quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Unicoisas e coisas boas

Há certos neologismos que são por demais oportunos, criados para incorporação breve aos dicionários mais especializados. Unicoisa é um deles, explicitado por uma mulher de rara inteligência, especializada em Filosofia Política, com pós-doutoramento na Universidade de Genebra.
Para a filósofa Maria Constança Pisarra, por unicoisa se caracteriza um tipo de instituição fingidamente de nível superior, que se esmera na concessão de diplomas de pouca valia, desfavorecendo imagens profissionais, ampliando frustrações, desconstruindo motivações e gerando múltiplas ações predatórias, físicas e jurídicas, públicas e empresariais.
As unicoisas iludem alunos e familiares com modernosidades as mais seduroras, olvidando-se por completo de oferecer um ambiente acadêmico moderno consistentemente emulador, compatível com os desafios de um contexto histórico celeremente evolucionário em todos os segmentos societários.
As unicoisas não privilegiam ampliação dos acervos bibliográficos, menosprezam desburocratizações, desestimulam a criticidade construtiva dos mais lúcidos, esmagam as potencialidades intelectivas dos mais atilados e favorecem o desenvolvimento de uma cultura de fingimento lastreda numa insípida relação professor-aluno, onde o primeiro finge que ensina e o segundo se imagina instruído, embora jamais educado.
Considero um crime de lesa-pátria a tolerância demonstrada nos últimos anos para com autorizações de cursos superiores possuidores de um exame de seleção de faz-de-conta, onde até alguns candidatos relacionados como aprovados sequer comparecem aos dias de prova.
A correção das atuais deficiências do ensino superior somente se concretizará quando alguns sinais emergirem nos horizontes do terceiro grau: pressão comunitária, fiscalização dos conselhos profissionais, atuação mais efetiva do Ministério Público e uma ampla auditagem delegada pelo Ministério da Educação aos colegiados estaduais responsáveis para coibição dos abusos praticados.
Entretanto, no ensino superior nem tudo está se degenerando. Há inúmeras iniciativas louváveis, ainda que minoritárias e incipientes. As mais promissoras: estímulo às reestruturações das representações acadêmicas, favorecendo uma maior cidadanização discente através de amplos debates sobre temas contemporâneos. Meio ambiente, ética profissional, compromisso comunitário, prestação de serviços voluntários, alfabetização de adultos, hortas comunitárias, associação de moradores, partidos políticos, candidaturas fichas-limpas, latinoamericanidade, fé e ciência, cooperativismo, entre tantos outros motes, seguramente principiarão a desindividualizar aqueles intoxicados por individualismos pernósticos e outros isolacionismos mórbidos, alguns respaldados em ontens e sobrenomes que nada mais estão a significar.
Em algumas institições superiores, um micro-questionário é preenchido por ocasião das matrículas. O exemplar que me chegou às mãos tinha apenas cinco questões: 1. Que temas você gostaria de coletivamente debater, no seu curso superior, para ampliar sua profissionalidade futura? 2. Que iniciativas você sugeriria ao seu Diretório Acadêmico ao longo do ano de 2010, fortalecendo uma maior integração entre corpos docente e discente? 3. Que textos você gostaria de ver disponibilizados na Biblioteca, incrementando sua indispensável complementação cultural? 4. Que sugestões você daria para uma avaliação discente isenta da falcatrua dos trabalhos remunerados elaborados por terceiros, que apenas privilegiam os financeiramente mais taludos? 5. Que duas questões você sugeriria na elaboração do questionário do próximo semestre?
Com o sistema de cotas, por etnia ou por escola pública, urge uma necessidade de agigantar as atenções para estratégias integracionais interclasses e intraclasses, desfavorecendo a formação de guetos, sempre discriminaórios, sementes primeiras de distorções comportamentais amesquinhadoras as mais diferenciadas.
No ensino superior, vale a pena ser um pouco mais criativo. Democrático sempre, populista nunca. O mérito sendo visto como alavancador, jamais promovendo rejeições espúrias de quem quer que seja.
(Publicada, em 07.01.2010, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Cuecalogia

Uma nova área de estudos parece despertar as atenções nas universidades do mundo, inclusive no Brasil. A Cuecalogia, ramo científico que trata do uso da cueca para fins que transcendem o seu objetivo clássico, que é o de ser utilizada para encobrir os trecos reprodutores e a saída dos dejetos sólidos dos olhares fuxicosos e cupidinosos de traseuntes afoitos e curiosos.
Inicialmente, a Cuecologia destinava-se ao estudo anatômico de uma indumentária usada para esconder e proteger os teréns dos seres humanos masculinos. Denominada de cuequinha quando destinada ao uso das mulheres, que encobriam ou buscavam tornar mais sensuais seus triângulos das bermudas.
Nos últimos tempos, entretanto, algumas utilizações não-tradicionais da cueca propiciaram a busca por significações e utilizações pós-modernas da tão consagrada peça íntima, que tem origem no latim vulgar culu, que também deu origem a vários termos, inclusive culote, que nada tem a ver com o setor anatômico em destaque.
Três fatos recentes motivaram o aparecimento da nova ciência: os salafrários que portavam na cueca vultosas quantidades de dólares, remetidas por parlamentares para cabos eleitorais em vários estados brasileiros; o flagrante dado, pela PM de São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, no pintor Rafael Machado, que portava 37 pedras de crack em pote dentro da cueca, incomodando até sua própria bunda que era avessa ao vício; e a prisão do rico e alucinado engenheiro nigeriano Umar Farouk Abdul Mutallab, que tentou acionar explosivos que levava na cueca, quando viajava no voo 253 da Northwest Airlines, devidamente flagrado por passageiros e tripulantes da própria aeronave, em pleno ar, quando ela se aproximava de Detroit, nos Estados Unidos.
Consultando especialistas, verifica-se que “os ‘shorts íntimos’ foram as novidades que chegaram com o século XX
. As cuecas passaram a ser fabricadas com tecidos e elásticos e se tornaram mais confortáveis. Ao contrário da roupa íntima feminina, que tem um aspecto mais sexy, o princípio da roupa íntima masculina é o conforto e a simplicidade, motivo pelo qual os shorts chamados ‘samba-canção’ se tornaram populares na década de 1980. ... Para o dia-a-dia, as lingeries mais indicadas são 100% de algodão ou de outras fibras naturais como o bambu, que tem propriedades desodorizantes e antibacterianas”. Uma das funções mais significativas da cueca era impossibilitar que os últimos pingos de uma xixizada fossem absorvidos pelas calças, tornando seus portadores constrangidos.
Lamentavelmente, o paranóico nigeriano, com sua tresloucada tentativa de escafeder-se para o além com os passageiros e tripulantes do avião que o transportava, gerou iniciativas de segurança que redundarão em incômodos de vários calibres. Uma delas: proibição de, uma hora antes da aterrissagem, reclinar as poltronas, ir ao banheiro, usar mantas e travesseiros, utilizar livros e jornais e coçar os bagos ou os fundos, ainda que a necessidade seja pra lá de imperiosa.
Comparando-se a tentativa terrorista do nigeriano com os flagrantes feitos nos outros dois casos citados, algumas inferências podem ser tiradas. A primeira delas é elogiosa por derradeiro às autoridades policiais brasileiras: a especialização alcançada na detecção de substâncias não fecais, tampouco urinosas, nas cuecas dos marginais. O que não aconteceu com as autoridades alfandegárias de Amsterdam, que não atentaram para o volume acomodado no campo anal do terrorista. Apesar das advertências enviadas pelo seu próprio pai a um agente da CIA sobre a alta periculosidade do filho.
Pretendem as autoridades aéreas internacionais estabelecer contato com as autoridades brasileiras para o estabelecimento de um PAC-CRAC, Programa Ampliado de Capacitação Contra Resíduos Anônimos na Cueca. Utilizando cães farejadores e mãos exploradoras, além das parafernálias eletrônicas e eletromagnéticas.
A contrapartida oferecida pelas autoridades internacionais se materializaria numa outra capacitação de bom tamanho: o PAC-LEP, Programa Acelerado de Combate aos Ladrões do Erário Público. A envolver também componentes do Poder Judiciário ainda não contaminados.
Pelo menos uma coisa é certa: com a Cuecalogia, auxiliaremos a gestão do presidente Lula a retirar o que pertence ao Erário Público das áreas destinadas exclusivamente aos detritos sólidos e líquidos da gente brasileira.
(Publicada, a partir de hoje, 04/01/2010, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Os Impropérios do Aranha

Nas eleições 2010, quando amplos mandatos políticos serão renovados, Aranha se tornará uma excepcional arma. O Dicionário Brasileiro de Insultos, do Altair Aranha, terá uma dupla finalidade nos debates políticos que já estão à vista: a primeira, estontear o adversário por ele ignorar o significado do termo usado; e também por ele não avaliar a gravidade da acusação, se o impropério for teatralmente brandido.
Por exemplo, imaginemos, num debate, um cidadão dizendo para um parlamentar, dedo em riste e voz de trombada de carro grande: “Vossa Excelência, toda a sociedade já sabe, é um erotófobo!!” O acusado, portador, como a grande maioria, de um limitado vocabular, seguramente procurará aparentar estar por dentro do assunto, respondendo com argumentos os mais desconjuntados possíveis, possibilitando a continuação da sua fala, a revelar um civismo calibre pinto de pequinês.
Outro dia, numa câmara de vereadores nordestina, num estado fronteiriço a Pernambuco, um dos líderes partidários, diante de projeto apresentado por um dos pares, disse que a proposta era digna de um nefelibata. O aparte do autor da iniciativa veio de bate-pronto, sem qualquer vaselina: - Se para Vossa Excelência nefelibata significar elogio, eu agradeço de coração. Se, por acaso, for algo que me esculhambe, nefelibata é a puta que o pariu!!! E a sessão foi interrompida por alguns minutos, para que fosse explicado ao “ofendido” o significado do termo, “aquele que vive no mundo da lua, sem ser capaz de pôr os pés no chão e perceber a realidade”. Tal e qual aquele outro que apresentou um projeto de lei criando o Dia Nacional do Laranja, ignorando que “laranja” é todo simplório metido a sabido, que não percebe que está enriquecendo mundos e fundos de terceiros, ficando ele, no frigir dos ovos, apenas com os fundos de antes, estropiados como de costume.
E o que dizer dos políticos onzenários, aqueles que desejam lucrar com o mandato, além dos vencimentos recebidos? Que classificam de onagros os seus eleitores, os possuidores de cabeças duras, que vivem elegendo quem não presta, lamentando-se em toda mesa de bar, não imaginando serem eles mesmos os responsáveis diretos por cada chupin cabuleté eleito? Que se torna mais um ganhoso às custas de eleitores sempre desgramados, sempre lambisgóias?
No Dicionário Brasileiro de Insultos, uma primorosa pesquisa feita pelo Altair Aranha, que principiou a colecionar desaforos desde adolescente, para deixar nocauteados os colegas de escola mais trombudos, que ficavam com caras-de-tacho, olhos esbugalhados, rabos entre as pernas, abilolados por umas boas semanas, sem ação nem reação.
Nos mais diferenciados rincões brasileiros, pode-se facilmente detectar o analfabeto político descrito pelo Bertolt Brecht, aquele que “não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”. E que disse mais: “o analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.
Pedi ao João Silvino da Conceição, meu irmão orientador em coisas da vida, que classificasse alguns políticos brasileiros. E ele me apresentou uma lista bastante abrangente: vulpino (raposa), bola-murcha (sem expressão), vapozeiro (traficante de maconha), polhastro (espertalhão jovem), fâmulo (baba-ovo), especioso (bom invólucro e mal conteúdo) e lagalhé (sem qualquer expressão).
Terminadas as explicações, o João Silvino ainda escolheu os dois insultos que irão proliferar em 2010: o preboste, o xeleléu que faz coisas indevidas, aparecendo para as punições, o chefe sempre se escafedendo; e o lambeta, aquele que adora fazer um fuxico, ainda que num microfone de plenário legislativo.
Que o eleitor brasileiro defenestre nas urnas de 2010 os muculas, os cloacinos, os doidelos, os toquistas, os mafabés e as lambanças de todos eles. Para que possamos aprimorar a nossa Democracia, favorecendo uma Cidadania que dignifique melhor o país no cenário mundial.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, 1/1/2010, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)