No último final de semana, preocupado com um relatório sobre Direitos Humanos solicitado por educadora querida, cuca contemporânea e muito requisitada país inteiro, resolvi me presentear com uns instantes de outro tipo de atividade, voltando minha atenção para uma leitura mais direcionada para o além Terra. O Deus de Cada Um, de Waldemar Falcão, editora Agir, fevereiro passado, presente enviado pela mala direta de uma prestadora de serviços comunitários por mim assessorada em capital não-nordestina.
Quando me dei conta, a madrugada já fornecia seus primeiros raios. Tinha devorado de sopetão as páginas que narram nove histórias reais de nove pessoas transformadas por nove diferentes crenças. A primeira delas, um católico romano chamado Marcelo Barros, monge pernambucano de uma caminhada eivada de múltiplos compartilhamentos fraternos com personalidades as mais diferenciadas, de Hélder Câmara a Basílio Penido, passando por monges alemães e pelo comunista Diógenes de Arruda Falcão. Além de Tomás Balduíno e Stella de Oxóssis, na atualidade a mais respeitada mão-de-santo do candoblé da Bahia, dirigente do Ylê Axé Opó Afonjá, mencionado em vários textos de Jorge Amado. Todos tornados amigos cinco estrelas do historiador.
Seu testemunho, como filho de uma família operária de Camaragibe, contém feitos e fatos que distilam imenso respeito humano inspirado pelo Espírito Santo, aquele “Vento” que sopra para onde bem quer e entende. Um dos fatos vivenciados pelo Marcelo, envolve o sempre amado dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife. Retrato fiel da personalidade do querido Dom, uma personalidade que respeitava todas as manifestações religiosas. O caso, eu conto abaixo, respaldando-me no narrado pelo próprio dom Marcelo Barros.
Certa feita, em 1966, monge ainda não ordenado, ao chegar na portaria do mosteiro foi informado do telefonema de alguém, dizendo-se “um amigo”, de nome dom Hélder Câmara. Imaginando trote de algum engraçadinho, eis que meia hora depois se vê dialogando com o próprio Dom, que o convida para ir à casa dele no dia seguinte. Em lá chegando, é indagado sobre se era verdadeiro o fato de estar freqüentando uma Igreja da Assembléia de Deus todas as quintas-feiras, quando seus colegas aproveitavam a recesso para ir à praia. E lhe foi ainda indagado, depois do primeiro sim afirmativo, se era verdadeira a sua presença eventual num terreiro de candoblé próximo do mosteiro. Já aguardando por uma admoestação, por mais amável que fosse, eis que é convidado pelo Dom para ser seu assessor no relacionamento com as demais igrejas e religiões da região. Diante da alegação de despreparo, o argumento definitivo: - Não tem problema. Vamos combinar assim: eu assessoro você e você me assessora! Uma convivência por demais enriquecedora, sendo Marcelo, em 1969, ordenado por Dom Hélder Câmara, que ainda o convocou para integrar a Comissão Pastoral da Juventude.
O livro ainda traz entrevistas com uma monja zen-budista, um neo-pentecostal, um umbadista, um islâmico, um israelita, um adepto do Santo Daime e “uma das mais impressionantes paranormais de cura do Brasil e, por que não dizer, do mundo”. Visões religiosas diferenciadas, com uma certeza única: a da mesma Presença Eterna, da mesma Consciência Cósmica, do mesmo Princípio Universal, também chamada por Paul Tillich, teólogo evangélico, de A Base de Toda Existência. Entendendo que o foco do livro “não são as instituições religiosas, mas as pessoas e a fé que as move e as transforma”.
Diz o autor da coletânea de entrevistas que, “em O Deus de Cada Um, os relatos colhidos nos fazem recobrar a esperança de que a espiritualidade, quando vivida de maneira plena e verdadeira, resgate, através do encontro com o divino, o humanismo que deveria nortear a nossa civilização planetária e nos torne dignos de sermos chamados de ‘filhos de Deus’. O Deus de todos nós. O Deus de cada um”.
(Publicado no Jornal do Commercio, 07.05.2008)
Quando me dei conta, a madrugada já fornecia seus primeiros raios. Tinha devorado de sopetão as páginas que narram nove histórias reais de nove pessoas transformadas por nove diferentes crenças. A primeira delas, um católico romano chamado Marcelo Barros, monge pernambucano de uma caminhada eivada de múltiplos compartilhamentos fraternos com personalidades as mais diferenciadas, de Hélder Câmara a Basílio Penido, passando por monges alemães e pelo comunista Diógenes de Arruda Falcão. Além de Tomás Balduíno e Stella de Oxóssis, na atualidade a mais respeitada mão-de-santo do candoblé da Bahia, dirigente do Ylê Axé Opó Afonjá, mencionado em vários textos de Jorge Amado. Todos tornados amigos cinco estrelas do historiador.
Seu testemunho, como filho de uma família operária de Camaragibe, contém feitos e fatos que distilam imenso respeito humano inspirado pelo Espírito Santo, aquele “Vento” que sopra para onde bem quer e entende. Um dos fatos vivenciados pelo Marcelo, envolve o sempre amado dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife. Retrato fiel da personalidade do querido Dom, uma personalidade que respeitava todas as manifestações religiosas. O caso, eu conto abaixo, respaldando-me no narrado pelo próprio dom Marcelo Barros.
Certa feita, em 1966, monge ainda não ordenado, ao chegar na portaria do mosteiro foi informado do telefonema de alguém, dizendo-se “um amigo”, de nome dom Hélder Câmara. Imaginando trote de algum engraçadinho, eis que meia hora depois se vê dialogando com o próprio Dom, que o convida para ir à casa dele no dia seguinte. Em lá chegando, é indagado sobre se era verdadeiro o fato de estar freqüentando uma Igreja da Assembléia de Deus todas as quintas-feiras, quando seus colegas aproveitavam a recesso para ir à praia. E lhe foi ainda indagado, depois do primeiro sim afirmativo, se era verdadeira a sua presença eventual num terreiro de candoblé próximo do mosteiro. Já aguardando por uma admoestação, por mais amável que fosse, eis que é convidado pelo Dom para ser seu assessor no relacionamento com as demais igrejas e religiões da região. Diante da alegação de despreparo, o argumento definitivo: - Não tem problema. Vamos combinar assim: eu assessoro você e você me assessora! Uma convivência por demais enriquecedora, sendo Marcelo, em 1969, ordenado por Dom Hélder Câmara, que ainda o convocou para integrar a Comissão Pastoral da Juventude.
O livro ainda traz entrevistas com uma monja zen-budista, um neo-pentecostal, um umbadista, um islâmico, um israelita, um adepto do Santo Daime e “uma das mais impressionantes paranormais de cura do Brasil e, por que não dizer, do mundo”. Visões religiosas diferenciadas, com uma certeza única: a da mesma Presença Eterna, da mesma Consciência Cósmica, do mesmo Princípio Universal, também chamada por Paul Tillich, teólogo evangélico, de A Base de Toda Existência. Entendendo que o foco do livro “não são as instituições religiosas, mas as pessoas e a fé que as move e as transforma”.
Diz o autor da coletânea de entrevistas que, “em O Deus de Cada Um, os relatos colhidos nos fazem recobrar a esperança de que a espiritualidade, quando vivida de maneira plena e verdadeira, resgate, através do encontro com o divino, o humanismo que deveria nortear a nossa civilização planetária e nos torne dignos de sermos chamados de ‘filhos de Deus’. O Deus de todos nós. O Deus de cada um”.
(Publicado no Jornal do Commercio, 07.05.2008)

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