazer sendo melhor usufruído por quem bem conciliasse o “trinômio” acima.
Indagado sobre as leituras feitas nos últimos três anos, esboçou um sorriso debochoso, quase me deixando convencido da existência de um pedaço da humanidade que não teria seguido à risca os parâmetros evolucionais do Darwin. E perguntou, de supetão, se valia a pena ler, quando outros meios de comunicação estavam à disposição de qualquer um.
Devidamente adentrado nos anos trinta, corpo bronzeado e olhos bem negros, confessou malhar duas horas por dia, caminhar oito quilômetros e cumprir sesta de duas horas todas as tardes, religiosamente, embora não acreditasse em nada relacionado com o além-vida, ainda que, no pulso esquerdo, exibisse duas fitinhas amarelas que pareciam bem amarradas, embora quase apodrecidas.
Ao lhe dizer o que eu fazia, ensino e pesquisa, espantou-se sem relinchar: “Como você agüenta ser isso?” E olhou-me como se eu fosse uma espécie raríssima, certamente um “homo-imbecilis”, desses que perdem muito tempo com um monte de besteiras: vocação docente, cultura, trabalhabilidade, democracia, dignidade, desenvolvimento de todos, direitos humanos e cenários futuros.
No abraço final, respeitosamente me aconselhou: “Tás ainda ágil, amigo. Sai dessa e entra numa boa, numa que dê muito ibope, tutu e mulher, que é o que hoje vale. O resto é cascata pura, cada um devendo procurar o melhor para si, sem se preocupar em dar colher de chá pros outros”. Almocei logo depois com um amigo de infância ainda sentindo a sensação de ter encontrado uma espécie não-rara do atual cenário brasileiro. Que será amplíssima maioria, caso as autoridades responsáveis pelos nossos destinos, juntamente como os demais segmentos comunitários, não binoculizarem estratégias compatíveis com as metas de um desenvolvimento econômico-social que privilegie um saber-fazer lastreado numa responsabilidade jamais individualista, conservadas as peculiaridades individuais de cada um.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Um Nordestino do Mundo

Um não-acomodado cutucador de consciências, eis uma definição completa para Dom Hélder Câmara, que soube ser pastor-irmão na Arquidiocese de Olinda e Recife, nunca se distanciando da definição proclamada pelo papa João Paulo II, na Ilha Joana Bezerra, no Recife: irmão dos pobres.
Radicalmente ecumênico, participou do Concílio Vaticano II oferecendo notáveis exemplos de dedicação desassombrada, hoje refletidos nas cartas enviadas de Roma, recentemente tornadas públicas, em edição primorosa o seu volume primeiro. No Concílio, o Dom sonhou com uma Comunhão Cristã onde as denominações se veriam como parcelas, percebendo-se sempre em reforma, a binoculizar futuros, atraindo jovens talentos para o enfrentamento dos individualismos pernósticos, dos autoritarismos disfarçados, dos assistencialismos populistas e dos afoitismos desnecessários porque ainda não de todo convincentes.
O ponto mais consistente do viver de Dom Hélder consistia na sua intensa solidariedade para com os desassistidos do mundo. E o testemunho da Irmã Agostinha, uma das suas admiradoras, é suficiente: “Como poucas pessoas no mundo, Dom Hélder acreditava na força dos pequenos. Na força da união dos pequenos, que há de transformar o mundo, transformando a esperança redentora em realidade de justiça
Suas meditações escritas retratam sua preocupação com os amanhãs mundiais: “As árvores que jamais perdem o viço, que são perenemente verdes, olham, com uma ponta de inveja, as árvores que se desnudam de folhas e lembram esqueletos ... Quando a primavera irrompe, só quem foi despojado vibra com o milagre da ressurreição.”... “Das barreiras a romper a que mais custa e a que mais importa é, sem dúvida, a da mediocridade.” ... “Quando sentires o primeiro sinal inconfundível de morte próxima, não te fies em ti ... Agarra-te com a Graça. Aviva a crença na vida eterna. Não peças um segundo a mais. Fecha os olhos e pula no abismo de misericórdia da compreensão divina.”
Suas múltiplas utopias evangelizadoras, todas elas vivenciadas sob as pegadas do Homão de Nazaré, continuam sendo incorporadas ao ideário existencial de milhões, inclusive não-cristãos. Como helderistas, nunca helderetes, os pobres saberão divulgar efetivamente as suas mensagens, para uma inserção consciente de todos nos planos de Deus. Para erradicar, através da radicalidade dos consequentes, os sinais visíveis de um novo barbarismo, produto primeiro das estupidificantes ampliações econômico-sociais e financeiras entre os que têm e os que nada possuem.
Os conscientes do mundo saberão transmitir aos mais jovens, os versinhos imorredouros do muito amado Dom Hélder Câmara, o Peregrino da Utopia:
"Que importa que ao chegar eu nem pareça pássaro.
Que importa que ao chegar eu venha me arrebentando,
Caindo aos pedaços,
Sem aprumo e sem beleza.
Fundamental é cumprir a missão
E cumpri-la até o fim
".

Para bom entendedor

Numa cidade interiorana de pequeno porte, um circo de dimensões acanhadas debatia-se com uma receita cada vez mais diminuta. O mote para vender os duzentos e poucos ingressos de cada sessão tinha se exilado de muito, desacreditando a companhia e tornando difícil de pagar a conta da pensão de Dona Lu, uma viúva distinta que tinha alugado doze dos seus quinze quartos para o pessoal circense.
As dificuldades pareciam eliminadas, quando se anunciou a estréia de um jovem trapezista de apenas dezesseis anos, corpo e cara de menino, jeitão de quem ainda não tinha qualquer intimidade com o ritmo adão-em-eva. E a faixa estendida entre dois postes da calçada da Matriz era prenúncio da mais pura adrenalina: “Triplo salto mortal!!. Sem rede de proteção!! Desafio de Cabra Macho!!! Não percam!! Pode ser o nosso último espetáculo!!”.
Além disso, para ampliar a ansiedade da pacata comunidade, um megafone fora instalado nos costados de um jegue alugado por dois ingressos, um para o dono do jegue e outro para a “mínima” que andava com ele pra tudo quanto era lugar. Uma gasguita ainda sem os apetrechos, metida a locutora de comercial, que berrava os dizeres contidos na faixa, vez em quando tomando água num caneco “artesanalizado” a partir de uma lata de azeite.
O Rafael Gonzales, nome artístico do Nando da Silva, carregava poucos anos de ensinamentos transmitidos por um velho acrobata, bom de trapézio até alguns anos passados, quando um tiro de marido pouco amado deixara-o sem a musculatura rígida de uma das coxas. Paciente, soubera transmitir os segredos do salto triplo mortal ao Rafa, ele que se especializara como ninguém em pular de galho em galho, incontável a sua galeria de bem “contemplados”.
No sábado anunciado pela faixa da Matriz e pela gasguita do jumento, os ingressos logo se esgotaram, os últimos sendo adquiridos num puxa-encolhe dos diabos, valendo até amolegada para tirar senhoras mais pudicas da fila de compra.
Apresentado pelo Daniel, mestre-de-cerimônia também sócio-fundador da companhia, o Rafael caminhou até a escada de corda sob o rufar de um tambor meio avariado. Antes de principiar a subir, ouviu a voz sussurrante do seu instrutor:
- Está com algum tipo de medo? Algo até hoje eu ainda não lhe tinha dito. Lá em cima, em qualquer circunstância, aja com o coração, pois ter coragem é saber agir com o coração. Lembre-se sempre que, ao saltar, lançando seu coração sobre a barra do trapézio, você estará se lançando sobre aquilo em que acredita. O mundo pertence a quem põe o coração em tudo que é feito, seja qual for o tamanho do efetivado.
O circo demorou-se na cidade por um bom tempo, com seus duzentos e poucos lugares integralmente vendidos nos finais de semana. O arrecadado deu até para adquirir uma outra carrocinha de fazer cachorro-quente e um novo conjunto de cordas para o trapézio do Rafael, agora tornado estrela maior, muito embora continuasse simples como sempre foi.
Dona Lu, contente que só, ia aplaudir, todo final de semana, as evoluções do rapazote, sempre acreditando piamente numa frase de Voltaire, lida num pé de página de uma revista de palavras cruzadas: “O trabalho afasta de nós três grande males: o tédio, o vício e a necessidade”. Trabalhar o futuro com as ferramentas do presente e com o coração, eis a receita. O resto é ficar chorando sobre o leite derramado.