Recentemente, uma frase me despertou a atenção, fazendo-me rir aos borbotões diante das peripécias artístico-mercadológicas dos que se imaginam rolha de champanhe de fino trato, revelando-se cortiça de garrafa de cachaça sem brio: “Há muitas pessoas a quem a vaidade faz falar grego, e, até, por vezes, uma língua que não entendem”. Seu autor, Nicolas Malebranche (1638-1715), um filósofo e sacerdote francês, costumava ressaltar a necessidade de denunciar sempre os erros e suas causas, partissem eles de qualquer instância. Também ele se pronunciava vez por outra sobre as doutrinas quietistas, aquelas muito próprias dos que, em seus cantinhos de quase nada, persistem em viver acríticos em relação aos superiores, por acomodação, bajulismo ou vencimentos.
O filósofo acima citado, autor de De la recherche de la vérité (Da Procura da Verdade), dizia haver dois modos distintos de ler os autores. Um muito útil, quando se debruça sobre o que é lido, com coração e mente, situando-se e datando-se sobre o proposto. O outro, quando examinamos apenas superficialmente a exposição feita, por inépcia, hermetismo do expositor ou ausência mínima de vontade de queimar as pestanas.
Lamentavelmente, em nosso país, o vexaminoso revela-se a cada dia mais presente nos mais diferenciados setores da vida brasileira, inclusive o eclesiástico. Inúmeras vezes sob as vistas complascentes dos líderes, que preferem um yes-man, um sim, senhor, tal e qual uma lagartixa, com suas lâminas adesivas nos dedos, para melhor grudar-se nas partes sensíveis dos que apreciam adulações, pouco se lixando para os trejeitos explicitados.
Mas há certas leituras que recuperam esperanças, retemperam ânimos, “lavam a burra” (expressão muito nordestina) dos que se sentem observados de soslaio pelos aduladores de plantão, portadores do complexo de vira-lata, patologia já devidamente identificada por gente muito famosa, inclusive da área filosofal: “Onde está o valor interior, se não sabem mais o que significa respirar livremente?” (Nietzsche).
Afirmo sem titubeios que uma das leituras mais proveitosas para mim, nos últimos tempos, manifestou-se em forma de um livro enviado com dedicatória cativante. Entre o Púlpito e a Universidade – Sermões e Homilias de um Professor de Teologia, de Carlos Eduardo Calvani, sacerdote e teólogo anglicano, atualmente coordenador do Centro de Estudos Anglicanos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (www.centroestudosanglicanos.com.br), também membro-fundador da Sociedade Paul Tillich do Brasil (www.angelfire.com/sc/paultillich). Editado pela ASTE – Associação de Seminário Teológicos Evangélicos (www.aste.org.br), atualmente sob a competente direção-executiva de Fernando Bortolleto Filho, o livro tem uma apresentação de Dom Sumio Takatsu, bispo anglicano já eternizado, para quem “o autor desta coletânea abre seu coração diante de sua comunidade e para nós, por meio destas páginas. Em todos os sermões podemos perceber seu convite aos paroquianos e a todos quantos os lerem para tratar com integridade o testemunho da Palavra eterna nas palavras humanas históricas, para aplicação da mensagem com relevância na vida das pessoas, em diálogo com as preocupações e acontecimentos humanos dentro da cultura que respiramos”.
Em suas primeiras palavras aos leitores, Calvani revela de saída a dificuldade de alguns professores de teologia, também pastores, no trânsito entre o mundo acadêmico e o ambiente litúrgico. E diz que “há colegas que elaboram sermões como se fossem aulas e artigos”. Talvez para exposição numa das páginas do Estandarte Cristão, penso eu em voz alta para os meus também serelepes botões da camisa.
Elaborados para serem proclamados em situações específicas, os sermões e as homilias do Rev. Carlos Calvani me deixaram mais esperançoso num Anglicanismo reavivado, mais evangélico, cada diocese brasileira discutindo, nestes tempos acinzentados de Lambeth 2008, a estratégia da sedução evangelizadora mais apropriada, abstraídas as preocupações excessivas com quantitativos, saldo final, fotos, filmagens marqueteiras e outras “preciosidades egolátricas”, “quando a missão da Igreja deva ser basicamente o testemunho dos atos de Deus em Cristo”. Sem holofotagens desnecessárias, sem orgulhos nem vaidades, nunca perpetuando a infantilização das ovelhas, favorecendo sua migração de uma transitividade-ingênua para uma transitividade-crítica, utilizando os conceitos paulofreireanos da sua Educação Libertadora.
Os textos do Rev. Carlos Eduardo Calvani se destinam para todos aqueles que sabem bem diferenciar pastores e lobos. Estes últimos preocupados apenas em se comportarem como prima-donas, repletos de projetos pessoais, portadores de vaidades especiais e agendas secretas, marqueteiros por excelência, sempre se levando integralmente a sérios como donos absolutos da verdade.
Senti-me mais anglicano, até trans-religioso, lendo de um só fôlego o presentaço que me foi enviado por irmão anglicano. Percebendo-me cada vez mais à mercê da misericórdia do Homão, quando em seu texto sobre Missão, baseado em Jeremias 20,7-13, Calvani declara corajosamente que “muitos padecem da nostalgia de um passado de Cristandade no qual a voz da Igreja era temida e respeitada”. E ele cita a estória do Pequeno Príncipe, aquele personagem de Antoine de Saint-Exupéry, quando a raposinha lhe comunica que não foi cativada ainda, definindo o que seria cativar para o principezinho: ”É criar laços. Se você me cativar, sentiremos falta um do outro”. Um laço fraternal, sem pretensão alguma a cabresto, posto que “cativar é um ato mágico”, sem segundas intenções, nem estratégias de controle. Cativar é ser companheiro, tal e qual o par descrito pelo Chico Buarque de Holanda, em Valsinha, letra transcrita no texto Missões, sem preocupação alguma de escandalizar os que tentam ananicar o desenvolvimento dos filhos da Criação. Vocacionados para cabritos antenados e fiéis, nunca ovelhas acomodadas, olhinhos baixos, em tempo algum se percebendo Irmãos do Filho do Dono.
Ler o livro do Calvani é investimento para toda a Igreja. Imbrica fé e práxis com três ditos de Wittgenstein: “O talento é uma fonte da qual constantemente brota água fresca. Mas esta fonte, se não for usada de uma maneira correta, perde seu valor”; “Uma boa parábola refresca o entendimento”; “É difícil indicar um caminho para um míope”.
Os sermões e homilias de Carlos Eduardo Calvani fazem recordar o diálogo de Felipe com o Etíope, contido nos Atos dos Apóstolos (8,30-31). Pergunta e resposta que encerram grandezas de ambos os lados, o primeiro buscando ampliar o enxergar do segundo, o último desejando orientar-se com alguém em quem pudesse depositar confiança.
Ganhei um presente muito arretado. Que o Homão da Galiléia prossiga cubrindo de infinitas bênçãos quem me enviou o primoroso livro. De autor gota serena de muito ótimo.
O filósofo acima citado, autor de De la recherche de la vérité (Da Procura da Verdade), dizia haver dois modos distintos de ler os autores. Um muito útil, quando se debruça sobre o que é lido, com coração e mente, situando-se e datando-se sobre o proposto. O outro, quando examinamos apenas superficialmente a exposição feita, por inépcia, hermetismo do expositor ou ausência mínima de vontade de queimar as pestanas.
Lamentavelmente, em nosso país, o vexaminoso revela-se a cada dia mais presente nos mais diferenciados setores da vida brasileira, inclusive o eclesiástico. Inúmeras vezes sob as vistas complascentes dos líderes, que preferem um yes-man, um sim, senhor, tal e qual uma lagartixa, com suas lâminas adesivas nos dedos, para melhor grudar-se nas partes sensíveis dos que apreciam adulações, pouco se lixando para os trejeitos explicitados.
Mas há certas leituras que recuperam esperanças, retemperam ânimos, “lavam a burra” (expressão muito nordestina) dos que se sentem observados de soslaio pelos aduladores de plantão, portadores do complexo de vira-lata, patologia já devidamente identificada por gente muito famosa, inclusive da área filosofal: “Onde está o valor interior, se não sabem mais o que significa respirar livremente?” (Nietzsche).
Afirmo sem titubeios que uma das leituras mais proveitosas para mim, nos últimos tempos, manifestou-se em forma de um livro enviado com dedicatória cativante. Entre o Púlpito e a Universidade – Sermões e Homilias de um Professor de Teologia, de Carlos Eduardo Calvani, sacerdote e teólogo anglicano, atualmente coordenador do Centro de Estudos Anglicanos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (www.centroestudosanglicanos.com.br), também membro-fundador da Sociedade Paul Tillich do Brasil (www.angelfire.com/sc/paultillich). Editado pela ASTE – Associação de Seminário Teológicos Evangélicos (www.aste.org.br), atualmente sob a competente direção-executiva de Fernando Bortolleto Filho, o livro tem uma apresentação de Dom Sumio Takatsu, bispo anglicano já eternizado, para quem “o autor desta coletânea abre seu coração diante de sua comunidade e para nós, por meio destas páginas. Em todos os sermões podemos perceber seu convite aos paroquianos e a todos quantos os lerem para tratar com integridade o testemunho da Palavra eterna nas palavras humanas históricas, para aplicação da mensagem com relevância na vida das pessoas, em diálogo com as preocupações e acontecimentos humanos dentro da cultura que respiramos”.
Em suas primeiras palavras aos leitores, Calvani revela de saída a dificuldade de alguns professores de teologia, também pastores, no trânsito entre o mundo acadêmico e o ambiente litúrgico. E diz que “há colegas que elaboram sermões como se fossem aulas e artigos”. Talvez para exposição numa das páginas do Estandarte Cristão, penso eu em voz alta para os meus também serelepes botões da camisa.
Elaborados para serem proclamados em situações específicas, os sermões e as homilias do Rev. Carlos Calvani me deixaram mais esperançoso num Anglicanismo reavivado, mais evangélico, cada diocese brasileira discutindo, nestes tempos acinzentados de Lambeth 2008, a estratégia da sedução evangelizadora mais apropriada, abstraídas as preocupações excessivas com quantitativos, saldo final, fotos, filmagens marqueteiras e outras “preciosidades egolátricas”, “quando a missão da Igreja deva ser basicamente o testemunho dos atos de Deus em Cristo”. Sem holofotagens desnecessárias, sem orgulhos nem vaidades, nunca perpetuando a infantilização das ovelhas, favorecendo sua migração de uma transitividade-ingênua para uma transitividade-crítica, utilizando os conceitos paulofreireanos da sua Educação Libertadora.
Os textos do Rev. Carlos Eduardo Calvani se destinam para todos aqueles que sabem bem diferenciar pastores e lobos. Estes últimos preocupados apenas em se comportarem como prima-donas, repletos de projetos pessoais, portadores de vaidades especiais e agendas secretas, marqueteiros por excelência, sempre se levando integralmente a sérios como donos absolutos da verdade.
Senti-me mais anglicano, até trans-religioso, lendo de um só fôlego o presentaço que me foi enviado por irmão anglicano. Percebendo-me cada vez mais à mercê da misericórdia do Homão, quando em seu texto sobre Missão, baseado em Jeremias 20,7-13, Calvani declara corajosamente que “muitos padecem da nostalgia de um passado de Cristandade no qual a voz da Igreja era temida e respeitada”. E ele cita a estória do Pequeno Príncipe, aquele personagem de Antoine de Saint-Exupéry, quando a raposinha lhe comunica que não foi cativada ainda, definindo o que seria cativar para o principezinho: ”É criar laços. Se você me cativar, sentiremos falta um do outro”. Um laço fraternal, sem pretensão alguma a cabresto, posto que “cativar é um ato mágico”, sem segundas intenções, nem estratégias de controle. Cativar é ser companheiro, tal e qual o par descrito pelo Chico Buarque de Holanda, em Valsinha, letra transcrita no texto Missões, sem preocupação alguma de escandalizar os que tentam ananicar o desenvolvimento dos filhos da Criação. Vocacionados para cabritos antenados e fiéis, nunca ovelhas acomodadas, olhinhos baixos, em tempo algum se percebendo Irmãos do Filho do Dono.
Ler o livro do Calvani é investimento para toda a Igreja. Imbrica fé e práxis com três ditos de Wittgenstein: “O talento é uma fonte da qual constantemente brota água fresca. Mas esta fonte, se não for usada de uma maneira correta, perde seu valor”; “Uma boa parábola refresca o entendimento”; “É difícil indicar um caminho para um míope”.
Os sermões e homilias de Carlos Eduardo Calvani fazem recordar o diálogo de Felipe com o Etíope, contido nos Atos dos Apóstolos (8,30-31). Pergunta e resposta que encerram grandezas de ambos os lados, o primeiro buscando ampliar o enxergar do segundo, o último desejando orientar-se com alguém em quem pudesse depositar confiança.
Ganhei um presente muito arretado. Que o Homão da Galiléia prossiga cubrindo de infinitas bênçãos quem me enviou o primoroso livro. De autor gota serena de muito ótimo.
