quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Para um Viver em Paz

O genial Charles Chaplin, um dia declarou: “Viva!!! Bom mesmo é ir a luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante”.
O mundo pós-moderno se depara com múltiplos sofrimentos humanos causados por extremismos os mais variados. Do fanatismo e do fundamentalismo religiosos à anarquia moral, do analfabetismo funcional à educação superior desconstruída, do machismo chauvinista ao feminismo exarcebado.
A grande maioria dos seres humanos não está sabendo rejeitar escravidões, não se vocacionou para a rejeição das manipulações, nem tem entendimento para desenvolver um modo de ser pessoa, abjurando as maquinações espúrias. E também ignora como se abrir sadiamente para o mundo do trabalho, da celebração e da festa. Não estrutura com sensibilidade suas manifestações dialogais, suas relações de amizade, suas conflitividades e seus entrelaçamentos amorosos, não distinguindo sexualidade sadia de sexismo barbaresco. E se sente impossibilitada de estabelecer um relacionamento com o Criador, não conjugando nos devidos tempos fé, confiança, obediência e compromisso. No frigir dos ovos, anseia por ser diferente dos que não cumprem seus deveres cotidianos, embora lhe faltem os meios necessários para um melhor preparo enxergatório.
Muitos se prostram fatigados diante de tantas injustiças, corrupções, favorecimentos espúrios e compadrios, percebendo-se impotentes porque repletos de desequilíbrios psíquicos e religiosos, afogados em crendices e superstições que infantilizam, ampliando as neuroses mais estranhas.
Para os que não possuem qualquer fervor religioso recomendaria o mais recente texto de Lou Marinoff, filósofo e fundador da Associação Americana de Orientadores Filosóficos, que muito tem contribuído para levar a filosofia prática para o cotidiano das pessoas. Intitulado O Caminho do Meio, editora Record, 2008, ele trabalha com as Filosofias ABC – Aristóteles, Buda e Confúcio – relacionando-as com a contemporaneidade existencial de cada um dos que buscam fachos de luz de aprimoramento nesta aldeia global, expressão utilizada por Marshall McLuhan na década de 60 última. Eliminando, no Ocidente, a civilização da culpa, e erradicando, no Oriente, a civilização do constrangimento.
A leitura de O Caminho do Meio seguramente auxiliará inúmeros na libertação de preconceitos e cavilações egocentristas, favorecendo uma solidariedade mais conseqüente para com todos aqueles que necessitam viver com entusiasmo e amor, tornando-os também agentes de vida. Uma leitura indispensável para enfrentar um crescente fenômeno atual, já identificado há muitos anos por Dom Hélder Cãmara, o sempre muito amado ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife: “O fenômeno do presente é que a juventude, com as várias Religiões, retém freqüentemente a impressão que existe medo, egoísmo, prudência excessiva da parte daqueles que carregam os títulos de líderes religiosos – já sem liderar”.
Segundo Marinoff, ”o ABC pode ajudar a consertar as cadeias partidas de nossa humanidade comum e nos possibilita conduzir a paz e compartilhar da prosperidade na aldeia global”. Uma simples amostra ABC: “É ridículo colocar a culpa de nossos erros em causas externas, em vez de colocá-la na facilidade com que nos deixamos envolver por elas” (Aristóteles); “O ódio nunca é aplacado com mais ódio; é a ausência de ódio que sempre aplaca – e esta é a lei eterna” (Buda); “O prazer não levado ao ponto da devassidão; a dor não levada ao ponto do sofrimento infligido a si mesmo” (Confúcio).
A lição maior que O Caminho do Meio traz é a de experimentar Deus através das reflexões dos célebres pensadores. Sempre reconhecendo humildemente a impossibilidade de conhecer a plenitude de Deus, ainda que pondo fé radical na sua maravilhosa Criação.

(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 31.12.2008)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Sobre Samaritanos Espertos

Numa das últimas semanas, o professor Carlos Eduardo Gonçalves, do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo, escreveu o seguinte: “De outubro para frente, temos um outro Brasil. Produção industrial em queda, vendas de automóveis caindo mais de 20%, anúncios de férias coletivas e promessas de demissões, cortes de projetos de investimento, ‘spreads’ bancários em forte alta, saída maciça de recursos, Bolsas em queda livre etc”. Um texto que gerou apreensões, principalmente num país como o Brasil que, historicamente, sempre se preocupou em fechar a porta depois da casa toda arrombada pelos vivaldinos. Inúmeros deles travestidos de samaritanos, que simulam desejar o bem para o país, oferecendo mil e uma proposições. Daquelas que me fazem recordar o poeta Mauro Mota, um dos grandes incentivadores da minha vida profissional, que sempre alertava seus assessores, no então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, sobre a fatalidade do estabelecimento de convênios PACU, onde os sabidos colaboravam com o pau e a gente entrava com o restante.
Como economista fora dos batentes da profissão, por responsabilidades assumidas em outras atividades, sempre fiquei a matutar como deveria ser uma explicação convincente sobre “como a teoria econômica, desde a Revolução Industrial, tem sido um instrumento para justificar internamente o capitalismo e para evitar que os demais países que ficaram atrasados no seu processo de industrialização também cresçam e lhes façam concorrência”. Tudo muito “elegantemente matematizado graças ao método hipotético-dedutivo utilizado, que deixava de explicar a realidade para se transformar em fundamentalismo de mercado”.
Mas um texto de muita utilidade didática, sem os maneirismos dos que se imaginam únicos donos da verdade econômica estabelecida, chega ao Brasil numa excelente hora, editado pela Campus, numa promoção conjunta com a Ordem dos Economistas do Brasil, já com carimbo 2009. Uma análise demolidora da política econômica incentivada, nos últimos anos, pelos países ricos, buscando retardar o desenvolvimento econômico dos países emergentes que buscam alcançar um crescimento que favoreça a minização das suas desigualdades internas. Intitulando Maus Samaritanos: o Mito do Livre-Comércio e a História Secreta do Capitalismo, o autor, economista coreano Ha-Joon Chang, de Cambridge, tem dedicado as duas últimas décadas a temas relacionados ao binômio desenvolvimento econômico x globalização.
O texto do Ha-Joon é uma explanação mais didática que a exposta em seu livro Chutando a Escada, de 2004, quando já denunciava que os países ricos, os “bondosos” samaritanos, em nome da cooperação internacional, “impunham políticas econômicas equivocadas aos países em desenvolvimento fragilizados por se haverem endividado”.
Na opinião de Luiz Carlos Bresser Pereira, autor do prefácio à edição brasileira, “a argumentação de Ha-Joon está sempre baseada em fatos históricos. Ele compara, por exemplo, a história ideológica da globalização (um conto de fadas do neoliberalismo) com a verdadeira história; ou então a história idílica do desenvolvimento dos países ricos baseada no liberalismo econômico com o protecionismo que de fato a caracterizaram. ... Não há razão para entregar o mercado interno do país a empresas estrangeiras a troco de nada”.
Ao fazer um resumo do livro do Ha-Joon para o João Silvino da Conceição, dele ouvi um questionamento pra lá de buliçoso: “Será, meu irmão quase-gordo, que o final da novela A Favorita, quando um empresário vigarista de país rico, macomunado com uma deliquente metida a empresária de país emergente, torna falida uma empresa nacional, aproveitando-se da idiotagem acentuada da dona da empresa, não é um baita sinal de alerta para todo o mundo empresarial brasileiro, às vésperas de turbulências mais taludas?
Abracei o João Silvino, orgulhoso da sua “enxergância” nacional-desenvolvimentista.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Sapatadas e Congratulações

De repente, o meu irmão João Silvino da Conceição me presenteia com um licor de jenipapo pra bispo algum tachar de pecaminoso. E vai logo comentando comigo a sapatada que, infelizmente, passou ao largo da cara ordinária do Bush. E pede-me para enumerar as sapatadas e congratulações que mereceram minha atenção nos últimos dias.
Selecionei de saída as sapatadas. E a primeira delas vai para o presidente do Senado Federal, Garibaldi Alves, pela desfaçatez de realizar oito sessões numa madrugada bandida, para aprovar uma montanha de vagas de vereadores Brasil afora, como se fosse um papai-noel de saco imenso descaradamente dependurado nos recursos públicos, violentando a dignidade e a altivez da gente potiguar, certamente estarrecida com a animalidade praticada.
A segunda sapatada vai para os criminosos militares que bancaram “ispertos”, passando a mão dolosamente nos auxílios destinados às vítimas das enchentes catarinenses. Que sejam punidos exemplarmente, para não enxovalharem corporação alguma. E que a punição seja anunciada aos quatro ventos, alertando os demais sabidos porventura existentes.
A terceira sapatada vai para o motorista Alison Jerrar, que, fartamente embriagado, tirou a vida da enfermeira Aurinete Gomes Lima dos Santos, na zona sul da cidade do Recife. Que a irresponsabilidade praticada seja considerada ato doloso pelas autoridades judiciárias, favorecendo uma temporada carcerária para quem não teve respeito algum pela vida humana.
A sapatada de número quatro, eu a destino aos responsáveis pela Saúde Pública brasileira. Que o Ministério Público de todo o país se arregimente rapidamente para dar um basta na incompetência e desleixo cometidos contra milhões de desassistidos, que clamam por providências minimamente saneadoras, não devendo ser considerados cidadãos apenas às vésperas das eleições.
Finalmente, a quinta sapatada vai para as ONGs de mentirinha, salafrárias todas, que estão destruindo a imagem das excelentes iniciativas, aquelas que sabem cumprir com suas obrigações estatutárias, não permitindo a utilização da entidade para “lavagens financeiras” que engordam finórios que apenas fingem praticar utilidade pública, nada mais sendo que bandidos de colarinho branco, apesar dos sobrenomes, escolaridades, páginas sociais, arrotâncias e outras artimanhas fingidocráticas.
No setor das congratulações, as primeiras vão para o Governo do Estado de Pernambuco. Pela arrojada decisão política do governador Eduardo Campos em promover uma gigantesca ofensiva contra o analfabetismo que ainda contamina quase um milhão de pernambucanos, no combate utilizando os mais diferenciados equipamentos sociais. O Programa Paulo Freire – Pernambuco Escolaridade, além de justa homenagem ao saudoso educador pernambucano, cidadaniza, profissionaliza, favorece a criatividade, alavancando a imagem de Pernambuco como região que respeita os filhos de todas as classes sociais. Que a sociedade pernambucana perceba a grandiosidade da iniciativa.
A congratulação número dois vai para Josias Albuquerque, presidente da Fecomércio-PE, pela homenagem prestada, em Surubim, ao médico José Nivaldo Barbosa, colaborador direto de Josué de Castro na ASCOFAM, na distribuição de um enriquecimento nutricional no Agreste Pernambucano. Com 84 anos bem vividos, José Nivaldo teve seu trabalho reconhecido pelo próprio Josué de Castro: “Uma experiência de um ano, realizada na cidade de Surubim, que era um dos maiores núcleos de pelagra endêmica, permitiu-nos constatar que o uso geral da farinha enriquecida havia feito essa doença carencial praticamente desaparecer na região”.
A terceira congratulação vai para a Editora Bagaço, situada no Poço da Panela, Recife. Uma das suas últimas edições é o livro JOSUÉ DE CASTRO – O GÊNIO SILENCIADO, do jornalista Vandeck Santiago, talento brasileiro. No seu texto, Vandeck aponta as razões pelas quais Josué de Castro foi silenciado pelo conservadorismo regional.
A congratulação quatro se destina ao Grupo Organizador do Centenário de Nascimento de Dom Hélder Câmara, o muito amado ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife. Que o Grupo saiba, com habilidade, identificar os oportunistas, os que desejam sair de bom pastor com as comemorações, limpando-se das agressões assacadas contra o Dom ainda em vida, quando arcebispo emérito.
Finalmente, a quinta congratulação vai para Elias Gomes, prefeito eleito de Jaboatão dos Guararapes. Uma vitória consagradora nas urnas o está viabilizando como o prefeito mais dinâmico da Região Metropolitana. Que a sua administração faça sepultar, de uma vez e para todo o sempre, a má fama que imperava nas administrações daquela cidade. Que Elias Gomes volte-se dinamicamente para os amanhãs que o aguardam, deixando que os próprios mortos sepultem seus mortos, para isso já tendo eles à disposição os seus próprios caixões.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com)

A Ressurreição de Josué de Castro

Com entusiasmo, li de uma peitada só o texto tornado público, este ano, por três lideranças da terra, o jornalista Vandeck Santiago, o Instituto Maximiano Campos e a Edições Bagaço. O livro Josué de Castro, O Gênio Silenciado traz na contra-capa testemunho de Anna Maria de Castro, filha do biografado: “Recomendo a leitura do livro sem temores. Para realizá-lo o autor, o talentoso jornalista Vandeck Santiago, pesquisou exaustivamente a vida e a obra de meu pai, entrevistou especialistas, historiadores, sociólogos, economistas, professores, líderes de movimentos sociais, amigos e admiradores de Josué de Castro. Recolheu depoimentos os mais expressivos sobre a trajetória pessoal e profissional de Josué”.
O livro do Vandeck Santiago abrilhantou as comemorações centenárias do nascimento de Josué de Castro, autor de Geopolítica da Fome, 1951, “o mais encorajador, o mais esperançoso e o mais generoso livro que já li em toda a minha vida”, na opinião da norte-americana Pearl Buck (1982-1973), Prêmio Nobel de Literatura 1938 e Prêmio Pulitzer 1932, cujo livro A Boa Terra vendeu quase dois milhões exemplares, considerado um dos clássicos da literatura estadunidense.
Lastreado numa reportagem sua, O Gênio Silenciado, publicada em 2004 no Diário de Pernambuco, Vandeck Santiago, oito prêmios jornalísticos, entre eles um Esso e dois Embratel, no livro aponta, como causa primeira do desconhecimento de Josué de Castro, a “conspiração do silêncio em torno da fome”. Que as elites pernambucanas da época patrocinaram para encobrir problemas que poderiam redundar em prejuízos múltiplos à mais-valia que se usufruía então na Veneza Brasileira, a terceira cidade do Brasil e o maior carnaval do mundo, terra dos altos coqueiros. Os meninos que possuíam “o bucho estofado de lama” e os adultos que se assemelhavam a “bonecos de pano mal costurados”, conclusões feitas com rigorosa seriedade científica por Josué de Castro, incomodavam as elites puritanosas e reacionárias da época. Que não admitiam que se classificasse a fome como manifestação biológica de males sociais, tampouco um flagelo fabricado por seres humanos contra seus próprios semelhantes, tachando logo de comunista e de inimigo do progresso da região um pesquisador filho de retirante, laureado pela Academia de Ciências Políticas dos EUA e também contemplado com o Prêmio Internacional da Paz. Insensíveis que não aceitavam um pesquisador que dizia frequentemente “ditadura, nem do proletariado”, também alfinetando o pensamento liberal: - “Essa mão invisível nunca agiu em favor da humanidade”.
O professor Ignacy Sachs, naturalizado francês, dá um depoimento ímpar: “no pós-guerra, todas aquelas instituições criadas ao abrigo da ONU para melhorar o mundo tinham como guru máximo Josué de Castro. Antes mesmo de Gilberto Freyre tornar-se a referência do intelectual brasileiro, Josué já se impunha”. Um pernambucano que, por dois mandatos, presidiu o conselho executivo da FAO, organismo da ONU para Agricultura e Alimentação.
O golpe de 1964, ao decretar a cassação de Josué de Castro na primeira lista, juntamente com Miguel Arraes, Celso Furtado, Francisco Julião, Pelópidas da Silveira, Luiz Carlos Prestes, Darcy Ribeiro e tantos outros, tinha duas intenções: calar a voz de quem denunciava as causas sociais da fome e pôr no ostracismo as análises e estudos por ele desenvolvidos, tornando-o esquecido das escolas primárias e secundárias e da Universidade Brasileira. Uma estratégia que parecia obedecer, acabrestadamente, a sugestão feita por Fairfield Osborn, famoso neomalthusiano, a de “matarem o livro” de Josué, por tratar-se de obra “perigosa”. Estratégia que muito debilitou Josué de Castro, vítima de um infarto fulminante a 24 de setembro de1973, aos 65 anos de idade.
Mas o centenário de nascimento chegou e as condições políticas brasileiras agora são outras. As reedições dos trabalhos de Josué de Castro se sucedem, ainda que, para ele e todos os demais ressuscitados, permaneçam válidas as palavras do educador Paulo Freire, no auditório da FCAP da então FESP, nos primórdios da redemocratização: “Por favor, não me copiem. Me reinventem!!!”
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Reflexão-minuto 001

Gente amada:
Ao invés de cultos de luzes e piscas-piscas diversos, de desavergonhadas luminosidades, por que as denominações religiosas do mundo inteiro não denunciam com muita ferocidade evangélica, o aumento de famintos do mundo?
Eles passaram de 850 milhões, em 2006, para 925 milhões em 2007. Um aumento percentual de quase dez por cento em apenas um ano, conforme relatório da FAO de setembro último.
Em Bangladesh, ainda segundo o relatório da FAO, uma família pobre usa metade da sua renda diária na aquisição de dois quilos de arroz.
Segundo o diretor da FAO, Jacques Diouf, será necessário um investimento de trinta bilhões de dólares anuais para duplicar a produção e acabar com a fome até 2050, quando teremos uma população planetária de nove bilhões de habitantes.
Muito dinheiro?? UMA MERRECA, se compararmos com a quantia gasta em armamentos, em 2006: 1,2 TRILHÕES DE DÓLARES!!
Que todas as denominações religiosas, cristãs e não-cristãs, neste dezembro que se finda, tomem conhecimento da Lápide da Fome, deixada sobre um túmulo de granito, registrando o lamento do faraó Tosorthrus, 3.900 a.C. sobre uma epidemia de fome acontecida nos seus domínios:
"Do alto do meu trono, choro esta grande desgraça: durante o meu reinado a inundação do Nilo falhou durante sete anos. Os grãos estão minguados, as safras escassas e há falta de toda espécie de alimentos. Todos os homens se transformaram em ladrões de seus vizinhos. Querem correr e nem ao menos podem andar. As crianças choram, os jovens caminham como velhos; as almas estão alquebradas,as pernas recurvadas, arrastando-se pelo chão, e as mãos repousam em seus regações. O Conselho dos Grandes está deserto. Abertos estão os celeiros, mas, ao invés de gêneros alimentícios, encontramos neles apenas ar. Tudo se esgotou".

Séculos depois, Maria Antonieta, a fútil esposa do bem alimentado Luiz XVI, rei de França, recomendou à população que comesse brioches à falta de pão. Rei e rainha foram decapitados com plenas justificativas revolucionárias.

No contexto atual, todo recato diante das extravagâncias à la Titanic. Nesta época natalina, uma multidão se encontra de barriga vazia, com um imaginário repleto de comidas.
Um iceberg gigantesco para cristianismo algum botar defeito.

Natal. Que Natal?

Com afeto,
Fernando Antônio Gonçalves

PS. Os dados acima foram extraídos do livro JOSUÉ DE CASTRO, O GÊNIO SILENCIADO, do jornalista Vandeck Santiago, um dos mais portentosos talentos pernambucanos dos últimos anos.
PS2. Por favor, neste período natalino não me convidem para solenidades religiosas festivas, onde a hipocrisia suplanta de goleada as autenticidades envergonhadas. Prefiro ficar no meu canto, ao lado da mulher doente e de uma mãe bem velhinha com Alzheimer, encarecendo perdão do Homão da Galiléia, por ser o mais pecador de todos os mortais.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Caminhante de Técnicas e Bravuras

Encareço ao governador Eduardo Campos, se eu já não estiver chovendo no molhado, uma leitura do recém lançado texto do Francisco de Oliveira, testemunha da ditatorial prisão do ex-governador Miguel Arraes, nos idos golpistas de 1964. Intitulado Noiva da Revolução / Elegia para uma Re(li)gião, Boitempo, 2008, é leitura imprescindível para aqueles que desejam abeberar-se das razões pelas quais, depois dos ontens libertários de 1817, 1824 e 1848, Pernambuco foi desmerecido pelo Poder Central, que o amputou territorialmente em duas ocasiões, tornando sua capital cada vez mais desimportante no cenário nacional, ela que foi uma aplaudida terceira metrópole brasileira. Hoje, “em direção a uma cidade de serviço de baixa qualidade”.
Considero o sociólogo Chico de Oliveira, ex-superintendente da ainda defunta Sudene, um caminhante de múltiplas técnicas e incontestáveis bravuras. Um talento brasileiro que pode ser considerado exemplo do classificado, um dia, pelo poetíssimo Fernando Pessoa: “sou técnico só dentro da técnica”. Um brasileiro que não se desnordestinizou, mesmo morando no sul do país, continuando amante de um sonho nunca efetivado: o de ver o Recife noiva de uma revolução que minimizaria o seu estado de penúria, hoje dotada de uma classe média que se sulinizou sem qualquer pudor. E que ainda possui, em continuado mimetismo, uma porção não significativa de emergentes, de fragílima memória, que enxergam a massa popular apenas como área reflexo de apreensões assaltáticas e arrastônicas. As elites pouco se fazendo presentes, quase todas a imaginarem-se protegidas em edificações de segurança máxima, ignorando por completo que “aqui nasceu a pátria”.
A primeira parte do trabalho do Chico de Oliveira, Noiva da Revolução, um escrito prosa-poesia x narrativa-histórica para ninguém botar defeito, deveria integrar Concurso de Redação sobre Recife Libertário, destinado aos alunos do ensino médio da rede pública estadual. Ampliaria a pesquisa, fortaleceria o conhecimento acerca dos heróis dos nossos ontens, favorecendo a luta pelos Direitos Humanos de todos os pernambucanos, principalmente na estratégica área educacional, cujo aprimoramento norteará o desenvolvimento da região.
Também na primeira parte, o Oliveira faz uma solicitação: a de se homenagear, em logradouro, Laurinha Paixão, “a mais formosa e fogosa mulher-dama do Recife antigo, espectral terror das matriarcas”, estas profundamente devedoras dos favores prestados pelas “descompressoras existenciais” de então. Acredito que uma reverência pública também deveria ser prestada a Garrafuz, genial moleque de recado, “a quem o patrão mandou comprar-lhe cigarros, e ele tomou um navio que imediatamente levantou ferros: dois anos depois, esbaforido, voltou ao patrão cumprindo o mandato, sem os cigarros e devolvendo a meia pataca: ‘Não tinha troco’”.
Leitura concluída, releitura iniciada. Para mais admirar a virilidade analítica de um talento que não se perdeu na maçaranduba do tempo, jamais se acomodando num “já fui bom nisso”, que é coisa para gente mentalmente velha de qualquer idade, desde a minoridade. As indagações do Chico de Oliveira não devem restar-se nas páginas do seu livro, com uma primeira parte que chicoteia e uma segunda que ressalta a luta redentora bravia de quem almejava tempos dignificantes para a terra dos altos coqueiros: “E para onde foi a revolução, Recife, teu noivo?” ... “Que história é essa, já perguntaram alguns dos teus historiadores, em que a vitória é dos submissos e a derrota é dos autonomistas?
Sem desanimar, pois desânimo foi feito para os esmorecidos, o bravíssimo Oliveira, autor “de um livre ensaio político-sentimental do Recife” inesquecível, parece profetizar sem qualquer bolor nostálgico: “Mas dia virá em que o sopro da liberdade voltará com tuas manhãs de sol e tuas brisas do mar, cidade de espinhos de sal cravados em meu marítimo coração”. Sem jamais olvidar o verso do poetaço Fernando Pessoa: “Deus às vezes usa o cansaço, para que possamos compreender o valor do despertar.”

(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Leitura Oportuna

De vez em quando, quando sacripantas fricotentos tentam pousar no meu terreiro, travestidos de auditor geral e único da Base da Nossa Existência, como dizia Paul Tillich, fico com uma vontade de retrucar com atitudes malcriadas, bubônicas mesmo. Mas a mente, situada acima do coração e que executa o CGA - controle geral de ânimo, incentiva continuar na trilha, seguindo a canção sem desaforos nem traulitadas. Tudo em conformidade com os bons costumes, abjuradas sempre as caraminholas que não integram o meu embornal de peregrino. Acredito piamente que os de categoria todo-pequena rapidamente se revelam, seus próprios comandos se pulverizando num piscar de olhos, fazendo-os escafederem-se do urbano para as brenhas mais rurais, de criticidade ainda engatinhante, ovelhantes na sua grande maioria. Onde sobrevivem os currais políticos e religiosos dos mais diversos naipes.
Num instante em que a eletrônica produz o mais breve pulso de laser já medido, calculado em 80 bilionésimo de bilionésimo de segundo, abismam-me, em áreas urbanas ditas metropolitanas, as atitudes dos abeatados de olhinhos revirados, que ainda não se perceberam contemporâneos, situados e datados em pleno século XXI, que está a exigir religiosidades nunca fricotentas.
Os ovelhosos se comportam como o teólogo Tertuliano dos tempos primeiros do cristianismo, que ansiava por ver os filósofos pagãos arderem no fogo brabo do Juízo Final, ao anunciar que bastava fruir da mensagem do Homão para não se ter necessidade alguma de investigar mais. Um posicionamento retificado mais de mil anos depois pelo notável Tomás de Aquino, teólogo dominicano, ao ressaltar a vontade de ampliar a sabedoria como a mais sublime, a mais perfeita e a mais útil das atividades humanas.
Para além de Tomás de Aquino, os tempos atuais exigem uma ampliação da enxergância de todos. O próprio apóstolo Paulo, na sua Carta aos Romanos, incentivava a transformação do mundo de então pela renovação das mentes, “para que sejam capazes de experimentar e comprovar a agradável e perfeita vontade de Deus”. Cada um devendo estar plenamente convicto da sua própria mente, como ressaltou mais adiante na sua epístola.
Fico a imaginar o comportamento que alguns tomariam, hoje, diante das atitudes inusitadas do Rabi da Galiléia. Que se colocava no mesmo patamar dos demais, ajudava prostitutas e leprosos, até confidenciando seus ensinamentos a uma mulher, Maria Madalena, inteligência feminina apedrejada moralmente pelos falsos beatos durante séculos, somente recentemente sendo restaurada em sua dignidade existencial.
Boas leituras refrigeram mentalidades e comportamentos, destroem medos e angústias, desabestalhando por derradeiro. Evitando as ingenuidades asininas daqueles que desejam “fazer o peru caber dentro da castanha”, afastando ainda fobias e discriminações.
Lendo sobre assuntos que me estão incomodando, permito-me espiar atrás das cortinas que impossibilitam a entrada de uma claridade libertadora. O objetivo da leitura é único: manter as lâmpadas acesas, recriando caminhadas, revisitando eventos antes tidos como inexpugnáveis, realimentando sonhos e favorecendo estratégias existenciais classificadas como de difícil acesso.
Dias atrás, um amigo me confidenciou que estava, aos cinquenta e cinco anos, sem saber como se comportar nos próximos anos, pois sabia que “o quadrado da hipotenusa era igual à soma dos quadrados dos catetos”, embora não tivesse mais certeza se o triângulo era retângulo. Engenheiro, não estava mais sabendo viver, cheio de medos e angústias, misturando filosofia e religião. Recomendei-lhe a leitura de Aprender a Viver, de Luc Ferry, ex-ministro francês da Educação, um defensor do Humanismo Secular, o uso da razão crítica, sem apelar para termos complicados e citações eruditas.
Segundo último telefonema, o amigo está se sentindo bem melhor, muito acima da mediocridade que o estava acossando.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Lenda do Milho e a Fé

Por ocasião da realização de uma semana de reflexão teológica na Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, Recife, dias atrás, o estimado bispo Dom Saulo Barros, Diocese da Amazônia, distribuiu entre os presentes um texto denominado A Lenda do Milho. Ei-lo abaixo, sem tirar nem pôr uma só vírgula:
Há muitos anos havia uma grande tribo cujo chefe era um velho índio. Era um índio muito bom e que estava sempre preocupado com a felicidade da sua tribo. Um dia, sentindo-se muito cansado e doente, pressentindo que estava para morrer, chamou os seus filhos e disse-lhes que quando morresse o enterrassem no meio da oca. E disse-lhes mais:
- Três dias depois de me enterrarem, surgirá de minha cova uma planta bem viçosa que depois de algum tempo produzirá muitas sementes. Quando virem a planta crescer e as lindas espigas aparecerem, não as comam, guardem-nas e plantem-nas.
Os dias se passaram, o velho índio morreu e os filhos fizeram-lhe tal e qual o pai ordenara. E como o velho índio dissera, surgiu de sua cova uma linda planta com belas espigas cheias de grãos dourados.
Os índios ficaram contentes, a tribo enriqueceu e passaram então a cultivar o milho com muito carinho. E assim surgiu o milho, diz a lenda
.”
Com seu jeitão pernambucaníssimo de ainda muita juventude, Dom Saulo Barros comentou a Lenda do Milho, comparando-a com um trecho do evangelho de João que reproduz fala do Homão da Galiléia, afirmando “que se o grão de trigo não cair na terra e não morrer continuará ele só. Mas se morrer, dará muitos frutos”. Um mote para os que apenas sabem guardar suas espigas de milho para obtenção de uns trocados de acréscimo à renda pessoal.
A conferência que se seguiu foi a do muito aplaudido teólogo Carlos Calvani, Coordenador do Centro de Estudos Anglicanos, sediado em Curitiba. Que teceu sementeiros comentários sobre a Fé Cristã, seus fundamentos históricos e sua consistência numa sociedade que se transmuta com crescente velocidade.
Saí da palestra do Calvani satisfeito por vê-lo sempre atento às evoluções históricas. A sua explanação em mim revigorou a convicção de que a fé é um sentimento que se correlaciona fortemente com os verbos acreditar, confiar e apostar no que se ouve, lê, vê e pressente sobre os complexos relacionamentos estabelecidos entre Ciência, Cultura e Transcendentalidade. Nutrindo um sentimento de afeição (amor em seus últimos estágios), que possilita a todos a migração de uma transitividade ingênua para uma transitividade crítica, utilizando terminologia Paulo Freire, a segunda em contínuo processo evolucionário, sem perder a ternura jamais. Sabendo fazer a hora, nunca esperando acontecer.
Acredito que a fé se manifesta de várias maneiras, umas estando vinculadas a questões emocionais, outras a motivos estritamente pessoais ou a razões específicas ou a uma nobre causa, existindo através de sentimentos intuitivos, característicos dos que sabem transitar pela vida reconhecendo uma perene incompletude.
A fé não está baseada em evidências físicas descobertas pela comunidade científica
. Contudo, ela pode ser consolidada através da atribuição paulina de sermos cooperadores de Deus (1Co 3,9), a ninguém cabendo a utilização de ensinamentos e princípios que obstaculizem o caminhar do Ser Humano para o Ômega prometido, da mente e do coração. E com todas as misericordiosas bênçãos espirituais (Ef 1,3).
O enciclopedista já dizia que “somente no coração liberto de amor egoísta é que pode aninhar-se a fé que sustentará o crente em todas as condições de vida”. Aqui se fazendo indispensável uma Ética do Desenvolvimento Consciente da Mente, na erradicação dos impecilhos que desfavoreceram a caminhada do Cristianismo, muitos deles estatuídos por intenção tacanha de simples manutenção do poder. Quando os ensinamentos do Homão da Galiléia cederam vez a esquemas rígidos e dogmas impostos, posturas intolerantes e genocídios vários. Inclusive contra os nossos irmãos judeus, ancestrais do Filho do Homem.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com)

Comunicação e Caráter

Os últimos percentuais de aprovação alcançados pelo presidente Inácio da Silva, Lula para os mais íntimos, são prova cabal de uma comunicabilidade invejosa, daquela capaz de escamotear os desvãos de uma crise planetária, pelo menos enquanto ela não alcançar a carteira dos brasileiros. Uma comunicabilidade que está sendo cada vez mais aperfeiçoada tecnologicamente, camuflando as inconveniências proferidas e as gafes cometidas. Os casos mais recentes aconteceram quando o presidente declarou, em pronunciamentos para patuléias ouvirem, que “quando o mercado tem uma diarréia, quem eles chamaram para salvá-lo?” e “vamos dar tal remédio e você vai se recuperar. Ou você diria: Meu, sifu!!”. Um mais antigo aconteceu quando da visita do presidente à Naníbia, quando ele declarou ser a região “tão limpa que nem parece a África”.
Entretanto, as análises dos especialistas brasileiros, psicanalistas, sociólogos e cientistas políticos, preocupados sobre os destemperos presidenciais que “não ajudam o país a criar uma idéia de um chefe de Estado”, não possuem repercussão alguma num país que possui cinco mil escolas de ensino básico sem luz elétrica, doze por cento das escolas primárias não oferecem lugar para os alunos se sentarem, mais da metade dos alunos do ensino fundamental estudam em escolas sem biblioteca, onze mil estabelecimentos de educação fundamental carecem de sanitários e noventa e cinco por cento da rede pública não têm rampa de acesso para os portadores de mobilidade reduzida. Dados publicados na revista Educação, tendo como fontes a Unesco, o Conselho de Desenvovimento Econômico e Social e o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. De seriedades comprovadas em pesquisas do gênero.
A amostra dos indicadores educacionais acima retrata a alienação nacional, que nem um pouquinho percebe a advertência dos cientistas políticos, quando afirmam que o presidente Inácio da Silva “deveria adotar um tom mais sóbrio, aconselhando a população a se preparar para os possíveis reflexos da crise global. Isso inclui um linguajar como menos ‘gracinhas’, ou palavras de baixo calão”.
O que mais preocupa os entendidos em Ética Governamental numa era de alta tecnologia, tão bem explicitada no livro O Princípio Responsabilidade, a mais importante obra do filósofo de origem judaica Hans Jonas (1903-1993), que foi discípulo de Martin Heidegger na Universidade de Freiburg, é o problema da dupla-face do primeiro mandatário. Um exemplo a título de esclarecimento: antes de declarar para os abilolados de sempre que os empresários de um mercado tido e havido como onipotente correm para o Estado quando estão em situação diarréica, o próprio presidente Inácio da Silva assinou a declaração do G-20, que dizia: “nosso trabalho por uma crença compartilhada de que os princípios de mercado ... estimulam o dinamismo, a inovação e o empreendedorismo que são essenciais para o crescimento econômico, o emprego e a redução da pobreza”.
O teólogo Hans Küng um dia esreveu: “uma igreja veraz não fornece ao homem receitas baratas para a vida particular e, muito menos, para a política mundial em suas diversas modalidades”. Se “uma igreja” for substituída pela expressão “um governo”, a recomendação bem poderia ser encaminhada ao Palácio do Planalto. Antes que o Domingo de Ramos se transforme em Sexta-feira da Paixão. Sem mais Ressurreição alguma.
O poeta Fernando Pessoa tem um poema intitulado Às Vezes, assim sendo a segunda estrofe: Outras vezes usa o tédio, quando quer nos mostrar / a importância da aventura e do abandono. / Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar / sobre a responsabilidade do que dizemos. Como seria bom se todos nós, os não acachapados, pudéssemos bradar diante do Palácio do Planalto, preocupados com o retorno inócuo das bravatas de um passado sindical de porta de fábrica: Fecha a boca, Inácio da Silva!!!
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

Para Congregar Guetos Cristãos

Uma amiga gaúcha, nascida em Pelotas mas lecionando na Universidade Federal de Santa Maria, me envia um e-mail com a seguinte provocação, que ela coletou num sítio internético, texto de autoria do Paulo dos Santos Nascimento, um pesquisador de excelente criticidade: “se a Reforma do século 16 consistiu num afastamento das práticas da Igreja Católica, uma Reforma em nossos dias deveria consistir numa aproximação a outras práticas dessa mesma Igreja”. Transcrevo partes da reflexão do pesquisador Nascimento, intitulada Uma Reforma Protestante às avessas:

“O Protestantismo se sedimenta no Brasil a partir do século 19, com uma primeira frente a que chamamos de protestantismo de imigração, mas ganha status majoritário no protestantismo de missão: batistas, presbiterianos, episcopais, metodistas, etc. Mais do que as intenções missionárias, esses grupos protestantes aqui chegados, em maior parte dos EUA, estão imbuídos do ideal político liberal-modernizante. No que ele consiste? Primeiro, numa avaliação do "atraso" da sociedade brasileira como relacionado à hegemonia católica, e, segundo, na pressuposição de que o modelo político liberal-moderno representaria uma oportunidade para vencer o atraso dessa sociedade (daí muitos desses grupos apostarem forte na educação). Missão, para esse protestantismo recém importado, consiste no proselitismo, na luta anticatólica e na construção de uma sociedade que reproduza as condições norte-atlânticas de onde vem esse protestantismo.
E a Igreja Católica? Bem, essa ainda está presa à formatação tridentina, ou seja, a uma auto-percepção de uma Igreja superposta à sociedade, tutora espiritual hegemônica das comunidades, preocupada mais em preservar seu tesouro simbólico do que em servir à sociedade. Missão, para essa Igreja Católica, consiste em preservar sua hegemonia e sua influência social.
... Em meados do século 20 no Brasil fatores de ordem social, política e econômica, exigiriam uma revisão de todos os pressupostos missiológicos tanto de católicos quanto de protestantes. Quais fatores são esses? O Brasil, país que até a década de 1950 permanecia sendo de base social eminentemente agrária (grande exportador de café, fumo, borracha, açúcar), por ocasião dos governos populistas (com especial acento no governo Kubistcheck), entra no circuito dos países capitalistas tentando sair da mísera condição de exportador de bens primários e inicia seu processo de industrialização. Esse projeto recebeu a alcunha de desenvolvimentista (teoria crítica que teve inclusive como co-criador Fernando Henrique Cardoso).
Muito cedo as contradições desse projeto desenvolvimentista vieram à tona. No lugar do desenvolvimento, o subdesenvolvimento; no lugar da autonomia econômica, a dependência total dos países ricos; no lugar da superação da situação colonial, o neocolonialismo; no lugar do bem-estar social, o acirramento da desigualdade e do fosso entre ricos e miseráveis. E as Igrejas, como reagiram a isso tudo?
... Em nível mundial, eu destacaria o Concílio Vaticano II (1962-1965) como a maior tentativa de reforma eclesial do catolicismo no século passado. Trata-se do concílio de abertura, que, definido rapidamente, representou o desejo de abrir a Igreja para o mundo, ouvir seus clamores e respondê-los pertinentemente. Pressupõe-se que uma estrutura velha não pode dar respostas a desafios novos. Dizia Pablo Richard num artigo recente dedicado à memória de Dom Helder: "o futuro da Igreja não está na aliança com o poder político, mas na encarnação da Igreja na sociedade civil. (...) A promoção humana é o terreno privilegiado da evangelização". Menciono a seguir uma série de novas estruturas eclesiais alimentadas por esse espírito e surgidas depois do Vaticano II: a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada por Dom Helder Câmara, que hoje é responsável pelas anuais Campanhas da Fraternidade; a Conferência do episcopado latino-americano em Puebla (1968), cujas decisões mais importantes inflamaram os anseios da Teologia da Libertação por voltarem-se todas para a realidade de opressão e miséria das maiorias nesses países; o Movimento Bíblico, cuja grande contribuição fora recolocar a Bíblia na mão do povo (embora a liberdade interpretativa esteja sempre sob os rigores do Magistério); as milhares de Comunidades Eclesiais de Base (CEB's) espalhadas pelo Brasil e cujos anseios, de acordo com Leonardo Boff, refletiam uma nova maneira de ser Igreja (Católica) no Brasil - uma eclesiogênese -, mais descentralizada em termos de poder, mais afeita à participação efetiva dos leigos e mais engajada nos problemas concretos das maiorias pobres; as diversas Pastorais Civis, como a Pastoral da Terra, Carcerária, Universitária e da Criança, que representam a encarnação da igreja nos dilemas mais profundos da sociedade civil; além dos muitos grupos sem vínculo institucional, porém imbuídos do mesmo espírito e amparados pela participação de representantes oficias da Igreja, como as Comissões Justiça e Paz e o Conselho Indigenista Missionário.
Vejam, há algumas questões aí a serem ponderadas. Duas delas são: primeiro, a vantagem católica de ter um centro unificador do pensamento e do comportamento, que é o Vaticano; segundo, boa parte dessas conquistas é produto da "esquerda católica" e dos movimentos marginais. Tenho isso em mente.
Por mais surpreendente que seja, nós, protestantes, também reagimos muito bem a esses novos desafios. As décadas de 1950 e 1960 são, a meu ver, as mais ricas da história de nosso protestantismo brasileiro. Nasceram aí entre batistas, presbiterianos, luteranos, e outros, movimentos marcados pela preocupação com a realidade sócio-política do país.
Mas pergunto: quantos de nós ouviu falar em Richard Shaull e em sua obra? Ou do Setor de Responsabilidade Social da Igreja (SRSI), órgão da Confederação Evangélica Brasileira (CEB)? Ou da União de Estudantes Cristãos do Brasil (UCEB)? Quantos batistas aqui ouviram falar no Manifesto de Ministros Batistas de 1962? Quantos de nós ouviu falar na Conferência do Nordeste de 1963, cujo tema foi Cristo e o processo revolucionário brasileiro, contado com a participação de Paul Singer, Celso Furtado e Gilberto Freyre? Entre 1955 e 1962 o SRSI organizou quatro grandes conferências nacionais. Eis os temas: A responsabilidade social da Igreja (1955); A Igreja e as Rápidas Transformações Sociais no Brasil (1957); A Presença da Igreja na Evolução da Nacionalidade (1960); Cristo e o processo revolucionário no Brasil (1963). Quem entre nós tinha conhecimento disso?
Infelizmente, as forças conservadoras dessas igrejas todas venceram esse espírito. De mãos dadas com o regime militar, identificaram esses ideais como "comunistas", e baniram o espírito profético do nosso protestantismo brasileiro. Diferentemente de nossos irmãos católicos, não temos hoje em dia muitos frutos perenes dessa época. Infelizmente.
Encurtando o papo: qual nossa tara hoje, e quais as Reformas das quais nos orgulhamos? Quais são os temas de nossos encontros e congressos? Eu digo: Igreja com Propósitos, Igreja em Células, G 12, G 5, e os demais genéricos... Isso porque estou falando do protestantismo de missão e não do neopentecostalismo e suas variantes. Por que não voltar a semear a mesma reforma daquele nosso protestantismo? Não seria essa uma grande Reforma para o nosso tempo?
... Termino mudando um pouco a minha tese inicial: Se a Reforma do século 16 consistiu num afastamento das práticas da Igreja Católica, uma Reforma em nossos dias deveria consistir numa aproximação a outras práticas dessa mesma Igreja e num reavivamento do nosso espírito profético das décadas de 50 e 60. Deixe eu citar pra vocês ainda um trechinho do maior profeta brasileiro do século 20, Dom Helder Câmara:
"Nunca se deve temer a utopia. Agrada-me dizer e repetir: quando se sonha só, é um simples sonho, quando muitos sonham o mesmo sonho, é já a realidade. A utopia partilhada é a mola da história".

A hora da virada chegou!, como diz um frevo pernambucano danado de bom. Antes de ficarmos nós, os oriundos da Reforma, de ponta-cabeça, vendo a banda passar, sem ousadia nem criatividade, não sabendo fazer a hora, levando a vida a la Zeca Pagodinho. De olhinhos revirados, bracinhos levantados e sovacos à mostra a cada domingo, sem espiritualidade crítica alguma, mestres nos fuxiquismos auto-fágicos e na irresponsabilidade da não efetivação dos compromissos assumidos, não percebendo, por omissão, conivência ou conveniência, a gigantesca trava encravada em nossos olhos, que obstaculiza uma sadia enxergância, aquela que é verdadeiramente digna da Mensagem do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Abaixo a mediocridade !

Parecendo advinhar a tsumânica onda anti-mediocridade que defenestrou o debilóide George Bush e elegeu consagradoramente Barack Obama presidente dos Estados Unidos, o pronunciamento feito pelo senador pernambucano Jarbas Vasconcelos na Câmara dos Deputados, em 24 de abril passado, bem que merecia uma maior divulgação dos meios de comunicação.
Foi um discurso condimentado com a contundência dos que sabem que a mediocridade do Congresso Nacional deixará o Povo Brasileiro mais próximo do charco. Com suas lideranças civis, militares e religiosas sem respaldo perante a opinião pública, graças às mentiras, aos cinismos e às embromações que estão prestes a se tornarem paradigmas para as futuras gerações.
Para ser bem interpretado pelo plenário, onde alguns senadores poderiam se fazer de desentendidos, Jarbas esclareceu: “nos dicionários da língua portuguesa está escrito que medíocre é aquilo que está abaixo da média, no que toca a qualidade, originalidade; algo que é inexpressivo, ordinário, sem expressão ou originalidade; mediano, pobre, banal, passável”.
Com a mediocridade imperando, o senador Jarbas Vasconcelos ressaltou a inversão de valores que vem agredindo o bom senso pátrio, onde agressores se transformam em agredidos, vítimas sendo processadas como criminosas, as mentiras se repetindo inúmeras vezes, tal e qual apregoava a cartilha nazista. E Jarbas foi além na sua indignação: “não há respeito pela História; não há respeito pelo que veio antes; não há respeito pelo que herdamos de bom dos nossos antecessores. É o que existe de mais velho e retrógrado, travestido de novidade. É a preferência pelo jogo do mais esperto, no qual a trapaça é a única forma de vencer”.
Em sua fala, o senador ressalta uma verdade pra lá de cristalina: assumindo o primeiro mandato com a intenção de valorizar as agendas política e econômica, o atual presidente da República seguiu corretamente os pressupostos macroeconômicos traçados pelas gestões Itamar Franco e Fernando Henrique, prostituindo-se nas negociações da sua base de apoio, onde “o apoio parlamentar foi comprado como um pacote de manteiga no supermercado”. E identificou as raízes do descaimento cívico: “os sindicatos, as organizações não-governamentais, por exemplo, que deveriam ser a vanguarda da sociedade, foram transformadas em meros instrumentos da manipulação do status quo. Tudo muito bem azeitado pelo repasse de recursos públicos dos ‘companheiros’ encastelados na máquina pública. A manipulação se transformou em regra de comportamento”.
O senador Jarbas Vasconcelos, no final do seu pronunciamento, incentiva as oposições para uma organização compatível com os desafios dos amanhãs que se avizinham recheados de muitas incertezas. Oposições organizadas é sinônimo de sociedade mais informada, cidadanizada, sem as bobajadas e cretinices dos que apenas gralham sem qualquer criatividade. Jarbas até cita pensar do também pernambucano Chico Science – “eu me organizando, posso desorganizar” -, para desfavorecer messianismos fajutos que engabelam por um prato de lentilha, as bajulações com o Regime Militar – “os ditadores são bons, podem ter errado uma ou duas vezes” – e as políticas de Estado que são anunciadas como iniciativas salvadoras, que aliciam as classes poderosas com decisões que as tornam mais afortunadas, para os menorzinhos apenas pão, vales e falatórios fingidamente contundentes, nossa infraestrutura tornando-se cada vez mais vexatória, apesar das bravatas nacionais e internacionais, todas de botequim para quem entende de enredo circense.
Ao senador Jarbas Vasconcelos, os votos de sucesso nas suas tentativas de organizar as oposições brasileiras, inclusive o seu partido, hoje subdividido em três grandes facções: a dos peemedebistas, onde ele se encontra, a dos peemedebestas, ingênuos sempre, e a dos peemedebostas, os do fisiologismo repugnante.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 03.12.2008)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Um baita tapa

Recebi da Bete, caminheira das mais dedicadas, um texto que me atordoou como se uma bofetada tivesse levado. Do Neto, diretor de criação e sócio da Bullet, é sobre a atual crise mundial. Merece aqui ser reproduzido: "Vou fazer um slideshow para você. Está preparado? É comum, você já viu essas imagens antes. Quem sabe até já se acostumou com elas. Começa com aquelas crianças famintas da África. Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele. Aquelas com moscas nos olhos. Os slides se sucedem. Êxodos de populações inteiras. Gente faminta. Gente pobre. Gente sem futuro. Durante décadas, vimos essas imagens. No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto. Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados. São imagens de miséria que comovem. São imagens que criam plataformas de governo. Criam ONGs. Criam entidades. Criam movimentos sociais. A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza. Ano após ano, discutiu-se o que fazer. Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta. Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo. Resolver, capicce? Extinguir. Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta. Não sei como calcularam este número. Mas digamos que esteja subestimado. Digamos que seja o dobro. Ou o triplo. Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo. Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse. Não houve documentário, ong, lobby ou pressão que resolvesse. Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2,2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1,5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia."
Concordo plenamente com a Bete: “Como uma pessoa comentou, é uma pena que esse texto só esteja em blogs e não na mídia de massa, essa mesma que sabe muito bem dar tapa e afagar. Se quiser, repasse, se não, o que importa? O nosso almoço tá garantido mesmo...
Em mim, a tapa estrondou com mais efetividade. Eu tinha acabado de ler uma reportagem sobre a Reunião do G-20 acontecida em Washington. Que trazia uma fotografia dos líderes presentes, onde o nosso presidente é único que, idioticamente, levanta os dois dedinhos polegares para a foto oficial, querendo dizer “tudo ótimo” para a posteridade, talvez por não saber nada sobre a gravidade mundial, para ele uma simples “marolinha”, ou por não ter entendido o “espírito da coisa” patrocinada por um presidente norte-americano inescrupuloso, metido fingidamente a campeão do liberalismo, quando é responsável direto por chacinas múltiplas e inúmeras guerras genocidas, que consumiram uma quantia de dinheiro que seria suficiente para alterar a face econômica do planeta, favorecendo os povos menos desenvolvidos.
Os dois polegares para cima do presidente Inácio da Silva, estampados numa fotografia histórica, seguramente facilitará a identificação futura dos “bobos da corte”, que assinaram um documento para inglês ver, endossado por um presidente que tem pouco mais de sessenta dias de mandato e o maior índice de rejeição da história presidencial estadunidense. E que está muito satisfeito com o agachamento da nação mais rica da América Latina, que já pagou de juros, de 1990 a 2007, 1,2 trilhão de reais, quantia que poderia construir 24 milhões de moradias para 54 milhões de irmãos brasileiros, que vivem em habitações indignas, segundo levantamento ao IPEA. O gasto com juros, no período citado, é mais que o dobro das despesas efetivadas com saúde, educação e investimentos somados!
É hora de promovermos a redução dos anestesiamentos demagógicos e eleitoreiros. Um PAC – Projeto de Ampliação da Cidadania urge, para contrapor-se a um outro PAC – Programa de Anestesiamento Comunitário, onde pão-e-circo apenas postergará a hora do sepultamento.
(Publicado no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

De olho vivo na corrupção

Diante do gigantesco alheamento da sociedade civil brasileira, que seguidas vezes aplaude doidamente o “rouba mas faz” dos nossos dirigentes públicos, a Controladoria Geral da União, juntamente com o Ministério Público do Estado de Pernambuco, estará promovendo, no próximo dia 9 de dezembro à tarde, na Faculdade Maurício de Nassau, no Derby, o Dia Internacional Contra a Corrupção. Um evento que contribuirá para o avivamento fiscalizatório da nossa gente, ampliando nosso nível de cidadania e encaminhando para detrás das janelas quadriculadas os salafrários que não dignificam a função pública que exercem. Sejam eles civis ou militares. Políticos e religiosos inclusive.
Segundo a Controladoria Geral da União, “os administradores – prefeitos, governadores e o presidente – têm o dever de gastar corretamente e prestar contas. E a população tem o direito de saber como esses recursos estão sendo aplicados”. A CGU ajuda a fiscalizar o uso das verbas federais, recebendo e apurando denúncias e corrigindo o que estiver errado.
Muita gente, de todas as classes sociais, ignora por completo que o Governo Federal envia recursos financeiros para melhoria da cidade. Recursos destinados às mais diferenciadas áreas: merenda escolar, saúde e remédios, escolas, creches, idosos, estradas, poços e barragens, bolsa família, entre outros benefícios. Mas é preciso que a população memorize uma regrinha básica: “Todo cidadão tem o direito de saber onde e como está sendo gasto o dinheiro público”. Melhor dizendo: as prefeituras devem incentivar a participação popular na discussão de planos e orçamentos, as suas contas devendo ficar disponíveis para qualquer cidadão, não sendo favor, mas lei!! E a Lei foi chamada de Responsabilidade Fiscal.
Também os senhores vereadores precisam ser mais incomodados. Eles têm obrigação de informar seus eleitores sobre os gastos públicos. E cobrar da Prefeitura o cumprimento do estabelecido na Lei 9452, de 20/03/1997. Que diz, com toda clareza, que “a prefeitura deve comunicar por escrito aos partidos públicos, sindicatos de trabalhadores e entidades empresariais com sede no município a chegada de verba federal em um prazo máximo de dois dias úteis”. Seja qual for o partido do prefeito, a engrenagem é a seguinte: câmara municipal fiscaliza a prefeitura, vereador acompanha de perto os gastos da prefeitura, a prefeitura presta contas à câmara municipal e o cidadão fiscaliza todos.
Fico a imaginar o prejuízo causado ao município por um abiloladão que não conhece seus direitos e deveres, imaginando-se sobrepairando por cima da imundícia só porque é primo em segundo grau de uma catraia que já deu o rádio a um candidato que ficou na décima quarta suplência, quando ele próprio é o mais importante componente fecal da irresponsabilidade social.
Outro dia, numa entidade comunitária sediada no Grande Recife, pedi que levantasse a mão quem tinha conhecimento da existência do Conselho de Administração Escolar (duas pessoas), do Conselho Municipal de Saúde (quatro pessoas) e o que era o Portal da Transparência - www.portaldatransparencia.gov.br ou www.transparencia.gov.br – (um jovem que navegava pela Internet, mas que nunca tinha se detido nos detalhes do Portal). E a assembléia era constituída de mais de duzentas pessoas, adultos e jovens, inclusive alguns universitários.
Louvo a iniciativa conjunta Controladoria Geral da União e Ministério Público de Pernambuco. As denúncias ampliarão as fiscalizações necessárias. Entender como se efetiva o combate aos trambiqueiros do erário público é proteger nossos impostos, favorecendo a ampliação da dignidade política do Povo Brasileiro.
PS. Torço para que a Controladoria Geral da União, através dos seus profissionais mais capacitados, dê um rotundo basta na corrupção que campeia há anos na FUNASA - Fundação Nacional de Saúde, prejudicando a sempre debilitada saúde da nossa gente.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife, PE, http://pe360graus.globo.com)