quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Equipamento Indispensável

Amigo de longa data, pai aos quarenta, me telefona para confessar que, vez por outra, não consegue “captar” o que o filho de quinze anos diz para seus companheiros de escola e diversão. Outro dia, ouviu um deles dizer que o pai dele era um cdb, sempre beliscando uma nota, nunca invocadíssimo, de bilau jamais despreparado para o lufalufa cotidiano, odiando quem dança de urso com os amigos, ficando bem longe das muvuqueiras sociais da capital nacional da juventude pimpona. E pediu explicação.
Pedi um tempo para “decifrar” o fraseado do jovem. Afinal de contas, meus dois filhos e a filha já são adultos, casados e encaminhados, de profissões definidas e tetos estabelecidos, cidadãos para minha alegria de pai envaidecido.
Meio baratinado, senti uma saudade gota serena do Mário Souto Maior, hoje na eternidade. Que foi pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e que sempre me orientava sobre palavras novas criadas por uma juventude que deveria estar sendo merecedora de mais respeito pelos dirigentes da Educação Brasileira. Consultando aqui e ali, eis que amigo pediatra me empresta um livro, que me “diplomou” na decifração do equipamento falado pelos jovens do país. Intitulado Dicionário de Gíria, de J.B. Serra e Gurgel, já em oitava edição própria, 2009, inclusive com site muito visitado (www.dicionariodegiria.com.br).
A partir do livro emprestado, “decifrei” o dito. Assim, cdb = cu de boi, trabalhador; beliscando uma nota = ganhando dinheiro; invocadíssimo = irritado; bilau = pênis; lufalufa = dia-a-dia; dançar de urso = iludir; muvuqueira = confusão; e pimpona = esbelta, bonita.
O que o jovem disse para os seus colegas pode ser assim “traduzido”: que o pai trabalhava muito, sempre ganhando algum dinheiro, nunca se irritando, atento às aventuras sexuais que apareciam, tendo raiva dos que sacaneiam com amigos e sempre distanciado das fuxicarias de uma capital possuidora de juventude bonita. Um elogio de filho pra pai, coisa meio rara nos últimos tempos, de maiores distanciamentos.
O pediatra que me emprestou o livro ressaltou que os ensaios Uma Breve História sobre os Estudos da Gíria e O Equipamento Linguístico Falado do Brasileiro, ambos do autor de J.B. Serra e Gurgel, integrando a parte inicial do volume, fortalecem a compreensão sobre o assunto temático, Modismo Linguístico Falado. Tudo tendo se iniciado a partir de O Dicionário de Calão, de Albino Lapa, datado de 1959, que resgatou os calões (gírias) da língua portuguesa a partir do século XV. No primeiro ensaio são destacadas as edições do Dicionário do Palavrão e Termos Afins, do pernambucano Mário Souto Maior, com apresentação do juiz Eliézer Rosa (a edição 1973) e prefácio de Gilberto Freyre (a publicada em 1979). O médico amigo ainda ressaltou que todo pai de adolescente deveria ser possuidor de uma obra de referência do quilate do Dicionário de Gíria, posto que, segundo ele, “através das gírias utilizadas pelos filhos, pode-se estabelecer o roteiro das suas andanças e das companhias por ele frequentadas”.
Pedi mais uma semana de prazo ao dono do dicionário. Para folhear com mais calma as setecentas e tantas páginas do “folhoso”, uma pesquisa efetivada com muita dedicação e fôlego. E aprendi mais uma lição, advinda de uma opinião emitida no livro pelo educador Arnaldo Niskier, intelectual brasileiro de notório saber: “A gíria não é um modismo linguístico utilizado apenas pelas camadas mais pobres da população. Incorporou-se aos usos e costumes do nosso vernáculo, não sendo justo qualificá-la como expressão de segunda categoria”.
Para terminar, está correto dizer que a senadora Ideli Salvatti foi com fogo no rabo (desapareceu) do plenário do Senado Federal, para fazer um curso no exterior, acompanhada de um “assessor para assuntos diversos”, que custaram muitos dólares aos cofres públicos. Ficando nós, eleitores que criticaram o descaramento, como cus de encrenca, criadores de casos.
(Publicada hoje no Jornal do Commercio, 28.10.2009, Recife-Pernambuco)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Suplicy e a cueca

Depois da irrestrita irreversibilidade, ultra-rapidamente revertida no dia seguinte, do senador Mercadante, desdizendo-se integralmente de rabichola entre as pernas, depois de ouvir a voz do seu dono, imaginava eu que nada mais vindo dos politicos brasileiros me impressionaria, hoje uma categoria que causa desprezo, quando não uma vontade imensa de neles aplicar uma baita bofetada nas urnas do próximo ano, da parte do eleitorado brasileiro consciente das suas funções cidadanizadoras.
Enganei-me redondamente, ao contemplar a fotografia do senador Eduardo Suplicy, aquele do cartão vermelho, de cueca também vermelha em pleno Congresso Nacional. Mais apatetado do que de costume, imaginando-se “super-homem”, demonstrando à mídia nacional uma acentuada senilidade, dessas encontradas nos asilos de idosos desassistidos, estes sem as remunerações taludas recebidas às custas de milhões de brasileiros.
A minha impressão, lendo depois as declarações “vitoriosas” da Sabrina Sato, aquela apresentadora metida a tampa-de-foguete que ofereceu a cueca porque desejava ver bem de perto a tão apregoada “bolsa” do Suplicy, um milhão e trocentas mil vezes anunciada por ele como “programa de renda mínima”.
O argumento utilizado pela “coxuda” Sato para o senador usar o artefato por cima das calças e em dependência do Congresso Nacional foi de uma precariedade mental acima de qualquer suspeita: “Trouxe uma coisa aqui que é só para você, que nenhum outro senador vai poder usar: a sunga do Super-Homem”. E disse mais: “Ele colocou e saiu voando comigo”. Sem perceber que a cueca não faria mesmo efeito algum, posto que ele já está “voando” há muito tempo, imaginando-se personalidade mais “ibopeada” que Tom Cavalcanti e Chico Anísio, dois talentos do humor nacional. Não percebendo, porque já situado fora dos limites mínimos da compostura, que o Congresso Nacional não é local apropriado para manifestações circenses, muito embora às vezes explicite uma imagem exatamente oposta, a de um grande picadeiro, onde pululam fatos e falas incompatíveis com o decoro parlamentar. Como ficar de cueca vermelha por cima das calças pelos corredores, tal qual o Pateta.
Para quem fica perplexo em ver um senador portando externamente uma sunga vermelha, deve ficar sabendo que o Congresso Nacional se localiza em Brasília, vulgo BSB. Capital apelidada pelos mais ácidos de Disney Brasileira. Muitos, contemplando o exibicionismo do senador em pleno Senado Federal, andam definindo aquela Casa como o maior presídio de segurança mínima do país. Verdadeira "Ilha da Fantasia", entrecortada pelo mais utilizado meio de transporte local, o Trem-da-Alegria.
Quando o senador Suplicy perceber o ridículo do seu comportamento, poderá ler reflexão de Bertrand Russel, um dos que honraram a condição de ser humano, inteligência privilegiada do século passado: “Existe um certo ascetismo do intelecto que é saudável como parte da vida, mas não poderá predominar enquanto continuarmos a ser animais empenhados na luta pela existência. O ascetismo do intelecto exige que, enquanto engajados na busca do conhecimento, saibamos conter todos os demais 'desejos' em benefício do desejo de conhecer. Creio podermos afirmar com certeza que 'todo' conhecimento é edificante, desde que tenhamos uma concepção 'correta' da edificação. Se este não for o caso, é porque temos padrões morais baseados na 'ignorância'. Dar-se-á, por feliz acaso, que um padrão moral baseado na 'ignorância' é correto, mas, em sendo assim, o conhecimento não o destruirá; se o conhecimento vier a destruí-lo, é que ele está errado. Por conseguinte, o propósito mais consciente deve ser unicamente o de compreender o mundo o mais possível, não para estabelecer esta ou aquela proposição 'julgada' moralmente adequada. Nisto, se o mundo é bom, que nos permitam então sabê-lo por todos os meios; se não é bom, deixem-nos saber também."
Encareceria apenas ao senador Suplicy a concretização de um gesto simples: a devolução da cueca vermelha para a apresentadora de televisão que o fez postar-se como manequim de lupanar. Para que os maldosos de plantão não fiquem imaginando que ele continua com a sunga se requebrando diante dos espelhos do banheiro do Congresso Nacional, imaginando-se pronto para mais uma decolagem para os interiores das urnas no próximo ano.
(Publicada, a partir de hoje, 22.10.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Diálogos da Contemporaneidade

Com o título Conselhos de Educação e Direitos Humanos: Diálogos da Contemporaneidade, o MEC, através da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, está divulgando texto elaborado por três reconhecidas inteligências – Antônio Paulo Rezende, Edla Soares e Paulo Henrique Martins – com a finalidade de discutir e debater questões pertinentes ao alargamento de uma cultura em Direitos Humanos para além das formulações educacionais restritas.
O documento é composto de três partes. Na primeira, Educação Escolar, Direitos Humanos e Conselhos, estimula a ampliação das responsabilidades dos colegiados na auditagem das estratégias imbricadoras implementadas entre o transmitir conhecimentos e o respeitar a dignidade humana dos educandos e das suas comunidades. Incentivando-os para um ir além dos aspectos decisórios meramente processuais, favorecendo a conscientização dos atores principais dos projetos educacionais: alunos, professores, dirigentes, conselheiros, famíliares e comunidades.
A segunda parte, Vida/Convivência, Direitos Humanos, Democracia e Conselhos de Educação, enaltece um agir pedagógico respaldado numa articulação compromissada como um direito inalienável de participar nos relacionamentos sociais, nas competições econômicas e nas disputas políticas, potencializando um caminhar libertador que resulte em vida abundante para todos.
Numa última parte, tão importante quanto às duas primeiras, Direitos Humanos, Sistemas de Ensino e Conselhos de Educação em Redes Associativas e Solidárias, estimula-se a emersão de uma malha dos conselhos de educação, multiplicadora de iniciativas fomentadoras do respeito aos Direitos Humanos, aqui entendidos de um modo amplo, geral e irrestrito.
Como balizamento norteador, o documento do Ministério da Educação, leia-se Secretaria Especial dos Direitos Humanos, estampa em página nobre um pensamento do escritor Ítalo Calvino (1923-1985), o “descobridor do fantástico no real”, nascido em Cuba, de pais cientistas italianos e considerado um dos mais importantes escritores do século 20: “cada vez que o reino do humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que, à maneira de Perseu, eu devia voar para outro espaço. Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob uma outra lógica, outros meios de conhecimento e controle. As imagens de leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonhos”.
Diálogos da Contemporaneidade, publicação do Programa Nacional de Capacitação de Conselheiros Municipais de Educação do MEC, é merecedor de calorosos aplausos. Por estimular uma histórica “desindividualização” dos Conselhos Municipais, num país de poucos primos ricos e muitos primos pobres, ensejando menores distanciamentos entre todos. Os textos incentivam a criação de redes articuladas entre Educação, Direitos Humanos e Conselhos de Educação, implementando uma dinâmica comunicacional através de dois tipos de redes: as Centralizadas e as Distribuídas. As primeiras definem uma estrutura que eleva um ponto (nó) a um grau de importância superior, fundamental a sua presença na ligação com os outros nós. O Programa Nacional de Capacitação deverá exercer as funções de uma Rede Centralizada, ainda que amplamente distributivista.
As Redes Distribuídas compõem uma malha, tal qual uma colmeia, tendo como objetivo primeiro o fortalecimento de todas as células, o enfraquecimento ou desmontagem de qualquer delas sendo com brevidade saneado pela contribuição solidária das demais.
As duas categorias comporiam, assim, uma Rede Social de profissionais e lideranças possuidoras de valores, equipamentos e diretrizes educacionais compartilhados, sem perda da autonomia programática de cada integrante.
Um livro que esclarece a importância da formação de Redes é da autoria do sociólogo Manuel Castells, podendo servir de alavanca aos Conselhos Estaduais e Municipais. Segundo Castells, em A Galáxia da Internet, “os usos da internet são esmagadoramente instrumentais e estritamente ligados ao trabalho, família e vida cotidiana. É uma extensão da vida como ela é, em todas as dimensões e sob todas as modalidades”. E mais ele disse: “novos desenvolvimentos tecnológicos parecem aumentar as chances de o individualismo em rede se tornar a forma dominante de sociabilidade. O desenvolvimento projetado da internet sem fio amplia as chances da interconexão personalizada para uma ampla série de situações sociais, dando assim aos indivíduos maior capacidade de reconstruir estruturas de sociabilidade de baixo para cima”.
Enaltecendo a iniciativa do Programa Nacional de Capacitação de Conselheiros Municipais de Educação e homenageando os autores do texto, aqui ressaltando a contribuição da educadora Edla Soares, notável Conselheira do Conselho Estadual de Educação de Pernambuco, ousaria oferecer duas sugestões ao MEC. A primeira, incentivar sem tibiezas a continuidade do Programa. A segunda, a de favorecer também uma capacitação dos integrantes dos Conselhos Estaduais, ensejando a integração deles aos municipais, numa efetiva REBRASIL - Rede Brasil Educação Cidadã e Direitos Humanos.
(Publicada, a partir de hoje, 19/10/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tipo Inesquecível

Outro dia, um jovem aniversariante de 75 anos, escreveu esta pérola: “Acho que a vida humana não se mede nem por batidas nem por ondas cerebrais. Somos humanos, permanecemos humanos enquanto estiver acesa em nós a chama da esperança da alegria. Desfeita a esperança da alegria, a vida perde o sentido. É isso que desejo quando acendo minha vela. Peço aos deuses que me levem quando a chama da esperança da alegria se apagar”.
O nome do jovem é Rubem Alves, que o Brasil das boas leituras conhece, aplaude e o tem como um guru muito porreta. Um escritor que exercita sua terapia através de uma sólida sabedoria, transmitida por múltiplos ensinamentos. Sem filosofês, nem aquelas afetações de olhinhos revirados e semblante bestalhão, típicas dos fingidos malabarismos transcendentais de carterinha, mais mealheiros que sementeiras.
Nos seu último livro, Desfiz 75 anos, editora Papirus, 2009, Rubem Alves aprimora com invulgar talento, sua capacidade de escrever com alegria d’alma, aquela que é mais eficaz que o simples prazer. Uma diferença por ele bem explicada: enquanto o prazer necessita de um objeto e tem um limite, a alegria só necessita da memória. Fica-se alegre somente em pensar num momento de felicidade vivenciado, jamais se saciando de uma fome de alegria. Rubem Alves é categórico: “Quem tem alegria está em paz com o universo, sente que a vida faz sentido”. E de quebra ainda cita o premiado guitarrista Norman Brown, que considera a perda da alegria uma consequência direta da ausência da simplicidade de viver, fortalecendo as pulsões do desistir, também conhecido por Tânatos, na mitologia grega.
A leitura do livro do Rubem deve ser concretizada como se ele estivesse contido num conta-gotas. Pingado bem devagar no interior de cada um, cada reflexão sendo degustada sem qualquer precipitação, os olhos percorrendo as linhas com a volúpia de quem deseja ser mais cidadão num país que necessita ser possuidor de uma distribuição de renda menos aviltante, nunca abjeta.
O texto Lições de Política detina-se aos eleitores 2010, aqueles que irão eleger os novos governados, o presidente da República, uma nova Câmara de Deputados e uma parte do Senado Federal, os dois últimos integrantes de um Congresso Nacional que urge ser solidamente higienizado pelos eleitores de todos os rincões. Apenas um ítem, como amostra: “’Todos os cidadãos são livres e têm o direiro de exercer a sua liberdade’. As galinhas são vegetarianas e têm o direito de comer milho. As raposas são carnívoras e têm o direito de comer as galinhas”.
Os textos do livro do Rubem Alves possuem, no final de cada um, reflexões de duas admirações suas: Fernando Pessoa e Miguel de Unamuno. Duas delas, uma de cada um, respectivamente: “Dói-me na inteligência que alguém julgue que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana” ; e “Talvez que a imensa via-láctea, por nós contemplada nas noites claras, esse enorme anel do qual nosso sistema planetário não é mais do que uma molécula, não seja por sua vez, mais que uma célula do Universo do Corpo de Deus”. E muito vale a pena ler e reler o parecer por ele redigido, a pedido da reitoria da UNICAMP, sobre o educador Paulo Freire. Um primor de não-parecer, sem burocratês, nem academiquês pedantocrático.
A última página do livro é inesquecível para os que postulam uma evolução com radical respeito pelo meio ambiente. Uma página-bofetada aplicada nos prefeitos “modernosos”, que menosprezam o verde que não asfixia, favorecendo espigões que estrangulam sadios desenvolvimentos urbanos e ampliam congestionamentos, muros e medos. Intitulada Árvores, sinal de atraso ..., a crônica conta a história de uma cidade, cujo prefeito, de imbecibilidade ampliada por uma auto-proclamada empáfia – “O Município é eu” - estimulou o corte de árvores para que a cidade se tornasse melhor apreciada pelos situados nos altos.
(Publicada hoje no Jornal do Commercio, 14.10.2009, Recife-Pernambuco)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Abecedário da Crise

Aluna antenada de Administração me encarece uma bibliografia sobre a crise financeira mundial, apelidada meses atrás de “marolinha” por mandatário pródigo em acarinhar elites quando longe das massas, sempre que possível próximo dos sem-nada como paizão único e indispensável. Um político que binoculiza com competência muitos furos acima da sua agremiação partidária e dos seus descriativos opositores.
Confessando o meu distanciamento das Ciências Econômicas, comprometi-me a coletar indicações de especialistas vários do Curso de Economia da UFPE, um dos mais conceituados do país. E a indicação foi auspiciosa: uma seleção organizada pelo jornalista Sérgio Sister, enfeixada num pequeno livro chamado O abc da crise, Fundação Perseu Abramo, 2009.
Com menos de duzentas páginas, o livro fornece uma boa fotografia sobre o furacão financeiro que assolou o mundo em setembro do ano passado, volatilizando alguns trilhões de dólares a partir do centro nervoso do capitalismo mundial. Um tsumani financeiro que até mereceu um sagaz comentário do ex-poderoso ministro Delfim Netto, no jornal O Globo de 20 de setembro último: “As crises são próprias ao capitalismo. Nos últimos 150 anos, houve 42 crises. Umas maiores, outras menores. Esta foi diferente no sentido de que foi uma crise de omissão do Estado. Criou-se a mitologia de que o mercado era perfeito, resolveria sozinho qualquer problema. O mercado é um instrumento poderosíssimo, mas precisa de regras. Não há mercado sem Estado forte, justamente para garantir seu funcionamento. Não houve só um fracasso dos economistas. Houve um fracasso, na verdade, da orientação da teoria econômica”.
Com um exemplar nas mãos, uma leitura de fim de semana confirmou a excelência do lançamento. O pequeno livro analisa com clareza as diversas facetas da crise, suas origens, a ampliação das desigualdades causadas e as alternativas de superação. Na Introdução, o jornalista Sérgio Sister esclarece o objetivo dos textos: “contribuir para a compreensão da crise econômica e financeira que se abateu sobre o mercado financeiro norte-americano e que se alastrou pelo mundo, com força de um tsumani a partir de setembro de 2008”. E ressalta: “uma parte importante dos acontecimentos, talvez a maioria deles, foi ocorrendo sem que as pessoas se dessem muita conta do que estavam fazendo. São como que forças cegas, misturadas com oportunismo, empreendedorismo, altruísmo, malandragem, boa e má fé”.
As análises apresentadas nos ensaios estão sob um foco não-liberal, efetivadas por especialistas que não acreditam na crença da mão invisível do mercado. E a justificação da descrença é correta: “o pensamento liberal que imperou durante anos e anos, desde a década de 1980, hoje se atira aos pés do Estado, pedindo ajuda para cobrir rombos de bancos, oferecer créditos e impulsionar empresas e setores inteiros ameaçados de quebra e extinção.”
Alguns textos devem ser lidos com redobrada atenção: os do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, docente da UNICAMP, e os de Paul Krugman, Prêmio Nobel Paul de Economia 2008, um dos mais aplaudidos economistas norte-americanos. O primeiro ressalta que o problema também deve ser observado com as antenas voltadas para o próprio umbigo nacional, onde “ligada a ignição da ganância infecciosa, os tripulantes não podem brecar o expresso da alegria, até o comboio descarrilar”. E o segundo adverte sobre os sinais óbvios que antecedem as catástrofes financeiras, onde desresgulamentações generosas provocam bancarrotas em cascatas, gerando “soluções esparadrapos” que imobilizam os traumas, sem atentar para as causas estruturais dos estragos provocados.
O sociólogo Francisco de Oliveira, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, anuncia com lucidez, no seu texto Criar Cinco Embraer por Ano, a estratégia política para a superação da crise: “é uma questão delicada para ser tratada num debate aberto; sem oficialismos de uns nem preconceitos de outros. A história brasileira repete um impasse do desenvolvimento que não pode ser respondido com uma farsa porque seu resultado seria uma tragédia. Dessa vez o que se vislumbra como possível, repito, é fazer por baixo, bases sociais existentes, e organizações disponíveis, aquilo que nos anos 1930 e nos anos 1950 se fez por cima: destravar o desenvolvimento e expandir o mercado interno. É preciso tratar isso com cuidado, insisto, sem oficialismos do PT, sem o sectarismo do PSOL e do PSTU”.
Eu apenas acrescentaria uma coisinha à reflexão do Chico Oliveira: também destravar o desenvolvimento nacional sem os “messianismos ambientalistas” dos que, portando aloprados coletes verdejantes, se postam de detentores de uma panaceia para as desigualdades regionais brasileiras. Sem nem perceberam em que areias movediças estão se afundando.
PS. A ministra-candidata Dilma Rousseff afirmou recentemente, em entrevista-marketing, que a ideia do Estado Mínimo é falida. Sou favorável ao fortalecimento de um Estado Cidadão, necessário para coibir inchamentos estatais inconsequentes, também emulando iniciativas empreendedoras privadas socialmente responsáveis. Com Educação Pública de qualidade, sem fingimentos embromatórios.
(Publicada, a partir de hoje, 12/10/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Bussolamentos do João

Tão logo esmaeceram as comemorações pela escolha do Brasil para sediar as Olimpíadas 2016, no Rio de Janeiro, uma vitória indiscutível do presidente Lula, as rinhas políticas se ampliaram, preliminares 3x4 das refregas eleitorais 2010.
Nas comemorações havidas na Praça da Casa Forte, um lanche taludo aconteceu com o amigo João Silvino da Conceição, na manhã seguinte ao anúncio que alegrou milhões de brasileros e um montão de cariocas na praia de Copacabana. O João, que nunca foi de ficar de costas, sempre acompanhado de seus rabiscos em papel pautado, sua desolímpica sabedoria manifesta numa às vezes pouco sutil capacidade de enviar recados para gregos e troianos, independentemente dos saldos bancários, sobrenomes, níveis neuroniais ou neurológicos dos agraciados.
Sem a sua amada Dona Conceição, sete-arrobas morenas generosamente distribuídas e que muito bem nele satisfazem cabeça, tronco e membros há três décadas, aproveitou ele o lanche para me mostrar uns escritos reflexivos destinados aos futuros eleitos de todo Brasil. Sem a mínima preocupação de agradar siglas e gêneros. Nem os vereadores da PEC.
Os escritos do João Silvino me cativam pela sua sinceridade. Longe de ser um intelectual preparado, ele manifesta sua criatividade de maneira arguta, sem qualquer meio mas. Sem complicações hermenêuticas, tampouco simploriedades levianas. E sem abdicar de uma cidadania vinculada a uma responsabilidade social que busca transformar promessas em realidades, dando o melhor de si em qualquer circunstância.
Eis as “recomendações” do Silvino para todos os eleitos:
1. Um princípio não deve ser nunca olvidado: "em toda democracia, as respostas são difíceis diante de uma demanda facilmente induzida". E numa sociedade brutalmente injusta como a nossa, muitas pessoas desejarão respostas imediatas para seus problemas, requerendo uma gerência competente nas conflitividades estabelecidas.
2. Manifestações legítimas podem ficar empanadas por exteriorizações anarcoesculhambativas de grupelhos que apenas desejam emporcalhar o exercício da Cidadania Brasileira e as representações eleitas, só para tirar proveitos futuros, quando, para tais marginais, o xilindró seria o destino mais apropriado. Inclusive para os que, criminosamente, destroem laranjais.
3. Caridade é bonita. Aproveitamento da miséria dos outros é coisa bem diferente de uma efetiva pedagogia cidadã. Denegrir iniciativas passadas, hoje copiadas sem a menor cerimônia, é prova cabal de cretinice para os mais conscientes.
4. Participando todos de um único cosmo, nele estão refletidas esperanças, conquistas e humilhações. O adesismo cínico é tão grotesco quanto ingenuamente imaginar que alguns episódios e personalidades estrovengas do passado não poderão retornar jamais.
5. Quem só possuir apenas uma visão "economicista" jamais acreditará nas potencialidades do Ser Humano como construtor de amanhãs. A reflexão do saudoso Celso Furtado é sempre relevante: “O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Mas será que o triângulo é retângulo?”
6. Crítica política é uma coisa, chafurdices são outros quinhentos reais. Debates consistentes edificam a consolidação das cidadanias coletivas. Troca de desaforos ou entrevistas bem arrumadas nos meios de comunicação só engabelam os que ainda acreditam em Perna Cabeluda e Cumade Fulôzinha.
7. O Cristóvam Buarque, um pernambucano competente e de honorabilidade comprovada, sabe das coisas: "O caminho não está em repudiar o socialismo, ou ficar na crítica ao neoliberalismo. Mas em entender a dimensão da crise, perceber a realidade da luta de interesses e oferecer alternativas que incorporem as massas, sem perder o apoio das camadas que são assalariadas, mas que já participam do bem-estar do país moderno que é o Brasil".
8. Em qualquer circunstância, seguir o receituário de Lao-Tsé, reagindo inteligentemente mesmo diante dos tratamentos não inteligentes.
9. Durante o mandato exercido com dignidade, perceber, como Aldous Huxley, que “experiência não é aquilo que acontece com o homem; é o que o homem faz com aquilo que acontece com ele.”
10. E entender que a crise maior, nos últimos tempos, não é econômico-financeira. É uma crise de percepção, onde muitas das peças do xadrez político ainda não perceberam a existência de inúmeros pontos de um caminhar conjunto, para o fortalecimento do regime democrático através da ampliação da igualdade social.
No mais, disse João Silvino, é desejar sorte aos futuros eleitos, representantes legítimos de um brasileiríssimo processo gradativo de desoligarquização regional. Com o meio ambiente nunca sendo fingidamente utilizado como mecanismo eleitoreiro para anestesiamento dos tolos.
(Publicada, a partir de hoje, 08.10.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

sábado, 3 de outubro de 2009

Mar adentro

Quando das comemorações da entrada em um novo século, também milênio, recordo desafio feito ao mundo romano pelo carismático papa João Paulo II, uma liderança cristã incontestável: o de remar mar adentro, “recordando com gratidão o passado, vivendo com paixão o presente e abrindo-se com confiança ao futuro”.
Os objetivos daquele pontífice convergiam para o fortalecimento dos compromissos espirituais e pastorais da sua igreja, muito embora o seu desafio pudesse ser estendido às denominações cristãs e demais religiões da terra. Um desafio possuidor de uma intenção basilar, a de ampliar uma espiritualidade pastoral século XXI muito além dos avanços tecnológicos e dos métodos sofisticados da comunicação pós-moderna.
Por um novo dinamismo espiritual para sua igreja, eis a manifestação explicitada por João Paulo II nos primeiros degraus deste novo século, sem o qual a sua igreja se tornaria, cada vez mais, uma bolorenta empresa prestadora de serviços religiosos. Tanto ela, como as demais agremiações religiosas, a grande maioria mais envolvida com a captação de recursos das ovelhas que com uma evangelização libertadora capaz de bem cidadanizar os necessitados do robustecimento do binômio imanência x transcendência, para que todos tenham vida e vida em abundância, segundo o sonho joanino (Jo 10,10).
Se me perguntassem quais os principais “pecados capitais” das pastorais que sobrepairam a pós-modernidade, ousaria enumerar aqueles que mais estão afetando os mais diferenciados rincões religiosos, macro e microrregionalmente. O primeiro deles é o do ativismo, guiado por impulsos quase patológicos, efetivando iniciativas sem tom nem som, improvisadas, relegadas as reconstruções necessárias, indispensáveis. Como se o Oiapoque fosse igual a Nova York.
Um segundo pecado é o do falso messianismo, que consiste em agir como se a missão primeira fosse a gestão dos bens materiais da sua diocese ou paróquia, descuidando-se da edificação do Reino. Primeiro a corte e o cofre, depois o coração.
A cegueira culpável é o terceiro dos pecados capitais. Os que se imaginam acima do bem e do mal frequentemente nele incorrem, nunca percebendo o que há de desastroso em suas atividades, posto que, não sendo pastores, estão impregnados de auto-suficiência, de orgulho disfarçado, de inveja miúda, tornando-se tão somente preocupados com sua pomposidade litúrgica e os pronunciamentos recheados de duvidosa erudição. Além disso, nada entendem de conflitividade, preferindo o bajulismo dos oportunistas aos alertas dos independentes.
A esterilidade talvez seja o pecado que mais ressalta uma inexpressividade pastoral. O profeta Isaías já denunciava as uvas azedas (Is 5,1-7), condenando aqueles que não dão vida ao seu rebanho, dele se aproveitando para benefícios próprios, os interesses pessoais muitos furos acima dos coletivos, ainda que efetivados por debaixo dos panos.
Falar no idealismo ingênuo como pecado é redundância para muitos seguidores do Homão da Galileia. Todo idealista ingênuo critica amarga e duramente a hierarquia, as estruturas, utilizando instrumentos que não nascem da fé, muito menos do amor. Denotando ressentimentos pedradores das intenções construtoras.
Por fim, o despotismo, a inveja e o ciúme são os últimos “pecados capitais” da seleção feita. O despotismo é praticado por aquele que “sente-se dono das pessoas, do grupo ou comunidade, da paróquia ou diocese, acreditando que sempre tem razão”. A inveja, intrínseca à personalidade de inúmeros religiosos, afasta-os do acontecido com Saul (1Sm 18, 6-9), tornando-se o mais relevante impecilho de uma atuação mais integrada das lideranças leigas. E o ciúme, pior nos homens que nas mulheres, creio eu, é mais rancoroso nas cúpulas eclesiásticas que no “chão da fábrica”.
Travar o bom combate, eis o balizamento para gregos e troianos que acreditam na mensagem do Homão da Galileia, aquele filho amado de Maria e José, que um dia nos repassou uma dica maravilhosa, a de amarmos uns aos outros, sem qualquer salamaleque nem fuxicação.
PS. Um abraço de parabéns no Rev. Paulo Garcia pelo seu setentenário, externado esta semana em inúmeros outdoors da capital pernambucana.