sábado, 31 de maio de 2008

Dicionário Alternativo

Já dizia o notabilíssimo Fernando Pessoa, um apaixonado pelas causas portuguesas, tal e qual o engenheiro Campozana, como eu do poeta também xará, que “quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma”. E foi mais além o autor de Tabacaria: “a palavra falada é um fenômeno natural; a palavra escrita é um fenômeno cultural”.
Entretanto, alguns termos banalíssimos estão sendo entendidos de uma maneira totalmente diferenciada das análises semânticas mais especializadas. Recente levantamento efetuado em diversas regiões brasileiras possibilitou aos estudiosos aquilatar a problemática. Alguns “fenômenos” pesquisados merecem aqui registro, para favorecer os levantamentos pósteros: armarinho - ar que vem do mar; karma - expressão mineira para evitar o pânico; obscuro - OB na cor preta; paralítico - período da Terra em que nada se movia; abreviatura - ato de se abrir um carro de polícia; e genitália - órgão reprodutor dos italianos.
Intrigado, resolvi pessoalmente investigar, indagando de alguns a respeito do significado de algumas expressões nacionalmente conhecidas. O meu bloquinho de papel quase se rasga todo de tanto rir. Até a caneta esferográfica utilizada resolveu, quase ao final da pesquisa, se esborrar toda, descontroladamente, não suportando a estridência risadal oferecida pelo material coletado. Eis um resumo do apreendido em alguns dias de andança, todos os níveis sociais sendo auscultados, da feira ao shopping, passando por supermercados, farmácias, ambulatórios e serviços públicos, resguardadas as identidades de cada entrevistado, alguns deles portadores de especializações várias, acometidas aqui e no exterior: abaixo - letra A com pouca altura; detergente - ato de prender indivíduos suspeitos; halogênio - cumprimento dado a pessoas de QI muito elevado; determina - prender uma moça; preservativo - produto utilizado para preservar ativo quem o utiliza; alopatia - dar um telefonema para a tia; destilado - aquilo que não está do lado de lá; zunzunzum - na Fórmula 1, momento em que o espectador percebe que os três líderes da prova acabaram de passar na sua frente; bacanal - reunião de bacanas; esfera - animal feroz amansado; barbicha - boteco das desvairadas; fluxograma - direção em que cresce o capim; evento - constatação de que realmente não é um furacão; unção - erro de concordância muito freqüente, posto que o correto seria “um é”; homossexual - sabão em pó para lavar as partes mais íntimas do corpo; patogênico - pato que sai bem em fotografia; utopia - lavatório imaginário, inventado pelo sanitarista inglês Thomas Morus; jurisprudente - diz-se do grupo de jurados que declara inocente o filho do bicheiro que, em legítima defesa da honra e apenas levemente embriagado, bombardeou o asilo de velhinhos; microcomputador - anão com cólica renal; trigal - cantora baiana elevada ao cubo; e novamente - indivíduos que renovam sua maneira de pensar.
Acordei com uma vontade imensa de abraçar o Povo Brasileiro, aquele povão que o João Ubaldo Ribeiro consagrou em seu livro famoso Viva o Povo Brasileiro, tendo ele mesmo depois lançado um outro, também notável, denominado A Casa dos Budas Ditosos, especialmente destinado aos absolutamente despreconceituosos, sem os filtros que o interior do puritanoso impõe. Mas com a brasilidade que tanto ainda necessitamos.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Prosa Morena

Outro dia, num aeroporto sulista, adquiri um livro com o título acima. A viagem acabou, atividades diferenciadas foram iniciadas e o conteúdo do livro não me saiu mais da cabeça, tantas as cócegas desenvolvidas nos meus interiores de cabrito nordestino. Seu autor, Jessier Quirino, se declara arquiteto por profissão, poeta por vocação e matuto por convicção. De Campina Grande por nascimento, alojou-se com seus teréns e neurônios em Itabaiana, onde vive sem medo de ser afoito. Uma afoiteza que lhe possibilita “evangelizar” os abestalhados de sempre, a grande maioria metida a urbanitas, sem compreensão devida da sabedoria dos iletrados e pouco versados nos porompompons letristas das capitais, onde não se vive mais com as satisfações de antigamente, todo mundo afogueado nuns tempos cada vez mais diminutos e nuns espaços tão apertados onde nem soltar mais um pumzão se pode, pois assusta a vizinhança amontoada do derredor, que logo imagina tiro.
Embora não conhecendo o Quirino de convivência, com ele fiquei mais íntimo a partir das orelhas do livro escritas pelo Luiz Berto, esse gota serena de arretado, autor de A Besta Fubana, um dos melhores livros por mim já lidos e relidos, imaginário regional a mais de mil, recheado de muita filosofia existencial, sem qualquer salamaleque. Nordestino que nunca leu A Besta Fubana não sabe o que está perdendo de nordestinidade legitimadora.
O livro do Jessier Quirino começa apregoando que “neste mundo tem gente pra tudo e ainda sobra um pra tocar gaita”. Manda pauladas boas num compadre dele, Mané Cabelim, raparigueiro que só, que gastou um bocado de reais na fundação de um “conjunto dançarineiro” pra assentar em cima de um trio elétrico, inaugurando uma putanhagem fora de época nos quintais municipais. Para ver se alimentava a vontade do eleitorado em sufragar seu nome neste ano, época de promessas mil, todo mundo de anjo, jurando mundos e fundos, incluídos os assentados nas calças alheias, moeda de troca nas horas mais desesperançosas.
Gosto que me enrosco de gente inteligente, que ensina os outros a levar a vida sem muita consideração diplomática, batendo palmas de gozo diante da funerária Vai que é tua Paraíso, concorrente daquel’outra, sediada em Campina Grande, registrada em cartório como A Caminho do Céu, tanto uma como outra esmero nota dez para os beneficiados com um despachamento chorosamente correto. E aprecio como ninguém um poeta como Jessier Quirino, que denomina, com muita propriedade, lua cheia de lua de tapioca, homenageando as quentínhas dobras goma-coco-ralado-sal-de-pouco. E também muito me deleito com algumas fichas de pensão citadas por ele, uma delas da Pensão da Véa Duda, patrocinada pelo Sabão Rendoso. Num dos cantos da ficha, o quesito Motivo da Viagem tem quatro alternativas: Negócio, Romaria, Retirante e Raparigagem.
O Jessier Quirino, com seus versos “evangelizadores” quer mostrar pro mundo inteiro que nos interiores nordestinos tem gente de muita grandeza intelectiva, que embora nada saiba de abêcê, sabe latir pra poupar cachorro, e que diante das indagações dos visitantes, sempre declara de pronto: Cumpadre, eu me acho velho / Caco de bunda tremendo / Não tou liso nem roubando / Mas tou platando e colhendo / Às vezes rindo ou chorando / Viúvo, não tou amando / Tou lucrando, não devendo. E pra mostrar sua diferença biológica com os da cidade, conclui sua cantoria proclamando: Esperto, não estou bestando / Nem jogando, nem bebendo / Nem perdendo nem ganhando / Tou calmo não tou inchando / Tou vivendo e aprendendo.
O livro do Quirino é para quem não perde as estribeiras, que pensa mais que copia, que nunca pia, guardando o troco pra depois. Gente abençoada por Deus, apesar das embromações religiosas que teimam em fazê-la de abiscoitada. Gente que já percebe como o blá-blá-blá é coisa fingida, enquando os cartões corporativos continuam soltos na buraqueira, sem punição alguma. Sempre a prejudicar o forever da gente.
PS. Ao eternizado senador Jefferson Peres, político brasileiro recheado de dignidade parlamentar, homenagem deste simples nordestino, um aprendiz de tudo.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Modernil

Fico a imaginar, no meu gabinete de trabalho, uma situação inusitada: um propagandista de produtos farmacêuticos ultra eficazes, distribuindo generosamente, no auditório majestoso de Lambeth 2008, na Inglaterra, ofertas grátis de um xarope recentemente patenteado. Modernil é uma possante fórmula de combate à morosidade e ao marasmo de entidades religiosas. Sua fórmula foi produzida por especialistas em mudanças organizacionais, com resultados comprovados em todo o mundo desenvolvido do século XXI. Sem efeitos colaterais, a aplicação de Modernil restaura evangelizações efetivas, atualiza gerenciamentos pastorais, melhora o desempenho dos que ministram ofícios religiosos e multiplica a assiduidade dos participantes.
O sucesso comprovado do Modernil está lastreado na sua composição: 75% de elemento humano, 10% de instalações físicas, 7% de móveis e utensílios, 5% de recursos financeiros, 2% de material de escritório e 1% de conservantes. Sua utilização produz alívio imediato nos seguintes sintomas: reunite (mania de fazer reuniões que não dão em nada), formulariose (excesso de formulários), arquivose (mania de tudo arquivar), relatoma (obsessão por relatórios), copiarréia (destempero xerográfico), e sinistrose (ojeriza a otimismo). Além de inúmeros outros males que mutilam a dinâmica organizacional das instituições, independentemente de tamanho e geografia da área servida.
Algumas iniciativas estratégicas deverão ser adotados para que o Modernil atue efetivamente: motivar e envolver pessoas duas a três vezes por semestre, em eventos que proporcionem uma sadia convivialidade, abjurando-se os enfados tartarugais e as mesmices que desestimulem; racionalizar o trabalho, sem afetações fingidas nem proteções espúrias; analisar a dinâmica da instituição a cada 180 dias dias, comprovando a sua consistência e propósitos; reduzir para 1% o conservadorismo cego e as pastorais inócuas; criar incentivos internos essencialmente emuladores; repensar as relações com todas as dioceses e províncias; avaliar as relações com pastores e pastoreados, sem arroubos apologéticos; introduzir o ritmo QPE - Qualidade, Produtividade e Excelência em cada área da instituição, fazendo jús às doações recebidas; manter em contínua elevação a excelência evangelizadora de todas as regiões; formular objetivos e desafios conseqüentes a cada cinco anos, não mais dez, dada a velocidade mutacional dos tempos; e usar doses maciças de solidificado bom senso, abjurando em definitivo nepotismos e egolatrias, puritanismos e moralismos baratos.
Para se tirar um melhor proveito do Modernil, recomenda-se ainda outros posicionamentos: a) Introduzir uma cultura de fraternidade sem discriminação nem bloquismos, envolvendo inclusive os setores que se posicionam diferentemente; b. Implementar em definitivo a postura EEI - Evangelização Efetivamente Inclusiva; c. Incentivar a implantação e o desenvolvimento de uma permanente conscientização de ação pastoral, eliminando desperdícios estouvamentos; d. Emular a emersão de novas idéias e novos talentos, criando uma imagem denominacional positiva; e. Diferenciar sem pestanejar modernidade (atualização antenada) de modernosidade (cavilações hipócritas); f. Eliminar os procedimentos não discutidos colegiadamente; g. Reduzir custos sem afetações protecionistas; h. Erradicar resistências, travando o bom combate, incentivando todos no uso mais ativo das suas habilidades e conhecimentos; i. Conduzir os mais aptos para posicionamentos missionários, entendendo toda crise como um desafio a mais a ser superado; j. Perceber em cada companheiro de missão um agente de mudança, a favorecer o caminhar de todos para patamares mais superiores.
Tempos atrás, Paul Harvey já dizia que “em tempos como estes, é bom lembrar que sempre houve tempos como estes”. Pensamento arrematado por outro talento, que jamais comungou com a bazófia dos tá-lento, o admirável Peter Drucker: "As únicas coisas que evoluem sozinhas em uma instituição são a desordem, o atrito e o desempenho ruim."

sábado, 24 de maio de 2008

A Volta do Imbecil

Por favor, ninguém tome a carapuça. Trata-se de uma revista francesa – L’Imbécile – que retornou às bancas após um breve período de ausência. Um periódico que se inspira num slogan do escritor Julien Green, eternizado em 1998: “Mesmo no homem mais inteligente, há sempre bastante estofo para fazer um imbecil”.
A reportagem sobre O Imbecil, eu a li na revista Primeira Leitura. E fiquei a matutar com os meus botôes, numa época de pensamento quase único, onde todo mundo parece seguir a cartilha do Chapeuzinho Vermelho, aquela que bobamente foi enganada pelo lobo mau que traçava até as vovozinhas, hoje cada vez mais portadoras de saborosas carnes, graças aos botox, tirox, enfiox, retirox e eliminox, além das cânulas sanguessugas, as tais que diminuem os bolsões nunca de pobreza, deixando o que era rechonchudo transformado em terreno plano, desamolegante por excelência.
É sempre bem vinda uma revista inteligente, mesmo no continente europeu, que foge das mesmices retrógradas de uma direitona muito estúpida, das messiânicas posturas de uma esquerda dinossáurica, matando a cobra e mostrando o pau, todinho, para aqueles que se fantasiam de PP (pessoas progressistas), enganando os historicamente lesos e os mentalmente abestados. Revista distanciada quilômetros das revistas norte-americanas metidas a engraçadas, que deixam os de lá se urinando de tanto gargalhar, mesmo que a partir de um humor construído sobre dez tostões de neurônios.
O segundo número de O Imbecil traz uma definição antológica sobre o que seria um demagogo eleito: “Ele não vem de lugar nenhum. E se dirige para lugar nenhum. Nada é pior do que um visionário, um homem providencial, um profeta. O futuro é pesadelo dos franceses, então, melhor que seu edificador seja inodoro, banal e sorria gentilmente”. E a inspiração desta definição se pauta no pensar do semiólogo Roland Barthes (1915-1980), explicitado no seu livro Mitologias.
Creio quem o Brasil está muito bem servido de inteligências que desconstroem falsidades e besteiróis, imitações baratas e babaquices políticas, para não falar das baboseiras eclesiais, dos debates inócuos, dos argumentos e hipóteses asneirentas e das modas de calças que apenas ressaltam o cenário pélvico de adolescentes lindas e coroas nostalgicamente ainda esperançosas.
Para os entendidos em desmontagens das posturas aparentemente sérias, ousaria sugerir dois temas bastante atuais. Ei-los:
1. Por que, nos programas e novelas televisivas, o erotismo desnecessário e os amassos quase despudorados substituíram a criatividade lúdica e o suspense bem tramado? Ou será que os níveis neuroniais e analíticos dos telespectadores diminuíram dramaticamente?
2. Por que as autoridades educacionais brasileiras não estão se preocupando com os talentos infanto-juvenis das escolas públicas, imaginando todos aptos para os esportes e nunca para as áreas científicas e artísticas, salvando as exceções que são pontuais por excelência?
Dois pontos, duas perplexidades sentidas, dois questionamentos cidadãos. De um professor universitário que tem sempre em pedestal o conselho da Cora Coralina: "Aprendi que mais vale lutar do que recolher dinheiro fácil."

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Sábias Explicitações

No último feriadão, resolvi colecionar algumas reflexões do Rubem Alves, contidas no seu último livro Ostra Feliz Não Faz Pérola, Planeta, 2008. Pensamentos que são certamente irrelevantes para os cientificamente muito doutos, aqueles situados acima das humanidades contemporâneas, especialistas em quase coisa alguma. Tão acima dos meros mortais que revelam uma estupidez desconcertante, a dar razão ao próprio Rubem Alves, no primeiro pensamento dos escolhidos: "A honestidade dos estúpidos é mil vezes mais perigosa que a mentira dos inteligentes. É da honestidade dos estúpidos que surgem os fanáticos. Os fanáticos são pessoas honestas que acreditam nos seus pensamentos e nada os dissuade do seu caminho. E porque acreditam na verdade dos seus pensamentos tudo fazem para destruir aqueles que têm idéias diferentes". Nas Religiões, por exemplo, com seus dogmas, tidos como verdades absolutas, indiscutíveis, os estúpidos se fecham às premissas dialogais que consolidam emergências elucidativas, que ampliam enxergâncias que favorecem conversões, beneficiando evangelizações ecumênicas que se estruturam sem imposições parentais nem chiliquitismos fundamentalistas.
As reflexões do Rubem Alves são das mais variadas espécies. A seleção feita seguramente não é a melhor, tampouco direcionada aos que se encontram sob suspeita de caráter duvidoso, as carapuças enfiadas sendo tarefas das consciência intranqüilas.
1. Somos humanos apenas enquanto brilha em nós a esperança da alegria. Uma advertência que merece ser vista sob outras palavras: Todo puritano e moralista não possui alegria contagiante, sempre olhando tudo como se tudo estivesse podre, menos ele e seus derredores, inúmeras vezes repletos de bostelas irreversíveis.
2. A literatura nos libera da solidão e traz alegria. Professor que ministra doze livros para o aluno ler num período ínfimo de tempo é um pedantocrata que através da sua idiotia magisterial deseja sedimentar um conceito de erudito perante apalermados, os críticos já dispersados por conta própria.
3. Diante de plástico fixado em vidro de automóvel (Propriedade exclusiva de Jesus): Será que esses blasfemos não têm medo de que Deus os castigue com a maldição que lançou sobre o exército dos filisteus? Ele atacou o exército com uma praga de hemorróidas. Fico a imaginar se o castigo fosse aplicado hoje ...
4. Transcrevendo a oração de uma criança: Deus, que os maus não sejam tão maus e que os bons não sejam tão chatos. Um chute portentoso nos bagos dos metidos a sócios de Deus. Quiçá sósias.
5. Será que para se ter sentimentos religiosos é preciso abandonar a inteligência? Uma indagação muito aplaudida pelos “cabritos”, ainda que as “ovelhas” sem criticidade, apenas acocoramentos, não percebam a diferença. Ou que ainda não assimilaram o pedido de Paulo por uma renovação das suas mentes (Rm 12,2).
6. A tradição protestante não promete milagres, cultiva a razão, estimula a ciência e é profundamente ética. Perguntar não ofende: os anglicanos são mais protestantes ou mais romanos? Ou a média é a medida ideal das partes melhores das duas bandas?
7. As convicções são as principais armas do Diabo. Será que o Raul Seixas poderá ser considerado, no século XXV, um homem inspirado por Deus, dada sua letra sobre Metamorfose Ambulante?
8. O perigo é que a Igreja, em decorrência de acreditar-se possuidora da verdade, vá se distanciando cada vez mais da realidade, da ciência, das questões éticas do momento, da política e da própria realidad do seu povo. Corre o perigo de se tornar um gueto que ninguém leva a sério. Por que a Igreja resiste tanto em acompanhar o andar da carruagem planetária, percebendo-se também em contínua evolução, levando sempre em consideração uma multiculturalidade cada vez mais atomizada?
9. Quem perdoa tudo é porque não se importa com nada. Haverá uma correlação positiva e perfeita entre a reflexão acima e um cinismo perdoador que se amplia a olhos vistos no mundo ocidental?
10. Santo Agostinho observou que cada um deseja a paz que lhe seja conveniente. Muitos maiorais anseiam conviver com a paz dos cemitérios, para ninguém reclamar das suas patacoadas e omissões administrativas. Os mais conscientes tornam-se, então, necessários alertas contra as baboseiras que emergem, mesmo percebendo sem temor a raivosidade dos sem-caráteres flagrados.
11. Excesso de leitura pode fazer mal à inteligência. Já dizia Schopenhauer que a leitura só é boa quando é bovina, quando leva à ruminação.
12. Para ser ver bem não basta ter bons olhos. É preciso ter uma imaginação sensível. Discernir sobre o nunca certo e o quase errado, mesmo que o errado apenas beneficie os íntimos da corte, eis a receita que amplia belezas, renova esperanças, restabelece sorrisos e confianças, emula iniciativas catapultadoras, aquelas que nos lançam para amanhãs ainda não integralmente visíveis.
13. Se nada se espera de mim, estou livre para ser aquilo que nunca fui. Começar a viver mais perto de Deus, sem as amarras imposta pelas denominações, um excelente começo. Desapetrechando-se do apreendido por imposição escolar ou eclesiástica para assimilar cenários mais compatíveis com uma contemporaneidade evolucionária por derradeiro. Livrar-se das sedimentações cognitivas próprias dos que nunca abriram suas gaiolas. Abrir-se mais com os que não assumiram a máscara dos adultos. Determinar novos limites para seus derredores, para ampliar os pensamentos, dando guarida fraterna aos mais despretenciosos.
No mais, reler Lv 11,6-8 e 18,22 e 19,19 e 20,14 e 21,18-21 e 19,27 e 25,44; e Ex 21,7 e 35,2. Para melhor defender os direitos dos seres humanos, independentemente de sua orientação sexual. E para melhor compreender a Bíblia como livros escritos por seres humanos sujeitos às limitações próprias de qualquer autor ou copista.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Assembléia dos Purpurados

A convocação chegou em papel especial, brilhoso, endereçamento esmeradamente a letras góticas, envelope fechado com selo da autoridade maior. E o objetivo era um só: ampliar a dignidade das discussões e debates sobre temas polêmicos, evitando-se as cocadas de sal que bem não fazem a cristão de bom caráter.
Na mesa das autoridades, como pano de fundo, uma faixa enorme dizia Maldito o que faz com negligência o trabalho do Senhor! (Jr 48,10). E de cada lado, duas outras citações: a primeira proclamava Que a tua mão esteja comigo, guardando-me de males e livrando-me de dores (1Cr 4,10), enquanto a segunda continha Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada me domine (1Co 6,12).
Concluída a saudação inicial, o de barbas branquinhas a presidia. Ao seu lado direito, um jovem de personalidade cativantemente forte, aparentando uns trinta e poucos anos. Do outro lado, um senhor de muitos quilômetros percorridos, embora dotado de impressionante energia revitalizante, como se o hoje já fosse do seu pleno conhecimento, tudo muito bem captado pelo seu cabelo engomado, eriçado em forma de chama. Nas demais cadeiras, uma senhora muito meiga, olhar atento ao que se passava na platéia; um senhor bem idoso, de cajado, a portar camisa com o impresso Só o amor constrói; um judeu baixinho, invocadíssimo, tido como aluno de Gamaliel; e um de nome original Cefas, que tinha tido uma função deveras significativa no Concílio de Jerusalém, tempos primeiros.
A platéia era composta de gente de toda espécie. Sérios, obreiros, missionários, coerentes, convertidos e bem intencionados eram maioria esmagadora diante dos fingidos, ananicados, metidos a sério, hipócritas e puxa-sacos, uma minoria insignificante que só queria ver o circo pegar fogo. Sem qualquer criticidade, mais emoção que bom senso, os minoritários ansiavam pela chegada dos quinze minutos de fama na produção dos alaridos de costume, desses que às vezes deixam os mais conscientes com uma vontade danada de retrucar raivosamente.
Cumpridas as formalidades de praxe, coube ao presidente da Mesa Diretora a Fala Máxima: Vivemos instantes históricos encruzilhadais. Preservar a identidade dos testamentos que nos balizam é o que nos importa atualmente. Entendam de uma vez por todas que toda linguagem crítica é desobediente, e que ainda não se inventou uma vacina que a proteja de equívocos e mal-entendidos. Percebam que o principal valor ético é o da bondade, as reticências explicitadas por omissões, intenções débeis,nepotismos, fuxicarias ou ânsias de poder, nada devendo ser próprio para uma sempre buscada conduta cristã ilibada. Não iremos muito longe se perseverarmos nos conduzindo, de precariedade em precariedade ou tentando descobrir piolho em casca de ovo. Nunca se olvidem de um fato: a narração e a argumentação constituem a irrenunciável tarefa metodológica de qualquer teologia. Convém, mais que nunca, serenar e buscar sempre o lado contemporâneo das coisas, nunca se esquecendo que o Ser Humano é algo muitíssimo mais valioso que um breve parêntese entre duas obscuridades, a do nada, de onde ele veio, e a do sepulcro, para onde seu corpo se encaminhará. Todo Ser Humano que se leva a sério postula edificar amanhãs compatíveis com a Mensagem, somente aplacando sua inquietude quando adentrar no último porto, onde se localiza a Minha Casa. Inútil é querer pontificar as modalidades de ser fiel a Mim, pois cada um vive como pode, na vida digna que lhe foi dada, a ninguém sendo dado o direito de sentir-se acima do bem e do mal. Viver a meu favor e do lado deste Jovem que sempre foi Eu é muito arriscado. Como também merece aplausos generosos viver sem menosprezar ninguém, pois atire a primeira pedra quem nunca maculou qualquer um dos balizamentos da Criação.
Cabisbaixos, os da platéia perceberam-se miúdos, envergonhados das suas pequenezas, entristecidos com suas ânsias de poder e de permanecer assalariados a qualquer preço. Aberta a palavra aos participantes, ouviu-se um uníssono: Eu pecador ...

terça-feira, 20 de maio de 2008

Nomes e Sobrenomes

Nas varas especializadas de família, no mundo inteiro e sem distinção, os processos correm em segredo de justiça, muito embora alguns casos singulares, por não possibilitarem constrangimento de espécie alguma, sejam passíveis de ampla divulgação, servindo de incentivo para iniciativas correcionais que eliminam acanhamentos e complexos os mais diferenciados.
No mundão lusófono, por exemplo, como nas demais localidades, acontece cada coisa que até o Homão lá de cima duvida. Agora mesmo, amigo fraterno de Oeiras, uma das mais hospitaleiras cidades portuguesas, me envia cópia de uma petição, fato acontecido em plena África de língua camoniana, com um não menos interessante despacho de magistrado reconhecido pela sensatez dos seus pronunciamentos.
A petição tem o seguinte teor, resguardada a identidade da sede da comarca e também do país: Sicranópolis, 5 de março de 2002. Ao Senhor Juiz da Vara e Família. Assunto: Solicitação para mudança de nome. Eu, Maria José Pao, casada, do lar, gostaria de saber da possibilidade de se bulir no sobrenome Pao de meu nome, já que a presença do Pao tem me deixado embaraçada em varias situações. Desde já antecipo agradecimento e peço deferimento. Maria José Pao.
Em resposta, o douto magistrado lhe remeteu a seguinte correspondência: Cara Senhora Pao: Sobre sua solicitação de remoção do Pao, gostaríamos de lhe informar que a nova legislação permite a retirada do seu Pao, mas o processo é deveras complicado. Se o Pao tiver sido adquirido após o casamento, a retirada é mais fácil, pois, afinal de contas, ninguém é obrigado a usar o Pao do marido se não quiser. Se, entretanto, o Pao for do seu genitor, o caso se torna ainda mais difícil de solução imediata, pois o Pao a que nos referimos é de família e vem sendo usado por várias gerações. Se a senhora tiver irmãos ou irmãs, a retirada do Pao a tornaria diferente do resto da família. Não seria agradável cumprimentar todos com Pao, menos a sua pessoa. Por outro lado, cortar o Pao de seu pai deverá magoá-lo de modo irreversível, deixando-o decididamente infeliz. Outro problema, porém, está no fato de seu nome completo vir a conter apenas dois nomes próprios, ficando esquisito caso não haja nada para colocar no lugar do Pao. Isso sem falar que as demais pessoas estranharão muito ao saberem que a senhora não possui mais o Pao do seu marido. Uma opção bastante viável seria a troca da ordem dos nomes. Se a senhora colocar o Pao na frente da Maria e atrás do José, o Pao pode restar mais escondido, porque a senhora poderia assinar o seu nome como Maria P. José. Nossa opinião é a de que o preconceito contra este sobrenome já acabou há muito tempo e que, já que a senhora usou o Pao do seu marido por tanto tempo, não custa nada usá-lo um pouco mais. Eu mesmo possuo Pao, sempre usei e muito poucas vezes o Pao me causou embaraços. Atenciosamente, Desembargador Joaquim Manoel Pao, Vara de Família do Tribunal de Justiça.
Lembro-me, ainda em meados dos anos 90, de um outro problema julgado na mesma Vara de Família daquelas bandas. Um profissional recém diplomado em nível superior tinha peticionado solicitando alteração do seu nome de batismo, Sebastilhão Bunda Verde. Deferido o pedido, a autoridade judicial convocou o signatário para uma audiência final decisória, quando lhe foi perguntado sobre o novo nome desejado. Como resposta, sem causar qualquer alarido na sala de audiências, o inquirido, jovem apessoado, de terno engomado e gravata de nó muito bem construído, declarou gostar de se assinar Sebastilhão Bunda Negra, posto que ele se sentia integrado ao reino animal, jamais se imaginando pertencer ao reino vegetal...
O pesquisador Mário Souto Maior certamente lá da eternidade já fez as suas devidas anotações, ele que muito se notabilizou pelas suas pesquisas em busca de nomes próprios pouco comuns.
(Crônica publicada no Portal da Globo – Nordeste)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Um Desconvidado em Lambeth 2008

Sonhei que, bem de mansinho, sempre acompanhado fraternalmente de perto pelo Deão de Canterbury, Reverendíssimo Robert Willis, o teólogo John Shelby Spong, que foi bispo anglicano por 24 anos de Newark, Estados Unidos, ingressava no amplo amplo salão, onde em instantes aconteceria a solenidade de abertura da Lambeth 2008, presidida pelo arcebispo Rowan Williams. Numa pasta modesta que ele portava numa das mãos, alguns papéis, inclusive um trecho de texto bem escrito do Rev. Jorge Aquino, um comentário sobre Lambeth 1998: “ A nossa visão da missão deve oferecer a esperança profunda de que o propósito principal da humanidade é glorificar Deus e ter alegria eterna da presença de Deus. A missão é amor, a suprema realização do novo mandamento, (Jo 13.34,35). Todavia, a nossa estrutura raramente nos proporciona um ambiente onde se possa amar a alegria que transforme as pessoas, as comunidades e as vizinhanças em que vivemos. ... Reconhecemos que, para a revitalização dessa forma, é preciso que a nossa Igreja mude sua maneira de ser, em muitos lugares, mude atitudes, acolha pessoas e cuide delas para o crescimento. Tudo isto implica em transformação.
Cumprimentando todos os presentes, o bispo Spong não manifestou nenhuma intenção de falar. Apenas postou em cima de uma pequena mesa situada ao lado esquerdo da entrada principal um impresso de página e meia, onde já estava empilhado um quase milhar de folders contendo a programação oficial e os assuntos pertinentes ao evento.
O impresso do Spong se iniciava com uma definição de Cristianismo Progressista, que ele mesmo adotara para elaborar seu trabalho mais recente Jesus For The Non-Religious, edição Harper 2008: “Cristianismo Progressista é o nome dado a um movimento do Cristianismo Protestante contemporâneo, caracterizado pela disposição de questionar a tradição, aceitar a diversidade humana e pela forte ênfase na justiça social. Possui uma crença profunda na centralidade da instrução de amarmo-nos uns aos outros no ensino de Jesus Cristo. Direcionando os seus adeptos em três vertentes: na compaixão, na promoção da justiça e misericórdia, e na solução dos problemas sociais da pobreza, discriminação, e questões ambientais.
Logo abaixo da definição acima, os oito pontos basilares do Cristianismo Progressista: 1. Tentamos compreender Deus através da vida e ensinos de Jesus; 2. Reconhecemos a fé de outras pessoas que têm outros nomes para o caminho que as leva a Deus, e reconhecemos que seus caminhos são verdadeiros da mesma maneira como nossos caminhos são verdadeiros para nós; 3. Compreendemos que o partilhar do pão e do vinho em nome de Jesus seja uma representação de uma antiga visão do banquete de Deus para todos os povos; 4. Convidamos todas as pessoas a participar em nossa comunidade e em nossa vida de adoração, sem insistir que elas se tornem como nós para serem aceitas, incluindo, mas não se limitando a: crentes e agnósticos; cristãos convencionais e céticos; mulheres e homens; aqueles de todas as orientações sexuais e identidades de gênero; aqueles de todas as raças e culturas; aqueles de todas as classes e habilidades; aqueles que esperam um mundo melhor e aqueles que perderam a esperança; 5. Sabemos que a maneira como tratamos uns aos outros é a expressão mais completa do que cremos; 6. Encontramos mais graça na busca por entendimento do que em certeza dogmática, mais valor na dúvida que em absolutos; 7. Organizamo-nos em comunidades dedicadas a equipar-nos para o trabalho que sentimos sermos chamados a realizar: esforçar-nos pela paz e justiça entre todas as pessoas, proteger e restaurar a integridade de toda a criação de Deus, e trazer esperança àqueles que Jesus chamou de os menores de seus irmãs e irmãos; e 8. Reconhecemos que ser seguidores de Jesus é custoso, e implica amor desinteressado, resistência consciente ao mal, e renúncia de privilégio.
No verso do impresso, uma historinha despertadora, daquelas que ressaltam a importância da tomada de decisões consistentes, sem as quais todo empreendimento naufraga, mesmo os mais aparentemente indestrutíveis. Tal e qual o acontecido com o RMS Titanic, afundado em 15 de abril de 1912, na sua viagem inaugural, saindo de Southampton, Inglaterra. Naufrágio que vitimou mais de mil e quinhentas pessoas. Um transatlântico portentoso, cujo panfleto de propaganda da viagem primeira estampava um garboso “concebido para ser infundável”. Um projeto de muito dinheiro, destruído por uma fatídica constatação do inquérito: “se os vigias noturnos tivessem binóculos, a tragédia seria evitada, pois o iceberg seria visto de longe”.
A historinha contida no folheto do bispo Spong era a seguinte:
Uma vez um mestre fez uma experiência com seus alunos. Pegou um vaso e encheu-o com pedras grandes. Depois, ergueu o vaso e perguntou aos alunos: o vaso está cheio? A turma se dividiu, com alguns dizendo que sim e outros que não. O mestre então, pegou algumas pedras pequenas e colocou-as no vaso. As pedras pequenas se encaixaram entre as grandes, e o mestre ergueu o vaso, novamente, perguntando: o vaso está cheio? Desta vez a maioria da turma respondeu que sim. O mestre, então, pegou um saco de areia e despejou dentro do vaso. Depois, repetiu a pergunta. A grande maioria respondeu que sim. O mestre, então, pegou uma jarra de água, derramou no vaso, e perguntou: o vaso está cheio? A turma finalmente chegou a um consenso. Todos responderam que sim. Então o mestre falou: Este vaso é como a nossa vida. Se eu tivesse colocado as pedras pequenas, a areia ou a água em primeiro lugar, não haveria espaço para as pedras grandes. As pedras grandes na nossa vida são: família, amigos, carreira, trabalho, lazer e saúde. É fundamental que não descuidemos delas. Não podemos perder muito tempo com coisas sem importância (as pedras pequenas), pois corremos o risco de não haver espaço para as coisas que realmente são importantes (as pedras grandes).”
No meu sonho, retirando-se após muitos abraços e algumas caras entronchadas, o bispo Spong declarava a uma jornalista que oficiosamente iria cobrir o evento: - Desejei apenas ressaltar, com o meu folder, como uma instituição “titanítica” pode esboroar-se rapidamente caso binóculos não sejam utilizados. Nem as pedras mais importantes trabalhadas com atenção redobrada, deixando os pedregulhos para outras ocasiões menos significativas. A imaturidade não desaparece se não nos apossarmos de nossa vida episcopal responsavelmente. Disse e repito: Ainda sou um crente. Deus é infinitamente real para mim. Sou cristão. Jesus é para mim não apenas uma presença de Deus, mas a porta de acesso para a realidade de Deus que está além de minha capacidade de entender. Sou uma pessoa de oração, o que para mim significa contemplar o significado de Deus como vida, amor e existência e agir de acordo com esse significado. Sou uma pessoa com profundos compromissos éticos, o que para mim significa tornar-me agente da vida, do amor e do existir para todas as pessoas, através de comportamento tanto individual como corporativo. A marca de fé que almejo é uma maturidade senhora de si e não uma dependência própria de criança. Minha esperança de céu está na habilidade de compartilhar a eternidade de Deus, que é a fonte da vida, do amor e a Base da Existência.
Ainda no meu sonho, abençoando Lambeth 2008 mesmo de longe, o bispo John Shelby Spong retornava aos seus pagos, deixando a jornalista aos prantos, por ter sido abraçado por um teólogo de muita binoculidade.

domingo, 18 de maio de 2008

Mortes Anunciadas

Gosto que me enrosco de apreciar posicionamentos de gente notável, de QI gota serena, nunca puritano nem moralista, tampouco travestido de religiosidade fingida. Inteligência distanciada das posturas sem-caráter dos viciados em empregar parentes e apaniguados em atividades remuneradas de sacristia e derredores.
Acredito ter encontrado um modo de combater as hipocrisias que, em épocas várias de cada ano, mormente as mais religiosoas, emergem com intensidade, incomodando pra caramba os que abjuram acrobáticos fingimentos e melosas adulações. E que enchem, a cada dezembro, por exemplo, todos os sacos dos papais-noéis, sobrecarregando as pobres renas e seus trenós.
Para os que se imaginam senhores do mundo, a la Bush, um pulha eleito por uma sociedade que ainda não dimensionou o quanto está sendo deplorada pelos povos civilizados, a estocada de Ludwig Wittgenstein, o mais irrequieto filósofo do século XX, é mais que oportuna: “Não tente cagar mais alto do que o seu rabo”. Uma ferroada de muita aplicabilidade atual, nos setores mais diferenciados, eclesiásticos inclusive.
Outro dia, num restaurante de classe média, as conversas em altos brados de algumas mesas carregadas de parvoíces, daquelas que estão revestindo solenidades e festas de formatura, fizeram uma senhora da nossa sociedade, sessentona de muita classe, casada e de cuca desfrescurizada exclamar: ”Meu Deus, quanta idiotice junta!! E eu pensava que só quem gostava de bunda era penico”. Os aplausos do entorno silenciaram a mesa-estrebaria.
Na Universidade Federal de Pernambuco, em aula que se findava, um arroto acanalhadamente deselegante deixou os sadios alunos presentes petrificados, sem um riso sequer estampado. A docente, sem perder a ternura, logo esclareceu: ”Gente amiga, informo que o adestramento de cavalos se faz com uma competência ímpar no Regimento Dias Cardoso, aqui bem pertinho. Sem necessidade de ferraduras”. Até hoje, o animal se ressente da gracinha feita. Segundo os colegas, o ajumentado jamais possuirá um currículo. Só prontuário.
Ao término do julgamento de Giordano Bruno pela Inquisição Vaticana, uma frase por ele dita ecoa até hoje nos ouvidos dos que teimam em esconder as verdades embaixo dos tapetes: “Talvez vosso medo de impor-me esta sentença seja maior que o meu de aceitá-la”. A leitura de um livro recente – O Papa e o Herege, Michael White, Record, 2003 -, relatando todas as fases do processo, descoberto pelo cardeal Angelo Mercati nos arquivos pessoais de Pio XI, aguça a necessidade de se continuar combatendo os contratempos impostos pelos que detestam transparência e claridade. Integrem eles as igrejas, as polícias, o executivo, a política, o poder judiciário e as estruturas de uma mídia cada vez mais inteligentemente investigativa. São inimigos de sol, posto que adeptos da mais negra obscuridade.
No seu instingante Criatividade e Grupos Criativos, Domenico de Masi homenageia Gilberto Freyre, quando este dizia: “Se dependesse de mim, eu não estaria nunca plenamente maduro nem nas idéias nem no estilo, mas sempre verde, incompleto, experimental”. Quando observo alguns se dizendo amadurecidos, de pronto imagino que um mórbido estado d’alma neles já se estabeleceu. O “estou realizado” é cancro da pior espécie. De difícil cura, antecipa a morte mental e retarda, para os crentes, a construção do Reino. Pior que ele só os hidroceléticos, aqueles que deixam a gente com o saco estropiado.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Testemunho sobre um mestre

Ainda permaneço imPACtado com a taluda grosseria cometida pelo senador Agripino Maia, por ocasião do comparecimento da ministra Dilma Rousseff no Senado Federal, atendendo convocação. Impressiona-me o despreparo estratégico-tático que está tomando conta do segmento oposicionista, exceções à parte, o besteirol sendo transmitido ao vivo para todos os rincões brasileiros.
Conversando com colega de caminhada sobre as baboseiras que poderiam ser evitadas, se adequadamente fossem gerenciadas as inteligências dos desatinados, por ele fui despertado para um testemunho dado por William A. Cohen, um general-de-divisão da Reserva da Força Aérea norte-americana, o primeiro PhD em Gestão Executiva da Claremont Graduate School, em meados dos anos 1970, atualmente uma autoridade respeitada em formulação e implementação de liderança e estratégia.
O livro Uma Aula com Drucker – As Lições do Maior Mestre de Administração, do Cohen, deveria tornar-se leitura obrigatória para os que lidam com organizações, inclusive políticas. De leitura sem eruditismos, o ex-aluno de Peter Drucker esmiuça os balizamentos daquele que, segundo ele, foi “o maior pensador em gestão de nossa época”.
Tenho um ligeiro pressentimento que o senador Agripino Maia nunca compreenderia devidamente o Peter Drucker, quando ele proclamava que “o planejamento não é uma tentativa de predizer o que vai acontecer. O planejamento é um instrumento para raciocinar agora, sobre que trabalhos e ações serão necessários hoje, para merecermos um futuro. O produto final do planejamento não é a informação: é sempre o trabalho”. E por incompreender Drucker, o senador tentou intimidar a ministra Rousseff, economista com mestrado e doutorado em economia, militante em estratégias de impacto. E que participou, anos 1960, da ação que sequestrou o cofre do ex-governador Adhemar de Barros contendo a “módica” quantia de US$ 2,6 milhões de dólares. Iniciativa mais que ousada para os “direitosos” da época, que rendeu à ministra um encarceramento por três anos nos porões do regime militar.
Uma outra ponderação do Peter Drucker prende-se aos truísmos antigos que ainda são tidos e havidos como intocáveis pelos que não sabem fazer oposição no Brasil, imaginando ter “informações” consideradas verdadeiras bombas. Sem atentar para uma outra notável lição do Mestre Drucker: “O conhecimento era um bem privado, associado ao verbo saber. Agora, é um bem público ligado ao verbo fazer”. E o senador, meninão ainda, não soube fazer porque nada sabia sobre como debater. Ele desdenhou a participação da ministra Dilma na reestruturação do PTB, então sob o comando de Leonel Brizola, participando da fundação do Partido Democrático Brasileiro, após a perda do PTB para o grupo de Ivete Vargas. Somente em 1999, a ministra sai do PDT e ingressa no Partido dos Trabalhadores, após caminhada de múltiplas articulações, para senador potiguar algum botar defeito.
Se tivesse dinheiro pra jogar fora, enviaria ao senador Agripino Maia, o livro acima citado, feito pelo ex-militar estadunidense de alta patente. Que foi aluno do austríaco Peter Drucker, o maior guru de administração do século XX, nascido em 1909 e eternizado em 2005, autor de mais de vinte livros e que teve uma influência significativa nos destinos da administração mundial. Com idéias modernas, arrojadas e inovadoras, sem grosserias que denegrissem quem quer que fosse.
Diante da histórica resposta dada pela ministra Dilma Rousseff ao “bravateiro” senador Agripino Maia - "eu fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar falar a verdade para os torturadores, entrega os seus iguais. Eu me orgulho muito de ter mentido na tortura, senador" – a curiosidade aumenta nas rodas de bate-papo político: como reagiria o senador, submetido a uma sessão de tortura? Será que ele falaria somente a verdade, nada mais que a verdade?
(Publicado no Portal da Globo – Nordeste)

domingo, 11 de maio de 2008

Amós em Lambeth 2008

Num sábado de muito trabalho profissional, depois do almoço comecei a ler um livrinho pra lá de oportuno para os tempos de agora, quando tudo termina em pizza, onde o nepotismo se enraíza até nos meios eclesiásticos, quando fenômenos futebolísticos se envolvem com fundos alheios e madrastas assassinas se travestem chorosas de chapeuzinhos vermelhos, visando engabelar os mais desatentos. E imaginei com os meus botões, se houvesse a possibilidade do convite, como seria a fala do Profeta Amós, título do livrinho, para os participantes de Lambeth 2008, o maior evento da Igreja Anglicana, a ser realizado proximamente nas terras da rainha Elizabeth II.
Para quem não tem familiaridade com as Escrituras Sagradas, Amós é o terceiro dos chamados profetas menores. Segundo a tradição, Amós era vaqueiro e cultivador de sicômoros, um fruto comestível parecido com o figo. Talvez fosse ainda um pequeno lavrador, proprietário de um reduzido rebanho de ovelhas e cabras.

Imaginei o pronunciamento de Amós diante de uma platéia de notáveis purpurados, num evento que congregará mais de 800 bispos, a ser presidida pelo Arcebispo de Cantuária Rowan Williams. Ele, com seu trajar de povo, a encarar com destemor os bispos anglicanos convidados, certamente assim se pronunciaria:
Minha gente amada, responsável por uma parte significativa do Cristianismo do presente século. Não sendo profeta, nem filho de profeta, tampouco vidente, ainda que integrante de uma comunidade profética, senti a necessidade de me pronunciar nesta assembléia conceituada, inspirado pelos ensinamentos testamentários para nós transmitidos desde Abraão, já de pronto discordando da discriminação feita com alguns bispos anglicanos que se encontram em pleno gozo dos seus direitos, simplesmente porque eles advogam novas pedagogias missionárias cristãs para o mundo em mutação. Reconheço que minhas palavras serão duras, bastante duras. Mas eivadas de muito respeito pela trajetória dos que batalham por um mundo mais digno e justo para todos. Um mundo que se encontra ansioso por uma mais equilibrada repartição de riquezas, para gerar a estabilidade e a confiança necessárias para um convívio harmonioso de todos. Na atual conjuntura, há uma necessidade urgente de menos lentidão na defesa dos valores fundamentais da dignidade humana, embora saibamos de longa data quais as causas basilares dos sofrimentos dos povos do planeta: afastamento de Deus, idolatria, egoísmo e individualismo, não reconhecimento do próximo, que também é Filho da Criação. A opressão e as grandes desigualdades distributivas dos bens materiais, a falta de sensibilidade pelo sofrimento do outro, a exclusão social, a crescente hipocrisia religiosa e a ânsia de grandes lucros estão a merecer severas admoestações de todos os irmão aqui presentes, fortalecendo o direito dos frágeis. É chegada a hora de uma mais ampla percepção coletiva, respeitadas todas as divergências, pelos Direitos Humanos, antes que o todo social tipifique as religiões como instrumento principal de ampliação de toda alienação histórica. Nunca a prosperidade material beneficiou tão poucas pessoas, favorecendo a deseducação de milhões de párias, ameaçando a liberdade política das nações soberanas. Tenho consciência plena: muitos de vocês desejam apenas docilmente anunciar a palavra do Senhor, desligando-se das questões sociais de exploração e injustiça. Sou testemunho da fragilidade pessoal de alguns dos senhores. Estou convicto que, neste recinto, há os que lutam ombro a ombro com os necessitados e os que, alienados diante da opressão e da rapinagem, perderam toda a sensibilidade, desapercebidos das suas próprias destruições, e do todo por conseqüência. Como servo do Senhor, não posso calar a minha voz numa ocasião tão significativa para os amanhãs anglicanos, que deverão permanecer unificados, sob pena de irreversíveis e multiplas bifurcações. Buscar agradar o Poder, não se indignando diante da brutalidade, da venalidade e da hipocrisia que estão impregnadas no mando executivo de todos os Estados, é possibilitar a ampliação do conceito de religião como uma manipulação repulsiva e insensível, a favorecer um crescente enjaulamento psíquico dos seres humanos nos quatro rincões do planeta. Para não falar, aqui e agora, nos escravizados na África por cristãos portadores de justificativas virtuosas. Deus se enoja dos cultos que não respeitam a justiça e a sinceridade no relacionamento entre todos os povos. Incentivo-os, portanto, à prática da justiça em todos os atos da vida, porque ela é a parte mais essencial que nos foi transmitida pelo Senhor. Desculpem-me a rude franqueza, mas estejam seguros que Deus não está impressionado com ensinamentos teológicos em seminários, posto que nunca exigiu isso dos seus seguidores. Nenhum ser humano carece da permissão de autoridade eclesiástica para pregar a Mensagem do Senhor. Esqueçam as suas frívolas credenciais purpuradas e insistam numa cativante pregação da solidariedade fraterna inspirada por Deus, posto que somente ela libertará o mundo, inclusive o Anglicanismo, posto que os amanhãs dependerão da habilidade que tivermos na ultrapassagem dos nossos egocentrismos, quando poderemos ser considerados plenamente humanos. Ponho fé inabalável nesta Lambeth 2008, que deverá ser renovadora, sem postergações acovardadas nem animosidades pessoais diante da formulação de críticas objetivas dos não-domesticados, que estão prenunciando uma erosão avalassadora do Cristianismo, provocada por uma não-enxergância em reconhecer os velozes e emergentes sinais dos tempos. Tempos que ‘dispensam qualquer veneração divinizadora, aduladora, idealista de seus admiradores (da Igreja), preferindo o amor forte, sofredor e esperançoso dos participantes, dos visados e dos co-responsáveis’. Compreendam, antes que seja tarde demais, porque nenhuma hierarquia humana deve se arvorar em receptora da revelação, tampouco guardiã única das suas verdades. E abominem todo medo diante das ultrapassagens libertadoras na direção do Ômega chardiniano, ainda que desprovidos de sutilezas teológicas, embora seguramente bem próximos dos desfavorecidos, com suas angústias e esperanças. Obrigado pela atenção dispensada.”

sábado, 10 de maio de 2008

Esclarecimentos do Silvino

Tem gente que só vive de parir poeira, eis a frase que o João Silvino da Conceição gosta de proclamar quando está no meio da sua turma, rodeado de garrafas vazias das mais variadas marcas e patentes.
A curiosidade vem de imediato: e o que é parir poeira? Para esclarecer, o João se engalana todo: parir poeira é produzir atordoamentos das mais variadas espécies com objetivos nunca explícitos, sempre induzidos por patologias variadas, tudo sendo efetivado pelo bel prazer de estabelecer divisões nos setores lúcidos, para implementação de mandonismos livres, nunca leves, sempre ao largo das elementares conveniências civilizatórias.
Para parir poeira, segundo o Silvino da Conceição, basta um receituário sem muita complexidade: uma gigantesca incapacidade de amar, uma sensação messiânica de salvador da pátria, uma inteligência voltada apenas para interesses pessoais, um derredor de aplaudidores de ocasião e um rosário de ontens sempre enaltecidos, embora nunca na devida conta comemorados pelos outros.
Segundo João, os paridores de poeira são identificados nas diferenciadas categorias sociais, nos dois gêneros, na oposição e na situação, em denominações religiosas, sindicatos e quartéis, entre eles sempre existindo a dúvida acerca de quem é o mais soberano, diante da existência de um só trono. Alguns se sentem sócios ou sósias de Deus, pouco se lixando para a advertência contida na primeira carta de Paulo aos coríntios: “Mas Deus escolheu o que para o mundo é loucura para envergonhar os sábios; e escolheu o que para o mundo é fraqueza para envergonhar o que é forte” (1Co 1,27).
Depois de mais de uma dúzia de questionamentos, com os esclarecimentos indispensáveis, o João Silvino encarece um pouco mais de atenção para fornecer algumas dicas que lhe foram repassadas por um nordestino muito arretado, Paulo Freire, já eternizado, após ter deitado raízes múltiplas e pluriideacionais num Nordeste com ânsia de novos horizontes. A primeira delas está no livro Pedagogia da Esperança, que Freire diz ser “uma defesa da tolerância, que não se confunde com a conivência, da radicalidade; uma crítica ao sectarismo, uma compreensão da pós-modernidade progressista e uma recusa à conservadora, neo-liberal”. E ainda revigora: “ou nos desenvolvemos cada vez mais e organicamente, ou pereceremos historicamente, isto é, nos transformamos numa vasta massa humana de teor de vida mais vegetativa do que histórica, carente de tudo e sob a proteção inevitável de um paternalismo”.
Uma senhora presente, ladina, visivelmente satisfeita, indaga do Silvino se as Escrituras Sagradas podem favorecer a conversão de um paridor de poeira. A resposta veio de bate-pronto: “Não só podem, como devem ser explicitadas diante do empoeirador: Quando dois homens se envolverem numa briga, terão que levar a causa ao tribunal (Dt 25,1); Que a mão do Senhor esteja sempre com todos nós, guardando-nos de males e livrando-nos de dores (1Cr 4,10)”.
Diz Silvino que a poeira quando for dissipada, sem vencidos nem vencedores, saberemos todos, cada um nos seus espaços específicos, cimentar muito bem os próprios caminhares, percebendo-nos sempre metamorfoses ambulantes, conscientes da misericórdia divina, que saberá consolidar para nós as obras de nossas mãos (Sl 90,7).
E aí foi a vez da mulher arguta: - Nas terras do mestre Vitalino, João, saberemos guardar no coração os ensinamentos do Senhor, sempre inclinando nossa inteligência para o discernimento, pois de há muito sabemos “como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento” (Pv 3,13).
A reunião findou com uma oração, todos encarecendo as graças suficientes para que a poeira não mais ofusque os olhos dos incautos, tampouco obstrua a caminhada de todos aqueles que buscam em Jesus de Nazaré seu principal facho de luz existencial, radicalmente respeitados os destinos futuros de cada Filho da Criação.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Síndrome do Vira-lata

Todos conhecem o complexo de vira-lata, expressão utilizada pelo pernambucano Nelson Rodrigues, que assim classificava os bípedes metidos a seres humanos que abanavam euforicamente o rabo diante de qualquer meia pataca metida a autoridade, desmanchando-se em mesuras descabidas. E que se satisfaziam com qualquer mil-réis de atenção pré-fabricada, sem nunca se importar para as intenções do gesto, geralmente egolátricas, patologia do contemplado pela babação.
O João Silvino da Conceição, cristão que nem eu, “independência futebol clube” a todo vapor, como requerem os balizamentos de uma salutar cidadania, me disse, certa feita, que sentia muita pena dos vira-latas bípedes, fossem eles de que área fossem, civil, militar ou eclesiástica. Mas que sentia uma ojeriza da gota serena dez vezes mais taluda daqueles que se aproveitavam dos vira-latas despersonalizados de carteirinha, também de cidadania desclassificatória, sempre suspirosos por afagos puxa-saquísticos.
Segundo João, todo vira-lata é portador de elevada mediocridade revestida de lantejoulas que camuflam o caráter. E quem deles se aproveita é pegajoso, sacripanta fantasiado de beato, que não sabe jamais refrear os entusiasmos bajulatórios dos seus derredores, proporcionados em visitações públicas, em cultos religiosos ou simples encontros sociais. A adulação manifesta por um vira-lata para com um viciado em elogios babosos quase sempre neste último provoca êxtases orgásmicos pra lua de mel alguma botar defeito.
A teoria vira-lática do João Silvino da Conceição é de arrepiar cabelos de reis, rainhas, peões, cavalos e bispos, independentemente das cores do tabuleiro e da sua data de fabricação. Diz ele que, na sua caminhada terrestre, já mais pra ômega do que pra alfa, jamais viu um vira-lata com uma compostura cidadã mínima para justificar seu interior racional de ser humano. E baseando-se num livrinho português, do lusitano Alberto Pimenta, o João Silvino lista os princípios paradigmáticos da sua teoria: 1. Vira-lata existe em todos os ambientes, especialmente nos que facilitam a sua atividade bajulatória. Nos gabinetes políticos, nos quartéis, nos recintos religiosos, sempre haverá vira-latas alisando despudoradamente os bagos da chefia; 2. Todo vira-lata pretende chegar a todos os lugares sem sair pra lugar nenhum; 3. Os vira-latas sabem comunicar-se muito eficazmente uns com os outros, favorecendo a ampliação dos elogios pelos mais diversos meios de comunicação; 4. Todo vira-lata detesta a criticidade dos neuronialmente bem dotados, sempre buscando novos pretextos para babadas bem sucedidas, a maioria delas de grotesco ridículo; 5. O vira-lata está se lixando para a advertência feita, um dia, por Antoine de Saint Exupéry, a de “ser um parlapatão imbecial que vem e censura a palmeira por ela não ser cedro e o cedro por ele não ser palmeira e, de tanto misturar os papéis, o que ele faz é tender para o caos”; 6. O vira-lata, na área eclesial, quando apelidado de bunda-mole sacristioso, imagina-se altamente elogiado, posto que está se “imolando cordeiristicamente” pela chefia que o utiliza sem dó nem piedade; 7. Todo vira-lata não entende porque os humanismos solidários não devem ser jamais baralhados com pieguismos paspalhões, que apenas conservam legiões na ignorância e na irreflexão, qualquer palmadinha nas costas se convertendo em apoteóticos agora-a-coisa-vai; 8. Todo vira-lata jamais levará na devida conta a reflexão de Baltasar Gracian: Os que mais se orgulham de suas proezas são os que menos têm motivos para tanto. Contente-se em fazer, deixando os comentários para os demais.
A teoria vira-lática do Silvino da Conceição traz uma recomendação final saudável: a de sempre procurar manter os interiores corporais limpos em todas as ocasiões, mesmo nas aparentemente vitoriosas, evitando odores desagradáveis no derredor.

O Evangelho do Cristo Cósmico

Quando Leonardo Boff lançou o seu primeiro livro, em 1971, de título acima, jamais imaginaria que ele seria reeditado quase quatro décadas depois, tamanha sua atualidade no cenário contemporâneo. A busca da unidade do Todo na ciência e na religião, seu subtítulo, procura atualizar a mensagem da Ressurreição, vista pelo cristianismo dos primeiros tempos como a emergência de um Homem Novo, para os tempos de agora, da física quântica e da nova biologia, quando a Igreja necessita difundir a mensagem do Homão da Galiléia sob prismas cativantes e consistentes. Vertentes capazes de novamente entusiasmar as gerações mais jovens, hoje distanciadas dos conteúdos teológicos e filosóficos que analisam e interpretam os ensinamentos crísticos inseridos numa Teoria de Tudo, “reforçando uma leitura holística e integradora da realidade, e encorajar uma mística cósmica que abrace as ciências, as religiões, as tradições espirituais e a sensibilidade ecológica contemporânea”, segundo o próprio autor, autor mais de 70 livros, um dos formuladores da Teologia da Libertação, agraciado em 2001 com o Prêmio Nobel alternativo da paz.
Alguns anos atrás, em janeiro de 1999, dois autores franceses, Luc Ferry e Marcel Gauchet, apresentaram na Sorbonne, num seminário público, suas versões sobre duas constatações contemporâneas: a morte de Deus e o retorno ao religioso. De um lado, uma Igreja e seus dogmas enfraquecidos, que ainda não percebeu que seus ditames não mais correspondem aos anseios de uma população marcada pela fome, pela má distribuição de renda, pela transnacionalidade, pela insuficiência de cumprimento dos Direitos Humanos mais elementares. E também de há muito omissa diante de casos escabrosos de pedofilia não punidos e arrecadações dizimáticas para enriquecimentos espúrios, além dos puritanismos cavilosos e das resistências em não atentar para os talentos laicos cientificamente bem apetrechados numa visão de mundo mais compatível com Chardin, Darwin, Einstein e Hawking. O famoso seminário se encontra transcrito no livro Depois da Religião, dos dois autores, uma edição Difel 2008.
O que entusiasma no livro do Leonardo Boff é a capacidade intuitiva do autor, antecipando-se à chegada de novos cenários científicos, numa conjuntura onde os três poderes – religioso, militar e comercial – promoveram rupturas ao longo dos últimos dois mil e quinhentos anos, cada um deles predominante, em ocasiões diferenciadas, até o instante presente, nunca possibilitando a libertação do ser humano de todas as coerções. Inclusive nos tempos financeiros neoliberais de agora, onde o pretenso desenvolvimento global imbrica sua evolução em acumulação de poder, de liberdade e de capital, claro que para populações cada vez mais diminutas.
Em seu texto, Leonardo Boff delineia as seis bases para uma Teoria do Todo: 1. A energia do vácuo quântico, que é tudo, menos vazio. O Abismo Alimentador de todo o Universo; 2. A teoria especial da relatividade (1905), onde Albert Einstein situa o espaço e o tempo num mesmo pé de igualdade, onde a expressão famosa E=mc² ressalta que matéria propriamente não existe; 3. A teoria-M (Mater), das cordas e supercordas que fazem as onze dimensões do espaço; 4. A constante cosmológica, a comprovar que todos seres do Universo são compostos das mesmas energias e dos mesmos elementos, tornando o Universo isomorfo; 5. A contribuição da biologia, ratificando a tese de que todos os seres vivos possuem os mesmos vinte aminoácidos e os quatro tipos de ácidos nucléicos; 6. As quatro energias fundamentais (gravitacional, eletromagnética, nuclear fraca e nuclear forte) que promovem a sustentabilidade, dinamismo e direção a todo o Universo. Afirmando com propriedade: “Se realmente descobrirmos uma teoria completa, seus princípios gerais deverão ser, no devido tempo, compreensíveis para todos, e não apenas para uns poucos cientistas. Então, todos nós, filósofos, cientistas e simples pessoas comuns, seremos capazes de participar da discussão de por que é que nós e o Universo existimos. Se encontrássemos uma resposta para essa pergunta, seria o triunfo da razão humana – porque então conheceríamos a mente de Deus”.
Como eu gostaria de ver reunidos, num Seminário Teológico Trans-religioso de consistente acuidade analítica, um painel com Karen Armstrong, Jacques Attali, Noam Chomsky, John Shelby Spong, Hans Küng, John Dominique Crossan e Andrés Torres Queiruga. Inteligências privilegiadas que muito contribuiriam para a formatação de novas estratégias de um viver-em-Deus radicalmente compartilhante com o Todo Cósmico. Sem mais as armas religiosas defensivas, aquelas que tantos prejuízos causaram para a efetivação de uma duradoura democracia planetária.
Um dia, Wilfred Cantwell Smith (1916-2000) escreveu: “Se não soubermos compreender uns aos outros e ser reciprocamente leais além das fronteiras religiosas, se não formos capazes de construir um mundo em que pessoas de fés diferentes vivam e trabalhem em conjunto, então as perspectivas para o futuro de nosso planeta são pouco promissoras”. (O Sentido e o Fim da Religião, Sinodal, 2006).
Estou plenamente convertido à exuberância prognóstica de Leonardo Boff.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O Deus de Cada Um

No último final de semana, preocupado com um relatório sobre Direitos Humanos solicitado por educadora querida, cuca contemporânea e muito requisitada país inteiro, resolvi me presentear com uns instantes de outro tipo de atividade, voltando minha atenção para uma leitura mais direcionada para o além Terra. O Deus de Cada Um, de Waldemar Falcão, editora Agir, fevereiro passado, presente enviado pela mala direta de uma prestadora de serviços comunitários por mim assessorada em capital não-nordestina.
Quando me dei conta, a madrugada já fornecia seus primeiros raios. Tinha devorado de sopetão as páginas que narram nove histórias reais de nove pessoas transformadas por nove diferentes crenças. A primeira delas, um católico romano chamado Marcelo Barros, monge pernambucano de uma caminhada eivada de múltiplos compartilhamentos fraternos com personalidades as mais diferenciadas, de Hélder Câmara a Basílio Penido, passando por monges alemães e pelo comunista Diógenes de Arruda Falcão. Além de Tomás Balduíno e Stella de Oxóssis, na atualidade a mais respeitada mão-de-santo do candoblé da Bahia, dirigente do Ylê Axé Opó Afonjá, mencionado em vários textos de Jorge Amado. Todos tornados amigos cinco estrelas do historiador.
Seu testemunho, como filho de uma família operária de Camaragibe, contém feitos e fatos que distilam imenso respeito humano inspirado pelo Espírito Santo, aquele “Vento” que sopra para onde bem quer e entende. Um dos fatos vivenciados pelo Marcelo, envolve o sempre amado dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife. Retrato fiel da personalidade do querido Dom, uma personalidade que respeitava todas as manifestações religiosas. O caso, eu conto abaixo, respaldando-me no narrado pelo próprio dom Marcelo Barros.
Certa feita, em 1966, monge ainda não ordenado, ao chegar na portaria do mosteiro foi informado do telefonema de alguém, dizendo-se “um amigo”, de nome dom Hélder Câmara. Imaginando trote de algum engraçadinho, eis que meia hora depois se vê dialogando com o próprio Dom, que o convida para ir à casa dele no dia seguinte. Em lá chegando, é indagado sobre se era verdadeiro o fato de estar freqüentando uma Igreja da Assembléia de Deus todas as quintas-feiras, quando seus colegas aproveitavam a recesso para ir à praia. E lhe foi ainda indagado, depois do primeiro sim afirmativo, se era verdadeira a sua presença eventual num terreiro de candoblé próximo do mosteiro. Já aguardando por uma admoestação, por mais amável que fosse, eis que é convidado pelo Dom para ser seu assessor no relacionamento com as demais igrejas e religiões da região. Diante da alegação de despreparo, o argumento definitivo: - Não tem problema. Vamos combinar assim: eu assessoro você e você me assessora! Uma convivência por demais enriquecedora, sendo Marcelo, em 1969, ordenado por Dom Hélder Câmara, que ainda o convocou para integrar a Comissão Pastoral da Juventude.
O livro ainda traz entrevistas com uma monja zen-budista, um neo-pentecostal, um umbadista, um islâmico, um israelita, um adepto do Santo Daime e “uma das mais impressionantes paranormais de cura do Brasil e, por que não dizer, do mundo”. Visões religiosas diferenciadas, com uma certeza única: a da mesma Presença Eterna, da mesma Consciência Cósmica, do mesmo Princípio Universal, também chamada por Paul Tillich, teólogo evangélico, de A Base de Toda Existência. Entendendo que o foco do livro “não são as instituições religiosas, mas as pessoas e a fé que as move e as transforma”.
Diz o autor da coletânea de entrevistas que, “em O Deus de Cada Um, os relatos colhidos nos fazem recobrar a esperança de que a espiritualidade, quando vivida de maneira plena e verdadeira, resgate, através do encontro com o divino, o humanismo que deveria nortear a nossa civilização planetária e nos torne dignos de sermos chamados de ‘filhos de Deus’. O Deus de todos nós. O Deus de cada um”.
(Publicado no Jornal do Commercio, 07.05.2008)

terça-feira, 6 de maio de 2008

As Pegadinhas do Leonardo

Um livro já muito me impressionou: A Paixão de Cristo Segundo o Cirurgião, de Pierre Barbet (1925-1995). Durante mais de vinte anos, o médico francês estudou o assunto, revelando as atrocidades cometidas contra o Galileu assassinado humilhantemente na cruz como agitador e subversivo.
As conclusões do Dr. Barbet, baseadas no Sudário de Turim, causaram um impacto significativo. Segundo ele, na face do sepultado havia sinais de contusões, o nariz estava fraturado na cartilagem, descolado do osso; no corpo foram contados 120 sinais de golpes de açoite, produzidos por dois flageladores, um de cada lado da vítima; o flagelo utilizado foi o que se usava no Império Romano, composto de duas ou três correias de couro, terminando em pequenos ossos de pontas agudas, ou em pequenas travas de chumbo com duas bolas nas extremidades; duas chagas marcavam o ombro direito e o omoplata esquerdo; o peito muito saliente denotava a terrível asfixia suportada durante a agonia; os pulsos apareciam perfurados, tendo o prego perfurante secionado em parte o nervo mediano, fazendo contrair o polegar para dentro da palma da mão; pela a curvatura das pernas e as perfurações nos pés, tem-se a nítida impressão de que o esquerdo foi sobreposto ao direito e presos ao madeiro por um único prego; os dois joelhos estavam chagados; havia um sinal de sangramento, produzido por uma grande ferida, no lado direito do tórax; por fim, havia 50 perfurações na fronte, cabeça e nuca, compatíveis com uma coroação de espinhos.
Algumas sutilezas são notáveis, como a dos dois objetos circulares colocados sobre os olhos. Trata-se de duas moedas: a primeira, o dilepto lituus, produzido na Palestina no governo de Pôncio Pilatos entre os anos 29 e 32 d.C. A segunda moeda identificada foi cunhada por Pilatos em homenagem a Júlia, mãe do imperador romano Tibério, em 29 d.C. Colocar moedas sobre os olhos do morto, para manter as pálpebras fechadas, fazia parte dos ritos funerário judaicos da época de Jesus.
Entretanto, inúmeros não concordam com a origem do Sudário. Segundo eles, não teriam sido aqueles sinais sobre o pano pintados por algum genial falsificador, para que os homens acreditassem tratar-se de um pano sagrado? Dentre os vários testes aplicados, cumpre destacar fotos e microscopia eletrônica, raio-X, espectroscopia, carbono-14 (1988), fluorescência ultravioleta, termografia e análises químicas. Inúmeros textos já foram divulgados, alguns bem consistentes.
Para os que se interessam pelo assunto, um livro foi entregue recentemente ao mundo de língua portuguesa: O Sudário de Turim, de Lynn Picknett e Clive Prince, pesquisadores especialistas em sociedades secretas, heresias, origens da cristandade e conspirações. O subtítulo é o mote desenvolvido ao longo de quase quatrocentas páginas: Como Leonardo da Vinci Enganou a História. E traz, como alerta inicial, uma advertência do próprio Leonardo (1452-1519), como que dirigida para os crente da época: “Ó míseros mortais, abri os olhos!!
Com o carbono-14 revelando 99,9% de certeza de que o Sudário se originara entre 1000 e 1500, a intenção de Lynn Picknett e Clive Prince é encontrar o genial autor do efeito do negativo, a mais fascinante característica do pano que mede 4,4m de comprimento, 1,1m de largura e 0,03mm de espessura. Segundo os autores, mesmo que o Sudário fosse genuíno, a presença de cromossomos X e Y no DNA efetivado “provariam que o indivíduo era o produto da procriação humana normal, e não de um miraculoso nascimento virginal”.
De onde veio o Sudário? Que gênio o teria produzido? Os autores buscam provar a autoria de Leonardo da Vinci, também autor da Última Ceia, da igreja de Santa Maria delle Grazie, Milão. Uma pintura que já provocou inúmeras discussões sobre a identidade da jovem que se encontra à direita do Nazareno, de gargantilha dourada ao pescoço.
O Sudário e a Última Ceia devem ser sinalizações do Da Vinci para os pósteros. Ele pode ter sido o precursor das atuais pegadinhas...
(Publicado pelo Portal da TV Globo - Nordeste)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Confissões

O João Silvino da Conceição me enfrentou outro dia, no SENAC, onde acontecia o seminário Educação, Direitos Humanos e Diversidade, promoção Conselho Estadual de Educação, gestão Josias Albuquerque. E o enfrentamento do João veio em forma de uma pergunta, no intervalo: - Você tem coragem de dizer, aqui, algumas confissões pessoais?
A resposta se deu em frases ditas sem arrependimentos nem precauções desmedidas, gravadas: - João Silvino, meu irmão, aos sessenta e cinco anos, mais pra partida que pra chegada, confesso-lhe que gosto muito das idéias gravitacionais, aquelas que atraem outras idéias. Creio que um novo mundo está surgindo sob o signo da dromologia, a ciência da velocidade. Gosto imensamente da minha vida docente, tendo tido três amores institucionais na vida: a Fundação Joaquim Nabuco, a UNICAP e a FCAP-UPE, onde completei recentemente quarenta anos de atividades ininterruptas. Não acredito em inteligência emocional, mas concordo integralmente com Rubem Alves, esse arretado que ainda ensina muitíssimo com seus livros, quando ele aponta para uma emoção inteligente, aquela que percebe e se compromete com uma indignação planetária, diante da sorte dos milhões sem-terra, sem-renda, sem-escola, sem-teto, sem-carinho, sem-capacidade de dar a volta por cima, porque cidadão só de mentirinha em tempos de escolhas eleitorais. Tenho ojeriza por uma cultura de fingimento que está tomando conta do mundo inteiro, onde pela mídia se propala concepções e feitos não vivenciados, a mesclar confusamente distúrbios de aprendizagem com distúrbios de ensinagem. Curto muito uma boa leitura, acredito que o atual século está sendo virado de ponta cabeça, onde o créu acontecerá em todos os setores, civis, militares e eclesiásticos, em todos os gêneros e orientações sexuais, infância e juventude a nos rejuvenescer, apesar das as limitações e artimanhas elaboradas contra as autenticidades da meninada. Acredito que todas as religiões estão carecendo de uma recauchutagem, requerendo novas maneiras de falar de Deus para uma juventude que tende a possuir uma espiritualidade distanciada das denominações religiosas. Entendo que todos os seres humanos representam a imagem de Deus de uma forma ou de outra, devendo ser respeitados pelo que são, as crenças abandonando sua dependência na culpa como fator motivador de comportamento. Creio possuir um senso de humor e gosto de ouvir/contar anedotas e histórias de todos os naipes, concordando com Rubem Alves quando ele diz que “mentiras velhas são um desrespeito à inteligência daqueles a quem são dirigidas”. Abomino os que foram gerados em pé numa rede, enroladíssimos por dentro e por fora, incapazes de engrenar idéias sementeiras, somente emitindo idéias vagaluminosas, aquelas que alumiam só em lugares indevidos. Sou crente na Eternidade, radicalmente transecumênico, acreditando que todas as religiões conduzem à Base da Nossa Existência, expressão feliz do teólogo protestante Paul Tillich. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo, cada um possuindo um lado da balança mais preponderante. Não sei beber, nem dançar, acredito que baitas defeitos meus. Sou avô de carteirinha e curtidor de uma filha e dois filhos, gerados em passados de muita dignidade conjugal. Vibro com Drummond, quando ele diz, no livro Amor Natural, página 25: “A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar...” Fico a imaginar determinadas pessoas que não possuem nem o riso da bunda. Lamento que não haja legislação que puna a estupidez, a presunção, a ausência de simancolidade e a incapacidade de entender a ciência como um “conjunto de palpites provisórios”, como dizia Karl Popper. E amo mais o meio-ambiente, ratificando o Manoel de Barros, segundo Alves: “o cu da formiga é mais importante que uma usina nuclear”.
Abracei o João Silvino e fui correspondido.
(Texto publicado no Portal da Globo Nordeste)