quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Recordando o Dom

Relembro ao companheirão João Silvino da Conceição, inimigo figadal das presepadas cometidas por políticos oportunistas, inclusive ex-prefeitos, a solenidade da CEPE que homenageará o centenário do Dom. Uma iniciativa que merece aplausos mil para a presidenta Leda Alves, uma das fiéis colaboradoras do ainda não substituído amado arcebispo metropolitano de Olinda e Recife.
Chovi no molhado por completo. O Silvino já se encontrava devidamente agendado, camisa e meias compradas, sorrisão de satisfação só em pensar participar de um dos eventos comemorativos do centenário do Dom.
No Boteclando, papo regrado a “guaraná geladíssimo” e salaminho, comentamos as últimas da política local. Os dois espantados com as patifarias dos parlamentares federais, exceções à parte. Foi quando o João me mostrou um livro do Dom, adquirido em 1978, intitulado Mil Razões para Viver, todo sublinhado de lápis de várias cores, dizendo ser recomendável sua leitura para ampliação da cidadania da gente brasileira, um modo concreto de atenuar as bandidagens várias. Na contracapa do livro, uma edição da Civilização Brasileira 1978, um trecho destacado: “Reflexo exato da personalidade magnética do autor, amada figura de vida pública nacional, este volume de versos sem a menor afetação literária, mas grandiosos em sua forma singela e em sua mensagem profunda é obra para os simples, os humildes, os puros de coração, que têm como Dom Hélder Câmara, os olhos abertos e a clarividência das crianças”.
Juntamente com uma sobrinha do João, a Kátya Santos, lapa de morena capaz de zarolhar carteiros e poetas, selecionamos algumas reflexões do Dom, pondo as carapuças de praxe.
- Das barreiras a romper a que mais custa e a que mais importa é, sem dúvida, a da mediocridade. As indicações foram para os políticos que tentaram tirar casquinha nas comemorações do centenário do Dom. Oportunistas neuronialmente débeis que ampliaram suas já visíveis idiotices pavônicas. E para aqueles que, como urubus, estão deambulando pelos corredores do Congresso Nacional, fuçando a validade da licença dos adoentados.
- A maior e mais grave das imprudências é a própria prudência que se fia em si, se torna calculista e prescinde das loucuras de Deus. Os que necessitam deste aviso são os atuais homens presidentes latinoamericanos, sem exceção alguma. O messianismo anda solto na buraqueira.
- Como pode a mesma expressão ser tão diabólica e tão cristã? Listamos figuras episcopais. Duas daqui, outra de Roma. E também o bispo cretino que negou o Holocausto.
- Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo. E recordamos Paulo Cavalcanti, ex-integralista, que percebeu a tempo o caminho devido. E foi um digno gigante.
- Encruzilhadas? Elas testemunham riqueza de caminhos, exigem opção, supõem sopro de Deus... As opiniões todas voltaram-se para 2010 e 2014, quando os que não souberam fazer a hora vão querer acontecer. E darão com as carecas n’água.
- Anos de escola mais anos de vida. E só hoje descobri que a Cruz é o sinal mais nas adições de Deus. Cidadania mais educação, mais criticidade e mais civilidade só ampliam o amor pelo sinal ícone do Cristianismo.
- Quando te cantares loas e jogarem mantos sob os teus pés, conta os dias entre o Domingo de Ramos e a Sexta-feira Santa... Imaginamos alguns prefeitos que se imaginam adorados em início de mandato. No começo, até o pega-rapaz marqueteiro é elogiado.
- Isto é o meu corpo. Quantos de nós, Senhor, admitiríamos ser chamados de “isto”?... Humildade não faz mal a ninguém, só engrandece. Embora se deva ter muito cuidado com os “humildes”, inclusive os que se travestem de Dom.
Um não-acomodado cutucador de consciências, eis uma definição completa para Dom Hélder Câmara, que soube ser pastor-irmão na Arquidiocese de Olinda e Recife, nunca se distanciando da definição proclamada pelo papa João Paulo II, na Ilha Joana Bezerra, no Recife: ‘irmão dos pobres’.
Radicalmente ecumênico
”.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com, Coluna BATE E REBATE)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Sócrates e Bóstacres

Na quarta-feira passada, quando me preparava para dar um abração de parabéns na Valéria Jordão de Andrade, uma competente profissional que está realizando um trabalho gerencial admirável na Conta Estilo, Banco do Brasil Casa Amarela, eis que reencontro o Arnaldo, amigão fraternal de longa data, sempre atual, que logo me faz ciência de uma descoberta por ele feita quando da sua última viagem à Europa.
Numa das famosas bibliotecas do Velho Continente, aqui resguardada para evitar chafúrdios dos precipitados, um documento antigo, datado do século III a.C., aponta o verdadeiro motivo da tomada de cicuta pelo filósofo Sócrates, aquele cuja frase “não há mal em não saber, há em nada querer aprender” ajusta-se como uma luva em alguns gestores públicos brasileiros. A causa da morte do filósofo foi a sua impaciência levada ao extremo pelas imbecilidades cometidas por Bóstacres, um contemporâneo intensamente apatetado, que mesclava em seu dia-a-dia momentos de insanidade intelectual real e de ignorância sabidamente fingida para agradar os paturebas do seu derredor.
Para cada pensar do Sócrates, Bóstacres tinha uma argumentação em sentido contrário. Segundo levantamentos precários feitos à época, na Grécia existiam mil e cinquenta entusiastas de Bóstacres para cada admirador socrático. Uma relação que, grosso modo, permanece até hoje em algumas áreas tropicais, onde uma imensa maioria ainda não percebeu a essência de uma das reflexões socráticas mais adequadas para os atuais tempos brasileiros, aquela que diz “não há mal em não saber, há em nada querer aprender”. Que exprime com muita propriedade inúmeros contemplados com o Bolsa Família, que preferem ganhar mensalmente uns trocados sem exercer um trabalho remunerado.
Enquanto o admirável Sócrates utilizava a sã filosofia para induzir inspirações e ações concretas nos poucos que o ouviam em praça pública ou acompanhavam suas portentosas argumentações, a turma dos velhacos, aquela que tinha por meta única levar vantagem em tudo, principalmente no dinheiro público, não se desgrudava de Bóstacres, que proclamava que se deve lançar mão de fraudes piedosas com a massa, baseado no faquir Bambabef, que assegurava “que o povo tem necessidade de ser enganado”, ainda que para isso sempre se lance mão do jargão anestésico “nunca ninguém antes neste país ...”.
Atualmente, socráticos e bostacráticos são de imediato reconhecidos nestes rincões cabralinos. Os primeiros, percebem-se em dívida com a educação das massas, sempre dispostos a aprenderem com os menos favorecidos, fazendo o bem sem atentarem para vantagens pessoais. Sabem sustentar suas convicções e sonhos, sempre estimando o ato de saber viver bem. Rejeitam as banalizações e as reflexões mal digeridas, aquelas travestidas “da monotonia repetitiva ou da robotização das vivências”.
Já os bostacráticos, inúmeros deles atualmente abrigados no PMDB – Programa de Mobilização dos Defensores de Bóstacres, se reinventam para trás, buscando acalentar apenas interesses pessoais e espúrios, solapando a dignidade nacional em detrimento de posturas canalhas de manutenção de poder. De inteligência velhaca especializada em manobras ardilosas, criatividade perniciosa ao bem coletivo, possuem um discurso ensaboado, de cores mutantes a depender da conjuntura. De saber aplicado de forma sempre escabrosa, possuem o cinismo como porta-estandarte das estratégias capciosas interessadas apenas em ganhos pessoais e outros penduricalhos.
A tarefa maior dos socráticos é a de evitar a expansão do outro agrupamento. Ainda poucos, não perderam a coragem nem a esperança de verem, um dia, o território nacional respeitado no mundo inteiro, os fins jamais justificando os meios. Sempre continuando dispostos a não alimentarem com pérolas os porcos que persistem na degeneração do todo pátrio. Suínos que estão em todos os agrupamentos sociais.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Anúncios Evangelizadores

Dois anúncios instalados estão dando o que falar, provocando reações as mais diferenciadas, arregalando os olhinhos dos abilolados que se imaginam do Alto sem qualquer responsabilidade terrestre. O primeiro, estampado nos ônibus em Washington, é promovido pela Associação Humanista Americana e diz o seguinte: “Por que acreditar em um Deus? Apenas seja bom, pelo amor de Deus”. O segundo, patrocinado por entidade inglesa, afixado em trinta ônibus, proclama: “Provavelmente Deus não existe. Agora pare de se preocupar e aproveite a vida”.
A cada dia me convenço mais de um ditado popular que diz “Deus escreve certo por linhas tortas”. E torno-me convicto de que os anúncios, aparentemente desacreditadores da existência de um Ser Superior, é um monumental alerta para todas as religiões do mundo. Que continuam apostando na passividade dos seus fiéis, promovendo a mesmice sem perceberem a evolução dos cenários sociais. E portando nostalgias autofágicas, que terminam por disseminar estratégias supérfluas, que desviam milhões para o agnosticismo.
Acredito que os anúncios podem ser entendidos como advertências altamente cutucadoras: que as evangelizações nunca devem estar embasadas no passado, posto que ensejam reproduções e memorizações desnecessárias; que os questionamentos requerem mais de uma resposta, evitando-se o medo do fracasso; que as iniciativas nunca valorizem a incompetência, a ignorância e a baixa-estima, de valia apenas para os domesticadores que nunca postularão a libertação integral dos seres humanos.
Os anúncios são também mordazes. Desafiam os que menosprezam o autoconhecimento, os que não desenvolvem suas habilidades intuitivas, os que abandonam a imaginação e a fantasia e os que não cultivam a visão otimista dos amanhãs desabestalhadores. Parecendo reverenciar os indecisos, eles concordam com o poeta Fernando Pessoa: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Também aplaudindo Harold Jones, um morador septuagenário de Nova York: “A pessoa média só está interessada nos próprios sentimentos e no que o cerca de maneira imediata. A pessoa excepcional sempre quer aprender sobre o mundo além do seu próprio quintal”.
A iniciativa provocativa relembram uma reflexão feita pelo rabino Abraham Joshua Heschel (1907-1972), um dos pensadores religiosos do século XX, que sempre ensejou uma visão lúcida, generosa e transformadora da relação entre o divino e o humano: “Costuma-se culpar a ciência secular e a filosofia anti-religiosa pelo eclipse da religião na sociedade moderna. Seria mais honesto culpar a religião por suas próprias derrotas. Ela decaiu não porque foi contestada, mas porque se tornou irrelevante, enfadonha, opressiva e insípida. Quando a fé é completamente substituída pelo credo, o culto pela disciplina, o amor pelo hábito; quando a crise de hoje é ignorada pelo esplendor do passado; quando a fé se torna um mero objeto herdado em vez de uma fonte de vida ; quando a religião fala somente em nome da autoridade em vez da compaixão, sua mensagem se torna sem sentido”. E que complementou com sabedoria: “Temos que pressionar a consciência religiosa com indagações, obrigando o homem a entender e a desembaralhar o significado do que está acontecendo em sua vida enquanto está inserida no horizonte divino”.
Os anúncios dos ônibus em duas importantes capitais do mundo denunciam a perversão das religiões de fingidas piedades, onde o que se busca é o poder rodeado dos bajuladores de praxe, nunca críticos. Para mim, eles são fecundantemente evangelizadores. Despertarão muitos do anestesiamento e entorpecimento de inteligências e corações sinceros. Tornando-os aptos para o bom combate, ampliando a capacidade de fazer distinções, uma operação elementar e primária da inteligência humana. Ainda que, como dizia Karl Popper, “nós não temos a verdade, só podemos dar pitacos”.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Perfil de um FDP

Sou um leitor viciado em textos sementeiros, os que espantam a poeira dos nossos recantos mentais, aquela que impede a facilitação de um existir situado e datado, expressão usada pelo educador Paulo Freire, que partiu para a eternidade sem contaminação de qualquer bolor intelectual. Gosto que me enrosco com análises historicamente acidorresistentes, que despertam, desnudam, afolozam os gasodutos anatômicos dos oportunistas e arrebentam posturas fingidoras, dilacerando os paturebas que apenas desejam levar vantagens político-eleitoreiras, aproveitando-se da mitografia de alguns perebas travestidos de parlamentares.
Diante das maracutaias vergonhosas que estão maculando a atual conjuntura eleitoral brasileira, a partir das patacoadas cometidas pelos presidentes do Congresso Nacional e das desmesuradas bandidagens que asfixiam honradez e dignidade de milhões de brasileiros, a melhor vacina é a do apetrechamento cívico através da leitura e reflexão de livros de humor tão corrosivo quanto inteligente. Um deles, recentemente chegado às minhas mãos, possui sucessivas edições italianas, brasileiras, castelhanas e catalãs, francesas e belgas. Trata-se de Discurso Sobre o Filho-da-Puta, do lusitano Alberto Pimenta, em primorosa tiragem da Fenda Edições. Páginas que aliviam sobremaneira as angústias individuais e coletivas dos que ainda possuem um mínimo de vergonha na cara.
A edição por mim compulsada retrata, com refinada ironia, os múltiplos comportamentos hipócritas públicos e privados. Segundo Pimenta, sobre o FDP múltiplas lendas são contadas. O autor do Discurso estabeleceu, para iniciação dos ainda leigos no assunto, algumas diretrizes que servem para identificar a presença de um deles nos mais diferenciados ambientes. Tais diretrizes, lidas e relidas, fortalecem têmperas, reaninam disposições de travar o bom combete, amplia o poderio das defenestrações indispensáveis.
Para os leitores deste sítio muito aplaudido, porque de excelente nível informacional, torno públicos alguns dos parâmetros do Alberto Pimenta, para favorecer uma melhor identificação dos que estão merecendo levar umas cipoadas cidadãs, não mais fazendo de besta os eleitores de um estado já de passado muito politicamente sacrificado:
1. O FDP existe e está em todas as partes. Nunca se define à primeira vista. Não possui um mínimo de criticidade propositiva. Não usa sinais explícitos, nem distintivos, sempre dizendo o que pretendia dizer o maioral seu chefe.
2. O FDP não consente na despreocupação saudável de quem quer que seja. Pretende chegar a todos os lugares sem chegar a sair pra lugar nenhum, vocacionado que é para não deixar fazer, sem num continuado entra e sai, sem a mínima “expelição”, como diz neta querida a caminho da adolescência.
3. Os FDP conhecem-se muito bem. Sabem comunicar-se eficazmente uns com os outros, num corporativismo de fazer inveja aos patrulheiros de sempre. E possuem sempre um bom motivo coletivo para os seus atos particulares e um excelente motivo particular para seus atos públicos.
4. Todo FDP detesta o sucesso das investigações dos outros e se preocupa obsessivamente com a ascensão profissional dos companheiros de trabalho, jamais se aperfeiçoando porque jamais se desligou das caminhadas bem sucedidas dos seus colegas, de infância, de trabalho ou de comunidade, neles se grudando para melhor prejudicá-los.
Para 2009, que nunca prescindirá de oportuníssimas vergastadas, creio que o melhor indicador para as férias de agora é a leitura bem mastigada das notas do Alberto Pimenta. Para melhor identicar os "vocacionados". E também para não se converter em mais um deles. Mas sobretudo para poder trabalhar prevenido em ambientes onde eles pululam, quase todos travestidos de coadjuvantes imprescindíveis da construção do bem estar social ... deles.
Sejamos diferentes dos FDP. Como aqueles que absorveram eficazmente o balizamento magistral de Bernard Shaw : "Alguns homens vêm as coisas como são e perguntam POR QUE ? Eu sonho com as coisas que nunca existiram e pergunto POR QUE NÃO?"
PS. A “sapatada” do Jarbas Vasconcelos numa revista semanal atingiu a fuça, no Congresso Nacional, de “mais de trezentos picaretas”. Quantos se mancaram?
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

Hora e vez da criatividade

Por alguns economistas brasileiros nutro admiração acima da média. Celso Furtado sobrepairando sobre todos. Um deles, entretanto, me faz recordar os tempos de Unicap, quando Introdução à Economia, constitui livro básico do primeiro ano. Carlos Lessa, um dos autores, Antônio Castro foi o outro, formou-se em Ciências Econômicas pela Universidade do Brasil, 1959, efetivando mestrado pelo Conselho Nacional de Economia, 1960, seu doutoramento acontecendo na Universidade de Campinas, 1976.
Em 2003, foi convidado pelo presidente Inácio da Silva para assumir o BNDES, sendo empossado a 17 de janeiro. Por defender um desenvolvimentismo criativo e um papel mais ativo do setor governamental na área econômica foi afastado em novembro do mesmo ano.
Em entrevista à revista Caros Amigos, declarou:
Eu fui descobrir a miséria quando, trabalhando para Arraes, no plano diretor de Recife, vi a favela da Boa Viagem e do Pina. Isso gerou pra mim um impacto brutal, quer dizer, se uma sociedade deixa pessoas ficarem nessas condições, essa sociedade está errada. Durante muito tempo não conseguia chegar a Recife sem ficar empacado emocionalmente.
O economista vê a atual crise crise financeira como uma inevitável oportunidade de reformulação do capitalismo: “Acho que o mundo vai caminhar para uma sociedade bem mais convivial”. E mais disse: “Não haverá mais, provavelmente, este festival chamado globalização financeira. Não haverá mais este espetáculo de uma riqueza financeira que não guarda nenhuma relação com a riqueza real”. E deu um exemplo estarrecedor: “Existe uma instituição, que é uma instituição insuspeita, chamada Bank for International Settlements, que é uma espécie de banco central dos bancos centrais. Ele estima que a produção, o PIB, de todos os países do mundo somados seja alguma coisa na ordem de 60 trilhões de dólares. Um ano de atividade econômica são 60 trilhões de dólares. Agora, ativos financeiros são as dívidas das famílias, das empresas e dos governos. Dá um total de 130 trilhões. Em relação aos derivativos, o International Settlements não sabe, porém estima conservadoramente em 640 trilhões de dólares. Tudo isso está no terreno da fantasia porque o que corresponde ao processo da economia real são os 60 trilhões de produção e os 130 trilhões de ativos financeiros, que são as compras a prazo feitas pelas famílias de eletrodomésticos, imóveis etc. São os créditos de que as empresas lançam mão para produzir ou ampliar a produção e são os financiamentos que o governo assume para realizar políticas sociais, às vezes para comprar armamentos (risos), às vezes para fazer estrada. Isso é a parte sadia do lucro. A parte que pertence à efervescência são os 640 trilhões, que ninguém sabe quanto são. Nos EUA, já têm analistas que dizem que é um quatrilhão”.
Afirma convictamente: “Todos os que diagnosticaram o fim do capitalismo perderam o emprego. Porque as crises vêm e o capitalismo as supera e aparece com outra configuração. Acho que muito provavelmente o que vai acontecer é uma política dos países preocupada em organizar, regular, evitar comportamentos especulativos. E provavelmente vai surgir também uma cooperação internacional para tentar enfrentar alguns problemas do tipo poluição, degradação das fontes de água, etc...” E vaticina: “A economia mundial seguirá pautada pelo petróleo por muito tempo. Os EUA bebem 25% do petróleo do mundo. Não têm reserva para nem cinco anos, dependem do petróleo de fora. Não vão sair do Iraque de maneira nenhuma”. E alfinetou: “O que o Brasil está fazendo até agora é tentar tapar o sol com a peneira. Ao invés de criar salvaguardas, estamos tentando tampar buraquinhos”.
Enxergâncias solucionatórias”, eis uma missão. Para se ir além dos dogmas e das doutrinas que já não voltam mais como eram. O momento exige a “viabilização do impossível”, situado bem além da simples “implementação do viável”. Ou do apenas eleitoreiro.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com, Coluna BATE E REBATE)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Lição para Universitários

Confesso que lágrimas ameaçaram rolar bochecha abaixo quando concluí a leitura, num jornal do sul, de reportagem que narrava o sonho de Amélia Pires, uma paulista que completou 80 anos em dezembro último. E que desde 2004 presta vestibular na FUVEST, buscando conquistar um diploma no curso de Administração da Universidade de São Paulo.
Com base no exemplo de vovó Amélia Pires, abraço os feras 2009, enviando para todos um texto de Frei Betto – SEJA VOCÊ, O NOVO – recebido de João Bosco Gomes, irmão amado, alegria sem frescura de espécie alguma. Ei-lo: “Neste novo ano, seja você o novo. Diminua a ansiedade, cultive flores no canteiro da alma, regue com ternura seus melhores sentimentos, imprima aos seus passos o ritmo das tartarugas e a leveza das garças.
Não se mire nos outros; a inveja é um cancro que mina a auto-estima, fomenta a revolta e abre, no coração, o abismo no qual se precipita o invejoso. Mire-se em si mesmo, assuma seus talentos, acredite na sua criatividade, abrace com amor sua singularidade. Evite, porém, o narcisismo.
Seja solidário; ao estender a mão aos outros, estará oxigenando a sua própria vida. Não seja refém do egoísmo.
Cuide-se da língua. Não professe difamações e injúrias. O ódio destrói quem odeia, não o odiado. Troque a maledicência pela caridade. Comprometa-se a fazer ao menos cinco elogios por dia; sua saúde espiritual agradecerá.
Não desperdice o tempo, hipnotizado diante TV ou navegando aleatoriamente pela internet, naufragado no turbilhão de imagens e informações que você não consegue transformar em síntese cognitiva. Não deixe que a espetacularização da mídia anule sua capacidade de sonhar e o transforme em consumista compulsivo. A propaganda sugere felicidade e, no entanto, nada oferece senão prazeres momentâneos.
Centre a sua vida em bens infinitos. Leia muito, reflita, ouse buscar o silêncio neste mundo ruidoso. Lá você encontrará a si mesmo, e, com certeza, um Outro que vive em você e muito pouco é escutado.
Cuide da saúde, mas sem a obsessão dos anoréticos e a compulsão dos que devoram alimentos. Caminhe, pratique exercícios aeróbicos, sem descuidar de acarinhar suas rugas e não temer as marcas do tempo. Freqüente também uma academia de malhar o espírito. E passe nele os cremes revitalizadores da generosidade e da compaixão.
Não dê importância ao que é fugaz, nem confunda o urgente com o prioritário. Não se deixe guiar pelos modismos. Como Sócrates, observe quantas coisas lhe são oferecidas nas lojas e das quais você não precisa para ser feliz.
Jamais deixe passar um dia sem um momento de oração. Se não tem fé, mergulhe em sua vida interior, ainda que por apenas cinco minutos. Não se deixe desiludir pelo mundo que o cerca. Você é chamado a transformá-lo.
Se, por nojo, abomina a política, os políticos que a enojam lhe serão gratos. Se é indiferente, lhe agradecerão os que a ela se apegam. Mas, se reage e atua, haverão de o detestar, porém a democracia se fará mais participativa.
Arranque de sua mente todos os preconceitos, e de suas atitudes, todas as discriminações. Seja tolerante, coloque-se no lugar do outro. Todo ser humano é o centro do Universo e morada viva de Deus. Antes, indague a você mesmo por que provoca em outrem antipatia, rejeição, desgosto. Revista-se de alegria e descontração. A vida é breve e, de definitivo, só reconheça a morte.
Faça algo para preservar o meio ambiente, despoluir o ar e a água, reduzir o aquecimento global. Não utilize material não-biodegradável. Trate a natureza como aquilo que ela é de fato: sua mãe. Dela você veio e a ela voltará; hoje, viva do beijo que ela lhe dá continuamente na boca: ela o nutre de oxigênio e alimentos
”.
Feliz caminhada acadêmica, feras 2009!! Nunca se esqueçam que a coragem é a primeira das qualidades humanas, porque é a que garante as outras, no pensar de Aristóteles, quatro séculos antes do nascimento da Criança, esse Amor Infinito de quem sou servo sempre pecador.
Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 11.02.2009)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A morte da vaca e o Bolsa Família

Recentemente fui apresentado a um casal de docentes, filho de lavradores do interior de São Paulo. Ambos dotado de muita energia intelectual, estudiosos que são dos relacionamentos, até hoje ainda nos primeiros engatinhamentos, entre realidade quântica, filosofia e religião. O livro Quem se Atreve a Ter Certeza?, editora Mercuryo, é uma produção conjunta dos professores Maria de Lourdes Andreeta e José Pedro Andreeta e traz uma historinha pra lá de oportuna para a quadratura nacional, às vésperas de um ano que elegerá o futuro mandatário da República. Ou primeira mandatária, quiçá.
A historinha é a seguinte: um sábio e um dos seus discípulos, visitando um lugarejo, logo perceberam que no único casebre do sítio vivia uma família muito pobre e desnutrida. Que possuía como única fonte de alimento uma vaca, cabendo apenas a retirada do leite diária, dividindo-a com toda a família. Há muito tempo a família desistira de plantar, pois a terra era desgastada. Ao seu discípulo, o sábio determinou que, após o anoitecer, ele sacudisse a vaca numa ribanceira próxima, o que foi feito com muito pesar, sem que se soubesse as razões de tal proceder. Tempos depois, por feliz coincidência, sábio e discípulo passavam pelo mesmo lugar, quando se depararam com uma área totalmente modificada, toda plantada, muitas pessoas trabalhando na colheita e ordenha de uma grande quantidade de animais. Do proprietário da fazenda, o mesmo de anos atrás, a explicação diante do espanto estabelecido: com a morte da vaca, foram obrigados a plantar, constantando que a terra não era improdutiva. O desaparecimento da vaca tinha mostrado ao casal que com um pouco de coragem os problemas poderiam ser enfrentados, superadas as limitações induzidas pelo comodismo, favorecendo a multiplicação do pão de cada dia, ainda fornecendo trabalho para um bocado de gente das redondezas.
Qual a relação da historinha acima, a da morte da vaca, com o Bolsa Família? As ilações podem ser as mais diferenciadas possíveis. Se bem estratégico, o Bolsa Família beneficiará os que realmente estão carentes de um apoio financeiro, desde que não esteja descartada uma consistente capacitação para o trabalho, favorecendo um tempo de beneficio o menor possível. Quanto menor o tempo do benefício concedido, mais outros poderão ser beneficiados, ampliando-se uma profissionalização que somente favorecerá a cidadanização da gente brasileira.
Como nordestino, admirador de carteirinha de Luiz Gonzaga, recordo vez por outra sua imorredoura advertência: a esmola ou mata de vergonha ou vicia o cidadão. Sem os devidos cuidados, desatendidas as binoculizações estratégicas que não devem ser postas no lixão do desenvolvimento nacional, a perpetuação do Bolsa Família para os beneficiados de sempre somente desestimulará em milhões a vontade de trabalhar, ensejando uma multiplicação de párias, desestimulados por inteiro, sem qualquer fascinação pelo trabalho. O educador Rubem Alves costuma dizer que “o que não fascina dá medo e somente o fascínio acorda a inteligência, desafiando-a para o desconhecido”.
Quem desejar se aprofundar nas interrelações entre a história contada pelo casal Andreeta e o Bolsa Família, jamais deverá esquecer de uma outra recomendação do Rubem Alves, esse educador que sabe das coisas: todo pastor gosta muito das suas ovelhas porque elas são mansas e indefesas, não possuem garras, tampouco presas. Nas matas vizinhas lobos também gostavam muito de ovelhas porque elas são mansas, não possuem garras nem presas. O gostar dos pastores gerava cobertores de lã. O dos lobos produzia churrascos.
Que tipo de produtos ensejará o Bolsa Família? Se os ratos penetram nos depósitos de pás e adubos é porque encontraram facilmente os buracos. Eles “percebem” que, quando os métodos são assistencialistas, inexistem novas idéias, favorecendo cacoetes que despertam a ganância de outros roedores.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br - Colunas)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Platão & Lula

Não sei se alguém já comparou o episódio da caverna de A República de Platão com a trajetória do presidente Inácio da Silva. Para os leitores curiosos, relato num vapt-vupt a metáfora do filósofo. Seguinte: alguns seres humanos estão aprisionados numa caverna, da qual só percebem o fundo da dita. O trânsito feito no lado de fora só é captado através das sombras projetadas no fundo da caverna, constituindo para os prisioneiros sua única apreensão do exterior. Libertando-se um deles, eis que ele sai da caverna, percebendo então que as sombras até então observadas eram apenas aparências, cópias toscas e grosseiras, distorcidas das imagens agora captadas. Voltando ao interior do buracão e desejando explicar aos “ficantes” o que acontecia lá fora é zombado pelos companheiros que não tiveram a sorte dele. E foi considerado louco, “alienadão” pelos que persistiam sem uma mínima noção do observado pelo “sainte”. E continuaram sem querer enxergar a realidade menos distorcida que se explicitava no exterior da caverna.
Para o filósofo Gilbert Hottois, da Universidade de Bruxelas, existem duas formas de saber: “a) o saber sensível, superficial, relativo às aparências efêmeras, saber de senso comum, incerto, particular e subjetivo, saber de opinião, chamado de doxa; b) a ciência, acessível apenas ao olhar do espírito, saber inteligível e espiritual, que tem como objeto a essência real, universal e imutável das coisas, esse verdadeiro saber é a episteme”. Diante dessas duas formas e com base no episódio da Caverna de Platão, fiquei a matutar com os botões de uma surrada camisa caseira, como seria, hoje, a convivência do presidente Inácio da Silva, um saído dos grotões nordestinos para as viagens internacionais aerolulísticas, com o resto do mundo e com os seus “cumpanhêros” que ainda se encontram no interior da gruta.
Como estaria o presidente interpretando a conjuntura, por exemplo, ao não ser convidado para discutir a integração popular na América Latina com os movimentos sociais no Forum Social Mundial, em Belém do Pará, com os presidentes Morales (Bolívia), Chávez (Venezuela), Lugo (Paraguai) e Corrêa (Equador), apesar de estar presente na cidade? Um mal-estar agravado pelas agressões nada sutis ao nosso país feitas pelos quatro falantes populistas que ainda se encontram na caverna, contemplando o fundo dela, talvez com os cotovelos coçando por ver nosso presidente de há muito do lado de fora do buraco, já tendo sido até convidado para bater um papo potência-contra-potência com o presidente Barack, aquele que veio para deixar tudo preto no branco.
Seguramente, o presidente Inácio saberá rejeitar as manipulações dos quatro pixotes metidos a mandões, posto que, nessa área, ele é profundamente entendido. Jamais sendo utilizado como instrumento de manipulação de interesses não-nacionais, ainda que perceba que uma integração latino-americano consistente, duradoura e não-demagógica, seja o caminho mais saudável para os amanhãs da América do Sul.
Atualmente, diante da crise financeira internacional, onde muitos “ispertos” se estropiaram, urge evitar que o povo simples, fatigado, sofrido deste país, ainda impotente diante das corrupções descaradas e dos favorecimentos espúrios, inclusive acontecidos no Norte do Brasil, enxergue nos “quatro do apocalipse” acima citados os restauradores do desenvolvimento libertário desta parte do mundo.
Ajudemos o presidente Inácio a não mais retornar para o interior da caverna, onde ainda se encontram multidões, inclusive líderes que se sentiram quase beatificados por ter osculado, no Forum Social Mundial, as barbas de um cubano pra lá de desconhecido, também ignorante do beijo de Judas.
Na crise, busquemos reduzir as neuroses e os desequilíbrios psíquicos e religiosos. Evitando o marasmo, a cultura de fingimento e os sepulcros caiados, tão causticamente denunciados pelo Homão da Galiléia, em sua estadia entre nós.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)