quinta-feira, 8 de maio de 2008

O Evangelho do Cristo Cósmico

Quando Leonardo Boff lançou o seu primeiro livro, em 1971, de título acima, jamais imaginaria que ele seria reeditado quase quatro décadas depois, tamanha sua atualidade no cenário contemporâneo. A busca da unidade do Todo na ciência e na religião, seu subtítulo, procura atualizar a mensagem da Ressurreição, vista pelo cristianismo dos primeiros tempos como a emergência de um Homem Novo, para os tempos de agora, da física quântica e da nova biologia, quando a Igreja necessita difundir a mensagem do Homão da Galiléia sob prismas cativantes e consistentes. Vertentes capazes de novamente entusiasmar as gerações mais jovens, hoje distanciadas dos conteúdos teológicos e filosóficos que analisam e interpretam os ensinamentos crísticos inseridos numa Teoria de Tudo, “reforçando uma leitura holística e integradora da realidade, e encorajar uma mística cósmica que abrace as ciências, as religiões, as tradições espirituais e a sensibilidade ecológica contemporânea”, segundo o próprio autor, autor mais de 70 livros, um dos formuladores da Teologia da Libertação, agraciado em 2001 com o Prêmio Nobel alternativo da paz.
Alguns anos atrás, em janeiro de 1999, dois autores franceses, Luc Ferry e Marcel Gauchet, apresentaram na Sorbonne, num seminário público, suas versões sobre duas constatações contemporâneas: a morte de Deus e o retorno ao religioso. De um lado, uma Igreja e seus dogmas enfraquecidos, que ainda não percebeu que seus ditames não mais correspondem aos anseios de uma população marcada pela fome, pela má distribuição de renda, pela transnacionalidade, pela insuficiência de cumprimento dos Direitos Humanos mais elementares. E também de há muito omissa diante de casos escabrosos de pedofilia não punidos e arrecadações dizimáticas para enriquecimentos espúrios, além dos puritanismos cavilosos e das resistências em não atentar para os talentos laicos cientificamente bem apetrechados numa visão de mundo mais compatível com Chardin, Darwin, Einstein e Hawking. O famoso seminário se encontra transcrito no livro Depois da Religião, dos dois autores, uma edição Difel 2008.
O que entusiasma no livro do Leonardo Boff é a capacidade intuitiva do autor, antecipando-se à chegada de novos cenários científicos, numa conjuntura onde os três poderes – religioso, militar e comercial – promoveram rupturas ao longo dos últimos dois mil e quinhentos anos, cada um deles predominante, em ocasiões diferenciadas, até o instante presente, nunca possibilitando a libertação do ser humano de todas as coerções. Inclusive nos tempos financeiros neoliberais de agora, onde o pretenso desenvolvimento global imbrica sua evolução em acumulação de poder, de liberdade e de capital, claro que para populações cada vez mais diminutas.
Em seu texto, Leonardo Boff delineia as seis bases para uma Teoria do Todo: 1. A energia do vácuo quântico, que é tudo, menos vazio. O Abismo Alimentador de todo o Universo; 2. A teoria especial da relatividade (1905), onde Albert Einstein situa o espaço e o tempo num mesmo pé de igualdade, onde a expressão famosa E=mc² ressalta que matéria propriamente não existe; 3. A teoria-M (Mater), das cordas e supercordas que fazem as onze dimensões do espaço; 4. A constante cosmológica, a comprovar que todos seres do Universo são compostos das mesmas energias e dos mesmos elementos, tornando o Universo isomorfo; 5. A contribuição da biologia, ratificando a tese de que todos os seres vivos possuem os mesmos vinte aminoácidos e os quatro tipos de ácidos nucléicos; 6. As quatro energias fundamentais (gravitacional, eletromagnética, nuclear fraca e nuclear forte) que promovem a sustentabilidade, dinamismo e direção a todo o Universo. Afirmando com propriedade: “Se realmente descobrirmos uma teoria completa, seus princípios gerais deverão ser, no devido tempo, compreensíveis para todos, e não apenas para uns poucos cientistas. Então, todos nós, filósofos, cientistas e simples pessoas comuns, seremos capazes de participar da discussão de por que é que nós e o Universo existimos. Se encontrássemos uma resposta para essa pergunta, seria o triunfo da razão humana – porque então conheceríamos a mente de Deus”.
Como eu gostaria de ver reunidos, num Seminário Teológico Trans-religioso de consistente acuidade analítica, um painel com Karen Armstrong, Jacques Attali, Noam Chomsky, John Shelby Spong, Hans Küng, John Dominique Crossan e Andrés Torres Queiruga. Inteligências privilegiadas que muito contribuiriam para a formatação de novas estratégias de um viver-em-Deus radicalmente compartilhante com o Todo Cósmico. Sem mais as armas religiosas defensivas, aquelas que tantos prejuízos causaram para a efetivação de uma duradoura democracia planetária.
Um dia, Wilfred Cantwell Smith (1916-2000) escreveu: “Se não soubermos compreender uns aos outros e ser reciprocamente leais além das fronteiras religiosas, se não formos capazes de construir um mundo em que pessoas de fés diferentes vivam e trabalhem em conjunto, então as perspectivas para o futuro de nosso planeta são pouco promissoras”. (O Sentido e o Fim da Religião, Sinodal, 2006).
Estou plenamente convertido à exuberância prognóstica de Leonardo Boff.

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