quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Reflexões de Aprendiz

Para os que estão entrando de férias, é recomendável uns instantes de meditação, para retificar comportamentos e contemplar novos horizontes. Sempre atentando para o revelado pelo salmista - Por que temer, nos dias infelizes, a malícia dos espertalhões que me cercam, e os que contam com sua fortuna e se vangloriam da sua riqueza? (Salmo 49). No redimensionar dos seus níveis de cidadania, evitando sutis envenenamentos consumistas, inoportunas desatualizações culturais e desastrosos esmorecimentos espirituais, que comprometem as três pilastras do viver: a dignidade, a integridade e a auto-realização.
Oportuno também, num minutinho entre papos e passeios, uma releitura sobre o que disse Albert Schweitzer, ao receber o Prêmio Mundial da Paz, em Oslo, 1952: “O homem tornou-se um super-homem...Mas super-homem com poderes sobre-humanos que não atingiu o nível de razão super-humana.... Impõe-se sacudir nossa consciência ao fato de que nos tornamos tanto mais desumanos quanto mais nos convertemos em super-homens”. Palavras complementadas pela constatação feita por Erich Fromm: “Somos uma sociedade de pessoas notoriamente infelizes: solitários, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes — pessoas que ficam alegres quando matamos o tempo que tão duramente tentamos poupar”. Dois pensares que poderão auxiliar muitos na descoberta de um novo Eu, mais humanizado, mais ecológico, mais entrosado com os novos cenários empreendedores mercadologicamente dinâmicos, mais familial comunitariamente, a aldeia global sendo seu domicílio século XXI.
Muitos, após seus períodos praeiros, perceberão que “atividade é uma conduta intencional socialmente reconhecida, que resulta em mudanças correspondentes, socialmente úteis”. E que ter maior poder cerebral será, sem dúvida alguma, o próximo desafio dos anos dois mil, uma nova fronteira, com diferenciadas formas de convivialidade. Sempre usando o tempo como ferramenta, jamais como um divã, como costumava alertar o inesquecível presidente Kennedy.
Recomendaria, com a devida vênia, para os que ainda estão de papo pro ar, identificar seu melhor mentor: leituras, papos, chats na Internet, meditação transcendental, ioga, trabalho comunitário, entre outros. Com o cuidado para não se deixar escravizar por correntes, visões, tarôs e tarados. Percebendo que o futuro chega rapidamente. E que todo futuro vira hoje, para logo tornar-se passado, numa velocidade alucinante.
Após as férias, atenção para não cuidar das coisas certas nas horas erradas, o vice-verso também sendo desagradável. Não esquecendo que a raça humana não se locomove em bandos, nem jamais duvidando que a competência é bem mais rentável que mero diploma.
Permanecer sempre no centro do seu ser, ainda é a melhor maneira de se aprender um pouquinho mais. E de apreender derredores, fatos e cenários. Vacinando-se contra a confiança em demasia, a especialização individual excessiva, a rotinização do convívio e a cegueira estrutural. E sonhar sempre. Sempre com os pés bem plantados e o coração apaixonado, posto que a lição de T.S.Eliot continua contemporârea: “Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar”.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Suca, dez anos

Querida afilhada:
Apesar de todos os meus pesares, e os de um mundo cada vez mais interdependente, vale a pena continuar vivendo, porque você busca eticamente existir muito além dos seus aparentes seis anos de agora, para alegria dos seus parentes e amigos. Sua tenacidade em persistir pelejando com dignidade por um lugar ao sol, envaidece todos os seus amigos, mormente aqueles que lhe estão mais próximos, beneficiários primeiros da sua contagiante alegria, descontroladamente fértil em algumas oportunidades. Seu propósito de bem conduzir o seu caminhar bio-profissiográfico proporciona aos seus admiradores, inclusos os mirins que nem eu, a convicção de vê-la otimamente inserida nos propósitos da Criação.
Recordo-me com nitidez dos primeiros instantes do nosso relacionamento, acontecido numa comemoração à beira-mar, chope à vontade, ano passado, você toda de negro, menos o caráter e o humor contagiante. Uma luz diferentes iluminava todo o ambiente de confraternização.
Reservei para este seu aniversário, querida Suca, algumas reflexões por mim trabalhadas nos últimos tempos, advindas de contatos mil, acontecidos muito depois do escuro. E decodifico-as, abaixo, em respeito à sua faixa etária, biológica tão somente, com certeza. Elas poderão servir de balizadoras futuras, mesmo num contexto que se metamorfoseia com espantosa velocidade, proporcionando diferenciadas assimilações a cada inflexão.
1. Respeite-se sempre. A sua melhor amiga é a sua criticidade, consciência revestida de muita cidadania e criatividade intelectualmente nunca esmaecidas.
2. Imagine-se permanentemente sobrepairando sobre as mediocridades do cotidiano, até mesmo deste seu padrinho, ciumento vez por outra, quando se imagina preterido por qualquer bobajada sua.
3. Desenvolva sua espiritualidade, nunca imaginando-se superior a ELE, percebendo-se uma inconclusa vocacionada para o TODO, d’ELE sendo também parcela, desde sempre.
4. Experimente tudo e fique com o que é melhor, mesmo que sem lenço nem documento, sobrenome, idade e estado civil pouco importando.
5. Ame com intensidade todas as coisas, separando o joio do trigo, desprezando o julgamento dos medíocres, encapuzados e encapsulados, manifestando sua afetividade, sem imaginar-se vigiada, tampouco oprimida.
6. Veja-se sempre bonita, ainda que diante das intempéries naturais da Vida, nunca se olvidando que pouco adianta ter corpo de cadillac se a alma é de jipe.
7. Reserve momentos para seu lazer, o trabalho merecendo toda atenção em horários específicos e bem dosados.
8. Nunca enfrente seus momentos “down” sozinha, mesmo sentindo-se, momentaneamente, a última das criaturas.
9. Diferencie, sem pestanejar, tecnologia de tecnocracia, moderno de modernoso, serenidade de passividade, objetividade de descortesia, amor de casamento.
10. Viva prá servir, posto que tem muita gente necessitando da sua inteligência e da sua inventividade.
Cá do meu canto, Suca, continuarei ao seu lado, como nunca, torcendo pelas suas vitórias, pelos seus novos empreendimentos, pelos seus novos níveis afetivos conquistados. Tenho conversado muito, telepaticamente, com a sua mãe. E ela tem demonstrado um orgulho danado de você, não lhe poupando aplausos em momento algum. Para alegria de todos nós, seus companheiros de estrada.
Até seus onze anos, Suca. Do seu padrinho, com afeto arretadamente nordestino.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Curtas e Ladinas

Costumo colecionar historietas, contadas, vivenciadas, lidas e anotadas, utilizadas para reflexões em sala de aula, palestras e treinamentos Brasil afora. São por demais conhecidas dos profissionais de desenvolvimento gerencial, muito embora ainda pouco exploradas pelos das outras áreas, que também lidam com pessoas e fatos a elas relacionados, num dia-a-dia intrinsecamente conflituoso, permanentemente em acelerada mutabilidade. Num primeiro de abril, antigamente famoso, transcrevo algumas, a propósito de acontecimentos recentes, estaduais todos, a carapuça cabendo a quem de direito, na classificação de cada leitor.
1. A mãe do Diomedes, desesperada, às seis da manhã:
- Filhinho, levante-se, já está na hora de se preparar para ir à escola.
- Mãe, eu não vou mais prá escola de jeito nenhum. Os dois mil alunos me odeiam, os funcionários também, até o porteiro não vai com a minha cara!!
- Levante-se já e vá para a escola!, a mãe reagiu, ríspida.
- Mãe querida, não compreendo você. Por que você deseja tanto me colocar naquela tortura, naquele sofrimento?.
- Por duas boas razões, queridinho. Primeiro, porque você já tem quarenta e cinco anos e, segundo, porque você é o diretor da escola!!
2. Madame já muito coroa, recondicionada, bisbilhotando o Einstein:
- Querido Albert, em palavras que possa entender, o que é relatividade?
- Caríssima senhora, quando um homem está ao lado de uma mulher bonita, uma hora parece um minuto. Mas se está sentado numa boca de fogão acessa, um minuto vai parecer muito mais que uma hora.
3. Dona de casa para rapazote chegado de reunião geral:
- Quem fez o último discurso, filho?
- O governador, mãe.
- Sobre o que ele falou?
- Ele não disse, mãe.
4. Conversa entre uma galinha e um porco, na entrada de um chiqueiro:
- Sou totalmente devotada, pois dou meus ovos todas as manhãs.
- Isto não é devoção, é participação. Dar o presunto, isto sim, é que é devoção total!!
5. Um músico jovem e muito pentelho, escutou de Pablo Casals, o grande violoncelista, o porquê, aos 85 anos de idade, dele continuar praticando cinco horas diárias:
- Porque acho que estou melhorando!
6. Uma quase mulher, de fino trato, a um pianista famoso, depois de um recital consagrador:
- Eu daria a metade da minha vida para aprender a tocar como o senhor!
- Caríssima jovem, foi exatamente isto o que eu fiz!
7. Presidente de um grupo empresarial, questionado por estagiário:
- A que o senhor atribui seu sucesso?
- Às minhas boas decisões.
- E a que atribui suas boas decisões?
- À sabedoria...
- E de onde vem essa sabedoria, senhor?
- Conquistei-a com as minhas experiências
- E como obteve tais experiências?
- Com as minhas más decisões, meu jovem.
8. Mulher muito gorda, chata e presunçosa, em reunião de corretores de Bolsa de Valores, aqui bem perto:
- Por favor, atenção!! O que devo fazer para ser ouvida por todos ao mesmo tempo?
Resposta de bate-pronto, vinda de um canto de sala libertino:
- Soma os números do catálogo telefônico e disca para o resultado!!
O mais, é seguir as recomendações de John Rhoades, um analista organizacional de nomeada: “Mais do que existir, viva; mais do que tocar, sinta; mais do que olhar, observe; mais do que escutar, ouça; mais do que ouvir, compreenda”.

Fábula Contemporânea

Um formiguinho, franzino acima da média, afogava-se num lago de pouca profundidade, muito embora para ele mais que abismal, quando vislumbra um baita paquiderme passeando bem perto da margem direita.
- Elefante, socorra-me!! Estou me afogando!!!!
- Formiguinho querido, eu não estou conseguindo lhe alcançar! O que devo fazer??
Num raciocínio mais que rápido, sem qualquer preconceito sexual, o formiguinho estruturou seu processo salvatório:
- O lago não é profundo. Entre nele e quando chegar perto de mim, bem em cima de mim, estique seu pinto, imaginando-se nos braços de uma elefoa bem boa, que eu me segurarei nele.
- Não vais ficar encabulado, formiguinho?
- De jeito algum, seu babaca!! Ande logo, senão eu me lasco todo.
O elefante seguiu rigorosamente as orientações do formiguinho. E foi um sucesso o salvamento daquele animalzinho tão trabalhador. Com direito até a foto em primeira página do pasquim A Selva, editado pela Bicho’s University, famosa mundialmente pelos seus dinossauros catedráticos.
Passado algum tempo, eis que o formiguinho sofre mais um bafejo da sorte. Ganha na mega-sena, ficando pra lá de bem situado na sua cidade, abandonando até um antigo sonho, o de fazer concurso para professor de ensino superior. Com a bolada, comprou um baita BMW, óculos escuros, celular e andava com umas meninas que gostariam de naufragar no Titanic nos braços daquele galã capaz de arrepiar orgasmicamente adolescente taradinha, pré freqüentadora do mais alto meretrício.
Todo pimpão, eis que, uma tarde, passando pelo local do seu acidente, o formiguinho deparou-se com uma situação absolutamente inversa. O amigo elefante, já quase sem fôlego, afogava-se numa parte profunda do lago, gritando desesperadamente por socorro:
- Socorro me acudam!! Tou me afundando!!! Help!!!!
O formiguinho, plenamente consciente do tamanho do seu pipiu, mais uma vez aplicou estratégia vitoriosa: da mala do BMW retirou um cabo de aço, atrelou-o ao paralama traseiro, atirando a ponta contrária na direção do pobre paquiderme, que já despendia os últimos esforços.
Mais uma vez nas manchetes dos jornais da selva, o formiguinho foi entrevistado por um ratinho falastrão metido a popular. Microfone em punho, peremptoriamente forneceu a moral do acontecimento recente: Quem tem BMW não necessita de pinto grande.
Me disseram que aquele formiguinho tá transando com cada égua....

domingo, 26 de novembro de 2006

Troco para Inveja

O caríssimo Orismar Rodrigues, em sua coluna sempre muito lida, noticiou outro dia um qüiproquó dos infernos acontecido num salão de beleza da cidade, envolvendo duas personalidades recifenses de signos diferentes. Eu mesmo tomei conhecimento, através do João Silvino da Conceição, também cliente do salão, que o arranca-rabo foi tão danado que os uis e os ais dos porfiadores eram ouvidos dois prédios depois, assustando muita gente e outros animais.
O próprio João Silvino, depois de me contar outros pormenores do entrevero, aproveitou a oportunidade para narrar o papo ocorrido entre um cabelereiro primeiro-mundo e um socialite emergente, de cabelo bem espichado e com Mido, seu cliente de alguns anos, que não parava de tagarelar acerca de uma viagem que faria, dia seguinte, para a Itália e arredores.
- Roginho, tô muito excitadão, cara!! Tou indo pra Itália amanhã! Itália, cara, já imaginou a glória?
- Itália? - pergunta o cabelereiro. E rematando:
- Com tanto lugar bom pra se ir, tu vais logo pra Itália?
- É, vou, Roginho. E vou voar pela Alitalia, não é o máximo?
- Putzgrila, tu vais por aquela companhia horrorosa? A pior companhia de aviação do mundo!! O último lugar em qualidade de serviços prestados, ano passado. Mas, falando em Itália, vais pra que cidade?
- Vou conhecer Roma, a Cidade Eterna!!
- Que desperdício, amiguinho! Cidadezinha feia tá ali! Tem cada prédio incompleto, alguns até em ruínas. Eu, hein!?
- Mas eu vou, Roginho. E vou me hospedar no Hotel Hilton, sabes qual é?
- Cruz, credo, Celinho!!. Logo no Hilton? Aquilo é considerado o maior pardieiro da Europa! Antes dele, só os esgotos de Veneza, que ninguém mais suporta!!
- Mas eu quero ver o Papa, Roginho.
- Ver o Papa, é? Programinha de índio, não achas? Milhares de pessoas se acotovelando só pra ver aquele coroa de branco falar umas coisas que a gente não entende, depois fazendo umas cruzes com o braço direito. Eu, hein!!??
O Celinho saiu do salão tiririca da vida, botando fumaça por todos os furos do corpo. E prometeu revanche, tão logo retornasse de sua excursão financiada em vinte meses.
Viajou, curtiu a viagem, que foi ótima. Roma é fantástica, repleta de monumentos arquitetônicos deslumbrantes. O hotel é de primeiríssimo mundo, com um serviço de quarto digno dos aposentos sultânicos. E a bênção papal emociona todos aqueles fiéis que ansiosamente aguardavam João Paulo II, o papa peregrino.
Logo ao retornar aos seus pagos maurícios, Celinho, serelepe que só, mala atulhada de bugigangas, inclusive um xampu para Roginho, fez questão de ir entregar pessoalmente a lembrancinha.
- E aí, gato, como se foi de viagem?, perguntou o cabeleireiro, com um ar de quase imperceptível inveja.
- Roginho, tu não sabes o que me aconteceu! Estava na praça de São Pedro, tentando ver o Papa, manhã bem cedinho. Logo ele apareceu na sacada, olhou para o setor da multidão onde eu me encontrava e novamente retornou ao interior do palácio. Minutos após, saiu pela porta principal, vindo rápido em minha direção. Abraçou-me com toda fraternidade, sussurrando algo em meu ouvido direito, para espanto de seus guardas de segurança.
- Putz, cara, que barato!!! E o que foi que o Papa te disse?
- Quando Sua Santidade chegou bem pertinho de mim, ele disse “Filho, que cabelinho mais mal cortado, hein!!?”

sábado, 25 de novembro de 2006

SOS Pinto

Pelo noticiário internético de hoje, o mundo inteiro tomou conhecimento: um monge budista tailandês, 35 anos, decepou seu pênis com uma machadinha depois que teve uma ereção durante sua meditação. O homem se recusou a ter o membro implantado, alegando que estava renunciando aos prazeres da carne.
Apavorado, um amigo de longa data, o Pierre, me chega de sopetão na minha salinha de estudos, na Universidade. As pernas bem fechadas, tronco semi-curvado a la frei Damião, olhos arregalados, foi logo cobrando: “Quando é que vão instituir o SOS Pinto, uma Ong para salvaguardar os interesses dos que ficam, na maior parte da vida útil , de cabeça baixa?. Não se pode ser omisso, ficando de pernas cruzadas, diante das giletadas, mordidas, foiçadas, águas ferventes, torcidas propositais e unhadas mórbidas que estão no noticiário jornalístico diário”.
Surpreendido com o medo estampado nas duas cabeças do visitante, solicitei um chá bem frio para ele (quente ele poderia tomar como uma intenção mórbida!) e busquei puxar um assunto menos cacete. Pedi esclarecimentos, assegurando-lhe que estava pronto para o que desse e viesse, pau pra toda obra.
O que eu ouvi merece a criação, em regime de urgência, de uma Ong específica, especializada no combate aos que atentam para a integridade física de um dos responsáveis, sejamos diretos e duros, pela perpetuação da espécie humana, que paulatinamente vem se assenhoreando da História Cósmica. Os relatos, sob hipótese alguma, não deixam água na boca. Não respeitam qualquer tamanho, vitimando encapuzados e carecas. Maculando até os derredores, simples containers de material liquefeito.
E o amigo de longa data ainda revelava um outro inconveniente: todos os dirigíveis não tinham caixa preta, impossibilitando qualquer anotação acerca do acontecido durante os preliminares procedimentos de subida.
Imaginei algumas iniciativas atenuadoras: 1. proibição, nos locais adequados e específicos, de portar qualquer instrumento cortante, estrangulante ou perfurante, inclusive dentaduras e pontes; 2. instalação, nas portas de entrada dos ambientes lovelescos, daqueles detectores de metais utilizados nos aeroportos e bancos, recolhendo-se canivetes suiços, beliros, tesourinhas, alicates de unhas, correntes de todos os tamanhos, fios dentais, alfinetes, canetas de pena, cadarços de sapatos e fivelas de todas as marcas; 3. posicionar, ao lado de cada uma dessas portas, funcionária devidamente capacitada, que ajustaria os tamanhos das unhas dos visitantes, deixando-as em grandeza inofensiva.
Na área judicial, acredito que as mais diversas varas também ficarão sensibilizadas com a problemática, devendo erguer-se duramente na defesa das vítimas de dentadas erradicadoras, decepações, decepações com esmagamentos, estrangulamentos e beliscões dolosos, culposos e chuposos.
Os seguros-saúde com certeza reformatarão suas apólices, autorizando remendos, restaurações e transplantes de pintos novos e velhos, cada solicitação avaliada por uma junta cujos membros entendam do riscado, sabendo rapidamente decidir sem frigir os ovos.
Que o SOS Pinto se agigante, para, de cabeça erguida, seguir adiante nas suas missões desbravadoras, cuspindo sempre apesar dos perigos. Pois adentrar é preciso, embora viver não o seja tanto.
Quanto ao que aconteceu com o jovem monge budista, para os que crêem todo cuidado é pouco com o tipo de meditação utilizada ...

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Regras para Dirigentes

Tenho uma admiração gota serena pelo Peter Drucker, um oitentão muito atualizado. Sem diploma superior de Curso de Administração, sendo conseqüentemente olhado de esguelha pelos “carimbológicos cartoriais”, Drucker sempre soube antecipar-se à chegada de novos tempos. Essencialmente um não-especialista, Drucker não se preocupa com o exercício da administração, mas com a filosofia da administração, na construção de cenários futuros.
Homem de leituras amplas, Drucker é mestre em perguntas simples e devastadoras, daquelas que deixam os “ispecialistas”, aqueles que se imaginam notáveis, só com a cara e a coragem de continuar enxergando o “quase nada”. Uma das suas: Por que todo homem absorto nas rotinas cotidianas do seu serviço possúi uma mente confusa e obstruída por preconceitos e cavilações mentais?
No livro Administrando em Tempos de Grandes Mudanças, editado pela Pioneira, seis regras de gerência para presidentes de República foram por Drucker enumeradas, ressaltando ele que até presidentes fraquinhos foram considerados eficazes por tê-las seguidos à risca, sem mas nem meio mas, enquanto outros, metidos a porta-bandeiras do saberete universal, alguns até sociólogos, perderam eficácia por violarem as “regrinhas”. Para facilitar a vida de muito primeiro-mandatário, federal, estadual, municipal, secretarial inclusive, transcrevo, abaixo, as seis regras gerenciais druckerianas, torcendo para que elas sejam entendidas e devidamente aplicadas pelos que, ainda embananados, necessitam melhorar seus níveis gerenciais de tratamento com a coisa pública. Ei-las: 1. O que precisa ser feito? 2. Concentre-se, não se divida. 3. Nunca aposte numa coisa certa. 4. Não perca tempo administrando detalhes. 5. Não tenha amigos na administração. 6. Eleito, pare de fazer campanha.
São regras que não podem ser “apreendidas” isoladamente, sendo “ingeridas” conjuntamente, para que a eficácia surta efeito em prazo curtíssimo, mudando modos de pensar e agir, independentemente do nível etário do mandatário, posto que a sociedade de trinta anos para cá mudou e muito. E mudou de forma irreversível, deixando uma lição memorável: as ações do presente são a única maneira de fazer o futuro, deixando para trás estagnações operacionais e disputas mesquinhas. Populismos, assistencialismos demagógicos e compadrices não mais se permitem num elenco de ações criativas, competitivas e socialmente alanvancadoras.
É Drucker quem, arretadamente contemporâneo, adverte: “dá-se uma atenção demasiada à tecnologia; pior ainda, à velocidade do dispositivo, nos fazendo perder de vista a natureza fundamental da informação na organização de hoje”. E mais, para petelecar os “divinos”: “Na sociedade do conhecimento, cada vez mais conhecimentos, especialmente avançados, serão adquiridos muito depois da idade escolar e, cada vez mais, através de processos educacionais não centralizados na escola tradicional”...”Muitas instituições ainda acreditam que a maneira de obter dinheiro é proclamar necessidades”.
E quando outro dia, li não sei aonde, um dirigente universitário afirmar que “a universidade é agente de mudanças”, quase me afolozo mentalmente, muito embora o meu “bráulio” tenha ficado com uma baita dor de cabeça...

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Os Supimpas do Reino

Sinto-me anormalmente apequenado, em inúmeras oportunidades, diante de personalidades tidas e havidas como eternamente instaladas por cima da carne seca e que se imaginam notabilíssimas diante de qualquer platéia. Elas conhecem tudo e todos, emitem opiniões alguns decibéis acima dos níveis sociais saudáveis e não deixam escapar oportunidade de dar uma telefonada pelo seu portátil, mesmo que para não dizer coisa alguma. Sedentas de fama, conforto, propriedade e poder, anseiam por um alô de qualquer alguém que amplie a relação dos que lhe são “gente da minha maior intimidade”.
Muito se tem escrito, nos últimos anos, a respeito do “fenômeno da impostura”, descrevendo a neurose de alguns aparentemente bem sucedidos, cujas máscaras, cedo ou tarde, cairão, a incompetência se manifestando. A neurose do aparecer é tanto maior quanto mais consolidada for, no íntimo do mascarado, a sensação plena de ser ele um anão fantasiado de gigante, de voz impostada, roupa bem engomada, a face estampando um emblemático, muito embora ilegítimo, ar de “dono do pedaço”.
Certa ocasião, ouvi de um excelente relações públicas, uma revelação comovedora: “como é triste ganhar a vida desse jeito, fingindo gostar das pessoas e esquecendo-se do que seja amizade verdadeira, descompromissada”. E o que achei de mais desestruturador nele foi o fato dele perceber que a sociedade também sempre finge aceitar tal comportamento.
A Lei de Gerson - levar vantagem em tudo - ainda é a maior lei para inúmeros, a sinceridade não devendo fazer parte do cardápio do “profissional” que deseja rapidamente alcançar sucesso. Sem tempo para nada, obcecado em ganhar, a todo instante, um pouco mais, mesmo que às custas do atropelamento de parentes e amigos.
O hábito da competição a qualquer custo é pernicioso, transforma amigos em inimigos, esmaga sadias convivialidades, menosprezando respeitosos entendimentos, retratando o nível autofágico dos ambientes que elegem o aparente como seus estandartes primeiros.
A pergunta de um profissional calejado, endereçada aos supimpas do reino, pode ser oportuno ponto de partida para uma reengenharia comportamental que semeie neles futuros mais substanciais: “Você se encontra preparado para o dia em que a música parar de tocar e as pessoas começarem a lhe dizer não?“
Todo cuidado é pouco com os supimpas. E aqui vai, para os demais, um bom conselho: “Esperar que um oportunista lhe trate bem só porque você é uma boa pessoa é como esperar que o touro não lhe ataque porque você é vegetariano”.
No mais, sempre seguir adiante, apesar dos sibilantes.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Educação e Cidadania

Diante de um quadro nacional violentado por acontecimentos que amortecem os ânimos de milhões, já agredidos por um Ministro de Defesa que não tem conhecimento de nada, nem do valor-trabalho, vale a pena propagar aos quatro ventos os balizamentos que minimizem os efeitos funestos das iniciativas de alguns politicamente irresponsáveis.
Mesmo depois das eleições do segundo turno, continuamos a ouvir promessas mirabolantes, declarações bombásticas e estapafúrdias, histerismos oposicionista e coisas outras que tais. Tudo para angariar simpatias dos mais descidadanizados, os abiscoitados de sempre, que não percebem a evolução dos tempos e costumes.
Ouviremos novamente falar em inflação zero, em redentores esticamentos do São Francisco para matar a sede de milhões de sofridos irmãos nordestinos e na defesa radical da intocabilidade de setores produtivos públicos, daqueles que privilegiam “diferentes”, os sempre avessos às salutares fiscalizações democráticas da sociedade civil. Emergirão, já “semeando” para as próximas disputas eleitorais, esfuziantes defensores dos fracos e dos oprimidos, inúmeros deles oriundos de entidades que “fingem” lutar pela erradicação da miséria e da injustiça social, com isso assegurando polpudas transferências do Erário Público, a maioria delas advindas de contas ainda não devidamente auditadas.
Veremos, a partir de janeiro próximo, pré-candidatos a prefeito com criancinhas no colo, postulantes à vereança devidamente apetrechados com quentíssimas “palavras de ordem”. E alguns outros pretendentes com esposas e filhos em fotografias de sofá grande, domingueiramente paramentados. Os mais piedosos, rezando e pedindo a Deus pela paz e felicidade ... deles, nas urnas. Outros divulgando listas de entusiásticas adesões e confraternizações com gente humilde, se possível da classe mais desdentada possível. Tudo para bem engabelar no horário eleitoral.
Por outro lado, complementando os cenários prévios de disputas eleitorais, o festival de denúncias será antológico, tudo devidamente ampliado pelos meios de comunicação menos independentes. Não faltarão entrevistas, divulgadas em revista de circulação nacional, de especialistas em práticas amorais, imorais e indecentes, oferecendo serviços para quem der mais, ideários à parte, sem qualquer importância. Um parrapápá esculhambatório,
de fazer inveja aos mais especializados, escandalizará gregos e troianos: fulano deu a todo mundo quando era pequeno, foi expulso do colégio porque foi visto “praticando” com um colega na banca de estudo, sicrano tem mulheres e filhos fora dos registros cartoriais, beltrano bebe que nem um gambá, seu isso se meteu em maracutaias mil, seu aquilo não sabe nem falar direito, seu aquiloutro tem um viés quase-quase, seu futreco já arriou as calças para ordenanças de um quartel, o irmão dele tendo esbofeteado o pai e cuspido na mãe em pleno dia dela.
Para apimentar o caldeirão eleitoral, também pintarão no pedaço dois personagens por demais conhecidos dos mais experientes: o messias e o anselmo. O primeiro, prometendo mundos e fundos. O segundo desejando ver o circo pegar fogo, para nas chamas se esvair a nossa incipiente trilha democrática, edificada por milhares de abnegados. O primeiro, pau-mandado de graúdo, se encarregando de “sujar” tudo que não se encontra sob o taco do seu amo, do lado de lá ninguém prestando. O segundo, sempre aparentando ser o mais revolucionário de todos, o mais gota serena, tem a tarefa primordial de fingir caminhar para a frente, sem jamais transparecer estar a serviço de retrocessos bestiais. Dois manjadíssimos sagüins, filhotes bastardos de gorila, desservindo à cidadania brasileira.
Preguiça, ignorância, demagogia e incompetência, definitivamente, não são armas para quem busca transformações sociais conseqüentes e duradouras. George Orwell costumava dizer que os jovens intelectuais de classe média vão para a esquerda por desemprego, sempre cobrando dos outros aquilo que não podem oferecer. Por aqui, os mais exaltados são alguns fronteiriços, sempre de olho em cargos de remunerações polpudas, que proporcionem mandos, desmandos e nenhuma efetividade gerencial. Valendo apenas o agora eleitoreiro, o resto que se exploda todo.

domingo, 19 de novembro de 2006

Tragédia Educacional

Muito deve amedrontar as massas profissionalmente desqualificadas, bucha de canhão para mistificadores e falsos profetas. "Para quem não sabe ler, um pingo é letra" e "Para o mau oficial nenhuma ferramenta presta", complementam-se magnificamente, retratando uma tragédia educacional, a brasileira, que é conseqüência direta das desatenções de toda sociedade para com um eficaz processo integrado de cidadania, prioridade das prioridades de qualquer planejamento governamental estratégico sério. Para toda sociedade elitista e autofágica, outros provérbios deveriam calar bem fundo, alertas para os que desejam um amanhã menos truculento: "Antes prevenir do que remediar", "Para grandes males, grandes remédios", "O barato sai caro", "Do prato à boca, perde-se a sopa", "Não se deve gastar vela com mau defunto.” Para homens e mulheres que da vida só desejam sombra e água fresca, sempre pendurados nas costas dos que trabalham para sustentar pão, família e ambiência, recomenda-se a leitura, e memorização, das seguintes advertências: "Quem não pode com a mandinga não arrasta patuá", "Quem o alheio veste, a praça o despe", "O pote tanto vai à bica que um dia fica.” E que não venham mais com aquela historinha de que "Quem come a carne que roa os ossos", posto que já existe muita pastilha boa contra azia e má digestão, ninguém mais sendo obrigado a conviver com comida estragada.

Receios Pessoais

Receio pelo momento presente do país. Das desesperanças transformadas em explícitas desobediências civis. Dos falsos moralismos dos puritanos, eternos donos das verdades mais absolutas. Dos eu-não-disse? de uma esquerda incompetente, messiânica, sem proposta nem criatividade, aferrada a dogmas ultrapassados. De uma direita sempre a contemplar o próprio umbigo, impedernida, viciada em retrocessos para se manter na ponta dos cascos, esmagando tudo e todos. Tenho ojeriza dos eternos inquisidores, jamais construtores, que cascavilham para chafurdar, nunca para esclarecer. Dos criquentos mexeriqueiros, que vivem colocando defeitos e deficiências nas empadas dos outros, vendo em tudo mil maracutaias. Dos sem imaginação, que sonham com novas intervenções militares no cenário nacional, para novamente arrostar equinos pendores civis. E das bestas do apocalipse, que anunciam o fim do mundo pelo fogo eterno dos infernos.

sábado, 18 de novembro de 2006

Oração do Silvino

"Pai, passei um monte de tempo Te procurando e não sabia sequer onde Tu estavas. Manhã bem cedinho, ainda mal acordado, olhava para o infinito e não Te vislumbrava, sequer por um milésimo de segundo. De uns tempos para cá, cheguei mesmo a pensar se não era pura imaginação minha a Tua existência e pura fantasia o que diziam de Ti. Agigantando-me a angústia interior, não me contentei apenas com as simples e periódicas buscas. Então, resolvi Te procurar nas religiões e nos templos, frustrando-me uma vez mais, por não Te localizar em lugar algum. Fiz Universidade para melhor investigar, através do uso de metodologias múltiplas, a Tua presença entre sacerdotes e pastores. Em pouco tempo, fortemente me desencantei, pois Tua presença não era visível para os meus olhos. Sentindo-me só, depois de muitas desesperanças, vivenciei um enorme vazio. Assim, descri. Na descrença Te ofendi. Na ofensa tropecei e no tropeço caí, lambuzando-me todo no charco dos fúteis e dos consumistas, daqueles que se imaginam poderosos, superiores e indestrutíveis, muitos furos acima do Bem e do Mal. Na queda, isolando-me na mediocridade dos apoucados, senti-me combalido. Já bastante frágil, procurei socorro e no socorro recebido encontrei verdadeiros amigos. Neles vivenciei reconforto e carinho fraternal. Na receptividade irmã que eles me proporcionaram desinteressadamente, vi nascer o amor. Com amor, eu vi surgir um mundo diferente, de muita luz, recheado de maravilhas, antes jamais vistas por cegueira emocional e racionalidades ingenuamente tidas como científicas. Resolvendo solidarizar-me com este mundo, doando-me sempre que possível, compartilhei com muitos o pouco que já tinha recebido. Logo, senti-me feliz, encontrando a paz. E foi com muita paz que enxerguei a Tua presença dentro do meu interior de ser humano. Hoje, definitivamente e sob a Tua Graça, tenho a certeza absoluta de que Tu nunca me abandonaste."

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Desopilação da Moda

Os tempos internéticos têm proporcionado uma notável ampliação dos conhecimentos técnico-científicos, a multiplicação de talentos cibernáuticos, a mundialização de algumas idiotices e a aparição de umas tantas vaidades dinossáuricas. Mais ou menos idênticas à daquele recém pós-graduado que está inserindo na rede Internet capítulos e mais capítulos de sua tese de doutorado, patrocinada por uma fábrica de bolachinhas bestas, trabalhinho apenas lido pelos componentes da banca examinadora. A intenção do trejeitado é ser reconhecido e, se possível, aclamado como de nível superior, posto que, até agora, dada a instituição cursada, ninguém ainda percebeu seus “méritos”.
Mas a maior alegria na Internet está acontecendo com a emersão de centenas de taglines, pequenas frases que revelam trocadilhos, gozações e desmoralizações com ideários tidos e havidos como tradicionais ou de eterna eficácia.
Classifiquei uma vintena de taglines, para proporcionar uma avaliação nota dez da criatividade brasileira, apesar de todos os pesares e desatenções educacionais possíveis. Ei-la:
a. Não há nada no escuro que você possa ver.
b. Mulher é um conjunto de curvas capaz de levantar um segmento de reta.
c. Parte do automóvel que é vendida no Egito: os faraóis.
d. A ejaculação precoce era conhecida na Antiguidade como mal que mela.
e. Nunca ligou para dinheiro, quando ligou estava ocupado.
f. Rouba dos ricos e dá aos pobres, além de ladrão é gay.
g. Barganhar: receber um botequim de herança.
h. Se barba impusesse respeito, bode não teria chifres.
i. Deus criou o homem antes da mulher para não ouvir palpites.
j. Já que a primeira impressão é a que fica, use uma impressora laser.
k. Abelha morre eletrocutada numa rosa-choque.
l. Estouro: bovino que sofreu operação de mudança de sexo.
m. Menstruação é ruim? Pior é quando ela não vem.
n. A zebra disse pra mosca: você está na minha lista negra.
o. Se bebida curasse alguma coisa, cachaça tinha bula.
p. Tudo na vida é passageiro, menos motorista e cobrador.
q. Loura Gelada é só uma mulher esticada numa mesa do IML.
r. No dia que chover mulher, quero uma goteira em cima da minha cama.
s. Meu gato morreu em miados do ano passado.

Homenageio, transcrevendo as taglines acima, um notável pesquisador, pioneiro na coleta do que havia de mais pitoresco em para-choques de caminhão: Marcos Vinicios Vilaça, hoje personalidade consagrada nacionalmente.
Em publicação editada pela Fundação Joaquim Nabuco, então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, ele revelou ao país inteiro, em 1961, a criatividade e o humor, as ironias e as farpas dos caminhoneiros brasileiros, uma das alavancas da integração nacional norte-sul, leste-oeste. Exemplos notáveis por ele coletados:
a. Não sou pipoca, mas pulo um pouco.
b. Cerveja só gelada, mulher só quente.
c. Mulher e parafuso, comigo é no arrocho.
d. Sem amar não se vive.
e. Mulher feia e urubu, comigo é na pedrada.

As tiradas de ontem e as de agora são sinais evidentes da vivacidade intelectiva de um povo, o brasileiro. Um povo criativo por excelência, pronto para desenvolver o seu território pátrio, se lhe derem vez, voto, chão e enxada.

Arrematadores de Deus

A lembrança de um fato acontecido nos anos noventa me rejuvenesce a cada amanhecer. Seguinte: concluindo uma palestra para jovens no Vasco da Gama, populoso bairro recifense, ouvi uma senhora dizer que rezava, “desde quando tinha dezoito anos”, a mesma oração antes de dormir. Provocada fraternalmente, Dona Lulu, mais de setenta, negra, pobre, viúva e ex-prostituta, declamou a sua oração pré-Segunda Guerra Mundial: “Senhor, clareia minha cabeça, para que eu possa entender os seus sinais”. Uma súplica que até hoje baliza meus papos com o Criador.
Dias atrás, como que para reavivar ainda mais a minha memória, outro fato aconteceu. Um livro me despertou a curiosidade nas mãos do João Silvino da Conceição, um amigão de caminhada, quando o abracei na saída do cinema, pipoca na mão, sorrisão estampado, parecendo até que tinha ganho o bolão da loteria. Editado pela Mundo Cristão, o livrinho chama-se A Oração de Jabez, best-seller segundo o New York Times, mais de um milhão de exemplares vendidos somente nos Estados Unidos.
A oração de Jabez, incrustada numa área pouco lida da Bíblia – 1Crônicas 4, 10 – me proporcionou uma baita complementação oracional, posto que veio integrar-se à oração da velha Lulu. Explico melhor: os pedidos de clarear a cabeça para entender os sinais de nada valerão se não vierem acompanhados de uma vontade determinada de ampliar os fatos e feitos bons do mundo, através de ações e empreendimentos que ratifiquem a parábola dos talentos – Mt 25, 14-30 -, aquela onde o gerentão apreciou quem soube multiplicar o recebido, fazendo eticamente bom uso do entregue para tomar conta sem qualquer desvalorização.
Não tenho simpatia alguma pelos acomodados, seja financeira ou intelectualmente. Os primeiros findando vítimas do ouro acariciado, os demais tornados ruminantes do saber adquirido. Daí, recomendo aos Arrematadores de Deus, a expressão se encontra no livro, cada vez mais “examinar tudo para ficar com o que é bom” (1Tes5, 21), através de leituras que fortaleçam uma cidadania semeadora, aquela que é alicerce de um desenvolvimento profissional capacitado para enfrentar as turbulências dos cenários mundiais. E o desenvolvimento profissional somente se robustece quando se percebe que todo “ato de conhecer dá-se contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos, superando o que, no próprio espírito, é obstáculo á espiritualização”, conforme nos ensina Gaston Bachelard, famoso pensador francês.
No A Oração de Jabez está a definição do que seja um arrematador: “alguém que sempre faz um pouco além daquilo que era esperado ou exigido”. Uma pessoa que se esmera mais que o normal, que reflete de cabeça aberta sobre as novas circunstâncias, que comanda sem raivosidades, que ensina com paciência nunca amedrontada e que sabe envelhecer percebendo-se plenamente desafiado para os diferenciados enfrentamentos do futuro.
Um conselho contido no livro é oportuno para os que se encontram de pneus baixos, desesperançados ou com uma vontade danada de fazer alguma coisa, embora nunca tenha ido além da tagarelice: o que importa não é quem você é, nem aquilo que seus país decidiram que você fosse, nem o que disseram que seria o seu destino; o que importa mesmo é saber quem você quer ser, e pedir isso.
Todo cuidado é pouco com as orações sem ações concretas. Um cristão que se esconde do mundo, covardemente, sem ampliar sua capacidade de agir construindo mais, muito se distancia da mensagem do Homão de Nazaré.
Por favor, nada de vitimismos, nem de coitadismos!! De Deus sejamos pidões, com fé bem muito pidões, para que possamos ampliar a justiça social do mundo. Se somos filhos da Criação, que sejamos bem mais do que somos, para mais eficazmente exercer a missão que nos foi confiada. Uma receita válida para todos aqueles que habitam este imenso palco chamado Vida, pedido que sobrepaira todas as religiões da Terra.

Frei Caneca, Sempre Atual

Reverencio o Frei Caneca, arcabuzado pelas forças monárquicas antilibertárias. De temperamento insubmisso, tenaz e irredutível, Joaquim do Amor Divino Rabelo e Caneca, o “buliçoso frade”, como o definia Oliveira Lima, ordenou-se carmelita, no Recife, em 1796, com apenas 22 anos. Através de cartas suas, sabe-se que foi pai de três filhas, por ele chamadas carinhosamente de afilhadas: Carlota, Ana e Joana. Participando do levante de 1817, foi preso e enviado à Bahia, onde esteve encarcerado até 1821. Retornando ao Recife, fundou o Typhis Pernambucano, um periódico através do qual divulgava suas idéias e suas críticas ao regime da época. Implicado novamente na explosão pernambucana de 1824, contida pelo governo central, fugiu para o Ceará, onde foi preso, levado de volta ao Recife, julgado por uma comissão militar e condenado à morte por enforcamento. Pela recusa do carrasco em cumprir sua missão e também dos presos da cadeia, foi fuzilado pela tropa em 13 de janeiro de 1825.
Do carmelita desassombrado, reproduzo alguns dos seus pensamentos, encarecendo dois-mil-réis de reflexão dos ainda não agredidos pelo idioticu vírus do liberaloidismo do momento:
1. “De ordinário, combate-se o despotismo, porque está nas mãos dos outros; em chegando às nossas, tudo nos é lícito, tudo podemos, e levamos a rojões quanto se opõe ao furor dos nossos afetos e ao nosso ponto de honra.”
2. “É detestável a máxima da obediência cega do soldado em todas e quaisquer circunstâncias.”
3. “Idéias velhas não podem reger o mundo novo.”
4. “Quem será tão estúpido, que não enxergue aqui a trama do ministério para nos enfraquecer?”
5. “Nós queremos uma constituição que afiance e sustente a nossa independência, a união das províncias e integridade do império, a liberdade política, a igualdade civil, e todos os direitos inalienáveis do homem em sociedade.”
Frei Caneca, um respeitador da roxidão do seu aquilo. Seus posicionamentos deveriam servir de alerta para todos, filhos de trabalhadores e filhos de generais, as descendentes de Tejucupapo, os filhos dos que não souberam ficar de quatro, os não-classificados nas armarias das titulagens, os realmente solidários com os despossuídos, os que desejam amar um Brasil soberano, altaneiro e socialmente justo. Um Brasil acima de tudo.

Prece do Ser Maduro

Para aquelas pessoas maduras que estão se sentindo inúteis ou com pouca valia diante de um cotidiano aceleradamente estrepitoso, indico a leitura diária de uma pequena oração, encontrada numa gaveta de escrivaninha de senhora de classe média quase alta pernambucana, nordestina de quatro costados, testemunha ocular dos ontens faustosos por aqui acontecidos:
Pai, agora que não estou mais no tempo de alimentar tolas ilusões, aguça todos os meus sentidos, para que eu possa perceber a beleza das realidades terrestres.
Pai, agora que as mil opções foram feitas e inúmeras portas se fecharam em definitivo, dai-me o dom da aceitação para que as renúncias não sejam um fardo demasiadamente pesado para meu resto de viver.
Pai, agora que a soma dos meus inúmeros erros derrubou as ilusões de onipotência, não retire nunca o meu ideal de continuar tentando acertar, sempre contando com a Sua Graça infinita.
Pai, agora que os incontáveis desenganos e incompreensões ampliaram o meu ceticismo, conserva minha boa fé na Humanidade e a minha firme disposição de continuar bem servindo às criaturas, Seus filhos muito amados.
Pai, agora que as forças do meu corpo começam a esmorecer, alerta o meu espírito, livra-me dos comodismos do cotidiano, redobrando minha vontade de permanecer lutando até os últimos instantes de minha existência.
Pai, agora que aprendi a ver a precariedade das coisas, a limitação da nossa luta e a insignificância da nossa altivez, afasta-me dos desânimos desagregadores, ampliando minha auto-estima, deixando-me cada vez mais consciente de que '
nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia '.
Pai, agora que já alcancei o ponto de perspectiva que me dá uma melhor visão do pouco que sei, livra-me da defesa fácil de colocar viseiras e anteparos, e ajuda-me a envelhecer com a mente aberta dos destemidos, dos que sabem suportar as revisões comportamentais até o instante da eternização.
Pai, agora que aumenta o número de criaturas que me olham e esperam alguma coisa de mim, dá-me um pouco de sabedoria, ensina-me a pronunciar a palavra certa, inspira-me o gesto exato, norteia minha atitude, dignifica mais o meu agir com os mais jovens, mais viris, mais bonitos e bem mais dinâmicos.
Pai, agora que perdi a abençoada cegueira da juventude, só podendo continuar amando de olhos bem abertos, redobra minha compreensão sobre a solidariedade humana, ajuda-me a superar todas as mágoas, protegendo-me das amarguras do ocaso.
Finalmente, Pai, concede-me a Graça de não cair na desilusão, de não chorar os meus passados, de continuar sempre disponível, de jamais perder o ânimo de envelhecer sempre jovem, e de chegar à Sua Presença ainda com inestimáveis reservas de amor
.”

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

A Mulher Madura

O escritor Affonso Romano de Sant’Ana, esse homem de letras arretado de bom, escreveu um texto, certa feita, intitulado A Mulher Madura. Linhas dignas de serem policopiadas e distribuídas em todas as reuniões sociais, onde muitas ainda não perceberam que maturidade nada tem a ver com eliminação da celulite, desengordurações, quilos de creme e litros de xampu.
Na minha faixa etária, admiro muitíssimo as mulheres maduras, não as amarelecidas. Mulher amadurecida, segundo Romano, é aquela que possui uma contínua serenidade nos seus gestos, todos eles distanciados quilômetros dos malabarismos desassossegados da adolescência, quando se digladiam, horizontal e verticalmente, muitas vezes numa busca desesperada de afeto mínimo, nas pernas e braços, mentes, coxas e redondezas. Amadurecida é a mulher que flui com a serenidade comportamental de um peixe de aquário bem tratado, a envolver todos com um olhar repleto de múltiplas ternuras não-caretas.
O corpo de uma mulher madura, de mil e uma histórias, não vive comprimido em modelitos três números aquém do apropriado. Tampouco sobrevive acintosamente encharcado de aditivos suspensoriais que apenas momentaneamente dão sinais de firmeza teen-ager. Corpo de mulher madura independe de conta bancária, carro importado ou griffe de alguém aboletado por uns tempos na crista da onda. Tem mãos que sabem deslizar mais sedutoramente que mouse sob comando de designer especializado em formatação de painéis e logomarcas. Tem boca que explicita sensualidades múltiplas e palavras de muita sabedoria, cativantes e convincentes.
Engana-se todo aquele que imagina uma mulher madura sem mais o seu cadinho prazeroso, onde os procedimentos metodológicos acumulados se emaranham para dar lugar a estratégias empreendedoras que enlevam e fazem elevar, integrados a um pensar/falar sem as lógicas eguariças que irritam, maculam a inteligência e perturbam mastros e baionetas. E esse juízo falso decorre, inúmeras vezes, de uma estupidificante incompetência masculina, que machisticamente imagina sentir “felicidade” com peças novas, ainda que muito distanciada do Aurélio e de seus múltiplos escaninhos culturais.
Conheço e tenho profunda admiração por inúmeras mulheres maduras, dos mais diferenciados níveis de renda e estado civil, religião, modos de pensar e conviver. Mas todas elas possuidoras de notáveis características comuns, que as diferenciam das inúmeras outras aparentemente maduras, que se portam como parte integrante e submissa de uma manada global.
As posturas comportamentais de uma mulher madura se estruturam a partir de três pressupostos: organização, sentimentos e criatividade. Ela percebe que as oportunidades só favorecem as mentes preparadas, serenas e intelectualmente construtivas. E ela entende o significado de três leis:
1ª.“Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”;
2ª. “A mulher que sofre antes do necessário sofre mais que o necessário”; e
3ª. “Para conseguir se comunicar com excelência você precisa apenas ser você mesmo.”
Para todas as minhas amigas maduras, sólidas fundações do meu caminhar terrestre, remeto o ensinamento de Dostoievski, aplaudindo-as sem esmorecimentos, ciente da importância delas, pedaços vitais que habitam o exterior do meu eu: “O único meio de evitar os erros é adquirir experiência. Mas a única maneira de adquirir experiência é cometer erros.

O Pardalzinho

Era uma vez um pardalzinho que detestava deslocar-se para outras paragens, todas as vezes que o inverno chegava. Por esse motivo, deixava sempre para última hora a idéia de abandonar seu aconchego por uns tempos. Costumeiramente, despedia-se dos companheiros, retornando ao ninho para mais umas semanas de um cochilo bem-bom.
Certa feita, com um tempo já desesperadamente frio, ao iniciar seu vôo, deparou-se com uma chuvinha continuada. Molhadas as asas, estas se petrificaram, congelando-se, fazendo o pardalzinho despencar das alturas e cair no interior de uma vacaria de pequeno porte.
Quando já se imaginava próximo do seu final de vida, o pardalzinho recebeu uma descomunal carga excremental, oportunamente quentinha, de uma vaca que de costas para ele se encontrava.
Apesar de todo bostado, o pardalzinho logo percebeu que aquela massa fétida derretia rapidamente o gelo acumulado das suas asas, aquecendo-o providencialmente e tornando-o muito distanciado da morte prematura que se avizinhava.
Sentindo-se feliz, plenamente reaquecido, o pardalzinho começou a cantar alto e bom som, desapercebendo-se por completo de um enorme gato que o espreitava estrategicamente, atraído pelos seus trinados, e que, de uma só abocanhada, matou-o instantaneamente.
Esta história reflete quatro ensinamentos, dignos de serem repassados. O primeiro proclama que “nem sempre aquele que caga em você é seu inimigo”. O famoso ditado “topada só bota pra frente”, muito ouvido nas camadas populares, reflete, contraponto felicíssimo, a lição encerrada naquela advertência.
O segundo ensinamento revela que “nem sempre aquele que tira você da merda é seu amigo”. Uma lição ainda muito desapercebida por inúmeros eleitores nordestinos, responsáveis por feudos oligárquicos conservadores, perpetuados pela gratidão eterna dos “beneficiados” que continuam vítimas.
O terceiro ensinamento é oportuno para muitos: “desde que você se sinta quente e confortável, conserve o bico calado, mesmo que situado num monte de merda”. Reclamar muito, por tudo e todos, quando não se pode dar um passo seguro, é o mesmo que cutucar leão faminto e solto com vara bem curtinha.
E o quarto ensinamento da parábola do pardalzinho é a chave de ouro dos anteriores: “quem está na merda não canta”. Traduzindo: deve-se procurar a melhor das alternativas, jamais se distanciando de uma consistente simancalidade, capacidade de se mancar, perceber-se imaturo, incompleto ou muito inconveniente.

Lição Universal

Nos laboratórios de desenvolvimento gerencial se conta uma historinha tida como verdadeira, acontecida na Floresta da Tijuca, Rio de Janeiro. Ei-la:
Um homem de classe média, profissional liberal, remediado, temente a Deus mais por covardia que por princípio, saiu para uma caminhada na floresta e nela se perdeu. Vagueou horas a fio, tentando encontrar a saída para o seu sufoco. Para onde ia, nada encontrava. De repente, deparou-se com um outro ser humano. E perguntou de bate-pronto:
- Você pode me mostrar o caminho de volta à cidade, pois tenho que receber uns aluguéis ainda hoje, depositando-os de imediato para render alguns porcentos?
A resposta do outro o intrigou:
- Também estou perdido. Mas podemos juntos ajudar um ao outro.
Diante do abismamento provocado, a conclusão recheada de muita esperança:
- Vamos agir em conjunto. Cada um pode dizer ao outro os rumos que já tentou e que não deram certo. Certamente isto nos ajudará a encontrar o caminho correto
.”

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

O Enigma Judas

Quando, dias atrás, o papa Bento XVI encareceu ao mundo cristão misericórdia para com Judas Iscariotes, aquele que a história oficial do Cristianismo retrata como “o que traiu Jesus por trinta dinheiros”, a curiosidade acerca deste ex-apóstolo tomou conta dos noticiários. E despertou interesse nos meios mais antenados com o acontecido há dois mil anos, nos primórdios da hoje denominada Era Comum, dada a descoberta, no Egito, final da década de 1970, do Evangelho de Judas, um documento gnóstico.
Encontrado por alguns camponeses nas proximidades das margens do rio Nilo, numa caverna usada para sepultar mortos, o Peuaggelion Nioudas, que em copta significa O Evangelho de Judas, está sendo considerado um dos maiores tesouros da arqueologia bíblica. Um escrito que foi classificado como documento herético, há 1800 anos, pelo bispo Irineu, da Igreja em Lyon, no seu tratado Contra as Heresias, cinco volumes.
Redigido numa antiga língua egípcia, a descoberta suscitou um duplo questionamento: tratava-se das explicações de Judas sob uma versão sua?, ou seria mais um texto gnóstico, repleto de reflexões místicas? Os esclarecimentos definitivos, após criteriosa tradução dos papiros recuperados com ajuda de um coptologista (entendido nos escritos coptas), estão a merecer atenções mais argutas: o documento conta a história de Jesus do ponto de vista daquele considerado traidor do Galileu, Judas Iscariotas.
De personagem mais odiado da história, sinônimo de cilada e traição, o relato contido no Evangelho de Judas, apontando a “traição” como uma missão a ele confiada pelo próprio Nazareno, poderá ensejar notáveis reconstruções históricas, podendo até consagrá-lo como o único apóstolo a ter compreendido verdadeiramente a mensagem de Jesus de Nazaré.
Numa enciclopédia bíblica muito consultada, a de Champlin, em seis volumes, Judas Iscariotes é mostrado como tesoureiro do grupo apostólico, sendo o único que não era nativo da Galiléia. Ela também revela: “não podemos precisar todos os motivos por detrás deste ato de traição. ... A Judas Iscariotes fora conferido o mais elevado ofício. Deve ter possuído características de caráter que justificassem sua escolha.”
Renasce uma historiografia respaldada em áreas exatas e humanas. Com a descoberta de antigos textos sobreviventes, completos e parciais, como os Evangelhos da Verdade, de Tomé, de Pedro, de Filipe, de Maria, dos Ecionitas, dos Nazarenos, dos Hebreus e dos Egípcios, para citar somente alguns, múltiplas questões estão emergindo, todas elas tratadas com a seriedade devida, sem nada lançado para debaixo dos tapetes romanos, reformados e orientais.
Na compreensão de muitos, algumas testemunhas dos primeiros tempos de Cristianismo podem ter sido alijadas por interesses os mais diferenciados possíveis dos que estavam no poder. A título de exemplo, as figuras históricas de Judas e Maria Madalena poderão vir a ser reinterpretadas em futuro não muito distanciado dos tempos de agora. Ou será que os imensos arquivos secretos vaticanos já estão de posse de conhecimentos consistentes sobre Judas, a ponto do papa Bento XVI ter encarecido misericórdia para o até então tido e havido como “possuído por Satanás”?
Os evangelhos de Mateus e Marcos nos mostra que coube exclusivamente a Judas a iniciativa de procurar as autoridades. Por que será que o bispo Irineu condenou os ensinamentos gnósticos, chamando o Evangelho de Judas de “história fictícia”?
Dois lançamentos brasileiros 2006 merecem atenção, dada a notória seriedade conquistada pela National Geographic: O Evangelho Perdido, de Herbert Krosney, e O Evangelho de Judas: Códice Chacos, editado por Rodolphe Kasser, Marvin Meyer e Gregor Wurst. O primeiro ressalta como o mundo veio a tomar conhecimento do tesouro encontrado, o segundo trazendo o texto que poderá revolver a história do Cristianismo.
No meu modo de pensar, “a verdade sempre liberta”.

Profissionalidade

Quais deveriam ser as características de uma pessoa talentosa, diante das mutabilidades contínuas que estão se verificando no mundo inteiro? Explicitar as dez mais notáveis, todas elas interdependentes e intercomplementares, é acreditar, sem titubeios, na viabilidade de uma caminhada bem sucedida, recheada de iniciativas vitoriosas.
Para os veteranos, aqueles que ainda não perceberam a necessidade de restaurações cognitivas, um “alerta geral” poderia conter alguns balizamentos de muita valia, favorecendo os relacionamentos profissionais intra e interorganizacionais:
1. Nunca esmorecer a capacidade de ser permanentemente um curioso, um perguntador, desenvolvendo novas habilidades e despertando novos interesses.
2. Encarar a Vida como uma missão, jamais a entendendo como uma carreira. Conhecer bem as fontes nutrientes e as energias geradoras, preservando a individualidade, sem resvalar para atitudes individualistas, suicidas sob todos os vieses profissionais.
3. Desenvolver um savoir-faire que cultive o humor, permanecendo otimista sem reagir, compulsivamente, diante de atitudes negativas ou extemporâneas. Jamais tripudiar sobre as fraquezas dos outros e ter consciência da capacidade de perdoar e/ou esquecer ofensas alheias.
4. Manter-se constantemente atualizado em relação a assuntos e cenários emergentes, sendo socialmente ativo, possuindo muitos amigos e poucos confidentes.
5. Sabe rir de si mesmo, dimensionando, sem exageros positivos ou negativos, o seu próprio valor. Perceber as similaridades e as diferenças em cada uma das situações enfrentadas. Aceitar elogios e culpas de forma equilibrada, sem reações impulsivas. Enxergar o sucesso no fracasso, por mais penoso que ele tenha sido.
6. Saber contemplar rostos e cenários antigos de maneira nova, como se fosse a primeira vez. Redescobrir as pessoas a cada encontro, interessando-se por elas, jamais rotulando-as com base em sucessos ou fracassos passados.
7. Saber fazer uso da força conjunta, acreditando nas capacidades alheias, nunca se sentindo ameaçado pelo fato de os outros serem melhores. Aprender a separar as pessoas dos problemas, não disputando posições, a liderança lhe sendo conferida por natural delegação da maioria.
8. Exercitar regularmente as quatro dimensões da personalidade humana: a física, a mental, a emocional e a espiritual, orientando-se para as soluções criativas, sem resvalar para irresponsabilidades doidivanas.
9. Jamais se esconder sob o manto da resignação, consciente de que ele é o hospedeiro maior da mediocridade.
10. Renunciar às alternativas perfeccionistas, reconhecendo todas elas como estratégias de protelação.

Um Arco-Íris para Deus

Nestes tempos de pós-modernidade, com amplíssimos setores ainda na mais abjeta exclusão social, as áreas do conhecimento deveriam estar intensamente responsáveis com o desenvolvimento integral do Ser Humano, ensejando discussões e análises que propiciassem estratégias planetárias favoráveis a uma vida dignificante para todos. Entre as mais significativas se encontram ética, política, espiritualidade, filosofia, ecologia, organização social, ciência, tecnologia, educação, família, sexualidade, cultura, lazer, comunicações, relações internacionais, corrida armamentista, violência e paz.
Cientistas, religiosos, humanistas e lideranças políticas das mais variadas tendências, cônscios das suas metas sociais e nunca menospezando os recursos de suas inteligências inquisitivas, exigem norteamentos que balizem uma convivialidade mundial capaz de superar os conflitos diversos através de alternativas nunca belicistas, sempre negociadas. E continuam exercitando seus pensares fundamentais, questionando seus próprios fundamentos, construídos a partir de entornos radicalmente diversos dos vivenciados nestes primórdios de novo século.
Um dos pacifistas mais notáveis do século passado, o filósofo e matemático Bertrand Russell, eternizado em 1970, proclamava que “uma especialização cada vez mais extensa e exagerada está fazendo os homens esquecerem as suas dívidas intelectuais para com os seus antepassados”. Tal especialização, necessária sem dúvida, se não minimamente inserida numa cosmovisão, seguramente redundará numa babelização planetária capaz de gerar mundinhos especializados amplamente desconectados da realidade mundial.
Entre as áreas mais conflitantes, a da Religião deve ser vista como uma das mais turbulentas. Haveria uma religião querida por Deus, entidade nunca antropomórfica? Será possível falar de ecumenismo em situações onde o diálogo intra-religioso é visto como radicalmente descartado, embaralhando as mentes dos fiéis mais desatentos? Por que será que não favorecemos a celebração da essência, deixando as circunstâncias para amadurecimentos posteriores? Ou será que estamos mais preocupados com as sacolinhas do que com uma transcendentalidade salvífica, sejam quais forem as denominações ou religiões celebradas? Será que estamos percebendo o afastamento dos jovens mais criticamente talentosos, que precisam de uma vivência religiosa ajustada a condições existenciais diferenciadas? Ou será que nos acovardamos evangelicamente, por conveniência ou conivência, diante de um problema mundial que é mais cultural e religioso que econômico? Ou será que não nos impressiona a estatística que aponta os EEUU como o país que possui mais cidadãos muçulmanos que episcopalianos, e que Los Angeles é a cidade mais budista do mundo?
A reconciliação com o mundo moderno passa necessariamente por um respeito aos que estudam e proclamam o pluralismo religioso como o sinal mais promissor para este ainda incipiente século XXI. Possuidor de um princípio básico: “toda doutrina, teologia ou espiritualidade que no passado produziram efeitos deletérios de opressão, domínio, desprezo, dor ou destruição contra outros grupos, povos ou religião, precisam ser colocadas sob suspeita e, no mínimo, reavaliadas”. Ou será que continuamos a desrespeitar a máxima crística que proclama “Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles” (Mt 7,14)
Enxergar novos paradigmas já é bom começo. Perceber-se uma metamorfose ambulante, a la Raul Seixas, é desejar ultrapassar umbrais. Sem temor, nem tremor, das esquizofrenias existentes em todas as religiões, que buscam contagiar homens e mulheres que sabem pensar como protagonistas segundos da Criação.
PS. Viva a Bispa Katharine Jefferts Schori, eleita e já empossada Primaz da Igreja Anglicana dos Estados Unidos! Grandioso és TU!!!

Demissão Injusta

O fato, recente, contado pela Zefinha, uma arrumadeira de bom calibre, aconteceu entre um executivo desquitado de pouco e a sua secretária, filha da minha madrinha, antiga estagiária da diretoria da empresa, um mulheraço de trinta e tantos anos. Fatalidade ou imprecisão analítica, o fato aconteceu, arrebentando de rir o cinturão dos mais expansivos e fundindo a cuca dos conquistadores menos ousados.
No dia do seu aniversário, o dito chefão saiu para os escritórios da empresa com o diabo no couro. Acordou-se bem cedo, tomou uma ducha, sacudiu fora o bagaço intestinal, barbeou-se no capricho, sorveu devagar um alentado copo de leite e ninguém da sua casa o cumprimentou pelos sessenta anos de nascimento. Nem a mulher, sempre enfezadinha e toda ai-ai-ai com seus intermináveis achaques menopáusicos, lembrou-se do niver do coitado. E nenhum abraço de ôi dos filhos, três, sempre ispertamente carinhosos em véspera de receber mesada. Nem da menina, a única, saliente toda, já fazendo Relações Públicas perto no Náutico Capibaribe. Até a empregada, vinte anos de casa, oriunda da fazenda dos pais, pau pra toda obra, vez por outra ainda prestigiada pelos da casa, esqueceu o natalício do pobrezinho.
No trajeto para o escritório, mandando todo mundo para aquele lugar, imaginou-se o último dos moicanos, rejeitado todo. E, com mais de mil, estancou o carro no estacionamento predeterminado, para ele reservado tão logo assumiu a direção maior do conglomerado.
Destravada a porta do gabinete de trabalho, um “Parabéns, Dr!” de supetão, gentileza pura, brotou dos lábios carnudos da danadona da secretária. E logo acompanhado de uma proposta mais demolidora que um teibei do Maguila antes do seu afolosamento total:
- Com um dia tão lindo como este, poderíamos almoçar juntos, lá em casa, onde, já me antecipando, preparei uma galinha cabidela do jeito que o senhor muito aprecia?”.
E pra fundir a cuca do chefe:
- Não se preocupe, dispensei a mensalista para que o senhor possa ficar lá sem qualquer perturbação.
O resto, o leitor já pode reconstituir. Meio-dia e meia, residência da boazuda, casal já na segunda dose escocesa, a frase atração fatal:
- Dr. Fulano, acho que vou até lá dentro colocar algo mais confortável. Volto já. Fique à vontade”.
A ordem foi cumprida mais que escoteiramente, num décimo de minuto, até às meias, a vela mestra como nunca entusiasticamente desfraldada, a tremular mais que bandeira hasteada em dia de feriado oficial.
Eis que, de repente, não mais que de repente, a secretária retorna, nas mãos um bolo repleto de sessenta velinhas acesas, cantando um entusiasmado parabéns pra você, com a mulher dele e todos os filhos.
A pobre da secretária, demitida por justa causa, até hoje se lastima da sua boa vontade.

Explicação de Acidente


Recebi de amigo fraterno uma nota que me deixou extasiado por bons minutos. Publicada na revista da Associação dos Engenheiros do ITA e com o título Sinistro em Cascais, a matéria mostra o relato de um operário lusitano acidentado, enviado pelo próprio a uma Companhia Seguradora, explicando o acontecido. Eis o ocorrido, contado pelo próprio:
Ao Tribunal de Justiça da Comarca de Cascais: No quesito número 3, da participação de sinistro, mencionei TENTANDO FAZER O TRABALHO SOZINHO como causa do meu acidente. Disseram na vossa carta que deveria dar uma explicação mais pormenorizada, pelo que espero que os detalhes abaixo sejam suficientes. Sou assentador de tijolos. No dia do acidente, estava a trabalhar sozinho no telhado dum edifício novo de 6 (seis ) andares. Quando acabei meu trabalho, verifiquei que tinham sobrado 250 quilos de tijolos. Em vez de os levar à mão para baixo, decidi colocá-los dentro dum barril e baixá-los com a ajuda de uma roldana que, felizmente, já estava fixada na altura do telhado, num dos lados do edifício, no sexto andar. Decidi e verifiquei o estado da corda que já estava atada ao barril. Fui para o telhado e, a duras penas, puxei o barril vazio para cima e coloquei os tijolos dentro. Empurrei o barril para a ponta do telhado, bem devagar, desci até o solo e encareci a um companheiro, que tinha chegado, que empurrasse o mencionado barril até que ele ficasse totalmente pendurado na corda. Imaginei segurar a corda com bastante força, de modo a que os 250 quilos de tijolos descessem devagarzinho, embora seja de notar que no quesito 11 indiquei que meu peso era de 80 quilos. Devido a minha surpresa, por ter saltado repentinamente do chão, perdi minha presença d'espírito e esqueci de largar a corda. É necessário dizer que fui içado do chão para o telhado à grande velocidade. Lá pelo terceiro andar bati no barril que vinha a descer. Isto explica a fratura do crânio e da clavícula partida. Continuei a subir a uma velocidade não menor, não tendo parado até que os meus dez dedos das mãos estivessem entalados na roldana. Finalmente, a esta altura, já tinha recuperado a minha presença d'espírito e consegui, apesar das dores, continuar agarrado à corda. Mais ou menos ao mesmo tempo, o barril com os tijolos chegou ao chão e o fundo partiu-se. Sem os tijolos o barril pesava aproximadamente 25 quilos (refiro-me novamente ao meu peso indicado no quesito 11). Como podem imaginar, comecei a descer rapidamente. Próximo ao terceiro andar, novamente, encontro o barril vazio que vinha a subir. Isto justifica a natureza dos tornozelos partidos e das lacerações das pernas, bem como as das partes inferiores do corpo. O encontro com o barril, dessa vez, diminuiu minha velocidade de descida o suficiente para minimizar meus sofrimentos quando caí por cima dos tijolos e, felizmente, só fraturei 3 vértebras. Lamento, no entanto, informar que, enquanto me encontrava caído sobre os tijolos, com muitas dores, incapacitado de levantar-me e vendo o barril acima de mim, perdi novamente a presença d'espírito e larguei a corda. O barril, que pesava mais que a corda, desceu em cima de mim, partindo-me, dessa vez, as duas pernas”.
O operário Manuel Quedinha se encontra em plena recuperação, feliz da vida por ter heroicamente sobrevivido, para alegria de todos os seus familiares.

Quando conheci o Recife

QUANDO CONHECI O RECIFE – UM TESTEMUNHO
Desde menino, eu tinha uma vontade danada de conhecer o Recife, cidade onde meus pais nasceram, numa rua chamada Da Glória, bairro da Boa Vista. De nome Antônio, o meu velho vez por outra dizia - como se estivesse cantando o Hino Nacional, tamanho era o orgulho dele - que o Recife era uma cidade muito arretada, a mais bonita do Brasil, a única do mundo que possuía rios e pontes, praia e água de coco, caldo de cana e pão doce, frevo e maracatu. E ainda uma universidade rural de verdade, situada em pleno perímetro urbano.
A minha curiosidade aumentou quando uma tia da minha mãe, a Fininha (cento e vinte quilos para desmoralizar o apelido), disse pra todo mundo, na primeira comunhão da prima Carmelita (uma meninota de dez anos e já empeitadinha) que tinha encontrado, no Recife, “mais de quatro séculos de muita história, o moderno misturado com o passado e dois rios que envolvem a cidade, como companheiros inseparáveis de alegrias e decepções”. Uma curiosidade somente saciada quando, numa madrugada de um final de semana de fevereiro de 1952, desembarquei na Estação Central, meus teréns acomodados numa mala de segunda mão, pedida emprestada de um romeiro do padre Cícero Romão Batista, o Zeca de Luizinha, meu padrinho de mesmo por vontade de minha avó materna, mandona que fazia gosto.
Sem nadinha de medo da madrugada daquela época, atravessei a Ponte Velha, registrando-me na pensão da Dona Carlotinha, uma senhora de meia idade, busto farto e corpete, que hospedava quatro mocinhas. Essas que trabalhavam como raparigas, pixito de aluguel, na Chantecler, um cabaré bem freqüentado do bairro do Recife.
Desde os bancos escolares, eu já tinha conhecimento de um bocado de coisas da capital do Nordeste. Mas somente agora identificava o Recife como uma cidade “onde é verão quase o ano inteiro” e onde “as roseiras não se fazem de rogadas para se abrir em botões e em rosas de uma fragrância como só nos trópicos”. Uma cidade acolhedora, “o primeiro ponto do Brasil atingido pelos aviadores portugueses, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, no seu vôo de Portugal ao Rio de Janeiro” e que tem o maior carnaval do Mundo, com seu frevo, uma dança que dispensa canto e exige um acompanhamento orquestral todo apropriado.
Devidamente instalado no quarto 6 (cama patente, colchão de capim, cadeira e quartinha, banheiro no final do corredor), dormi com uma determinação única para os próximos dez dias de permanência: a de esmiuçar o Recife, saborear seu passado libertário, seus atos e fatos, seus rios e suas pontes, seus monumentos patrimoniais, sua folia momesca, que explodiria alguns dias depois, pois os sinais já se explicitavam através das barraquinhas de vender confetes, máscaras e serpentinas.
Pretendia, na minha visita ao Recife, identificar os “derredores históricos” da cidade, que tem um clima especial, “pela doçura das suas manhãs e dos seus fins de tarde”, como assegurou Gilberto Freyre na leitura imperdível do seu Guia Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, livro lido de cabo a rabo, volume tomado emprestado de uma tia quase solteirona que tinha me ensinado as primeiras lições de homem, por bondade sua e também muita necessidade minha.
Numa revista do Arquivo Público, propriedade de uma das “funcionárias” da Chantecler, caracterizei superficialmente o Recife: de uma população portuária, surgida logo depois da fundação de Olinda, em 1536, tornou-se Vila, por conta de Carta Régia, em novembro de 1709, vindo a ser contemplada com o título de Cidade em dezembro de 1823, mediante Carta Imperial. E, por Resolução do Conselho Geral da Província, datada de 1827, foi alçada à categoria de Capital do Estado, pioneira em uma série de empreendimentos que a fizeram por merecer, até hoje, o título de metrópole regional.
Nas paredes da pensão da Dona Carlotinha, observei alguns “pensamentos” escritos, alguns deles merecedores de reprodução:
· “Mulher é um conjunto de curvas capaz de levantar um segmento de reta.”
· “Se barba impusesse respeito, bode não teria chifres.”
· “Deus criou o homem antes da mulher para não ouvir palpites.”
· “Se bebida curasse alguma coisa, cachaça tinha bula.”
· “Tudo na vida é passageiro, menos motorista e cobrador.”
· “Virgindade é que nem picolé: acaba no pau.”
As andanças pelo Recife satisfizeram, e muito, as minhas primitivas expectativas. Não cansava de elogiar o Rio Capibaribe, as pontes do centro da cidade, a hospitalidade recifense e os comes e bebes locais. E também o Ginásio Pernambucano, um educandário de professores famosos pelos saberes que irradiavam, que um dia teve o privilégio de receber a visita do Imperador Dom Pedro II numa festividade acontecida em dezembro de 1859.
À tardinha de um domingo de banho de mar na praia de Boa Viagem, com direito à água de coco, conheci a praça da República e o Teatro Santa Isabel, uma das marcas abolicionistas recifenses, inicialmente chamado de Theatro de Pernambuco, concluído em 1850, depois de quase uma década de muita trabalheira.
Na rua da Aurora, troquei idéias com um vendedor de rolete, rodelas de cana caiana espetadas nuns estiletes de bambu, formando como que um buquê de dez ou doze, molinhas e doces. E o roleteiro ainda me revelou como se fazia nego-bom, uma deliciosa guloseima muito vendida nas ruas e botecos, em festas populares e feiras típicas, também existente na barraquinha móvel da calçada situada no oitão do teatro: “Machucam-se vinte bananas prata com um quilo de açúcar numa caçarola levada ao fogo brando, mexendo-se até soltar da vasilha, isto é, num ponto bem açucarado, quase queimado. Bota-se suco de dois limões, retira-se do fogo e bate-se bem. Quando estiver bem batido, pega-se a massa e fazem-se bolinhas que são enroladas em pedaços de papel e vendidas em tabuleiros ou nas pequenas mercearias dos bairros da cidade.”
Já dizia o gaúcho Érico Veríssimo, em seu livro Solo de Clarineta, que existem duas espécies de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar. E eu me classifiquei no segundo grupo, tamanha a vontade de saber mais sobre o Recife, seu rio, suas pontes, sua gente e sua culinária.
As minhas férias foram turística e raparigalmente bem vividas. As meninas de Dona Carlotinha, principalmente a Simone, o xibiu mais bonito que até hoje vi, perdurarão na minha memória para todo o sempre.
A viagem de volta foi recheada de muitas saudades. De um Recife sempre libertário, das suas pontes e do seu Rio Capibaribe, dos seus cantos e recantos, mil encantos, das suas praias, do seu frevo e do seu maracatu. Uma saudade revestida de muita alegria de ser brasileiro e de ter conhecido um pedaço de Brasil, que é história viva e bem vivida, parida na bravura de uma gente que, recifense por derradeiro, sente um orgulho arretado de ser pernambucana.