segunda-feira, 28 de abril de 2008

Tonho da Motoca

Metido a cavalo do cão desde fedelho, embora de inteligência reduzida, portava um caráter a serviço do sucesso a qualquer preço. Tonho da Motoca era conhecido meu de adolescência, à distância, posto que quem com ele se metia, a bosta fedia. Morava na Tamarineira, ainda que doido só por emprego fácil, nem que viesse do empenho desenvolvido entre pais de mocinhas nada mimosas, encalhadas.
Fingindo-se fiel, freqüentava denominações religiosas para, mimoseando a vaidade dos pastores dirigentes, arranjar um “salário merreca mensal” (expressão sua) que desse para pagar o consumo de gasolina do seu transporte.
Recentemente, embora não dando pelotas para os menos favorecidos, ganhou um trabalho de mentirinha no interior de Pernambuco. Alguém que não o imaginava tão “isperto” lhe arranjara uma sinecura numa prefeitura, tencionando atrelá-lo matrimonialmente a uma filha espevitada, quase sem peito, criatividade embaçada pela tagarelice exagerada, que andou sumida por tempos devido a um “embuchamento” de nascimento nunca registrado. O propósito do “protetor” era produzir o belo através de um apadrinhado que imaginava significante, nunca um insignissainte, como constatou tempos depois, ao tomar ciência que Tonho da Motoca não parava em canto algum, tendo sido até por três vezes reprovado em seleção de um só candidato.
Tonho da Motoca parece que se inspirava numa reflexão de Roland Barthes que dizia que a preguiça era parte essencial de uma experiência escolar. Intuía que o que vale são as mentiras novas, aquelas inventadas no momento oportuno, quando se está diante de um atoleimado de carteirinha, desses que asfixiam os sentimentos na ganância de mais poder. E foi assumindo, na sinecura que lhe arranjaram, uma posição reverencial, que adornou o autoritarismo ignorante que lhe era orgânico. Travestindo-se de missioneiro da salvação da pátria, arvorou-se com pretensão ao pódio, mesmo percebendo-se distanciado quilômetros do filme Diário de Motocicleta, que um jovem chamado Ernesto Guevara tinha escrito décadas passadas.
Mas Tonho da Motoca estava com seus minutos de fama quase findos. O derredor comunitário já principiava a perceber a farsa e o figimento, quando testemunharam as subserviências e bajulações praticadas diante do chefete-protetor, pródigo em sorrisos fotográficos, aqueles portadores de pitadas de muito rídiculo.
O início da derrapagem parece ter acontecido numa solenidade pública, quando alguém sugeriu a Tonho da Motoca, na ausência do protetor que estava ganhando uns trocados bem distante dali, que interpretasse o que estava escrito num para-choque de um caminhão: “Aquilo que Deus ajuntou o homem não separa. Se separou é porque Deus não juntou”.
As explicações de Tonho da Motoca, repletas de overdoses gramaticais, estupraram o bom-senso dos presentes, que logo se recordaram de Patativa do Assaré: “Prefiro falá as coisas certa com as palavra errada a falá as coisa errada com as palavras certa”. E concluíram que Tonho era um farofeiro de marca maior, a fingir tanto que já nem se lembrava mais da cara que tinha na véspera.
Entre os ouvintes, um já meio “calibrado” desabafou: “Cara, você se embriaga com a sua mediocridade. A mediocridade causa náuseas. Se eu vomitar é porque caras como a sua, de meio-inteligente, de repetidor de lugares-comuns, de medalhão cheio de empáfia, revolvem minhas entranhas e eu tenho que segurar meus bofes para eles não se despejarem em cima de você”.
No meio dos aplausos e risos gerais, Tonho da Motoca enfiou a viola no saco, percebendo-se apenas bajulador de autoridade, desconhecendo por inteiro a advertência feita por Friedrich Nietsche, numa hora apropriada: “A maneira mais simples de corromper um jovem é ensiná-lo a respeitar mais aqueles que têm opiniões iguais às suas que aqueles que têm opiniões diferentes das suas”.
E Tonho da Motoca ainda sonhava ser papa um dia... Não será nem mingau!!

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