sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Frases quase conexas

Num sábado desses, contente que só por estar bem perto das minhas netas Mariana e Maria, que vieram iluminar minha existência, cascavilhei uns apontamentos que teimavam em resistir ao tempo, atocaiados no fundo de uma gaveta metida a socavão de papéis de ontem. E resolvi juntar algumas frases neles contidas, sem identificar seus autores, oferecendo àqueles que ainda estão azeitando suas “birutas”, para melhor auscultar a direção dos ventos de uma trabalhabilidade duradoura. A não-identificação é proposital, para que todos possam refletir melhor sobre as frases, pouco importando para épocas, nacionalidades, ideologias, nomes e sobrenomes de seus autores.
Minha intenção é de que cada um dos pensamentos aqui expostos subsidie reestruturações comportamentais naqueles que necessitam ser mais para que possam usufruir adequadamente os talentos oferecidos pela Criação. Ei-las, para os que possuem vontade de reenergizar-se existencial e profissionalmente:
A sabedoria é o conhecimento temperado pelo juízo. Através dos séculos existiram homens que deram o primeiro passo ao longo de novos caminhos, sem outros recursos além de sua própria visão. Só o homem é o arquiteto de seu próprio destino.
A maior revolução em nossa geração é que seres humanos, modificando as atitudes mais íntimas de sua mente, podem modificar os aspectos exteriores de sua vida. Tornar-se águia sem mentalidade de galinha, por mais emplumada que esta seja. Tudo pode ser mudado; mas nada será mudado até que se comece.
O mais importante é não parar de questionar. A curiosidade tem sua própria razão de ser. Nunca perca a sagrada curiosidade. Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar.
O pessimista queixa-se da ventania. O otimista espera que ela acabe. O realista ajusta as velas. Há sempre um momento no tempo em que uma porta se abre e deixa o futuro entrar. Aquele que tem um porquê para viver pode enfrentar todos os comos.
Há muito a ser dito em favor do fracasso. Ele é mais interessante do que o sucesso. Fracassado é o homem que erra e não é capaz de aproveitar a experiência. Não existe fracasso, a não ser em não continuar tentando com criatividade e flexibilidade.
O sucesso é medido não tanto pela posição que alguém alcançou na vida, mas pelos obstáculos que ela ultrapassou enquanto tentava vencer. Uma jornada de mil milhas começa com um simples passo. Um objetivo nada mais é do que um sonho com um limite de tempo. Quanto mais a razão crítica dominar, mais empobrecida será a vida.
O único homem que nunca comete erros é aquele que nunca faz coisa alguma. Não tenha medo de errar, pois você aprenderá a não cometer duas vezes o mesmo erro. A única coisa permanente é a mudança. Não podemos esperar que o mundo mude. Não podemos esperar que os tempos se modifiquem e nós nos modifiquemos junto, por uma revolução que chegue e nos arrebate em sua marcha.
A coragem é inegavelmente uma das grandes virtudes da humanidade. Ela sempre garante imensa tranquilidade de consciência. A timidez, o escrúpulo e a dúvida, ao contrário, torturam frequentemente o espírito e conduzem às derrotas e ao desespero. Não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo seu país.
O diploma não encurta as orelhas de ninguém. Eu não tenho a fórmula para o sucesso. Perigoso é um pouco de conhecimento. Tolo é aquele que naufragou seus navios duas vezes e continua culpando o mar. Seres humanos podem mudar sua vida mudando suas atitudes. Comece a tecer e Deus lhe mandará a linha.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O Abismo da Ética

Demonstrando oportuna indignação, o teólogo Leonardo Boff escreveu recentemente um texto veemente contra a patifaria acontecida no Senado Federal, com a vexatória absolvição do presidente daquela Casa, inclusive com a ignominiosa conivência e conveniência de líderes até então considerados de bom calibre ético. Alguns trechos do artigo intitulado A Bacia de Pilatos: “O que envergonha os cidadãos é verem Senadores, alguns velhos provectos, sem qualquer dignidade, verdadeiros mafiosos do poder, voltarem as costas à sociedade e fazerem-se cegos e surdos ao clamor das ruas. Estão tão enjaulados em seus privilégios na redoma do Senado que nem lhes importa o que a mídia e a opinião pública pensam deles. ... Mas, o que envergonha mesmo é a recaída de membros do PT. São pecadores públicos contumazes. Já haviam antes enviado a ética nem sequer para o limbo, mas diretamente para o inferno. Por isso, são desprezíveis como Pilatos. Este se acovardou diante do povo e condenou Jesus. Mas, antes fez um gesto que passou à história como símbolo de pusilanimidade, de covardia e de falta de caráter. Diante do povo, lavou as mãos com água. Essa bacia de Pilatos foi ressuscitada no Senado. Mas a água não é água. São lágrimas dos indignados, dos cansados de ver injustiças e dos dilacerados diante da contínua impunidade. ... Todos os que se abstiveram, podem acrescentar a seus nomes o sobrenome de Calheiros. Como revelou publicamente seu voto, o Senador Aloísio Mercadante merece agora ser chamado de Aloisio Mercadante Calheiros. Pelo esforço da argumentação em favor da não cassação de Renan, a Senadora Ideli Salvatti merece que lhe apodemos de Ideli Salvatti Calheiros.”
Diante da inconformação geral da maioria da gente brasileira, também responsável pela entronização da bandidagem no Congresso Nacional, algumas questões se agigantam nas mentes mais politizadas do eleitorado. Valeria a pena elevar o país a um regime unicameral? Por que a inconclusa cidadania brasileira acabrunhou-se diante da estabilidade inflacionária, mais ainda nas camadas menos privilegiadas, que se acomodaram diante das bolsas-isso e bolsas-aquilo distribuídas sem a menor construtividade cidadã, parecendo até repetição dos tempos dos Césares, que se refastelavam diante da ovelhice das massas beneficiadas com pão e circo? Por que ninguém está debatendo pesquisa comparativa recente de pesquisador universitário fluminense, sobre opiniões das diversas classes sociais brasileiras? Por que mentir perante os próprios pares do Senado não é mais falta de decoro parlamentar? Por que os governantes deste país continuam se escondendo por detrás das portas, diante dos descarados casos de nepotismo surgidos nos diferenciados setores políticos nacionais? Será que o voto secreto continuará acobertando o acanalhamento da classe política brasileira? Será que não está chegada a hora de se redimensionar quantitativamente a representatividade parlamentar nas assembléias e câmaras municipais, também buscando-se a remunicipalização do todo pátrio, hoje encharcado de municípios faz-de-conta? Por que será que o Leão da Receita é tão brabo para com assalariados pixotes, se acocorando passivamente perante os poderosos financeiros, aqui se incluindo os grandes bancos? E, finalmente, por que a sociedade civil brasileira, tal e qual mariposa sem boca, continua anestesiada pelos messianismos de algumas agremiações partidárias que se imaginam vestais impolutas, únicas portadores da verdade?
As emoções de voar principiam-se com a experiência sentida pelas ameaças do cair. Eis uma lição que muitos políticos ainda não perceberam, curtidores planaltinos do bom e do melhor, mamadores dos financiamentos públicos e dos mensalões. Que não conjugam o verbo arriscar, preferindo o ti-ti-ti das futilidades, apoiados na eterna paciência dos adeptos de um inadmissível “Deus quis”.
Artigo publicado no Jornal do Commercio, Recife, PE, em 19.09.2007

domingo, 2 de setembro de 2007

Para ampliar a enxergância

Deparo-me com o João Silvino da Conceição sobraçando um taludo volume. E ele vai logo me explicando do que se trata, pois é sabedor da minha curiosidade por livros e revistas: uma edição Imago 1976 do livro Ser Cristão, de Hans Küng, o mais aplaudido teólogo vivo da atualidade. E logo declara, com alegria incontida, que o valioso presente lhe foi enviado pela Sara Soares, bibliotecária do Seminário Teológico Anglicano de Porto Alegre, que adquiriu o livro num sebo gaúcho, atendendo suas insistentes buscas Brasil afora.
E o João me faz uma ponderação: não sabe a razão de não ter sido o livro do Küng reeditado no Brasil. Segundo ele, o livro se destina para os que não crêem, ainda que indagando com seriedade; para os que já tiveram fé, mas não se sentem mais confortáveis com a sua descrença; para os que se sentem inseguros na fé; para os que oscilam entre fé e descrença; e para os céticos. E também para “cristãos e ateus, gnósticos e agnósticos, pietistas e positivistas, católicos fervorosos e tíbios protestantes e ortodoxos”. Que “não se resignam, nem satisfazem com vagos sentimentos, com preconceitos subjetivos e probabilidades aparentes”, nem pretendem ser adeptos de um cristianismo barato. Nem tampouco pretendem substituir o saudavelmente tradicional pelos “recursos de uma arte cosmética e conformista de adaptação”.
Ressalta, o João Silvino, a seriedade intelectual do Hans Küng, quando ele declara não ter intenção de oferecer novas adaptações de algum credo, nem análises dogmáticas com respostas prontas, tampouco fazer propaganda de algum cristianismo novo. Segundo Küng, “o que pretendemos é uma introdução objetiva e atual, sem a preocupação de converter e livre de uma lírica teológica, sem os requintes da escolástica e o jargão da teologia moderna”.
O livro comporta quatro grandes partes: O Horizonte (os desafios dos modernos humanismos e das religiões universais), A Diferença (o específico do cristianismo, o Cristo real, Cristianismo e Judaísmo), O Programa (contexto social, a causa de Deus, a causa do Homem, o conflito, as interpretações, a vida nova, comunidade da fé) e A Práxis (a práxis da Igreja, ser-homem e ser-cristão, ser-cristão como radical ser-homem).
Ressaltando a beleza de Ser Cristão, João Silvino destaca alguns pontos significaticos constatados pelo teólogo Küng: as Igrejas gastaram tempo demais em resguardar alianças entre trono e altar; funcionaram por séculos como guardiães do status político, econômico e social; encapsularam-se diante da modernidade; e acovardaram-se diante das reformas inevitáveis, coibindo – por fogueira, silêncios obsequiosos, demissões e excomunhões ridicularmente exdrúxulas – o pensar criativo, evolucionário por excelência. O cristianismo, segundo Küng, deve ser entendido como um diamante: jamais sendo dilapidado, mas lapidado, se possível levado a brilhar.
O livro parece refletir dois posicionamentos do sempre amado Dom Hélder Câmara: 1. “Nestes tempos de egoísmo, de alienação, de ódio, de injustiça, o Espírito do Senhor cumpriu um trabalho que, sem Ele, seria impraticável: com todas as Pessoas, de todas as Raças, de todas as línguas, de todas as Religiões, de todos os Grupos Humanos, Ele desperta Minorias que têm fome e sede de justiça, e que estão dispostas a ajudar na construção de um mundo mais justo e mais humano”; 2. “O fenômeno do presente é que a juventude, com as várias Religiões, retém freqüentemente a impressão que existe medo, egoísmo, prudência excessiva da parte daqueles que carregam os títulos de líderes religiosos – já sem liderar”.
É chegada a hora de evolucionar cristãmente a mocidade, auxiliando-a na defesa do desenvolvimento do homem todo e de todos os homens. Tornando-a irmã militante do Homão de Nazaré, edificando-a como protagonistas da Mensagem Crística, nunca reduzindo-a a cordeirinhos apalermados sem qualquer sentido de ultrapassagem cósmica.