quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Categoria Abjeta

Dias atrás, um carioca ganhou sozinho um montão de milhões de reais na Mega-Sena. Eu estava no aeroporto esperando um amigo de vida acadêmica na PUC-RJ, quando testemunhei um rápido diálogo entre dois funcionários terceirizados. Mais ou menos assim: - Visse, um cara do Rio ganhou sozinho a Mega!! Resposta despeitada do outro: - Tomara que ele se flôda!!. Sem o “l” naturalmente, aqui incluso em respeito pleno à escrupulosa ética editorial deste portal.
Quando me deparo com uma personalidade invejosa – leiga ou religiosa – recordo-me de uma historinha contada pelo Rubem Alves, psicanalista de mão cheia, teólogo, poeta, escritor e o escambau, reproduzida no seu livro Sobre Demônios e Pecados, editora Verus, lançado no final do primeiro semestre. O seguinte assim se passou:
Um homem achou uma linda garrafa verde, com uma tampa vermelha, jogada em meio a um monte de trapos tidos como imprestáveis. Curioso,pegou a garrafa e a destampou. Foi um susto. Um gênio estava fechado dentro dela, e bastou que a tampa fosse tirada para que ele saísse. Ele se curvou diante do homem e disse: - Agora sou seu escravo. Tenho poder para fazer qualquer coisa. Posso dar-lhe alegria pelo resto dos seus dias. Faça o seu pedido!!
O homem achou melhor pensar bem. Os desejos desfilaram diante de seus olhos: lindas mulheres, viagens por todo mundo, banquetes, concertos. A felicidade estava garantida. Mas aí o gênio o interrompeu: - Há apenas um detalhe sem importância, porque a realização dos seus desejos é mais que suficiente para que a sua felicidade se realize. E isso eu garanto.
- Mas qual é esse detalhe?, perguntou o homem.
- O detalhe é que todos os pedidos que você fizer, seu inimigo receberá em dobro.
O homem parou, contemplou a dupla felicidade de seu pior inimigo, e falou: - Já sei o que vou pedir! Me fure um olho!!!"

Assim é o trabalho da inveja.
Todo invejoso não se alegra com a vitória dos outros. O seu maior prazer é comemorar a derrocada dos demais, se possível irreversivelmente. Quer ter muito dinheiro em comunidade de lascados. Detestam os corpos bonitos e sempre mantém os olhos enviesados sobre as manifestações de alegria e bem-estar.
É nas denominações religiosas onde se escondem os mais invejosos da história da humanidade. Avaliem, por exemplo, a declaração abaixo do Santo Ofício, emitida em 19 de fevereiro de 1616:
Que o Sol é o centro do mundo e está completamente isento de qualquer movimento é tolo e absurdo em filosofia, além de formalmente herético, na medida em que contradiz expressamente a doutrina da Escritura Sagrada em diversas passagens, tanto em seu significado literal quanto de acordo com a interpretação dos padrões e dos doutores”.
Os “iluminados” que redigiram e assinaram a declaração propalada tiveram seus nomes rapidamente enjeitados pela História, quando invejosamente menosprezaram as análises de Galileu Galilei, que revolucionou o mundo científico da época. E a inveja deles mais se agigantou quando foi divulgada, meses antes, uma declaração de Galileu que qualquer mente sã endossaria: “Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sensibilidade, razão e intelecto pretendia que limitássemos seu uso”.
Contemporaneamente, o fundamentalismo irracional que se dissemina entre as instituições religiosas é consequência de duas grandes vertentes: a inveja pela inteligência evolucionária das gerações científicas mais jovens e uma gritante ausência de humildade diante das descobertas recentes, ainda multiplamente nanométricas diante dos insondáveis mistérios cósmicos.
Não tenho simpatia alguma pelos adjetivos que são apostos a algumas funções: meretíssimo, magnífico, santidade, entre tantos outros. Que somente fazem destilar níveis bajulatórios altamente contaminados por taludas pitadas de inveja.
Uma excelente vacina contra a inveja é lutar sem esmorecimento por um mundo onde a liberdade de pensamento seja a maior possível, onde exista mais padarias que pet-shops, aqueles centros que cuidam dos bichinhos às vezes mais bem tratados que os seres humanos carentes de pão, amor e solidariedade.
Todo invejoso é um frívolo estupidificante incapaz de separar o joio do trigo. Tal e qual o Senado Federal, onde amorais defendem amorais, num corporativismo nauseabundo que ainda não recebeu exemplares punições comunitárias.
PS. No dia 19 de agosto de 2009, o Conselho de Ética do Senado Federal tornou-se pusilânime. Data propícia para se comemorar o Dia Nacional do Senado Obrado, aqui lançando mão do verbo utlizado pelo senador Collor, em escatológico pronunciamento.
(Publicada, a partir de hoje, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Educação e Precipício

Para os que não estão por dentro: para quem ensina até a quarta série, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação determina como formação mínima o curso normal de nível médio ou um superior com licenciatura. Da quinta ao ensino médio, a exigência é nível superior com licenciatura.
Coordenador de várias pesquisas educacionais relevantes, o professor João Batista de Oliveira ressalta que a área de formação de professores ainda não oferece uma evidência forte de nível qualificatório, havendo descompasso entre a capacitação exigida e o conteúdo que deveria ser transmitido aos alunos. Revela ainda que “incluídas no ano passado, filosofia e sociologia/estudos sociais têm apenas, respectivamente, 25% e 13% dos seus docentes graduados em Filosofia e Ciências Sociais.”
Uma estatística deprimente se pode constatar quando se manuseia os dados da PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar. Comparando 30 ocupações que exigem nível superior, as cinco de menor rendimento médio são todas relacionadas ao magistério. E os dados destacam: “o salário médio de um professor de ensino médio com nível superior no Brasil representa dois terços dos rendimentos médios de um enfermeiro diplomado, metade do rendimento médio de um jornalista e pouco mais de um quarto dos rendimentos médios de um médico”.
Segundo estudos feitos pela consultoria McKinsey, os países com melhor desempenho educacional são aqueles que selecionam os profissionais mais capacitados, sendo a remuneração um dos fatores positivamente influenciadores. No Brasil de agora, na situação salarial em que se encontra, os alunos dos cursos de formação de professores são os mais pobres, de famílias menos escolarizadas e os que mais estudaram na rede pública.
Na área de matemática, física, química e biologia, as mais precárias, a situação requer medidas emergenciais, posto que não há vocação que resista às baixas remunerações. O MEC deverá estar enviando, nos próximos dias, um projeto de lei ao Congresso Nacional tornando obrigatória a formação universitária de todos os professores de ensino fundamental, criando 310 mil vagas em universidades públicas de 21 Estados brasileiros. O que requererá um planejamento estratégico de muito bom calibre técnico-operacional.
Ousaria propor aos formatadores do planejamento estratégico do MEC, certamente bem dotados de responsabilidade social e bagagem em Filosofia da Educação, a leitura de dois livros que poderiam ampliar um ver-as-coisas mais realisticamente. O primeiro, Filosofia da Tecnologia, de Val Dusek, Loyola, certamente orientará todos os estrategistas sobre as questões que são levantadas diante de um desenvolvimento tecnológico de crescimento exponencial. Ressalto a importância da leitura de alguns capítulos – 1. Filosofia da ciência e tecnologia, 3. A tecnocracia, 6. O determinismo tecnológico, e 12. O construcionismo social e a teoria da rede de atores.
Com a intensificação das preocupações com os efeitos colaterais do desenvolvimento tecnológico, degradação ambiental sendo um deles, foi fundada, em 1976, a Sociedade para a Filosofia da Tecnologia, cujo objetivo primordial é analisar as interconexões existentes entre a evolução da tecnológia e o desenvovimento analítico das Ciências Humanas.
O segundo livro é a edição de um manuscrito do sociólogo Álvaro Vieira Pinto, um dos fundadores do ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Intitula-se A Sociologia dos Países Subdesenvolvidos, Contraponto, 2008. Méritos para o “achador” do escrito, pesquisador José Ernesto de Fáveri, um paulofreirista de carteirinha. No livro, Álvaro Vieire Pinto destaca a “deformação semântica”, “os processos que interferem na comunicação para ocultar a percepção do real”, “os obstáculos para se reaprender a enxergar de forma muito mais profunda a nossa condição atual e o nosso futuro”. Que não deverá depender de qualquer Copa do Mundo.
(Publicada hoje no Jornal do Commercio, 26.08.2009, Recife-Pernambuco)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O irrevogável revogante

Quando o senador Aloízio Mercadante assomou, na última sexta-feira, à tribuna do Senado Federal, moralmente sem as calças da decisão irrevogável apregoada no dia anterior e com expressão facial de vira-lata, como se estivesse pedindo licença para ficar de pé e não agachado e todo borrado, numa explícita auto-emasculação cívica, senti um misto de comiseração e revolta. Compaixão pelo papel desvirilizado que um economista do porte intelectual do discursador estava desempenhando para milhões de eleitores brasileiros, confessando-se subordinado integralmente a um mandatário useiro e vezeiro na utilização de companheiros para usufrutos próprios, desprezando-os quando não mais se fazem necessários à sua soberba nerótica (de Nero), acumulada através de anos de um messianismo que está raiando as fronteiras de um zombar continuado fatidicamente funesto. E que desconhece, porque não lê coisa alguma, em função do sono provocado por vários ingredientes, a reflexão de Machado de Assis, em 1881: “A força de embasar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia que é um vício hediondo”.
A revolta paralela também agigantou-se em meu interior de eleitor, por testemunhar a degradação da imagem de um Senado Federal, hoje repleto de aves de rapina da mais reles categoria, excluídas as exceções poucas que ainda continuam a merecer apoio público. Senadores em posturas vexantes, acocorados e de pires na mão, olhos súplices voltados para o Executivo, dele cumprindo qualquer ordem sob um interesse meretriz na liberação de algumas trinta moedas do Orçamento da União.
Tenho a convicção de que o senador Aloizio Mercadante, autor de uma atitude irrevogável radicalmente revogante, que o fez continuar líder sem mais qualquer grandeza nobilitante, nunca leu Ensaios, de Michel de Montaigne, que sabia das coisas e já proclamava que a amizade assinala o mais alto ponto de perfeição da sociedade, nunca devendo estar relacionada com interesses públicos, em tempo algum em função de partidos ou religiões. E não percebeu, porque não leu, a diferença existente entre cargos de confiança e cargos de competência, estes últimos essenciais para o sucesso das gestões que se sobrepujam aos interesses pessoais.
Também estou convicto que o senador Mercadante, um economista mais preocupado com quantitativos eleitorais que qualitativos da vida humana, não queimou as suas taludas pestanas nos escritos de Friedrich Nietsche. Num dos seus livros, Humano, Demasiadamente Humano, o filósofo dividiu as pessoas que sabem fazer amizade em duas grandes categoriais: as escadas e os círculos. Nas primeiras, se inserindo aqueles que, para cada etapa do seu caminhar, encontram os amigos adequados. E Nietsche dá um recado jamais analisado devidamente pelo senador: “Em várias pessoas, o dom de ter bons amigos é muito maior que o dom de ser um bom amigo”.
Outro dia, na zona sul do Recife, num automóvel semi-pomposo, observei um adesivo imbecilizante que dizia “Tenho nojo dos políticos”. A conclusão para quem sabe pensar é elementar, como diria o caro Watson, do detetive Sherlock Holmes: tratava-se, o dono do carro, de um analfabeto político, um daqueles que imaginam, palerma alienado de carteirinha, que Política só atrapalha, devendo ser combatida sem dó nem piedade. Ou expressava uma aparente descrença, fingidamente demonstrada por quem muito desejaria ver de volta o arbítrio, a força e o mando autoritário. Todos nós somos políticos e necessitamos exercer a Política com toda nossa Cidadania. Sem as calças arriadas.
Felizmente, amplia-se um sadio clamor por um país mais humano e distributivo, onde terra, água, saneamento, educação, saúde, transporte, segurança e serviços jurídicos sejam direitos consagrados numa dimensão ética, onde a nunca-exclusão deveria ser o lema maior de um desenvolvimento que beneficie o homem todo e todos os homens. Só depende de nós, a partir de hoje e de 2010...
Se eu me encontrasse com o senador Mercadante, autor do irrevogável-revogado, seguramente cantaria para ele aquela música do Chico Buarque de Holanda, tão do gosto dos militantes de antigas conjunturas: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...”
(Publicada, a partir de hoje, 24/08/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

domingo, 16 de agosto de 2009

Por uma educação religiosa libertadora

No oportuno livro do teólogo Ed René Kivitz, O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia, editora Mundo Cristão, há uma historinha por ele vivenciada que merece aqui ser divulgada. Certa feita, uma menininha perguntou-lhe como foi que Deus tinha feito o homem. E ele respondeu que Deus tinha pegado um monte de barro, fabricado um bonequinho, dado uma soprada no nariz do bonequinho e transformado o bonequinho num ser vivo caminhante.
Depois que a menininha foi embora, o Kivitz começou a matutar: “A minha resposta foi suficiente para ela, mas essa menininha vai crescer e um dia vai chegar na universidade. Até quando ela vai acreditar na historinha que lhe contei? O que ela vai pensar, quando descobrir que a terra tem mais de quatro bilhões de anos, enquanto a história narrada pela Bíblia Sagrada tem apenas seis mil anos? E o que irá acontecer com o seu pensar, quando ela se deparar com os avanços da ciência e da arqueologia, inevitavelmente questionando a historinha de Adão e Eva? Será que ela voltará a conversar comigo, ou me rejeitará como alguém que não possui qualquer capacidade evolucionária?
Daí a admiração que o Kivitz tem pelo Eclesiastes. Pois o livro bíblico continua relevante para todos nós, pois “ele não revela medo de olhar o mundo ao redor e dizer que não entendeu quase nada, e que a maioria das coisas que enxerga e vivencia não faz o menor sentido: vaidade, vaidade de vaidades, névoa de nada – absurdo”.
No seu texto, Ed René ressalta que confusão não é algo ruim. E conclui: “se nada nos confunde, provavelmente estamos aferrados a uma verdade insignificante”. Pois, afinal de contas, não faz sentido uma vida religiosa sem reflexão, ovelhisticamente, sem uma mínima enxergância, sem a menor atenção para uma advertência feita por John Stott – John Robert Walmsley Stott, uma liderança anglicana mundial evangélica, autor de Cristianismo Básico, mais de dois milhões de cópias vendidas em mais de 60 línguas, considerado por Billy Graham “o mais respeitável clérigo no mundo hoje”-, num dos seus livros: “Crer é também pensar”. Um excelente balizamento para os que ainda não perceberam que “a fé sem arestas é uma fé que se acomodou no confortável, isolou-se em um mundinho cor-de-rosa que inventou para si, é uma fé que já morreu mas ainda não foi enterrada”.
O autor de O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia, um texto provocador, desabestalhador por excelência, assevera com entusiasmo que “Deus não tem nenhum problema com esse negócio de pensar, duvidar e questionar”. E certamente acredita que os escritos evolucionistas do Richard Dawkins – a Grande História da Evolução, Companhia das Letras, 2009, é o mais significativo deles – nada mais são que provocações inspiradoras da inteligência humana advinda de uma Inteligência Criadora que jamais será decifrada pelos seres humanos, por mais geniais que eles possam vir a ser. E que também aplaude A Grande Transformação – o mundo na época de Buda, Confúcio e Jeremias, de Karen Armstrong, da citada editora, 2008. Como ex-freira durante sete anos, Armstrong analisa os séculos entre 900 e 200 a.C, que “viram nascer o confucionismo e o daoísmo na China, o hinduísmo e o budismo na Índia, o monoteísmo em Israel e o racionalismo filosófico na Grécia”. Sistemas que favoreceram as imbricações futuras entre filósofos, misticos e teólogos das mais variadas origens. Uma leitura fascinante, desmitificadora por derradeiro.
O livro do Ed René Kivitz é providencialmente alfinetador. Desabobalha, livra-nos dos cor-de-rosismos existenciais, faz-nos ingressar em dolorosos momentos reflexivos, verdadeiramente libertadores, apesar de todos os seus percalços. Que ratificam o que disse, num dos seus livros, o genial Carl Sagan: “Nós tornamos nosso mundo significativo pela coragem de nossas perguntas e pela profundidade de nossas respostas”. Um pensar que comprova com sabedoria incomum um comentário feito pelo ex-presidente norte-americano John Kennedy: “O maior inimigo da verdade muito frequentemente não é a mentira – deliberada, inventada e desonesta – mas o mito - persistente, persuasivo e pragmático. Muito frequentemente nos apegamos aos clichês de nossos antepassados”.
O convite do Senhor é mais que libertador: “Vamos discutir juntos?” (Is 1,18)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Renascimento da Filosofia

Sendo assinante da revista Ultimato, li em seu último número, o 318, maio/junho, algumas declarações sobre a fragilidade da Ciência, refreando a ânsia dos que imaginam a Ciência como a “solucionadora” de todos os problemas planetários. A afirmação de Eliana Cardoso, economista de renome internacional e professora da Fundação Getúlio Vargas, é sinal de oportuno alerta para todos os seus colegas: “nós não temos mais aquela receita grandiosa que resolve todos os problemas em qualquer circunstâncias ... Os economistas têm de ser mais humildes e reconhecer que não têm muitos instrumentos”.
O mundo principia a querer refletir mais sobre algumas questões universais: quem somos e o que estamos fazendo por estas bandas?; a existência de um Ser Supremo, que não possua feições humanas; o ser humano como animal racional inacabado, em contínua evolução; o valor do amor, da ética, da solidariedade e da liberdade do pensar; o meio ambiente e a preservação da vida humana; os amanhãs planetários e o sentido da existência terrestre diante das maravilhas galácticas. Reflexões que poderiam ser classificadas como “Questões Universais da Humanidade”, de interesse vital para as gerações que foram afetadas pelos autoritarismos em diversos países, inclusive o Brasil, também afetadas por um cientificismo absolutista, que se imaginava possuidor de uma superioridade imbatível sobre as ciências humanas, inclusive religião e filosofia.
A atual crise financeira mundial, classificada de “marolinha” por políticos ilusionistas dezoito quilates, especializados em “embromações de massa”, também conhecidas por “esganações mentais”, posto que carregadas de múltiplas manobras alienatórias, seguramente está muito contribuindo para o ressurgimento de dois grandes “influenciadores” planetários: as manifestações de uma espiritualidade a-denominacional e os ensinamentos e as reflexões filosóficas, sem mais aquelas pedanterias dos que se imaginavam entendedores únicos do pedaço.
Recentemente, fui surpreendido com um texto chamado Iniciação à Investigação Filosófica – Um convite ao filosofar. Editado pela Alínea Editora, Campinas, SP, portando um oferecimento eivado de uma sensibilidade poética pra lá de gigantesca: “À dona Rita Mimosa Mãe, ontem canto dos sonhos da terra, hoje encanto na terra dos sonhos”.
Ao identificar o autor do livro, minha nordestinidade agigantou-se. O autor do excelentemente didático Iniciação à Investigação Filosófica – Um convite ao filosofar é um cearense, nascido no município de Massapê, município de menos de quarenta mil habitantes, cujo nome, massapê, significa terra fértil argilosa, o município tendo sido desmembrado de Sobral, de padroeira Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Esse cearense, José Auri Cunha, de inteligência destacada, frequentou a Escola Técnica Federal do Ceará, posteriormente ampliando seus estudos no Instituto Tecnológico da Aeronáutica, mais tarde graduando-se em Matemática e também em Ciências Sociais pela Universidade de Campinas. E nesta mesma universidade, concluiu seu Mestrado e Doutorado em Lógica e Filosofia da Ciência, também frequentando o doutorado em Filosofia da Educação na Universidade de São Paulo.
Creio que o embasamento em Matemática favoreça o desenvolvimento de uma transmissão menos “enrolática” da Filosofia. Quem possui um bom raciocínio matemático desenvolve mais didaticamente os filosofais, principalmente se a intenção for transmitir o conteúdo a uma juventude que precisa pensar mais.
O livro do “cabeça-chata” José Auri Cunha é leitura danada de boa. Principalmente para os docentes de boa têmpera que desejam utilizá-lo para uma geração que “está mudando o valor próprio e a importância cultural da ciência, da arte, da ideologia e da religião”.
PS. Todo aplauso para os cursos de Filosofia do pernambucaníssimo Instituto Amaro Quintas.
(Publicada no Jornal do Commercio, 12.08.2009, Recife-Pernambuco)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A turma de "seu" Mey

Com incontida euforia, observo uma crescente ampliação da cidadania brasileira. Hoje, diferentemente dos ontens impostamente silenciados, que a sanidade das lideranças democráticas definitivamente sepultou, já não se pode cercear impunemente a liberdade de informar dos meios de comunicação. A grita gigantesca contra as leviandades proibitórias praticadas por aqueles que cinicamente não se arvoram de suspeitos em concessões de medidas cautelares, bem reflete o nível de indignação pátria, calando fundo nos escalões judiciários superiores, ainda de mãos quase sempre limpas.
Meu querido pai, desde quando eu era um semi-adolescente, alertava os filhos para as bandalheiras da Turma do “seu” Mey. E ele apelidava de Mey os travestidos de senhores impolutos que se imaginavam jamais alcançados pelas chibatas da Justiça, sentindo-se “imorríveis”, acima dos pobres mortais, vítimas cotidianas das suas famélicas trapaças, de memória nunca deletada pelos mais conscientes. E o saudoso Carolino, Gonçalves por derradeiro, costumava enumerar para os familiares balizamentos contra as quadrilhas dos Meys que persistem em identificar a gente simples brasileira como massa incapaz de qualquer civismo, farinha do saco deles, raça disposta a colaborar sem pestanejar com as maracutaias mais escabrosas cometidas contra o erário público. Memorizei as principais:
1. Aquele que acredita na conversa dos “sabidos” finda por ser presa fácil das manobras espúrias por eles praticadas, pagando o pato sozinho no frigir dos ovos.
2. Todo salafrário é especializado em ideias mirabolantes, onde o iludido entra na jogada, somente o vigarista levando vantagem no balanço final da presepada.
3. Bandidos são seres humanos que se alimentam do que não existe nos fracos em matéria de dignidade e honradez.
4. Malfeitores não são apenas invasores da mente. Inúmeros deles são pedaços de nós mesmos, carecendo de contínua vigilância e combate moral sem mínima trégua, principalmente em tempos de mentiras midiaticas bem encadernadas
5. Todo criminoso de colarinho branco posa de moralista acima de qualquer suspeita, proclamando-se vítima de armadilhas mil, embora desconheça saber viver com um mínimo de dignidade pessoal.
6. A luxúria dos marginais é inquilina vip dos seus próprios olhos, que buscam obsessivamente possuir além das suas possibilidades.
7. Assistencialismo político se encontra diretamente vinculado à vaidade do protetor. E o preço da vaidade está na razãõ direta da crescente dependência dos assistidos.
8. Marginal de muitas contas bancárias percebe que inúmeros pobres são interesseiros, vendo seus protetores em função do montante financeiro que deles se pode extrair. E é nessa via de mão dupla que se forjam as molas mestras da corrução.
9. Todo político deliquente é movido pela avareza, nunca solidário com as desigualdades sociais, salvo se forem para seus usufrutos eleitorais.
10. Inúmeros despossuídos são imediatistas, enxergando apenas o pecuniário nas ações oferecidas pelos “políticos periféricos” (a classificação é de José Saramago), aqueles que não possuem consciência alguma do significado das suas próprias palavras.
Para todo cafajeste, honra, dignidade e reputação são expressões de nenhuma valia. E quando o cafajeste é político, a receita é uma só: as mudanças são apregoadas radicalmente fingidas, para ganhar votos e poder, o paraíso apresentado da boca para fora, a intenção única sendo o rápido estofamento monetário dos bolsos, a massa ignara somente devendo tornar-se povo num 30 de fevereiro de um ano vindouro...
Urge um cenário de mãos limpas na política brasileira. Democracia não é regime para bandidos!! Que sejam listados todos os que trabalham no Senado Federal, senadores, assessores, funcionários e terceirizados. Que a Fundação Getúlios Vargas possua independência suficiente para detectar os focos de imundície. Evitando tornar-se outra FGV - Facilitadora de Gatunos e Vadios.
Nós, brasileiros de todas as classes sociais, temos o direito de almejar, sem cordeirismos estéreis, um Congresso Nacional decente para os amanhãs da nossa gente, razão integral concedendo ao genial José Saramago: “Nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência”.
PS. Quando mandatários e ex-mandatários, homens e mulheres, devolverão os bilhões sacados das contas públicas e enviados para o exterior? Será que isso só acontecerá quando a impaciência do Povo Brasileiro ameaçar extrapolar os limites de um mínimo civilizatório não-violento?
(Publicada, a partir de hoje, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Euforia Silvínica

No seu retorno da Capital Federal, onde foi observar mais de perto a cínica patifaria reinante no Congresso Nacional, onde até senador de baixo calibre moral declara que um colega está a necessitar de tratamento psiquiátrico, logo ele que há muito tempo carece de uma temporada em penitenciária de segurança máxima, o João Silvino da Conceição trouxe um monte de anotações.
Ao abraçar Dona Conceição, sua inspiração de mais de trinta e cinco anos, muitos quilômetros bem dados, serenidade lindona, sem as louracidades artificiais das rabolátricas que só raciocinam pelo tchan, João mostrou entusiasmado um discurso de paraninfo pronunciado, tempos atrás, pelo Nizan Guanaes, um talento da comunicação publicitária. Uma fala diferente dos abilolamentos oratórios que estão proliferando por algumas “falcudades” brasileiras, sempre mais preocupadas com a receita em ampliação que os débitos pedagógicos acumulados em décadas de descompassos. Um pronunciamento que deveria ser reproduzido para os alunos-feras do ensino superior neste início de semestre, onde a gripe suína ameaça conviver com manifestações asininas docentes, discentes e administrativas, típicas de um país que ainda não atingiu uma maturidade cognitiva condizente com os desafios de uma nova etapa civilizatória. Uma iniciativa que deveria ser patrocinada por dirigentes universitários responsáveis, sem os “demagogismos populistas” que anestesiam e alienam.
Eis os trechos mais significativos da fala do Nizan Guanaes, lidos em voz alta pelo João Silvino, em pleno saguão de desembarque:
“Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo o coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como consequência. Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha. Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham, porque são incapazes de sonhar. E tudo que fica pronto na vida foi construído antes, na alma. A propósito disso, lembro-me de uma passagem extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse: - Irmã, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo. E ela respondeu: - Eu também não faço, meu filho”. ... “Pense no seu País. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal , é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo.. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos, e uma elite brega, sem cultura e sem refinamento, não chega a viver como homens. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguassu.” ... “Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito, ou seja, é preferível o erro à omissão, o fracasso ao tédio, o escândalo ao vazio. Já vi grandes livros e filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso. Colabore com seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido, tendo consciência de que cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro.” ... “Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar.Porque não sabem trabalhar.” ... “Ocupa o tempo. Evita o ócio (que é a morada do demônio) e constrói prodígios. O Brasil, este país de malandros e espertos, da vantagem em tudo, tem muito o que aprender com aqueles trouxas dos japoneses. Porque aqueles trouxas japoneses, que trabalham de sol a sol, construíram, em menos de 50 anos, a 2ª maior megapotência do planeta. Enquanto nós, os espertos, construímos uma das maiores impotências do trabalho.” ... “Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo (que é mesmo o senhor da razão) vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama SUCESSO.”
Os aplausos do derredor foram contagiantes. Com uns Viva o amanhã do Brasil! bradados por alguns jovens que eram universitários de cursos superiores não embromatórios.Que portavam um abaixo-assinado que assim se iniciava: “Somente o todo pátrio cidadão poderá errradicar a bandidagem reinante no Congresso Nacional. Toda atenção será de muita valia nas eleições de 2010. Abaixo a deliquência no cenário político brasileiro!.” Assinamos, Silvino, Dona Conceição, eu e um bocado de gente.
(Publicada, a partir de hoje, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)