segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Samurais e Pebas

Vez por outra me deparo com dois tipos de gente. De um lado, observo os gentis, que são muito piedosos e de bom coração, ainda que não consigam canalizar tais qualidades na construção de realizações consistentes e duradouras. Também, no palco da Vida, verifico a presença dos que promovem grandes eventos, são agressivamente vocacionados para o empreendedorismo, embora nunca levem na devida conta a sensibilidade dos que integram os seus derredores. Os dois tipos – os muito piedosos e os agressivamente empreendedores – são, frequentemente, egoístas e autocentrados, como se todo o resto dependesse exclusivamente deles e das suas intenções.
Desde os tempos de universidade, tenho admiração por aqueles que sabem conjugar talento, coragem e ética, na efetivação de empreendimentos que marcam cenários, transformando-os ou catapultando-os para novos patamares civilizacionais. E os “mandamentos” deixados por um filho de samurai, o Miyamoto Musashi, nascido em 1584, oferecidos em sala de aula pelo professor Germano Coelho, que foi paraninfo da nossa turma, ainda balizam o meu cotidiano existencial. Regras comportamentais plenamente válidas para muitos séculos do porvir: 1. Nunca pense desonestamente; 2. O caminho está no treinamento; 3. Trave contato com todas as artes; 4. Conheça o caminho de todas as profissões; 5. Aprenda a distinguir ganho de perda nos assuntos materiais; 6. Desenvolva o julgamento intuitivo e a compreensão de tudo; 7. Perceba as coisas que não podem ser vistas; 8. Preste atenção até ao que não tem importância; 9. Não faça nada que de nada sirva.
Nos anos 90, um livrinho apaixonante, intitulado Gerência em Pequenas Doses foi sucesso editorial. Foi escrito por um especialista em pesquisa, Russell L. Ackoff, à época já bastante conhecido dos profissionais brasileiros. Nele, são ministradas 52 bem medidas doses, onde se mesclam informações, provocações e oportunos desabestalhamentos. Úteis para quem busca assimilar procedimentos inovadores, ousados e criativos, indispensáveis nos primeiros passos de toda camimhada profissional. Propositadamente, explicito aqui apenas três reflexões do livrinho-gigante: 1. Quanto mais desenvolvidos se tornam os indivíduos, organizações ou sociedades, menos dependem de recursos e mais podem fazer com qualquer recurso que tiverem; 2. Aperfeiçoar é pensar sem restrições. Pensar sem restrições é pensar criativamente; 3. Aqueles que não sabem, mas pensam que sabem, são conselheiros mais perigosos do que aqueles que não sabem, mas sabem que não sabem.
O texto do Ackoff muito favorece aqueles que desejam associar a impulsividade empreendedora com uma serenidade convivencial. Integrando a capacidadede de sonhar, tal e qual fazem os iniciativos, e uma efetiva postura comunicacional. Sempre a diferenciar as utopias das ilusões passageiras, uma comunicação pessoalista substituindo a comunicação individualista, a primeira voltada para pessoas de todos os matizes e regiões. E que percebem que Internet e Intranet não garantem, em si, uma comunicabilidade densamente afetiva, posto que não reproduzem emoção e crença, irmãs siamesas que envolvem corações e mentes. Siamesas que pressentem que as causas dos problemas estão, inúmeras vezes, por debaixo dos panos, como canta o Matogrosso, talento brasileiro. E que sabem ainda diferenciar a enorme distância entre aceitar e acreditar, nunca subestimando os efeitos corrosivos dos pietismos que camuflam as arrogâncias.
Ultimamente, estou recomendando aos que buscam ampliar-se como pessoa num mundo cada vez mais competitivo uma leitura diferenciada: Como Ser Extraordinário em um Mundo Comum – A Filosofia Samurai, de Brian Klemmer, editora Larousse. Suas reflexões em muito ampliarão a compreensão sobre o que o medo representa: uma estratégia suicida, que inibe as multiqualificações profissionais, agigantando as distâncias culturais entre o talento e o tá-lento. A ratificar o pensar de Ortega y Gasset: “Diga-me em que você presta atenção e lhe direi quem você é”. Se samurai, como os talentosos. Ou peba, como Manuel Zelaya, metido a herói, com chapéu de cowboy e seu circo de apaniguados.
PS. Para João Carlos Paes Mendonça, um samurai nordestino, admiração crescente de longa data.
(Publicada, a partir de hoje, 28/09/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

sábado, 26 de setembro de 2009

Biblioteca Celso Furtado

O BNDES está de parabéns pela inauguração, semana passada, da Biblioteca Celso Furtado, no Centro Internacional de Políticas para o Desenvolvimento, que funciona no seu edifício-sede, no centro do Rio de Janeiro. Congregando 7.542 livros, os livros estavam espalhados em vários endereços: no Quartier Latin, em Paris; em Copacabana e no Alto da Boa Vista, na Cidade Maravilhosa, onde o fundador da SUDENE eternizou-se em 2004.
Segundo Liana Melo, jornalista do jornal O GLOBO, em reportagem datada de 24 de setembro de 2009, “bibliófilo, Furtado nunca se caracterizou por colecionar livros raros, mas sua coleção reúne clássicos autografados pelo keynesiano John Kenneth Galbraith, o revolucionário cubano Fidel Castro, o economista brasileiro Eugenio Gudin e o argentino Raul Prebisch, da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), além do historiador francês Fernand Braudel”. E disse mais: “A biblioteca de Furtado tem obras sobre o Brasil, a América Latina e os estudos do desenvolvimento. Também é possível encontrar livros de Filosofia (num total de 424), História (chegam a 1.570) e até títulos pouco identificados com a vida e obra do autor, como história da moda (um total de cinco), psicanálise (38), culinária (nove) e até história em quadrinhos (quatro)”.
Segundo a viúva do economista Celso Furtado, Rosa Freire d’Aguiar, “o sonho de Celso sempre foi disponibilizar para o público sua biblioteca particular, porque ele tinha uma enorme gratidão por ter estudado em escola pública, na Paraíba. O maior temor dele era ver sua biblioteca ser vendida para terceiros”. E dá um testemunho valioso: “Celso era um rato de livrarias e sebos. Vivia comprando livros. Para Celso, os três maiores gênios brasileiros seriam Aleijadinho, Machado de Assis e Villa-Lobos, porque foram, segundo ele, ‘profundamente brasileiros’”.
Eternizado aos 84 anos vítima de um colapso cardíaco, a obra mais importante de Celso Furtado, “Formação econômica do Brasil”, sua primeira edição completa este ano 50 anos, vai ganhar uma edição comemorativa, que deverá chegar às livrarias nos próximos primeiros dias de outubro.
Para os que desejam tomar mais intimidade com o pensamento de Celso Furtado, tudo está explicitado no site do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, Centro criado a partir de uma proposta apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sessão de abertura da UNCTAD XI – Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento, acontecida em São Paulo, junho de 2004. Um Centro que pudesse congregar as inteligências comprometidas com o desenvolvimento, uma idéia que de imediato foi endossada por pesquisadores e cientistas sociais do mundo inteiro. Uma visita ao site do Centro - www.centrocelsofurtado.org.br – ratificará o mérito da proposta do presidente Lula.
O Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento é uma associação civil de direito privado, de interesse público, sem fins lucrativos e sem vinculação político-partidária ou religiosa. Segundo os fundadores do Centro, sua vocação precípua é a de “promover atividades acadêmicas nas áreas de interesse previstas em seus estatutos, tendo como linha-mestra o estudo do desenvolvimento em suas múltiplas facetas econômica, social, regional e urbana, infra-estrutural, ambiental, internacional, os cursos e seminários, de caráter formativo, são dirigidos a estudantes e aos interessados nos problemas do desenvolvimento”. Os demais objetivos do Centro Celso Furtado são: a. conceder prêmios e bolsas de estudos a pesquisadores na área de desenvolvimento econômico e social; b. propor e avaliar políticas de desenvolvimento; c. publicar e divulgar os resultados dos trabalhos realizados; d. preservar e dar acesso público à Biblioteca e aos arquivos de Celso Furtado, quando concluídas sua classificação e organização.
Do Cadernos do Desenvolvimento n° 1, reproduzo, abaixo, artigo da viúva Rosa Freire d’Aguiar, Presidente Cultural do Centro. Uma aula de sabedoria e saudade intitulada A Memória do Futuro. Ei-la na íntegra:

“Quero registrar hoje, aqui, uma idéia que há tempo venhoacariciando: escrever uma História da Civilização Brasileira”. 20 de agosto de 1937. Celso Furtado

Vem de longe, das páginas de um diário adolescente, o primeiro acorde do que se tornaria o tema poderoso e abrangente, harmônico e variado de uma sinfonia que se confunde com a própria vida de Celso: entender o Brasil, a história, os homens. A imagem musical se detém na outra paixão daquele jovem de 17 anos: a música, aprendida na Paraíba, discutida em acaloradas conversas na praia de Tambaú com os amigos do Liceu Paraibano. Mais tarde, já no Rio, a música alimentaria o sonho de ser crítico musical, o desassombro nas conversas com Villa-Lobos, o fervor de assistir a um concerto de Toscanini. Mais tarde ainda, a música seria refúgio das horas claras ou turvas, das alegrias e dos trancos, das retomadas enriquecidas pela dor da experiência.
O desejo obstinado de entender o Brasil pressupôs entender por que o país era subdesenvolvido, e, corolário, a mecânica do subdesenvolvimento. Essa a marca primordial de sua trajetória, que ganhará a um só tempo amplidão e profundidade para se desdobrar em muitas outras na construção do Brasil e de seu destino. Autor de cerca de trinta títulos, alguns definitivos para a história do pensamento econômico moderno, do Brasil e América Latina, o intelectual não se satisfez em apontar caminhos, foi buscar na realidade o interlocutor passível de conduzir o país ao pleno desenvolvimento, dando às idéias a musculatura da esperança em ação.
Se a vida pudesse ser desfiada em acelerado, eu lembraria que Celso foi jornalista aos 19 anos, funcionário público aos 23, advogado aos 24, doutor em economia aos 28; foi segundo tenente da FEB aos 24, pioneiro da Cepal aos 29, criador e superintendente da Sudene aos 39, ministro do Planejamento aos 42; foi professor de grandes universidades na Europa e nos Estados Unidos, embaixador e ministro da Cultura.
Lembraria o rigor do caráter. O indisfarçável orgulho de ter sido nada mais que um servidor da coisa pública, sempre e apenas em governos civis. O rigor do pensamento. Fosse na formulação teórica, fosse na frase clara, sem titubeios, elegante, literária. O rigor do intelectual. O atrevimento de pensar por conta própria, de estender à economia a necessária visão interdisciplinar e humana. O reconhecimento recebido como o teórico do subdesenvolvimento.
Lembraria os não-ditos: o peso do exílio que calou fundo, a tristeza de ter sido expelido de seu país, “que deixara de ser a pátria que protege para transformar-se em ameaça”. O acabrunhamento, ao ouvir os ecos da brutalidade do regime que o punira injustamente. Diria que Celso personificava a definição de jornalismo cunhada por Cláudio Abramo: o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter. Lembraria a gesticulação das mãos. A marca dos grandes maestros quando querem transmitir paixão à sua regência.
Lembraria tudo isso e muito mais. Mas, de certa forma, já foi lembrado. Por Celso, em seus três livros de memórias intelectuais. Pelos que crêem em suas idéias. E até pelo pequeno exercício que um dia fizemos a quatro mãos, a cronologia biográfica que, pelas artes e manhas da internet, ganhou vida própria e ressurge ora aqui ora acolá no emaranhado mundo virtual.
Esta página reservada a Celso num Centro que leva seu nome acrescenta, ordena e atualiza reflexões sobre as suas idéias e sua ação. Não fala ao passado, mas ao futuro, à juventude do seu país à qual ele se dirigiu tantas vezes. Esse é o propósito dos textos reunidos em Sobre Economistas. Esse também é o objetivo de se esboçar um “Celso por ele mesmo”, incluído aqui em seu perfil da Linha do Tempo. São comentários furtivos que permearam entrevistas, pequenas frases pinçadas de conversas que ele teve com a imprensa em seus últimos dez anos de vida. São grãos de areia, que, se olhados com lupa, singularizados, revelam uma pincelada até então encoberta, um sentimento refreado agora trazido à tona, uma impressão flagrada no fundo da memória. Facetas desabrochadas com o avanço da idade, quando receios e anseios cedem lugar à consciência de que chegou o momento de depurar, de decantar o secundário, de fixar-se no essencial. Arcos menos visíveis da grande ponte que sustenta sua permanência em nossa História.
É esse trabalho de decantação da memória como um pedaço do futuro a missão precípua da presidência cultural do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. A guiá-la está a certeza de que os testemunhos dessa vida dedicada ao Brasil e à luta pelo desenvolvimento, ou, como ele preferia formular, à superação do subdesenvolvimento, devem se incorporar ao patrimônio dos que pensam afinados com Celso Furtado, que um dia também escreveu: “nem sempre as idéias ficam obsoletas com o passar do tempo; por vezes, ganham em vigor”.
Rosa Freire d’Aguiar

PS. Esta Reflexões 500 foi escrita por quem teve o economista Celso Furtado como Nome da Turma Economistas 1966 da Universidade Católica de Pernambuco. Exilado por imposições militares, Celso Furtado marcou sua presença no IV Congresso Brasileiro de Economistas, promovido em 1981 pelo Conselho Regional de Economia – 3ª. Região, à época por nós presidido, proferindo a Conferência de Encerramento.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Por uma mentalidade enxergante

Tenho observado pessoas com as mais bizarras percepções de mundo. Inclusive na Universidade, onde um emocional mais para infanto-juvenil que para adolescência se espraia nos períodos primeiros da graduação da maioria dos cursos. Seguramente sequela dos medos e apreensões vivenciados pelos pais e demais parentes durante o período ditatorial. Onde qualquer análise crítica acarretava consequências não muito agradáveis para os “pensantes” que teimavam em ampliar a “enxergância” dos que não tinham qualquer nível de aprendizagem de Filosofia e de Sociologia, mais acostumados com o “repetir” do que com o “refletir”. Como se a vida ostentasse apenas um só lado econômico-financeiro, a acumulação de uma minoria cada vez mais privilegiada sendo fato pra lá de natural.
Em seu livro Para Pensar e Guardar, o escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962) parecia definir alguns dos alunos encontrados pós-ditadura brasileira: “Existe um tipo de alunos bem-dotados que, apesar de suas aptidões, em todos os tempos são sempre incômodos aos professores e constituem para eles verdadeiro peso, porque neles o talento não é uma grandeza orgânica vindo de dentro, a marca nobre de uma natureza privilegiada, de um temperamento e de um caráter excepcionais, mas algo artificial, postiço, usurpado ou roubado”. E Hesse ainda comenta: “Quem é pequeno vê no maior apenas o que um pequeno é capaz de perceber.”
A lição do notável Fernando Pessoa também não pode ser relegada: “O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele, um morto para eles. A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada – todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar. A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja. A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado. A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter tido, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes. A quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma dessas coisas, que são a mesma da maneira como as entendam aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.”
Recomendaria com entusiasmo redobrado um ensaio que seguramente poderia reformatar mentes submissas às apreensões acumuladas em décadas passadas: A Cabeça Bem-Feita, de Edgar Morin, Bertrand Brasil, 2008, já em 15ª. edição. Um texto que clama por um Emílio (Jacques Rousseau) para o século XXI, capaz de influenciar uma Educação Básica que fomente uma estratégia integradora entre os saberes diversos. E que favoreça a preponderância do espírito sobre o apenas material, posto que a vida não se constitui apenas de trabalho. Morin chama a atenção para as inadequações cada vez mais amplas entre os saberes, que angustia os que percebem que a realidade requer análises e soluções “polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais e planetárias”.
Uma pequena história é significativa para os profissionais século 21:
Uma vez um mestre fez uma experiência com seus alunos. Pegou um vaso e encheu-o com pedras grandes. Depois, ergueu o vaso e perguntou aos alunos: o vaso está cheio? A turma se dividiu, com alguns dizendo que sim e outros que não. O mestre então, pegou algumas pedras pequenas e colocou-as no vaso. As pedras pequenas se encaixaram entre as grandes, e o mestre ergueu o vaso, novamente, perguntando: o vaso está cheio? Desta vez a maioria da turma respondeu que sim. O mestre, então, pegou um saco de areia e despejou dentro do vaso. Depois, repetiu a pergunta. A grande maioria respondeu que sim. O mestre, então, pegou uma jarra de água, derramou no vaso, e perguntou: o vaso está cheio? A turma finalmente chegou a um consenso. Todos responderam que sim. Então o mestre falou: Este vaso é como a nossa vida. Se eu tivesse colocado as pedras pequenas, a areia ou a água em primeiro lugar, não haveria espaço para as pedras grandes. As pedras grandes na nossa vida são: família, amigos, carreira, trabalho, lazer e saúde. É fundamental que não descuidemos delas. Não podemos perder muito tempo com coisas sem importância (as pedras pequenas), pois corremos o risco de não haver espaço para as coisas que realmente são importantes (as pedras grandes).”
No seu livro, Edgar Morin alerta para a construção, em pleno século XXI, de uma nova Torre de Babel. Que deverá, agora, pugnar por soluções criativas para três grandes desafios: o cultural, o social e o ecológico. Onde o desenvolvimento educacional de desenvolva sob o princípio da dúvida, aquela que fortalece a criatividade e a fé nos destinos futuros do planeta.
(Publicada, a partir de hoje, 24.09.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Presente de casal padrinho

Temos, Melba e eu, um casal padrinho que muito amamos, Rosanna e Saulo Gorenstein, irmãos nossos em Abraão, Isaque e Jacó, ela sempre atenta aos dois “n” do seu nome. Mensalmente almoçamos juntos, quando a conversa fica em dia, as novidades postas na mesa e os cotidianos recifenses devidamente assimilados. De preferência, os temas menos sisudos, diante das azias causadas pelos assuntos “sérios”, daqueles tratados no Congresso Nacional.
No nosso último encontro, a conversa girou sobre dois livros, escritos despertadores destinados aos que ainda possuem tesão existencial sem fricotes nem salamaleques. Páginas que deixam a gente de bem com a vida, embora sempre à mercê da Misericórdia Divina.
O primeiro deles, Enciclopédia do Humor Judaico – Dos Tempos Bíblicos à Era Moderna, escrito por Henry D. Spalding, editora Sêfer. Estruturada por temas – Ateístas, Agnósticos e Convertidos; Casamento e Divórcio; Anti-semitas; Fumar, Beber e Jogar; Médicos e Pacientes; e Sinais dos Tempos são alguns dos 39 capítulos – e magnificamente bem encadernada, a coletânea, segundo o autor, “espelha a história do povo judeu. É um reflexo das suas alegrias e angústias, anseios e desalentos, e daqueles períodos tão breves de bem-estar econômico e social”.
Ao longo das suas páginas, a Enciclopédia destila quarenta séculos de história, que remontam desde os tempos bíblicos até a era atômica, a ressaltar o excepcional senso de humor do povo hebreu.
Findo o almoço, escolhemos cinco “causos” do livro, para provocar a sua leitura integral:
1. – Papai, pergunta o filho de dez anos à mesa também com a mamãe, qual a diferença entre marido e solteiro?
- Filho amado, solteiro é um homem que chega ao trabalho todas as manhãs vindo de um lugar diferente.
2. Diante do falecimento súbito de amigo, o rabi mandou um emissário comunicar à esposa, pedindo muita cautela no tratar.
- A viúva Raquel mora aqui?, perguntou o mensageiro.
- Sou Raquel, mas não sou viúva.
- Quer apostar?, indagou o shames, funcionário que cuida da sinagoga.
3. A placa do restaurante do Jacó dizia: “Preparamos todo tipo de saduíche”.
- Traga-me um sanduíche de elefante,pediu um jovem metido a sabido.
- Sinto muito, meu jovem, mas não podemos gastar um elefante inteiro para fazer só um sanduíche.
4. Um rabino e um padre discutiam sobre como deveria ser o paraíso.
- Uma coisa é certa, disse o padre, teremos um bom descanso lá em cima. Nenhuma compra ou venda é efetuada no céu.
- Claro que não, rebateu o rabino. Não é para lá que os negócios terão ido.
5. Mãe para a filha:
- O que você quer ganhar no Chanucá (festa religiosa onde as crianças ganham presentes)
- Um espelho, mamãe.
- Que pedido inusitado!! Por que?
- Porque estou ficando grande demais para me maquiar usando o botão de metal da porta.
O segundo livro, Fomos Maus Alunos, editora Papirus, já em 9ª. edição, foi escrito por dois talentos brasileiros, Gilberto Dimenstein e Rubem Alves. O primeiro, jornalista e comunicador, é especialista em “fazer com que uma ideia tenha vida”. O outro, teólogo notavelmente capacitado na arte de bem entrosar o máximo da razão com o máximo da emoção, está sempre investindo contra o senso comum, a mesmice escolar e a pasmaceira pedagógica dos que ainda não perceberam as manifestações das “birutas” que indicam as direções dos saberes vários.
A construção do texto final, estruturado a partir de diálogos travados entre eles, relata a travessia educacional de cada um quando criança e adolescente. Ambos dotados de ampla curiosidade, muito acima das mediocridades escolares merecedoras da reflexão ferina de Roland Barthes: “Nas escolas os alunos são obrigados a fazer o que não querem fazer e a pensar o que não queriam pensar”.
Em Gilberto e Rubem, a convicção da certeza explicitada por Guimarães Rosa: “O que importa não é nem a partida, nem a chegada: é a travessia”. Com as rejeições sofridas, um por ser judeu, o outro por ser um interiorano de Minas Gerais no melhor colégio do Rio de Janeiro, e ainda mais pustestante (xingamento dos colegas católicos para os que eram, à época, evangélicos).
Ao casal-padrinho amado, Rosanna de cabelos muito bem cortados, expliquei a razão do livro do Gilberto Dimenstein e do Rubem Alves já se encontrar na nona edição. Para satisfazer a curiosidade sobre ele, indaguei sobre a causa do sucesso, via Internet, a uma amiga mineira ainda na ativa no sistema estadual de educação de lá. E a resposta me satisfez: o livro continua sendo muito debatido pelos responsáveis das quatro primeiras séries do Ensino Fundamental. Para evitar “a bolorência do agir pedagógico”, evitando-se “a chatice da escola”, sem as “visões prepotentes” dos medíocres.
No final do almoço, os elogios foram para o Gilberto Dimenstein: “A palavra pedagogo vem do grego. É o ‘escravo que conduz criança’. De alguma forma, isso voltou. Porque, pelo salário que o professor recebe, pelo pouco tempo de preparo de aula que tem, tem de voltar a ser o ‘escravo que conduz criança’”.
(Publicada, a partir de hoje, 21/09/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

sábado, 19 de setembro de 2009

Moltmann e o Movimento de Convergência

Sou leitor regular de Notícias Unisinos, um jornal eletrônico diário enviado pelo Instituto Unisinos da conceituada Universidade do Vale do Rio dos Sinos, entidade mantida pela Associação Antônio Vieira, denominação civil da Província dos Jesuítas do Brasil Meridional, sediada em São Leopoldo, RS. Uma leitura obrigatória diária que proporciona um acompanhamento dos principais assuntos expostos na mídia nacional e internacional, gravados os que despertam minha atenção.
Um dos assuntos arquivados eletronicamente foi uma entrevista dada pelo teólogo reformado Jürgen Moltmann, em outubro do ano passado. Nela, ele ressalta que o elo existente entre o cristianismo e o pensamento grego, embora importante para a Europa, não se destina ao pensamento extra-europeu, somente representando o mundo romano-helenístico. E que este elo é um paradigma medieval de Tomas de Aquino, não se constituindo em modelo para o pensamento científico moderno. E afirmou ainda que há um cristianismo constantiniano e um não-constantiniano.
Caracterizando-se como protestante de proveniência e ecumênico de futuro, o teólogo Moltmann formula uma teologia cristã, aproveitando ideias de todas as tendências, inclusive do movimento pentecostal, que deve ser incluído no diálogo ecumênico. Segundo ele, o movimento pentecostal é um extenso movimento com uma nova experiência do Espírito Santo. E se o diálogo com Roma estiver emperrado, é chegada a hora de se buscar outras alternativas.
A coragem política do teólogo Moltmann encoraja, principalmente numa conjuntura repleta de “faladores” e muito poucos “fazejadores”, muitos cristãos “esquerdeiros”, nunca efetivamente progressistas: “Devemos intrometer-nos onde é venerada a morte e destruída a vida: é isto que entendo por teologia política. Não queremos uma politização da teologia, mas uma espécie de teologia profética”.
Creio que o teólogo muito aplaudiria o Movimento de Convergência, instituído para um sentir comum de uma experiência de espiritualidade cristã. Possuindo um objetivo principal - trabalhar na união dos elementos essenciais da fé -, o MC buscaria “tesouros velhos e novos” herdados da Igreja universal, conforme uma mais que bimilenária recomendação evangélica (Mt 13,52).
Concordo plenamente com a afirmação de David Watson, ministro anglicano: “Este rompimento com Roma (a Reforma), apesar de inevitável, devido à corrupção do tempo, desgraçadamente produziu sucessivas divisões que tem partido em mil pedaços o Corpo de Cristo, com um resultado que, hoje, a missão da Igreja é gravemente invalidada pela variedade desconcertante de denominações... Assim sendo, a Igreja é uma cristandade dividida e separada não obstante isto ser um escândalo e, cremos, todos os cristãos necessitam arrepender-se deste fato profundamente.”
O Movimento de Convergência teve um “cutucador”, liderança de inúmeras peregrinações pessoais, chamado Richard Foster, cujo livro clássico A Celebração da Disciplina, foi para mim apresentado no Rio de Janeiro, recentemente, por Dom Luiz Prado, bispo emérito e Reitor do SETEK – Seminário Anglicano de Porto Alegre. Através de uma prática integrada às cinco tradições básicas da espiritualidade, Foster, de origem quaker, convocou, em 1988, uma conferência chamada Renovare, objetivando acelerar as convergências das correntes cristãs, num instante planetário de muita conturbação, onde a extrema-direita política, na Europa, principia uma caminhada ascendente nada democraticamente promissora.
Creio que em João 10,16, quem escreveu o evangelho joanino parametrizou uma convocação feita pelo Senhor que foi relegada até pouco tempo, por presunção, arrogância, ânsia de poder, episcopalidades balofas, pastoralidades inconsequentes, evangelizações simplórias e ingenuidades estratégicas as mais diversas. Tudo integrando aquela transitividade ingênua tão bem descrita pelo educador pernambucano Paulo Freire. Eis João 10,16: “Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”. Em outras palavras: “Que ninguém se ponha como proprietário de Mim!”.
Cada vez mais me convenço: o futuro da Igreja deverá sofrer fortes impactações nos próximos decênios. Através de lideranças convergentes, milhões se agruparão em torno das essências, as circunstâncias ficando por conta de cada estrutura denominacional. As denominações convergindo sob um lema norteador: "Alicerçados na tradição, vivendo no presente e olhando para o futuro".
Ampliemos o Movimento de Convergência, antes do “seu” Lobo chegar. Para que não sejamos devorados sem dó nem piedade por ele e pelos que apenas se fantasiam de ovelhas, de olhinhos revirados e sem qualquer tino bíblico libertador.
PS. A releitura de A Metáfora do Deus Encarnado, do teólogo John Hick, Vozes, 2000, é sempre oportuna para uma contínua evolução espiritual. Sempre serei grato ao meu irmão Dom Jubal Neves, bispo anglicano de Santa Maria, RS, que um dia me presenteou livro tão fecundante. Segundo Rubem Alves, “loucura e criatividade moram em quartos vizinhos”. Que diga Paulo apóstolo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Para debates serenos

Em maio passado, a Companhia das Letras tornou público em língua portuguesa um texto de Richard Dawkins, zoólogo, etólogo e evolucionista britânico, professor aposentado da Universidade de Oxford, conhecido mundialmente como o "rottweiler de Charles Darwin". Com o título de A Grande História da Evolução, a exposição de Dawkins requer uma leitura atenta das suas mais de setecentas páginas, se se deseja contribuir para convergências sadias entre as duas grandes vertentes fomentadoras da Vida: a Ciência e a Fé.
Dizem os historiadores que quando Charles Darwin lançou, em 1859, o seu estudo A Origem das Espécies, o conservadorismo religioso inglês o chamou de “o homem mais perigoso da Inglaterra”, para não revelar, aqui, impropérios mais cabeludos assacados contra o pesquisador pioneiro do evolucionismo. O próprio Darwin escreveu em 1871 que “a ignorância alimenta a confiança mais frequentemente do que o conhecimento: são aqueles que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, os que tão confiantemente assumem que esse ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência”.
No século XIX, a teoria evolucionista provocou um rebuliço na sociedade britânica, principalmente na Sociedade Britânica para o Desenvolvimento da Ciência, a sociedade avó da nossa SBPC. Em junho de 1860, no salão principal do Museu de Oxford, um acalorado debate refletiu bem os ânimos de então. O naturalista evolucionista Thomas Huxley, apelidado de Bulldog de Darwin, apresentava suas reflexões sobre o parentesco entre o homem e o macaco, quando o bispo Samuel Wilberforce perguntou a Huxley se o parentesco dele com os macacos vinha do lado paterno ou materno. Ouviu uma resposta que ficou célebre: “se tivesse de optar entre um miserável macaco para avô ou um homem dotado de grande inteligência e influência, mas que usa tais virtudes para trazer o ridículo a um sério debate científico, sem hesitação optaria pelo macaco”.
A historinha real acima se encontra num livro recente, honestamente escrito por Sandro de Souza, biólogo PhD da Universidade de São Paulo, que frequentou por quatro anos o pós-doutorado de Harvard, trabalhando com Walter Gilbert, Prêmio Nobel de Química. O livro intitula-se A Goleada de Darwin, editado pela Record, e narra a evolução dos debates entre criacionistas e evolucionistas. O texto do Sandro Souza proporciona um panorama bastante lúcido sobre as discussões desenvolvidas, inclusive trazendo um pronunciamento de Barack Obama, quando ainda pré-candidato democrata à presidência dos Estados Unidos: “Acredto em evolução e apoio o consenso da comunidade científica de que a evolução está cientificamente validada. Não acredito que seja útil aos nossos estudantes corromper discussões de ciência com teorias não científicas, como a do ‘design inteligente’, que não estão sujeitas ao escrutínio experimental”.
O debate tende a se aprofundar. Creio que Richard Dawkins presta um imenso favor, quando alfineta aqueles que tentaram queimar na fogueira Galileu Galilei, desmerecer Teilhard de Chardin e que buscaram apedrejar o ainda atuante, embora aposentado, bispo anglicano John Shelby Spong. E que ainda não assimilaram a lógica do cisne negro, título do livro de Nassim Nicholas Taleb, libanês especializado em problemas relacionados à incerteza e à probabilidade.
Receio que a fogueira da vaidade assuma as rédeas do debate, iludindo mais que esclarecendo e radicalizando mais que promovendo compreensões e convergências, quando todos deveriam estar cientes de que a Verdade jamais será integralmente desnudada. Lamentavelmente, as religiões foram utilizadas para justificar a supressão de inúmeros direitos humanos, maus tratos e assassinatos abomináveis, quando deveriam incentivar o pensamento crítico para reduzir os dogmatismos ridículos, as superstições cavilosas e os fanatismos desvairados em nosso planeta.
Um teólogo anglicano está com um livro traduzido recentemente para a língua portuguesa. Deus – Um Guia para os Perplexos é o seu nome. Seu autor, Rev. Keith Ward. A editora é Difel. O prefaciador do livro, Leonardo Boff, enfatiza: “Ward tenta ir além das discussões meramente racionais sobre Deus, pois o conhecimento humano, isso ficou claro depois de Kant, não dispõe de um fundamento último de certezas absolutas, base de decisões definitivas”. Um excelente texto para desabobados.
Reflexão recente realimenta esperanças e alavanca convicções religiosas, desmitologizando ontens e preparando-se para os amanhãs desafiadores dos novos buracos negros: “Se pudermos reconhecer que a religião, como qualquer ideologia, é uma construção social - com benefícios, perigos, invenções arbitrárias e, acima de tudo, raízes na natureza humana -, então poderemos renunciar a muitos argumentos vazios e voltar às maravilhas terrenas da bancada do laboratório
(Publicada, a partir de hoje, 17.09.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Não às canalhices

Foto de primeira página de um jornal sulista de grande circulação bem revela a dimensão do praticado por grupelho vândalo. Destruir patrimônio público nada tem a ver com posturas oposicionistas a uma determinada iniciativa governamental. É ato acanalhado de uns poucos ajumentados que se imaginam salvadores da pátria, pela via da destruição do que pertence à comunidade.
Aqueles delinqüentes seguramente jamais ouviram falar de Betinho, um dos maiores e mais lúcidos líderes das nossas áreas progressistas. Se possuíssem tino, seguramente compreenderiam a sua advertência: "O movimento popular não pode achar que o melhor caminho é o sem alternativa e retorno. Que a única solução para os conflitos é o confronto e que a melhor forma de chegar à democracia é cruzar na frente dos tanques. Que a melhor forma de fazer heróis é praticar o suicídio. Não pode também achar que uma pessoa com razão tem o direito de fazer tudo o que lhe der na cabeça e, depois, cobrar solidariedade e apoio de todos os demais. Nem pode achar que o título de esquerda confere legitimidade a todas as propostas ou que todos os miltantes do movimento popular acordam e dormem com a verdade debaixo do braço".
Não percebem os tresloucados que, apesar de todos os pesares, o Brasil apresenta estatísticas impressionantes. Não sabem eles que o Produto Interno Bruto equivale economicamente à soma da Suécia e Espanha ou de Taiwan e Rússia ou da Dinamarca e Bélgica e Holanda. E que o IBGE informa que a classe média brasileira é 8% maior que a população da Alemanha e maior que a soma da República Tcheca, Bélgica, Hungria, Portugal, Suécia, Áustria, Suíça, Finlândia, Dinamarca, Noruega, Irlanda, Nova Zelândia, Luxemburgo e Islândia. Uma classe média brasileira equivalente a um terço da população dos Estados Unidos e a 72% da população do Japão.
Não compreendem os moleques interesseiros nas eleições do próximo ano, porque desvairados ideologicamente, que o Brasil já possui uma classe média que necessita estar mais eficazmente estruturada para o lado da responsabilidade social. Que abjura vandalismos e histrionices reivindicatórios politicamente débeis. Uma percepção já explicitada pelo senador Cristóvam Buarque, importante liderança do pensar crítico brasileiro: "O caminho não está em repudiar o socialismo, ou ficar na crítica ao neoliberalismo. Mas em entender a dimensão da crise, perceber a realidade da luta de interesses e oferecer alternativas que incorporem as massas, sem perder o apoio das camadas que são assalariadas, mas já participam do bem-estar do país moderno que é o Brasil".
Temos que superar nossas mazelas, que são inúmeras. Mas tentar se aproveitar debiloidemente das manifestações reivindicatórias, num país que busca se afirmar no cenário mundial para ampliar sua competitividade no enfrentamento dos desafios da pós-crise mundial, é verdadeiramente dose para elefante.
Sou brasileiro e pugno por uma distribuição de renda bem menos vexaminosa que a atual, uma das piores do mundo. Creio que devemos muito às raças que nos estruturaram como nação, mas não posso aceitar provocações cretinas que inibam a nossa civilidade, favorecendo a emersão de poderes jamais progressistas, facistóides ou estalinistas.
Contemplar a foto da ministra Dilmna Rousseff, PhD proclamada de mentirinha, sendo “abençoada” por religiosos comandados pelo “apóstolo” Estevam Hernandes e a “bispa” Sônia Hernandes, recém libertos de um xilindró norteamericano, onde estavam por malandragens financeiras, enoja a consciência de eleitores cidadanizados. Que se encontram atônitos, para 2010, diante dos palanques da Ministra PAC, do careca auto-proclamado Pai dos Pobres, da amazonense Irmã Dulce e dos direitosos travestidos de mansos cordeiros. E de uma PEC que amplia em mais de sete mil o numero de vereadores brasileiros, mamadores do dinheiro público, de criatividade quase nula e civismo abaixo de zero.
Sejamos abertamente críticos, jamais detonadores das nossas conquistas democráticas, alcançadas a duras penas à custa da vida de milhares de brasileiros, sacrificados por que bravamente pugnaram pelo nosso amanhã soberano.
(Publicada, a partir de hoje, 14.09.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

Sósia de Deus e outros pitacos

1. Quem me contou o fato foi o João Silvino da Conceição, gente da melhor qualidade, mente antenadíssima. Ele atualmente se encontra do outro lado do Atlântico, num país de múltiplos contrastes culturais e econômicos, presidido por um presidente que é tido e havido pelos mais pensantes como pretendente a único sósia de Deus sobre a face da terra. Um presidente que, de uns tempos para cá, tem sido acometido de um soberba gigantesca, iniciada quando ele principiou a se classificar, décadas passadas, como o único que poderia salvar o país onde vivia. Nem que para isso tivesse que lançar mão de métodos os mais escatológicos possíveis ...
2. Um pensar de Francis Bacon poderia ser enviado ao presidente Lula, que não gosta de ler porque diz que dá sono e outras tonteiras: “Leia não para contradizer nem para acreditar, mas para ponderar e considerar. Alguns livros são para serem degustados, outros para serem engolidos, e alguns poucos para serem mastigados e digeridos. A leitura torna o homem completo, as preleções dão a ele prontidão, e a escrita torna-o exato”. Como o presidente Lula está escrevendo para um montão de jornais...
3. Para as entidades que são viciadas em passeatas, portando hipocritamente faixas e cartazes contra a violência, em todos os seus aspectos, bom seria a efetivação de serenos debates, após atenta leitura de um livro que oferece consistentes argumentos para uma compreensão das turbulências pós-modernas. O livro chama-se Sobre a Violência, Civilização Brasileira, 2009. E é de autoria de Hannah Arendt (1906-1975), uma das mais brilhantes e originais pensadoras políticas do século XX. Embora tenha sido escrito em 1968-1969, o texto guarda uma impressionante atualidade, quando cita: “Não sabemos aonde esses desenvovimentos podem nos conduzir, mas sabemos, ou deveríamos saber, que cada diminuição em poder é um convite à violência – pelos menos porque aqueles que detêm o poder e o sentem escapar de suas mãos, sejam eles governantes, sejam os governados, têm sempre achado difícil resistir à tentação de substituí-lo pela violência”.
4. Parabéns efusivos para o analista Urariano Mota, quando define o famigerado cabo Anselmo como “um homem preparado para mentir sistematicamente”. É bem capaz de o governo Lula conceder anistia e polpuda indenização àquele que foi o responsável direto pelo trucidamento de dezenas de militantes da VPR – Vanguarda Popular Revolucionário. Pela capacidade dele mentir.
5. Lição do inesquecível Tostão, talento nacional tri-campeão: “No jogo de futebol, não se pode confundir emoção, correria e disciplina tática, com qualidade técnica”. Uma placa com tal reflexão deveria ser afixada nos departamentos e vestiárias dos principais clubes pernambucanos. E em alguns cartoleiros gabinetes presidenciais...
6. Cacetada à vista!! Com quase 70 anos, o teólogo, nascido na região da Galícia, na Espanha, Andrés Torres Queiruga, recebeu a notícia, em junho deste ano, de que uma
condenação sobre sua obra estava pronta e sendo examinada pela Comissão Episcopal de Doutrina da Conferência Episcopal Espanhola. Queiruga é um dos teólogos mais respeitados e de maior prestígio não apenas na Espanha, mas no mundo todo. Nascido em Aguiño-Ribeira, em 1940, ele é doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, licenciado em Filosofia pela Universidade de Comillas e doutor pela de Santiago, também integrando a Real Academia Galega, do Conselho da Cultura Galega. Autor de numerosas obras traduzidas para o português, o inglês e o italiano. A notícia surpreendeu-o, assim como a todos que viam com seriedade a obra do galego.
7. Dramático, se não fosse trágico: enquanto o Brasil se prepara para gastar MAIS DE VINTE E DOIS BILHÕES DE REAIS com a compra de submarinos e helicópteros, e DEZ BILHÕES DE REAIS na compra de aviões, o Exército está eliminando os expedientes da manhã de segunda-feira e da tarde de sexta-feira, por medida de economia, “POR NÃO TER COMIDA PARA TODO MUNDO”, segundo um oficial de alta patente, FSP de ontem. Ministro da Defesa sem grandeza nem personalidade para enfrentar divindades só pode resultar em humilhações múltiplas, há muito tempo adverte o João Silvino da Conceição.
8. Como se pode estruturar uma duradoura reforma eleitoral em abrigamento de interessados que estão pouco se lixando para com o desenvolvimento da Cidadania Brasileira, mais preocupados com seus currais e suas sobrevivências?
9. Apelido ótimo posto nos corredores públicos de Brasília, no chanceler Celso Amorim, de baixa estatura e gigantesco ego: megalonanico. Criatividade gozadora nota dez.
10. A Revista ALGOMAIS cada vez mais aplaudida. Em seu número último dois destaques: a análise da economia pernambucana através do livro Pernambuco Competitivo, e a entrevista de Josias Albuquerque, presidente do SENAC, do SESC e da Fecomércio, catedrático em empreendedorismo. Pra não falar dos “causos” do “seu” Lunga, contados pelo Joca de Souza Leão, pena ouro de lei.
(Publicada, a partir de hoje, 14/09/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Aprimoramento de apupos

Uma boa recomendação em época de grandiosas indignações contra as degenerações que se acumulam no Senado Federal: um insulto pouco conhecido torna-se duplamente contundente. Além de qualificar negativamente o xingado, demonstra implicitamente sua ignorância, diante do desconhecimento do impropério proferido.
Hoje, quando a liberdade de expressão enseja críticas diferenciadas, classifica-se os insultos em várias categorias: construtivos, degenerativos, esculhambativos, demolidores e letais. Entretanto, para que um xingamento seja eficaz, urge um aprimoramento sobre os seus significados, favorecendo a ampliação da detonação proporcionada.
Em muito boa hora, um dicionário específico foi lançado recentemente pelo Ateliê Editoral, uma empresa paulista de bom calibre. O Dicionário Brasileiro de Insultos, de Altair Aranha, proporciona excelente nível de aperfeiçoamento em todos aqueles que desejam ampliar seus “apedrejamentos críticos” nos fatos e atos que mereçam atenção da Cidadania Brasileira.
O primeiro vocábulo do Dicionário é ababelado, “aquele que se mete em grandes empreendimentos sem conseguir levá-lo adiante porque atua de maneira confusa, desordenada”. Quando da leitura dessa primeira palavra, lembrei-me de um monte de gente, de passados remoto e recente, que se imaginavam tampas-de-foguete empreendedoras, mas que até a defenestração demissionária proporcionaram desastres irreversíveis ou de grandes proporções.
A última palavra do Dicionário é zuruó, vocábulo de mesma significação que zureta, aquele que é meio maluco, adoidado. Não sei porque cargas d’água, lembrei-me do atual ministro do Meio Ambiente, o Carlos Minc, aquele que entra e sai dos despachos presidenciais sem saber para onde direcionar seu planejamento estratégico, mesmo após algumas boas baforadas.
Os vocábulos do Dicionário oferecem identificações imediatas. Por exemplo, o vocábulo apelintrado, aquele que tem ares de pelintra, de espertalhão, não lembra um monte de senadores, principalmente aqueles agachados da base aliada do Governo na Comissão de Ética? E tararaca, significando desnorteado, não faz lembrar o senador Suplicy, de cartão vermelho levantado, imaginando-se juiz de final de Copa do Mundo? E onzenário, aquele que usufrui de ganhos ilícitos e escandalosos, não faz reavivar a figura daquele prefeito de São Paulo, que nunca se imagina proprietário de contas bancárias no exterior, muito embora sejam mais que evidentes as comprovações acumuladas pelo Ministério Público?
Com o Dicionário nas mãos, telefonei para o Edinho, um primo danado de inteligente, que conhece Deus e o mundo e mais alguns. E perguntei a ele se sabia o significado da palavra bunda, termo que arrepiava alguns mais sensíveis, que ficavam de olhinhos revirados para o alto, como se estivesse contemplando o próprio satanás de botas, chifres e rabo. O Edinho então soube explicar de maneira a mais convincente possível. Segundo ele, quando usado no masculino, serve para designar uma pessoa desqualificada, sem importância, ordinária. E que ainda havia os termos bunda-mole (homem destituído de coragem, fracote, moleirão), bunda-suja (homem que se borra de medo, de caráter fraco, ordinário) e bundão (que foge das responsabilidades, covarde). Observou ainda, o Edinho, que, psicanaliticamente, se associa bunda a covardia, sendo um insulto exclusivamente utilizado para homens, nunca para mulheres. Assim, bundona é uma bunda grande e bundão é um homem pau-mandado, frouxo, sem qualquer capacidade empreendedora.
Admirei-me da capacidade cultural do Edinho. Parabenizando-o, soube que ele tinha adquirido um exemplar do Dicionário Brasileiro de Insultos, do Altair Aranha. Que me foi emprestado, proporcionando-me a oportunidade de escrever esta crônica. Para todos os miquelinos do Brasil. Significado? Conferir no Dicionário, página 235.
PS Por favor, não gozem muito nos pernambucanos abilolados que torceram pela Argentina, no 3 X 1 de sábado passado e ainda apareceram na TV. Eles ignoram que, tecnicamente, Maradona e marafona são de perfis gêmeos.
(Publicada, a partir de hoje, 24/08/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Lula do Dicionário

Quando da sua última viagem ao sul do país, o João Silvino da Conceição, sabedor da minha paixão por livros, trouxe-me um dicionário. Um trabalho inusitado, inédito em língua portuguesa, diferente de todos os outros por mim manuseados nas horas de estudo. O João me presenteou com o Dicionário Lula – Um Presidente Exposto Por Suas Próprias Palavras, de autoria de Ali Kamel, um jornalista dicionarista, também rigoroso pesquisador.
Com quase setecentas páginas e publicado por quem possui idoneidade editorial, considerei oportuno o presente dado pelo João Silvino, principalmente quando ele me asseverou que aquele tipo de dicionário não tinha precedente no país. Diferentemente dos Estados Unidos, onde os pronunciamentos dos seus mandatários são estudados pelos departamentos ou institutos de ciências políticas de universidades consagradas, como Harvard, Yale, Stanford, Princeton, entre tantas outras.
O Dicionário Lula contém mais de trezentos e cinquenta verbetes, coletados em 1.770 discursos pronunciados pelo presidente Lula desde a posse até 31 de março próximo passado, quando o levantamento foi encerrado.
Seria interessante que os cientistas políticos se debruçassem em análises comparativas entre os discursos do presidente Lula e as opiniões por ele emitidas antes da sua posse presidencial. A título de exemplo, três opiniões dele ainda viajam pela Internet: uma porrada sobre o ex-presidente Collor, outra sobre o ainda presidente do Senado José Sarney e a patuléia que o cerca, a terceira sobre a distribuição de cestas básicas aos mais necessitados durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Nada melhor também do que comparar o tratamento protetor dado pelo presidente ao senador Sarney com o que foi por ele dito em 12 de maio de 2003, em solenidade efetivada na Controladoria Geral da União: “Não se pode permitir que as pessoas que praticaram corrupção sejam julgadas depois que terminarem o seu mandato, como acontece habitualmente no nosso país”.
No Dicionário Lula estão transcritas as falas que foram elaboradas para ele, como ele mesmo declara num dos pronunciamentos: “Tenho um discurso aqui, elaborado pela minha fábrica de produzir discursos. Eu tenho uma pequena fábrica de produzir discursos.” Atualmente, o presidente tem uma coluna em mais de 150 jornais brasileiros, possuindo agora um blog que é gerenciado por cinco profissionais. Além dos redatores oficiais que enviam suas reflexões para a mídia mundial, fortalecendo sua imagem GG – Getúlio-Gandhi, tornando-o candidatíssimo à Academia Brasileira de Letras. Quiçá Nobel da Paz.
Considero o presidente Lula um talento na arte comunicacional. Ele transmite uma imagem de bom sujeito para milhões de camisados e descamisados. Uma imagem diferenciada da irradiada por ele quando era um pit bull sindicalista, espumando por todos os poros, esculhambando tudo e todos, inclusive o próprio Congresso Nacional, ao afirmar que lá existiam mais de trezentos picaretas. Muitos deles atualmente mamando cinicamente no lulático “aquário” político. Segundo Ali Kamel, “não há jornalista que tenha estado de algum modo diante do presidente Lula que não admita que ele é uma pessoa cativante, afetivo, carinhoso, atencioso, brincalhão.” E que sabe que fala demais: “Eu não sei se na história do Brasil teve um presidente da República que faça o tanto de pronunciamento diário que eu faço. Tem dia que eu me canso de mim mesmo.
Com o Dicionário Lula, seu autor proporciona uma avaliação do efeito sedutor da comunicação presidencial. Que impressiona tanto os críticos quanto os desavisados de todas as idades e magnitudes. Seus improvisos mentalmente nem sempre bem estruturados – “O papel do nosso Governo é fazer aquilo que não foi feito na história de nosso país”, um deles – revelam um ilusionismo político incomum, embora sem manifestar sinais de herdeiros. Nem herdeiras.
O presidente Lula sabe da importância da Educação como motor de mobilidade social. Ele considera a Educação uma peça fundamental, segundo pronunciamento feito em agosto de 2003, em Brasília, num encontro de lideranças políticas. Também é franco quando proclama: “Tinha gente que entendia que o PT, chegando ao Governo, deveria ter o mesmo discurso que tinha antes de ser Governo. Era humanamente impossível, porque a realidade política quando se ganha um país da dimensão do Brasil, e quando se descobre que a sociedade é mais heterogênea do que um partido politico”. Uma confissão explícita sobre as embromações discursivas de campanha.
O Dicionário Lula mostra a face auto-marqueteira do presidente. Que se apresenta sobrepairando bem acima do seu próprio partido. Também se considerando Um sem Dois. Sendo bem capaz de chamar o Eterno de “cumpanhêro”, sem tirar nem o boné do MST.
(Publicada, a partir de hoje, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)