quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Análise Desmistificadora

Para quem só vive de pulinhos aeróbicos em celebrações religiosas, sem saber bem os porquês das coisas, dos fatos e das estratégias usadas pelos evangelizadores nos primeiros anos do Cristianismo, um texto mostra com nitidez e honestidade investigatória o perfil bíblico dos doze discípulos do Homão de Nazaré, incluindo Matias, o que substituiu Judas Iscariotes. De autoria de Aramis DeBarros, Doze Homens, uma Missão, editado pela Hagnos, traz ainda uma introdução que analisa com detalhes as condições culturais, políticas e religiosas vigentes no século I da era cristã. As razões que levaram os saduceus a reagirem fortemente à presença evangelizadora dos apóstolos, a lapidação pública de Estêvão, a prioridade dos apóstolos em permanecer em Jerusalém, os aspectos facilitadores da difusão da fé cristã no mundo greco-romano, a desumana exclusão social do Império Romano, cuja faixa mais abastada e mais influente era chamada de classe senatorial, “cujos membros eram respeitosamente tratados como illustres, clarissimi ou spectabiles”, “só a eles cabendo o direito ao uso distintivo da faixa púrpura na toga”, tal e qual ainda se utiliza nos tempos de agora, mormente por aqueles que necessitam se sentir diferenciados.
As trajetórias de Bartolomeu, Mateus, Simão Zelote, Judas Iscariotes, Tomé, André, Filipe, Judas Tadeu, João, os dois Tiagos e Simão Pedro são criteriosamente pesquisadas. Muito esclarecendo a história dos primeiros tempos apostólicos, quando os desafios eram múltiplos, as hostilidades se agigantavam e a Mensagem do Homão não poderia ser esquecida, tampouco relegada.
No livro do DeBarros, encontra-se a explicação do beijo de Judas em Jesus no Jardim do Getsêmane. Dada a semelhança muito forte entre Tiago, filho de Alfeu, e Jesus, tornou-se necessário bem certificar-se quem deveria ser feito prisioneiro. Segundo DeBarros, “Tiago Menor é representado pela arte cristã primitiva e medieval como, talvez, o mais belo dos apóstolos”.
O autor de Doze Homens, uma Missão efetiva três perguntas bastante instigantes: “Como e por que a história, a secular e a eclesiástica, permitiu que boa parte da vida e da obra desses gigantes do cristianismo caísse no obscurantismo?; Por que o registro escrito de suas façanhas não é proporcional à relevância que esses homens ostentavam na Igreja primitiva?; e, a terceira, Por que os relatos remanescentes sobre os apóstolos apresentam-se tão fragmentados, confusos e, freqüentemente, amalgamados com narrativas lendárias ou fantásticas?” Os fatores inibidores da historicidade dos doze são cinco, segundo DeBarros: a modéstia e a simplicidade dos apóstolos; a ausência de uma perspectiva histórica duradoura; desinteresse da história secular pelo cristianismo primitivo; o advento da sucessão apostólica; e a crescente rivalidade entre a igreja oriental e a ocidental e a corrida pelas relíquias.
No livro é explicitada a caça às relíquias da época. Descambando para uma crassa idolatria, onde até Constantino, que se autoproclamou Pontificex Maximus dos cristãos, mandou enterrar um machado tido como usado por Noé na construção da arca, três outras relíquias são citadas, criadas pelos sabidões da época: uma pena extraída da asa do anjo Gabriel, uma porção láctea do sagrado seio de Maria e um frasco contendo ungüento de nardo puro usado em Jesus por Maria, a irmã de Lázaro.
A Introdução ao Mundo Apostólico, parte primeira do livro, é encerrada com a narrativa da visão estratégica utilizada pelos apóstolos. Uma estratégia reconhecida, posteriormente por Paulo de Tarso, em sua Carta aos Romanos: “Sempre fiz questão de pregar o evangelho onde Cristo ainda não era conhecido, de forma que não estivesse edificando sobre alicerce de outro” (15,20). Uma igreja que crescia sem maquinações com os poderosos de então.
(Jornal do Commercio, 28 de novembro de 2007)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Lições de um Talento Lusitano

Da professora Edla Soares, um dos ícones da educação brasileira, admiração de muitos anos, recebo artigo do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, recentemente publicado. Intitulado Socialismo do Século 21, o texto do pesquisador luso deveria servir de mote para amplas discussões nas classes eclesiais, políticas e sindicais, favorecendo a emersão de novos ideários, de novas alternativas para a atual crise planetária, onde as desigualdades sociais se agigantam, a violência se intensifica e uma despolitização assustadora toma conta de uma mocidade cada vez mais voltada para os interesses pessoais.
O socialismo do século 21 necessita da concretização de fecundantes debates reconstrutores, onde os erros e fracassos dos passados recentes sejam esmiuçados, “para que seja credível a vontade de evitá-los”. Sem a violação massiva dos direitos humanos, tampouco qualquer cerceamento da liberdade de imprensa, com menos estatização e mais controle social comunitário.
Segundo Sousa Santos, algumas características para um socialismo 21 poderiam balizar os debates: complementaridade entre democracia representativa e democracia participativa; legitimidade da diversidade de opiniões; produção menos assentada na propriedade estatal dos meios de produção que na associação de produtores; regime misto de propriedade, onde coexistam propriedade privada, estatal e coletiva (cooperativa); predominância, a longo prazo, da economia do altruísmo sobre a economia do egoísmo; respeito crescente para com a natureza e a justiça distributiva; transparência mais efetiva do Estado, favorecendo o seu controle público e a criação de espaços públicos não estatais; reconhecimento da interculturalidade e da plurinacionalidade; radical combate à corrupção, aos privilégios e às discriminações raciais, sexuais e religiosas. E estratégias para implantação de socialismos de várias tonalidades em diferentes países, posto que torna-se cada vez menos viável a adoção de um modelo único, não multifacetado.
Ousaria revelar alguns norteamentos que ensejariam a consolidação de um socialismo 21 com dignidade para gregos e troianos, erradicando as ações marginais dos que apenas desejam levar vantagem em tudo: “A liberdade é uma responsabilidade e não um privilégio; Pessimismo é a ausência de angústia, quando não compensada pela presença da Esperança; O germe mais maléfico da nossa crise política é o do faz-de-conta; Entre revolta e resignação, a tarefa principal do ser humano deverá ser a de compreender/explicar para transformar; Uma geração que amesquinha a geração que a precedeu, que não consegue reconhecer as grandezas nem o seu significado necessário, é uma geração que mostra ser minúscula, que não tem confiança em si mesma, ainda que assuma pose de gladiador e exiba mania de grandeza”. Reflexões de autores diversos, que facilitariam caminhadas, ampliariam compreensões e despertariam cidadanias, criatividades e competências. Com estratégias e táticas bem definidas e amplamente discutidas, além de intransigente postura dialogal para um ver melhor o derredor.
Nossa atual crise de valores, que também se incorpora a uma crise mundial, é muito profunda. E a ausência de uma profissionalidade cidadã comprometida com a transformação do hoje está levando inúmeros à adoção de uma das alternativas desastrosas: a de se ser hipercrítico em relação a tudo aquilo que desagrada, por não sair do seu grupelho; ou a de ser subcrítico, acomodando-se cordeiramente diante de qualquer proposta.
A reflexão de Wilfred Cantwell, estudioso das religiões, é procedente: “Necessitamos, caso quisermos resolver satisfatoriamente os problemas humanos que afligem o mundo moderno, de uma compreensão mais adequada de religião, tanto da religião de outras pessoas quanto da nossa, do que aquela de que dispussemos em geral até o momento”.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, PE, em 21.11.2007, Página Opinião)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Responsabilidades e Desafios

Certa feita, em 1936, Albert Einstein, um dos maiores cientistas de todos os tempos, antecipava um alerta aos de nível superior, hoje: “o desenvolvimento da capacidade geral do pensamento e julgamento independentes deve ser sempre colocado em primeiro plano, e não a aquisição de conhecimentos específicos. Quando uma pessoa domina os fundamentos de sua disciplina e aprendeu a pensar e trabalhar independentemente, por certo haverá de encontrar seu caminho e, além disso, será mais capaz de se adaptar ao progresso e às mudanças do que outra cujo aprendizado tenha consistido sobretudo na aquisição de conhecimentos detalhados”. Antecipação também explicitada, muitos anos atrás, pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre: “Não há futuro sem presente, como não há presente sem passado. (...) O que é preciso, para termos um sentido assim total e assim dinâmico, quer de tempo, quer de cultura, é que não nos deixemos seduzir, como é a tendência de alguns, por um lado, pelo que é transitoriamente moderno como se fosse um estado definitivo de tempo ou de cultura; por outro lado, pelo já consolidado em valor erudito, como valor clássico, valor alfabético, como valores que constituíssem outro estado definitivo ou único de tempo e de cultura”.
Para bem compreender as duas reflexões acima, torna-se indispensável perceber a existência de dois tipos de linguagens: código restrito e código elaborado. Do primeiro se utilizam os que partilham as mesmas pressuposições. Usa-se o segundo para se falar de sujeitos a respeito dos quais não partilhamos as mesmas análises. O discurso técnico fica com o primeiro dos códigos, interessado apenas em colocar em ordem o derredor, para controlá-lo. O código elaborado vincula-se ao interesse interpretatório para emitir uma opinião, resultando a reflexão crítica, aquela que tem por objetivo maior renovar mentalidades.
Numa entrevista, o filósofo Gaston Bachelard declarou para o seu interlocutor: - O senhor, manifestamente, vive em um apartamento e não numa casa. E explicou: - Uma casa possui, além da zona de habitação, um sótão e um porão, e nela sempre estamos subindo ao sótão e descendo ao porão. Quis ele dizer que há pessoas que vivem apenas do hoje, sem atentar para as lições dos ontens, desatentas para as ilações que estruturarão futuros.
Em 1947, Einstein voltava a declarar: "Nós, cientistas, acreditamos que o que nós e nossos semelhantes fizermos ou deixarmos de fazer nos próximos anos irá determinar o destino de nossa civilização. E consideramos nosso dever explicar incansavelmente esta verdade, ajudar as pessoas a perceberem tudo que está em jogo e trabalharem não por um apaziguamento, mas por uma compreensão e um entendimento definitivo entre os povos e nações de concepções diferentes".
Dois personagens históricos, já eternizados, legaram-nos ponderações inesquecíveis, que muito bem se ajustam às ponderações acima. O escritor Albert Camus aconselhava: "Para as grandes coisas são necessários princípios; para as pequenas, basta a misericórdia". Já o jesuíta Teilhard de Chardin, ainda muito temido por um cristianismo acomodado e de cócoras, nos ensinava a sua missão terrestre: "Quanto mais os anos passam, mais fico achando que minha função terá sido simplesmente ser, à imagem bem reduzida do Batista, aquele que anunciava e chamava o que havia de vir".
Estamos numa fase brasileira encruzilhadamente desafiadora. Um tempo de alavancagem evolucional ou de consolidação como nação subalterna. Na Educação, transferimos para o Segundo Grau grande parte do ministrado nos anos primários. E para a pós-graduação o indispensável que deveria ser ministrado na graduação, ficando esta abarrotada de complementações dos anos secundários. Tornamos “ginasializado” o ensino superior, gerando uma enorme acriticidade, desejada apenas pelos menos conscientes, futura sucata de um mundo cada vez mais evolucionário.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Oração do Caminheiro Nordestino

Pai Nosso que nos contempla do Reino Eterno, fortalece a resistência dos que estão sofrendo privações neste Nordeste, às vésperas dos festejos natalinos. Abençoa os que procuram a Tua Verdade, ampliando neles a vontade de auxiliar os mais necessitados. Que a Tua infinita Misericórdia se espalhe por toda a região, convertendo as mentes e os corações dos ainda não comprometidos com a Tua Palavra.
Pai Nosso, que a Tua Bondade derrame por todo Nordeste a Paz, a Esperança e a Solidariedade Comunitária. Fortalece em cada nordestino a capacidade de bem compreender a Missão confiada por Ti. E consolida a fé dos que Te adoram, abençoando a caminhada dos Teus filhos e filhas na construção de ações concretas que favoreçam os necessitados de terra, educação, saúde, trabalho, teto e amor.
Pai Nosso, alivia as dores e sofrimentos dos Teus filhos e filhas, multiplicando a vontade de Te servir com alegria, no testemunho do Evangelho em todas as ocasiões. E perdoa aqueles que Te ofendem, Te abandonam e Te rejeitam por ignorância ou desatenção.
Pai Nosso, que os Teus Ensinamentos fortaleçam a luta dos que sonham por um Nordeste mais justo e mais humano para com seus filhos e filhas, menos desigual e melhor orientado para os amanhãs de muita Luz.
Pai Nosso, que as preces de todas as religiões sejam por Ti ouvidas, alimentando a fraternidade entre povos e nações.
Pai Nosso, que a Tua Luz ilumine aqueles que anseiam por Tua Palavra. E faz de todos os Teus Filhos espelhos da Tua Gandiosa Mensagem de Amor.

sábado, 10 de novembro de 2007

Por um consistente despertar

O lançamento recente, no Brasil, de dois livros impactantes – Deus não é grande, de Christopher Hitchens; e Deus, um delírio, de Richard Dawkins , o primeiro bem mais estruturado que o segundo – pode acarretar um efeito altamente positivo: o de alertar as religiões para a urgência de uma maior compreensão das últimas descobertas científicas, assim propiciando uma aproximação com os mais jovens, principalmente com os mais questionadores.
A juventude, mormente a dos países mais cidadanizados, de há muito já assimilou a famosa advertência de Ivan Illich, o célebre monsenhor católico romano de Cuernavaca, México: “Nunca confundir salvação com igreja”. E muito se identifica também com o canto do poeta menestrel Oswaldo Montenegro: “Que o espelho reflita em meu rosto / Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância / Pois metade de mim é lembrança do que fui / A outra metade não sei”. Duas reflexões, distanciadas décadas um da outra, que balizam uma espiritualidade planetária crescente dissociada das organizações religiosas que não mais sabem refletir uma fé madura, contemporaneamente alicerçada nos saberes últimos.
As expressões acima apenas ratificam, na exploração mental dos mais débeis, o “ópio do povo” de Karl Marx, caracterizado no absurdo dito por uma professora de Hitchens, autor de um dos livros acima citados: “Talvez vocês não vejam sentido em toda essa fé, hoje, mas verão um dia, quando começarem a perder entes queridos”. Uma estupidez de densidade equivalente àquela pronunciada por um religioso, numa celebração datada poucos dias após a grande cheia de 1975, no Recife: “Sabem por que o Recife teve essa cheia tão violenta? Porque Recife está pecando demais!!” Uma bobajada paquidérmica que tornou agnóstico jovem estudante de geologia sentado na assistência, que bem sabia as causas da inundação que tanto fez sofrer a capital pernambucana.
Lamentavelmente, as instituições religiosas século XXI ainda não se desapartaram inteiramente dos procedimentos hipnotizadores que tanto mal fez à humanidade, favorecendo sectarismos múltiplos, fundamentalismos contagiantes, arrecadações milionárias, nepotismos desagregadores, fingimentos e hipocrisias quilômetros distanciados do dito por Dietrich Bonhoeffer, enforcado pelas forças nazistas, aquelas mesmas que receberam à época apoio explícito de inúmeras denominações religiosas alemãs: “Nossa maturidade nos conduz a um verdadeiro reconhecimento de nossa situação diante de Deus. Deus quer que saibamos que devemos viver como quem administra sua vida sem ele.” Bonhoffer advogava um cristianismo à parte da religião, como Paul Tillich insistiu na tese de um Deus que não poderia ser definido de maneira pessoal, como um ser, mas de forma impessoal, como Base de Toda Existência.
Lamentavelmente, há líderes religiosos que se assentaram sobre seus estudos passados, por conivência ou conveniência. Por conivência, por perceberem que as ministrações anestésicas ainda são do agrado dos adeptos de uma ignorância antiintelectual. E por conivência, proclamando que Deus é igual a qualquer percepção que se tenha dele, favorecendo o parar de crescer dos seus próprios derredores.
A religiões necessitam urgentemente de clínicas oftalmológicas. Para uma “enxergância” maior dos seus evangelizadores hojes e amanhãs. Que a devoção seja um meio para agigantar nossas tarefas de co-criadores do Reino. Com um batismo livre de toda negatividade, apenas focado na maravilhosa e na esperança de um viver sem os horrores e decrepitudes do cotidiano, todos sendo contemplados, sem violações do livre arbítrio, aos acessos à maravilha do divino. Onde a figura do Homão de Nazaré continuará sendo o ícone central, o porta-estandarte que oferecemos ao mundo, sem jamais relevar a advertência feita pelo jesuíta Roger Haight, em seu esclarecedor Jesus, Símbolo de Deus, Paulinas, 2003: “Inculturação não significa acomodar a mensagem evangélica à cultura humana, e sim permitir que a substância do evangelho assuma a forma de uma cultura local”. Ser pós-moderno é radicalmente diferenciado de ser pós-modernoso. O primeiro é estar-se contemporaneamente no mundo. O segundo apenas é malabarismo sobrevivencial, as práticas apenas favorecendo o ambulatorial que procrastina, jamais o hospitalar que acama para ultrapassagens duradouras.
Se a igreja, em suas variadas vertentes, foram profundamente responsáveis por múltiplas ondas de negatividade, ignorância, alienação e opressão, a hora da virada é chegada, seja qual for o nosso medo de mudar, de perder poder, de desepiscopalizar-se, abandonando uma hostilidade defensiva, reflexo de uma imaturidade ou de uma ataxia pastoral, a incompreender, por razões que a própria razão desconhece, que ”a eclésia resultante será baseada na experiência das pessoas, não nos desejos da hierarquia”.
Como também externou John Shelby Spong, bispo aposentado anglicano, espero que meus filhos e netos, um dia, possam proclamar sem medo algum de serem felizes: “Deus é real para mim, e Jesus é minha porta de entrada para essa realidade”.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Ética, Ciência e Profissionalidade

Diante do acocoramento cívico de alguns senadores mercantes, muito oportuno o editado recentemente, 2007, pela Zahar Editora, sob título Textos Básicos de Ética – de Platão a Foucault. Organizados por Danilo Marcondes, titular do Departamento de Filosofia da PUC Rio de Janeiro, também vice-reitor acadêmico daquela consagrada universidade, os textos objetivam deixar a juventude universitária em contato com as idéias dos grandes pensadores sobre o assunto. Lidando diretamente com as reflexões, os alunos conhecem os conceitos-chave e os argumentos centrais da filosofia ocidental, ensejando discussões coletivas as mais diferenciadas, favorecendo uma profissionalidade ajustada aos parâmetros comportamentais condizentes com uma sadia convivialidade planetária.
Falando em profissionalidade, lamentavelmente é ainda bastante significativa a quantidade de jovens neurotizados às vésperas da conclusão dos estudos pré-vestibulares. Com 15, 16 ou 17 anos, já são pressionados pelo derredor para escolher uma profissão, sem tomar sequer conhecimento de milhares de atividades bem remuneradas, além de muito prazerosa. Diante de um cada vez mais diminuto número de empregos, não percebem eles os caminhos para o exercício de uma trabalhabilidade alavancadora.
A Campus Editora tornou público Cartas a um Jovem Indeciso, do professor José Roberto Whitaker Penteado, profissional reconhecido pela competência em áreas as mais diversas, como jornalismo, informática, economia, literatura e ciência política.
A partir de uma dedicatória criativa – a Elza, que me ensinou a importância do e – Penteado inicia suas reflexões citando Pablo Neruda: morre lentamente quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos. Acredita o autor que a era das especializações únicas profissionais está com seus dias contados, dando-se, hoje, preferência, a pessoas versáteis, de talentos múltiplos.
Profissional aplaudido, Whitaker aponta alguns requisitos para uma trabalhabilidade ativamente crescente: falar e escrever corretamente, leitura sistemática, curiosidade por tudo do mundo organizacional, disciplina de vida e convivialidade prazerosa. Sem esquecer a lição da Dona Vera, sua madrasta: “Na vida, a gente deve se arrepender do que fez, nunca do que deixou de fazer”.
Para os que ainda não perceberam a diferença entre os cientistas e os pescadores, nem sabem do que trata o ictiolalês, tampouco não descobriram porque o estômago da ciência é análogo ao estômago das vacas, o livro-lição do Rubem Alves, O Que é Científico?, Loyola Editora, é uma excelente oportunidade de clarear os horizontes mentais dos que desejam captar mais intensamente o que quis dizer o poeta Manoel de Barros: “A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir seus encantos. A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá. Quem acumula muita informação perde o condão de advinhar: divinare. Os sabiás divinam.” Uma vacina apropriada para as doenças civilizatórias modernas: tédio, falta de sentido, sentimento de futilidade, inexistência de propósitos. Doenças que vitimam aqueles que não percebem que toda ciência, por melhor que seja, quando erigida como única linguagem para se conhecer o todo, acaba produzindo dogmatismo, cegueira e emburrecimentos.
O às vezes amaldiçoado Nietzsche um dia escreveu: “as convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras”. Todo convicto sempre imagina que as suas bobeiras são sabedorias, nem sempre percebendo o que está acontecendo com ele próprio, pois desaprendeu, quase sempre, de ser generoso, prestativo e confiável. Sem nunca aceitar que toda teoria é uma hipótese que ainda não foi desbancada.
Três autores, inúmeras lições de como alicerçar uma profissionalidade cidadã século vinte e um.