segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

João Silvino, de longe

Um envelope todo encorpado, metido a carta, chega de muito longe, cheiroso que só. A identificação do remetente, há muito sumido dos tiragostos de Dona Zetinha, sem explicação nem até logo, revela conteúdo novidadeiro, posto que João Silvino da Conceição não iria tão longe se a motivação fosse chinfrim. Vale a pena conferir a escrita dele:
"Desculpe-me se não me despedi de mesmo, desaparecendo sem qualquer até. Mas o convite de conhecer, na Índia, a vida e os ensinamentos de Shankara, um gota serena recheado de sabedoria, em vinte prestações e a dólar mais baixo, me deixou fissurado. E como do bate-pronto do aceitamento até o check-in no aeroporto dos Guararapes foi questão de quatro dias, o jeito foi me arremeter com o avião, sem qualquer outro idioma, para Kaládi, no sul da Índia, de beleza e morenidade diferentes das daqui.
A história de Shankara é incrivelmente semelhante ao do nosso menino Jesus. Nascido por volta de 686 antes d’Ele, aos dez anos já era um prodígio, travando discussões sobre as escrituras com os antigos, que de toda parte se achegavam para ouvir aquele pedacinho de gente recitar O Fim da Ilusão, poema da sua lavra: Estranhos são os caminhos deste mundo. Vê a loucura do Homem: na infância ocupado com seus brinquedos, na juventude seduzido pelo amor, na maturidade curvado sob as preocupações, e sempre negligente com o Senhor!
Mas o trabalho mais importante de Shangara é um poema intitulado A Jóia Suprema do Discernimento, do qual envio alguns pedacinhos: O discernimento correto revela-nos a verdadeira natureza de uma corda e remove o doloroso medo ocasionado pela nossa crença ilusória de ser ela uma cobra ... Se realmente desejas a libertação, continuas bebendo com deleite, como um néctar, as virtudes do contentamento, da compaixão, do perdão, da sinceridade, da serenidade e do auto-controle ... Aquele que procura encontrar o seu iluminado Eu alimentando os desejos do corpo está tentando atravessar um rio agarrado a um crocodilo, confundindo-o com uma tábua.
Um dia, na metade da viagem, me aproximei de um seguidor de Shankara, um velhinho de 96 anos, olhinhos azuis e cabecinha raspada, sorriso nos lábios, muito diferente de umas “coisas” daí, que só vêm troço feio nos procedimentos dos demais companheiros de caminhada. Eis as perguntas feitas e as respostas conseguidas:
- O que deve ser evitado? As ações que nos levam a uma maior ignorância da verdade.
- Onde reside a força? Na paciência.
- Quais os males mais difíceis de extirpar? O ciúme e a inveja.
- O que é irreal? Aquilo que desaparece quando o conhecimento desperta.
- O que é libertação? A destruição da nossa ignorância.
- Em que devemos empenhar-nos? Em continuar aprendendo enquanto vivemos.
- Que coração não conseguirei conquistar, mesmo usando todas as minhas forças? O coração de um tolo ou de um ser humano que tem medo, ou está cheio de mágoa, ou é invejosamente pequeno, ou tem manias de poder, ou é incapaz de gratidão.
- Quais são as qualidades mais raras neste mundo? Ter o dom de dizer palavras doces com compaixão, ser erudito sem orgulho, ser heróico e ao mesmo tempo generoso, e ser rico sem apego à riqueza.
Estou chegando na próxima semana. E volto com uma dúvida cachorra da moléstia: será que Shankara era primo bem longe do Menino de Nazaré? As lições de ambos são incrivelmente parecidas, ambos morreram por volta dos 33 anos e os dois irradiavam muita sabedoria desde bem pequenininhos. De qualquer maneira, chegando por aí, comprarei aquele livro que o amigo me recomendou com entusiasmo, não adquirido por puro esquecimento. Mas que se encontra anotado em minha agenda: O Sagrado, de Nilton Bonder, Editora Rocco.
Recomende-me à Melba e aos seus derredores. Um beijo muito carinhoso dê na Mariana e na Maria, suas netas queridas, seus fachos de luz, as quais você dedicará o seu próximo livro. Elas terão seguramente um futuro recheado de muita felicidade cidadã. Até aí, para a festa de Reis Magos.”
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco
)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Realidades do Dom

Uma festa de muito calor humano, a solenidade de entrega do título de Cidadão Pernambucano ao padre João Pubben, o Padre Joãozinho, de Dois Unidos, meu amigo-irmão de muitos anos. Aconteceu no dia 29 de novembro passado, na Assembléia, sob a presidência do deputado Antônio Morais, paroquiano da Casa Forte do padre Edwaldo Gomes, uma das pilastras do clero pernambucano.
Os autores da proposta, bravos deputados Terezinha Nunes e Pedro Eurico, em seus pronunciamentos não regatearam elogios ao ex-arcebispo de Olinda e Recife, o inesquecível Dom Hélder Câmara, carinhosamente chamado de Dom pelos seus mais próximos colaboradores, um tratamento carinhoso nunca auto-intitulado.
Dom Hélder Câmara foi de suma importância em momentos decisivos da vida do padre Joãozinho, o primeiro encontro acontecido em maio de 1968, o então arcebispo com 59 e o sacerdote holandês com pujantes 29 anos. O último se verificando em 27 de agosto de 1999, quando o mais velho partiu para a eternidade, incluindo-se no Deus Pai Todo Poderoso, Aquele que é Senhor da Vida.
Antes da solenidade, o padre João Pubben fez chegar a todos os presentes algumas anotações pessoais a respeito dos seus encontros com Dom Hélder Câmara. E enumerou as dez realidades na vida de Dom Hélder que o tocaram profundamente:
1. Era uma liderança pastoral onde contemplação e ação nunca estavam dissociadas.
2. Sua fé portentosa, em inúmeras ocasiões desanuviavam por completo as angústias dos que o procuravam.
3. Vivia a Eucaristia intensamente, afirmando sempre “ser o ponto mais alto do meu dia”.
4. Era um homem livre, parecendo que as estruturas da Sociedade e da Igreja para ele não existiam. Dom Jacques Gaillot, bispo de Partênia, declarou, no Recife, que “quando a gente tem medo não é livre, e quando é livre provoca medo”.
5. Buscava o principal da realidade, o supérfluo ficando em plano desprezível. Com isso, ganhava tempo e energia para se dedicar ao que era importante.
6. Dificuldades não o desanimavam, todas elas o convidavam a se jogar ainda mais na liça para vencê-las.
7. Era dotado de descomunal compreensão. Escutava os sofrimentos e as dificuldades dos que o procuravam mais com o coração que os ouvidos, reconfortando todos mais com o coração que a boca.
8. Misericordioso sempre, apesar dos sofrimentos causados pelos poderosos do Mundo e da Igreja. Inutilmente se encontrará uma palavra dura em seus escritos dirigida aos que o detratavam.
9. Amava a vida, “o sonho mais lindo de Deus”, como canta Reginaldo Veloso, ex-pároco do Morro da Conceição.
10. Muito amável e muito humano. Seus gestos solidários são incontáveis.
O documento distribuído pelo novo Cidadão de Pernambuco assim terminava: “Que Dom Hélder Pessoa Câmara viva para sempre feliz no Silêncio de Deus e que nós caminhemos na Paz do Senhor e na Fraternidade das Irmãs e dos Irmãos”.
Dou testemunho público do carinho de sua paróquia para com seu padre muito amado. Na Assembléia Legislativa, quando pronunciava seu discurso, o deputado Pedro Eurico citou o povo de Dois Unidos ali presente. Mais de uma centena de pessoas se levantaram numa calorosa salva de palmas, com muitos vivas de alegria não programada.
Como padre lazarista, João Pubben, o Padre Joãozinho de Dois Unidos, partiu da sua terra natal para dedicar-se aos pobres do Nordeste do Brasil, tornando-se uma referência de amor aos preferidos de Deus. Nascido em 16 de janeiro de 1939 em Heiden, na Holanda, lá se ordenou em 1965. Radicado em Dois Unidos há quase quarenta anos, também presta assistência às comunidades de Passarinho e Esperança, ainda sendo colaborador do Espaço Geriátrico Nossa Senhora da Conceição e voluntário do Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco (PROCAPE).
De nome pomposo – Johannes Franciscus Gerardus Pubben – o agora Cidadão Pernambucano padre Joãozinho tornou-se de direito um Leão do Norte. Pronto para continuar a travar o bom combate, sem jamais perder a fé.
Jornal do Commercio, Recife, PE,12.12.2007

domingo, 23 de dezembro de 2007

Pessoanas

Nas minhas horas de folga, cumpridas as obrigações para com a restauração da saúde da minha mulher, aulas, consultoria e voluntariado, muito aprecio vagabundear os olhos por escritos não-técnicos, que muito me reoxigenizam a cada amanhecer. Vez por outra, deparo-me com textos sedutores, cativantes, que me prendem madrugada a dentro, prostrando a parte física, ainda que deixando o espírito mais que serelepe, antenadíssimo, capacidade ampliada de identificar os fingidos e apequenados do derredor. Uma eficaz terapia, sem qualquer dispêndio financeiro, nem hora marcada, nem roupa apertada, paletó e tal.
Mês passado, um fato inabitual, num consultório médico, me proporcionou curtir mais feliz um oportuno feriadão. Deparei-me, minutos antes do atendimento sempre atrasado, com um livro de bolso, edição portuguesa, contendo textos de intervenção social e cultural, em prosa, do poeta Fernando Pessoa. Provocado pelas primeiras páginas e saído do consultório, encomendei um exemplar na livraria mais próxima. E pude verificar como Fernando Pessoa sempre esteve léguas distanciado das torres de marfins, locais preferidos pelos intelectuais de então, habituados a contemplar, à distância, o espetáculo do mundo, mãos nunca sujas, fingidamente puritanas e moralistas, civis, militares e eclesiásticas.
Em Fernando Pessoa, com seus mais conhecidos heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, a situação cultural portuguesa, a política dos partidos, a estagnação social, o nepotismo episcopal e o provincianismo figuram entre seus principais textos fustigantes, apesar do seu modo de ser recatado e tranqüilo, aparentemente divorciado dos buruçus cotidianos.
O poeta não receou arriscar seu nome em prol de causas antipáticas aos donos do poder e até mesmo à própria sociedade de então. Demonstrando coragem, coerência e muito humor, Pessoa desmistificou personalidades, hábitos e costumes, brandindo sua pena na defesa de uma ética libertadora, capaz de fazer corar o diocesano de lá, cândido por conivência ou conveniência nunca sincera.
Algumas das vergastadas do poeta mais parecem dirigidas à Nação Brasileira, tamanhas as suas semelhanças contextuais:
- “Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”;
- “O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela, em segui-la mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”;
- “O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos, e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância extrema - o cargo que exerce, a posição social, a fortuna que tem....”

Por isso, energizado pelo notabilíssimo poeta lusitano, recomendo às pessoas do meu relacionamento, pessoal e internético, nunca relegar um aforismo escrito pelo jesuíta espanhol Baltasar Gracián, em 1647, como que pondo fé na cidadania cristã futura de todos, cada um sendo autor e ator em um Reino que já se instalou entre nós, desde a ressurreição do Homão de Nazaré:
Ninguém nasce perfeito. Para tornar-se um Ser Humano o mais completo possível, profissional e pessoalmente, cultive o discernimento com maturidade, possua gosto elevado e inteligência aguçada para todas as coisas. Estude muito por meio de muitos, sempre fazendo do conhecimento seu melhor companheiro. Nunca abra a porta para o menor dos males, posto que os demais estão por detrás dele. Não se esquecendo de que até as lebres puxam as barbas de um leão morto, nunca brinque com a sua coragem. Só o verdadeiramente superior vê em dobro. Dizer não é tão importante quanto saber gostar de todas as boas coisas. A compreensão de um amigo vale mais que apenas a boa vontade de muitos. Amigos sensatos afastam as mágoas, os tolos acumulam. Os que mais se orgulham de suas proezas são os que menos têm motivos para tanto. Contente-se em fazer, deixando os comentários para os demais. Um espírito frouxo prejudica muito mais que um corpo fraco. Seja antes de ter”.
Relembremos o diálogo de Felipe com o Etíope, contido nos Atos dos Apóstolos (8,30-31). Perguntas e respostas que encerram grandezas de ambos os lados, o primeiro buscando ampliar o enxergar do segundo, este desejando orientar-se com alguém em quem pudesse depositar confiança, vendo-o pastor por derradeiro.

PS. Em breve, livro sobre verso, vida e prosa de Fernando Pessoa, de autoria do jurista José Paulo Cavalcanti Filho, também da Academia Pernambucana de Letras. Uma das prodigiosas inteligências brasileiras.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Para Entender Religiões

Segundo estimativas recentes, 15% da população terrestre não professam religião alguma, em torno de 4% sendo o percentual daqueles que se opõem a qualquer prática religiosa. Mais o fato mais preocupante é a desagregação das denominações religiosas do Ocidente. Três razões são apontadas: as acomodações ou obsolescências das próprias instituições; o acelerado desenvolvimento dos meios de comunicação e das correntes migratórias, a favorecer a multiplicação dos “produtos” religiosos; e o desencantamento com os anos 60 e 70 do século passado, ensejando novas formas de religiosidade, a maioria respaldada em correntes fundamentalistas.
Enquanto os menos atilados imaginam-se seguros diante das práticas anestésicas dos mais sabidos, os mais críticos, mesmo sob olhares de sutil censura e disfarçada rejeição, entendem que “Deus é antes de mais nada, liberdade”. E que a salvação não pode ser plenamente vivenciada em ambiente de constrangimento e medo, posto que a fé não pode ser vivenciada a partir da aceitação passiva dos conceitos doutrinários.
Um percurso temático foi recentemente elaborado por Michel Reeber, do Grupo de Estudos e de Pesquisa da Universidade de Ciências Humanas de Estrasburgo. São quatrocentos verbetes, contendo termos, conceitos e idéias que muito facilitarão o crente de qualquer denominação a compreender mais adequadamente a mensagem do Criador, propagada ela pelas denominações mais diferenciadas. A edição brasileira ainda possui um acréscimo sobre religiões, crenças e rituais praticados no país, um trabalho elaborado pelo professor Marcelo Ayres Camurça, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais.
Os verbetes relacionados às grandes religiões – hiduísmo, budismo, judaísmo, cristianismo e islamismos – são descritos de modo mais que satisfatório no livro do Reeber. Também no anexo se pode entender o que é candomblé, comunidades eclesiais de base, kardecismo, orixás, pajelança, santo daime, umbanda e vale do amanhecer. Parágrafos esclarecedores, numa linguagem não hermética, que certamente muito facilitarão a caminhada de cada leitor na sua trilha confessional.
A atual safra de bons livros sobre Religião proporciona uma maior criticidade nos que acreditam na transcendentalidade do ser humano efetivamente direcionada a partir de um construir existencial ético. As novas leituras conduzirão os diferenciados crentes na superação das dores do mundo contemporâneo através dos seguintes projetos-desafios: a humanização das operações tecnológicas, as novas formas de produção na busca de um padrão civilizatório mais condizente com a dignidade humana e o revigoramento da sustentabilidade ecológica do planeta. Alcançado elas, uma nova consciência cósmica se estabelecerá, apoiada na advertência do apóstolo Paulo: “Não deixem que ninguém os engane de modo algum” (2Ts 2,3)
Atualmente, embora prepondere ainda as manobras espúrias de antigamente – mandonismos, nepotismos, amealhamentos espúrios, anestesiamentos e alienações - são ainda poucos os seres humanos que percebem a decisiva importância da religião para a implementação de solidárias políticas globais. E quem ratifica tal argumentação é o teólogo Hans Kung, em livro editado pela Vozes, em 1999: “No mundo moderno, é a religião uma força central, talvez a força central que motiva e mobiliza as pessoas. ... Convicções religiosas e família, sangue e doutrina são as realidades com as quais as pessoas se identificam e em função das quais lutam e morrem”. Estou convencido que emerge velozmente uma baita revolução ética, amplamente respaldada nos princípios ecumênicos de uma Teologia da Inclusão Social. É só aderir pra humanamente saber fazer acontecer. Uma tarefa que também estará a cargo do CBMI - Centro Brasileiro de Missão Integral, em implantação no Recife, através do seu Mestrado em Missão Integral, evangelicamente supradenominacional, programado para se iniciar em meados do primeiro semestre de 2008. Sob as bençãos do Homão de Nazaré.

sábado, 8 de dezembro de 2007

A Janela

Certa feita, dois homens seriamente doentes foram internados numa mesma enfermaria de um grande hospital regional. O cômodo era bastante pequeno e nele havia apenas uma janela que dava para o exterior da edificação. Um dos pacientes tinha, como parte integrante do seu tratamento, permissão para sentar-se na cama por uma hora durante as tardes, sua cama se situando bem próximo da tal janela. O outro paciente, contudo, por força de recomendação médica, passava todo o seu tempo deitado de barriga para cima, restando-lhe tão somente o direito de ficar olhando para o teto do compartimento.
Todas as tardes, quando o homem cuja cama ficava perto da janela era colocado em posição sentada, ele passava o tempo descrevendo para o companheiro o que via lá fora. Segundo ele, da janela se descortinava um lindo parque, onde havia um lago com patos e cisnes, todos eles beneficiados pelos nacos de pão atirados pelas crianças que passeavam em seus barquinhos de madeira, devidamente supervisionados pelos seus pais ou babás. Na relva situada ao redor do lago, jovens namorados, de mãos dadas, trocavam juras de amor por entre árvores e flores, inúmeros jogos de bola se desenrolando ao longo dos espaços destinados à prática de esportes. Ao fundo, por detrás das últimas fileiras de arbustos, avistava-se o belo contorno dos prédios da cidade, com suas antenas parabólicas revelando a chegada de um novo milênio.
O homem que estava deitado ouvia atentamente o companheiro descrever tudo isso, saboreando com avidez o que estava sendo descrito nos mínimos detalhes. Escutou atentamente sobre como uma criança quase caiu no lago e sobre como as garotas estavam bonitas em seus vestidos de verão, cabelos bem cortados, corpos bem delineados e sorrisos de alegria, irradiando felicidade por todos os poros. As descrições do narrador faziam-no sentir como se estivesse realmente observando o que acontecia lá fora, tamanha a riqueza dos detalhes recebidos.
Numa tarde de maio, no homem sempre deitado ocorreu um pensamento: por que o paciente que ficava perto da janela deveria sozinho ter todo o prazer de ver o que estava acontecendo lá fora? E por que ele não poderia ter também a chance de contemplar o que estava acontecendo no mundo exterior? Sentiu-se um tanto envergonhado pelo sentimento de inveja, mas quanto mais tentava não pensar assim, mais queria que ocorresse uma reviravolta da situação. E faria qualquer coisa para isso acontecesse.
Numa noite, o homem da janela, subitamente, acordou sufocado. Debatendo-se desesperadamente, suas mãos procuraram inutilmente o botão que alertaria a enfermeira. Ao lado, indiferente ao drama, seu companheiro de ambiente hospitalar não moveu uma palha sequer em defesa do infeliz, mesmo quando a respiração dele parou por completo.
Pela manhã, o corpo do falecido foi levado para o necrotério, para os preparativos do sepultamento. Tão logo o defunto saiu da enfermaria, o outro perguntou se poderia ser colocado na cama perto da janela. Sendo prontamente atendido, viu-se devidamente aconchegado sob boas cobertas.
Sentindo-se só, apoiou-se sobre os cotovelos, esticando-se ao máximo para ver também o mundo do lado de fora da janela. E viu apenas um muro, igualzinho aos demais ...Principiando mortalmente a se desesperar, o novo inquilino da janela percebeu que a Vida é, sempre foi e será aquilo que nós a tornamos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Não ao apodrecimento da Esperança

Quem poderia ser o “herdeiro” do educador Paulo Freire no cenário brasileiro? Quem poderia ser o também professor que irradiasse com uma sabedoria nunca pedantocrática doses maciças de uma construção cidadã na direção de uma juventude que assiste atônita ao apodrecimento das suas esperanças mínimas? Quem saberia aliar, como tão bem Paulo Freire sabia, educação, política e contaminação afetiva, na conscientização lúdica, sem perda da seriedade analítica, dos caminhares restauradores da dignidade pátria, com distribuição menos desigual de renda, terra, prazer e liberdade? Quem, dos mais próximos derredores de Paulo Freire, poderia se responsabilizar pela continuidade do seu ideário, com muita sabedoria filosofal, sem as sapienciais arrogâncias dos que se imaginam portadores únicos de verdades nunca destronáveis?
Nordestinamente, eu aprontaria meu voto para um educador que conheço apenas da leitura de alguns de seus livros. Uma mente privilegiada pela capacidade de anunciar e analisar sem as acomodações dos que nunca atentaram devidamente para um refletir de Guimarães Rosa: “o animal satisfeito dorme”. Um humanista que se abeberou de uma convivência com Paulo Freire de muitos anos, aprendendo e apreendendo com aquele nordestino ouro de lei.
Não titubearia em sufragar o educador Mário Sérgio Cortella como um dos mais bem cotados “herdeiros” do consagrado alfabetizador pernambucano. Como autor de Não Nascemos Juntos – Provocações Filosóficas, Vozes 2007, Cortella percebe que o Século XXI chegou com suas grandezas e múltiplas indecências sociais. Exigindo, para uma sua melhor compreensão, a multiplicação de leituras indiviuais e coletivas, na busca da ampliação da solidariedade para com os menos favorecidos. Leituras que ajudarão a caminhar, sem nunca desapartar-se da lição magistral de Antônio Gramsci: "O modo de ser do novo intelectual não pode mais consistir na eloqüência, motor exterior e momentâneo dos afetos e das paixões, mas num imiscuir-se ativamente na vida prática, como construtor, organizador, persuasor permanente; da técnica-trabalho, eleva-se à técnica-ciência e à concepção humanista histórica, sem a qual se permanece 'especialista' e não se chega a 'dirigente', especialista mais político.”
Já se disse que a nossa crise brasileira, que também se incorpora a uma crise mundial, é muito profunda. É prenúncio do fim de uma era, início de uma nova fase, onde quase todo mundo ainda se encontra atordoado. E a ausência de uma “enxergância” comprometida com a transformação do hoje está levando os mais desavisados a uma não conformação com o fortalecimento do setor político, gerando-se neles dupla tendência: uma, a de se ser hipercrítico em relação a tudo aquilo que se apresenta para discussão; a outra, a de se tornar subcrítico diante do que lhe é imposto goela abaixo. E os hiper e os sub não estão ampliando a cidadania da gente brasileira.
Inúmeros confundem tradição, modernidade e pós-modernosidade, ora alimentando bloqueios e perplexidades, ora reforçando "soluções de facilidade". Substituindo liberdade por uma licenciosidade perversa, que sempre serviu de excelente pretexto para se impossibilitar salutares avanços sociais.
É chegada a hora de uma honesta reavaliação da vida nacional. A hora de reinventar-se chegou, para a superação dos obscurantismos políticos, sociais, culturais e religiosos.
Nada ameaça mais uma democracia que a gestão daqueles que desconhecem a tese fundamental: em toda democracia, as respostas são difíceis diante de uma demanda facilmente induzida. Estratégias e táticas bem definidas e discutidas, contínua postura dialogal e um ver-melhor-o-derredor bem poderiam constituir os balizamentos para uma nação que já assimilou a lição maior: "entre revolta e resignação, a tarefa principal do ser humano deverá ser a de compreender/explicar para transformar.”
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, 05.12.2007)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Achado do João Silvino

Dos pampas, o João Silvino da Conceição me trouxe um livro precioso. Editado em 1999 pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS, em comemoração aos seus 30 anos de existência, Jesus de Nazaré, Profeta da Liberdade e da Esperança congrega 20 magníficos ensaios, com temas os mais variados.
Na Apresentação, o pe. Aloysio Bohnen, SJ, comunica os três traços que caracterizam a coletânea: a multiautoralidade, a interconfessionalidade e a interdisciplinaridade. E questiona: qual é o lugar e o papel sociais da religião numa sociedade que já passou ou que venha a passar pela experiência histórica da emancipação socioeconômica, sociopolítica e sociocultural, possuidora do objetivo maior de testemunhar o vínculo inseparável entre fé e a promoção da justiça do Reino?
Enaltecendo o excelencialidade do conjunto, quatro ensaios despertaram minha atenção: Jesus e o Judaísmo (Henry Sobel), Nem Homem nem Mulher (Maria Clara Bingemer), Jesus Cristo e os Jovens (Hilário Dick) e Um Encontro Libertador (Luiz Eduardo Wanderley).
O escrito do rabino Sobel é mote para reaproximações concretas e esclarecimentos recíprocos sobre algumas anotações rancorosas emitidas pelas partes de um mesmo tronco abraâmico. Salientando que Jesus se considerava judeu fiel às suas origens, se reportando à Torá em suas pregações e seguramente praticante diário da Shemá, Sobel afirma que o dito em Mc 5,43 não se encontra em parte alguma do Antigo Testamento. Muito pelo contrário, Sobel reproduz Pv 25,21-22 para rebater o lapso cometido. E reproduz palavras de João Paulo II, em 1997: “Não se pode exprimir de maneira plena o mistério de Cristo sem recorrer ao Antigo Testamento. A identidade humana de Jesus define-se a partir do seu vínculo com o povo de Israel”.
A análise do pe. Hilário Dick, uma mente contemporânea, fotografa bem o amor dos jovens pela figura do Homão de Nazaré. Afirma que os jovens não apreciam muito dos que falam dEle, “porque há falas que O tornam muito etéreo ou concreto demais”. E diz quais os aspectos apreciados pelos jovens em Jesus: a liberdade com que Ele vivia a vida; o amor que Ele tinha pela natureza; a não-distinção de pessoas; o seu espírito revolucionário. Cita o canto Seu Nome é Jesus Cristo, sucesso de juventude dos anos 60, relembra o “Jesus Cristo, eu estou aqui!” do Roberto Carlos e ainda menciona os filmes Hair e Jesus Cristo Superstar, que levou cristãos, à época, “a estarem presentes na fundação de um partido de esquerda”.
A parte composta por Maria Clara Bingemer, PhD em Teologia pela Gregoriana de Roma e Coordenadora do Centro Loyola de Fé e Cultura, parte de uma constatação: “entre os diferentes tratados da Teologia que buscam repensar-se a partir da perspectiva da mulher, a Cristologia é talvez um dos mais importantes e, certamente, dos mais polêmicos”. Embora ressaltando que “a Cristologia é percebida inclusive por muitas mulheres como sendo a doutrina da tradição cristã que mais freqüentemente foi usada contra elas”, Maria Clara ressalta em duas partes do seu ensaio – Jesus e as mulheres e O feminino e a segunda pessoa da Trindade – as rupturas provocadas pelo Nazareno, devolvendo às mulheres o pedestal que elas sempre foram merecedoras.
Por fim, sem deixar de enaltecer a excelência dos ensaios restantes, o texto de Luiz Eduardo Wanderley revolve seu passado e enfrenta seus amanhãs como sexagenário ativo, exibindo como eixo estruturador a pessoa de Jesus de Nazaré. Filho de de pais religiosamente católicos romanos, Wanderley reflete sobre o papel do leigo nas caminhadas futuras do Cristianismo, num hoje de mudanças aceleradas, de intensa urbanização e de estresses múltiplos, onde não parece existir mais tempo para a meditação, a oração e a solidariedade de uns para com os outros.
Um presentão e tanto recebi do João Silvino. Uma edição de excelente conteúdo sobre o Homão que tanto amamos, irmão de Caminhada Libertadora.