sábado, 30 de dezembro de 2006

Vida Universitária

Num seminário realizado numa universidade do centro-oeste, um dos temas, Vida Universitária, coube a este norte-riograndense, pernambucanizado na Assembléia Legislativa e recifensizado na Câmara de Vereadores. O tema poderia ser desenvolvido sob dois prismas. O primeiro, apologético, agradante, massageador, triunfalista. O segundo, essencialmente crítico, buscando contribuir para a melhoria de comportamentos discentes, docentes, administrativos e organizacionais, evitando-se a tão conhecida obsolescência institucional, que mumifica, atrofia a criatividade, acelera o esclerosamento do saber e enseja o Phdeísmo, aquela virose que intoxica o diplomado, deixando-o com um ar de soberba absoluta, “um valor antidemocrático por excelência”, na expressão utilizada por Fernando Savater, filósofo espanhol contemporâneo, num dos seus últimos textos, Os Sete Pecados Capitais.
Com um bocado de quilômetros rodados por vocação na área das Ciências da Administração, enumerei algumas das atuais dificuldades enfrentadas por um Coordenador de Curso, ou Diretor de Centro/Faculdade. Umas relacionadas com a instituição de ensino, outras inerentes aos próprios acadêmicos. Outras tantas ligadas ao engessamento curricular.
A primeira delas diz respeito a sacrificados professores temporários, alguns deles com dez, doze anos de provisoriedade, à espera de concurso que o torne integrado de mesmo à vida acadêmica.
A segunda dificuldade é a precariedade das bibliotecas, que impossibilitam aos interessados um acesso rápido ao que existe de mais atualizado. A não-atualização dos acervos bibliotecários vitima a criticidade, favorecendo uma cultura de fingimento, traduzida num volume crescente de informações internética sem a devida mastigação transformadora, tornando-as conhecimento.
Uma terceira dificuldade procede do corpo discente. E a culpa não é totalmente deles. O ensardinhamento das salas de aula é um dos fatores desestimulantes. Salas com 60, 70, 80, 100 alunos, por mais que sejam utilizadas modernas técnicas de comunicação, não favorecem uma integração docente/discente compatível com as exigências de um mundo que necessita ser desindividualista, mais parceria e menos competitividade, mais construção conjunta que samba de uma nota só. Salvo honrosas exceções, raras as instituições que possuem consistentes programações culturais não-embromatórias, tampouco segurança efetiva que proporcione comparecimentos sem as agonias de um final de noite de alta periculosidade.
Além disso, os ciclos básicos estão servindo de meras casas de passagem, sem precupações maiores com a integração discente/universidade. Para não falar das desatenções para com jovens de 16/17/18 anos, quase crianças, muitos advindos de escolas que apenas ensinam como ultrapassar as barreiras do vestibular, para não falar, aqui, das excepcionalmente inteligentes, que anseiam por algo mais denso que o apreendido pela grande maioria nos anos anteriores.
Em relação a cotas, aplaudo a iniciativa da Universidade de Pernambuco, em destinar um percentual das suas vagas para alunos da escola pública, sejam eles de qualquer etnia. Uma iniciativa concreta de favorecer a pressão sobre a melhoria gradativa da escola pública do ensino fundamental.
No mais, compete às entidades supervisoras exercerem funções emuladoras, endurecendo quando necessário, ainda que sem perder a ternura jamais. Sempre diferenciando conceitos vivos de conceitos mortos, Reis buscando segredos dos sapateiros e sapateiros infelizes porque não conseguem ser Reis.A dinamização da vida acadêmica de uma instituição, excluídas as metidas a de nível superior, requer uma tesão acadêmica permanente, professores, alunos, dirigentes e funcionários. Sem a “celebração permanente da mediocridade”, um ritual de muito agrado dos fingidos e amacacados.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Um Olhar sobre a Cidade

UM OLHAR SOBRE A CIDADE (*)
Dom Hélder Câmara

Meus queridos amigos:
Neste fim de ano, quando somos tentados a um balanço nos 360 dias que Deus colocou em nossas mãos, perdoem, mas me lembro da Oração do Palhaço. Escutem a oração e, depois, direi que ligações, aparentemente absurdas, tem esta prece com a nossa vida...
Diz o Palhaço, o Comediante:
Senhor! A maquilagem espessa recobre o meu rosto
Nem mesmo eu consigo reconhecer-me
Durmo durante o dia e pálido desperto
Para tornar-me outro durante o calor do espetáculo.

Mudando a condição e escondendo a idade
Devo representar papéis tristes ou alegres.
Fazem rir os trejeitos do meu rosto triste
Não é para mim que rolam muitas lágrimas.

Representei comédias ... Vivi dramas ...
O que resta de mim não o sei muito bem
Só Vós, Senhor,
podereis conhecer minha alma
e todos os corpos que tomei de empréstimo.

Pode parecer quase ofensivo que eu me lembre de nós todos lendo, ouvindo, meditando esta oração do Palhaço.
Mas quem é na vida, por mais amor que tenha à verdade, por mais sede que tenha de autenticidade, que não se veja obrigado, diante da sociedade, tão pouco sincera, a usar, de vez em quando, máscaras ou, pelo menos, meias-máscaras ?! ...
Feliz de quem encontra algum amigo verdadeiro e algum canto de paz, onde a gente possa tirar tudo que é máscara e ser a gente mesmo... Sem sofisticação. Sem enganos. Sem medo de ser mal entendido ou mal interpretado!...
Ah meus Amigos, como a vida poderia ser incomparavelmente mais simples! O terrível é que cada um de nós fica esperando que os outros se consertem, emendem de vida, melhorem...
E se nós começássemos o Ano Novo com a decisão de não complicar desnecessariamente a vida? ...
Prece também muito oportuna, como preparação de Ano Novo, é esta que atribuem ao Almirante Hart:
Daí-nos forças, Senhor
para aceitar com serenidade
tudo o que não pode e não deve ser mudado
Daí-nos coragem
para mudar ou tentar mudar
o que pode e deve ser mudado
E daí-nos sabedoria para distinguir
o que pode e o que não pode
o que deve e o que não deve
sofrer mudanças!
Sábado, 28.12.1974

(*) Extraído do Boletim O DOM, Informativo do Instituto Dom Hélder Câmara, Ano 3, n° 17, dezembro de 2006.

ESCLARECIMENTOS:
O nosso muito amado Dom Hélder Câmara, então Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife, evangelizava diariamente, através de um programa radiofônico por ele chamado de Um Olhar Sobre a Cidade. O acima escrito é cópia fiel da reflexão do Dom num final de ano, há 32 anos!!
Desejando um Feliz 2007 para todos, homenageio um pastor que muito amei na face da Terra, dele recebendo lições inesquecíveis de Justiça e Paz!!
Quem desejar abeberar-se mais das reflexões de Dom Hélder Câmara, pode acessar o endereço
www.domhelder.com.br, reproduzido em português, inglês, alemão, italiano, espanhol e francês. E quem apreciar música clássica poderá ainda fazer download da Sinfonia dos Dois Mundos.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Reflexões Cidadãs

Qual deveria ser o papel primordial de um cidadanizador, aquele que deseja um mundo mais dignificante, a conflitividade ensejando ultrapassagens periódicas, as posturas desumanizadoras sendo abominadas por gregos e troianos? A tarefa de repassar reflexões e iniciativas que elevem a compostura da Humanidade pode ser uma resposta. Através de variados procedimentos, qualquer um pode contribuir para o aprimoramento civilizatório. Imaginemos alguns:
- "Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de auto-destruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas". (Celso Furtado ).
- "A velha divisão de direita e esquerda acabou se assemelhando mais a duas seitas puritanas, uma lamentosamente conservadora, a outra posando de revolucionária mas usando a lamentação acadêmica como maneira de fugir ao comprometimento no mundo real". (Robert Hughes, crítico de artes australiano)
- "A filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo sempre suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder". (Harold Bloom)
- "As pessoas querem respostas imediatas para as suas aflições . É por isso que as seitas estão crescendo enquanto as religiões tradicionais estão perdendo fiéis. O fenômeno de crer num líder capaz de nos ensinar a remover os obstáculos para os nossos objetivos pessoais não é novo, mas se reforça nos momentos de crise". (Esdras Guerreiro, USP)
- “No Brasil de hoje há poucos homens de esquerda, porém muitos esquerdeiros. Estes vivem da gesticulação revolucionária e de ficções verbais”. (Guerreiros Ramos)
Poderíamos obter, por exemplo, os Dez Mandamentos de um desenvolvimento econômico irmão siamês de um desenvolvimento social:
1. Participamos de um único cosmo, cada um sendo reflexo dele, nele também refletindo esperanças, conquistas e humilhações;
2. Os acidentes da vida obrigam os seres humanos a adotar costumes que os levam a esquecer a parte imortal deles próprios;
3. Quem diz "eu prometo", sem ter base para cumprir a promessa, é um mentiroso;
4. Se aprendemos o que significa viver com livros, somos forçados a torná-los parte da nossa vida;
5. Política significa o governo do ser humano e isso só pode ser feito em posições de poder legítimo;
6. Se a democracia não pode tolerar a presença de altos padrões de aprendizagem, então a própria democracia se torna questionável;
7. Cultura não deve ser usada para superar preocupações instintivas com o país, colocando em seu lugar uma lealdade falsa e alimentando uma perigosa falta de sensibilidade para com a política real;
8. Quem só possuir visão "econômica" não poderá, de forma consistente, acreditar na dignidade do ser humano ou no status especial da arte e da ciência;
9. Quando a luz dos grandes textos estiver para sempre obscurecida pelas chamas ardentes da interpretação fantasiosa, nossa janela para o mundo estará irremediavelmente fechada;
10. Todos os talentos não passam de recursos para a felicidade de todos.
A melhor forma de treinar é jogar. Nariz empinado, peito erguido e uma vontade gota-serena de atravessar o Rubicão. Descobrindo novas crenças, complementando-se uns com os outros, assumindo um fazer com gosto, apesar das pedras e cotoveladas. Sempre seguindo adiante, repetindo alto e bom som a frase preferida daquela solteirona, inaugurada na adolescência e de motor muitas vezes reajustado: "Eu sou um continente. Vibro com todas as coisas".
PS. Um 2007 mais solidário com a Cidadania Brasileira, meus sinceros votos.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Para Não Entornar o Caldo

Vez por outra, ultimamente com mais freqüência, tenho ouvido um ditado muito antigo, ainda dotado de notável contemporaneidade: “em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Os últimos níveis de desemprego, o exército dos que ainda não conseguiram a primeira colocação na vida e a imensa maioria dos nunca incluídos no mercado de trabalho, desencantam meio mundo e muito envergonham os cidadanizados.
Não me canso de repetir, talvez até quixotescamente: “quem semeia ventos colhe tempestades”. Torna-se necessário desanestesiar o quanto antes a sociedade civil brasileira, ultimamente enebriada com um plano de estabilidade que deveria ser entendido como ponto de partida, jamais de chegada, essencialmente meio para se atingir um nível de maior dignidade para todos os segmentos sociais brasileiros, mormente os menos favorecidos.
Denuncia-se a ausência de uma finalidade humana nas políticas de planejamento que perambulam, vez por outra, pelos noticiários jornalísticos e televisivos, somente fala, jamais ação concreta. Todo o Brasil está a reclamar, pelos seus segmentos mais conscientes, por propostas e alternativas viáveis. E os do Nordeste, cansados de remendos e trapalhadas, clamam por um programa de desenvolvimento de bom calibre, que efetivamente faça integrar o todo regional no todo maior, brasileiro.
Todo consenso desprepara para opções e os conflitos são equacionados por um toma-lá-dá-cá descaradamente espúrio, explícito mais que bunda de índio ainda não-civilizado. Castra a criatividade cívica, aniquila a mais autêntica das solidariedades, a que faz recuperar cegos, coxos e paralíticos, reduzindo tudo a esmolismos grotescos, praticados com vistas lançadas para os resultados das urnas, em outubro próximo.
O educador Paulo Freire, um pernambucano de reconhecida notoriedade no seu campo profissional, costuma dizer que todo oprimido nutre um profundo desprezo por ele próprio, posto que emocionalmente é um dependente, satisfazendo-se com qualquer mil-réis, um ôi-querido ou um telegrama-padrão, desses que são passados pelos sabidos às vésperas de mais um aniversário dos lesos.
Tenho colecionado algumas frases, ditas por beatos e santonas que semanalmente estão nos templos sagrados, olhos farisaicamente marejados diante das advertências evangélicas: “O mundo sempre teve pobre”... “Dos pobres Deus sabe cuidar”... “Quem nasce pra capim, nunca vai chegar a rosa” ... “É dando que se recebe é coisa para maricões”... “Cada um tem a sua história”... “Ninguém muda o que está traçado”. E por aí vai, com armas e bagagens de forte conteúdo asinário.
Eu com meus botões, fico às vezes a imaginar como seríamos hoje, se não possuíssemos uma imensa capacidade de curtir Carnaval, São João, São Pedro, Dia dos Namorados, Pais, Mães, Sogra, pra não falar dos finais de semana praieiros, forrozeiros e roqueiros, repletos de muito seio, suor e cerveja...

Nascimento do Menino

De repente, num dia qualquer de um final de dezembro, completou-se o tempo da parição. O casebre era rústico, de taipa e chão de barro batido. No apertado quintal, duas árvores e um pedaço de jornal velho que noticiava estrondoso baile de carnaval, gastos alibabásticos, desbunde total, os vários sexos em desvairamentos faraônicos, tudo em prol das criancinhas de rua da cidade.
A dor apertando mais. Calor brabo, três da tarde, um domingo. Ao lado do magro colchão de palha estendido no chão do único dormitório, a Elisabete, prima também descendente de Aarão, aguardava o instante maior. Possuía tanta bondade que o seu filho João iria anunciar a Boa Nova, de há muito já profetizada por uns santos homens já falecidos, que pregavam a libertação de todos. Com Maria – a prima parturiente – e os demais familiares, acreditava que um dia os famintos seriam cumulados de bens e os maus ricos despedidos de mãos vazias. Lembrando-se do Papa Paulo VI – “Não é lícito aumentar a riqueza dos ricos e o poder dos fortes, confirmando a miséria dos pobres e tornando maior a escravidão dos oprimidos” – orgulhava-se de pertencer a uma associação de moradores, num bairro de classe operária.
Elisabete também sabia que só blá-blá-blá não resolveria problema algum, a solução sempre advindo da organização e da união de todos para a concretização dos sonhos acalentados. Segundo ela, sonhando muitos estavam, embora ficassem restritos aos sonhos, não aceitando críticas, partindo para o desaforamento como se moleques de rua fossem, sem a serenidade das lideranças consolidadas.
A parteira chegara. Os panos e as toalhas, fervidos em caldeirão sobre carvão, a postos. As contrações ampliadas, embora a felicidade muito atenuasse as dores sentidas. Em minutos, Emmanuel exteriorizou-se rapidamente, sendo envolvido em faixas e deitado numas palhas doadas pelos da redondeza, solidariedade presente e sempre atenta aos gritos de fome e de angústia dos desempregados, das prostitutas que terão prioridade de ingresso na Festa de Encerramento e dos chacinados por uma violência desenfreada, efeito maior de uma injustiça cinicamente mantida pelos que controlam um sistema financeiro instalado na contra-mão da História.
Sadio, Emmanuel chegara. Foi circuncidado no oitavo dia e apresentado ao Chefão de Tudo, conforme recomendava uma cartilha muito lida: “Todo macho que abre o útero será consagrado ao Senhor”. E dos muitos testemunhos, o de Simeão, um velho estivador aposentado por invalidez, foi o que calou mais fundo: “Esse Menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos”.
A aparência luminosa do garoto contagiava. O Maurício Primaz, o Sebastião Bispo, o Jubal Ternura Grandona, a Rosemary Ministra, a Valéria com dissertação aprovada, o Pierre Maestro, o Campozana Portuga, o Gustavo Saet e a Ana, o Aldenor e a Dany, o Joelson Tesoureiro, o Filadelfo e a Dulcy, o Senomar Legis e a Gabriela Futura Mamãe, o Sérgio Catedral, o Guaraná Jamais Coca, o Peixoto Capelão Tiradentes e um bocado de gente amada vibraram com a chegada do Filho da Maria. E prometiam ser d’Ele companheiros de Vida, para a difusão de um amor sem preconceitos, sem opressores, sem ódio e sem medo, onde ninguém fosse menos que ninguém, sem consumismos desenfreados, num agir corajoso e viril, fruto indispensável de uma evangelização essencialmente libertadora.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Hora de Reinventar-se

Nestes tempos de pós-modernidade, deixamos de lado os valores da FÉ e da RAZÃO, disputando nacos, olvidando a advertência do querido Dom Hélder Câmara, sempre amado arcebispo emérito de Olinda e Recife: "O Cristianismo que difundimos no Continente, atribuindo tudo a Deus e quase não apelando para a iniciativa e a responsabilidade do homem chamado, pelo Criador, a dominar a natureza, a completar a Criação, a conduzir a História, alimentou nas Massas latino-americanas um sentimento passivo, fatalista e mágico".
Está na hora de as Igrejas Cristãs, sem firulas nem fricotes, perseguirem uma auto-avaliação corajosa, descobrindo seus próprios pontos fracos, suas comunicações deficientes, oferecendo um serviço religioso que contemple as aspirações espirituais da nossa gente, num servir capaz de exprimir louvores, contemplações e adorações autenticadas pela palavra do Senhor da História, convencendo todos sem enganações nem baboseiras.
Aplaudo firmemente a indagação feita por Lucas 14,28: “Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la?” O que talvez o apóstolo não avaliou na devida conta, os tempos eram bem outros, foi o agigantamento da cobiça na construção dessas torres, hoje também transmissoras, multiplicadoras de muitos milhões de dólares, advindos de idiotizados e desesperançados, que imaginam soluções mágicas para velhos e cruciantes problemas, solucionáveis todos, se percebermos melhor e mais eficazmente a Mensagem do Homão de Nazaré.
Juntemos sadias mentes cristãs, antes que seja tarde demais. Para conquistar os jovens, receber os descaminhados, compreendendo que o amanhã já chegado será muitíssimo diferenciado de um hoje que já se está indo embora em desabalada carreira. A palavra testemunhal ainda é do pe. Yves Congar, um dos teólogos que mais fizeram para restabelecer o diálogo entre as Igrejas e o mundo contemporâneo: “Diz-se que a Igreja não interessa mais a ninguém, que a maioria dos homens deixou de esperar dela algo que tenha o peso do real. Isso não é exato. Uma decepção dá a medida de uma esperança, um despeito a medida de um amor. Se não se esperasse mais nada da Igreja, não se falaria tanto dela...
Uma crise torna-se saudável quando muitos não se contentam em ser apenas uma crítica aos outros, mas quando se torna, muito oportunamente, um julgamento de si mesma. E isso somente advirá com mais capacitação, terra e saúde, melhor distribuição de renda e mais participação, no Brasil, dos severinos de maria, homenageados em Vida e Morte Severina, do pernambucaníssimo poeta João Cabral de Mello Neto.

Para Lideranças Tímidas

Outro dia, num livro de um diácono permanente - Técnicas de Planejamento Pastoral, Gianfranco Orfano, Vozes, 2004 – deparei-me com uma historieta bastante oportuna, de grande valia para os que, ainda imaginando que hábito faz o monge, gostariam de ampliar sua capacidade de liderar pessoas ou instituições.
A historieta é mais ou menos a seguinte:
Um homem se encontrava perdido no deserto, morrendo de sede. Quase se arrastando chegou a uma cabana velha abandonada. Nos fundos da construção, um bomba toda enferrujada. Com ajuda da manivela, bombeou-a sem parar, nada acontecendo. Todo desapontado, notou uma garrafa situada no canto esquerdo da peça. Nela, um bilhete: “Você precisa primeiro preparar a bomba, derramando sobre o bocal o conteúdo desta garrafa. Depois faça o favor de enchê-la antes de partir, para favorecer o próximo viajante.”
O sedento se viu num dilema atroz: beberia a água da garrafa para sobreviver ou despejaria seu conteúdo na bomba? E se a bomba não funcionasse?
Meio desconfiando, despejou todo o conteúdo da garrafa no gargalo da bomba e começou a bombear. Chiando sem fim, a bomba expeliu um fiozinho d’água, instantes depois jorrando água cristalina em grandes quantidades.
Ao sair, o homem deixou um acréscimo no bilhete: “Creia-me, funciona. Você precisa despejar a água toda antes de poder obtê-la de volta”.
A lição que fica: planejar é ter coragem de aceitar desafios!
Todo líder de mesmo, que tem a consciência plena das suas responsabilidades, desenvolve suas atividades profissionais sob três questões dialeticamente desafiadoras: o que quer alcançar, a que distância se encontra aquilo que se quer alcançar e o que fazer concretamente (em tal prazo) para diminuir progressivamente essa distância.
De uma coisa os líderes devem sempre levar na mais alta consideração: as ações apenas eficientes em nada contribuirão para a transformação das estruturas. As ações necessitam ser eficazes, efetivamente transformadoras. Nunca deixando de sobressair dois primorosos mandamentos gerenciais: 1. Quanto menos recursos existentes, mais as ações necessitam ser planejadas; 2. Os autoritários, os “donos da verdade” e os acomodados não querem nem saber de planejamento.
Tem líder que detesta a conflitividade, buscando sempre a prática da cooptação, imaginando que todo mundo tem preço. Não percebe, porque se imagina acima do bem e do mal, que conflito não é algo sempre negativo, não percebendo que ele somente será negativo quando não se sabe lidar com ele. E não percebe que, em inúmeros casos, os conflitos atuam como sintomas da necessidade de urgentes mudanças e reconversões.
Um dia, anos passados, um economista escreveu: Para inúmeros, que seja melhorado o bom, descobrindo-se a essência das missões individuais e coletivas. Que a argila impulsione um caminhar de propósitos de passos largos, correndo-se o risco de fazer coisas inéditas, mesmo recapturadas de fatos passados, até ridicularizados. Amanhã, imaginar-se daqui a quinze anos será um exercício prazeroso para os amantes da Eternidade. A emergir sentimentos ainda ocultos, espiritualidades incompletas, choros contidos e texturas descoradas por desintegrações múltiplas. Rompida as barreiras, que se aborde com a serenidade que resta as razões mais recônditas dos propósitos fingidos. Reconhecendo que as verdadeiras urgências são cada vez mais raras, os erros de previsão avolumando-se na ordem do dia, as exceções desmarcadas porque finalmente dispensáveis.
Como seria salutar se os líderes de todos os naipes – civis, militares e religiosos – lessem refletidamente sobre o que, um dia, escreveu o muito notável Fernando Pessoa, o poeta lusitano hoje reconhecido mundialmente: “O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos, e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância extrema - o cargo que exerce, a posição social, a fortuna que tem....”
Todo líder deve discernir sobre tudo e todos, ficando sempre com o que é bom, tal e qual já nos advertia o lúcido Paulo de Tarso, o incansável bandeirante dos gentios. (1Ts 5,21)

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Desabafo

"Nossa maturidade nos conduz a um verdadeiro reconhecimento de nossa situação diante de Deus. Deus quer que saibamos que devemos viver como quem administra sua vida sem ele. O Deus que está conosco é aquele que deserta de nós. O Deus que nos permite viver no mundo sem a hipótese funcional de Deus, é aquele diante do qual permanecemos continuamente. Diante de Deus e com Deus, vivemos sem ele."
Este trecho de autoria de Dietrich Bonhoeffer abre o prefácio de John Shelby Spong, bispo episcopal anglicano de Newark por 24 anos, no seu livro UM NOVO CRISTIANISMO PARA UM MUNDO NOVO - A FÉ ALÉM DOS DOGMAS, Verus Editora, 2006.
A leitura do livro do bispo Spong seguramente esclarecerá mentes e aclarará os corações daqueles que desejam ser proprietários da Mensagem Cristã, utilizando-a como argumento para as mais descabidas discriminações e os mais abjetos propósitos, tal e qual fazem os déspotas de ontem e os contemporâneos. Os mesmos que, sob propósitos enviesados, amedrontam os de criticidade mais frágeis, os que ainda se encontram numa transitividade ingênua, expressão utilizada pelo Paulo Freire, um educador pernambucano de talento.
Inúmeros "pagam com o exílio sua lentidão de libertar-se de interesses obsoletos", desabafo de Christian Duquoc, frade dominicano e teólogo dos mais respeitados no exterior, autor do A TEOLOGIA DO EXÍLIO, recentemente lançado pela Editora Vozes.
Num tempo de incontestável degradação da prática cristã, vivemos as primeiras épocas de uma nova teologia da revelação, onde o respeito radical pelas diferenças deverá ser o balizador único de uma convialidade fraterna. Caso contrário, estaremos expondo pedaços de Cristo em múltiplas satisfações de subjetivismos matreiros, ignorando o brado paulino que jamais ignorou que "uma multidão só existe quando participa de algum modo de uma unidade".
Desculpem-me o desabafo de um final de noite, numa vigília de mãe com Alzheimer que principia seu caminho de volta ao Pai. Mas achei-o necessário, diante de centenas de e-mails recebidos, manifestações de pretensas lideranças que desejam impor pensamento único aos Filhos da Criação, autores que se imaginam herdeiros únicos do mapa do Caminho.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Bicudo, Rebeldia Cidadã

Uma energizante leitura, o Minhas Memórias, do dr. Hélio Bicudo, lançada pela Martins Fontes. Um texto que descortina horizontes, posto que é chegado o tempo de ouvir mais as pessoas. Sem os comportamentos dos que, sem criticidade, aplaudem tudo que vem do poder, agredindo o que se origina nas áreas contrárias.
Classifico o dr. Bicudo como um homem público que dignificou uma cidadania alicerçada ao longo de décadas de atividades conscientes e consistentes. Cidadania ampliada nos anos 70, diante do agigantamento dos poderes discricionários do Estado através do AI-5, favorecendo a emersão de assassinatos atribuídos a uma organização que se auto-denominava Esquadrão da Morte. E o livro traz nomes e sobrenomes.
Se me fosse possível, enviaria as memórias do dr. Hélio Bicudo para cada promotor brasileiro, para prefeitos e governadores, deputados federais e estaduais, senadores e vereadores, religiosos e seminaristas, professores e alunos, corporações policiais civis e militares, Ongs e sindicalistas. Com uma advertência na dedicatória: deixar de dar velhas respostas faz sempre cessar um desserviço extremamente nocivo. E um incentivo, utilizando a expressão consagrada da notável judia Hannah Arendt: toda banalização do mal exige um reavivamento comportamental embasado nos princípios fundamentais dos Direitos Humanos, cabendo às forças da sociedade civil exercerem pressões cidadãs, coibindo os abusos e as distorções. E ainda anexaria, a título de salutar alerta, um texto de Nelson Rodrigues, datado de março de 1969: “Estamos todos comprometidos. A imprensa, o rádio e a televisão, porque dão cobertura promocional às bestiais execuções. Nós é que cruzamos os braços. Os membros do Esquadrão da Morte são retocados, idealizados. Criou-se o mito selvagem e irresistível. Nem se pense que a matança seja impopular”.
A leitura de Minhas Memórias é concluída com um posfácio de Dom Paulo Evaristo Arns, uma das personalidades mais atuantes do clero brasileiro, sacerdote que honrou sua caminhada episcopal. Um desassombrado, que assim testemunhou sobre o dr. Hélio: “neste livro impressiona a sua declaração ‘a minha Igreja, a dos excluídos’ ... Para mim sempre chamou a atenção o seu total devotamento, sem se importar com os riscos, à causa de Deus entre os homens”.
A leitura do livro emociona os que possuem vergonha na cara e sonham com amanhãs brasileiros sem mensalões, sanguessugas, gaiatices midiáticas e protecionismos familiares. A sinceridade demonstrada pelo dr. Hélio Bicudo energiza: “Temo não exagerar quando afirmo que a administração Lula é um fracasso. ... Quando vejo a política social em prática, lembro-me dos coronéis que distribuíam botinas para os eleitores. ... Descobri que sonhar ficou impossível dentro do PT”.
Sua análise não defende os que não merecem: “Após a eleição do Lula, o PT foi se transformando em correia de transmissão da vontade do Executivo, o que denota seu esvaziamento como partido de natureza popular e socialista”. Uma verdade bem dita por quem não se utiliza de bajulações imbecilóides para agradar os que estão temporariamente no poder. Um posicionamento de quem, aos 84 anos, não se curva aos messias planaltinos, continuando a sonhar com uma Nação soberana e socialista, onde todos possam manifestar-se sem temor de espécie alguma. E vai além: “O que ocorreu no PT – com a expulsão, entre outros quadros, da senadora Heloísa Helena – é um mau exemplo. Que as punições do PT sirvam – à luz de princípios internacionais aceitos pelo Brasil – para uma reflexão sobre a importância da liberdade de pensamento e expressão no trato da coisa pública”.
Uma das pessoa mais propositivas que conheci, quando na Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, pastoral Hélder Câmara, foi o dr. Bicudo. Minhas Memórias impulsiona para novos amanhãs de luta, sem renegar a bravura daquele que dignificou o Ministério Público Brasileiro.

Quem planta, colhe

Chamado de Fleming, era um pobre fazendeiro escocês, de recursos financeiros espremidos, a feira semanal resultando num esforço danado para ajuntar uns trocados. Um dia, quando trabalhava para ganhar a vida e o sustento dos seus, o estropiado escocês escutou um desesperado pedido de socorro, vindo de um pântano situado nas proximidades dos seus hectares.
Largando de pronto suas ferramentas de lavorar, Fleming correu até o local do pedido de SOS. Lá chegando, testemunhou um menino atolado até a cintura, envolvido por uma lama negra movediça, atemorizado, tentando se safar da morte que o rondava. Por meio de uma corda, Fleming livrou o garoto de um terrível final vida.
No dia seguinte, uma carruagem de luxo, puxada por seis portentosos cavalos árabes, chega à precária habitação do fazendeiro. Aberta a porta pelo cocheiro, eis que fidalgo elegantemente vestido desce, se apresentando como o pai do garoto resgatado.
- Eu quero recompensá-lo pela sua bravura solidária, disse o nobre. Você salvou a vida do meu filho mais velho, o herdeiro maior dos meus bens.
- Não, eu não posso aceitar qualquer pagamento pelo que fiz, respondeu o mais que nobilíssimo fazendeiro, recusando a oferta.
Naquele momento, um dos filhos mais novos do fazendeiro chegou à porta do casebre, chamando a atenção do nobre visitante.
- É seu filho? perguntou o fidalgo.
O "sim" do fazendeiro foi pronunciado alto e bom som, orgulhosamente, com a certeza de ter sido contemplado com a mega-sena do Criador.
- Permita-me, então, meu amigo, que eu lhe faça uma proposta concreta. Deixe-me levar seu garoto para lhe oferecer uma educação de boa qualidade. Se o jovem possuir o seu caráter, ele se tornará um profissional de muito bom conceito, tornando-se um homem admirado, do qual você terá muito orgulho.
Consentimento dado, tempos depois eis que o filho do fazendeiro Fleming laureou-se no St. Mary's Hospital Medical School de Londres, tornando-se mais tarde conhecido no mundo como Sir Alexander Fleming, o descobridor da penicilina, a salvação de milhões de pessoas.
Anos depois, eis que outro filho do nobre adoece gravemente, vitimado por uma braba pneumonia. O quadro clínico, bastante sombrio, prenunciava um desagradável desenlace. Felizmente, para alegria imorredoura do ricaço, uma terapia à base de penicilina livrou o jovem da moléstia. A penicilina descoberta pelo cientista Alexander Fleming, o filho do fazendeiro escocês pobre.
O nome do nobre? Sir Randolph Churchill. O nome do filho dele? Sir Winston Churchill, um dos maiores fenômenos políticos de todos os tempos.
Alguém disse, certa feita, que a gente colhe o que a gente planta. Quem planta mesquinheza, colhe mesquinheza. E os que semeiam grandeza, colhem generosidades múltiplas.
Tenho uma forte admiração pelos que sabem como sobrepujar os narcisismos selvagens dos incapazes. E os que possuem criatividade mínima, posto que portadores de uma ímpar invulgaridade. E que desconhecem que é a jornada, jamais a chegada, que importa, devendo-se nela embarcar todos aqueles que, sabendo fazer a hora, nunca esperam acontecer. O propósito da vida é sobreviver para conquistar, evitar tensões desnecessárias, saber perder para ganhar posteriormente, sacudindo a poeira e dando a volta por cima, para desesperança daqueles que, de alma pequena, jamais chegarão à Pasárgada do pernambucaníssimo Manuel Bandeira.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Megabobajadas

Nada irrita mais meio mundo que conversa de abestado, aquele que se encontra integralmente desligado de tudo e de todos, como se o tempo tivesse estacionado, aguardando a integração dos que historicamente ficaram nos anteontens. Vez por outra deparo-me com um, de carro zerinho, relógio gota serena e celular dos mais tampas, olhar de desdém para com o resto da humanidade e frases pré-fabricadas, tiradas geralmente de um senso comum defasado que não bota ninguém pra frente.
Dias atrás, numa capital nordestina, praieira por excelência e bem dotada turisticamente, “enfrentei” duas horas de convivência com um “homus bobus” sulista, travestido de entendido em fatos e feitos da conjuntura contemporânea, “especializado” em coisa nenhuma e despreocupado com as regras gramaticais e as estruturas lógico-formais da epistemologia para principiantes.
Racista, embora nitidamente não-branco, confessava sua irritação com todos aqueles que defendiam os menos favorecidos, estes considerados farinha de mesmo saco. Explicitamente eqüino nas Ciências Humanas, acreditava que a pena de morte seria a melhor das soluções para os atuais índices de criminalidade, não admitindo tampouco a ação do Estado na proteção e fomento dos despossuídos. E ainda considerava que o objetivo último do bem viver estava intrinsecamente vinculado a três fatores: mulher, dinheiro e poder, o lazer sendo melhor usufruído por quem bem conciliasse o “trinômio” acima.
Indagado sobre as leituras feitas nos últimos três anos, esboçou um sorriso debochoso, quase me deixando convencido da existência de um pedaço da humanidade que não teria seguido à risca os parâmetros evolucionais do Darwin. E perguntou, de supetão, se valia a pena ler, quando outros meios de comunicação estavam à disposição de qualquer um.
Devidamente adentrado nos anos trinta, corpo bronzeado e olhos bem negros, confessou malhar duas horas por dia, caminhar oito quilômetros e cumprir sesta de duas horas todas as tardes, religiosamente, embora não acreditasse em nada relacionado com o além-vida, ainda que, no pulso esquerdo, exibisse duas fitinhas amarelas que pareciam bem amarradas, embora quase apodrecidas.
Ao lhe dizer o que eu fazia, ensino e pesquisa, espantou-se sem relinchar: “Como você agüenta ser isso?” E olhou-me como se eu fosse uma espécie raríssima, certamente um “homo-imbecilis”, desses que perdem muito tempo com um monte de besteiras: vocação docente, cultura, trabalhabilidade, democracia, dignidade, desenvolvimento de todos, direitos humanos e cenários futuros.
No abraço final, respeitosamente me aconselhou: “Tás ainda ágil, amigo. Sai dessa e entra numa boa, numa que dê muito ibope, tutu e mulher, que é o que hoje vale. O resto é cascata pura, cada um devendo procurar o melhor para si, sem se preocupar em dar colher de chá pros outros”. Almocei logo depois com um amigo de infância ainda sentindo a sensação de ter encontrado uma espécie não-rara do atual cenário brasileiro. Que será amplíssima maioria, caso as autoridades responsáveis pelos nossos destinos, juntamente como os demais segmentos comunitários, não binoculizarem estratégias compatíveis com as metas de um desenvolvimento econômico-social que privilegie um saber-fazer lastreado numa responsabilidade jamais individualista, conservadas as peculiaridades individuais de cada um.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Um Nordestino do Mundo

Um não-acomodado cutucador de consciências, eis uma definição completa para Dom Hélder Câmara, que soube ser pastor-irmão na Arquidiocese de Olinda e Recife, nunca se distanciando da definição proclamada pelo papa João Paulo II, na Ilha Joana Bezerra, no Recife: irmão dos pobres.
Radicalmente ecumênico, participou do Concílio Vaticano II oferecendo notáveis exemplos de dedicação desassombrada, hoje refletidos nas cartas enviadas de Roma, recentemente tornadas públicas, em edição primorosa o seu volume primeiro. No Concílio, o Dom sonhou com uma Comunhão Cristã onde as denominações se veriam como parcelas, percebendo-se sempre em reforma, a binoculizar futuros, atraindo jovens talentos para o enfrentamento dos individualismos pernósticos, dos autoritarismos disfarçados, dos assistencialismos populistas e dos afoitismos desnecessários porque ainda não de todo convincentes.
O ponto mais consistente do viver de Dom Hélder consistia na sua intensa solidariedade para com os desassistidos do mundo. E o testemunho da Irmã Agostinha, uma das suas admiradoras, é suficiente: “Como poucas pessoas no mundo, Dom Hélder acreditava na força dos pequenos. Na força da união dos pequenos, que há de transformar o mundo, transformando a esperança redentora em realidade de justiça
Suas meditações escritas retratam sua preocupação com os amanhãs mundiais: “As árvores que jamais perdem o viço, que são perenemente verdes, olham, com uma ponta de inveja, as árvores que se desnudam de folhas e lembram esqueletos ... Quando a primavera irrompe, só quem foi despojado vibra com o milagre da ressurreição.”... “Das barreiras a romper a que mais custa e a que mais importa é, sem dúvida, a da mediocridade.” ... “Quando sentires o primeiro sinal inconfundível de morte próxima, não te fies em ti ... Agarra-te com a Graça. Aviva a crença na vida eterna. Não peças um segundo a mais. Fecha os olhos e pula no abismo de misericórdia da compreensão divina.”
Suas múltiplas utopias evangelizadoras, todas elas vivenciadas sob as pegadas do Homão de Nazaré, continuam sendo incorporadas ao ideário existencial de milhões, inclusive não-cristãos. Como helderistas, nunca helderetes, os pobres saberão divulgar efetivamente as suas mensagens, para uma inserção consciente de todos nos planos de Deus. Para erradicar, através da radicalidade dos consequentes, os sinais visíveis de um novo barbarismo, produto primeiro das estupidificantes ampliações econômico-sociais e financeiras entre os que têm e os que nada possuem.
Os conscientes do mundo saberão transmitir aos mais jovens, os versinhos imorredouros do muito amado Dom Hélder Câmara, o Peregrino da Utopia:
"Que importa que ao chegar eu nem pareça pássaro.
Que importa que ao chegar eu venha me arrebentando,
Caindo aos pedaços,
Sem aprumo e sem beleza.
Fundamental é cumprir a missão
E cumpri-la até o fim
".

Para bom entendedor

Numa cidade interiorana de pequeno porte, um circo de dimensões acanhadas debatia-se com uma receita cada vez mais diminuta. O mote para vender os duzentos e poucos ingressos de cada sessão tinha se exilado de muito, desacreditando a companhia e tornando difícil de pagar a conta da pensão de Dona Lu, uma viúva distinta que tinha alugado doze dos seus quinze quartos para o pessoal circense.
As dificuldades pareciam eliminadas, quando se anunciou a estréia de um jovem trapezista de apenas dezesseis anos, corpo e cara de menino, jeitão de quem ainda não tinha qualquer intimidade com o ritmo adão-em-eva. E a faixa estendida entre dois postes da calçada da Matriz era prenúncio da mais pura adrenalina: “Triplo salto mortal!!. Sem rede de proteção!! Desafio de Cabra Macho!!! Não percam!! Pode ser o nosso último espetáculo!!”.
Além disso, para ampliar a ansiedade da pacata comunidade, um megafone fora instalado nos costados de um jegue alugado por dois ingressos, um para o dono do jegue e outro para a “mínima” que andava com ele pra tudo quanto era lugar. Uma gasguita ainda sem os apetrechos, metida a locutora de comercial, que berrava os dizeres contidos na faixa, vez em quando tomando água num caneco “artesanalizado” a partir de uma lata de azeite.
O Rafael Gonzales, nome artístico do Nando da Silva, carregava poucos anos de ensinamentos transmitidos por um velho acrobata, bom de trapézio até alguns anos passados, quando um tiro de marido pouco amado deixara-o sem a musculatura rígida de uma das coxas. Paciente, soubera transmitir os segredos do salto triplo mortal ao Rafa, ele que se especializara como ninguém em pular de galho em galho, incontável a sua galeria de bem “contemplados”.
No sábado anunciado pela faixa da Matriz e pela gasguita do jumento, os ingressos logo se esgotaram, os últimos sendo adquiridos num puxa-encolhe dos diabos, valendo até amolegada para tirar senhoras mais pudicas da fila de compra.
Apresentado pelo Daniel, mestre-de-cerimônia também sócio-fundador da companhia, o Rafael caminhou até a escada de corda sob o rufar de um tambor meio avariado. Antes de principiar a subir, ouviu a voz sussurrante do seu instrutor:
- Está com algum tipo de medo? Algo até hoje eu ainda não lhe tinha dito. Lá em cima, em qualquer circunstância, aja com o coração, pois ter coragem é saber agir com o coração. Lembre-se sempre que, ao saltar, lançando seu coração sobre a barra do trapézio, você estará se lançando sobre aquilo em que acredita. O mundo pertence a quem põe o coração em tudo que é feito, seja qual for o tamanho do efetivado.
O circo demorou-se na cidade por um bom tempo, com seus duzentos e poucos lugares integralmente vendidos nos finais de semana. O arrecadado deu até para adquirir uma outra carrocinha de fazer cachorro-quente e um novo conjunto de cordas para o trapézio do Rafael, agora tornado estrela maior, muito embora continuasse simples como sempre foi.
Dona Lu, contente que só, ia aplaudir, todo final de semana, as evoluções do rapazote, sempre acreditando piamente numa frase de Voltaire, lida num pé de página de uma revista de palavras cruzadas: “O trabalho afasta de nós três grande males: o tédio, o vício e a necessidade”. Trabalhar o futuro com as ferramentas do presente e com o coração, eis a receita. O resto é ficar chorando sobre o leite derramado.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Reflexões de Aprendiz

Para os que estão entrando de férias, é recomendável uns instantes de meditação, para retificar comportamentos e contemplar novos horizontes. Sempre atentando para o revelado pelo salmista - Por que temer, nos dias infelizes, a malícia dos espertalhões que me cercam, e os que contam com sua fortuna e se vangloriam da sua riqueza? (Salmo 49). No redimensionar dos seus níveis de cidadania, evitando sutis envenenamentos consumistas, inoportunas desatualizações culturais e desastrosos esmorecimentos espirituais, que comprometem as três pilastras do viver: a dignidade, a integridade e a auto-realização.
Oportuno também, num minutinho entre papos e passeios, uma releitura sobre o que disse Albert Schweitzer, ao receber o Prêmio Mundial da Paz, em Oslo, 1952: “O homem tornou-se um super-homem...Mas super-homem com poderes sobre-humanos que não atingiu o nível de razão super-humana.... Impõe-se sacudir nossa consciência ao fato de que nos tornamos tanto mais desumanos quanto mais nos convertemos em super-homens”. Palavras complementadas pela constatação feita por Erich Fromm: “Somos uma sociedade de pessoas notoriamente infelizes: solitários, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes — pessoas que ficam alegres quando matamos o tempo que tão duramente tentamos poupar”. Dois pensares que poderão auxiliar muitos na descoberta de um novo Eu, mais humanizado, mais ecológico, mais entrosado com os novos cenários empreendedores mercadologicamente dinâmicos, mais familial comunitariamente, a aldeia global sendo seu domicílio século XXI.
Muitos, após seus períodos praeiros, perceberão que “atividade é uma conduta intencional socialmente reconhecida, que resulta em mudanças correspondentes, socialmente úteis”. E que ter maior poder cerebral será, sem dúvida alguma, o próximo desafio dos anos dois mil, uma nova fronteira, com diferenciadas formas de convivialidade. Sempre usando o tempo como ferramenta, jamais como um divã, como costumava alertar o inesquecível presidente Kennedy.
Recomendaria, com a devida vênia, para os que ainda estão de papo pro ar, identificar seu melhor mentor: leituras, papos, chats na Internet, meditação transcendental, ioga, trabalho comunitário, entre outros. Com o cuidado para não se deixar escravizar por correntes, visões, tarôs e tarados. Percebendo que o futuro chega rapidamente. E que todo futuro vira hoje, para logo tornar-se passado, numa velocidade alucinante.
Após as férias, atenção para não cuidar das coisas certas nas horas erradas, o vice-verso também sendo desagradável. Não esquecendo que a raça humana não se locomove em bandos, nem jamais duvidando que a competência é bem mais rentável que mero diploma.
Permanecer sempre no centro do seu ser, ainda é a melhor maneira de se aprender um pouquinho mais. E de apreender derredores, fatos e cenários. Vacinando-se contra a confiança em demasia, a especialização individual excessiva, a rotinização do convívio e a cegueira estrutural. E sonhar sempre. Sempre com os pés bem plantados e o coração apaixonado, posto que a lição de T.S.Eliot continua contemporârea: “Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar”.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Suca, dez anos

Querida afilhada:
Apesar de todos os meus pesares, e os de um mundo cada vez mais interdependente, vale a pena continuar vivendo, porque você busca eticamente existir muito além dos seus aparentes seis anos de agora, para alegria dos seus parentes e amigos. Sua tenacidade em persistir pelejando com dignidade por um lugar ao sol, envaidece todos os seus amigos, mormente aqueles que lhe estão mais próximos, beneficiários primeiros da sua contagiante alegria, descontroladamente fértil em algumas oportunidades. Seu propósito de bem conduzir o seu caminhar bio-profissiográfico proporciona aos seus admiradores, inclusos os mirins que nem eu, a convicção de vê-la otimamente inserida nos propósitos da Criação.
Recordo-me com nitidez dos primeiros instantes do nosso relacionamento, acontecido numa comemoração à beira-mar, chope à vontade, ano passado, você toda de negro, menos o caráter e o humor contagiante. Uma luz diferentes iluminava todo o ambiente de confraternização.
Reservei para este seu aniversário, querida Suca, algumas reflexões por mim trabalhadas nos últimos tempos, advindas de contatos mil, acontecidos muito depois do escuro. E decodifico-as, abaixo, em respeito à sua faixa etária, biológica tão somente, com certeza. Elas poderão servir de balizadoras futuras, mesmo num contexto que se metamorfoseia com espantosa velocidade, proporcionando diferenciadas assimilações a cada inflexão.
1. Respeite-se sempre. A sua melhor amiga é a sua criticidade, consciência revestida de muita cidadania e criatividade intelectualmente nunca esmaecidas.
2. Imagine-se permanentemente sobrepairando sobre as mediocridades do cotidiano, até mesmo deste seu padrinho, ciumento vez por outra, quando se imagina preterido por qualquer bobajada sua.
3. Desenvolva sua espiritualidade, nunca imaginando-se superior a ELE, percebendo-se uma inconclusa vocacionada para o TODO, d’ELE sendo também parcela, desde sempre.
4. Experimente tudo e fique com o que é melhor, mesmo que sem lenço nem documento, sobrenome, idade e estado civil pouco importando.
5. Ame com intensidade todas as coisas, separando o joio do trigo, desprezando o julgamento dos medíocres, encapuzados e encapsulados, manifestando sua afetividade, sem imaginar-se vigiada, tampouco oprimida.
6. Veja-se sempre bonita, ainda que diante das intempéries naturais da Vida, nunca se olvidando que pouco adianta ter corpo de cadillac se a alma é de jipe.
7. Reserve momentos para seu lazer, o trabalho merecendo toda atenção em horários específicos e bem dosados.
8. Nunca enfrente seus momentos “down” sozinha, mesmo sentindo-se, momentaneamente, a última das criaturas.
9. Diferencie, sem pestanejar, tecnologia de tecnocracia, moderno de modernoso, serenidade de passividade, objetividade de descortesia, amor de casamento.
10. Viva prá servir, posto que tem muita gente necessitando da sua inteligência e da sua inventividade.
Cá do meu canto, Suca, continuarei ao seu lado, como nunca, torcendo pelas suas vitórias, pelos seus novos empreendimentos, pelos seus novos níveis afetivos conquistados. Tenho conversado muito, telepaticamente, com a sua mãe. E ela tem demonstrado um orgulho danado de você, não lhe poupando aplausos em momento algum. Para alegria de todos nós, seus companheiros de estrada.
Até seus onze anos, Suca. Do seu padrinho, com afeto arretadamente nordestino.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Curtas e Ladinas

Costumo colecionar historietas, contadas, vivenciadas, lidas e anotadas, utilizadas para reflexões em sala de aula, palestras e treinamentos Brasil afora. São por demais conhecidas dos profissionais de desenvolvimento gerencial, muito embora ainda pouco exploradas pelos das outras áreas, que também lidam com pessoas e fatos a elas relacionados, num dia-a-dia intrinsecamente conflituoso, permanentemente em acelerada mutabilidade. Num primeiro de abril, antigamente famoso, transcrevo algumas, a propósito de acontecimentos recentes, estaduais todos, a carapuça cabendo a quem de direito, na classificação de cada leitor.
1. A mãe do Diomedes, desesperada, às seis da manhã:
- Filhinho, levante-se, já está na hora de se preparar para ir à escola.
- Mãe, eu não vou mais prá escola de jeito nenhum. Os dois mil alunos me odeiam, os funcionários também, até o porteiro não vai com a minha cara!!
- Levante-se já e vá para a escola!, a mãe reagiu, ríspida.
- Mãe querida, não compreendo você. Por que você deseja tanto me colocar naquela tortura, naquele sofrimento?.
- Por duas boas razões, queridinho. Primeiro, porque você já tem quarenta e cinco anos e, segundo, porque você é o diretor da escola!!
2. Madame já muito coroa, recondicionada, bisbilhotando o Einstein:
- Querido Albert, em palavras que possa entender, o que é relatividade?
- Caríssima senhora, quando um homem está ao lado de uma mulher bonita, uma hora parece um minuto. Mas se está sentado numa boca de fogão acessa, um minuto vai parecer muito mais que uma hora.
3. Dona de casa para rapazote chegado de reunião geral:
- Quem fez o último discurso, filho?
- O governador, mãe.
- Sobre o que ele falou?
- Ele não disse, mãe.
4. Conversa entre uma galinha e um porco, na entrada de um chiqueiro:
- Sou totalmente devotada, pois dou meus ovos todas as manhãs.
- Isto não é devoção, é participação. Dar o presunto, isto sim, é que é devoção total!!
5. Um músico jovem e muito pentelho, escutou de Pablo Casals, o grande violoncelista, o porquê, aos 85 anos de idade, dele continuar praticando cinco horas diárias:
- Porque acho que estou melhorando!
6. Uma quase mulher, de fino trato, a um pianista famoso, depois de um recital consagrador:
- Eu daria a metade da minha vida para aprender a tocar como o senhor!
- Caríssima jovem, foi exatamente isto o que eu fiz!
7. Presidente de um grupo empresarial, questionado por estagiário:
- A que o senhor atribui seu sucesso?
- Às minhas boas decisões.
- E a que atribui suas boas decisões?
- À sabedoria...
- E de onde vem essa sabedoria, senhor?
- Conquistei-a com as minhas experiências
- E como obteve tais experiências?
- Com as minhas más decisões, meu jovem.
8. Mulher muito gorda, chata e presunçosa, em reunião de corretores de Bolsa de Valores, aqui bem perto:
- Por favor, atenção!! O que devo fazer para ser ouvida por todos ao mesmo tempo?
Resposta de bate-pronto, vinda de um canto de sala libertino:
- Soma os números do catálogo telefônico e disca para o resultado!!
O mais, é seguir as recomendações de John Rhoades, um analista organizacional de nomeada: “Mais do que existir, viva; mais do que tocar, sinta; mais do que olhar, observe; mais do que escutar, ouça; mais do que ouvir, compreenda”.

Fábula Contemporânea

Um formiguinho, franzino acima da média, afogava-se num lago de pouca profundidade, muito embora para ele mais que abismal, quando vislumbra um baita paquiderme passeando bem perto da margem direita.
- Elefante, socorra-me!! Estou me afogando!!!!
- Formiguinho querido, eu não estou conseguindo lhe alcançar! O que devo fazer??
Num raciocínio mais que rápido, sem qualquer preconceito sexual, o formiguinho estruturou seu processo salvatório:
- O lago não é profundo. Entre nele e quando chegar perto de mim, bem em cima de mim, estique seu pinto, imaginando-se nos braços de uma elefoa bem boa, que eu me segurarei nele.
- Não vais ficar encabulado, formiguinho?
- De jeito algum, seu babaca!! Ande logo, senão eu me lasco todo.
O elefante seguiu rigorosamente as orientações do formiguinho. E foi um sucesso o salvamento daquele animalzinho tão trabalhador. Com direito até a foto em primeira página do pasquim A Selva, editado pela Bicho’s University, famosa mundialmente pelos seus dinossauros catedráticos.
Passado algum tempo, eis que o formiguinho sofre mais um bafejo da sorte. Ganha na mega-sena, ficando pra lá de bem situado na sua cidade, abandonando até um antigo sonho, o de fazer concurso para professor de ensino superior. Com a bolada, comprou um baita BMW, óculos escuros, celular e andava com umas meninas que gostariam de naufragar no Titanic nos braços daquele galã capaz de arrepiar orgasmicamente adolescente taradinha, pré freqüentadora do mais alto meretrício.
Todo pimpão, eis que, uma tarde, passando pelo local do seu acidente, o formiguinho deparou-se com uma situação absolutamente inversa. O amigo elefante, já quase sem fôlego, afogava-se numa parte profunda do lago, gritando desesperadamente por socorro:
- Socorro me acudam!! Tou me afundando!!! Help!!!!
O formiguinho, plenamente consciente do tamanho do seu pipiu, mais uma vez aplicou estratégia vitoriosa: da mala do BMW retirou um cabo de aço, atrelou-o ao paralama traseiro, atirando a ponta contrária na direção do pobre paquiderme, que já despendia os últimos esforços.
Mais uma vez nas manchetes dos jornais da selva, o formiguinho foi entrevistado por um ratinho falastrão metido a popular. Microfone em punho, peremptoriamente forneceu a moral do acontecimento recente: Quem tem BMW não necessita de pinto grande.
Me disseram que aquele formiguinho tá transando com cada égua....

domingo, 26 de novembro de 2006

Troco para Inveja

O caríssimo Orismar Rodrigues, em sua coluna sempre muito lida, noticiou outro dia um qüiproquó dos infernos acontecido num salão de beleza da cidade, envolvendo duas personalidades recifenses de signos diferentes. Eu mesmo tomei conhecimento, através do João Silvino da Conceição, também cliente do salão, que o arranca-rabo foi tão danado que os uis e os ais dos porfiadores eram ouvidos dois prédios depois, assustando muita gente e outros animais.
O próprio João Silvino, depois de me contar outros pormenores do entrevero, aproveitou a oportunidade para narrar o papo ocorrido entre um cabelereiro primeiro-mundo e um socialite emergente, de cabelo bem espichado e com Mido, seu cliente de alguns anos, que não parava de tagarelar acerca de uma viagem que faria, dia seguinte, para a Itália e arredores.
- Roginho, tô muito excitadão, cara!! Tou indo pra Itália amanhã! Itália, cara, já imaginou a glória?
- Itália? - pergunta o cabelereiro. E rematando:
- Com tanto lugar bom pra se ir, tu vais logo pra Itália?
- É, vou, Roginho. E vou voar pela Alitalia, não é o máximo?
- Putzgrila, tu vais por aquela companhia horrorosa? A pior companhia de aviação do mundo!! O último lugar em qualidade de serviços prestados, ano passado. Mas, falando em Itália, vais pra que cidade?
- Vou conhecer Roma, a Cidade Eterna!!
- Que desperdício, amiguinho! Cidadezinha feia tá ali! Tem cada prédio incompleto, alguns até em ruínas. Eu, hein!?
- Mas eu vou, Roginho. E vou me hospedar no Hotel Hilton, sabes qual é?
- Cruz, credo, Celinho!!. Logo no Hilton? Aquilo é considerado o maior pardieiro da Europa! Antes dele, só os esgotos de Veneza, que ninguém mais suporta!!
- Mas eu quero ver o Papa, Roginho.
- Ver o Papa, é? Programinha de índio, não achas? Milhares de pessoas se acotovelando só pra ver aquele coroa de branco falar umas coisas que a gente não entende, depois fazendo umas cruzes com o braço direito. Eu, hein!!??
O Celinho saiu do salão tiririca da vida, botando fumaça por todos os furos do corpo. E prometeu revanche, tão logo retornasse de sua excursão financiada em vinte meses.
Viajou, curtiu a viagem, que foi ótima. Roma é fantástica, repleta de monumentos arquitetônicos deslumbrantes. O hotel é de primeiríssimo mundo, com um serviço de quarto digno dos aposentos sultânicos. E a bênção papal emociona todos aqueles fiéis que ansiosamente aguardavam João Paulo II, o papa peregrino.
Logo ao retornar aos seus pagos maurícios, Celinho, serelepe que só, mala atulhada de bugigangas, inclusive um xampu para Roginho, fez questão de ir entregar pessoalmente a lembrancinha.
- E aí, gato, como se foi de viagem?, perguntou o cabeleireiro, com um ar de quase imperceptível inveja.
- Roginho, tu não sabes o que me aconteceu! Estava na praça de São Pedro, tentando ver o Papa, manhã bem cedinho. Logo ele apareceu na sacada, olhou para o setor da multidão onde eu me encontrava e novamente retornou ao interior do palácio. Minutos após, saiu pela porta principal, vindo rápido em minha direção. Abraçou-me com toda fraternidade, sussurrando algo em meu ouvido direito, para espanto de seus guardas de segurança.
- Putz, cara, que barato!!! E o que foi que o Papa te disse?
- Quando Sua Santidade chegou bem pertinho de mim, ele disse “Filho, que cabelinho mais mal cortado, hein!!?”

sábado, 25 de novembro de 2006

SOS Pinto

Pelo noticiário internético de hoje, o mundo inteiro tomou conhecimento: um monge budista tailandês, 35 anos, decepou seu pênis com uma machadinha depois que teve uma ereção durante sua meditação. O homem se recusou a ter o membro implantado, alegando que estava renunciando aos prazeres da carne.
Apavorado, um amigo de longa data, o Pierre, me chega de sopetão na minha salinha de estudos, na Universidade. As pernas bem fechadas, tronco semi-curvado a la frei Damião, olhos arregalados, foi logo cobrando: “Quando é que vão instituir o SOS Pinto, uma Ong para salvaguardar os interesses dos que ficam, na maior parte da vida útil , de cabeça baixa?. Não se pode ser omisso, ficando de pernas cruzadas, diante das giletadas, mordidas, foiçadas, águas ferventes, torcidas propositais e unhadas mórbidas que estão no noticiário jornalístico diário”.
Surpreendido com o medo estampado nas duas cabeças do visitante, solicitei um chá bem frio para ele (quente ele poderia tomar como uma intenção mórbida!) e busquei puxar um assunto menos cacete. Pedi esclarecimentos, assegurando-lhe que estava pronto para o que desse e viesse, pau pra toda obra.
O que eu ouvi merece a criação, em regime de urgência, de uma Ong específica, especializada no combate aos que atentam para a integridade física de um dos responsáveis, sejamos diretos e duros, pela perpetuação da espécie humana, que paulatinamente vem se assenhoreando da História Cósmica. Os relatos, sob hipótese alguma, não deixam água na boca. Não respeitam qualquer tamanho, vitimando encapuzados e carecas. Maculando até os derredores, simples containers de material liquefeito.
E o amigo de longa data ainda revelava um outro inconveniente: todos os dirigíveis não tinham caixa preta, impossibilitando qualquer anotação acerca do acontecido durante os preliminares procedimentos de subida.
Imaginei algumas iniciativas atenuadoras: 1. proibição, nos locais adequados e específicos, de portar qualquer instrumento cortante, estrangulante ou perfurante, inclusive dentaduras e pontes; 2. instalação, nas portas de entrada dos ambientes lovelescos, daqueles detectores de metais utilizados nos aeroportos e bancos, recolhendo-se canivetes suiços, beliros, tesourinhas, alicates de unhas, correntes de todos os tamanhos, fios dentais, alfinetes, canetas de pena, cadarços de sapatos e fivelas de todas as marcas; 3. posicionar, ao lado de cada uma dessas portas, funcionária devidamente capacitada, que ajustaria os tamanhos das unhas dos visitantes, deixando-as em grandeza inofensiva.
Na área judicial, acredito que as mais diversas varas também ficarão sensibilizadas com a problemática, devendo erguer-se duramente na defesa das vítimas de dentadas erradicadoras, decepações, decepações com esmagamentos, estrangulamentos e beliscões dolosos, culposos e chuposos.
Os seguros-saúde com certeza reformatarão suas apólices, autorizando remendos, restaurações e transplantes de pintos novos e velhos, cada solicitação avaliada por uma junta cujos membros entendam do riscado, sabendo rapidamente decidir sem frigir os ovos.
Que o SOS Pinto se agigante, para, de cabeça erguida, seguir adiante nas suas missões desbravadoras, cuspindo sempre apesar dos perigos. Pois adentrar é preciso, embora viver não o seja tanto.
Quanto ao que aconteceu com o jovem monge budista, para os que crêem todo cuidado é pouco com o tipo de meditação utilizada ...

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Regras para Dirigentes

Tenho uma admiração gota serena pelo Peter Drucker, um oitentão muito atualizado. Sem diploma superior de Curso de Administração, sendo conseqüentemente olhado de esguelha pelos “carimbológicos cartoriais”, Drucker sempre soube antecipar-se à chegada de novos tempos. Essencialmente um não-especialista, Drucker não se preocupa com o exercício da administração, mas com a filosofia da administração, na construção de cenários futuros.
Homem de leituras amplas, Drucker é mestre em perguntas simples e devastadoras, daquelas que deixam os “ispecialistas”, aqueles que se imaginam notáveis, só com a cara e a coragem de continuar enxergando o “quase nada”. Uma das suas: Por que todo homem absorto nas rotinas cotidianas do seu serviço possúi uma mente confusa e obstruída por preconceitos e cavilações mentais?
No livro Administrando em Tempos de Grandes Mudanças, editado pela Pioneira, seis regras de gerência para presidentes de República foram por Drucker enumeradas, ressaltando ele que até presidentes fraquinhos foram considerados eficazes por tê-las seguidos à risca, sem mas nem meio mas, enquanto outros, metidos a porta-bandeiras do saberete universal, alguns até sociólogos, perderam eficácia por violarem as “regrinhas”. Para facilitar a vida de muito primeiro-mandatário, federal, estadual, municipal, secretarial inclusive, transcrevo, abaixo, as seis regras gerenciais druckerianas, torcendo para que elas sejam entendidas e devidamente aplicadas pelos que, ainda embananados, necessitam melhorar seus níveis gerenciais de tratamento com a coisa pública. Ei-las: 1. O que precisa ser feito? 2. Concentre-se, não se divida. 3. Nunca aposte numa coisa certa. 4. Não perca tempo administrando detalhes. 5. Não tenha amigos na administração. 6. Eleito, pare de fazer campanha.
São regras que não podem ser “apreendidas” isoladamente, sendo “ingeridas” conjuntamente, para que a eficácia surta efeito em prazo curtíssimo, mudando modos de pensar e agir, independentemente do nível etário do mandatário, posto que a sociedade de trinta anos para cá mudou e muito. E mudou de forma irreversível, deixando uma lição memorável: as ações do presente são a única maneira de fazer o futuro, deixando para trás estagnações operacionais e disputas mesquinhas. Populismos, assistencialismos demagógicos e compadrices não mais se permitem num elenco de ações criativas, competitivas e socialmente alanvancadoras.
É Drucker quem, arretadamente contemporâneo, adverte: “dá-se uma atenção demasiada à tecnologia; pior ainda, à velocidade do dispositivo, nos fazendo perder de vista a natureza fundamental da informação na organização de hoje”. E mais, para petelecar os “divinos”: “Na sociedade do conhecimento, cada vez mais conhecimentos, especialmente avançados, serão adquiridos muito depois da idade escolar e, cada vez mais, através de processos educacionais não centralizados na escola tradicional”...”Muitas instituições ainda acreditam que a maneira de obter dinheiro é proclamar necessidades”.
E quando outro dia, li não sei aonde, um dirigente universitário afirmar que “a universidade é agente de mudanças”, quase me afolozo mentalmente, muito embora o meu “bráulio” tenha ficado com uma baita dor de cabeça...

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Os Supimpas do Reino

Sinto-me anormalmente apequenado, em inúmeras oportunidades, diante de personalidades tidas e havidas como eternamente instaladas por cima da carne seca e que se imaginam notabilíssimas diante de qualquer platéia. Elas conhecem tudo e todos, emitem opiniões alguns decibéis acima dos níveis sociais saudáveis e não deixam escapar oportunidade de dar uma telefonada pelo seu portátil, mesmo que para não dizer coisa alguma. Sedentas de fama, conforto, propriedade e poder, anseiam por um alô de qualquer alguém que amplie a relação dos que lhe são “gente da minha maior intimidade”.
Muito se tem escrito, nos últimos anos, a respeito do “fenômeno da impostura”, descrevendo a neurose de alguns aparentemente bem sucedidos, cujas máscaras, cedo ou tarde, cairão, a incompetência se manifestando. A neurose do aparecer é tanto maior quanto mais consolidada for, no íntimo do mascarado, a sensação plena de ser ele um anão fantasiado de gigante, de voz impostada, roupa bem engomada, a face estampando um emblemático, muito embora ilegítimo, ar de “dono do pedaço”.
Certa ocasião, ouvi de um excelente relações públicas, uma revelação comovedora: “como é triste ganhar a vida desse jeito, fingindo gostar das pessoas e esquecendo-se do que seja amizade verdadeira, descompromissada”. E o que achei de mais desestruturador nele foi o fato dele perceber que a sociedade também sempre finge aceitar tal comportamento.
A Lei de Gerson - levar vantagem em tudo - ainda é a maior lei para inúmeros, a sinceridade não devendo fazer parte do cardápio do “profissional” que deseja rapidamente alcançar sucesso. Sem tempo para nada, obcecado em ganhar, a todo instante, um pouco mais, mesmo que às custas do atropelamento de parentes e amigos.
O hábito da competição a qualquer custo é pernicioso, transforma amigos em inimigos, esmaga sadias convivialidades, menosprezando respeitosos entendimentos, retratando o nível autofágico dos ambientes que elegem o aparente como seus estandartes primeiros.
A pergunta de um profissional calejado, endereçada aos supimpas do reino, pode ser oportuno ponto de partida para uma reengenharia comportamental que semeie neles futuros mais substanciais: “Você se encontra preparado para o dia em que a música parar de tocar e as pessoas começarem a lhe dizer não?“
Todo cuidado é pouco com os supimpas. E aqui vai, para os demais, um bom conselho: “Esperar que um oportunista lhe trate bem só porque você é uma boa pessoa é como esperar que o touro não lhe ataque porque você é vegetariano”.
No mais, sempre seguir adiante, apesar dos sibilantes.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Educação e Cidadania

Diante de um quadro nacional violentado por acontecimentos que amortecem os ânimos de milhões, já agredidos por um Ministro de Defesa que não tem conhecimento de nada, nem do valor-trabalho, vale a pena propagar aos quatro ventos os balizamentos que minimizem os efeitos funestos das iniciativas de alguns politicamente irresponsáveis.
Mesmo depois das eleições do segundo turno, continuamos a ouvir promessas mirabolantes, declarações bombásticas e estapafúrdias, histerismos oposicionista e coisas outras que tais. Tudo para angariar simpatias dos mais descidadanizados, os abiscoitados de sempre, que não percebem a evolução dos tempos e costumes.
Ouviremos novamente falar em inflação zero, em redentores esticamentos do São Francisco para matar a sede de milhões de sofridos irmãos nordestinos e na defesa radical da intocabilidade de setores produtivos públicos, daqueles que privilegiam “diferentes”, os sempre avessos às salutares fiscalizações democráticas da sociedade civil. Emergirão, já “semeando” para as próximas disputas eleitorais, esfuziantes defensores dos fracos e dos oprimidos, inúmeros deles oriundos de entidades que “fingem” lutar pela erradicação da miséria e da injustiça social, com isso assegurando polpudas transferências do Erário Público, a maioria delas advindas de contas ainda não devidamente auditadas.
Veremos, a partir de janeiro próximo, pré-candidatos a prefeito com criancinhas no colo, postulantes à vereança devidamente apetrechados com quentíssimas “palavras de ordem”. E alguns outros pretendentes com esposas e filhos em fotografias de sofá grande, domingueiramente paramentados. Os mais piedosos, rezando e pedindo a Deus pela paz e felicidade ... deles, nas urnas. Outros divulgando listas de entusiásticas adesões e confraternizações com gente humilde, se possível da classe mais desdentada possível. Tudo para bem engabelar no horário eleitoral.
Por outro lado, complementando os cenários prévios de disputas eleitorais, o festival de denúncias será antológico, tudo devidamente ampliado pelos meios de comunicação menos independentes. Não faltarão entrevistas, divulgadas em revista de circulação nacional, de especialistas em práticas amorais, imorais e indecentes, oferecendo serviços para quem der mais, ideários à parte, sem qualquer importância. Um parrapápá esculhambatório,
de fazer inveja aos mais especializados, escandalizará gregos e troianos: fulano deu a todo mundo quando era pequeno, foi expulso do colégio porque foi visto “praticando” com um colega na banca de estudo, sicrano tem mulheres e filhos fora dos registros cartoriais, beltrano bebe que nem um gambá, seu isso se meteu em maracutaias mil, seu aquilo não sabe nem falar direito, seu aquiloutro tem um viés quase-quase, seu futreco já arriou as calças para ordenanças de um quartel, o irmão dele tendo esbofeteado o pai e cuspido na mãe em pleno dia dela.
Para apimentar o caldeirão eleitoral, também pintarão no pedaço dois personagens por demais conhecidos dos mais experientes: o messias e o anselmo. O primeiro, prometendo mundos e fundos. O segundo desejando ver o circo pegar fogo, para nas chamas se esvair a nossa incipiente trilha democrática, edificada por milhares de abnegados. O primeiro, pau-mandado de graúdo, se encarregando de “sujar” tudo que não se encontra sob o taco do seu amo, do lado de lá ninguém prestando. O segundo, sempre aparentando ser o mais revolucionário de todos, o mais gota serena, tem a tarefa primordial de fingir caminhar para a frente, sem jamais transparecer estar a serviço de retrocessos bestiais. Dois manjadíssimos sagüins, filhotes bastardos de gorila, desservindo à cidadania brasileira.
Preguiça, ignorância, demagogia e incompetência, definitivamente, não são armas para quem busca transformações sociais conseqüentes e duradouras. George Orwell costumava dizer que os jovens intelectuais de classe média vão para a esquerda por desemprego, sempre cobrando dos outros aquilo que não podem oferecer. Por aqui, os mais exaltados são alguns fronteiriços, sempre de olho em cargos de remunerações polpudas, que proporcionem mandos, desmandos e nenhuma efetividade gerencial. Valendo apenas o agora eleitoreiro, o resto que se exploda todo.

domingo, 19 de novembro de 2006

Tragédia Educacional

Muito deve amedrontar as massas profissionalmente desqualificadas, bucha de canhão para mistificadores e falsos profetas. "Para quem não sabe ler, um pingo é letra" e "Para o mau oficial nenhuma ferramenta presta", complementam-se magnificamente, retratando uma tragédia educacional, a brasileira, que é conseqüência direta das desatenções de toda sociedade para com um eficaz processo integrado de cidadania, prioridade das prioridades de qualquer planejamento governamental estratégico sério. Para toda sociedade elitista e autofágica, outros provérbios deveriam calar bem fundo, alertas para os que desejam um amanhã menos truculento: "Antes prevenir do que remediar", "Para grandes males, grandes remédios", "O barato sai caro", "Do prato à boca, perde-se a sopa", "Não se deve gastar vela com mau defunto.” Para homens e mulheres que da vida só desejam sombra e água fresca, sempre pendurados nas costas dos que trabalham para sustentar pão, família e ambiência, recomenda-se a leitura, e memorização, das seguintes advertências: "Quem não pode com a mandinga não arrasta patuá", "Quem o alheio veste, a praça o despe", "O pote tanto vai à bica que um dia fica.” E que não venham mais com aquela historinha de que "Quem come a carne que roa os ossos", posto que já existe muita pastilha boa contra azia e má digestão, ninguém mais sendo obrigado a conviver com comida estragada.

Receios Pessoais

Receio pelo momento presente do país. Das desesperanças transformadas em explícitas desobediências civis. Dos falsos moralismos dos puritanos, eternos donos das verdades mais absolutas. Dos eu-não-disse? de uma esquerda incompetente, messiânica, sem proposta nem criatividade, aferrada a dogmas ultrapassados. De uma direita sempre a contemplar o próprio umbigo, impedernida, viciada em retrocessos para se manter na ponta dos cascos, esmagando tudo e todos. Tenho ojeriza dos eternos inquisidores, jamais construtores, que cascavilham para chafurdar, nunca para esclarecer. Dos criquentos mexeriqueiros, que vivem colocando defeitos e deficiências nas empadas dos outros, vendo em tudo mil maracutaias. Dos sem imaginação, que sonham com novas intervenções militares no cenário nacional, para novamente arrostar equinos pendores civis. E das bestas do apocalipse, que anunciam o fim do mundo pelo fogo eterno dos infernos.

sábado, 18 de novembro de 2006

Oração do Silvino

"Pai, passei um monte de tempo Te procurando e não sabia sequer onde Tu estavas. Manhã bem cedinho, ainda mal acordado, olhava para o infinito e não Te vislumbrava, sequer por um milésimo de segundo. De uns tempos para cá, cheguei mesmo a pensar se não era pura imaginação minha a Tua existência e pura fantasia o que diziam de Ti. Agigantando-me a angústia interior, não me contentei apenas com as simples e periódicas buscas. Então, resolvi Te procurar nas religiões e nos templos, frustrando-me uma vez mais, por não Te localizar em lugar algum. Fiz Universidade para melhor investigar, através do uso de metodologias múltiplas, a Tua presença entre sacerdotes e pastores. Em pouco tempo, fortemente me desencantei, pois Tua presença não era visível para os meus olhos. Sentindo-me só, depois de muitas desesperanças, vivenciei um enorme vazio. Assim, descri. Na descrença Te ofendi. Na ofensa tropecei e no tropeço caí, lambuzando-me todo no charco dos fúteis e dos consumistas, daqueles que se imaginam poderosos, superiores e indestrutíveis, muitos furos acima do Bem e do Mal. Na queda, isolando-me na mediocridade dos apoucados, senti-me combalido. Já bastante frágil, procurei socorro e no socorro recebido encontrei verdadeiros amigos. Neles vivenciei reconforto e carinho fraternal. Na receptividade irmã que eles me proporcionaram desinteressadamente, vi nascer o amor. Com amor, eu vi surgir um mundo diferente, de muita luz, recheado de maravilhas, antes jamais vistas por cegueira emocional e racionalidades ingenuamente tidas como científicas. Resolvendo solidarizar-me com este mundo, doando-me sempre que possível, compartilhei com muitos o pouco que já tinha recebido. Logo, senti-me feliz, encontrando a paz. E foi com muita paz que enxerguei a Tua presença dentro do meu interior de ser humano. Hoje, definitivamente e sob a Tua Graça, tenho a certeza absoluta de que Tu nunca me abandonaste."

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Desopilação da Moda

Os tempos internéticos têm proporcionado uma notável ampliação dos conhecimentos técnico-científicos, a multiplicação de talentos cibernáuticos, a mundialização de algumas idiotices e a aparição de umas tantas vaidades dinossáuricas. Mais ou menos idênticas à daquele recém pós-graduado que está inserindo na rede Internet capítulos e mais capítulos de sua tese de doutorado, patrocinada por uma fábrica de bolachinhas bestas, trabalhinho apenas lido pelos componentes da banca examinadora. A intenção do trejeitado é ser reconhecido e, se possível, aclamado como de nível superior, posto que, até agora, dada a instituição cursada, ninguém ainda percebeu seus “méritos”.
Mas a maior alegria na Internet está acontecendo com a emersão de centenas de taglines, pequenas frases que revelam trocadilhos, gozações e desmoralizações com ideários tidos e havidos como tradicionais ou de eterna eficácia.
Classifiquei uma vintena de taglines, para proporcionar uma avaliação nota dez da criatividade brasileira, apesar de todos os pesares e desatenções educacionais possíveis. Ei-la:
a. Não há nada no escuro que você possa ver.
b. Mulher é um conjunto de curvas capaz de levantar um segmento de reta.
c. Parte do automóvel que é vendida no Egito: os faraóis.
d. A ejaculação precoce era conhecida na Antiguidade como mal que mela.
e. Nunca ligou para dinheiro, quando ligou estava ocupado.
f. Rouba dos ricos e dá aos pobres, além de ladrão é gay.
g. Barganhar: receber um botequim de herança.
h. Se barba impusesse respeito, bode não teria chifres.
i. Deus criou o homem antes da mulher para não ouvir palpites.
j. Já que a primeira impressão é a que fica, use uma impressora laser.
k. Abelha morre eletrocutada numa rosa-choque.
l. Estouro: bovino que sofreu operação de mudança de sexo.
m. Menstruação é ruim? Pior é quando ela não vem.
n. A zebra disse pra mosca: você está na minha lista negra.
o. Se bebida curasse alguma coisa, cachaça tinha bula.
p. Tudo na vida é passageiro, menos motorista e cobrador.
q. Loura Gelada é só uma mulher esticada numa mesa do IML.
r. No dia que chover mulher, quero uma goteira em cima da minha cama.
s. Meu gato morreu em miados do ano passado.

Homenageio, transcrevendo as taglines acima, um notável pesquisador, pioneiro na coleta do que havia de mais pitoresco em para-choques de caminhão: Marcos Vinicios Vilaça, hoje personalidade consagrada nacionalmente.
Em publicação editada pela Fundação Joaquim Nabuco, então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, ele revelou ao país inteiro, em 1961, a criatividade e o humor, as ironias e as farpas dos caminhoneiros brasileiros, uma das alavancas da integração nacional norte-sul, leste-oeste. Exemplos notáveis por ele coletados:
a. Não sou pipoca, mas pulo um pouco.
b. Cerveja só gelada, mulher só quente.
c. Mulher e parafuso, comigo é no arrocho.
d. Sem amar não se vive.
e. Mulher feia e urubu, comigo é na pedrada.

As tiradas de ontem e as de agora são sinais evidentes da vivacidade intelectiva de um povo, o brasileiro. Um povo criativo por excelência, pronto para desenvolver o seu território pátrio, se lhe derem vez, voto, chão e enxada.

Arrematadores de Deus

A lembrança de um fato acontecido nos anos noventa me rejuvenesce a cada amanhecer. Seguinte: concluindo uma palestra para jovens no Vasco da Gama, populoso bairro recifense, ouvi uma senhora dizer que rezava, “desde quando tinha dezoito anos”, a mesma oração antes de dormir. Provocada fraternalmente, Dona Lulu, mais de setenta, negra, pobre, viúva e ex-prostituta, declamou a sua oração pré-Segunda Guerra Mundial: “Senhor, clareia minha cabeça, para que eu possa entender os seus sinais”. Uma súplica que até hoje baliza meus papos com o Criador.
Dias atrás, como que para reavivar ainda mais a minha memória, outro fato aconteceu. Um livro me despertou a curiosidade nas mãos do João Silvino da Conceição, um amigão de caminhada, quando o abracei na saída do cinema, pipoca na mão, sorrisão estampado, parecendo até que tinha ganho o bolão da loteria. Editado pela Mundo Cristão, o livrinho chama-se A Oração de Jabez, best-seller segundo o New York Times, mais de um milhão de exemplares vendidos somente nos Estados Unidos.
A oração de Jabez, incrustada numa área pouco lida da Bíblia – 1Crônicas 4, 10 – me proporcionou uma baita complementação oracional, posto que veio integrar-se à oração da velha Lulu. Explico melhor: os pedidos de clarear a cabeça para entender os sinais de nada valerão se não vierem acompanhados de uma vontade determinada de ampliar os fatos e feitos bons do mundo, através de ações e empreendimentos que ratifiquem a parábola dos talentos – Mt 25, 14-30 -, aquela onde o gerentão apreciou quem soube multiplicar o recebido, fazendo eticamente bom uso do entregue para tomar conta sem qualquer desvalorização.
Não tenho simpatia alguma pelos acomodados, seja financeira ou intelectualmente. Os primeiros findando vítimas do ouro acariciado, os demais tornados ruminantes do saber adquirido. Daí, recomendo aos Arrematadores de Deus, a expressão se encontra no livro, cada vez mais “examinar tudo para ficar com o que é bom” (1Tes5, 21), através de leituras que fortaleçam uma cidadania semeadora, aquela que é alicerce de um desenvolvimento profissional capacitado para enfrentar as turbulências dos cenários mundiais. E o desenvolvimento profissional somente se robustece quando se percebe que todo “ato de conhecer dá-se contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos, superando o que, no próprio espírito, é obstáculo á espiritualização”, conforme nos ensina Gaston Bachelard, famoso pensador francês.
No A Oração de Jabez está a definição do que seja um arrematador: “alguém que sempre faz um pouco além daquilo que era esperado ou exigido”. Uma pessoa que se esmera mais que o normal, que reflete de cabeça aberta sobre as novas circunstâncias, que comanda sem raivosidades, que ensina com paciência nunca amedrontada e que sabe envelhecer percebendo-se plenamente desafiado para os diferenciados enfrentamentos do futuro.
Um conselho contido no livro é oportuno para os que se encontram de pneus baixos, desesperançados ou com uma vontade danada de fazer alguma coisa, embora nunca tenha ido além da tagarelice: o que importa não é quem você é, nem aquilo que seus país decidiram que você fosse, nem o que disseram que seria o seu destino; o que importa mesmo é saber quem você quer ser, e pedir isso.
Todo cuidado é pouco com as orações sem ações concretas. Um cristão que se esconde do mundo, covardemente, sem ampliar sua capacidade de agir construindo mais, muito se distancia da mensagem do Homão de Nazaré.
Por favor, nada de vitimismos, nem de coitadismos!! De Deus sejamos pidões, com fé bem muito pidões, para que possamos ampliar a justiça social do mundo. Se somos filhos da Criação, que sejamos bem mais do que somos, para mais eficazmente exercer a missão que nos foi confiada. Uma receita válida para todos aqueles que habitam este imenso palco chamado Vida, pedido que sobrepaira todas as religiões da Terra.

Frei Caneca, Sempre Atual

Reverencio o Frei Caneca, arcabuzado pelas forças monárquicas antilibertárias. De temperamento insubmisso, tenaz e irredutível, Joaquim do Amor Divino Rabelo e Caneca, o “buliçoso frade”, como o definia Oliveira Lima, ordenou-se carmelita, no Recife, em 1796, com apenas 22 anos. Através de cartas suas, sabe-se que foi pai de três filhas, por ele chamadas carinhosamente de afilhadas: Carlota, Ana e Joana. Participando do levante de 1817, foi preso e enviado à Bahia, onde esteve encarcerado até 1821. Retornando ao Recife, fundou o Typhis Pernambucano, um periódico através do qual divulgava suas idéias e suas críticas ao regime da época. Implicado novamente na explosão pernambucana de 1824, contida pelo governo central, fugiu para o Ceará, onde foi preso, levado de volta ao Recife, julgado por uma comissão militar e condenado à morte por enforcamento. Pela recusa do carrasco em cumprir sua missão e também dos presos da cadeia, foi fuzilado pela tropa em 13 de janeiro de 1825.
Do carmelita desassombrado, reproduzo alguns dos seus pensamentos, encarecendo dois-mil-réis de reflexão dos ainda não agredidos pelo idioticu vírus do liberaloidismo do momento:
1. “De ordinário, combate-se o despotismo, porque está nas mãos dos outros; em chegando às nossas, tudo nos é lícito, tudo podemos, e levamos a rojões quanto se opõe ao furor dos nossos afetos e ao nosso ponto de honra.”
2. “É detestável a máxima da obediência cega do soldado em todas e quaisquer circunstâncias.”
3. “Idéias velhas não podem reger o mundo novo.”
4. “Quem será tão estúpido, que não enxergue aqui a trama do ministério para nos enfraquecer?”
5. “Nós queremos uma constituição que afiance e sustente a nossa independência, a união das províncias e integridade do império, a liberdade política, a igualdade civil, e todos os direitos inalienáveis do homem em sociedade.”
Frei Caneca, um respeitador da roxidão do seu aquilo. Seus posicionamentos deveriam servir de alerta para todos, filhos de trabalhadores e filhos de generais, as descendentes de Tejucupapo, os filhos dos que não souberam ficar de quatro, os não-classificados nas armarias das titulagens, os realmente solidários com os despossuídos, os que desejam amar um Brasil soberano, altaneiro e socialmente justo. Um Brasil acima de tudo.

Prece do Ser Maduro

Para aquelas pessoas maduras que estão se sentindo inúteis ou com pouca valia diante de um cotidiano aceleradamente estrepitoso, indico a leitura diária de uma pequena oração, encontrada numa gaveta de escrivaninha de senhora de classe média quase alta pernambucana, nordestina de quatro costados, testemunha ocular dos ontens faustosos por aqui acontecidos:
Pai, agora que não estou mais no tempo de alimentar tolas ilusões, aguça todos os meus sentidos, para que eu possa perceber a beleza das realidades terrestres.
Pai, agora que as mil opções foram feitas e inúmeras portas se fecharam em definitivo, dai-me o dom da aceitação para que as renúncias não sejam um fardo demasiadamente pesado para meu resto de viver.
Pai, agora que a soma dos meus inúmeros erros derrubou as ilusões de onipotência, não retire nunca o meu ideal de continuar tentando acertar, sempre contando com a Sua Graça infinita.
Pai, agora que os incontáveis desenganos e incompreensões ampliaram o meu ceticismo, conserva minha boa fé na Humanidade e a minha firme disposição de continuar bem servindo às criaturas, Seus filhos muito amados.
Pai, agora que as forças do meu corpo começam a esmorecer, alerta o meu espírito, livra-me dos comodismos do cotidiano, redobrando minha vontade de permanecer lutando até os últimos instantes de minha existência.
Pai, agora que aprendi a ver a precariedade das coisas, a limitação da nossa luta e a insignificância da nossa altivez, afasta-me dos desânimos desagregadores, ampliando minha auto-estima, deixando-me cada vez mais consciente de que '
nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia '.
Pai, agora que já alcancei o ponto de perspectiva que me dá uma melhor visão do pouco que sei, livra-me da defesa fácil de colocar viseiras e anteparos, e ajuda-me a envelhecer com a mente aberta dos destemidos, dos que sabem suportar as revisões comportamentais até o instante da eternização.
Pai, agora que aumenta o número de criaturas que me olham e esperam alguma coisa de mim, dá-me um pouco de sabedoria, ensina-me a pronunciar a palavra certa, inspira-me o gesto exato, norteia minha atitude, dignifica mais o meu agir com os mais jovens, mais viris, mais bonitos e bem mais dinâmicos.
Pai, agora que perdi a abençoada cegueira da juventude, só podendo continuar amando de olhos bem abertos, redobra minha compreensão sobre a solidariedade humana, ajuda-me a superar todas as mágoas, protegendo-me das amarguras do ocaso.
Finalmente, Pai, concede-me a Graça de não cair na desilusão, de não chorar os meus passados, de continuar sempre disponível, de jamais perder o ânimo de envelhecer sempre jovem, e de chegar à Sua Presença ainda com inestimáveis reservas de amor
.”

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

A Mulher Madura

O escritor Affonso Romano de Sant’Ana, esse homem de letras arretado de bom, escreveu um texto, certa feita, intitulado A Mulher Madura. Linhas dignas de serem policopiadas e distribuídas em todas as reuniões sociais, onde muitas ainda não perceberam que maturidade nada tem a ver com eliminação da celulite, desengordurações, quilos de creme e litros de xampu.
Na minha faixa etária, admiro muitíssimo as mulheres maduras, não as amarelecidas. Mulher amadurecida, segundo Romano, é aquela que possui uma contínua serenidade nos seus gestos, todos eles distanciados quilômetros dos malabarismos desassossegados da adolescência, quando se digladiam, horizontal e verticalmente, muitas vezes numa busca desesperada de afeto mínimo, nas pernas e braços, mentes, coxas e redondezas. Amadurecida é a mulher que flui com a serenidade comportamental de um peixe de aquário bem tratado, a envolver todos com um olhar repleto de múltiplas ternuras não-caretas.
O corpo de uma mulher madura, de mil e uma histórias, não vive comprimido em modelitos três números aquém do apropriado. Tampouco sobrevive acintosamente encharcado de aditivos suspensoriais que apenas momentaneamente dão sinais de firmeza teen-ager. Corpo de mulher madura independe de conta bancária, carro importado ou griffe de alguém aboletado por uns tempos na crista da onda. Tem mãos que sabem deslizar mais sedutoramente que mouse sob comando de designer especializado em formatação de painéis e logomarcas. Tem boca que explicita sensualidades múltiplas e palavras de muita sabedoria, cativantes e convincentes.
Engana-se todo aquele que imagina uma mulher madura sem mais o seu cadinho prazeroso, onde os procedimentos metodológicos acumulados se emaranham para dar lugar a estratégias empreendedoras que enlevam e fazem elevar, integrados a um pensar/falar sem as lógicas eguariças que irritam, maculam a inteligência e perturbam mastros e baionetas. E esse juízo falso decorre, inúmeras vezes, de uma estupidificante incompetência masculina, que machisticamente imagina sentir “felicidade” com peças novas, ainda que muito distanciada do Aurélio e de seus múltiplos escaninhos culturais.
Conheço e tenho profunda admiração por inúmeras mulheres maduras, dos mais diferenciados níveis de renda e estado civil, religião, modos de pensar e conviver. Mas todas elas possuidoras de notáveis características comuns, que as diferenciam das inúmeras outras aparentemente maduras, que se portam como parte integrante e submissa de uma manada global.
As posturas comportamentais de uma mulher madura se estruturam a partir de três pressupostos: organização, sentimentos e criatividade. Ela percebe que as oportunidades só favorecem as mentes preparadas, serenas e intelectualmente construtivas. E ela entende o significado de três leis:
1ª.“Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”;
2ª. “A mulher que sofre antes do necessário sofre mais que o necessário”; e
3ª. “Para conseguir se comunicar com excelência você precisa apenas ser você mesmo.”
Para todas as minhas amigas maduras, sólidas fundações do meu caminhar terrestre, remeto o ensinamento de Dostoievski, aplaudindo-as sem esmorecimentos, ciente da importância delas, pedaços vitais que habitam o exterior do meu eu: “O único meio de evitar os erros é adquirir experiência. Mas a única maneira de adquirir experiência é cometer erros.

O Pardalzinho

Era uma vez um pardalzinho que detestava deslocar-se para outras paragens, todas as vezes que o inverno chegava. Por esse motivo, deixava sempre para última hora a idéia de abandonar seu aconchego por uns tempos. Costumeiramente, despedia-se dos companheiros, retornando ao ninho para mais umas semanas de um cochilo bem-bom.
Certa feita, com um tempo já desesperadamente frio, ao iniciar seu vôo, deparou-se com uma chuvinha continuada. Molhadas as asas, estas se petrificaram, congelando-se, fazendo o pardalzinho despencar das alturas e cair no interior de uma vacaria de pequeno porte.
Quando já se imaginava próximo do seu final de vida, o pardalzinho recebeu uma descomunal carga excremental, oportunamente quentinha, de uma vaca que de costas para ele se encontrava.
Apesar de todo bostado, o pardalzinho logo percebeu que aquela massa fétida derretia rapidamente o gelo acumulado das suas asas, aquecendo-o providencialmente e tornando-o muito distanciado da morte prematura que se avizinhava.
Sentindo-se feliz, plenamente reaquecido, o pardalzinho começou a cantar alto e bom som, desapercebendo-se por completo de um enorme gato que o espreitava estrategicamente, atraído pelos seus trinados, e que, de uma só abocanhada, matou-o instantaneamente.
Esta história reflete quatro ensinamentos, dignos de serem repassados. O primeiro proclama que “nem sempre aquele que caga em você é seu inimigo”. O famoso ditado “topada só bota pra frente”, muito ouvido nas camadas populares, reflete, contraponto felicíssimo, a lição encerrada naquela advertência.
O segundo ensinamento revela que “nem sempre aquele que tira você da merda é seu amigo”. Uma lição ainda muito desapercebida por inúmeros eleitores nordestinos, responsáveis por feudos oligárquicos conservadores, perpetuados pela gratidão eterna dos “beneficiados” que continuam vítimas.
O terceiro ensinamento é oportuno para muitos: “desde que você se sinta quente e confortável, conserve o bico calado, mesmo que situado num monte de merda”. Reclamar muito, por tudo e todos, quando não se pode dar um passo seguro, é o mesmo que cutucar leão faminto e solto com vara bem curtinha.
E o quarto ensinamento da parábola do pardalzinho é a chave de ouro dos anteriores: “quem está na merda não canta”. Traduzindo: deve-se procurar a melhor das alternativas, jamais se distanciando de uma consistente simancalidade, capacidade de se mancar, perceber-se imaturo, incompleto ou muito inconveniente.