sexta-feira, 27 de junho de 2008

Um Presente Muito Arretado

Recentemente, uma frase me despertou a atenção, fazendo-me rir aos borbotões diante das peripécias artístico-mercadológicas dos que se imaginam rolha de champanhe de fino trato, revelando-se cortiça de garrafa de cachaça sem brio: “Há muitas pessoas a quem a vaidade faz falar grego, e, até, por vezes, uma língua que não entendem”. Seu autor, Nicolas Malebranche (1638-1715), um filósofo e sacerdote francês, costumava ressaltar a necessidade de denunciar sempre os erros e suas causas, partissem eles de qualquer instância. Também ele se pronunciava vez por outra sobre as doutrinas quietistas, aquelas muito próprias dos que, em seus cantinhos de quase nada, persistem em viver acríticos em relação aos superiores, por acomodação, bajulismo ou vencimentos.
O filósofo acima citado, autor de De la recherche de la vérité (Da Procura da Verdade), dizia haver dois modos distintos de ler os autores. Um muito útil, quando se debruça sobre o que é lido, com coração e mente, situando-se e datando-se sobre o proposto. O outro, quando examinamos apenas superficialmente a exposição feita, por inépcia, hermetismo do expositor ou ausência mínima de vontade de queimar as pestanas.
Lamentavelmente, em nosso país, o vexaminoso revela-se a cada dia mais presente nos mais diferenciados setores da vida brasileira, inclusive o eclesiástico. Inúmeras vezes sob as vistas complascentes dos líderes, que preferem um yes-man, um sim, senhor, tal e qual uma lagartixa, com suas lâminas adesivas nos dedos, para melhor grudar-se nas partes sensíveis dos que apreciam adulações, pouco se lixando para os trejeitos explicitados.
Mas há certas leituras que recuperam esperanças, retemperam ânimos, “lavam a burra” (expressão muito nordestina) dos que se sentem observados de soslaio pelos aduladores de plantão, portadores do complexo de vira-lata, patologia já devidamente identificada por gente muito famosa, inclusive da área filosofal: “Onde está o valor interior, se não sabem mais o que significa respirar livremente?” (Nietzsche).
Afirmo sem titubeios que uma das leituras mais proveitosas para mim, nos últimos tempos, manifestou-se em forma de um livro enviado com dedicatória cativante. Entre o Púlpito e a Universidade – Sermões e Homilias de um Professor de Teologia, de Carlos Eduardo Calvani, sacerdote e teólogo anglicano, atualmente coordenador do Centro de Estudos Anglicanos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (www.centroestudosanglicanos.com.br), também membro-fundador da Sociedade Paul Tillich do Brasil (www.angelfire.com/sc/paultillich). Editado pela ASTE – Associação de Seminário Teológicos Evangélicos (www.aste.org.br), atualmente sob a competente direção-executiva de Fernando Bortolleto Filho, o livro tem uma apresentação de Dom Sumio Takatsu, bispo anglicano já eternizado, para quem “o autor desta coletânea abre seu coração diante de sua comunidade e para nós, por meio destas páginas. Em todos os sermões podemos perceber seu convite aos paroquianos e a todos quantos os lerem para tratar com integridade o testemunho da Palavra eterna nas palavras humanas históricas, para aplicação da mensagem com relevância na vida das pessoas, em diálogo com as preocupações e acontecimentos humanos dentro da cultura que respiramos”.
Em suas primeiras palavras aos leitores, Calvani revela de saída a dificuldade de alguns professores de teologia, também pastores, no trânsito entre o mundo acadêmico e o ambiente litúrgico. E diz que “há colegas que elaboram sermões como se fossem aulas e artigos”. Talvez para exposição numa das páginas do Estandarte Cristão, penso eu em voz alta para os meus também serelepes botões da camisa.
Elaborados para serem proclamados em situações específicas, os sermões e as homilias do Rev. Carlos Calvani me deixaram mais esperançoso num Anglicanismo reavivado, mais evangélico, cada diocese brasileira discutindo, nestes tempos acinzentados de Lambeth 2008, a estratégia da sedução evangelizadora mais apropriada, abstraídas as preocupações excessivas com quantitativos, saldo final, fotos, filmagens marqueteiras e outras “preciosidades egolátricas”, “quando a missão da Igreja deva ser basicamente o testemunho dos atos de Deus em Cristo”. Sem holofotagens desnecessárias, sem orgulhos nem vaidades, nunca perpetuando a infantilização das ovelhas, favorecendo sua migração de uma transitividade-ingênua para uma transitividade-crítica, utilizando os conceitos paulofreireanos da sua Educação Libertadora.
Os textos do Rev. Carlos Eduardo Calvani se destinam para todos aqueles que sabem bem diferenciar pastores e lobos. Estes últimos preocupados apenas em se comportarem como prima-donas, repletos de projetos pessoais, portadores de vaidades especiais e agendas secretas, marqueteiros por excelência, sempre se levando integralmente a sérios como donos absolutos da verdade.
Senti-me mais anglicano, até trans-religioso, lendo de um só fôlego o presentaço que me foi enviado por irmão anglicano. Percebendo-me cada vez mais à mercê da misericórdia do Homão, quando em seu texto sobre Missão, baseado em Jeremias 20,7-13, Calvani declara corajosamente que “muitos padecem da nostalgia de um passado de Cristandade no qual a voz da Igreja era temida e respeitada”. E ele cita a estória do Pequeno Príncipe, aquele personagem de Antoine de Saint-Exupéry, quando a raposinha lhe comunica que não foi cativada ainda, definindo o que seria cativar para o principezinho: ”É criar laços. Se você me cativar, sentiremos falta um do outro”. Um laço fraternal, sem pretensão alguma a cabresto, posto que “cativar é um ato mágico”, sem segundas intenções, nem estratégias de controle. Cativar é ser companheiro, tal e qual o par descrito pelo Chico Buarque de Holanda, em Valsinha, letra transcrita no texto Missões, sem preocupação alguma de escandalizar os que tentam ananicar o desenvolvimento dos filhos da Criação. Vocacionados para cabritos antenados e fiéis, nunca ovelhas acomodadas, olhinhos baixos, em tempo algum se percebendo Irmãos do Filho do Dono.
Ler o livro do Calvani é investimento para toda a Igreja. Imbrica fé e práxis com três ditos de Wittgenstein: “O talento é uma fonte da qual constantemente brota água fresca. Mas esta fonte, se não for usada de uma maneira correta, perde seu valor”; “Uma boa parábola refresca o entendimento”; “É difícil indicar um caminho para um míope”.
Os sermões e homilias de Carlos Eduardo Calvani fazem recordar o diálogo de Felipe com o Etíope, contido nos Atos dos Apóstolos (8,30-31). Pergunta e resposta que encerram grandezas de ambos os lados, o primeiro buscando ampliar o enxergar do segundo, o último desejando orientar-se com alguém em quem pudesse depositar confiança.
Ganhei um presente muito arretado. Que o Homão da Galiléia prossiga cubrindo de infinitas bênçãos quem me enviou o primoroso livro. De autor gota serena de muito ótimo.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Ensinamentos Valiosos

Quando concluí a leitura, nos feriados juninos acontecidos por todo o Nordeste, de uma coletânea de ensaios editada pela Paulinas, muito ampliei minha compreensão sobre a realidade social e eclesial da América Latina e do Caribe. Com suas múltiplas transformações, umas progressistas, outras visivelmente protelatórias, o processo todo provocando atordoamentos os mais diferenciados na vida da nossa gente.
Em parceria com a SOTER - Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, o livro Caminhos da Igreja na América Latina e no Caribe – Novos Desafios, Paulinas-SOTER, 2006, congrega especialistas renomados: Franz J. Hinkelammert, Chico Whitaker, Otto Maduro, Jon Sobrino, José Comblin, Gustavo Gutiérrez, Ronald Muñoz, Marcelo Barros, Pablo Richard e Maria Clara Lucchetti Bingemer, entre tantos outros merecedores de nossos mais calorosos entusiasmos.
As reflexões do filósofo Otto Maduro, sobre Fundamentalismos, é oportuníssima, quando se observa o termo sendo empregado como referência aos outros, aos que pensam diferentemente da gente. Ele mostra como o termo surgiu e como os significados de fundamentalismo e fundamentalista se alteraram com a história e a geografia, sendo palavras com pouco mais de um século de existência.
A explanação de Otto Maduro, PhD pela Universidade de Louvain, Bélgica, me fez recordar a história daquele religioso nordestino, puritanoso e moralista, que fez um barulho dos seiscentos diabos numa barbearia lisboeta, que portava em sua fachada uma faixa de bom tamanho, anunciando CORTA-SE CABELO E PINTO. Sendo esclarecido que o pinto vinha do verbo pintar, o moralista saiu de fininho, cabeça baixa, mortinho de vergonha e trajetória.
Outro ensaio relevante é da cabeça muito bem pensante do teólogo José Comblin, um dos mais atuantes expoentes da teologia da libertação, atualmente residindo na Paraíba, Nordeste do Brasil. Seu texto Os Pobres da Igreja Latino-americana ressalta, logo no seu início, que o tema pobres não é criação latina, posto que ocupa posição de destaque em todo o Novo Testamento, sendo ainda profeticamente anunciado no Primeiro Testamento. Nos dois testamentos, sendo exigido dos poderosos plena justiça para os excluídos, nunca mera generosidade gratuita. Uma luta que inspirou Alberto Cunha Melo, poeta nascido em Jaboatão dos Guararapes, juntinho do Recife, de muita sensibilidade profética, para escrever Aos Mestres, com Desrespeito: Dizem que meu povo / é alegre e pacífico. / Eu digo que meu povo / é uma grande força insultada. / Dizem que meu povo / aprendeu com as argilas / e os bons senhores de engenho / a conhecer seu lugar. / Eu digo que meu povo / deve ser respeitado / como qualquer ânsia desconhecida da natureza. / Dizem que meu povo / não sabe escovar-se / nem escolher seu destino. / Eu digo que meu povo / é uma pedra inflamada / rolando e descendo / do interior para o mar.
José Comblin analisa as “evoluções” acontecidas após a publicação dos documentos de Medellin e as resistências episcopais às denúncias orientadas pelo secretário-geral CELAM. E reproduz parte do documento de Puebla, identificando-o como “eco do grito dos pobres”: “Do coração dos vários países que formam a América Latina está subindo ao céu um clamor cada vez mais impressionante. É o grito de um povo que sofre e que reclama justiça, liberdade e respeito aos direitos fundamentais dos homens e dos povos” (87). Comblin é taxativo: “Somente uma teologia baseada numa Igreja dos pobres será capaz de evangelizar, isto é, de penetrar no mundo, como uma força de iluminação e de conversão. As teologias inspiradas no fundamentalismo, como aquelas dos movimentos espiritualizantes atuais, vão conseguir conservar os católicos tradicionais por um tempo, mas apenas por um tempo".
Na ótica do economista, filósofo e também teólogo da libertação Franz J. Hinkelammert, PhD em Economia pela Universidade Livre de Berlim e docente de Economia do Departamento Ecumênico de Investigação, na Costa Rica, “o que ocorre com os Direitos Humanos no atual processo da globalização retrata o que acontece com os seres humanos, naturais – corpos falantes – sob a impacto das lógicas reais produzidas por esse processo. Discorrer sobre os Direitos Humanos significa falar da dignidade humana ameaçada e violada por um sistema que se desenvolve por uma dinâmica e segue suas próprias leis, e estas que passam por cima dos Direitos Humanos”. Seu ensaio A Economia no Processo Atual de Globalização e os Direitos Humanos revela três dimensões perversas atuais da sociedade: a abertura tendenciosa ilimitada para o capital financeiro; a reestruturação do Estado na direção de um Estado policial e militar; e a flexibilização da força de trabalho, que resulta na anulação de direitos de importância fundamental.
Os ensaios são preciosos. Segundo Stanislas Breton, (O Futuro do Cristianismo, Paulinas), “pode o cristianismo responder à acusação de cansaço e de envelhecimento?” ... “como repropor essa fé austera em nosso mundo secularizado e laico?” ... “como conceber, entre religiões tão diferentes, uma forma de colaboração que nos permita somar forças para aliviar o sofrimento humano?”. Indagações que somente poderão ser respondidas através de uma proposta magna de eclesiologia renovada, evitando-se o despedaçamento de quem nos pediu que proclamássemos a mesma coisa (1Cor 1,10), sem invejas nem divisões (1Cor 3,3), todos arregaçando as mangas como “cooperadores de Deus”, “todos sendo um em Cristo Jesus” (Gl 3,28).

terça-feira, 24 de junho de 2008

Um Projeto Nada Aloprado

Dois empresários, afoitos que só vendo e da gota serena de criativos, estão implementando uma idéia somente aparentemente despropositada: um curso chamado Escola da Vida para pessoas que buscam ganhar uns bons milhões, sem necessariamente esfregar seus traseiros nos bancos de uma séria graduação universitária. As argumentações anunciadas são pra lá de convincentes, segundo notícia vinculada na Internet: “Bill Gates abandonou Harvard, montou a Microsoft, e se tornou um dos homens mais ricos do mundo com uma fortuna de US$ 58 bilhões; Samuel Klein veio da Polônia para o Brasil fugido de um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial, começou a vender utensílios domésticos de porta em porta, fundou as Casas Bahia e hoje é o rei do varejo brasileiro com uma empresa que faturou R$ 12,5 bilhões em 2007; e o Silvio Santos, um camelô no Rio de Janeiro, virou dono de mais de 30 empresas e do canal de televisão SBT. O que todos esses empresários com histórias tão diferentes têm em comum? Além de patrimônios que ultrapassam nove dígitos, nenhum possui diploma de curso superior. Ou abandonaram o mundo acadêmico antes de conquistar o diploma ou nem mesmo tiveram a chance de chegar lá. Aprenderam na marra, quebraram a cara em algumas ocasiões, porém, triunfaram.”
Os dois empresários, brasileiríssimos, não desejam virar as próprias mesas, a la Ricardo Semler. Tanto o Ricardo Bellino, o homem que trouxe a Elite Models para o Brasil, e José Carlos Semenzatto, dono da Microlins, rede de escolas com 770 unidades e faturamento de R$ 323 milhões, os idealizadores do curso, estão com a clara intenção de deixar a mesa com jeitão de outra coisa, através de tão lúcida iniciativa, que obviamente não fornecerá diploma, não exigirá conclusão dos dois primeiros graus de ensino, dos docentes não se exigindo nada além de uma capacidade de ensinar a ganhar dinheiro, favorecendo empreendimentos que ensejem “levar vantagens em tudo”.
Segundo os dois empresários, “é um curso que vai mostrar a história desses empreendedores acima”. O curso será lançado em agosto, custará cerca de R$ 1,2 mil e terá uma grade de 72 horas de aulas divididas em um período de seis meses. Segundo um deles, “queremos mostrar aos jovens que a maioria absoluta dos milionários no mundo não herdou riqueza nem tampouco concluiu um curso superior. A maioria venceu pela obstinação, seguindo os sonhos e correndo atrás.”
O curso Escola da Vida será dividido em seus módulos: 1. Descobrindo o espírito empreendedor; 2. Trabalhando a imagem; 3. Comunicação e construção de relacionamentos; 4. Organização; 5. Determinação, persistência e proatividade; 6. Liderança. E a meta dos fundadores da Escola da Vida é ter dez mil alunos até o fim de 2008 e, dentro de dois anos, angariar 150 mil alunos. Tudo também podendo ser acompanhado por teleconferências.
As avaliações serão as mais cômodas possíveis, o participante tendo plena liberdade de consultar quem bem entender, não necessitando referenciar os informantes que o auxiliaram. O pagamento do curso será afetivado através de boletos eletrônicos, cabendo aos alunos colaborarem com o não atraso das prestações, para não “descapitalizarem” os empreendedores da Escola da Vida. Haverá uma área reservada para lanches, tudo a preços módicos, sem qualquer intenção de enriquecimento a curto prazo.
Os empresários da Escola da Vida pretendem aliviar dos participantes a pecha que, um dia, um filósofo chamado Nietzsche aplicou em alguns dos seus contemporâneos: “vocês não têm conteúdo ... nem mesmo para a preguiça”.
Alguém escreveu num muro da Universidade do Porto, em Portugal: “Queremos mentiras novas!!!” Acredito que mentiras velhas são por demais desrespeitosas, já bastando as daquelas autoridades que fingem que comandam e esbravejam, embora passivamente obedeçam aos grandes de Davos.
Viva o sucesso da Escola da Vida, uma iniciativa porreta, num país de muitos sabidos!
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife - Pernambuco)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Até Sempre, Rev. Senomar Teixeira !

Sob a presidência do Bispo Filadelfo Oliveira Neto, agora integrado à Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, efetivou-se, hoje pela manhã (23.06.2008) na Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, no Recife, o Culto de corpo presente do Rev. Senomar Teixeira, eternizado ontem, após dias de internação em UTI de hospital da capital pernambucana.
Na solenidade, três passagens do Livro Sagrado foram lidas: Eclesiastes 3,1-8; 2Timóteo 4,7 e João 11,18-26. E todos os presentes perceberam o significado delas, retemperando ânimos, amplificando saudades.
Estavam presentes, além do Bispo Filadelfo Oliveira Neto e deste signatário, os reverendos Richard Fermer, Gustavo Oliveira, Adilson Ferreira, Edmar Pimentel, Teodorico Neto e o Deão Sérgio Andrade, vários Ministros Pastorais. Também a genitora do nosso amado Dom Maurício Andrade, que se encontra em Londres, se fez presente, sendo portadora de tocante mensagem do Bispo Primaz, lida durante a cerimônia pelo seu cunhado e entregue pessoalmente à Gabriela.
Os testemunhos abaixo falam por si mesmos. São referenciais que serão guardados para todo o sempre pela Gabriela, sua esposa-guerreira, e pelos filhos, familiares, gente amiga, irmãs, irmãos e pelos que sabem combater o bom combate, guardando a fé, diferenciando bem salvação de igreja.

Rev. Haroldo Mendes:
Não conheci o Rev. Senomar pessoalmente. Mas falei com ele uma vez por telefone. Entretanto, sei que a Igreja Militante perdeu um bom soldado. Que ele descanse na paz do Salvador Jesus.

Rev. Cônego Francisco de Assis da Silva, Secretário Geral IEAB:
Queremos expressar nosso profundo pesar pelo passamento de nosso irmão Rev. Senomar, ocorrido nesta tarde (22.06.2008), às 16:00, na cidade do Recife.
A IEAB perde um jovem ministro que se destacou por seus dons que colocou à disposição da Igreja com muito amor. A Diocese Anglicana do Recife perde um entusiasta da expansão da Igreja.Advogado com consistente raciocínio, Senomar foi membro da Comissão de Cânones e contribuiu de forma brilhante num dos mais difíceis momentos de nossa história Provincial, especialmente defendendo e orientando os procedimentos jurídicos em toda a questão do cisma do Recife.
Além disso, nosso irmão sempre foi reconhecido pelo amor que sempre devotou à diocese e à comunidade que com tanta dedicação pastoreou.
A IEAB, como um todo eleva seu pensamento a Deus e agradece pela vida e ministério de Senomar. Estendemos nossa solidariedade à sua esposa e familia, na certeza do consolo de Deus e confiantes de que Senomar comunga nesse momento da comunhão dos santos e santas de Deus.
Que nosso irmão descanse em Paz!
Rev. Luiz Alberto Barbosa, Presidente da Câmara de Clérigos e Leigos da IEAB
Com profundo pesar recebo a notícia do falecimento prematuro de nosso irmão e companheiro de caminhada Rev. Senomar. Um entusiasta missionário da Igreja de Cristo, defensor da Justiça e da Vida. Rogamos à Deus conforto neste momento para seus amigos e familiares. Na certeza de que ele não morreu, mas se encontra junto à Cristo, pois Jesus
disse: Eu sou a ressureição e a vida.Aquele que crê em mim ainda que esteja morto, viverá.E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá.... João 11:25-26.Me despeço fraternalmente em Cristo, pedindo a presença do Espírito Santo Consolador junto a todos os amigos e parentes enlutados
Comunidade Anglicana de Natal/RN
"Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos" (Salmo 116:15)
A comunidade anglicana em Natal/RN deseja expressar sua dor e solidariedade com a família e amigos por ocasião de sua súbita passagem ao Pai. O Rev.Senomar é motivo de orgulho para a Diocese do Recife por sua jovialidade e inteligência. Permanece em nossas mentes seu sorriso amplo ao lado de sua esposa e sua contribuição para a divulgação do anglicanismo na Internet.
Portanto, embora ausentes dos ritos de exéquias desse nosso venerado Irmão, fazemos nossas as palavras do Livro da Sabedoria, que reavivem no nosso coração a luz da confiança no Deus da vida:"As almas dos justos estão nas mãos de Deus" (3, 1).
Sim, as almas dos amigos de Deus repousam na paz do seu coração. E Senomar agora está com Ele. Esta certeza, que devemos alimentar sempre, nos seja constante admoestação a permanecer vigilantes na oração e a perseverar humilde e fielmente no trabalho ao serviço da Igreja. A alma do justo encontra repouso em Deus; só quem n'Ele confia não estará confundido eternamente. "In Te, Domine, speravi, non confundar in aeternum".
Senomar,
"Ao Paraíso te conduzam os Anjos. À tua chegada te recebam os mártires e te introduzam na Cidade Santa, na Jerusalém eterna". (LOC, 205).
Rev. Rodson Ricardo Souza do Nascimento
Rev.Jorge Aquino
Frei Gecionny Pinto
Membros da Junta Paroquial da Natividade e demais paroquianos.

Sobre seus descendentes, Senomar repetiu para mim, no batizado da filha caçula, o Salmo 1,3: “eles serão como uma árvore, plantada junto aos riachos, que dá o seu fruto no devido tempo, e cujas folhas jamais murcharão”. Seguramente jamais murcharão, mano Senomar, dada sua ojeriza aos que praticam a cooptação, imaginando que todo mundo tem preço, postando-se acima do bem e do mal, tolamente desapercebidos dos conflitos que emergem como sintomas evidentes de mudanças e reconversões.
Em 10 de setembro de 2005 nós fomos ordenados, mano Senomar. Éramos oito e possuíamos alguns salutares princípios, amplamente vivenciados pelo grupo ao longo dos anos de convívio, as querelas sendo partes integrantes da própria caminhada: o bem-querer terá prevalência sobre todas as lógicas destrutivas; os méritos devem ser sempre coletivos e jamais fingidos, nunca individualizados; jamais devera ser abandonado um aprender-desaprender-reaprender que ressalte as significativas diferenças entre permanência e mutação; buscar ser águia sem mentalidade de galinha, por mais emplumada que esta seja; entender que uma mente saudável, além de saber fazer, faz também acontecer; umbrais ultrapassados, sonhos recuperados; para se ver no futuro, saber enxergar-se nos demais tempos; sempre distinguir postura orgulhosa e arrogante de dignidade cautelosa; e nunca olvidar-se de que se nasce com inteligência, jamais com o manual de instrução para sua utilização.
Aos amigos cristãos de todas as denominações, encareço orações múltiplas para o meu irmão Rev. Senomar Teixeira, sem pieguismos nem dolorismos, apenas com a fé inquebrantável no Senhor da História, Aquele mesmo que nos estimulou a ter plena confiança (Mt 21,21)
Obrigado, irmão Senomar, por me considerar um dos seus próximos!! Você sempre com muito amor pelo Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Sobre João Silvino da Conceição

Para satisfazer a curiosidade de muitos, inclusive colegas de universidade, torno pública a identificação do João Silvino da Conceição, este amigão de muitas décadas, companheiro inseparável de danações, reflexões, gozações e coisas que tais, cuja alma é irmã gêmea da minha.
O JSC é nascido no interior do Rio Grande do Norte, em Currais Novos. Semi-alfabetizado, três casamentos, oito filhos e dois anjinhos, o Silvino demonstra ser possuidor de uma energia incomum, uma vontade férrea de ser cada vez mais nordestinamente brasileiro. Suas histórias, não raro, são reproduzidas em ambiente onde prepondera o diálogo consciente, com muita freqüência regado a uma imensa rodada de “refrigerantes” pra lá de glacial. As garrafas sempre acompanhadas de tacos de queijo de coalho na brasa e farofa de jerimum com carne de sol, num protocolo de deixar um gosto de quero-mais da gota serena em qualquer mortal pecador como a gente.
Tricolor quatro costados, João é pernambucaníssimo quando alguém daqui joga com uma equipe de fora. Em dia de domingo, sempre perambula pelos estádios de futebol, acompanhado da Dona Conceição, sua companheira de um bocado de tempo, sete arrobas bem distribuídas e com pouca elasticidade mamária, sessentona experiente, mente livre e língua sempre solta, nenhuma flacidez abdominal, muitos quilômetros bem rodados, serenidade espiritual lindona, sem as louracidades das pessoas artificiais que só raciocinam por onde não deveriam.
As amizades do Silvino são de uma fidelidade canina: Fininha, 120 quilos, tia da mãe do Silvino, mexeriqueira de primeira grandeza, ouvidos e boca maiores que o bom-senso; Zefinha, arrumadeira de bom calibre, criada junto com o Silvino, tendo incentivado ele nas primeiras manobras homem-mulher, na garagem sem-carro que ficava no fundo do terreno residencial; Faguinho Silva, primo em grau bem distante, especialista em corar frade de pedra com historietas apimentadas, dado seu furor anti-puritanismo; Jean Pierre, inteligência musical gota serena em corpo atlético ainda nos conformes, marido da Lerinha, uma prestimosidade cristã pra correntista bancário algum botar defeito; Clenoca, toda cheínha, zelosa especialista em educação de jovens e adultos, filha da Vilma, uma sessentona que é virada num molho de coentro, dançarina, junina, carnavalesca, riso largo, sempre mandando à merda as fuxicarias do derredor; e Zulmirinha, morenona de cabelo bem espichado, irmã da Dona Conceição, mulher do Silvino, seios ainda em posição de sentido, apesar dos quatro sugadores nascidos, hoje duas parelhas de nordestinos de fazer gosto às mais oferecidas. Nunca esquecendo o Serginho boa-praça, olhos verdes sempre antenados, vocação religiosa sem mesuras nem fricotagens. Nem a Sandrinha Revi, com seus olhinhos fingidamente japoneses.
Com o João Silvino, usufruo um bate-papo semanal fraternal, nos quais as suas irritações travestidas de quase hercúlea resistência aos medíocres foram sendo gradativamente desativadas, substituídas, bem devagarzinho, por uma crescente confiança nos amanhãs de todos nós, hoje solidificada numa consistente convivialidade, enxotados para longe os aperreios do cotidiano e as cavilações puritanosas dos sósias do divino.
Uma conquista memorável, o consentimento do João Silvino da Conceição para acesso a um monte de cadernos de papel pautado de sua propriedade. As suas primeiras anotações datam de setembro de 1955, às vésperas das eleições presidenciais, quando ele ainda se deliciava na sua primeira lua-de-mel, nas Termas Salgadinho, uma temporada presenteada por um amigo de seu pai, agricultor de médio porte. As últimas notas são deste ano, os erros ortográficos e os de concordância, hoje, bem mais atenuados pelo exercício de um escrever quase diário.
Sistematizei alguns cadernos do João sem perda alguma do conteúdo. A intenção foi apenas, com uma certa disciplina arrumadeira, a de proporcionar aos amigos dele alguns instantes para um pensar recheado de muita nordestinidade, mesclando assuntos os mais diferenciados, numa conjuntura em que o sentimento regionalista não pode ficar relegado a planos secundários, nem a fúrias globalizantes.
De muita franqueza, sem os más-más dos fingidos de olhinhos virados repletos de “ai-Jesus”, Silvino botou o dedo na ferida, recentemente: “Não adianta correr atrás dos pixotes que vendem papelotes estupefacientes disso ou daquilo. Vamos rasgar a fantasia da hipocrisia: em muitos lugares granfinos, é hoje superchiquérrimo servir, em bandejas aquecidas, os pozinhos e os canudinhos indispensáveis para deixar animadão o ambiente, todo mundo ficando numa boa, alegre e serelepe, à merda a moral, os bons costumes, o fino trato e os gestos nobilitantes”. Por causa de dissabores familiares, teve até grandão metido a religioso que ficou com “cara de pum”, como dizia a Trude, prima muito amada, sobrinha querida do meu já eternizado pai.
Para os que se postam como “nunca-errados”, o Silvino tem opinião de bate-pronto: "Não sei respeitar as pessoas que não sabem reconhecer seus erros. São covardes, porta-estandartes de uma frouxura que não é nordestina nem brasileira. Aliás, nem é digna da raça humana".
Helderista de carteirinha, o Silvino não tolera ver os “imitadores do Dom”, aqueles que buscam aparentar ser, jamais efetivamente sendo. E cita o saudoso Dom Hélder Câmara, para consolidar sua opinião sobre os que não são: "É urgente evitar que os jovens se convençam de que a Igreja é mestra em preparar grandes textos e sonoras conclusões, sem a coragem de levá-las à prática".
Intencionalmente, as anotações coligidas nos cadernos do João não obedecem a qualquer ordem cronológica. Mesclando apontamentos escritos em épocas diferenciadas, procura-se, através de procedimentos integralmente não-científicos, manter a atenção dos seus leitores, evitando enfados desnecessários e abandonos precipitados.
A lição maior do João Silvino da Conceição para todos: pernambucanos e pernambucanizados que nem ele: que nós, imbuídos do mais acentuado instinto de soberania nacional, saibamos fazer a hora pernambucana, transformando propostas formuladas em ações concretas, percebendo que a História se edifica através de amplos procedimentos participativos, que exigem compromissos, desafios estruturadores e conscientização comunitária, a ninguém se permitindo o distanciamento das suas indispensáveis funções de sujeito.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Saudação a um jovem presidente

Cora Coralina, uma das maiores poetas brasileiras, disse certa feita: “Nossa vida é como uma viagem de trem, / cheia de embarques e desembarques, / de pequenos acidentes pelo caminho, / de surpresas agradáveis com alguns embarques / e de tristezas com os desembarques...”
Hoje, em sessão solenemente simples, um gigante passa o bastão a um outro gigante. E os dois gigantes de longa data perceberam que a Educação somente sobreviverá, nestes primeiros tempos de século, se um efetivo nível de convivialidade entre os seus trabalhadores for alcançado. Um trabalhador da educação que se preze não pode ser um especialista destituído de razoável cultura geral, como também não pode ser um generalista superficial em todos os saberes. Os verdadeiros educadores sempre foram trabalhadores inseridos no binômio contradição x conflitividade.
Recentemente, o economista argelino Jacques Attali, autor de Uma Breve História do Futuro, nos forneceu um balizamento relevante: “o futuro do Brasil dependerá de agora por diante da maneira pela qual ele conseguir curvar-se às regras do sucesso: criar um Estado sólido, um Estado justo, uma democracia transparente, criar um meio-ambiente relacional, suscitar um desejo de um destino comum, favorecer a mais livre criação, construir um grande porto e uma grande praça financeira, formar equitativamente os cidadãos nos saberes novos, desenvolver maciçamente os seus laboratórios de pesquisa, a sua capacidade florestal, o seu sistema financeiro, a sua indústria agro-alimentícia, as energias de substituição, dominar as tecnologias do futuro, elaborar uma geopolítica e fazer as alianças necessárias”.
Na reflexão acima emergem cinco grande desafios para a área educacional: suscitar um desejo de um destino comum; favorecer a mais livre criação; formar equitativamente os cidadãos nos saberes novos; dominar as tecnologias do futuro; fazer as alianças necessárias.
Sejamos sempre mais Leões do Norte, solidários e associativos por excelência. Criativos, jamais miméticos. Brasileiros acima de tudo. A conscientização cidadã é um compromisso histórico dos educadores responsáveis. É tomar posse de uma realidade concreta, postulando uma utopia que exige sólidos embasamentos críticos. Conscientizado é todo aquele que vai para o diálogo com o sentimento de ser parcela, permanentemente percebendo-se inconcluso, jamais dono da verdade ou militante de partido guardador de futuro único. Edificar criativos amanhãs educacionais com as ferramentas disponíveis do presente, eis a desafio de todos nós, Secretaria e Conselho.
Hoje, o segmento especializado em desenvolvimento econômico-social reconhece como essenciais dois vetores: educação básica e instituições indutoras. Quanto mais educação básica de qualidade, maiores os embornais cognitivos edificados. E quanto maior o embornal e mais eficaz a indução provocada pelas instituições, maiores os níveis de cidadania crítica, menores os índices de analfabetismo funcional, melhores os níveis de enxergamento político, mais acentuadas as tesões coletivas na busca de um lugar ao sol para todos.
Muito sucesso, presidente José Ricardo. Este colegiado se encontra à sua disposição. Para que Vossa Excelência, no futuro, não venha a sentir a angústia tornada versos pelo poeta Fernando Pessoa, uma das minhas admirações existenciais: “Fiz de mim o que não soube, / E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. (...) Quando quis tirar a máscara, / Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi no espelho, / Já tinha envelhecido.”
Senhor Presidente José Ricardo: somos seus companheiros de uma viagem que buscará engrandecer ainda mais o todo pernambucano, sua Educação paulofreireana, seus ontens de glórias, energizados para os amanhãs que já chegaram.
(Saudação feita na posse de José Ricardo Diniz na presidência do Conselho Estadual de Educação de Pernambuco, em ato presidido pelo secretário Danilo Cabral)

terça-feira, 17 de junho de 2008

Contrastes Autofágicos

Acredito piamente que as lorotagens e os engasgos gramaticais do presidente Lula são frutos de uma inteligência que de há muito já percebeu que as oposições, especialmente às sediadas no Congresso Nacional, estão taticamente desarvoradas, salvo as mínimas exceções bravias. E que as consagrações avaliatórias recebidas pelas pesquisas várias testemunham o acerto da sua tática verborrágica, com seu assistencialismo distributivista, que plenamente ratifica uma sabedoria explicitada pelo ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara: “Muitos imaginam que o povo não pensa. O povo pensa...
Não acredito que a atuação do presidente se restrinja tão somente às falações, sorrisos e palmadinhas nas costas, bonezinhos vários, abracinhos de crianças e adeuses de emblemáticos quatro dedos. Estou convencido que, nos serões acontecidos no gabinete presidencial, regados a sucos diversos, bolachas e biscoitos, alguns dados quantitativos internacionais são atentamente analisados, ensejando ampliações e restrições estruturais para os quatro cantos do planeta: de 1980 a 2006, o PIB da Ásia foi mutiplicado por 4, o da China por 3, o da Europa por 2, enquanto a parte dos EEUU no PIB mundial permaneceu igual a 21%; que 9 dos 12 maiores portos do mundo estão localizados no litoral asiático do Pacífico; que cerca de 2/3 dos diplomados norte-americanos em ciências e engenharia em 2006 são de origem asiática; a China foi, em 2006, o primeiro consumidor mundial de cobre, ferro, níquel, chumbo e alumínio; que as transações financeiras internacionais representaram, em 2006, 80 vezes o volume do comércio mundial, contra apenas 3,5 em 1997; as exportações representam cerca de 13% do PIB mundial, fato não acontecido desde 1913; o Banco Central Russo dispõe de mais de 250 bilhões de dólares de reserva; os assalariados norte-americanos estão cada vez mais endividados; na Califórnia, onde o salário mínimo por hora gira em torno de oito dólares, uma em cada cinco crianças vive abaixo da linha da pobreza; em 2006, 41 milhões de norte-americanos não receberam qualquer tipo de ajuda, enquanto 31 milhões não possuíam qualquer tipo de seguro; em Nova York, atualmente, mais de 38 mil pessoas dormem, a cada noite, em albergues municipais, entre elas mais de 16 mil crianças; metade dos habitantes do globo não possuem acesso digno à água, tampouco à moradia; e, em 2006, metade da população mundial sobrevive com menos de dois dólares diários.
O presidente Lula sabe que o seu ministério tem titulares de muita competência, José Múcio Monteiro e Sérgio Rezende, para citar só dois pernambucanos. E também tem consciência de ter, como colaboradores diretos, um bom número de num-serve-para-nadas especialistas em oportunidades eleitoreiras, a relação sendo aqui omitida para não enodoar esta página de jornal liderança regional.
Se a minha avó Zefinha estivesse por aqui, diria sem pestanejar que o presidente Lula nasceu “com os fundos para a lua”, posto que os somente assim nascidos estavam predestinados a ter muita sorte na sua caminhada terrestre. Confesso que nada sei sobre para que direção emergiu o bumbum lulístico por ocasião do seu nascimento. Embora saiba, porque todos comentam, que o presidente muito bem aproveitou a alavancada dada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. E que ampliou como ninguém o seu ibope, diante da majestinidade magisterial do ex-presidente, uma inteligência em corpo de chato-de-galocha, expressão também do agrado da Zefinha, minha avó, que mal sabia ler, embora dotada de um tino intuitivo para PhDeus algum botar defeito.
Que o presidente está percebendo os contrastes autofágicos, não tenho a menor dúvida. Que ele tem plena consciência da sua boa estrela, assino embaixo. Que tem uma mulher que não o atrapalha, asseguro em cartório. Mas que não deve ficar desatento aos ventos conjunturais do planeta. Nem dos Brutus que perambulam no seu pedaço.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife, Pernambuco)

domingo, 15 de junho de 2008

Necessário e Atrevido, Atual

Num sebo recifense, local de se encontrar muita coisa relevante, um autor me chamou a atenção, pelo título do livro e o primeiro comentário da primeira orelha: “Um livro necessário. Um livro atrevido. Ninguém conseguirá ficar indiferente com a sua leitura...” De Hans Küng, Veracidade – o futuro da Igreja, editado em 1969, pela editora Herder, é desses textos que não perdem atualidade, muito pelo contrário. Pode ser lido nesta primeira década do XXI, quando a “máscara” da Igreja denunciada pelo autor, um teólogo romano dos mais notáveis do século XX, sem meias verdades, está a exigir de todas as igrejas cristãs um urgente sair do marasmo, o abandono de indisfarçáveis culturas de fingimento, um repelir definitivo dos sepulcros caiados tão incisivamente denunciados pelo Homão da Galiléia.
O livro de Küng, ainda que sendo dirigido para a área vaticana, deveria ser lido por todos os líderes cristãos da atualidade, para que os problemas apontados para Roma fossem devidamente “traduzidos” para cada uma das denominações, favorecendo uma “enxergância solucionatória” que viabilizasse a missão mais importante da Igreja, segundo Leonardo Boff, em artigo recentemente publicado na ALC - Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação: ressuscitar a esperança, segundo ele “missão que vai muito além dos dogmas e das doutrinas”.
No livro, Küng conta um episódio ocorrido numa das sessões do Concílio Vaticano II: um bispo passou um bilhete ao vizinho, que foi passado de mão em mão. O bilhete dizia: “Senatus non errat, et si erret, non corrigit, ne videntur errasse” (O Senado não erra; caso se engane, não se corrige, para não dar a impressão de ter errado). Daí, Hüng conclui: “também o século XX está cheio de toda espécie de inveracidade, de insinceridade, de mentira, de hipocrisia”. E arremata: “o século XX é assinalado por um sentido novo pela sinceridade, pela originalidade, pela autenticidade, pela veracidade”.
No século XXI, as cobranças se ampliam pelo Povo de Deus, que rejeita qualquer “veneração divinizadora e aduladora dos seus administradores pastorais”, que se esquecem integralmente, por oportunismo, conveniência ou conivência, da ira do Senhor, diante dos escribas mancos e mansos, oportunistas de carteirinha, que ainda não assimilaram a lição notável de um sufi: “não se vencem abismos ficando sentado em excursões pelos montes”. E mais: “proclamar francamente a verdade, também quando ela não agrada: consciente de que só tem o direito de escrever sobre a veracidade na Igreja quando se é veraz ao escrever”.
Seguramente, Hans Küng ratificaria Leonardo Boff: “As igrejas não existem para si, elas existem para Deus e para a humanidade. Existem para a justiça, a dignidade, a paz e para manter a esperança. Existem para preservar e cuidar de toda a criação. A Igreja é um princípio de esperança”. O teólogo da libertação assinalou, no artigo acima citado, que “a ameaça que busca tomar conta da humanidade é produto da tecnociência, que favorece o surgimento de dois grupos emergentes: uma minoria que poderia viver ‘até os 130 anos’ e está concentrando para si todos os benefícios e recursos, e outro grupo gigantesco que padece de sofrimento diário e morre de fome”.
O desafio maior dos cristãos de todas as denominações “é manter a humanidade unida”, destacou Boff. Segundo ele, “a pobreza não é natural, não é ordenada nem ungida por Deus, mas é produto de um sistema e da situação atual. Onde há um pobre, há um explorado, um oprimido”.
Hans Küng, autor do fecundante Ser Cristiano, editado este ano pela quarta vez em língua espanhola, a edição em língua portuguesa datada de 1968, defende a ampliação da paixão pela veracidade, posto que “uma igreja veraz não fornece ao homem receitas baratas para a vida particular e, muito menos, para a política mundial em suas diversas modalidades”.
O admirável teólogo alemão, também autor de O Princípio de Todas as Coisas, Vozes, 2007, onde defende “uma integridade intelectual mais importante do que a conformidade dogmática, do que a conformação com a autoridade, seja ela eclesiástica ou secular”, também concordaria sem pestanejar com o pensar do Boff: “É claro que teremos que pagar um preço pelo que fizemos, mas por meio da crise podemos ser modificados e enriquecidos com capacidades maiores de espiritualidade, de amor e de compaixão, com mais sentido de fraternidade, unidade e solidariedade universal. Somos chamados não para lágrimas e morte, mas sim para a vida plena comunal e bem-estar integral para viver nos altos dos montes”.
O século XXI, sem qualquer sentido premonitório, será muito tormentoso para a Igreja que amamos, caso ela não perceba que “a história universal não mais pode ser entendida apenas como história da humanidade”. E onde “a missão não pode ser feita visando lucros pessoais ou institucionais”, lembrete bem oportuno do meu irmão teólogo Carlos Calvani, em seu comentário no Pão da Vida, Lecionário Anglicano (Ano A, Próprio 6, p. 251).

sábado, 14 de junho de 2008

Reencontrando Amigos

Como uma feliz coincidência, após assistir Quando Nietzsche Chorou, um DVD de notável qualidade, quando o filósofo tem o seu pedido de casamento recusado por Lou-Andréas-Salomé, uma russa de extraordinários dotes. Um convite feito ao telefone, pelo João Silvino da Conceição: tomar uns refrigerantes no Le Fondue do Beto, na Praia da Boa Viagem. Para botar a conversa em dia, na companhia de Valéria e Pierre, casal sem salamaleques, ele empreendedor de eventos artísticos, ela profissional graduada do mais importante banco oficial brasileiro.
Na noitada feliz, Dia dos Namorados, os três casais, afinadíssimos em assuntos os mais diferenciados, mataram saudades, mesclando assuntos, sempre utilizando, ao gosto de cada um, o papel crítico do riso definido por Henri Bergson, em O Riso – Ensaio sobre a Significação do Cômico: “denunciar a esclerose que se instala nos organismos e reeducar os corpos para a fluidez, a plasticidade, a graça”. Em nós próprios e nos outros, principalmente naqueles que se acham muitos furos acima do Mal, o Bem imbricado à exaustão em seus interiores de Pequenos Príncipes já inseridos, sob justíssimos aplausos, nos rincões celestiais.
Servida a primeira rodada de carne e queijo e de novo à tona o conteúdo do DVD assistido, o João Silvino anunciou sua última leitura, um livro de menos de cem páginas, escrito por uma paulista, Rosana Suarez, mestre e doutora em Filosofia, atualmente responsável pela disciplina Filosofia Contemporânea na PUC do Rio de Janeiro.
De título Nietzsche Comediante e editado pela 7Letras, 2007, algumas passagens foram pelo João comentadas, a colocação das carapuças sendo vedadas em quaisquer circunstâncias, ainda que algumas sendo denunciadas por olhares fulgentes dos comensais. Segundo ele, a Rosana Suarez revela em seu texto brilhante que “o elogio do riso está presente nos mais belos trechos de Nietzsche”. Ela reproduz o aforismo 5 de Além do Bem e do Mal: “Esse espetáculo nos faz sorrir, a nós, de gosto exigente, que achamos muita graça em observar os truques sutis”.
O papo contagiou até a mesa do lado, quando outro casal, ele arquiteto e ela psiquiatra, solicitou incorporação à conversa, segundo ele “altamente oportuno para casal desacompanhado de seus amigos”. Um casal de paulistas, que estava desejando ampliar o seu astral, posto que tinha presenciado o Sport ser Campeão do Brasil, no dia anterior. Solicitação imediatamente aprovada por todos, a alegria se ampliando quando a jovem senhora anunciou-se como entusiasta do filósofo alemão. Um encantamento adquirido por ocasião do cumprimento da sua residência médica, efetivada numa clínica especializada para, segundo ela mesmo classificou, “pessoas embotadas que não sabiam gostosamente rir”.
Com alegria sedutora, própria dos que sabem viver, conviver e converter, a jovem psiquiatra revelou um domínio nitzscheano digno de registro. Segundo ela, em seus Fragmentos Póstumos, o filósofo alemão deixou escrito: “Parece que somos alegres porque somos monstruosamente tristes. Nós somos sérios, nós conhecemos o abismo: é por isso que evitamos a seriedade”.
A psiquiatra, então, apresentou duas folhas datilografadas, onde se encontravam dois trechos, um de Ecce Hommo, a autobiografia de Nietzsche, e o outro de A Vontade de Poder, uma coleção de 1067 aforismos, recentemente editada no Brasil pela editora Contraponto. Trechos de livros que integraram um seminário por ela recentemente coordenado, no Rio de Janeiro. O primeiro: “Desconheço outro modo de lidar com grandes tarefas senão o humor. Ele é pressuposto essencial e indício de grandeza. A casmurrice, o ar sombrio, o tom duro na garganta são objeções a um homem, que dirá à sua obra”.
O segundo texto: “Todo instinto soberano faz dos outros seus instrumentos, sua corte e seus aduladores: não se deixa nunca nomear por seu nome indigno: e não tolera outros ditos elogiosos, nos quais não seja louvado indiretamente. Em torno a todo instinto soberano cristalizam-se em geral todo louvor e toda censura em uma ordem fixa e em uma etiqueta. Essa é umas causas da falsidade”. Segundo a nova amiga, os que não possuem humor têm um índice correlacional muito forte com a falsidade. Daí a dinâmica de parte do seminário sobre os textos apresentados.
A despedida foi generosa e muito lamentada a passagem rápida das horas. E-mails foram trocados. E Reflexões ganhou mais duas inscrições. A de dois paulistas que, demonstrando muito humor, também entendem nitzscheanamente que “todo moralista faz parte dos seres que devem ser questionados”.
Todos nós ganhamos mais um casal amigo. Mesmo sendo corintianos...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Paulo, Numa História Cativante

Não escondo a admiração que sinto pelo apóstolo Paulo, o bandeirante dos gentios. Estou plenamente convencido de que o Cristianismo deve suas estruturas alicerçais à pessoa de Cristo e à teologia de Paulo. Através de suas cartas, o apóstolo estabeleceu os balizamentos de uma vivência ajustada à mensagem proclamada pelo Homão de Nazaré.
Muitos livros já foram editados sobre Paulo, o de Tarso, aquele que, antes da conversão, foi testemunha ocular do apedrejamento de Estêvão, em 32. d.C., muito embora jamais tenha contemplado o Nazareno em pessoa. Suas características mais pormenorizadas são descritas no livro apócrifo Atos de Paulo e Tecla: “um homem de baixa estatura, quase calvo, pernas tortas, de corpo volumoso, sobrancelhas unidas, um nariz um tanto adunco, cheio de graça: pois às vezes parecia um homem, e outras vezes tinha a fisionomia de um anjo”.
Sobre Paulo, a Paulus e a Loyola lançaram recentemente um livro diferente de todos os já publicados sobre o filho ilustre de Tarso. Um texto de Jerome Murphy-O’Connor, catedrático da École Biblique at Archéologique Française, em Jerusalém, intitulado Paulo de Tarso, História de um Apóstolo. Com um esclarecedor prefácio à edição brasileira de autoria do padre jesuíta Valdir Marques. Um mini-ensaio sobre as diferenciações existentes entre history e story, quando o autor do livro traz afirmações que podem entontecer os mais cândidos, como a de que Paulo não caiu do cavalo na estrada de Damasco, como a de que Paulo não foi totalmente reconhecido como apóstolo em sua vida, como a de que sua personalidade era pouco dócil.
A intenção de O’Connor é única: apontar as especulações teológicas que não são dogmas de fé, aguçando a curiosidade do leitor na busca de iniciativas para reflexões mais acuradas, estabelecendo descobertas e aprofundamentos que favoreçam o fortalecimento da fé em Jesus de Nazaré, através do mais contagiante dos seus seguidores primeiros.
O livro ainda traz uma novidade para os leitores brasileiros: a geografia das localidades em que Paulo viveu ou por onde passou, através das coordenadas mostradas pelo programa Google Earth. Lá, teatros, ágoras, hipódromos e ruas ampliam curiosidades e pesquisas, ensejando uma compreensão mais acurada sobre as andanças de quem se considerava também apóstolo, posto que “depois destes apareceu também a mim, como um que nasceu fora do tempo” (1Co 15,8).
Sem teologuês, O’Connor nos mostra como o apóstolo Paulo rapidamente alterava seu humor, ressaltando fatos que o deixavam feliz ou triste, interessado ou indiferente, despreocupado ou temeroso, numa interação contínua vivenciada entre emoções e pensamentos.
Salientando que todo contador de histórias deve se concentrar em seus personagens, o autor de tão deliciosa biografia nos brinda com um texto nada simplório, sedutor por excelência, digno dos tempos de agora, já pós-modernidade, onde “não podemos cair na armadilha do desejo nostálgico pelo retorno daquela modernidade primitiva que deu à luz o movimento evangélico”, advertência feita pelo pastor batista Stanley J. Grenz, eternizado prematuramente em 2005.
Num contexto planetário, onde o tempo não é mais entendido como apenas linear, a aparência não traduz muitas vezes a realidade, o racional nem sempre é confiável e os povos voltam a se interessar pelo sobrenatural, mister se faz que a Mensagem do Homão da Galiléia seja divulgada sem eruditismos cavilosos, a regra maior advinda de um escritor sem religião, Graciliano Ramos: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.
Como orienta a parábola da figueira (Jo 15,1-8), a função dos ramos é dar frutos. Muito embora cada um deles, como nós, somente estando apto para a produção se estiver bem nutrido, com uma “aprendência” que amplie a “enxergância” dos novos horizontes. Conservada sempre a boa consciência, aquela que busca a melhor das interpretações sobre uma verdade que por inteiro jamais será desvendada.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Utopias Peregrinas

Recebi ontem de uma amiga muito querida, Nelly Carvalho, talento universitário ouro de lei, um CD com faixa interativa sobre a vida de Dom Hélder Câmara, contendo ainda a Sinfonia dos Dois Mundos. Um presente valioso, que me proporcionou imensa saudade de quem muito me orientou na vida, ampliando minha criticidade cidadã, num mundo que anda a necessitar de ampla renovação espiritual em prol dos desassistidos em todos os sentidos. A Sinfonia traz como recitante o próprio Hélder Câmara, sendo executada pela Orchestre Symphonique Collegium Musicum, Fribourg, na França. Pode ser adquirida no IDHeC - Instituto Dom Hélder Câmara, rua Henrique Dias, 208, na Boa Vista.
Releio Utopias Peregrinas, editada pela Universidade Federal de Pernambuco, reproduzindo aqui o que escrevi em 1994: “O livro de Dom Hélder Câmara é prova cabal de como se pode respeitar a pluralidade ideacional de um contexto acadêmico sem resvalar para cerceamentos puristas nem populismos imediatistas que tão somente deslustram, uns e outros e a curtíssimo prazo, históricas caminhadas sacrificais passadas”.
Sou suspeito para falar dos trabalhos do ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife. Seu ideário, repleto de notáveis antecipações e proféticas advertências, pululam no meu interior de nordestinado. Mas não gostaria de passar a oportunidade, através destas Reflexões, de encarecer aos civicamente desmotivados pelas irresponsabilidades de parte do Congresso Nacional, onde alguns arrotam coragem e se escafedem quando chamados a exercer uma escorreita corregedoria, uma leitura reflexiva de Utopias Peregrinas, um ontem incrivelmente eivado de hojes, advertências bojadas de muita solidariedade concreta para com os excluídos do mundo inteiro.
Uma comprovação da contemporaneidade dos escritos do Dom torna-se palpável quando da leitura de Utopias Peregrinas: a. Torna-se indispensável um repensar do desenvolvimento mundial; b. Urge reformular a própria noção de cultura; c. O desenvolvimento dos povos não deve ficar restrito a simples aumentos dos recursos materiais; d. Todo desenvolvimento econômico exige um suplemento de alma; e. Redução drástica dos gastos improdutivos, especialmente os militares; f. Otimização dos gastos públicos; g. Maiores recursos para o desenvolvimento do ser humano, aumentando-se as responsabilidades públicas nos setores Educação e Saúde.
A crise maior, nas últimas décadas , não é econômico-financeira . É de outra natureza . É uma crise de percepção . Poucos estão inquietos com uma desagregadora distribuição de renda mundial, quando um percentual pequeno de ricos abocanha mais de 70% das riquezas planetárias.
Em 1978, quando inúmeros se beneficiavam do regime de exceção no Brasil, pensadores cristãos se pronunciavam publicamente: “A aurora se aproxima, queiram ou não queiram os arautos dos espancamentos, das violências sexuais, dos castigos cruéis, dos assassinatos políticos, dos esquadrões da morte, da corrupção desenfreada, dos acobertamentos ilícitos e dos favorecimentos espúrios” (Diário de Pernambuco, 03/03/1978)
Em 10 de dezembro de 1989, o Diário de Pernambuco divulgava uma das maiores manifestações de apreço já publicadas na imprensa brasileira: “Desejamos expressar publicamente a nossa imensa admiração ao irmão Arcebispo, cuja presença, silenciosa e fecunda, continua a ser para nós fonte de inspiração, fé e coragem. ... Não o esqueceremos jamais, Dom Hélder Câmara. As turbulências não nos intimidarão. Continuaremos a travar o bom combate, denunciando a acomodação e o conformismo, a alienação e as posturas dos que menosprezam os marginalizados, vítimas indefesas de um sistema iníquo e predador ... Somos também Igreja e temos plena consciência do nosso papel libertador. E estamos felizes por tê-lo entre nós, como Pastor, Amigo e Irmão”.
Relendo Utopias Peregrinas, motivado pelo presente recebido da Nelly Carvalho, amplio as minhas convicções: “os objetivos serão alcançados mais duradouramente se a receita contiver uma maciça dose de autenticidade, uma mancheia de postura ética, as estratégias estabelecidas com as cartas na mesa, na manga do colete só as da mulher amada. E uma vontade danada de largar posicionamentos antigos, para abarcar uma contemporaneidade muito arretada ... para todos”.
Sou um anglicano feliz, por ter convivido por mais de duas décadas, sem precaução alguma, com o autor de uma reflexão de primeira grandeza: “Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo.”

sábado, 7 de junho de 2008

Presente de Valor

Na última Páscoa, recebi de amigo fraternal uma lembrança pernambucaníssima: o livro Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa, do nunca esquecido Paulo Freire, edição Paz e Terra, onde o mestre “nos ensina a ensinar partindo do ser professor”, testemunho de Moacir Gadotti, também um docente de muito compromisso social.
Agradecendo sensibilizado o presente - já lido e relido inúmeras vezes desde sua primeira edição, em 1996 - reproduzo, aqui, o que declarei num recente pronunciamento no Conselho Estadual de Educação: "Hoje, todo dirigente de bom tirocínio, não pode deixar de dizer presente diante das velocíssimas mutações que se estão verificando nos contextos nacional e mundial. Isto significa um questionamento sereno da sua própria organização, sobre o seu próprio diagnóstico e prognóstico, sobre suas próprias realizações, sobre seu ritmo de desenvolvimento, sobre seu nível de organização frente às demais instituições".
Todo dirigente sem nostalgias puritanosas, não desconhece a necessidade de promover uma contínua contemporaneidade direcional, nunca se olvidando dos versos para mim enviados pela Djanira Gondim, profissional ouro de lei: “Não pode alcançar os astros / Quem leva a vida de rastros / Quem é poeira do chão”.
As regiões desenvolvidas do mundo enfrentarão, nos próximos anos, períodos prolongados de estagnação econômica se não ampliarem a produtividade na área do conhecimento. Mormente do conhecimento humanístico, posto que ele será cada vez mais demandado nas análises e configurações dos modernos e complexos sistemas organizacionais.
Nas áreas ainda em desenvolvimento, como a nossa, não saberemos ultrapassar os obstáculos epistemológicos mais elementares se não desenvolvermos uma agressiva política educacional, atentando para as demandas de um social em contínua ebulição.
Um alerta nunca menosprezado pelos mais antenados: "Quem tem um mapa mais rico, se orienta melhor no mundo. Quem tem mapa limitado fica mais freqüentemente enrolado. Mas quem possui e sabe usar uma bússola, será o merecedor de todos os louros ".
Para quem deseja tornar-se historicamente bem situado e datado, nada como uma balizamento mestre: “o aparentemente impossível de agora é a única possibilidade que sobra".
Com maturidade se anda e se finca estacas sólidas. Sem elas, o desmanche será inevitável, restando apenas engrossar as fileiras do GLST – Grupo Lambança Sem Tacógrafo, conjunto de abiscoitados metidos a autoridade, repleto de diplomas e certificados no local de trabalho, ares doutorais e ações medíocres.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Historinha Bonita

A Clênia Fonseca, uma anglicana amiga que muito estimo, na Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, no Recife, professora ouro de lei de jovens e adultos, vez por outra me conta uns “causos” encantadores. De um deles, extraí a história abaixo, acrescentando alguns retoques, deixando-a mais condizente com a nossa cultura regional. Ei-la:
A cada meio-dia, um pobre velho sertanejo entrava na Catedral Anglicana, situada na nos Aflitos, saindo rapidamente poucos segundos depois. Suas idas e vindas despertaram a atenção de um zelador, que um dia, sem muito lero-lero, perguntou-lhe de supetão, à saída do templo:
- O que danado você vem fazer aqui na igreja, meu bom velho, entrando e saindo tão rapidamente, todos os dias?
- Venho orar, respondeu o velhinho, sem pestanejar.
- Mas é muito estranha essa forma sua de orar, retrucou o xeleléu do deão. Não acredito que você ore tão rapidamente assim, me parecendo que você está de olho é naquelas pratarias que se encontram em cima do altar e que custam um dinheirão.
- É muito fácil de explicar, amigo. Na verdade, eu não sei recitar aquelas orações compridonas, que se encontram nos livros bem encadernados dos bem situados ou dos entendidos em teologia e filigranas bíblicas. Por isso, todo santo dia, eu entro na igreja e só digo "Oi, Jesus, é o Zé". E num minuto já estou de saída, voltando para a minha carrocinha de vender mariola. É só uma frase bem curtinha, mas tenho certeza que Ele me escuta.
Alguns dias depois, o velho Zé sofreu um acidente e foi internado num hospital beneficente. Na enfermaria, durante a sua permanência, passou a exercer uma grande influência sobre todos, conquistando-os pela sua simpatia e imensa fidelidade aos ensinamentos do Homem da Galiléia. Os doentes mais acabrunhados tornaram-se bem mais alegres e muitas risadas foram ouvidas, transformando o ambiente triste de quase toda enfermaria num local onde uma fraternidade sem pieguismos nem puritanismos grassava por todos os lados.
- Zé, disse-lhe a irmã mais nova, quando da visita semanal, os outros doentes estão dizendo que foi você quem mudou tudo, aqui na enfermaria. Eles dizem que você está sempre muito alegre e de bem com a Vida.
- Verdade verdadeira, maninha. Estou sempre muito alegre. É por causa de uma visita que recebo todo finzinho de manhã. E ela me faz muito feliz, me deixando sempre com uma vontade danada de quero-viver-mais.
A irmã ficou curiosa, ansiosa para saber quem seria a tal visita, a tal que deixava o seu irmão em tão alto astral. Já tinha até notado que a cadeira encostada na cama do Zé estava sempre vazia, embora muito bem asseada. O Zé era um velho solitário, sem ninguém, há muito tempo viúvo sem filhos.
- Que visita importante é essa, Zé? A que horas ela vem ?
- Ela vem todos os dias, mana, respondeu Zé, com um brilho diferente nos olhos. Todos os dias, sempre no finzinho da manhã, por volta do meio dia, ela chega de mansinho, fica em pé perto da cama e do meu rosto, passa a mão nos meus cabelos, sorri pra mim e diz de um jeito bem maneiro, antes de ficar sentado por uns momentos na cadeira:
- Oi, Zé. É Jesus. Tás melhor?
- E eu respondo que tou sempre ótimo, sentindo-me feliz, bem pertinho d’ELE
”.
O Zé voltou a trabalhar, vendendo sua tapioca nos arredores da igreja. E o xerife do deão Sérgio Andrade já pediu desculpas ao Pai pela desconfiança praticada.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Saber, Fé e Humor

Revisitei o João Silvino da Conceição, amigão de muitas caminhadas, nordestino arretado de sabido, paupérrimo de letras e milionário em criatividade neuronial, de deixar PhD de tese que ninguém leu sem glossário e de cueca. Num casebre devidamente preservado das chuvaradas últimas, acompanhado de filha separada e de dois pirralhos metidos a netos, o Silvino parece duplicar, a cada ano, seu saber, sua fé e seu admirável senso de humor, como que a consolidar seu maior título, o de ser da Conceição.
Como sempre, encareço ao amigo seus apontamentos últimos, sapiências explicitadas em garranchos escritos em cadernos populares, dezesseis folhas. Todos datados e devidamente sincronizados com os acontecimentos, muitos deles de uma atualidade de corar bispo sem eira nem beira pastoral.
Interesso-me por dois assuntos: Jesus Cristo e a esquerda, assuntos diferentes, de cenários distintos, sem quase nada a ver um com o outro. E o meu espanto se inicia com a tranqüilidade do Silvino. Pede para começar pela figura do Filho do Homem, segundo ele o maior líder da humanidade de todos os tempos,sem formação universitária nem pinta de moralista. Para Conceição, o Nazareno deixou uns “recados” para os seus seguidores. Tomei nota de alguns: 1. Não critique por criticar, colabore, atravessando o rio em que você está; 2. Nunca se omita, sempre participe, renegando os macaquinhos chineses, entendendo o alcance da parábola dos talentos; 3. Nunca prenda seu navio numa âncora, pois quem perde a sua coragem perde tudo; 4. Sinta-se vivo, jamais azedo, possuindo uma serenidade comportamental que nulifica toda e qualquer tentantiva dos fuxicosos; 5. Resolva os problemas da sua Igreja, sem dela se arredar, para num engrossar o cordão dos cavilosos; 6. Haja sempre como irmão, nunca como fiscal, supervisor, puritano, auditor ou inquisitor, como se fosse o único dono da verdade.
Complementando os “ensinamentos”, algumas anotações bíblicas estão intimamente correlacionadas com todos os recados: “Quando eu era criança, agia como criança, raciocinava como criança. Agora que sou adulto, ajo como adulto e raciono como adulto”; “Aconteça-me segundo a tua vontade”; “Esqueço-me do que fica para trás e avanço para o que está na frente”; “Examinem tudo e fiquem com o que é bom”.
No tocante às esquerdas, o Conceição tem um respeito incomum pelos que se dedicam anos a fio pelas causas populares. Mas nutre uma aversão fulminante aos “esquerdosos”, aqueles sectários que denigrem sem construir, mentem descaradamente mesmo contra suas próprias convicções, possuem uma prática populista idêntica aos demais, são autoritários e não desejam uma nova ordem, pois lutam pela manutenção da desordem generalizada, ninguém sendo ninguém no frigir dos ovos, caldo ótimo para suas sobrevivências metidas a defender para inglês ver. Num canto de página, encontrei uma afirmação de Guerreiros Ramos: “No Brasil de hoje há poucos homens de esquerda, porém muitos esquerdeiros. Estes vivem da gesticulação revolucionária e de ficções verbais”. E o acréscimo mordaz: “Tem gente que vive de iniciativas retardadas, aquelas que já não alteram mais o estado definitivo das decisões tomadas”.
O Silvino tinha entendido tudo, tornando-se ainda mais cidadão. E num radinho de pilha, sempre ao alcance do braço, a voz do Lulu Santos parecia surgir num instante combinado: “Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia”.....
Confesso que me entalei todinho, imaginando como o meu pai ficaria gratificado se tivesse conhecido o João Silvino. Fui para casa, agradecendo a Deus por João Silvino da Conceição existir. Pra gente pequena alguma botar defeito, civil, militar ou eclesiástica. Vez em quando a pitar um cigarrinho, dando umas baforadas entre uma arrematada anedótica e outra, que muito fazem o condescender da Criação.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Provincianismos

Nunca escondi a minha admiração pelo escritor português Fernando Pessoa, um legítimo poeta-aguilhão, que jamais se deixou mumificar nas torres de marfim de um intelectualismo sensaborão, contemplador do próprio umbigo, saudosista por excelência, desvinculado das dores dos seus e do mundo. Suas intervenções na realidade cultural, social e política do seu tempo, cáusticas algumas, recheadas de humor outras tantas, são minuciosamente analisadas, hoje, por cientistas sociais das mais variadas especialidades e graus acadêmicos. O que bem vem a demonstrar a contemporaneidade dos seus escritos em prosa e verso, ardorosos defensores de amanhãs menos miméticos.
Em setembro de 1928, num artigo publicado no Notícias Populares, Pessoa busca alertar seus patrícios acerca do provincianismo lusitano, considerado por ele “o mal superior português”. Um mal que também aflige outros países, “que se consideram civilizantes com orgulho e erro”. E alguns estados de alguns países latinoamericanos de língua portuguesa, que se imaginam eternos líderes regionais, desapercebidos ingenuamente da chegada veloz de novos tempos e outros horizontes.
Segundo o poeta, a síndrome provinciana se caracteriza por três sintomas: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e a incapacidade de ironia, na esfera superior.
O poeta explica o primeiro dos sintomas, afirmando que um pariense não admira Paris, ele gosta de Paris. Não se pode admirar aquilo do qual se faz parte. “Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas”. Em São Paulo, segundo lá se fala, aos cardosenses — moradores do município de Cardoso — são atribuidos o uso e abuso de inúmeras práticas auto-ufanosas, algumas até grotescas, ainda que aplaudidíssimas pelos da corte, os bajuladores de sempre.
Para o segundo sintoma, Fernando Pessoa é taxativo: “Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção”. Traduzindo: quem já é civilizado, não necessita arrotar grandezas ufanosas, vangloriando-se disso e daquilo, tal e qual um pavão de rabo muito lindo e pés nada charmosos. E por ser civilizado, comporta-se como os demais das outras áreas, sempre prescrevendo futuros, jamais desejando vê-los reproduzir coisas pretéritas.
No sintoma terceiro , a incapacidade de ironia, Fernando Pessoa diz que aí reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Na definição do notável lusitano, por ironia “entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário”. Um exemplo notável foi dado por Jonathan Swift, considerado o maior de todos os ironistas. Durante uma fome cruel na Irlanda, ele propôs como solução, uma sátira brutal à Inglaterra, alimentar todos pela utilização de crianças de menos de sete anos. Com a maior seriedade possível, sem possibilitar ver, nas entrelinhas, a ironia mortal. Espera-se, com esta explicação, que ninguém pense, por aqui, que a proposta é verdadeira...
Um exercício de primeira necessidade, eu recomendaria aos nordestinos mais civilizados, mormente os pernambucanos que estão numa luta feroz pelo soerguimento da imagem empreendedora do estado: leituras reflexivas sobre provincianismo. E mais: sobre a artificialidade do apenas progresso e os arrotos grandiloqüentes de um já-fui-bom-nisso que apenas inspiram lamuriantes compadecimentos, sem nada de proveitoso.
No mais é continuar caminhando, buscando reerguer-se com a disposição de apanhar cada vez menos, jamais abandonando a convicção do poeta-compositor Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
(Publicado no Portal da Rede Globo Nordeste)

Articulações de um Profeta

Recebi da filha Ana Carolina um livro oportuníssimo, nas vésperas do início das comemorações do centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara, quando até alguns bispos estão aderindo, depois de tentarem alijar o Dom da história contemporânea. Trata-se de As Noites de um Profeta – Dom Hélder Câmara no Vaticano II, de José de Broucker, biógrafo do Dom, presidente da Associação Dom Hélder – Memória e Atualidade, na França. Uma edição Paulus 2008, com preâmbulo do próprio Broucker.
Com a leitura do livro, melhor se compreende as 290 cartas escritas por Dom Hélder Câmara ao longo do Concílio Vaticano II, “nas quais se misturam reportagens, anedotas, retratos, diálogos, assuntos dos lugares e das questões problemáticas, meditações, estados d’alma”. Para tornar-se testemunho de mensagem de uma esperança mais comprometida com os menos afortunados de um mundo que se deseja mais justo.
O testemunho do Pe. Congar sobre as andanças de Dom Hélder no Concílio está em seu Diário, datado de outubro de 1962: “98 bispos moram aí, dos quais 75 brasileiros. Em pouco tempo, eu vejo uma dezena de bispos, em seguida chega Monsenhor Hélder (...) Depois de ter tagarelado um bom tempo, vamos para uma sala onde se reúnem conosco uma dúzia de jovens bispos. Eles me interrogam. Monsenhor Hélder conduz: um homem muito aberto, porém cheio de idéias, de imaginação e de entusiasmo. Ele possui aquilo que falta em Roma: a visão”. Uma visão já antecipada em dezembro de 1960, quando Dom Hélder assim respondia a um questionário elaborado por um cardeal de Roma: “Não é tarefa de um Concílio ‘definir critérios para a fusão ou o desmembramento de dioceses’. ... Mais impressionante é que não sejam considerados os problemas da humanidade”. E citava dois dos mais dolorosos problemas de então: a explosão demográfica e a terrível desigualdade social. O Dom possuía uma cidadania cristã dotada de um duplo olhar: sobre a realidade visível da Igreja e sobre a realidade vivida da humanidade.
O que Dom Hélder Câmara escreveu em suas Cartas Circulares, com seu jeito peculiar de dizer sem ofender, oferece uma panorâmica de uma realidade então ainda tridentina, eivada de muita hipocrisia: “Sabem vocês que, em pleno Vaticano II, na basílica de São Pedro, as ouvintes (mulheres convidadas) têm um bar, a que os Padres conciliares não têm acesso? ... Isso me parece ser uma confirmação da tese de ser a mulher encarnação do diabo e sinônimo de pecado ...” E ainda dava uma sutilíssima alfinetada naqueles que se opunham à comunhão dada em pé, “como se, depois de séculos, o celebrante não comungasse de pé”.
O livro de José de Broucker é valioso como um aperitivo de primeira grandeza para todos aqueles que buscam ser helderistas, jamais helderétes, num mundo desafiante deste ainda início de século. Para se ler na íntegra as Cartas, deve-se ter os pés no chão e a mente solidária com os menos favorecidos, os sem-terra, os sem-teto, os sem-direitos, os sem nada parecido com uma mínima condição de ser gente. Reflexões que atordoam os alguns “ainda vivos e já desencarnados”, olhinhos somente virados para o Alto, desapercebidos do irmão de mão estirada, a implorar um simples pedaço de pão.
Em Roma, novembro de 1965, Dom Hélder escreveu: “Quem aceita o impossível como uma realidade e acolhe o mistério como se bebe água? Sem nenhuma dúvida, as crianças, os embriagados, os loucos, os poetas e os santos”. Hoje, as leituras das Cartas Circulares ratificam: o Dom sempre foi um cadinho nordestino, onde a criança sempre autêntica, embriagada pela mensagem do Homão da Galiléia, louca por mudanças estruturais que redignificassem o Ser Humano, a cantar a Esperança, santifica o seu derredor planetário, imaginando-se um pedaço da Criação, buliçoso sempre, cutucador por excelência, emérito despertador de uma consciência planetária.
Dom só existiu um. Quem hoje se auto-intitula de Dom está cometendo plágio. Ou é fingido ou amacacado.
(Jornal do Commercio, Recife – Pernambuco, 04.06.2008)