terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Leitura da Bíblia sem Mitos

Quase diariamente me deparo com comentários os mais diferenciados sobre a Bíblia. Que ela é o livro mais difundido do mundo, verdade plena. E que ela é o livro mais incompreendido do planeta, o que não é mentira. “Alguns pensam que se deve tomar ao pé da letra tudo o que se lê na Bíblia, pois é a palavra de Deus em sentido estrito; enquanto outros pensam que o que ali encontramos não é outra coisa que um conjunto de memórias do passado impregnadas de mitos”.
Há um consenso entre as áreas cristãs: as Sagradas Escrituras necessitam ser melhor compreendidas. Como obra coletiva que fala do divino através de homens e mulheres que puseram, na escrita, comunicações orais de séculos. Conjunto de livros que, em pleno século 21, despido dos mitos, preconceitos e fantasias dos ontens, precisa ser mais entendido e assimilado pelos que buscam uma espiritualidade libertadora, desapartando-se de uma religiosidade prenhe de fardos, medos e interpretações despropositais, desumana até, sado-masoquista, financeiramente até rentável em algumas regiões.
Para meus irmãos de caminhada, recomendaria um livro de Eduardo Arens, PhD em Teologia e professor do Instituto Superior de Estudos Teológicos de Lima, no Peru. Publicação 2007 da Editora Paulus, A Bíblia Sem Mitos – Uma Introdução Crítica é leitura sem cavilosidades que amplia o crer através de um conhecer e compreender os textos testamentais, sem afetar a sacralidade deles.
Evitando o teologuês de sabidos e sabidões, o trabalho de Eduardo Arens analisa o conteúdo bíblico levando em conta os estudos de linguística, os descobrimentos arqueológicos, as tradições orais e o contexto histórico-cultural. Também não menosprezando os textos afins à Bíblia descobertos no século XVIII, bem mais antigos que o Antigo Testamento, onde mitos mesopotâmicos da criação, salmos cananeus e provérbios egípcios contribuem para o enriquecimento dos entendimentos e interpretações. Segundo Arens, “os textos bíblicos abordam problemas que são próprios daqueles tempos, muitos dos quais não são problemas atuais, como o controle da natalidade, o secularismo, a ecologia, a recessão, a globalização, o neoliberalismo...”
De uma coisa, todo mundo concorda: “para compreender e interpretar corretamente a Bíblia, é necessário um mínimo de estudo a respeito dela, da mesma maneira que é necessário estar familiarizado por meio do estudo com o mundo de qualquer documento da Antiguidade”.
Para acompanhamento dos capítulos de A Bíblia Sem Mitos, a utilização de uma Bíblia de linguagem contemporânea seria recomendável. Sugeriria duas edições de textos rigorosamente idênticos: a Bíblia de Estudos NTLH (Nova Tradução na Linguagem de Hoje), da Sociedade Bíblica do Brasil, 2005; e a Bíblia Sagrada, Paulinas, 2006, com uma revisão esmerada dos Livros Deuterocanônicos, partes qualificadas por Lutero como “úteis e bons para a leitura” . A NTLH é mais completa, com notas, mapas e introduções, além de dicionário e uma excelente concordância; a da Paulinas, de letra mais graúda, facilita a leitura dos de visão menos acurada.
Com a leitura do livro do Eduardo Arens, em muitos estará erradicada a ilusão de pensar Deus como escritor da Bíblia. Como se Deus tivesse responsabilidade pelos erros contidos nela. Deus a inspirar autores humanos é conclusão verdadeira para quem possui senso crítico, percebendo-se também Filho da Criação, jamais um de inteligência sub-utilizada, desrespeito frontal à parábola dos talentos.Ressalte-se que o propósito dos escritos bíblicos sempre foi o de orientar as pessoas para Deus, conduzindo-as por caminhos libertadores. Daí, uma introdução crítica à Bíblia, nos moldes feitos por Eduardo Arens, seguramente balizará mais efetivamente todos os percursos, favorecendo interpretações consistentes com os tempos de agora. Fé e Ciência não são irmãs siameses, muito embora sejam gêmeas não univitelinas de uma parição divina.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

CONIC, 25 Anos

Uma instituição comemorou recentemente seus 25 anos de existência. Em 1982, Porto Alegre, fundava-se o CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, com objetivos nobres: a unidades entre os cristãos, a luta pela dignidade humana e um pelejar incessante pela paz entre povos e nações.
Como membros plenos, integram o CONIC a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Católica Ortodoxa Siriana do Brasil, a Igreja Cristã Reformada do Brasil, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. Como membro fraterno dela faz parte a Igreja Ortodoxa Bielorrusa Eslava. Ao CONIC também estão associadas, entre outras, a CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço, o CENACORA – Comissão Ecumênica de Combate ao Racismo, a KOINONIA – Presença Ecumênica e Serviço, o CESEP – Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização e Educação Popular e o CEBI – Centro de Estudos Bíblicos.
Além do Pr. Carlos Augusto Möller, presidente, do CONIC são também responsáveis o Rev. Luiz Alberto Barbosa, secretário-executivo, o Pe. Gabriele Ciprioni, secretário-executivo adjunto, integrando ainda a direção superior o anglicano Dom Filadelfo Oliveira Neto, bispo sufragâneo da Diocese Anglicana do Recife.
Na revista do CONIC que trouxe encarte especial comemorativo dos 25 anos, algumas notícias ampliaram esperanças, fortalecendo a piedade para com os que não possuem uma maturidade ecumênica. Com uma esclarecedora reflexão do bispo Dom Filadelfo Oliveira Neto: “As diferenças sempre existirão, mas elas serão irrelevantes se entendermos as palavras de Santo Agostinho: ‘no esencial, a unidade; no secundário, a diversidade; em tudo, a caridade’”
Três reportagens me sensibilizaram bastante. A homenagem prestada aos que já se eternizaram, deixando uma trajetória solidária de muitos serviços prestados: Dom Ivo Lorscheiter, Dom Isac Aço, Padre Federico Laufer, SJ, Pastor Dr. Bertholdo Weber e Dom Sumio Takatsu. Exemplos que enobreceram a Igreja Cristã com suas experiências pastorais, suas orientações sempre ecumênicas.
Em outra reportagem se anuncia os preparativos da CNBB e do CONIC para a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010, animando milhões numa iniciativa que merece aplausos múltiplos.
A terceira matéria contagia pela robustez intelectual da primeira Arcebispa do Mundo, Primaz da Igreja Anglicana dos EUA eleita em novembro de 2006. Nascida em 1954, sua formação acadêmica engloba Teologia, Biologia e Oceanografia. Suas considerações demonstram coragem e destemor: “alguns dos meus colegas acham que, por serem homens, têm a última palavra”; “fiquei bastante surpresa com a participação de ecumênicos nos cultos que realizamos aqui no Brasil, em especial a participação do Arcebispo Católico Romano de Porto Alegre”. E disse mais, quando indagada sobre o seu objetivo maior como Arcebispa; “a inclusão de todas as pessoas batizadas e primar para que a Igreja seja multicultural”. Salientou ainda que integra grupo inter-religioso que trabalha sobre o aquecimento global, dele fazendo parte anglicanos, judeus, muçulmanos, batistas, luteranos, metodistas e outras igrejas evangélicas.
O dia-a-dia do CONIC se encontra sob a batuta de três dínamos: Luciana, Lia e Leila. Gigantes da administração central do CONIC, em Brasília, de site www.conic.org.br, onde se pode melhor conhecer as atividades cristãs que auxiliam sem discriminação alguma na Construção do Reino.
Como ressalta o bispo anglicano já aposentado Dom Glauco Soares de Lima, “o CONIC mostrou ao mundo que nós podemos testemunhar Jesus Cristo não só com palavras mas também por ações conjuntas”. E foi ele que recomendou, juntamente com outro gigante, Dom Luciano Mendes de Almeida, a edição da Tradução Ecumênica da Bíblia - TEB, edição ouro de lei da editora Loyola, de muita valia para milhões de cristãos brasileiros.
(Artigo Publicado no Jornal do Commercio, Recife – PE, 23.01.2008)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Igreja 21

Uma das graves deficiências contemporâneas das Igrejas tradicionais se encontra relacionada com a área da comunicação. Ainda na década primeira de um século que se anuncia ultra-mutável, dá uma peninha danada os procedimentos da maioria dos responsáveis pela difusão da Boa Nova, mercê o esforço heróico de alguns abnegados.
Exceção recente é fruto da criatividade de um religioso dominicano, Hervé Ponsot, mais conhecido como irmão Hervé, sediado em Tolousse, França. Utilizando suas duas paixões, a Internet e a pregação religiosa, ele resolveu instituir um curso de teologia virtual. Segundo o irmão Hervé, “a Internet é um tesouro. Com ela, pode-se fazer à distância o que se faz localmente”. E foi muito mais além: “todas as ferramentas que puderem ser usadas para servir ao Senhor são bem-vindas”.
Dois serão os cursos oferecidos pelo irmão Hervé, um de domínio bíblico e o outro de ética ecumênica, inspirados nos métodos de ensino de São Tomás de Aquino. Segundo o ciberpadre, o seu projeto é como que uma continuação do exemplo deixado pelos dominicanos, que ajudaram a fundar, em 1229, a Universidade de Tolousse, sob o ângulo da descentralização, favorecendo a difusão do saber por todo o país. Nos séculos XII e XIII, nas universidades européias, os mestres elegiam um tema, estimulando ampla discussão entre seus alunos. As conclusões posteriormente eram condensadas e divulgadas entre os participantes.
Segundo uma mente inteligente, “cada vez mais, constrói-se o cidadão simultaneamente do mundo e da província, sem repartição e sem esquizofrenia”. E mais se diz: “As catarses coletivas podem se dar no campo virtual e os grupos de interesse são contados aos milhares. A idéia do agente histórico transformador, como foi a classe operária para os partidos de esquerda, desmanchou-se no ar”.
Nos umbrais de um novo milênio, uma lição definitivamente se consagra: “Nada é tão perfeito que não possa ser melhorado”. E a melhoria nos procedimentos evangelizadores foi muito bem apreendida pelo ciberpadre francês, num aprimoramento que exige dedicação, motivação e perseverança. Saber fazer melhor e mais apropriadamente conduz a novas expectativas, favorecendo a emersão de novos anseios e outros desafios.
Nos atuais procedimentos estratégicos das Igrejas tradicionais, uma evangelização baseada nos métodos dos ontens e dos anteontens conduz inevitavelmente a uma profissionalidade regressiva, a um nível crescente de obsolescência mental, muito prejudicial ao objetivo maior.
Outro dia, no Recife, um técnico que se auto-proclama tampa de foguete em assuntos culturais, sempre vilipendiando os eficientes e mais inteligentes, declarou numa sessão pública que Internet e Educação são vertentes díspares, sem qualquer ponto de convergência. Uma baita estupidez, amigada com as lambanças embusteiras e fingidas dos profissionalmente ananicados.
Diferentemente do parecerista cultural desatento, o padre francês busca transmitir com inteligência a mensagem do Nazareno, entendendo ainda com absoluta propriedade o desserviço de se colocar remendo novo em tecido velho. (Mc 2, 22)
Só não estão percebendo a já de muito chegada dos novos tempos aqueles que, doutores nas Escrituras, especialistas em burocracia episcopal ou pré-aposentados, insistem em preservar seus próprios interesses, pouco se lixando para o caminhar libertador dos Filhos de Deus. Sempre a conviver com medíocres, para sentir-se a eles superiores, como se plenamente bastassem seus vaidosos neurônios.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Dos apenas de palco

Mesmo respeitando todos os progressistas, não posso deixar de concordar com Guerreiro Ramos, um dos talentos nacionais já eternizados: o Brasil tem poucos esquerdistas e muitos esquerdeiros. Entre estes últimos situam-se os sectários de conteúdo fixo, pólos opostos dos coleguinhas do outro extremo, todos dotados de olhares censuradores para tudo quanto é lado, a imaginarem-se donos arroteiros do saber solucionador.
O jornalista Arnaldo Jabor, outro dia, classificou os sectários em quatro grandes categorias, aqui pouco diferenciando o lado posicionado: o de cervejaria, o de enfermaria, o de estrebaria e o de ocasião. Explicando melhor, com a devida permissão do Jabor: o de cervejaria imagina, sempre rodeado em mesa de bar de louras geladíssimas e alguns alesados, que mudanças acontecem num estalar de dedos, não requerendo saber diferenciar massa e povo. Portador de idéias sempre “geniais”, todas botequineiras, dessas que reinventam a roda, entende que o seu derredor é visceralmente homogêneo, não permitindo qualquer dissensão elucidativa.
O sectário de enfermaria é o que levou duas ou três carreiras da polícia. Percebe-se igualzinho aos que foram banidos, torturados ou mortos pela ditadura de um ontem que ainda muito nos envergonha. Não possui idéias, só relatos fantasiosos, ele sempre no centro dos acontecimentos, coitadíssimo por ainda não ter chegado a sua glória. Gabola por excelência, centuplica os feitos, ansioso pela ampliação da sua platéia. Olhos nunca alegres, perambula com ares vitimistas, na esperança de um dia se ver incluído no rol dos recompensados pelo sufrágio popular.
O doidivano de estrebaria exige atenções especiais com seus arroubos verborrágicos tonitruantes, cascos sempre à mostra para os deslumbrados, imaginando-se protótipo perfeito de líder resoluto, pau para toda obra e pro que der e vier, muito embora sem articulação de espécie alguma.
Finalmente, o oportunista é aquele que deseja ser mais realista que o rei, alguns até deixando a barba rala crescer para parecer ser do time dos eleitos.
O texto do Jabor define bem: “No fim dos anos 70, o surgimento do Lula no ABC foi a única novidade progressista do país, a melhor crítica prática que a velha esquerda recebeu depois de décadas de ilusões vagabundas. De repente, um operário inteligente descobriu o óbvio: que o delírio ideológico tinha de ser substituído por uma luta sindical de resultados. Lula ignorou intelectuais, carbonários e até pelegos getulistas, inaugurando um novo ângulo da realidade”.
Reproduzindo Eduardo Galeano, os sectários de todos os viéses se parecem com aqueles três cegos que apalpavam partes de um elefante. O que apalpou o rabo disse ter encontrado uma corda. O que tateou uma das patas identificou-a como uma coluna, o terceiro declarando ser uma parede a enorme pança do paquiderme. Como ninguém viu o conjunto, todos imaginavam estar identificando uma realidade.
Que o Siri na Lata, em fevereiro próximo, seja símbolo aplaudido de um momento carnavalesco de alta catarse. Mas que não se torne arena das brigalhadas idiotas dos sectários de todos os matizes, que apenas estão binoculizando as eleições próximas, jogando para as gerais. Quando uma sociedade se enfada das patacoadas, o caminho alternativo nunca foi o progressista...
Grandes coisas nascem dos turbilhões. Saibamos ser gigantes, entendendo chegada a hora de melhor dignidade para todos. E de também perceber que a libertação de duas reféns pela Farc, em troca de alguns milhões de dólares, foi uma estratégia engorda-caixa de um grupo criminoso. Marqueteiramente utilizado por um bufão chamado Hugo Chávez, inspirador de bravateiros brasileiros, alguns até estudantes secundaristas. E de uns outros tantos do “na lei ou na marra”, de histórico nada recomendável.
(Publicado Portal da Globo Nordeste, Colunistas 360 Graus, janeiro de 2008)

domingo, 6 de janeiro de 2008

Ponderações para 2008

Após as comemorações efusivas de mais uma passagem de ano, alguns balizamentos cristãos se fazem indispensáveis: recordando o Salmo 147, como reforçar as trancas da porta?; como combater, sempre e em toda parte, os três assassinos de toda crença religiosa: a ignorância, o fanatismo e a tirania?; como ampliar, inserindo-a numa contemporaneidade saudável, uma enxergância capaz de amadurecer os nossos interiores, não mais acoitando histerismos, dolorismos, pieguismos, vitimismos e coitadismos?; será que levamos na devida conta que os nossos questionamentos, ceticismos e desilusões são sintomas que estão a exigir um apreender mais consistente sobre a Mensagem de Jesus?; será que nossa religiosidade tem um comprometimento social através de uma solidariedade prática pelos mais pobres e desassistidos?; e, finalmente, estamos levando na devida conta que as boas novas do Homão de Nazaré, se fossem publicadas num jornal, hoje, não ficariam restritas à seção de religião, mas estariam encartadas em todas as demais seções, principalmente na de notícias internacionais?
O cristianismo militante somente se tornará comprometido com a Mensagem do Nazareno na efetividade de uma ação de quatro facetas: a que fala a favor dos pobres; a que enfatiza a sinceridade interior, dando um basta nos sepulcros caiados; o que alerta para o desmascaramento das mil e uma maldades tidas como invencíveis; e para um novo modo de conviviabilidade, num contexto planetário nunca auto-fágico.
Há muito tempo já se sabe: “é impossível percorrer a estrada da vida sem trocar um ou dois pneus furados”. Não esperemos que a vida se encaixe integralmente nas nossas especificações, pois pode acarretar múltiplas frustrações. No Eclesiastes, um conselho oportuníssimo para os tempos de Ano Novo: “Quando os dias forem bons, aproveita-os bem: mas quando forem ruins, reflita” (7,14). Que nos faz lembrar que a pior síntese da vida começa com três descrições: podia ter, era capaz de ter e devia ter.
Todo cuidado é pouco com os seres humanos medíocres. Na definição de José Ingenieros, um médico psiquiatra argentino já eternizado, autor de O Homem Medíocre, no Brasil editado pela Juruá, “o homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade; é por essência imitativo e está perfeitamente adaptado para viver em rebanho, refletindo as rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade. Assim como os seres inferiores herdam a “alma da espécie”, o medíocre adquire a “alma da sociedade”. Sua característica é a de imitar a quantos o rodeiam, pensar com a cabeça alheia e ser incapaz de formar ideais próprios”.
Que em 2008, saibamos desenvolver mais harmoniosamente os mundos que nos envolvem desde os primeiros tempos de nascidos: o mundo do saber, o mundo do ser, o mundo do sentir e o mundo do fazer. Bem assimilando um princípio muito salutar: quem usa a mente antes do coração é rei, diferentemente daquele que, tolamente, usa o coração antes da cabeça. Sem jamais menosprezar a lição contida no tornado apócrifo Evangelho de Tomé: “Bendito o leão comido pelo homem, porque o leão se torna homem, e maldito seja o homem comido pelo leão porque o homem se torna leão”.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife-PE, 06.01.2008)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Reflexões para um Início de Ano

No alvorecer de 2008, ano bissexto, passadas as tradicionais euforias dezembrinas, imaginar-se dez anos adiante deverá ser um exercício de bom tamanho para todos nós, amantes da Eternidade. Para fazer emergir sentimentos nunca revelados, espiritualidades incompletas e texturas descoradas por desintegrações as mais diferenciadas.
No raiar de 2008, saibamos abordar com serenidade as razões dos progressos fingidos. Reconhecendo as urgências e as ressurgências, erradicando as previsões insensatas, redimensionando esperanças, as hipocrisias sendo vencidas pelas salutares intercomplementaridades entre o ser, o ter, o sonhar, o fazer e o doar.
Empenhemos nossos esforços na busca de uma “viabilização do impossível”, ousando postar-se muito além da “implementação do viável”. Lastimando menos, concretizando mais, adquirindo novas posturas, percebendo, sempre sem medos e descontroles pueris, que pão, terra, trabalho, liberdade e cidadania é a melhor das receitas para se obter uma paz mundial nunca aparente.
Busquemos amanhãs mais promissores para nosso Nordeste , nosso ecossistema, sem olvidar os nossos bravos que já se situam no seio da Criação. Entendamos que ainda vale a pena buscar o bem estar coletivo, nunca confundindo os Direitos de Todos com favorecimentos a parentes, classes sociais, multinacionais.
Que os lúcidos se envolvam mais, evitando a multiplicação dos oportunistas. Que as atenções para o social se multipliquem, sem maneirismos ultrapassados. Que nossas celebrações se transformem em testemunhos vivos de uma espiritualidade dotada de olhos e corações dispostos a ajudar os próximos mais carentes.
Que as “enxergâncias” individuais e coletivas se multipliquem, na leitura das respostas dadas por Shankara, um sábio indiano que nasceu sete séculos antes de Cristo:
- O que deve ser evitado? As ações que nos levam a uma maior ignorância da verdade.
- Onde reside a força? Na paciência.
- Quais os males mais difíceis de extirpar? O ciúme e a inveja.
- O que é irreal? Aquilo que desaparece quando o conhecimento desperta.
- O que é libertação? A destruição da nossa ignorância.
- Em que devemos empenhar-nos? Em continuar aprendendo enquanto vivemos.
- Que coração não conseguirei conquistar, mesmo usando todas as minhas forças? O coração de um tolo ou de um ser humano que tem medo, ou está cheio de mágoa, ou é invejosamente pequeno, ou tem manias de poder, ou é incapaz de gratidão.
- Quais são as qualidades mais raras neste mundo? Ter o dom de dizer palavras doces com compaixão, ser erudito sem orgulho, ser heróico e ao mesmo tempo. generoso, e ser rico sem apego à riqueza.
Orgulhemo-nos das nossas vivências comunitárias, porque todas as Boas Novas são universais, sem discriminação alguma, destinadas aos Filhos da Criação.
Aprofundemos o querer bem de uns para com os outros. E ampliemos nossos conhecimentos espirituais, reconhecendo as manobras dos que desejam levar vantagens, fingidamente comprometidos com a Mensagem do Menino de Nazaré.
Feliz 2008!!!!

(Publicado no Portal da Globo Nordeste – http://pe360graus.globo.com - Colunistas 360)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Novo Testamento Judaico

Dadas as minhas estreitas ligações com inúmeros irmãos judeus - o Arão e a Estelinha Parnes, o Saulo e a Rosanna Gorenstein, os quatro compondo o carro-chefe -, a leitura do Novo Testamento Judaico, lançamento 2007 da Editora Vida, ratificou uma certeza minha adquirida desde os tempos de Universidade Católica, quando dos inúmeros papos mantidos com Sérgio Wolkoff, também irmão israelita, hoje consultor financeiro no Rio de Janeiro: a de que o Novo Testamento é um livro de origem judaica. Um livro judaico, escrito por judeus, que tem por público-alvo judeus e não-judeus, onde milhões continuam a depositar confiança irrestrita no Deus de Avraham, Yitz’chak e Ya’akov e no Messias judeu Yeshua, utilizando os nomes semitas dos personagens bíblicos Abraão, Isaque, Jacó e Jesus, tão conhecidos por todos nós, cristãos gentios.
No Novo Testamento Judaico, a figura central é Yeshua, o Messias, “um judeu nascido de judeus em Beit-Lechem, cresceu entre judeus em Natzeret, ministrou aos judeus na Galil, morreu e ressuscitou na capital judia, Yerushalayim, tudo isso em Eretz-Yisra’el, a terra dada por Deus ao povo judeu”. Daí naturalmente se depreendendo que foram os judeus que levaram o evangelho aos não-judeus, através das pregações, viagens e cartas de Sha’ul, um judeu praticante, que dirimiu uma das principais pendengas dos tempos primeiros da nova seita: se um não-judeu poderia se tornar cristão sem se converter ao judaísmo. Tudo muito bem narrado no capítulo 15 de Atos, onde Paulo e Barnabé foram encarregados de levar a questão (sh’eilah) para a assembléia dos notáveis em Jerusalém.
No Novo Testamento Judaico, a Introdução é leitura mais que recomendável para quem deseja melhor assimilar os testamentos sagrados, primeiro e segundo, mutuamente interdependentes, tal e qual uma casa de dois pavimentos, onde o segundo depende estruturalmente do primeiro. Lá está escrito: “o Antigo sem o Novo é como uma casa sem teto”. Ou, como acrescentaria João Silvino da Conceição, “o Novo sem o Antigo seria um segundo pavimento em prédio sem alicerce”. Um Novo Testamento que completaria a Tanakh, as Escrituras hebraicas outorgadas por Deus ao povo judeu.
Alguns pontos chamam a atenção quando da leitura da Introdução feita no Novo Testamento Judaico:
a. O próprio Yeshua disse: “a salvação vem dos judeus” (Jo 4,22)
b. Muito do que se encontra no Novo Testamento é incompreensível se posto sem o contexto judaico. Por exemplo, Yeshua disse, em Mt 6,23, que “se seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas”. Em hebraico, possuir um “ayin r’ah”, “olho mau”, significa ser sovina. O contrário, “ayin tovah”, “olho bom”, equivale a ser generoso. A Bíblia do Peregrino, Paulus 2005, contempla uma tradução mais fidedigna em Mt 6,23: “se teu olhar é mesquinho ...”. Jesus incentiva a generosidade, a solidariedade entre povos.
c. Há, na Introdução, um quadro onde se demonstra que Yeshua “cumpriu todas as profecias referentes à sua primeira vinda”.
d. São citadas ainda “três áreas adicionais nas quais o Novo Testamento Judaico pode ajudar em relação ‘tikkun-há olam’ (conserto do mundo): o anti-semitismo cristão, a recusa judaica de receber o evangelho e a separação entre igreja e povo judeu”.
Como existem mais de cinco mil manuscritos antigos (totais e parciais) do Novo Testamento, o Novo Testamento Judaico baseou-se no The Greek New Testament das Sociedades Bíblicas Unidas. Instituição sempre atenta às pesquisas linguísticas mais consistentes. A leitura do Novo Testamento Judaico, acompanhada da Bíblia Hebraica editada pela editora Sêfer – que ressalta, em Jeremias 31,30, que haveria uma nova aliança, onde seriam perdoadas iniqüidades, os pecados não mais lembrados – nos proporciona esclarecimentos vários, ressaltando questão para intermináveis debates: o Messias deu término à Torah ou Ele é o objetivo dela? Relendo Rm 11,16-26, sempre sonhei com a unidade restaurada.
(Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 02.01.2008)