quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Indagações e Perplexidades

O pensador judeu-alemão Ernest Bloch, eternizado em 1977, entendia a utopia como uma gigantesca força revolucionária. Através dos “sonhos diurnos” de todos aqueles que buscam novas realidades para os amanhãs terrestres, ele afirmava que “pensar significa transpor”. E advertia com muita propriedade: “Numa sociedade em declínio, que não consegue achar uma saída para a decadência, o medo se antepõe e se contrapõe à esperança”.
As citações acima vêm bem a propósito de uma reflexão lida outro dia, numa revista de circulação latinoamericana: “qualquer religião é apenas uma superstição utilizada pelos fracos”. Um enunciado que está apenas refletindo uma incapacidade das denominações cristãs de oferecer um conteúdo religioso contemporâneo, favorecendo indagações múltiplas, elucidando perplexidades, sem as “definitividades” já integralmente ultrapassadas no decorrer da nossa engatinhante evolução societária. Necessário de fazem posturas evangelizadoras que busquem difundir essências, erradicando as interpretações elaboradas sob circunstâncias históricas que não mais se repetirão, inúmeras delas expostas sob uma necessidade neurótica de controlar os conteúdos estabelecidos em passado remoto.
Cremos sinceramente que a difusão das essências religiosas deveria acontecer sob os “ares respirantes” de um século XXI cada vez mais cientificamente evolucionário. Na área evangélica, com maior empenho dinamizador do Conselho Mundial de Igrejas, que já devia ter melhor percebido que o movimento ecumênico está passando mais por Roma e menos por Genebra. Um projeto romano hegemônico e dogmático em atenta construção, segundo o teólogo Júlio de Santa Ana, em conferência pronunciada em São Paulo sobre a situação do Cristianismo no mundo, editada pelo Boletim da Aste, junho de 1999.
Se novamente estivesse fisicamente entre nós, imagino que o Nazareno Amado formularia dois questionamentos deveras incomodatícios para os “tartarugados” de sempre, de “enxergância” mínima voltada apenas para os seus pagos sobrevivenciais: “Por que as minhas indagações ainda não foram devidamente assimiladas pelos meus seguidores, dois mil e tantos anos depois da minha estada por aqui?”; e “Por que, ao invés de libertar integralmente os Filhos da Criação, em meu nome as denominações cristãs vivem se digladiando, transformando evangelização libertadora em estratégias empreendedoras ‘mesquinhosas’?”.
Seria muito oportuno se todos nós, cristãos de todas as denominações, nenhuma sendo mais importante que as outras, pudéssemos repetir todos os dias a súplica feita pelo cego de Jericó – “Senhor, que eu recupere a vista” (Lc 18,41). Teríamos, pelo menos, a oportunidade de melhor redimensionar uma consistente estratégia evangelizadora, promovendo uma “enxergada geral” em nossos próprios derredores, percebendo as nossas traves antes da observação dos ciscos dos olhos dos outros.
Certamente, os questionamentos do Senhor Jesus imaginados acima seriam lidos e debatidos com muito acuidade, cada um buscando atingir uma maturidade cristã mais acentuada, voltada para um mundo mais digno para todos, onde todos teriam vida e vida em abundância, como já almejava o apóstolo João (10,10). Não mais desrespeitando as vidas de mais de DEZ MILHÕES de crianças que morrem anualmente de causas absurdas, QUATRO MILHÕES delas por não terem acesso a água.
Somente através de um cristianismo mais conseqüente e socialmente responsável, rejeitando a passividade e favorecendo a construção promissora de uma Paz Mundial, poderemos todos, independentemente das vinculações denominacionais, efetivar o tencionado nos versos do hinário: “Erguerei a taça da vitória e chamarei o Senhor pelo seu nome” (Sl 116,13).
Sejamos mais cristãos, reconhecendo nossas idiossincrasias, nossas egolatrias, nossas ânsias de poder, que nos tornam desatentos para a advertência duplamente milenar: “Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar conhecido” (Mt 10,26).
Da minha parte, continuarei, minusculamente quixote, pugnando por um Cristianismo capaz de continuadamente se reformar diante das evoluções societárias, buscando ligar, em via de mão dupla, a cabeça e o coração, erradicadas as artimanhas de todo não-pensar. De muita utilidade para os sempre desligados do alerta junguiano: “estamos cansados do esforço excessivo em crer porque o objetivo de nossa crença deixou de ser inerentemente convincente”.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Cartões da Pilantragem

A pergunta está presente nos papos sociais civilizados de todo país: por que só a ministra Matilde Ribeiro foi defenestrada pelo uso indevido de seu cartão corporativo, quando inúmeros, amolecadamente, também dele fizeram uso indevido? As respostas são dos mais variados calibres, envolvendo gênero, raça, incompetência, puxadas de tapete, arrogância desmedida e furor exibicionista. Inclusive a que questiona a não-saída de ministro tapioqueiro que devolveu alguns trocados, ao sentir-se, borrado todo, ameaçado de pular fora da zona ministerial.
Parecendo antever a TBC – Temporada da Bandidagem Corporativa, inclusive em ambientes reitorais, em 2004 a Editora UNESP tornou pública a segunda edição do manual do francês Michel de Pracontal, Doutor em Ciência da Informação. Intitulado A Impostura Científica em Dez Lições, destina-se aos leitores desabestalhados, cientistas ou leigos, que pretendem entender adequadamente as técnicas utilizadas para os diferenciados tipos de falcatrua científica, excluindo-se compra de mesa de bilhar e dos gastos em motel para usufruto do que é pontudo, côncavo ou convexo, para não falar das despesas tidas como de “extrema necessidade” dos beneficiados.
O manual, já ocupando posição de destaque na Esplanada dos Ministérios e em inúmeros outros gabinetes dos três poderes, explicita manobras sofisticadas de alta safadagem nas áreas técnico-científicas, até para utilização dos chamados “bandidos sinceros”, aqueles que realmente acreditam que estão dando os melhores exemplos para seus subordinados e parentes, favorecendo amanhãs nacionais mais distributivistas. O texto pode ser também aplicável pelos executivos de São Paulo, que ficam distanciados das outras regiões pátrias porque o estado é possuidor de formidáveis recursos financeiros.
Lamentavelmente, as análises feitas pelo professor Michel de Pracontal não abarcam os trambiques acontecidos em todo mundo, restringindo-se aos limites territoriais franceses, muito embora ele ressalte que “esse não é um quadro tipicamente francês e é facilmente identificável no resto da Europa, nos Estados Unidos ou no Brasil”. Parece até que ele quis dizer que os trambiques mensalônicos e as bandalheiras disfarçadas em cartões corporativos tornaram-se normas corriqueiras, como aquelas viagens sucessivas em aviões não convencionais feitas por governadores, as despesas efetivadas em churrascarias de elite, para não se falar do descaramento mais que debochado de um ministro quase senil que proclamou, pelos meios televisivos, a necessidade de, agora, diante do buruçu, se fazer uma “vaquinha” para oferecer um jantar a uma delegação estrangeira que brevemente nos visitará.
Num país que não deseja efetivar a separação entre ONGs decentes e ONGs de notórias cafajestadas e que está a ampliar, na área política, posturas de fingimento de proporções já taludas, tudo faz crer que somente uma baita reestruturação do todo porá o trem ético nacional nos trilhos. Onde sejam excluídos os ministérios de mentirinha e as aquisições de submarinos nucleares para dar noticiário a falante que até já se enroscou em cobra, onde a decência pública se agigante diante das ilusões midiatizadas, e onde apenas os de imbecilização precoce não reconheçam que promover o desenvolvimento da Educação Brasileira é bem mais importante que o blá-blá-blá histérico acerca da pílula do dia seguinte.
Lendo outro dia uma bobajada dita por um general planaltino – “para nós, quanto menor a transparência, maior é o grau de segurança” - fico a imaginar o desejo incontido de muitos: o de nada ser revelado, para melhor usufruto da bandalheira praticada com o dinheiro público. Razão possuindo Michel Pracontal em seu livro: “a maioria dos impostores protegem-se por detrás de uma muralha de convicções contra a qual os melhores argumentos vão se despedaçar”. E viva a ré-pública!!!
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 27.02.2008)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O Deus de cada um

No último final de semana, atento às conclusões de um projeto sobre Direitos Humanos que se efetivará ainda este ano, no Recife, em comemoração aos 60 anos da Declaração Universal das Nações Unidas sobre o assunto, solicitado fui por educadora querida, cabeça feita e muito requisitada país inteiro, para examinar um outro tipo de leitura.
Num apreço especial a uma amizade de mais de trinta anos, por umas boas horas voltei minha atenção para uma leitura correlacionada com o além Terra: o livro O Deus de Cada Um, de Waldemar Falcão, editora Agir, fevereiro passado. Um presente enviado para minha amiga por superintendente de uma prestadora de serviços comunitários que assessoramos numa capital não-nordestina.
Quando me dei conta, a madrugada já espalhava seus primeiros raios. Envolvera-me com um livro que conta nove histórias reais de nove pessoas transformadas por nove diferentes crenças. O primeiro dos entrevistados, um católico romano chamado Marcelo Barros, hoje monge pernambucano aplaudido, de caminhada repleta de múltiplos compartilhamentos fraternos com personalidades as mais diferenciadas, de Hélder Câmara a Basílio Penido, passando por monges alemães e o líder comunista Diógenes de Arruda Falcão, Tomás Balduíno e Stella de Oxóssis, na atualidade a mais respeitada mão-de-santo do candoblé da Bahia, dirigente do Ylê Axé Opó Afonjá, mencionado em vários textos de Jorge Amado. Todos tornados amigos cinco estrelas do historiado.
Seu testemunho, como filho de família operária de Camaragibe, região fabril metropolitana do Recife, contém feitos e fatos que destilam imenso respeito humano inspirado pelo Espírito Santo, aquele “Vento” que sopra para onde bem quer e entende. E um dos fatos vivenciados pelo Marcelo envolve o sempre amado dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife. Um retrato fiel da personalidade do querido Dom, um líder religioso que respeitava todas as manifestações cúlticas. O caso, eu conto abaixo, respaldando-me no narrado pelo próprio monge.
Certa feita, em 1966, monge ainda não ordenado, ao chegar na portaria do mosteiro Marcelo foi informado do telefonema de alguém, dizendo-se “um amigo”, de nome dom Hélder Câmara. Imaginando trote de algum engraçadinho, eis que meia hora depois ele se vê dialogando com o próprio Dom, que o convida para ir à casa dele no dia seguinte. Em lá chegando, é indagado sobre se era verdadeiro o fato de estar freqüentando uma Igreja da Assembléia de Deus todas as quintas-feiras, quando seus colegas aproveitavam a recesso para um banho de mar. E lhe foi ainda indagado, depois do primeiro sim, se era também verdadeira a sua presença eventual num terreiro de candoblé próximo do mosteiro, fato confirmado.
Já aguardando uma admoestação, por mais amável que fosse, eis que Marcelo é convidado pelo Dom para ser seu assessor no relacionamento com as demais igrejas e religiões da região. Diante da alegação de despreparo, o argumento definitivo: - Não tem problema. Vamos combinar assim: eu assessoro você e você me assessora! Uma convivência por demais enriquecedora, sendo Marcelo, em 1969, ordenado por Dom Hélder Câmara, que ainda o convocou para integrar a Comissão Diocesana de Pastoral da Juventude.
O livro do Falcão ainda traz entrevistas com uma monja zen-budista, um neo-pentecostal, um umbadista, um islâmico, um israelita, um adepto do Santo Daime e “uma das mais impressionantes paranormais de cura do Brasil e, por que não dizer, do mundo”. Visões religiosas diferenciadas, com uma certeza única: a da mesma Presença Eterna, da mesma Consciência Cósmica, do mesmo Princípio Universal, também chamado por Paul Tillich, teólogo evangélico, de A Base de Toda Existência. Ressalte-se que o foco do livro “não são as instituições religiosas, mas as pessoas e a fé que as move e as transforma”.
Diz o autor da coletânea que, “em O Deus de Cada Um, os relatos colhidos nos fazem recobrar a esperança de que a espiritualidade, quando vivida de maneira plena e verdadeira, resgate, através do encontro com o divino, o humanismo que deveria nortear a nossa civilização planetária e nos torne dignos de sermos chamados de ‘filhos de Deus’. O Deus de todos nós. O Deus de cada um”.
Devolvendo o livro à estimada educadora, disse-lhe que subscrevia todo o texto, sem temor algum dos auditores de Deus. Pois pretendia continuar sendo irmão de todos os fiéis das religiões do mundo. Não me sentindo superior a ninguém, apenas um vaso quebrado que cotidianamente muito suplica as misericordiosas atenções do Oleiro.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Indagações de um Nazareno Notável

O ex-provincial dos jesuítas do Chile, também ex-presidente da Conferência dos Religiosos Chilenos, o padre Fernando Montes, notável pela sua intensa atividade pastoral, escreveu um texto considerado valioso para debates comunitários e intra-eclesiais, dias atrás editado no Brasil pela Loyola sob título As Perguntas de Jesus. São 30 questionamentos do Senhor Jesus explicitados nos quatro evangelhos do Segundo Testamento. Que deveriam ser lidas e discutidas com muito vagar, os olhos de cada um voltados para dentro de si, buscando maior maturidade de ser-cristão contemporâneo, sempre em busca de um mundo mais digno para todos, onde todos tenham vida e vida em abundância, como já proclamava João (Jo 10,10).
As perguntas de Jesus, didaticamente muito bem explicadas pelo jesuíta Fernando Montes, nos abastecem para a ultrapassagem dos nossos atuais estágios, ratificando o pensar de Ernest Bloch: “Pensar significa transpor”. E que anda alertou: “Numa sociedade em declínio, que não consegue achar uma saída para a decadência, o medo se antepõe e se contrapõe à esperança”.
Se novamente estivesse entre nós, imagino que o Nazareno Amado seguramente formataria duas indagações deveras oportunas: “Por que as minhas indagações ainda não foram devidamente assimiladas pelos meus seguidores, dois mil e tantos anos depois da minha estada por aqui?”; e “Por que, ao invés de libertar integralmente os Filhos da Criação, em meu nome as denominações cristãs vivem se digladiando, transformando evangelização libertadora em estratégias empreendedoras prioritariamente financeiras?”.
Uma das perguntas de Jesus –“Se o sal perde seu sabr, como tornará a ser sal?” -, no livro devidamente esmiuçada pelo pe. Montes, me fez recordar uma reflexão do jornalista Fausto Wolff, na revista Forum deste mês: “Brasília é a Ilha de Circe, a Deusa, que tem a capacidade de transformar homens em porcos que abrem mão da vergonha, do caráter, da modéstia, da honestidade – sas vas sans dire – e de qualquer forma de escrúpulo, desde que recebam um pouco de atenção dessa monstra, cujo verdadeiro rosto não conseguem enxergar”.
Seria oportuno se todos nós, cristãos de todas as denominações, pudéssemos repetir, a partir das reflexões acuradas do padre Fernando Montes, a súplica feita pelo cego de Jericó – “Senhor, que eu recupere a vista” (Lc 18,41). Poderíamos, recuperada a visibilidade evangélizadora, promover uma “enxergada geral” em nossos próprios interiores, percebendo as nossas traves antes da observação dos ciscos dos olhos dos outros.
Somente através de um cristianismo mais conseqüente e socialmente responsável, rejeitando a falsa paz e favorecendo a construção mais acelerada do Reino, poderemos todos, as denominações postas de lado, unidos e de mãos dadas, reproduzir o anunciado nos versos do hinário: “Erguerei a taça da vitória e chamarei o Senhor pelo seu nome” (Sl 116,13).
Sejamos mais cristãos, reconhecendo nossas idiossincrasias, nossas egolatrias, nossas ânsias de poder e nossos oportunismos indisfarçáveis, pouco nos lixando para a advertência milenar: “Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a a se tornar conhecido” (Mt 10,26).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O Quinto Evangelho

No final de 1945, o mundo ainda se recompondo de uma guerra mundial devastadora, um extraordinário tesouro arqueológico foi encontrado nos arredores de Nag Hammadi, no Alto Egito. Próximo a um antigo mosteiro de São Pacômio, um lavrador, catando material fertilizante, encontrou um vaso de cerâmica de quase um metro de altura. Nele, uma biblioteca contendo 53 pergaminhos, entre os quais o Evangelho de Tomé, também chamado Dídimo Judas Tomé, tido pela tradição como o irmão gêmeo de Jesus.
O Evangelho de Tomé consiste em 114 ditos do Nazareno. Nada revelando sobre nascimento, batismo, milagres, vida pública, morte e ressurreição, ele “capta” palavras ditas por Jesus ao longo da sua missão terrestre. Os ouvidos de Tomé interessavam-se por ensinamentos que favoreciam a gênese de um homem novo, “infinitamente cético e infinitamente crente”.
Na opinião de Jean-Yves Leloup, “o ouvido de Tomé é, com toda certeza, ‘menos judeu’ do que o de Mateus, menos atento às narrações dos milagres do que o de Marcos, menos preocupado em ouvir a Misericórdia de Deus anunciada ‘até mesmo aos pagãos’ do que o de Lucas. Interessa-se, sobretudo, pelo ensino transmitido por Jesus”.
De todos os escritos descobertos de Nag Hammadi, foi o contido no códice NHC II,2 o que mais chamou a atenção: o Evangelho de Tomé. Que se inicia com a seguinte apresentação: “Eis as palavras do que é Oculto – reveladas por Jesus, o Vivente – e transcritas por Dídimo Judas Tomé”. E o primeiro dos 114 provérbios é um desafio até para os tempos contemporâneos: “Ele disse: quem encontrar a explicação (hermeneia) dessas palavras não experimentará a morte”.
Acredito piamente que, um dia, o Evangelho de Tomé se constituirá num dos livros do Terceiro Testamento, dada a minha crença de que a Revelação ainda se processará por milênios, senão milhões de anos. Sem mais as implicâncias acontecidas com o de João, hoje canônico, que era negligenciado por inúmeros estudiosos, sob a alegação de ser muito grego ou gnóstico demais.
Um texto interpretativo auxiliará sobremaneira os distanciados dos “entusiasmos ingênuos e das desconfianças sectárias”, propiciando uma escuta melhor do que o Espírito quis dizer e ainda cotidianamente diz a todos os seres humanos de boa vontade. Trata-se de O Evangeho de Tomé, de Jean-Yves Leloup, Vozes, já em várias edições. Dividido em três partes – Introdução,Tradução e Comentários -, além de uma bibliografia sobre o tema, o autor nos presenteia com cativantes comentários sobre cada uma das 114 partes do Evangelho de Dídimo.
Transcrevo uma pequena amostra das anotações de Tomé, apenas para aguçar a curiosidade daqueles que buscam tornar-se mais próximo de um Jesus diferente do Jesus dos outros evangelistas, ansiando por encontrar uma nova face de um Eterno Diamante: “se não vos conhecerdes, então estareis na ilusão e sereis ilusão”; “miserável o corpo que depende de outro corpo”; “aquele que conhece Tudo, mas não se conhece, está privado de tudo”; “se um cego conduzir outro cego, ambos vão cair”; “feliz aquele que permanece no princípio: há de conhecer o fim e não provará a morte”.
Para cada uma destas, e as demais, Jean-Yves Leloup, como PhD em Psicologia Transpessoal e sacerdote hesicaste (hesicasmo é uma seita mística cristã oriental, oriunda do século XIV, que defende o aquietamento das paixões para se alcançar a paz espiritual), se debruça em fecundantes comentários, beneficiando os que percebem que o “Evangelho significa amor e conhecimento, convite à liberdade”.
Para os mais interessados, Evangelhos Perdidos, de Bart D. Ehrman, Ediouro, 2008, analisa as batalhas travadas pela Escritura, identificando os cristianismos que não chegamos a conhecer. E A Biblioteca de Nag Hammadi, de James M. Robinson, diretor do Projeto da Biblioteca Gnóstica, Claremont, Califórnia, é uma edição da Madras que merece aplausos pela seriedade demonstrada.
Três livros que trazem uma imorredoura lição-semente: “não se conhecer é passar ao lado de si mesmo”.
(Publicado Portal da Globo Nordeste - http://pe360graus.globo.com - , Colunistas 360, fevereiro de 2008)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Indicações para Caminhantes

Numa livraria, recanto que aprecio quando me desvinculo das questiúnculas menores, três indagações de ex-aluno, hoje profissional cristão reconhecido e honrado: a. Qual a mais adequada estratégia para se manter um pensamento crítico eticamente capaz de enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais velozmente mutável e religiosamente violento?; b. Por que as Igrejas se acovardaram, com as exceções que as enobrecem profeticamente, diante de uma pós-modernidade que abomina o bolor criacionista e as Santas Inquisições, atualmente travestidas de títulos nada amedrontadores à liberdade do pensar criativo?; c. Quais as condições necessárias para o futuro das Igrejas neste século XXI ainda principiante?
No início de um papo de quase duas horas, percebi que o ex-aluno, com sua juventude trintona, estava muitos furos acima da média dos de sua área profissional. Sua apreensibilidade acerca dos acontecimentos das últimas décadas, pátrias inclusive, denunciava ser de primeira grandeza. Sem ufanismos abobados, tampouco temores de fim-de-mundo iminente, ele apenas explicitou, com muita franqueza d’alma, ser possuidor de um incômodo pessimismo quando binoculizava os horizontes planetários em suas diferenciadas vertentes, ambientais inclusive. E que teria ficado ainda mais temeroso quando leu comentário feito, em 1995, por Marion Dönhoff, comentarista alemã de renome indiscutível: “Não se encontra mais ninguém que tenha uma visão hoje. Ninguém mais que possa dizer o que há de vir pela frente, ou como se há de tomar pé na situação. A vida intelectual caracteriza-se pela perplexidade e por um vazio opressivo”. Provocando resignações e frustrações que erodem crentes e agnósticos, mormente os primeiros, que ainda acreditam que tudo que tinha sido feito estava muito bom (Gn 1,31).
Do banco da livraria, a solução foi uma seleção, a duas mentes, de uma “bibliografia enxergadora” que buscasse fortalecer dialeticamente papos e aconselhamentos acadêmicos e pastorais, pessoais e comunitários. As escolhas aconteceram ao final de uma tarde de escolhas: a. A História da Humanidade, de Hendrik Willen van Loon, Martins Fontes, 2004; b. Uma Ética Global para a Política e a Economia Mundiais, Hans Küng, Vozes, 1999; c. Experiências de Reflexão Teológica, Jürgen Moltmann, Unisinos, 2004; d. Falar de Deus e com Deus, frei Carlos Josaphat, Paulus, 2004; e. Introdução à Filosofia Contemporânea, Kwane Anthony Appiah, Vozes, 2006; A Bíblia sem Mitos, Eduardo Arens, Paulus, 2007; A Força da Convicção, Jean-Claude Guillebaud, Bertrand Brasil, 2007 .
Textos que se intercomplementam, favorecendo o enfrentamento das ambigüidades e contradições dos hojes e dos possíveis amanhãs. Conjunto de reflexões que fortificam esperanças nunca alienantes, a valorizar o melhor de cada um dos autores e atores de um mundo em processo de um novo parto evolucionário. Crentes e agnósticos num empenho comum, o de se ir muito além das idolatrias e superstições, numa alavancagem planetária onde o todo se conscientize de que o final sempre residiu desde o começo.
Os dois bate-papeiros, simples caminhantes, chegaram a algumas conclusões, a principal delas sendo uma imperiosa necessidade de se exercitar, na família e na escola, a veracidade no pensar, no falar e no agir, favorecendo uma cidadania planetária, onde sejam minimizados os sete pecados capitais do mundo de hoje, segundo Gandhi: riqueza sem trabalho, prazer sem consciência, conhecimento sem caráter, negócios sem moral, ciência sem humanidade, religião sem sacrifício e política sem princípios.
Lamentavelmente, os culpados sempre são os outros. Hoje, se fala muito em guerras santas, guerras limpas e guerras justas, como se todas as guerras não fossem indecentes. Deve-se repudiá-las, assim como rejeitar as tolerâncias cínicas para com os poderosos, “dissolvendo as imagens estereotipadas do inimigo, desmontando o ódio e a destrutividade, tomando iniciativas concretas de reconciliação”, antes que a falência global alcance gregos e troianos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Um Cartão de Natal

Recebi do exterior, em final de janeiro pelo correio, um muito bem escrito Cartão de Natal. A remetente, pessoa muito querida, também irmã de caminhada, é uma encantadora sessentona com tudo nos seus devidos lugares, há mais de vinte anos distanciada de um abraço meu, carinhosamente fraternal. Já avó de quatro adolescentes, dois gatos e duas princesas, ela jamais perdeu o jeito de ser nordestina, numa simplicidade rodeada de muita autenticidade, hoje a serviço, como leiga militante, de uma congregação na Espanha.
O cartão, com dizeres do genial Charles Chaplin, me rejuvenesceu, me fez regredir aos anos setenta, época braba, repleta de muita pancadaria e não menos resistência, quando ela, também docente universitária que nem eu, sentia a discriminação dos tacanhos por ensinar filosofia com os olhos voltados para a realidade brasileira.
Não tenho o direito de guardar o escrito de Charles Chaplin, logo ele que fez Tempos Modernos, Luzes da Ribalta e O Grande Ditador, sonoras bofetadas nos fuinhas autoritários do mundo. Com talento incomum, Chaplin, nos seus filmes, sabia como ninguém denunciar os egoísmos e os orgulhos bestas dos que jamais enxergarão os altos iluminados, sejam civis, militares e eclesiásticos.
O pensar do Chaplin vale para todos aqueles que nunca desprezaram seus ontens, facilitadores dos amanhãs mais sensatamente binoculizados a cada alvorecer. Ele faz reavivar pessoas amadas das mais variadas maneiras, em momentos tornados indeléveis do nosso caminhar terrestre.
Eis o que Carlitos nos legou, para que cada um, no seu cantinho pessoal, possa também avivar bem intensamente seus mais diferenciados ontens: “Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, pois cada pessoa é única para nós e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha mas não se vai só, nem nos deixa só, leva um pouco de nós e deixa um pouco de si mesma. Essa é a mais bela responsabilidade de nossas vidas e a prova tremenda de que as almas não se aproximam por acaso."
Se eu pudesse, enviaria esta mensagem do Chaplin para o mundo inteiro. Para que todo mundo se ajudasse a enxergar melhor o seu próprio amanhã, encontrando efetiva resposta para uma questão que estonteia os mais responsáveis: “Como entender que uma parte do povo lute por se entender em meio à complexidade atual, enquanto a outra continua a lutar para sobreviver mais uma semana, ou mais um dia?”.
Junto com a mensagem do Chaplin, anexaria um cartão, da Melba e meu, com os seguintes dizeres: "A partir de hoje, “abra seus braços mente para as mudanças, mas não permita que elas atropelem os seus valores; ame profundamente, sem medo de se machucar; não permita que pequenos rancores machuquem grandes amizades; tenha um forte comprometimento e contínua paixão pelo seu trabalho; assimile algumas regras e quebre outras tantas; não seja dono da verdade, nem queira concentrar tudo em suas mãos. Tenha sempre uma visão realista do mundo e do seu próprio derredor”.
Busquemos discernir melhor entre o complexo e o confuso, a mesmice e o faz-de-conta, favorecendo uma convivialidade prazerosa, rejeitando sem esmorecimento a descidadanização predatória daqueles que se tornaram patologicamente contaminados por um conformismo alienatório, a desfavorecer as múltiplas mudanças que se fazem necessárias, em todos os campos de atuação do Ser Humano.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Um Bispo Contemporâneo

Como em todas as áreas do Cristianismo, vez por outra uma inteligência se destaca numa determinado região: pela inteligência criadora, pela afabilidade com os irmãos de outras denominações e religiões, pelo descortino interpretativo acerca do futuro da humanidade, pela postura evangelizadora essencialmente ecumênica, pelo existir sem azedumes, pela capacidade de bem conduzir uma equipe diocesana. Sabendo delegar, não sendo puritano, moralista ou autoritário, tampouco se travestindo de cordeirinho estropiado.
Na área romana, por exemplo, sinto-me plenamente à vontade para enaltecer publicamente uma personalidade cativante: Dom Dadeus Grings, arcebispo metropolitano de Porto Alegre, RS. Um entusiasmado ativista do Movimento Ecumênico e do Diálogo Inter-religioso, tendo sido um dos fundadores do CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, nos anos 70. Também participante, com irmãos anglicanos, metodistas e luteranos, do Bases Missionárias Ecumênicas, um movimento inicialmente implementado no bairro Petrópolis, na capital gaúcha, consistindo em visitas conjuntas às residências da localidade, estimulando seus moradores a visitarem as igrejas da denominação preferida.
Também bastante aplaudida é a novena que se realiza anualmente em cada uma das igrejas componentes do CONIC. Recentemente, o bispo anglicano de Porto Alegre presidiu celebração na Catedral Católica Metropolitana, numa demonstração de fraternidade que deveria balizar outras iniciativas pastorais, algumas delas a necessitar de pastores vocacionados, capazes de liderar sem tacanhices nem burocratismos.
Mas a admiração nutrida por muitos a Dom Dadeus Grings está atrelada à sua extraordinária capacidade de refletir sobre os assuntos mais complexos da atualidade, sempre utilizando uma linguagem sedutoramente acessível. Num estilo próprio que se movimenta habilmente pela Biologia, Física, Geologia, Filosofia e Teologia, na busca do Princípio Organizador do Universo que as religiões chamam Deus.
No final do ano passado, a Editora PUCRS tornou pública uma segunda edição revisada de um texto de Dom Dadeus denominado A Descoberta Científica de Deus – Ensaio de Diálogo Pós-Científico, onde o arcebispo descreve a evolução acontecida através das quatro grandes eras das teorias cosmogônicas: a era das irradiações, a era da matéria, a era da vida e a era da consciência.
No seu livro, de leitura apropriada para quem se encontra com sintomas de “indigestão episcopal”, Dom Dadeus exerce, com criativa argumentação, os três olhares indispensáveis para as lideranças século XXI, sejam elas técnico-científicas ou humanistas: o olhar para dentro, o olhar para fora e o olhar para os amanhãs. O primeiro voltado para uma permanentemente severa auto-crítica, percebendo sempre que “nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia”, na reflexão heracliteana do músico Lulu Santos. O segundo olhar é voltado para o derredor, onde muitos, até religiosos, gastam um tempo enorme procurando apagar o brilho dos outros, em vez de possibilitarem o fortalecimento da sua própria irradiação, findando-se como pilhas de voltagem nula.
O terceiro olhar, o que busca amanhãs, é exclusidade dos que sabem fazer a hora, nunca esperando acontecer. Dos que ousam fazer, dos que sabem congregar, dos que percebem-se inconclusos, sentindo-se robustecidos quando acompanhados de não-medíocres de robusta criticidade.
Lendo o livro de Dom Dadeus, lembrei-me de muita gente que da leitura dele necessita, inclusive dos que ainda comungam do absolutismo religioso que afasta das religiões organizadas. E faço minhas, as palavras de Harold Kushner, rabino de muita fibra: “As igrejas, templos e sinagogas, com muita freqüência, têm-se tornado um terreno fértil para a hipocrisia, auto-promoção, uma falsa virtuosidade e para a propagação de mesquinharias e intolerâncias de todos os tipos”. Um rabino que até parece muito conhecer o Recife e as suas denominações religiosas...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Puxasaquismo Medalhoso

Com espanto, para não dizer imensa tristeza cívica, em dezembro último li notícia da concessão da Medalha Santos Dumont à primeira dama Marisa Letícia, por relevantes serviços prestados à Força Aérea Brasileira. Uma FAB que teve por lema, um dia, “servir, nunca se servir”. A FAB do brigadeiro Eduardo Gomes, um dos ícones mais respeitados das Forças Armadas.
Não se sabe a relação dos serviços prestados pela primeira dama à Aeronáutica, capaz de merecer uma honraria que era considerada do mais alto quilate até bem pouco tempo atrás, instituída que foi, em 1958, por decreto presidencial. Como também são ainda ignoradas as razões pelas quais a referida homenagem não foi conferida, post-mortem, aos comandantes mortos nos recentes acidentes aéreos da Gol e da TAM. Tragédias que fundamentalmente contribuíram, embora de maneira lamentável, para o desnudamento do apagão aéreo que o Brasil hoje vivencia, para não se falar de febre amarela, energia elétrica, dengue, Dona Lindu e outras contaminações. Um apagão aéreo de triste memória para centenas de famílias brasileiras, que ainda tiveram de conter a indignação quando da concessão da mesmíssima Medalha Santos Dumont aos demitidos Milton Zuanazzi e Denise Abreu, ex-diretores da ANAC.
Outro dia, um popular de cuca feita disse com muita propriedade: “No Brasil, condecoração serve para confraternizar os amigos com um belo jantar, música e muita bebida. Após o evento, a medalha será jogada no fundo da gaveta. Medalha sem honra enferruja a alma. No meu pensar, conceder honrarias a torto e a direito, com sofreguidões babaovísticas, é considerar inócuos os atos de bravura e heroísmo dos realmente merecedores”. Uma opinião que é a cara de um Brasil cidadão que se desinfantiliza, que está ficando a cada dia mais enojado com as bajulações de políticos medíocres, fingidas vestais do poder maior, cínicos não-tô-nem-aí, posto que o que vale é o que se veicula pelos meios de comunicação.
O alerta do blogueiro Johny Notariano, serve para todos aqueles que possuem as mãos continuamente próximas dos sacos dos chefes de todos os naipes: “o que mais me chamou a atenção e que serve de alerta para os que estão iniciando na senda do puxasaquismo, é que algum dia o puxa-saco cairá e quem irá derrubá-lo não será o chefe e sim os seus colegas de trabalho”. E mais disse: “Conhecido como bajulador, galanteador e sabe-tudo. O perfil cultural é sofrível, para não dizer ridículo, tem muita dificuldade para as tarefas que necessitam de habilidades mínimas e básicas, mas apresenta-se como PhD em todas as áreas de conhecimento” ... “Está sempre de plantão no meio das fofocas, não perde nenhuma notícia e nenhum detalhe. Participa sem ser chamado para conversas sobre decisões, ouve escondido, como quem não quer nada, imediatamente correndo à procura da resposta em primeira mão para o chefe”. Entre o puxa-saco e os superiores existe uma falsa relação de amizade, eterna enquanto útil, chegando, em alguns casos, até a causar inveja nos que, ingenuamente, confidenciam tudo a ele com medo de perder tão “importante” influência.
Para a felicidade geral da nação, em breve os tempos não mais serão fáceis para os medíocres. Num contexto cada vez mais “mundializado”, amplia-se a consciência do ético, cultivando-se o senso crítico através de um pensar cada vez mais autônomo, capaz de melhor compreender as incógnitas e os paradoxos de uma contemporaneidade gerada por múltiplos ontens. Não se relegando o Marquês de Maricá: “A mediocridade em tudo é uma garantia e penhor de segurança e tranqüilidade, sendo a passividade sua filha predileta”.
Não descobri ainda para quem foi a carapuça do cantado por milhares num recente evento: “Eu só peço a Deus / Que a injustiça não me seja indiferente / E se um só traidor / Tem mais poderes que um povo / Que esse povo não se esqueça dele facilmente”.
Nunca, ninguém, na história recente deste país, disse uma coisa dessa ....
(Publicado no Jornal do Commercio, 13.02.2008)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Super Bonder

Estou convencido que o Homão de Nazaré, mesmo sendo Filho de Deus, não tinha intenção de fundar qualquer religião, apenas revigorar o Judaísmo, onde tenho irmãos de mesmo tronco, dentre os quais destaco Arão Parnes, um amigão em todas as marés.
E não tenho nenhum motivo para pensar diferente. Os documentos mais consistentes mostram que os primeiros seguidores de Jesus viviam da mesma maneira que os judeus, partilhando as preces nas sinagogas, as proibições alimentares, a Torá e a prática da circuncisão. Tem-se como certo que foi o apóstolo Paulo quem aprofundou as razões da separação, aqui não sendo necessário qualquer esmiuçamento.
Quem desejar saber mais sobre as diferenças, favor consultar Judaísmo e Cristianismo: as Diferenças, vinte reimpressões desde 1943, de Trude Weiss-Rosmarin (1908-1989), fundadora e editora da consagrada revista Jewis Spectator, cuja intenção sempre foi, ressaltando as diferenças, promover o aprofundamento da fraternidade entre as duas crenças, a partir da compreensão básica de cada uma.
A minha amizade com o povo judeu fincou raízes em 1963, quando conheci Sérgio Wolkoff, um brlhante aluno de Matemática da Universidade Católica de Pernambuco, de quem fui companheiro de viagem aos EEUU. De inteligência radiante, ele é, hoje, um renomado executivo de área financeira, no Rio de Janeiro. A ele devo esclarecimentos em inúmeros pontos aparentemente divergentes, motivando-me para leituras posteriores mais consistentes.
Em outra ocasião, 1994, recebi de Felipe Carlos Albuquerque, advogado gota serena de arretado, o livro Quando Tudo Não é o Bastante, do rabino Harold Kushner, prefaciado, no Brasil, pelo padre Humberto Porto, da Comissão Nacional do Diálogo Católico-Judaico do Brasil. Um texto destinado aos que se encontram no meio do corre-corre dos tempos de agora, onde alguns, profissionais de muitos quilômetros rodados, ainda não se questionaram sobre os porquês de tamanha pressa. A leitura daquele livro me fez ainda mais próximo dos irmãos de fé em Yaveh, com todo respeito pelas demais religiões.
Mas todo o acima escrito foi inspirado numa alegria recentemente auferida, a da re-leitura do livro Sobre Deus e o Sempre, de Nilton Bonder, rabino de liderança aplaudida internacionalmente, cujo livro publicado nos EEUU – Our Immoral Soul: A Manifesto of Spiritual Disobedience, Shambhala, 2001 – pontificou na lista dos 20 melhores livros na área da sabedoria judaica. Sobre Deus e o Sempre é um ensaio cativante, para se ler e reler, novamente lendo para anotações. Um livro onde o autor, de modo didaticamente ímpar, identifica um outro tempo, além dos clássicos presente, passado e futuro. O sempre, o quarto tempo, um tempo despido de conteúdo lógico, uma classificação advinda da mística judaica, que divide a realidade em quatro mundos. Segundo Bonder, o sempre seria mais bem representado, em nossa limitação conceitual, como um ambiente do que como um tempo. ... Enquanto nossa única residência é o agora, Deus reside no sempre, daí não poder Ele existir da maneira como nós existimos.
Numa época de múltiplas chulices carnavalescas, onde até a ministra Matilde Ribeiro saiu pelo ralo planaltino, o livro do Nilton Bonder é uma profunda reflexão humanista. Uma leitura propícia para um reinício de ano que exigirá uma mais acurada binoculidade eleitoral, elegendo-se políticos de frente, nunca de costas.
Lição inesquecível o livro do Bonder proporciona: o humanismo real não é produto da retórica de intelectuais iluminados, mas tem como base a capacidade de estender o sentimento de solidariedade que temos para nosso grupo mais imediato a toda humanidade.
Sem desejar fazer trocadilho, fazendo, o livro do Bonder é tão bom que fica muito difícil desgrudar-se dele.
(Editado no Portal da Globo Nordeste, fevereiro 2008)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Alerta Vital

Uma recordação para a nossa ainda frágil consciência nacional: no primeiro semestre de 2000, os partidos neonazistas de todo o mundo estavam preparando um congresso nacional-socialista em Santiago do Chile. Diante do clamor mundial dos politicamente mais responsáveis, enfiaram a viola na mala e cancelaram o evento. Seria sob todos os pontos de vista lamentável a reunião dos seguidores de uma doutrina tão monstruosa, responsável pelo cruel assassinato, em campos de concentração, de 1,5 milhão de crianças, a esmagadora maioria judias, que os "super-homens" nazistas pretendiam exterminar como baratas, utilizando-as em experiências médicas indescritíveis.
Para mim, não deveria haver conversa nem tolerância possível com tal tipo de ideologia. O nazismo é a única doutrina que condena à morte seres humanos pelo simples fato de serem judeus, tidos pelos seus ideólogoscomo "seres inferiores". Mareck Halter, consagrado filósofo judeu, diz que o nazismo é o mal absoluto e que um judeu jamais poderia ser adepto de tal filosofia política, posto que ela extrapola todas as tiranias e barbáries que a Humanidade já conheceu.
Um amigo meu tem em casa duas fotos de sua mãe, uma de frente e outra de perfil. Fotos sem qualquer expressão, pois foram tiradas pela polícia nazista, a Gestapo. E o que ela fez de errado? Absolutamente nada, embora tenha se submetido a essa infâmia para demonstrar que não era judia, o que possibilitou seu casamento com um jovem alemão.
Sinto um intenso frio na espinha imaginando o que aconteceria com aquela futura mamãe do meu amigo se ela tivesse alguns traços "suspeitos", ou mesmo alguns “sinais comprometedores". Certamente teria sido cremada, as cinzas sendo jogadas num canto qualquer, sem o mínimo respeito.
Causa-me forte repugnância as tentativas revisionistas de atribuir o massacre dos judeus, na tirania nazista, a uma montagem ou a exageros publicitários. Ou desejar tornar mais conhecida a figura de Hitler, ainda que em desfiles de agremiações carnavalescas.
Muitos desconhecem detalhes que revelam a estupidez anti-semítica que bestializou o III Reich. Um exemplo: os judeus, ao serem arrebanhados e enviados aos campos da morte, pagavam pela passagem de trem que os conduziria aos campos de extermínio. E pagavam tarifa excursão, porque pelo germânico regulamento das ferrovias, eles viajavam em grupo!!! E não pára aí, a animalidade nazista: a estatal ferroviária cinicamente iniciava processos administrativos para reembolsar o dinheiro dos "excursionistas" que não mais voltariam. Cretinamente, no regime nazista, matar industrialmente não causava qualquer problema, muito embora não devolver o dinheiro dos "passageiros" fosse considerado uma postura "antiética".
Aplausos entusiásticos para as organizações de defesa dos Direitor Humanos que se mobilizaram solicitando a proibição de carros alegóricos que relembram fatos que muito envergonharam a Humanidade, além de gigantesco sofrimento e dores infindas para milhões de familiares e amigos dos inocentemente assassinados.
Que o Brasil jamais se cale diante de tal ideologia, em memória de milhões de irmãos nossos, judeus, também irmãos do Homão de Nazaré, sacrificados pela sanha nazista. O Ovo da Serpente, filme-alerta do sueco Ingmar Bergman, mais que nunca está aí, nas locadoras, para ser revisto, para desfazer a ignorância de muitos. Ou, o que é bem mais grave, brandindo contra a alienação histórica dos mais abilolados.
O Pe. Antônio Vieira, que neste ano de 2008 será homenageado em prosa e verso, já declarava, em 1655, no Sermão da Sexagésima, que “as palavras sem obras são como tiro sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de Davi derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra”. Que, dizem, atingiu em cheio o saco do malvado, fazendo-o desmaiar, sendo então finalmente justiçado.