quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Caneca, Capiba e os Amanhãs Regionais

Dois talentos nordestinos, com opiniões energizantes. A primeira, do Frei Caneca, identificava como pés de chumbos aqueles que demandam um tempão para tomar decisão, pensando mais nas vantagens que serão obtidas que nos benefícios proporcionados. A segunda é do Capiba, grande carnavalesco: “Fiquem velhos, mas não envelheçam”.
Se analisarmos as duas personalidades, encontraremos nelas qualidades comuns: um viver com penso, uma transitividade nunca terminal, uma tesão existencial de múltiplas enxergâncias. Vivos e jamais azedos, parecem irmanados ao poeta Fernando Pessoa, que proclamava “só uma grande intuição pode ser bússola nos descampados da vida”.
Por que as ações de Caneca e Capiba, cada um na sua especialidade, repercutem até hoje, propiciando inspirações estratégicas? Porque suas ações eram concretas, separando essência de circunstância, nunca agindo como ovelhas abestadas, mas como cabritos saltitantes, sempre escapando das armadilhas metidas a boazinhas. Eles eram candeias que iluminavam. Contaminadores por excelência, buscavam contribuir para a edificação do social através da renovação das suas próprias mentes, livrando-se das amarguras de um cotidiano que se torna cada vez mais hipócrita em épocas de semana santa.
Os dois pernambucanos, se ainda convivessem conosco, se extasiariam ao tomar ciência de estatística comprovada: “o mundo inventou mais nestas últimas 40 décadas do que o aparecimento do ser humano, há três milhões de anos”. E aplaudiriam o pensar do apóstolo Paulo: “uma esperança que pode ser vista não é esperança”.
Imagino questões levantadas pelos dois guerreiros: Será que a cidadanização completa do brasileiro não faria muitos perderem suas boquinhas? Por que será que as denominações religiosas que apregoam a necessidade de seus membros serem sal da terra, se encontram em situações insossas, sem capacidade de induzir evoluções sociais, com espiritualidades distanciadas de um fazejamento efetivo? Por que será que Índia e Brasil, com semelhantes níveis de desenvolvimento, possuem índices de criminalidade tão díspares, lá baixíssimos, aqui uma vergonha que o mundo já tomou ciência, afetando nossa imagem de país cordial? Por que a Justiça é tão morosa, induzindo a entronização da punição pelas próprias mãos? Por que os “aloprados” da base de sustentação do Governo não são defenestrados definitivamente? Por que os larápios, que eram capazes de bater carteiras sem deixar marcas, agora usam armas de fogo, assassinando famílias inteiras, enquanto as autoridades discutem turisticamente as causas da criminalidade? Por que o mérito e o talento se encontram sumidos dos principais cargos comissionados, sendo substituídos por compadrios medíocres, os nomeados sem as mínimas competências gerenciais de bem administrar o patrimônio público? Por que o horror da barbárie vem gradativamente acovardando os dignos de todas as classes sociais? Por que se fala tanto nas atrocidades acontecidas no Iraque, quando fatos similares estão ocorrendo sob nossos olhos, com a devida complascência das autoridades públicas? Por que o policial que abandona o caminho da lei não é tratado como marginal especializado, a merecer penas mais severas? Para que secretaria de mulher, se inúmeras continuam sendo assassinadas?
Abandonar a embromação, o fingimento, o faz-de-conta, o bom mocismo, o assistencialismo eleitoreiro e a demagogia desenfreada, eis uma estratégia efetiva para a ampliação de uma cidadania, a do povo brasileiro, que necessita livrar-se das amarguras incompatíveis com os desafios de um século, o 21, que está a exigir construções mais efetivas para a erradicação das múltipla opressões. Inúmeras delas sutilmente populistas.

sábado, 20 de outubro de 2007

Pedido de um Prêmio Pulitzer

Outro dia me deparei, num livro, com um pedido do próprio autor. Ele havia lido, na Internet, uma carta dirigida a um reverendo fundamentalista, desses que acreditam na leitura literal das Sagradas Escrituras. E fazia um apelo, o escritor Garry Wills, PhD em Línguas Clássicas pela Johns Hopkins University, Professor Emérito pela North-Western University, também Prêmio Pulitzer por Lincoln at Gettysburg, sobre história norte-americana, autor de O Que Jesus Quis Dizer, lançamento 2007 da Rocco Editora: quem soubesse algo sobre o autor da carta, que remetesse a identificação autor para seu endereço eletrônico.
Afinal, qual o maior interesse do autor de O Que Jesus Quis Dizer? Apenas parabenizar o remetente pelo conteúdo do recado, dado por ocasião da proibição de um bispo católico de San Diego de ministrar enterro cristão a um homossexual declarado. O conteúdo da mensagem internética parece caber na carapuça de todos aqueles que, vestidos de roupas macias de púrpura (Mc 16,19-31), imaginam-se integralmente puros, sem mácula alguma, de vidas pregressas intocáveis, só faltando a declaração de que provieram também de uma virgem.
A carta inicia-se por um agradecimento do seu autor pelos ensinamentos da Lei de Deus transmitidos por um religioso, inclusive o que lembra Lv 18,22. E encarece ao mesmo pregador alguns outros conselhos: como adquirir escravos de nações vizinhas, tanto homens como mulheres, vencendo Lv 25,44; como vender a filha como escrava, segundo a recomendação contida em Ex 21,7; como saborear um bom crustáceo, sem considerá-lo abominável, sem desobedecer a Lv 11,10; como me aproximar do altar do Senhor, mesmo possuindo uma visão deficiente, ou sendo corcunda, anão ou com um dos testículos em desacordo com a anatomia mais usual, sem atentar para Lv 21,20; como aparar as pontas da barba ou cortar o cabelo em volta das têmporas, ultrapassando a proibição expressa em Lv 19,27; e, finalmente, como poder jogar basebal usando luvas de couro de porco, se está vedado o seu uso em Lv 11,6-8. E a carta é concluída com um final de quase súplica: “Sei que o senhor estudou esses assuntos em profundidade e, portanto, possui um conhecimento considerável sobre essas questões e estou confiante que possa me ajudar. Obrigado mais uma vez por lembrar-nos que a palavra de Deus é eterna e imutável”.
A leitura do livro de Garry Wills deve ser feita levando-se em conta as causas das discordâncias apontadas por Alexandre de Afrodisia, um célebre comentarista de Aristóteles do final do século II, início do III, muito respeitado entre os gregos e os árabes. São três, atualizadíssimas: a primeira, o apego ao poder e a polêmica, que impossibilitam o polemista de menos emocionalmente apreender a verdade como ela é; a segunda, são as sutilezas acerca da controvérsia, dada sua profundidade e dificuldades múltiplas de compreensão; a terceira diz respeito à própria ignorância e capacidade limitada do querelante. O famoso Maimônides (1135-1204) - considerado por muitos como o maior filósofo judeus de todos os tempos, sendo chamado por São Tomás de Aquino de “Moisés, o Egípcio” -, no Guia dos Perplexos, parte primeira, aponta uma quarta causa: o costume e o estudo, posto que “as pessoas naturalmente gostam daquilo a que estão acostumadas e que as atrai”. Concluindo com maestria: “quanto menos atributos negativos uma pessoa admite, maior a limitação da sua percepção”, uma estonteante tapa de luva de pelica nos que se acham puros e imaculados, donos da verdade, sósias do Altíssimo.
Fico a imaginar de que lado ficariam algumas das atuais autoridades religiosas, inclusive os purpurados, se vivessem no tempo do Homão de Nazaré. Certamente macomunados com aqueles que o chamavam de impuro (Lc 11,38), que o acusavam de muita conversa com as rameiras do seu tempo (Lc 7,39), que o denunciavam por ser estimulador da imoralidade (Mc 2,16) e de viver como glutão e bêbado (Lc 7,34), postando-se como um cismático (Jo 8,48), um bastardo (Jo 8,41), agente do diabo ou o próprio diabo (Mc 3,22, Jo 7,20), entre outras leviandades. As punições para os que defendessem o Nazareno logo seriam aplicadas: pedido de desculpas públicas no papiro oficial da igreja local, licença de três meses para um melhor repensar, proibição de ensinar, ou silêncios obsequiosos remetidos por comunicações oficiais fleumáticas.
As igrejas de hoje, sob diversas estratégias, parecem querer esconder Jesus, através de um conservadorismo generalizado das traduções dos Evangelhos, denuncia Garry Wills, no seu O Que Jesus Quis Dizer. Um Jesus que anunciou que era Caminho, Verdade, Luz e Vida. Um Jesus leigo, sem diplomas, que combateu os sepulcros caiados. E que ainda se sente novamente crucificado quando observa religiosos molestando crianças, “pastores” de televisão, membros de religiões diferentes se devorando, perseguidores de homossexuais refletindo posturas nazi-fascistas.
Estou absolutamente convencido: ninguém arrostará o Jesus da fé. Aquele que nos ensinou que a religião mais verdadeira é aquela que advém do coração: solidária, fraterna, sem fazer distinção de espécie alguma, sempre atenta às súplicas dos mais necessitados e enfermos, seus Filhos prediletos.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Abraço Solidário

Envio fraternal abraço para o Ricardo Gondim, pastor da Assembléia de Deus Betesda, autor de um livro, recentemente lançado pela Editora Ultimato, intitulado Eu Creio, Mas Tenho Dúvidas. Reflexões que mais me aproximaram de Deus, possibilitando a ampliação da minha responsabilidade diante de fatos e feitos eclesiais, presbiterais, episcopais e leigos.
Um dia me entusiasmei com uma afirmação de Ivan Illich, o corajoso monsenhor de Cuernavaca, México: “jamais confundir salvação com igreja”. E continuo com a mesma convicção diante das posturas inerciais de algumas denominações, preocupadas com teologias enlatadas e discursos estéreis, como bem coloca o dedo na ferida o pastor Gondim, um nascido cearense, hoje paulista de ação pastoral.
Os posicionamentos do Ricardo Gondim merecem ser respeitados pelos que, não se considerando passivas ovelhas, sentem-se cabritos, atentos às mutações planetárias nos mais diversos setores das Ciências, Humanas inclusive. Não aceitando o determinismo dogmático da teologia, também não crê na predestinação. Não sendo fundamentalista, identifica na Bíblia textos como mitos, sentido filosófico, e outros como partes da cultura popular de Israel. Não considerando a Bíblia como conjuntos de livros psicografados, aceita-a plenamente como páginas inspiradas pelo Espírito Santo, redigidas de acordo com as percepções culturais, científicas e sociológicas de cada redator.
Enfrentando dissidências várias, a grande maioria delas ainda na fase chamada de transitividade ingênua pelo educador pernambucano Paulo Freire, o pastor está convencido de que “a favela não fazia parte das intenções criativas de Deus”, “toda miséria sendo um acinte, uma aberração”. E faz um alerta preventivo: “Não estou em crise, não ando depressivo, não venho tentando ajustar a Bíblia a alguma circunstância mal resolvida de minha alma. Pelo contrário, estou superentusiasmado com Deus”.
Diferenciando-se da mediocridade que parece tomar de assalto inúmeras igrejas cristãs brasileiras, o pastor Ricardo Gondim revela em seu livro uma respeitável bagagem de leituras reflexivas. Entre os autores por ele citados, um deles é o famoso Rabino-Chefe da Grã-Bretanha e Comunidade Britânica. Educado em Cambridge e Oxford, o rabino Jonathan Sacks é uma das maiores autoridades contemporâneas em moral, tendo lançado neste ano, pela Editora Sêfer, um texto muito aplaudido: Para Curar Um Mundo Fraturado – A Ética da Responsabilidade, um dos conceitos mais característicos e polêmicos do judaísmo de todos os tempos. O capítulo 10 é destinado ao nascimento da responsabilidade, onde o rabino Sacks faz uma reflexão oportuna sobre quatro histórias contidas no Gênesis: Adão e Eva, Caim e Abel, Noé e o Dilúvio e a Torre de Babel.
A leitura do livro do pastor Ricardo Gondim engrandece o ser-cristão de qualquer um. Para identificar as mediocridades explicitadas nos últimos tempos, uma delas a de considerar herética a Bíblia Sagrada Nova Versão Internacional lançada pela Editora Vida. Para assimilar com ares de pós-modernidade as pistas que indicam o nosso aprofundamento numa espiritualidade libertadora, uma delas a de ter “cuidado com líderes que se envaidecem com seus títulos e gostam de tratamento formais”, posto que Jesus jamais teve escritório com diplomas pendurados nas paredes, para admiração dos que nada entendem de enfeitados papéis assinados, vidros e molduras.
Para meu crescente entusiasmo, o pastor Ricardo Gondim cita também um outro famoso rabino, Abraham Joshua Heschel, eternizado em 1972, um dos mais famosos teólogos contemporâneos, um dos mais ativos defensores dos direitos civis nos Estados Unidos e da liberdade religiosa dos judeus na União Soviética.
O livro do rabino Heschel, de uma cristalina simplicidade, está repleto de reflexões bem dosadas de paixão e eloqüência, racionalidade e equilíbrio, leitura imperdível para todos aqueles que acreditam na Criação e no seu Criador. E logo no primeiro parágrafo do capítulo inicial de um dos seus mais famosos livros, Deus em Busca do Homem, Editora Arx, SP, 2006, uma declaração que reflete excepcionalmente bem o conteúdo do livro do pastor Gondim: “Costuma-se culpar a ciência secular e a filosofia anti-religiosa pelo eclipse da religião na sociedade moderna. Seria mais honesto culpar a religião por suas próprias derrotas. Ela decaiu não porque foi contestada, mas porque se tornou irrelevante, enfadonha, opressiva e insípida. Quando a fé é completamente substituída pelo credo, o culto pela disciplina, o amor pelo hábito, quando a crise de hoje é ignorada pelo esplendor do passado; quando a fé se torna um mero objeto herdado em vez de uma fonte de vida; quando a religião fala somente em nome da autoridade em vez da compaixão, sua mensagem se torna sem sentido”.
Reverencio o pastor Ricardo Gondim, por ter divulgado reflexões que alavancam novas evangelizações, que fortalecem a missão integral do ser humano, que refreia os hedonismos e nepotismos das mais variadas espécies, nos remetendo celeremente para as palavras de Moisés: “Amarás o Senhor, seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda sua vontade”. Que ditas com plena convicção, eis que se pode repetir o que fez a Míriam, a irmã de Arão, que pegou um pandeiro e fez um cortejo de alegria, cantando e dançando, sob as graças do Altíssimo.
Sou anglicano, helderista, transreligiosamente ecumênico, mariano e apaixonado pelo Homão de Nazaré. E não creio, como o pastor Gondim, na predestinação, concordando também que um culto legítimo necessita de racionalidade. E assino embaixo quando ele afirma que “todo legalista precisa de pessoas que nunca se percebem livres”.
Não gosto, como o pastor Gondim, da serenidade dos cemitérios, como ele já não tendo tempo disponível para lidar com mediocridades, posto que as poucas jabuticabas do meu cesto existencial se tornam mais diminutas a cada amanhecer. E, como ele, não desejo perder minha alma em nome da religião.
Assino também algumas afirmações do Ricardo Gondim: “não me aquietei na espera da morte”, “perdi a inveja dos acadêmicos com seus raciocínios herméticos”, “não me flagelo quando tropeço”, “mantenho-me teimoso com os meus sonhos”, “insisto em não me conformar com a trágica sorte dos miseráveis”, “ainda acredito em ideais”, “não pretendo desistir”, “não caibo dentro dos estreitos caminhos por onde viajam as hienas que por natureza riem, desprezando seus semelhantes”, “não gosto de gente que se acha dona dos triunfos alheios”, e “não me considero capaz ou legítimo representante de coisa alguma”.
O livro do pastor Ricardo Gondim é cutucador por derradeiro. Não serve para os abestados da vida, tampouco para os que proclamam a todo instante “Deus quis” e “Se Deus quiser”, desatentos para a grandiosa “Sob as Graças do Senhor”. Nem para os que não se percebem como colaboradores de Deus, segundo a sabedoria paulina.Encerro este meu aplauso solidário ao pastor Ricardo Gondim, utilizando as suas próprias palavras, que irrestritamente endosso: “Tenho muitos nãos porque desejo, um dia, concretizar meu grande sim: são eles que formam meu canto e minha prosa”.

sábado, 13 de outubro de 2007

João, o Bom Pastor

Aluno secundarista, preparando-me para enfrentar as provas vestibulares, uma personalidade diferenciada já ocupava lugar proeminente em meu imaginário de cristão não vinculado às orientações recebidas de um pai devoto e de mãe atenta em acompanhar solidária o marido às celebrações dominicais. Eleito em outubro de 1958, o gorducho Ângelo Roncalli, com nome de João XXIII já anunciava, noventa dias depois de eleito, a convocação de um concílio essencialmente pastoral, guiando sua igreja para uma nova etapa, onde não se deveria mais buscar a manutenção da autoridade com as armas da repressão, “governando com o remédio da misericórdia em vez de severidade”. Anúncio que me entusiasmou bastante, muito embora de assuntos eclesiásticos eu de muito poucas letras entendesse.
Os tempos seguintes ampliaram minha admiração por aquele gorducho sorridente, que já tinha sido olhado de esguelha pelos superiores, que concluíram que ele não era muito prudente ao propor idéias inconcebíveis, como a que propunha a efetivação de casamentos mistos, quando lecionava sobre a vida e o pensamento dos primeiros patriarcas da igreja no Seminário Pontifical Laterano, em Roma. E que tinha sido punido com a função de copista de cartas, posteriormente sendo deslocado para a distante Bulgária, depois sendo “premiado” com funções na Turquia muçulmana, lá permanecendo por dez anos. Somente recebendo o chapéu vermelho de Pio XII, em 1953, que o nomeou para líder espiritual de Veneza.
O que mais me fascinava em João XXIII era sua capacidade de trabalhar em colaboração com não-católicos: na Turquia, ajudou inúmeros judeus, favorecendo a fuga deles da Alemanha hitlerista. Depois de encerrada a tragédia nazista, ele viu horrorizado um documentário que mostrava corpos de judeus empilhados em Buchenwald. E exclamou perante muitos: “Como isso pode acontecer? O corpo místico de Cristo!!
Minha admiração por João XXIII foi gradativamente se ampliando a partir de gestos e atitudes que o consagraram como um papa muito amado. Apenas dois exemplos: suas visitas surpresas a orfanatos, prisões, escolas públicas, casas geriátricas; e quando erradicou a proibição de visitas à cúpula da Basílica de São Pedro quando ele estivesse caminhando no jardim superior. Argumento convincente: “Por que eles não deveriam olhar? Não estou fazendo nada de escandaloso”.
O papa João XXIII mostrou ao mundo inteiro que o Vaticano II não foi um concílio para combater heresias, mas uma ampla reunião onde se buscaria um novo modo, pós-moderno sem dúvida, de sem espraiar mundo afora a mensagem salvífica do Homão de Nazaré.
As forças conservadoras, comandadas pelo cardeal Alfredo Ottaviani, se encontravam mais acessas que nunca. Fato: por ocasião da reunião preparatória para a eleição dos componentes das dez comissões permanentes, sobre a mesa de cada um foram colocadas, para orientação, listas dos membros a serem eleitos. Mas aí, e em toda a História tem sempre um aí grandioso, um cardeal de 78 anos, cabelos honradamente brancos, levemente curvado e de nariz aquilino, levantou-se e disse alto e bom som: “Não iremos aceitar as listas de candidatos preparados para nós antes da abertura do Concílio. Por outro lado, não temos tempo para escolher nossos próprios candidatos, e requisitamos um adiamento para tomarmos nossas próprias decisões”. O cardeal Aquiles Lienart, arcebispo de Lille, norte da França, entrou para a História como um que não aceitou as matreirices da Cúria.
A História também registra que os conservadores não queriam a efetivação do Concílio, se referindo ao evento como “o desatino do papa”, pois iria revelar ao mundo as diferenças internas. E sabiam destilar bem seus venenos, a exemplo do apelido dado ao cardeal Jan Alfrink, o atlético líder da igreja na Holanda, por seus contatos fraternais com os irmãos cristãos não-papistas: “anti-romano”.
O resto da história, todo helderista conhece. E o Juracy Andrade, mais que ninguém, sabe tudo sobre desmonte eclesiástico.
Vou ficando por aqui. Segundo Luiz Gonzaga: “que Deus do céu nos ajude!!” E ao Pe. Edwaldo Gomes, meu irmão de caminhada, de modo todo especial.

sábado, 6 de outubro de 2007

Reflexões de um sempre aprendiz

Para os que estão de folga, é recomendável uns instantes de meditação, para retificar comportamentos e contemplar novos horizontes. Sempre atentando para o revelado pelo salmista - Por que temer, nos dias infelizes, a malícia dos espertalhões que me cercam, e os que contam com sua fortuna e se vangloriam da sua riqueza? (Salmo 49). E valendo muito redimensionar seus níveis de cidadania, evitando sutis envenenamentos consumistas, inoportunas desatualizações culturais e desastrosos esmorecimentos espirituais, que comprometem as três pilastras do viver: a dignidade, a integridade e a auto-realização.
Oportuno também, num minutinho entre papos e passeios, uma releitura sobre o que disse Albert Schweitzer, ao receber o Prêmio Mundial da Paz, em Oslo, 1952: “O homem tornou-se um super-homem...Mas super-homem com poderes sobre-humanos que não atingiu o nível de razão super-humana.... Impõe-se sacudir nossa consciência ao fato de que nos tornamos tanto mais desumanos quanto mais nos convertemos em super-homens”. Palavras complementadas pela constatação feita por Erich Fromm, outro especialista em raça humana: “Somos uma sociedade de pessoas notoriamente infelizes: solitários, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes — pessoas que ficam alegres quando matamos o tempo que tão duramente tentamos poupar”. Dois pensares que poderão auxiliar muitos na descoberta de um novo Eu, mais humanizado, mais ecológico, mais entrosado nos novos cenários empreendedores mercadologicamente dinâmicos, mais familial comunitariamente, a aldeia global sendo seu domicílio século XXI.
Muitos, após seus períodos praeiros que já chegaram, perceberão que “atividade é uma conduta intencional socialmente reconhecida, que resulta em mudanças correspondentes, socialmente úteis”. E que ter maior poder cerebral será, sem dúvida alguma, o próximo desafio dos próximos anos dois mil, uma nova fronteira, com diferenciadas formas de convivialidade. Sempre usando o tempo como ferramenta, jamais como um divã, como costumava alertar o inesquecível presidente Kennedy.
Recomendaria, com a devida vênia, para os que ainda estão de papo pro ar, identificar seu melhor mentor: leituras, papos, Internet, orações, meditação transcendental, ioga, trabalho comunitário, entre outros muitos. Com o cuidado para não se deixar escravizar por correntes, visões, tarôs e tarados. Percebendo que o futuro chega rapidamente. E que todo futuro vira hoje, para ser logo passado, numa velocidade alucinante.
De volta ao batente, atenção para não cuidar das coisas certas nas horas erradas, o vice-verso também sendo desagradável. Não esquecendo que a raça humana não se locomove em bandos, nem jamais duvidando que a competência é bem mais rentável que mero diploma.
Permanecer sempre no centro do seu ser, ainda é a melhor maneira de se aprender um pouquinho mais. E de apreender derredores, fatos e cenários. Vacinando-se contra a confiança em demasia, a especialização individual excessiva, a rotinização do convívio e a cegueira estrutural.
E sonhar sempre. Sempre com os pés bem plantados e o coração apaixonado, posto que a lição de T.S.Eliot continua lucidamente contemporârea: “Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar”.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Ecumenismo e Fuxicaria

Possuo admiração pelos que buscam a unidade de todos os Filhos de Deus, numa luta comum contra a fome, a miséria e a violência. Que atemorizam os que possuem e os que nada amealham. E concordo integralmente com Dom Pedro Casaldáliga, um bispo que dignifica o Evangelho, pondo o Direito Canônico no seu lugar devido: “Tudo é relativo, menos Deus e a fome”. E aplaudo Jean Ziegler, no relatório da ONU sobre alimentação: “De fome morrem cem mil pessoas por dia, e a cada sete segundos uma criança de menos de dez anos. E como a fome pode ser superada, uma criança que morre de fome, hoje, morre assassinada”. E sinto asco por todos aqueles que buscam encontrar cisco nos olhos de seus irmãos de caminhada para denunciá-los às Santas Inquisições da vida, desapercebendo-se, porque mais voltados para a Lei do que para a Graça, das suas imensas traves mentais, que os tornam menos pastores e mais capatazes ansiosos para agradar com delações à chefia maior. Sentem com isso um prazer não-humano em apontar defeitos de auxiliares aos superiores, desatentos, porque quase bonecos de barro, das tarefas libertadoras que envolvem questões basilares de todo planeta. Pobres de espírito, não possuem criticidade diante dos poderes de plantão, sempre obcecados em não perder, se é que é possuidor, a liderança sobre alguns superados.
Diz o teólogo Paulo Suess que “a primeira pobreza é não conhecer o Cristo e não conhecê-lo de modo adequado, autêntico e integral”. E conhecer o Cristo integralmente é saber estar convencido de que nem as pílulas de Frei Galvão, recentemente tornado santo, nem a missa em latim, ajudarão nosso povo no conhecimento autêntico da fé no Filho de Deus.
A reflexão do teólogo Hans Küng, em seu livro Religiões do Mundo, Verus, 2004, é por demais alertadora: “Muitos europeus perderam a esperança no cristianismo, desenganaram-se dele. Voltaram as costas para as igrejas. Identificam o cristianismo com burocracia e pompa, com a ditadura, com a hostilidade à mulher e ao sexo, com a igreja oficial autoritária e incompreensiva...”
Os adeptos do dura lex sed lex, sem qualquer compromisso com a alegria e a confraternização de irmãos cristãos, ainda não se deram conta de que o cenário é pós-confessional. E que o modelo mais cativante é o que busca refletir uma comunidade mundial ecumênica multicultural e multireligiosa, a combater os estreitamentos humanos, a favorecer a participação igualitária das mulheres, sempre ressaltando uma gigantesca tarefa, a de promover, muito acima de artigos, parágrafos e alíneas feitas pelo ser humano, uma nova ordem mundial, onde desponte uma realidade espiritual voltada radicalmente para o bem estar do ser humano todo e de todos os seres humanos.
O teólogo Hans Küng está coberto de razão: “não haverá sobrevivência da humanidade, sem paz entre as nações; não existe paz entre as nações sem paz entre as religiões, nem paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões”.
O Cristianismo de todos os naipes necessita de uma ampla reforma, cada denominação olhando as demais como parcela, seguindo o deixado pelo evangelista São Mateus (7,12). Acredito visceralmente na ultrapassagem dos obscurantismos, dos fundamentalismos e dos fuxiquismos atuais que a nada conduzem. Creio firmemente numa cultura de não-violência e do integral respeito à vida. Numa cultura de parceria. Numa cultura de ampla solidariedade e justiça. Numa cultura de tolerância e muita veracidade.
Continuo anglicano paulinamente helderista, percebendo-me inconcluso. E fico a imaginar o comportamento dos fuxicosos diante da advertência paulina sobre a necessidade de renovar as mentes, tendo a mesma atitude uns para com os outros.
Somos cooperadores de Deus, independentemente de carteirinha religiosa. Com a Graça, jamais com a Lei e a Inquisição, que de santa não tem patavina.
Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 03.10.2007