quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Para um melhor viver

Há uma reflexão do poeta Fernando Pessoa que envio, vez por outra, para leigos e religiosos que se imaginam plenamente puros, como se urinassem água tônica e obrassem massa italiana de qualidade ímpar. O trecho é o seguinte: “Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril”.
Em julho, numa das minhas vigílias hospitalares, acompanhando Melba, inspiração e luz do meu caminhar existencial, li uma reflexão do Prof. Dr. Jair Cândido de Melo, ex-reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, o ITA, centro de excelência reconhecido internacionalmente: “Quando quiser avaliar uma organização, não se fixe tanto na imponência de seus prédios ou de suas máquinas, observe as pessoas, veja se há brilho em seus olhos ou sorriso em seus lábios; converse com elas e sinta se há entusiasmo em suas falas. Encontrando isso, pode ter a certeza de que a organização está bem”. Um pensar emocionalmente sadio, possuidor de uma correlação positiva quase perfeita com uma afirmação de George Bernard Shaw, irlandês, autor de comédias satíricas que mundializaram seu espírito irreverente e inconformista, que inclusive o fez recusar o Nobel de Literatura de 1925: “O progresso é impossível sem a mudança e aqueles que não conseguem mudar sua mente não conseguem mudar nada”.
Os três pronunciamentos acima permaneceram em meu cotidiano por muitos dias, até quando me recomendaram a leitura de um texto do Dr. Wayne Dyer, Novas Ideias Para Uma Vida Melhor – Descobrindo a Sabedoria do Tao, editado este ano pela Nova Era. Um texto que me proporcionou o reencontro com a frase famosa do Bernard Shaw.
O Dr. Wayne desenvolve uma análise bastante consequente dos 81 versos do Tao Te Ching, escritos por Lao-tzu, guardião dos arquivos imperiais na antiga capital de Luoyang e possuidor de uma deslumbrante história de vida. Segundo historiadores especialistas, Lao-tzu, decepcionado com a decadência proporcionada pelos estados em continuados conflitos bélicos, decidiu migrar na direção do deserto. No desfiladeiro de Hanku, deparou-se com alguém que conhecia a sua reputação de homem sábio, que o incentivou a registrar a essência dos seus ensinamentos. Daí emergindo, através de cinco mil caracteres chineses, o Tao Te Ching, hoje o segundo livro mais traduzido do mundo, só vencido pela Bíblia Sagrada. Segundo os historiadores, o Tao foi escrito entre 460 a.C. e 380 a.C., em réguas de bambu, sendo múltiplas vezes reproduzidas, não sendo mais possível estabelecer a ordem original dos versos.
Para quem não está minimamente familiarizado, o conceito de Tao (Caminho) é algo que somente pode ser apreendido pela intuição. É o que existe e o que inexiste. O Caminho da espontaneidade natural, sendo o Te (a Virtude) a maneira de caminhar espontaneamente, na construção de uma perfeição, onde cada coisa é simplesmente o que é e faz. Assim sendo, o Tao faz tudo ao fazer nada.
O Tao não tem personalidade. Segundo ele, o que vitaliza o universo são dois princípios ou substâncias que atuam em recíprocas interações: o
yang (luz, calor, criativo, masculino) e o yin (sombra, frio, receptivo, feminino).
Somente a título de despertar, explicito para os leitores o 34º verso do Tao, com muita sensibilidade analisado, juntamente com os demais, pelo Dr. Wayne: “O Grande Caminho é universal; ele pode aplicar-se à esquerda e à direita. Todos os seres dependem dele para viver; ainda assim ele não se adona deles. Ele realiza seu propósito, mas não faz reivindicações para si mesmo. Ele protege todas as criaturas como o Céu mas não domina. Todas as coisas retornam a ele como para seu lar, mas ele não é o senhor delas; assim, ele ser chamado de ‘grande’. O sábio imita essa conduta: Ao não reivindicar grandeza, o sábio realiza a grandeza”.
Um dia, um meu Irmão, também Libertador, que perambulou pelo deserto, declarou que os Seus ensinamentos propiciavam Verdade e Vida. Estou plenamente convencido da parecença integradora dos dois Caminhos. Cumprindo bem um, estaremos comungando com o que foi mapeado pelo outro. Sábios caminhos para um viver mais condizente com uma Criação estabelecida há milhões de milhões de anos. Pelo Autor do Caminho dos Caminhos.
(Publicada, a partir de hoje, 26.11.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O português que muito amamos

Semana passada, numa madrugadora navegação internética, após envio de Reflexões de Caminhante para quase oitocentos endereços eletrônicos, Europa, França e Bahia, encontrei um blog, cuja autora assim se define: “mãe e avó coruja de gente bonita e realizada. Escritora, jornalista, distraída, pós-analisada, incoerente, cética (mas bato cabeça para Ogun e Oxun, meus pais), crítica, silenciosamente debochada (cansei de perder amigos) e indecisa. Mas sou feliz, faço o que gosto. Escrever é bom demais”.
Por desejar conviver com gente cuca-livre, descubro que a blogueira é autora de livros, um deles, já em edições consagradas, com um título por demais despertador. Um telefonema para o Cláudio Rocha, da Livraria Cultura do Recife, centro aplaudido de convivência mentalmente prazerosa, me proporcionou um acesso rápido ao texto editado pela Record, ano em curso.
Na orelha primeira do livro, Arthur Dapieve, que a editoa não o identifica, diz que a Angela Dutra de Menezes, em 2000, quando se comemorava 500 anos do trajeto cabralino Torre de Belém-Monte Pascoal, resolveu realizar a travessia ao contrário, para bem explicar Portugal através das páginas da primeira edição de O Português Que Nos Pariu. Segundo Dapieve, “Angela explica, é bom que se diga,sem as pompas e circunstâncias dos livros didáticos, paradidáticos ou que tais. Pois o seu olhar ‘índio’ consegue ser divertido e malicioso sem perder a ingenuidade e o espanto”. E diz que ela, sem dar pelotas para o politicamente correto, uma praga que anda deixando alguns textos com temperos bem comportados, nos fornece uma Receita de Português que sobremaneira nos encanta, deixando-nos com uma vontade de quero-mais da gota serena. Ainda que nos torne quase estonteados com uma revelação que poucos conhecem: a de que o verde e amarelo da nossa bandeira nacional não representam nossa mata e nosso ouro piroca nenhuma, sendo apenas e tão somente as cores herdadas da Casa de Bragança.
Após leitura e releitura repletas de anotações, senti ampliado meu amor pela terra natal de um ancestral que nasceu em Trás-os-Montes, Alto Douro, região que já foi província. Tendo sido possuidora do maior número de emigrantes, tornando-se a área que mais sofreu com o despovoamento. Inclusive o do meu tataravô Gonçalves, que se bandeou para o lado de cá já no século XIX, em busca de atividades promissoras no mundo brasileiro.
No livro O Português Que Nos Pariu, leitura que recomendo ao meu irmão xará Fernando Campozana, engenheiro, mestre-cuca e exímio menino-dançador, a autora faz um gigantesco alerta: Portugal não está botando a boca no trombone na divulgação dos seus feitos notáveis!!. Segundo ela, apenas Portugal, no século XV reunia condições tecnológicas para concretizar as portentosas viagens de descobrimento. E ela vai fundo, quando declara que a atual política de boca de siri lusa é decorrência do silêncio então estabelecido para preservação das terras descobertas, a exemplo do explicitado no mapa do padre Martin Waldseemuller, conhecido por Mapa de Waldseemuller, que “localiza, com erros mínimos de latitude e longitude, acidentes geográficos da costa ocidental das Américas”. E que assinala o cabo Horn, indicando com o brasão português de cinco quinas quem por ali teria navegado pela vez primeira. Um mapa rebatizado, em princípios de 2000, como Certidão de Nascimento da América, hoje integrando o acervo do Congresso dos EEUU, adquirido, em 2003, por “apenasmente” dez milhões de dólares.
Segundo a autora, de propósito ela não conta o milagre das fortificações portuguesas, como o Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, fronteira do Brasil com a Bolívia, inaugurado em 1783, localização tida como perfeita, em estudo aerofotográfico de 1980.
Mais que nunca, da parte de pai sou tataraneto de uma família portuguesa, com certeza. E de mesmo nome do notável poeta Pessoa, um também Fernando Antônio.
(Publicada hoje no Jornal do Commercio, 25.11.2009, Recife-Pernambuco)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Babões na folia, 2010

As arrumações para a Folia de Momo 2010 se iniciaram no dia seguinte à noite do apagão que deixou um bocado de estados brasileiros sem poder ver a cara do Lobão, aquela ovelha maranhense metida a ministro com toda energia, apelidado suprapartidariamente de Dilminho.
Entre as melhores iniciativa, a troça Babões na Folia estrutura suas evoluções, em Afogados, como sempre recheadas de muitas mangações, todas elas baseadas em atitudes risíveis acontecidas nos últimos doze meses sem a menor noção de ridículo. Pelas suas diversas alas, desfilarão inúmeros dirigentes públicos, com suas trejeitadas políticas mais recentes, efetivadas com uma descerimônia de fazer corar frade de pedra, ignorando por completo, face uma descomunal aversão a livros, o explicitado pelo professor Williams Edwards Deming, pai do milagre industrial japonês, um dos papas da gestão pela qualidade: "Muitos esforços e muito trabalho apenas não são suficientes, como tampouco o são novas máquinas, computadores e automação. Poderíamos também acrescentar que estamos sendo arruinados pelos melhores esforços feitos com as melhores intenções, porém sem a orientação de uma teoria administrativa para a otimização do sistema. Não existe substituto para o conhecimento". E mais disse: "A transformação não significa apagar incêndios, resolver problemas ou criar melhorias simplesmente cosméticas. A transformação deve ser feita por pessoas que detenham um profundo conhecimento".
A Babões na Folia mandou confeccionar três faixas abre-alas: 1. "Quem tem um mapa mais rico, se orienta melhor no mundo. Quem tem mapa limitado fica mais frequentemente enrolado"; 2. "Um caminho é só um caminho, e não há desrespeito a si ou aos outros em abandoná-lo, se é isto que o coração nos diz... Um caminho é só um caminho."; 3. "Para o verme num rabanete, o mundo inteiro é um rabanete". Todas elas alertando uma classe média que está a carecer de um bussolar mais condizente com as exigências de uma hipermodernidade irreversível, sem os olhos voltados para os ontens que definitivamente já se foram, a vivenciar um hoje sem os dualismos ideológicos que apenas entusiasmam os simplórios de sempre.
A Babões na Folia, com os seus deboches e picardias, chamará a atenção sobre a necessidade de se reincorporar relações perdidas, os bons gostos esquecidos, os níveis culturais despedaçados por um consumismo imediato e asneirista, os despatetamentos da área esportiva, erradicando os cansaços generalizados, incomodativos por derradeiro, rimas perfeitas para as tocaias travestidas de mãe-dos-pobres.
Numa época de tantas carências, de ainda perversa distribuição de renda, onde se está vendendo uma bem embalada ilusão do sucesso nas telas cinematográficas, a denúncia do psicólogo Esdras Guerreiro, ex-docente-visitante do prestigiado Instituto Max-Planck, da Alemanha, se encaixa como uma luva: "As pessoas querem respostas imediatas para as suas aflições . É por isso que as seitas estão crescendo enquanto as religiões tradicionais estão perdendo fiéis. O fenômeno de crer num líder capaz de nos ensinar a remover os obstáculos para os nossos objetivos pessoais não é novo, mas se reforça nos momentos de crise".
Nós, às vezes, ficamos muito seguros do nosso aprendizado do passado. E sentimo-nos bem fundeados sobre coisas que aprendemos quando éramos moços, perdendo, por ingenuidade, o bonde da história. Porque o bonde sempre está em movimento e com uma alienação cada vez maior. E quando as pessoas perdem esse bonde, começam só a olhar para o passado, nostálgicas, sem qualquer reoxigenação. Imaginando tresloucadamente que o céu é bem pertinho da terra. E que nunca mais aparecerão tiranos assassinos como Hitler, Stalin e Mussolini. Principalmente na América Latina.
A classe média brasileira necessita assimilar duas reflexões de dois expoentes da educação brasileira. A primeira é de Paulo Freire, pernambucano que precisa ser mais responsavelmente analisado: “Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho”. A outra é do educador baiano Anísio Teixeira, que assim se posicionava: "Eu não tenho responsabilidade nenhuma com as minhas idéias. Eu tenho, sim, uma responsabilidade com a verdade".
Quem tem acurado grau de maturidade, sabe caminhar. Quem não tem, continua sobrevivendo mal, atrelado ao me-disseram antissocialmente mundano. Sócios efetivos que são da Babões na Folia, da ala Turma do Tabaco Leso.
(Publicada, a partir de hoje, 23/11/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Carta pela Compaixão

Um diferenciado avivamento cristão, agora de caráter planetário, parece se agigantar nos últimos tempos. Uma resposta rotunda, como dizem os gaúchos, a um pequeno documento, que anda percorrendo o mundo ortodoxo, intitulado Confissão de fé contra o ecumenismo. Assinado por seis metropolitas ortodoxos, da Grécia, da Sérvia, do Kosovo e dos Estados Unidos. Um texto bastante violento contra o diálogo entre religiões, sinistramente semelhante aos utilizados pelos tradicionalistas de todas as denominações.
Os signatários afirmam claramente: “como cristãos que acreditam na Santa Trindade, nós não temos o mesmo Deus de nenhuma outra religião, nem o das chamadas religiões monoteístas, Judaísmo e Maometanismo, que não acreditam na Santa Trindade". E realizam várias acusações: 1. Que desde o segundo milênio, as heresias se dividiram; 2. Herético é o cristianismo “papista, berço de todas as heresias e de todos os erros”, que começou mal na Idade Média e foi piorando, exagerando suas doutrinas eclesiológicas, mariológicas, chegando a corromper a liturgia; 3. Um cristianismo que inventou a “pan-religião” e reconheceu uma “vida espiritual” nas outras fés, protegeu os grupos carismáticos e a Nova Era, recebendo em troca a vergonha da corrupção; 4. Os protestantes sendo piores, pois perderam os sacramentos; 5. O único diálogo admissível com essa massa de hereges passa pelo batismo, posto que o que receberam não vale nada; 6. Que o Credo não é suficiente, carecendo de uma expansão, do tipo antiecumênico. E por aí vai. Segundo analistas especializados, o documento lembra muito de perto – pelo léxico e até pelos objetivos – o tradicionalismo católico, o integrismo luterano, o fundamentalismo congregacionalista e os exilados anglicanos.
Um avivamento cristão eminentemente ecumênico não se fez tardar. No último dia 15 de novembro, em Lisboa, representantes de várias confissões religiosas e não-crentes, lançaram uma Carta pela Compaixão, concretizando uma iniciativa lançada em fevereiro do ano passado por Karen Armstrong, uma ex-freira católica que se tem dedicado ao estudo das religiões monoteístas, autora de A Grande Transformaçãoo Mundo na Época de Buda, Confúcio e Jeremias, Companhia das Letras 2008, onde ela busca identificar a origem e o papel das religiões no mundo moderno.
Na Mesquita Central de Lisboa, onde estiveram presentes representantes da Comunidade Judaica, Igreja Católica e da Comunidade Islâmica, além de Mário Soares, ex-presidente de Portugal e atualmente Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, o padre Peter Stilwell, diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, assim se pronunciou:
A carta, cujo lançamento hoje nos reúne aqui, elege como referência a ‘compaixão’, emoção valorizada pelo menos nas principais tradições religiosas. É, como vários já testemunharam, uma palavra que não faz justiça a outras, mais antigas, cujo sentido se apagou ou distorceu com o tempo. Refiro-me à ‘hesed’ da tradição bíblica, o ‘amor das entranhas’ que os primeiros cristãos de língua grega traduziram por ágape e os de língua latina verteram no neologismo caritas, cuja raiz é a ‘charis’, ou graça, pedida de empréstimo aos gregos. Em suma, um amor marcado pela gratuidade, que encontra paralelos e convergências noutras tradições antigas. Trata-se de uma emoção delicada: um transbordar do coração perante as alegrias e sofrimentos dos outros. É um movimento profundo que arranca das raízes do nosso ser, antecedendo a reflexão da razão e a inclinação da vontade. Mais do que uma atracção ‘química’ pelo outro, ou sequer um sentimento psicológico de afinidade, é uma virtude ou força espiritual. Os cristãos lêem-na como brotando do próprio Deus, e por isso lhe chamam ‘virtude teologal’. Nesse sentido, antes de ser ação ela é atenção, vigilância. Dir-se-ia que é a condição do outro que abre em nós a fonte da nossa própria humanidade. Por isso, a compaixão se manifesta como resposta espontânea à grandeza ou miséria do outro: um excesso que transborda do coração de qualquer homem ou mulher, independentemente da sua filiação ideológica e religiosa, ou ausência dela, porque a todas antecede. Contudo, na sua delicadeza, a compaixão arrisca-se a ser perdida de vista por entre a multiplicidade de sentimentos e emoções que parecem mais relevantes para a vida quotidiana. Pode parecer uma emoção débil, sintoma de fraqueza perante a crueldade do real. Identificá-la e sublinhar a sua grandeza aos olhos do mundo, como o pretende fazer a rede que se tece em torno da Carta pela Compaixão, é por isso da maior importância. O cuidado atento pelo outro, próprio da compaixão, questiona o valor absoluto por vezes atribuído à afirmação da identidade e aos nossos direitos. Nisso se esconde um fermento de humanidade e mesmo uma proposta civilizacional”.
Eis, abaixo, a Carta pela Compaixão, um documento também apoiado pelo Dalai Lama, pelo brasileiro Cândido Mendes e pelo arcebispo Desmond Tutu, entre muitas outras lideranças significativas:

CARTA PELA COMPAIXÃO
O princípio da compaixão é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, nos conclamando sempre a tratar todos os outros da mesma maneira como gostaríamos de ser tratados. A compaixão impele-nos a trabalhar incessantemente com o intuito de aliviarmos o sofrimento do nosso próximo, o que inclui todas as criaturas, de nos destronarmos do centro do nosso mundo e, no lugar, colocar os outros, e de honrarmos a santidade inviolável de todo ser humano, tratando todas as pessoas, sem excepção, com absoluta justiça, equidade e respeito.
É necessário também, tanto na vida pública como na vida privada, abstermo-nos, de forma consistente e empática, de infligir dor. Agir ou falar de maneira violenta devido a maldade, chauvinismo ou interesse próprio a fim de depauperar, explorar ou negar direitos básicos a alguém e incitar o ódio ao denegrir os outros - mesmo os nossos inimigos - é uma negação da nossa humanidade em comum. Reconhecemos que falhamos na tentativa de viver de forma compassiva e que alguns de nós até mesmo aumentaram a soma da miséria humana em nome da religião.
Portanto, conclamamos todos os homens e mulheres a restaurar a compaixão ao centro da moralidade e da religião, a retornar ao antigo princípio de que é ilegítima qualquer interpretação das escrituras que gere ódio, violência ou desprezo, a garantir que os jovens recebam informações exactas e respeitosas a respeito de outras tradições, religiões e culturas, a incentivar uma apreciação positiva da diversidade religiosa e cultural e a cultivar uma empatia bem informada pelo sofrimento de todos os seres humanos - mesmo daqueles considerados inimigos
É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes numa determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífica
”.

A intenção primeira do documento é unificar, inspirar e levar de volta a compaixão ao coração da sociedade mundial, dado que a compaixão é considerada a Regra de Ouro das principais religiões do planeta.
Em vários locais do mundo, assegurada já em Nova York, Cairo, Londres, Ramallah, Melbourne e Buenos Aires, uma imensa placa de madeira será afixada. O texto pode ser visualizado no endereço: www.charterforcompassion.org.
Pessoas de todo o mundo contribuíram na estruturação desta Carta. Ela transcende diferenças religiosas, ideológicas e nacionais, tendo sido elaborada por pensadores de muitas tradições, com paixão, discernimento, convicção intelectual e esperança. A versão final da Carta foi lavrada por um Conselho da Consciência, formado por dezoito pensadores religiosos e líderes mundiais renomados.
A pira foi acessa. O caminhar vitorioso estará na dependência da nossa criatividade e da nossa coragem de radicalmente ser antes de apenas ter.

PS. Agradeço ao meu irmão anglicano Rev. Ivaldo Correia, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, pelas orientações primeiras sobre a Carta pela Compaixão.

Bilhete para Ahmadinejad

Muito embora não tenha qualquer procuração da comunidade judaica do meu país, nem sendo hebreu, ainda que descendente na fé de Abraão, Isaque e Jacó, dada minha condição de cristão militante, expresso minha profunda aversão pela sua presença em solo brasileiro nos próximos dias.
A explicação é simples: negar a existência do Holocausto, onde milhões de seres humanos foram assassinados, é prova cabal de uma estúpida ignorância histórica, característica daqueles que desconhecem os ontens históricos, vivendo ideologicamente anestesiados por um sistema ainda teocrático de governo, nunca pelejando por amanhãs de mínima fraternidade universal.
Além disso, mesmo levando em conta uma postura recentemente mais moderada, seu país continua fechado, mantendo uma força policial secreta orientada para exterminar, sem qualquer preocupação com os Direitos Humanos, as iniciativas oposicionistas mais simples.
O Irã, para quem não conhece, é o nome atual da antiga Pérsia, que foi cenário de muitas histórias bíblicas. Entre as mais famosas encontram-se a história de Daniel na cova dos leões, a luta de Ester e Mardoqueu para salvar o povo judeu e o serviço de Neemias ao rei. Sua principal etnia, a persa, congrega metade da população, o restante se dividindo entre grupos árabe, azeri, baluche, curdo, gilaki, lur, mazandarani e turcomano. São faladas no país 77 línguas, a religião oficial é o islamismo, sendo xiitas sua maioria, convivendo conflituosamente com as minorias de zoroastras, bahaístas, judeus e cristãos.
Seria bom que avisassem à sua assessoria sobre a plena liberdade religiosa reinante em nosso território, diferentemente do que está acontecendo em seu país, onde os muçulmanos que se convertem ao cristianismo são rotineiramente interrogados e espancados, acreditando-se que muitos dos homicídios não esclarecidos sejam praticados por fundamentalistas que diariamente ameaçam os cristãos de morte.
Além da violência exercida pelas autoridades do seu país, os ex-muçulmanos são também oprimidos pela sociedade. Eles têm dificuldade em encontrar e manter um emprego, sendo sumariamente demitidos quando se descobre que foram convertidos ao cristianismo. Até aqueles que se estabelecem num negócio próprio têm problemas em manter sua clientela.
Para quem menospreza a História, seria oportuno relembrá-lo sobre o que foi o Holocausto. Quando da invasão da Polônia, Hitler começou a aniquilar o povo judeu, dado viver em solo polonês a maior população judaica da Europa. Para que a sua pessoa tenha noção, durante os seis anos de guerra (1939-1945), foram assassinados pelos nazistas seis milhões de judeus, incluindo 1,5 milhão de crianças, um assassinato em massa que já estava previsto desde 1924, quando Adolf Hitler escreveu Mein Kampf, de título Minha Luta em língua portuguesa, fato plenamente passível de verificação na edição feita pela Editora Centauro, em 2001, quando se lê num posfácio do autor: “Um Estado que, na época do envenenamento das raças, se dedica a cultivar os seus melhores elementos raciais, tem de um dia se tornar senhor do mundo”.
Atualmente, somente grupos racistas de neonazistas e grupos anti-semitas tentam negar o Holocausto. Não sei, com honestidade, em qual dos grupos a sua pessoa se insere. Mas certamente seus seguidores já tomaram conhecimento das leis raciais nazistas publicadas em 1933/35, quando foram erradicados as lojas e os negócios dos judeus, os médicos tornados proibidos de exercer suas funções, nenhum judeu podendo trabalhar em áreas públicas, sendo retirado deles o direito à cidadania alemã.
A sua pessoa e a sua equipe talvez ignorem, por ausência de cultura histórica, o que aconteceu em 1938, por ocasião da Kristallnacht (Noite de Cristal), quando foram destruídas mais de 200 sinagogas, fechadas 7500 lojas, 30.000 judeus do sexo masculino sendo enviados aos campos de concentração. Neste mesmo ano foram construídos os primeiros ghettos na Alemanha, onde se isolavam os judeus do mundo exterior, 600.000 morrendo de fome, frio e enfermidades várias.
Dado o desconhecimento que contamina sua mente, informo-lhe que cristãos, judeus e zoroastras continam sendo retaliados em seu país. Na área cristã é permitido que igrejas ligadas às minorias étnicas ensinem a Bíblia ao seu próprio povo e em sua língua. No entanto, mediante uma determinação sinistra, tais igrejas estão proibidas de pregar o Evangelho em persa, a língua oficial do país. Para que seu governo não permaneça na ignorância, no ano passado, 2008, aconteceu um grande número de ataques a igrejas domésticas e muitos cristãos foram presos, tornando-se um dos anos mais difíceis para a Igreja, desde a Revolução Islâmica de 1979.
Que a sua pessoa, saída recentemente das urnas com 24 milhões de votos, 10 milhões a mais que o seu adversário mais próximo, não mais tente ofuscar a História, igual a muitos que vivem proclamando por aí um “nunca na história deste país”, que beira a uma obsessão messiânica capaz de trágicos finais.
(Publicada, a partir de hoje, 20.11.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Desafios da Universidade

Creio que já tardam as estratégias de uma maior profissionalização do ensino superior brasileiro. É urgente a adoção de estratégias que reflitam as novas demandas comunitárias, num contexto cada vez mais multicultural, bem mais mundializado que nas últimas décadas do século passado. Com a ciência, teórica e aplicada, devendo tornar-se mais estruturada através de uma solidariedade cidadã para com o derredor social menos favorecido, a ensinar efetivas maneiras de pescar, bem assimilada a dimensão do que seja parceria, a revitalizar pessoas de todas as faixas etárias.
Há anos, o pensamento do professor Ronaldo Tavano Palaia, diretor da Faculdade Trevisan, reflete o alerta que se alastra pelos quatro pontos cardeais brasileiros: “A sobrevivência das organizações na Nova Economia está incondicionalmente atrelada às habilidades fundamentais de seus colaboradores em todos os níveis hierárquicos, bem diferentes daquelas exigidas dos trabalhadores e dirigentes na Sociedade Industrial. Hoje, para que uma posição no mercado de trabalho da Nova Economia seja ocupada, é preciso dispor cada vez mais do capital intelectual, que não se traduz apenas pelo simples acúmulo de conhecimento, mas pela capacidade de identificar, obter, organizar e utilizar a informação necessária para alcançar os resultados pretendidos.”
E foi mais além, aquele especialista: “De todas as grandes organizações seculares, como o Exército e a Igreja, talvez a Universidade seja a mais conservadora em termos de valores e práticas. Neste momento, contudo, a sociedade precisa formar, em nível superior, talentos humanos com preparo adequado para a economia digital, para a nanotecnologia e com grande flexibilidade de adaptação diante das realidades econômicas, sociais, culturais e tecnológicas emergentes”.
Ainda segundo Palaia, estamos atravessando uma crise paradoxal: de um lado, desemprego fortalecido pelo analfabetismo funcional; de outro, um contingente cada vez maior de vagas, por falta de mão-de-obra qualificada para preenchê-las.
Uma Universidade que se deseja ver respeitada, deve ser possuidora de alguns princípios paramétricos: possuir elaboração própria; saber bem conjugar teoria com prática; manter-se em contínua atualização, sem modismos pernósticos; emular atitudes emancipatórias; ampliar a qualificação formal e política de todos os seus segmentos; proporcionar contínua atualização do seu acervo bibliotecal nas diversas áreas do conhecimento. Ela deve ainda ser possuidora de um acurado instinto de sobrevivência, nunca se transformando num amontoado de salas de aulas, onde impera uma caduca diferença entre aluno e professor, os primeiros seres passivos, os demais portadores de estupidificantes procedimentos apenas “auleiros”, sem sabor nem arte.
Se o diploma está em baixa, bastante desmoralizado como reflexo do saber, o conhecimento se torna cada vez mais uma exigência planetária, inclusive para docentes novos e veteranos.
Com honestidade, verifica-se facilmente que uma boa parte dos nossos atuais docentes universitários não merece sequer ser escutada. E que um grande número de nossas escolas superiores é simples peça histórica, útil apenas para se observar como reflexo de Universidade criada nos anos trinta, sem uma sala de aula sequer, para se conceder o título de Doutor Honoris-Causa a um rei belga que por aqui transitava.
Segundo Cláudio de Moura Castro, de quem sou orgulhosamente ex-aluno, “estamos ao limite do conserto fácil”. Com a modernização econômica e uma mundialização cada vez mais acelerada, que sejam eliminadas as posturas meramente burocratizantes, as contemplações dos próprios umbigos e as pesquisas que apenas engordam rendimentos mensais de alguns travestidos de PhDeuses, como bem chicoteva Gilberto Freyre, um invulgar talento brasileiro.
PS. Agradeço penhorado o apoio recebido dos amigos que compareceram à solenidade de outorga, pelo Conselho Estadual de Educação de Pernambuco, da Comenda Medalha do Mérito Educacional Professor Paulo Freire, no dia 19 de outubro último. Um evento que contou também com a presença das autoridades da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco.
(Publicada no Portal da Rede Globo Nordeste, Recife, Pernambuco)

Xereteando Futuros

Vez em quando dedico umas horas para ler profissionais especializados em bisbilhotar futuros, imbuídos de bolas de cristal. E fico a imaginar a cara-de-bunda de algumas personalidades que “advinharam” no passado com uma segurança de fazer rir estátuas de bronze. Algumas dessas “sabedorias”, eu as tenho em arquivo, frequentemente por mim lido por medida preventiva, para também não resvalar para besteiróis, como os “ispecialistas”, alguns deles economistas, hoje cabreiros diante dos amanhãs radicalmente incertos. Eis uma amostra mínima: "Penso que há, talvez, no mundo um mercado para 5 computadores." (Thomas Watson, presidente da IBM, 1943); "No futuro, os computadores não pesarão mais do que 1,5 tonelada." (Popular Mechanics, prevendo a evolução da ciência, 1949); "Este telefone tem inconvenientes demais para ser seriamente considerado um meio de comunicação. Esta geringonça não tem nenhum valor para nós." (Memorando interno da Western Union, 1876); "Máquinas mais pesadas do que o ar são impossíveis." (Lord Kelvin, presidente da Royal Society, 1895); "Broca para petróleo? Você quer dizer furar o chão para encontrar petróleo? Você está louco." (Operários que Edwin Drake tentou contratar para seu projeto de prospecção de petróleo, em 1859); "A bolsa alcançou um teto que parece permanente." (Irving Fisher, professor de economia, Yale University, 1929, poucos dias antes do crack de 1929); "Aviões são brinquedos interessantes, mas sem nenhum valor militar." (Marechal Ferdinand Foch, professor de estratégia, Ecole Superieure de Guerre, Paris); "Tudo que podia ser inventado já o foi." (Charles Duell, diretor do departamento de patentes dos Estados Unidos, 1899, ao propor o fechamento da sessão de registro de novas patentes); "A teoria dos germes de Louis Pasteur é uma ficção ridícula." (Pierre Pachet, professor de fisiologia em Toulouse, 1872). E, para completar, uma “preciosidade” famosa, de autor multibilionário hoje: "640 K é mais do que suficiente para qualquer um." (Bill Gates, 1981).
Recentemente, algumas “profecias” foram tornadas públicas por George Friedman, fundador da Stratfor, tida como a maior empresa do setor de inteligência do mundo, tendo publicado incontáveis artigos sobre segurança nacional e espionagem, embora nenhum prognóstico tenha sido explicitado por ele sobre a destruição das torres gêmeas, em pleno coração financeiro de Nova York, 11 de setembro de 2001.
Livro muito vendido, segundo o New York Times, Os Próximos 100 Anos – Uma Previsão para o Século XXI, antecede a fragmentação da China em 2020, em 2050 uma Guerra Mundial entre EEUU, Turquia, Polônia e Japão, além do desafio mexicano contra os Estados Unidos em 2100. Uma leitura não enfadonha, às vezes tendenciosa, onde o autor principia ressaltando as acontecências pós verão de 1900, pós verão de 1920, pós 1940, pós a temporada de 1960, pós derrota norte-americana de 1980 no Vietnã e os fatos acontecidos após 2000. Advertindo, com propriedade, que “quando se trata de prever o futuro, a única certeza é que o senso comum vai estar errado”. E ainda dá sutil alfinetada nos que profetizam sobre fatos contemporâneos: “a análise política convencional sofre de uma profunda falta de imaginação”, “completamente cega em relação às mudanças poderosas e de longo prazo que acontecem completamente às vistas de todo mundo”.
Para os estudiosos de cenários futuros, na semana passada o historiador Eric Hobsbawn, membro da Academia Britânica de Ciências, participou do World Political Forum, em Bosco Marengo, Alexandria. E suas conclusões foram acatadas, porque realistas e consequentes. Eis algumas inferências dele: “todas as economias modernas devem combinar público e privado de vários modos e em vários graus; o século XXI deverá reconsiderar os seus próprios problemas em termos muito mais realistas; está em curso uma alternativa de enormes proporções das várias economias do Atlântico Norte ao Sul do planeta e principalmente à Asia oriental; a simples ‘imitação do Ocidente’ deixou de ser uma opção possível; no futuro, pode a China vir a ser considerada a salvadora mundial da crise capitalista na qual nos encontramos”. E concluiu sua participação naquele Forum, utilizando idêntica reflexão explicitada em artigo publicado no jornal La Repubblica, de 08 de outubro último, reproduzido pelo Instituto Humanitas da Universidade Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS: “O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade, importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI”.
No mais, é saber fazer a hora, sem nunca esperar acontecer.
PS. Lamentável, sob todos os aspectos, a mediocridade falante da atual campanha salarial do SERPRO, aqui no Recife. Se o futuro do sindicalismo brasileiro estiver diretamente proporcional ao falatório de uma metida a líder sindical de rua que se esgoela diariamente através de um carro de som sem mínima criatividade, a falência já deve ser anunciada.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, Recife, Pernambuco)

Corajosos e Gabarolas

Numa página de jornal, com pose de exterminador do futuro, dirigente posa de rasgador de regulamento de uma entidade esportiva. Em outra folha, artista conquista seus minutos de glória ao arquitetar um artefato explosivo de mentira que mobiliza deus-e-o-mundo, seguramente gastando tempo e alguns milhares de reais públicos na operação. Mais adiante se revela que diretor da Uniban, aquela instituição repleta de dinossauros carnívoros de ambos os sexos, possui problemas com a Justiça. E uma outra parte revela que alunos da Universidade de Brasília ficaram pelados em solidariedade à jovem de mini-saia que foi agredida numa instituição, ansiosos para demonstrar competência em abundância. Para não falar nos bilhetes anônimos que estão perambulando por todo o país, informando que fulano metido a sério está enrabichado pelo genro, já tendo ido aos finalmentes; uma senhora de oitenta anos foi seduzida por vizinho adolescente, por querência dela própria e sem uso de qualquer preservativo. Além das novas tentativas de concessão de um terceiro mandato para o presidente Lula, uma manobra bajulatória digna de figurar no Guinness Book, na área relacionada às Maiores Cafajestadas Mundiais, versão 2010.
Conversando com o João Silvino da Conceição, minha outra metade há mais de meio século, ele me forneceu uns esclarecimentos oportunos, gramscianos todos, sempre consultando seus rabiscos críticos. E me presenteou com cópia de um artigo da Sra. Maria Helena Rubinato Rodrigues de Souza, enviado para o Ricardo Noblat, jornalista aplaudido e meu amigo de longa data, em junho do ano passado. Um texto radicalmente oportuno às vésperas de um ano eleitoral e das construções projetadas para os eventos 2014 e 2016. O artigo se refere às impulsividades verbais do presidente Lula. Sob título Moralismo ou Moralidade, transcrevo suas partes mais significativas:
“Faz falta um conselheiro que lembre ao presidente Lula que é melhor pensar cinco vezes antes de falar. Não é vergonha não ter tido oportunidade de estudar em criança. Vergonha é não ter estudado até hoje, não se informar, não perguntar antes a quem sabe mais. .... Custo a crer que não haja um bom dicionário no Planalto. Para mostrar ao presidente a diferença entre moralismo e moralidade. ‘O senhor com certeza quer dizer que a nossa Lei Eleitoral é de moralidade falsa?’.
No que ele concordasse, entusiasmado, o assessor devia explicar-lhe que moralidade é a qualidade do que é moral. E que ‘moral é o conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada’. Bem ensinado, creio que o presidente certamente compreenderia que a Lei Eleitoral ainda é o último bastião antes da esbórnia total. ......... O Lula anda extrapolando. Leva seu palanque esquisito até para o exterior. Arma a geringonça mesmo em conferências internacionais. Esquece que não está mais na porta de uma fábrica e parece não saber que elegância não são ternos e gravatas de grife, cabelos tratados e pele escovada. Elegância é sobretudo boas maneiras............ Alguém precisa explicar ao Lula que até a Revolução Industrial o mundo pensava que os recursos naturais eram inesgotáveis. A noção de que o meio ambiente deve ser preservado, sob pena das novas gerações virem a sofrer catástrofes pavorosas, só recentemente se infiltrou nas mentes das pessoas instruídas e civilizadas. Em termos históricos, foi ontem.
Cuidando de nossa soberania, devemos procurar aprender com os erros dos outros e ouvi-los. Mas antes é melhor cuidar do nosso quintal. Mostrar que somos capazes de respeitar nossas leis, inclusive e sobretudo a Lei Eleitoral, para que eles finalmente acreditem que somos capazes de cuidar do que é nosso. Mas sempre com bons modos, se faz favor”.
Os fatos acima, demonstrando uma descidadanização nacional espantosa, a boataria e as impulsividades presidenciais, que deseja a todo custo entronizar no Planalto a madrasta autoritária dos contos infantis, fantasiada de apagão da natureza, retratam um caldo cultural que bem poderá descambar para moralismos e puritanismos cavilosos, sediciosos até, favorecendo a emersão de posturas nazi-fascistas das mais diferenciadas espécies.
Quem sabe faz a hora, nunca espera acontecer...
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife, Pernambuco)

Sobre um Decreto Vaticano

Sou amplamente favorável ao deletamento da imposição celibatária para os irmãos sacerdotes que desejariam constituir família, também continuando em suas caminhadas evangelizadoras, atendendo chamamento vocacional. Assim, considero uma estratégia hipócrita a acolhida acenada pelo papa Bento XVI para os clérigos anglicanos conservadores, os quais poderiam continuar casados sob a guarida da Santa Sé, embora numa área bem demarcada, como se bem diferenciados fossem, sem os direitos plenos dos da casa, muitos dos quais de caminhadas comportamentais bastante dúbias. Uma decisão que ofende sem dó nem piedade a dignidade de milhares de ex-padres romanos, hoje casados e muito bem casados, que jamais atrofiaram sua vocação de bem divulgar a Mensagem do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador.
Tenho a convicção interior, nunca possível de uma mínima comprovação, que a aversão do Vaticano às mulheres se alicerça num pensamento de Santo Agostinho (354 – 450), contida em Solilóquio: “Nada é tão poderoso para enfraquecer o espírito de um homem quanto os carinhos de uma mulher”. Uma reflexão aceita até hoje, dada a experimentação vivenciada pelo futuro bispo de Hipona, ao provar os carinhos de uma mulher que com ele partilhou o leito por algum tempo como concubina. Logicamente que muito antes dele desenvolver o conceito de igreja identificada como Cidade de Deus, um dos seus trabalhos mais lidos, que exerceu imensa influência na visão e no comportamento do homem medieval. Os irmãos calvinistas, por exemplo, o consideram um dos pais teológicos da Reforma Protestante.
Para quem não sabe, foi Gregório VII, papa de 1073 a 1085, que introduziu na Igreja o celibato obrigatório para os seus sacerdotes. E creio que assim procedeu com a melhor das intenções, à época desejando selecionar os mais capacitados para o clero. Sugestionado talvez pela reflexão de Agostinho, sobre o depauperamento causado nos homens por mulheres sedutoras, tal e qual o acontecido com inúmeros abiscoitados, desde a cantada dada pela Eva no desatento Adão, na história machista que anuncia os primeiros instantes de uma metafórica Criação do Mundo.
Atualmente, o celibato obrigatório pode estar nos seus instantes históricos finais, dada a onda de pedofilia que muito vem preocupando as autoridades romanas. Segundo o pesquisador José Reis Chaves, acusações de pedofilia estão ocupando amplos espaços nos noticiários internacionais, os quais poderão influenciar novas diretrizes da Igreja Romana. Segundo Reis, o Homem de Nazaré deixou claro que há eunucos de vários tipos, mas que os verdadeiros são os feitos pelo Reino dos Céus. E reflexiona: “todavia, quando um jovem recebe o Sacramento da Ordem, tornando-se padre, ele não se transforma, como que por encanto, num desses eunucos santos. E eis aí a questão. Esse padre pode entrar numa forte crise existencial, pois que sua vocação sacerdotal pode ter sido uma ilusão, ou seja, fruto de um idealismo próprio da imaturidade dos jovens. E, assim, ele está sujeito a aventuras amorosas, ou então, mais raramente, passará a sofrer distúrbios psicológicos, que podem levá-lo às tendências homossexuais ou pedófilas”.
Mas como já anunciava o Eclesiastes 1,8 que “não há nada de novo debaixo do sol”, o celibato jamais foi fator purificante do caminhar sacerdotal. Que o diga a vida do papa Leão X, que considerava a corte pontifícia um centro de diversão, como admite até a Enciclopédia Católica. Segundo o historiador Joseph McCabe, ele era “um obsceno, frívolo e cínico”. Adorava rapazinhos e era chegado a umas boas talagadas etílicas. Conforme Nigel Cawthorne, outro pesquisador especializado, Leão X “adquiriu a reputação de um completo extravagante. Entre outras coisas, jogava baralho com seus cardeais, permitia que o público se reunisse para assistir e atirava pilhas de moedas de ouro para a plateia cada vez que ganhava uma partida”. Só faltando perguntar Quem quer dinheiro?, indagação inventada séculos depois por um tupiniquim animador de auditório.
Não será o celibato que ensejará uma maior ou menor pureza nas denominações religiosas. Abandonar ao Deus dará os sacerdotes romanos que preferiram casar a abrasar-se, seguindo recomendação paulina, embora vocacionados para uma Missão Salvifica, quando por outro lado acolhe, por interesses desnobilitantes, os casados reacionários de outras denominações, é consolidar uma homérica hipocrisia, defeito único abominado pelo Homão da Galileia, quando da sua estadia entre nós.
(Publicado no site da revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco)

Pinguços Famosos

Tem gente que vive falando mal do presidente Lula, classificando-o como o maior pinguço do mundo. Uma injustiça pra lá de gigantesca, posto que gente muito mais famosa que ele é merecedora da premiação. Lula é um brasileiro igual a milhões de outros tantos, que apenas gosta de tomar uma bicada vez por outra, fora do expediente e longe dos olhares maledicentes dos curiosos de plantão. Sempre bancando suas lapadas do próprio bolso, sem prejudicar em nada o contribuinte brasileiro, que paga religiosamente seus impostos sabendo que o que está sendo arrecadado será bem aplicado, inclusive no Congresso Nacional.
Saindo do fingido imaginário acima e entrando na História da Humanidade, milhões desejariam conhecer os protagonistas dos maiores porres da humanidade, porres equivalentes aos praticados por Noel Rosa e Walt Disney, aquele que criou um rato, um pato e bebeu feito um gambá. Além dos encharcamentos homéricos praticados por Lima Barreto, Alexandre, o Grande, Jean Paul Sartre, para citar aqui uma pequena amostra. Deixando de fora o grandão Rasputin, que era gigantesco nas carraspanas e também no trabuco colossal que portava entre as pernas desde nascimento, enfeitiçador de fiéis, rainhas, princesas e até de alguns monarcas, bispos e príncipes entendidos no acolhimento afetivo das armas de atraentes atletas do ramo.
A editora Panda Books, com a finalidade de contribuir com a verdade histórica, lançou um delicioso livrinho, de nome engraçadíssimo – Hic!stórias – os maiores porres da humanidade -, de Ulisses Tavares, um historiador poeta que já vendeu, só na área lúdica, mais de oito milhões de exemplares, com 106 livros publicados, sendo ainda professor de pós-graduação de méritos amplamente reconhecidos pelos acadêmicos sóbrios.
Na orelha primeira do livro, Percival Maricato, editor da revista Bares e Restaurantes, uma das apreciadas pelos pinguços socialites de assiduidade alcoólica acima da mediana, declara que uma das primeiras preocupações dos fundadores da escrita foi eternizar a fórmula da cerveja. E cita até a Babilônia, onde se amputava as mãos dos que praticavam corrução ou misturavam alguma coisa às bebidas alcoólicas, ficando Maricato a imaginar se tal moda fosse aplicada nos setores da vida nacional brasileira. Segundo ele, a quantidade de manetas que nós veríamos na nossa área política seguramente provocaria a falência dos serviços de manicure nos vetustos legislativos, no passado recantos de debates sobre nobilitantes ideais republicanos.
Segundo Ulisses Tavares, “pior que bêbado irritado é um abstêmio religioso, fundamentalista fanático, disposto a explodir bares com tudo dentro, inclusive você, que falou mal da crença dele”. E cita o bafafá gota serena contado em Gênesis 19, quando a população enfurecida diante do prenúncio de uma punição severa pelas esculhambações praticadas, consideradas pelos historiadores modernos como um autêntico PAC – Pra Ampliar Comilança – exigiu de Ló a entrega de dois visitantes seus, os quais queriam “conhecer” sem dó nem piedade, num “créu enrabolátrico” fatal. Até o próprio Ló, depois de salvo, com suas duas filhas, do fogareu gigantesco, terminou praticando um “duplo créu gerador”, depois de espertamente embebedado pelas gulosas garotas, que desejavam assegurar a descendência mediante um lá-e-lô estritamente caseiro.
Segundo a historiografia dos pinguços, logo depois de iniciada a colonização do Brasil, descoberto por um Cabral que não era educador, sempre se encontrava um tempinho para se tomar uma “lapada”, costume que se conserva até hoje, mesmo nas viagens internacionais de air-bus, presidenciais e particulares. E o tira-gosto preferido, naquelas épocas primeiras, era pedacinhos assados de corpos humanos inimigos, alguns dos quais geraram a idéia do fabrico da linguiça. Diz o autor de Hic!stórias – os maiores porres da humanidade que “muitas escrotidões ocorreram e ainda não foram parar nos livros estudados nas escolas sobre a história do Brasil. E quando forem, vão mostrar que as atrocidades cometidas hoje pelos manés e cachorras são fichinha perto de nossos primeiros tempos.”
Para não mais importunar a paciência do leitor, que já deve estar pronto para tomar umas, ofereço uma informação de utilidade preventiva: um homem jovem, sadio, metido a cabra macho, aguenta tomar, uma após outra, no máximo, oito garrafas de pinga.
No interior de Sergipe, vendedores sabidões promovem anualmente um torneio para saber quem é o Pinguço-Rei. Segundo Ulisses Tavares, autor do livro de leitura imperdível, “nos últimos 15 anos, os vencedores não receberam o dinheiro do prêmio”, embora as missas de sétimo dia deles estivessem repletas de admiradores. Que sempre os reverenciam no Dia de Finados tomando várias.
PS. A simploriedade de um delegado de polícia que arbitrou em R$ 1.000,00 a fiança libertadora de um belga que, embriagadíssimo, atropelou e matou, infelicitando parentes que estavam de bem com a vida, é digna de gargalhadas se não fosse tão trágica. Em terra de nanico, imagina-se sempre que todo estrangeiro é ainda nosso colonizador. Se fosse algum brasileiro negro e pobre que tivesse atropelado e morto alguém ...
(Publicada no site da revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco)

Esquisitices e Farolagens

1. Com vencimentos de R$ 486,10, a prefeitura do Rio de Janeiro abriu concurso para gari, bastando ser possuidor das quatro primeiras séries do ensino fundamental. Dos mais de 109 mil que concorrem às mil e quatrocentas vagas disponíveis, alguns quantitativos surpreenderam os organizadores: 22 possuem Mestrado e 45 são Doutores, além de 1.026 portadores de nível superior.
Um dos pós-graduados, entrevistado, declarou sem qualquer constrangimento: “Disseram que eu era maluco, que eu ia ficar fedendo a lixo. Mas a faculdade não garante emprego nem estabilidade para ninguém. Quero segurança”.
Lamentavelmente, quem está fedendo a lixo, salvo as mínimas exceções sempre honrosas, é o ensino superior brasileiro. Sem criatividade alguma, tampouco ousadias empreendedoras, burocraticamente asfixiada, com uma área pública ainda merecedora de confiança em alguns setores, a iniciativa privada buscando cativar através de um marketing estrategicamente direcionado para conquista de quiméricos amanhãs, o famoso “ouro de tolos” do menestrel já tornado encantamento.
Como seria oportuna a orientação ministerial para que os nossos dirigentes educacionais, incluídos os das instituições públicas, lessem O Mestre Ignorante, do pensador Jacques Rancière, recentemente reeditado pela editora Autêntica, Minas Gerais. Baseado na história de Joseph Jacotot, um revolucionário de 1789, que se exilou nos Países Baixos após a restauração da monarquia. Uma leitura que deve ser feita colegiadamente, as reflexões sendo tricotadas à exaustão. Uma amostra: o poder do ignorante, os negócios de cada um, cérebros e folhas, a paixão da desigualdade, os inferiores superiores, de carneiros e homens, a sociedade pedagogizada e o túmulo da emancipação. Um pequeno grande livro que espicaça e desbolota mentes educacionais.
2. Como eu gostaria de ver o presidente Lula orquestrando um acordo entre Jesus e Judas, para sucesso da candidatura presidencial da fotogenicamente insossa ministra Dilma Rousseff. Que anda rindo nas apresentações marqueteiras com um esforço sobre-humano, tentando não explicitar sua autoritária vocação curraleira.
Como o presidente é do segmento lá-e-lô, jogando com as duas pontas, uma no cravo e outra na ferradura, não me surpreenderia a sua ousadia em propor uma estratégia Je-Ju, ou Ju-Je, contando que favorecesse sua reentrada triunfal em 2014, num pós-copa do mundo engabelador para os abiscoitados de carteirinha. Até com Fernando Collor na vice.
3. As cutucações recíprocas entre Micheletti e Zelaya, os dois patetas hondurenhos, já deveriam estar encerradas, se o chapeleiro não estivesse acobertado por um megalonanico que se imagina tampa-de-foguete, não passando de assoprador de fogareiro sem qualquer quentura.
4. É chegada a hora de fazer uma baita limpeza nas estruturas estaduais e municipais da Segurança Pública Brasileira, setor onde se refugiam os restos fétidos do ainda não de todo sepultado regime ditatorial. Respaldados num regime democrático repleto de impunidades nos mais variados escalões, bandidos de farda cometem atrocidades ignominiosas, matando até por um par de tênis, como aconteceu recentemente com a morte de um educador social, no Rio de Janeiro. E não me venham com a conversa mole de que baixos salários justificam atitudes animalescas. Por que a Índia, que tem problemas sociais equivalentes ao Brasil, possui uma criminalidade bem menor que a nossa? O pessoal do Instituto da Paz tem plena razão quando declara que corrupção é caráter. E o diretor-executivo do Instituto, Denis Mizne, não contemporiza: “Se há comprometimento com a vida, se há indignação real por trás dos discursos inflamados, que comecem as reformas estruturais das polícias, de limpeza das instituições, sem desculpas burocráticas ou medo das retaliações. Apoio não faltará. E coragem?”
5. Assunto de Estado: o amostrado presidente Hugo Chavez, sempre ansioso para ser um “flodão” latino-americano maior que o Lula, pede que os venezuelanos não cantem mais no banheiro. Para economizar água. Declarou que toma banho em três minutos e que não cheira mal. Só faltando dizer que só lava os bagos. O resto podendo feder.
6. Se não tivesse sido morta pelos nazistas em um campo de concentração, Annelisse Maria Frank, a mundialmente conhecida adolescente judia Anne Frank, teria completado 80 anos em junho passado. Seu diário foi publicado pela vez primeira em 1947, sendo um dos textos mais traduzidos em todo mundo. Só quem não deve ter lido ainda o Diário de Anne Frank foi o presidente iraniano Ahmadinejad, que recentemente buscou ampliar sua fama de braboso ao negar a historicidade do Holocausto, o maior assassinato étnico da história da humanidade.
7. O Nelson Piquet velho andou criticando o Ayrton Senna, ao tentar defender o filho Piquet mutreteiro. Quando li o fuxico caviloso, lembrei-me do sempre lembrado amigo poeta Mauro Mota, refletindo sobre bravatas que lhe contavam: “Como é fácil enfiar o dedo em fiofó de onça morta”.
(Publicado no site da revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Enfrentamento das Embromações

O jornal O Globo, em sua edição de sábado passado 14, trouxe uma declaração do presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz Lopes, que merece aplausos pela coragem demonstrada, diferentemente dos apupos, acompanhados imaginariamente de ovos podres, que deveriam ser endereçados às autoridades que buscaram cinicas justificativas para o apagão acontecido: ministros, presidente e ministra-candidatinha, chamada Dilminha por melosos babões amanteigados. O presidente da Eletrobrás não quis violentar a verdade, optando por uma declaração honesta.
Segundo Muniz Lopes, “nós tivemos um problema meteorológico em Itaberá, estado de São Paulo, que levou à queda das três linhas de 750 quilovolts (kV), o que significa dizer que perdemos a capacidade de transmitir metade da energia gerada por Itaipu. Deveria ter acontecido o ‘ilhamento’ do problema para possibilitar o religamento do sistema. Mas como isso não aconteceu, aí o problema se estendeu para as duas linhas de corrente contínua que ligam Itaipu a São Paulo. O que é preciso levantar é porque não entrou em operação o sistema chamado Erat, que existe exatamente para levar ao ’lhamento’”.
Num ontem não distante, ousei serenamente, sem qualquer alvo específico, alertar os leitores acerca dos prejuizos causados por uma vaidade doentia, imensamente prejudicial, fatal em alguns casos. Recebi quase duas dezenas de e-mails. Alguns poucos encarecendo maneiramento nas pauladas, a maioria desejando pistas para identificar alguns “doentes”. Uns apontaram A, outros B, uma quase dúzia apontando lobinhos e lobões, buscando encontrar convergências entre perucas, Maranhão, Caetés, apagões e aduladores, todos ansiosos por uma dica mínima.
O objetivo das petelecadas cutucadoras foi o de ver um Recife mais de pés no chão, menos hedonista, mais acelerador da chegada de promissores futuros, menos falando para o mundo e mais consistente nos seus diferenciados campos do saber e do futebol, apesar dos juízes salafrários da CBF.
O meu interesse foi o de também alertar uma sociedade, a brasileira, acerca de uma perniciosa mania, em ampliação desde a implantação do Plano Real. A de, tal e qual os que nunca tinham saboreado mel, arrotar mil e uma grandezas, sem os atos concretos que as justifiquem, asfixiando iniciativas que possibilitariam uma respeitabilidade planetária recheada de competência e lhaneza.
Nas farmácias homeopáticas do Nordeste, uma excelente vacina, a preços módicos, se encontra à disposição dos “vaidéticos”, aqueles que se imaginam capazes de derrubar sozinhos até tarifas de energia elétrica. Uma cápsula de Simankol, manhã cedo e antes do desjejum, atenua bastante os efeitos perversos causados pelo virus da vaidade excessiva. Além de manter em alto nível a curiosidade, emulando uma salutar aprendência século 21.
Contam os monges budistas uma parábola genial. Numa excursão, um jovem rico, corado e muito independente subiu ao alto de uma montanha, encontrando um ninho de águia. Retirando dele um ovo, alojou-o em casa sob uma galinha sua, chocadora de uma meia dúzia de outros tantos. O resultado foi o nascimento de um filhote de águia no meio dos pintainhos. Bem criada, a aguiazinha não sabia sequer que não integrava a categoria. Contentou-se com a sua sina, muito embora, vez por outra, ânsias interiores provocassem o seu interior, como que a dizer “devo ser algo mais que uma simples galinha”.
A falsa galinha jamais tomou qualquer iniciativa, até contemplar uma águia sobrevoando o galinheiro em missão caçadora. Aí a convicção aflorou imediatamente: “Não sou galinha. Não nasci pra viver em galinheiro. Meu destino é o céu, ainda que não seja de brigadeiro”. E alçou vôo, deslumbrando-se, imaginando-se muito águia, até proprietária de air-bus, embora conservando toda a sua formação de galinha. Resultado: tornou-se águia, sem jamais ter abandonado sua mentalidade de galinha.
Com base na parábola acima, todo vaidoso é uma águia deslumbrada com cuca de galinha. Sem descobrir seu verdadeiro EU, fantasia-se, empavona-se, vangloria-se tolamente sob o manto de uma impunidade-carcaça que não o incrimina, embora o torne incapaz de implementar grandes obras com a naturalidade dos realmente notáveis.
Os contaminados pela vaidade patológica, os “vaidéticos”, não se controlam. Necessitam sempre de automassagens, jamais renegando os rasgados elogios dos aduladores. Mesmo que a partir de uma explicação fajuta de um apagão provocado pela natureza e também pela não entrada em operação de um sistema chamado Erat. Por incompetência gerencial de algum xeleléu nomeado sem qualificações técnicas.
(Publicada, a partir de hoje, 16/11/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Equipamento Indispensável

Amigo de longa data, pai aos quarenta, me telefona para confessar que, vez por outra, não consegue “captar” o que o filho de quinze anos diz para seus companheiros de escola e diversão. Outro dia, ouviu um deles dizer que o pai dele era um cdb, sempre beliscando uma nota, nunca invocadíssimo, de bilau jamais despreparado para o lufalufa cotidiano, odiando quem dança de urso com os amigos, ficando bem longe das muvuqueiras sociais da capital nacional da juventude pimpona. E pediu explicação.
Pedi um tempo para “decifrar” o fraseado do jovem. Afinal de contas, meus dois filhos e a filha já são adultos, casados e encaminhados, de profissões definidas e tetos estabelecidos, cidadãos para minha alegria de pai envaidecido.
Meio baratinado, senti uma saudade gota serena do Mário Souto Maior, hoje na eternidade. Que foi pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e que sempre me orientava sobre palavras novas criadas por uma juventude que deveria estar sendo merecedora de mais respeito pelos dirigentes da Educação Brasileira. Consultando aqui e ali, eis que amigo pediatra me empresta um livro, que me “diplomou” na decifração do equipamento falado pelos jovens do país. Intitulado Dicionário de Gíria, de J.B. Serra e Gurgel, já em oitava edição própria, 2009, inclusive com site muito visitado (www.dicionariodegiria.com.br).
A partir do livro emprestado, “decifrei” o dito. Assim, cdb = cu de boi, trabalhador; beliscando uma nota = ganhando dinheiro; invocadíssimo = irritado; bilau = pênis; lufalufa = dia-a-dia; dançar de urso = iludir; muvuqueira = confusão; e pimpona = esbelta, bonita.
O que o jovem disse para os seus colegas pode ser assim “traduzido”: que o pai trabalhava muito, sempre ganhando algum dinheiro, nunca se irritando, atento às aventuras sexuais que apareciam, tendo raiva dos que sacaneiam com amigos e sempre distanciado das fuxicarias de uma capital possuidora de juventude bonita. Um elogio de filho pra pai, coisa meio rara nos últimos tempos, de maiores distanciamentos.
O pediatra que me emprestou o livro ressaltou que os ensaios Uma Breve História sobre os Estudos da Gíria e O Equipamento Linguístico Falado do Brasileiro, ambos do autor de J.B. Serra e Gurgel, integrando a parte inicial do volume, fortalecem a compreensão sobre o assunto temático, Modismo Linguístico Falado. Tudo tendo se iniciado a partir de O Dicionário de Calão, de Albino Lapa, datado de 1959, que resgatou os calões (gírias) da língua portuguesa a partir do século XV. No primeiro ensaio são destacadas as edições do Dicionário do Palavrão e Termos Afins, do pernambucano Mário Souto Maior, com apresentação do juiz Eliézer Rosa (a edição 1973) e prefácio de Gilberto Freyre (a publicada em 1979). O médico amigo ainda ressaltou que todo pai de adolescente deveria ser possuidor de uma obra de referência do quilate do Dicionário de Gíria, posto que, segundo ele, “através das gírias utilizadas pelos filhos, pode-se estabelecer o roteiro das suas andanças e das companhias por ele frequentadas”.
Pedi mais uma semana de prazo ao dono do dicionário. Para folhear com mais calma as setecentas e tantas páginas do “folhoso”, uma pesquisa efetivada com muita dedicação e fôlego. E aprendi mais uma lição, advinda de uma opinião emitida no livro pelo educador Arnaldo Niskier, intelectual brasileiro de notório saber: “A gíria não é um modismo linguístico utilizado apenas pelas camadas mais pobres da população. Incorporou-se aos usos e costumes do nosso vernáculo, não sendo justo qualificá-la como expressão de segunda categoria”.
Para terminar, está correto dizer que a senadora Ideli Salvatti foi com fogo no rabo (desapareceu) do plenário do Senado Federal, para fazer um curso no exterior, acompanhada de um “assessor para assuntos diversos”, que custaram muitos dólares aos cofres públicos. Ficando nós, eleitores que criticaram o descaramento, como cus de encrenca, criadores de casos.
(Publicada hoje no Jornal do Commercio, 28.10.2009, Recife-Pernambuco)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Suplicy e a cueca

Depois da irrestrita irreversibilidade, ultra-rapidamente revertida no dia seguinte, do senador Mercadante, desdizendo-se integralmente de rabichola entre as pernas, depois de ouvir a voz do seu dono, imaginava eu que nada mais vindo dos politicos brasileiros me impressionaria, hoje uma categoria que causa desprezo, quando não uma vontade imensa de neles aplicar uma baita bofetada nas urnas do próximo ano, da parte do eleitorado brasileiro consciente das suas funções cidadanizadoras.
Enganei-me redondamente, ao contemplar a fotografia do senador Eduardo Suplicy, aquele do cartão vermelho, de cueca também vermelha em pleno Congresso Nacional. Mais apatetado do que de costume, imaginando-se “super-homem”, demonstrando à mídia nacional uma acentuada senilidade, dessas encontradas nos asilos de idosos desassistidos, estes sem as remunerações taludas recebidas às custas de milhões de brasileiros.
A minha impressão, lendo depois as declarações “vitoriosas” da Sabrina Sato, aquela apresentadora metida a tampa-de-foguete que ofereceu a cueca porque desejava ver bem de perto a tão apregoada “bolsa” do Suplicy, um milhão e trocentas mil vezes anunciada por ele como “programa de renda mínima”.
O argumento utilizado pela “coxuda” Sato para o senador usar o artefato por cima das calças e em dependência do Congresso Nacional foi de uma precariedade mental acima de qualquer suspeita: “Trouxe uma coisa aqui que é só para você, que nenhum outro senador vai poder usar: a sunga do Super-Homem”. E disse mais: “Ele colocou e saiu voando comigo”. Sem perceber que a cueca não faria mesmo efeito algum, posto que ele já está “voando” há muito tempo, imaginando-se personalidade mais “ibopeada” que Tom Cavalcanti e Chico Anísio, dois talentos do humor nacional. Não percebendo, porque já situado fora dos limites mínimos da compostura, que o Congresso Nacional não é local apropriado para manifestações circenses, muito embora às vezes explicite uma imagem exatamente oposta, a de um grande picadeiro, onde pululam fatos e falas incompatíveis com o decoro parlamentar. Como ficar de cueca vermelha por cima das calças pelos corredores, tal qual o Pateta.
Para quem fica perplexo em ver um senador portando externamente uma sunga vermelha, deve ficar sabendo que o Congresso Nacional se localiza em Brasília, vulgo BSB. Capital apelidada pelos mais ácidos de Disney Brasileira. Muitos, contemplando o exibicionismo do senador em pleno Senado Federal, andam definindo aquela Casa como o maior presídio de segurança mínima do país. Verdadeira "Ilha da Fantasia", entrecortada pelo mais utilizado meio de transporte local, o Trem-da-Alegria.
Quando o senador Suplicy perceber o ridículo do seu comportamento, poderá ler reflexão de Bertrand Russel, um dos que honraram a condição de ser humano, inteligência privilegiada do século passado: “Existe um certo ascetismo do intelecto que é saudável como parte da vida, mas não poderá predominar enquanto continuarmos a ser animais empenhados na luta pela existência. O ascetismo do intelecto exige que, enquanto engajados na busca do conhecimento, saibamos conter todos os demais 'desejos' em benefício do desejo de conhecer. Creio podermos afirmar com certeza que 'todo' conhecimento é edificante, desde que tenhamos uma concepção 'correta' da edificação. Se este não for o caso, é porque temos padrões morais baseados na 'ignorância'. Dar-se-á, por feliz acaso, que um padrão moral baseado na 'ignorância' é correto, mas, em sendo assim, o conhecimento não o destruirá; se o conhecimento vier a destruí-lo, é que ele está errado. Por conseguinte, o propósito mais consciente deve ser unicamente o de compreender o mundo o mais possível, não para estabelecer esta ou aquela proposição 'julgada' moralmente adequada. Nisto, se o mundo é bom, que nos permitam então sabê-lo por todos os meios; se não é bom, deixem-nos saber também."
Encareceria apenas ao senador Suplicy a concretização de um gesto simples: a devolução da cueca vermelha para a apresentadora de televisão que o fez postar-se como manequim de lupanar. Para que os maldosos de plantão não fiquem imaginando que ele continua com a sunga se requebrando diante dos espelhos do banheiro do Congresso Nacional, imaginando-se pronto para mais uma decolagem para os interiores das urnas no próximo ano.
(Publicada, a partir de hoje, 22.10.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Diálogos da Contemporaneidade

Com o título Conselhos de Educação e Direitos Humanos: Diálogos da Contemporaneidade, o MEC, através da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, está divulgando texto elaborado por três reconhecidas inteligências – Antônio Paulo Rezende, Edla Soares e Paulo Henrique Martins – com a finalidade de discutir e debater questões pertinentes ao alargamento de uma cultura em Direitos Humanos para além das formulações educacionais restritas.
O documento é composto de três partes. Na primeira, Educação Escolar, Direitos Humanos e Conselhos, estimula a ampliação das responsabilidades dos colegiados na auditagem das estratégias imbricadoras implementadas entre o transmitir conhecimentos e o respeitar a dignidade humana dos educandos e das suas comunidades. Incentivando-os para um ir além dos aspectos decisórios meramente processuais, favorecendo a conscientização dos atores principais dos projetos educacionais: alunos, professores, dirigentes, conselheiros, famíliares e comunidades.
A segunda parte, Vida/Convivência, Direitos Humanos, Democracia e Conselhos de Educação, enaltece um agir pedagógico respaldado numa articulação compromissada como um direito inalienável de participar nos relacionamentos sociais, nas competições econômicas e nas disputas políticas, potencializando um caminhar libertador que resulte em vida abundante para todos.
Numa última parte, tão importante quanto às duas primeiras, Direitos Humanos, Sistemas de Ensino e Conselhos de Educação em Redes Associativas e Solidárias, estimula-se a emersão de uma malha dos conselhos de educação, multiplicadora de iniciativas fomentadoras do respeito aos Direitos Humanos, aqui entendidos de um modo amplo, geral e irrestrito.
Como balizamento norteador, o documento do Ministério da Educação, leia-se Secretaria Especial dos Direitos Humanos, estampa em página nobre um pensamento do escritor Ítalo Calvino (1923-1985), o “descobridor do fantástico no real”, nascido em Cuba, de pais cientistas italianos e considerado um dos mais importantes escritores do século 20: “cada vez que o reino do humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que, à maneira de Perseu, eu devia voar para outro espaço. Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob uma outra lógica, outros meios de conhecimento e controle. As imagens de leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonhos”.
Diálogos da Contemporaneidade, publicação do Programa Nacional de Capacitação de Conselheiros Municipais de Educação do MEC, é merecedor de calorosos aplausos. Por estimular uma histórica “desindividualização” dos Conselhos Municipais, num país de poucos primos ricos e muitos primos pobres, ensejando menores distanciamentos entre todos. Os textos incentivam a criação de redes articuladas entre Educação, Direitos Humanos e Conselhos de Educação, implementando uma dinâmica comunicacional através de dois tipos de redes: as Centralizadas e as Distribuídas. As primeiras definem uma estrutura que eleva um ponto (nó) a um grau de importância superior, fundamental a sua presença na ligação com os outros nós. O Programa Nacional de Capacitação deverá exercer as funções de uma Rede Centralizada, ainda que amplamente distributivista.
As Redes Distribuídas compõem uma malha, tal qual uma colmeia, tendo como objetivo primeiro o fortalecimento de todas as células, o enfraquecimento ou desmontagem de qualquer delas sendo com brevidade saneado pela contribuição solidária das demais.
As duas categorias comporiam, assim, uma Rede Social de profissionais e lideranças possuidoras de valores, equipamentos e diretrizes educacionais compartilhados, sem perda da autonomia programática de cada integrante.
Um livro que esclarece a importância da formação de Redes é da autoria do sociólogo Manuel Castells, podendo servir de alavanca aos Conselhos Estaduais e Municipais. Segundo Castells, em A Galáxia da Internet, “os usos da internet são esmagadoramente instrumentais e estritamente ligados ao trabalho, família e vida cotidiana. É uma extensão da vida como ela é, em todas as dimensões e sob todas as modalidades”. E mais ele disse: “novos desenvolvimentos tecnológicos parecem aumentar as chances de o individualismo em rede se tornar a forma dominante de sociabilidade. O desenvolvimento projetado da internet sem fio amplia as chances da interconexão personalizada para uma ampla série de situações sociais, dando assim aos indivíduos maior capacidade de reconstruir estruturas de sociabilidade de baixo para cima”.
Enaltecendo a iniciativa do Programa Nacional de Capacitação de Conselheiros Municipais de Educação e homenageando os autores do texto, aqui ressaltando a contribuição da educadora Edla Soares, notável Conselheira do Conselho Estadual de Educação de Pernambuco, ousaria oferecer duas sugestões ao MEC. A primeira, incentivar sem tibiezas a continuidade do Programa. A segunda, a de favorecer também uma capacitação dos integrantes dos Conselhos Estaduais, ensejando a integração deles aos municipais, numa efetiva REBRASIL - Rede Brasil Educação Cidadã e Direitos Humanos.
(Publicada, a partir de hoje, 19/10/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tipo Inesquecível

Outro dia, um jovem aniversariante de 75 anos, escreveu esta pérola: “Acho que a vida humana não se mede nem por batidas nem por ondas cerebrais. Somos humanos, permanecemos humanos enquanto estiver acesa em nós a chama da esperança da alegria. Desfeita a esperança da alegria, a vida perde o sentido. É isso que desejo quando acendo minha vela. Peço aos deuses que me levem quando a chama da esperança da alegria se apagar”.
O nome do jovem é Rubem Alves, que o Brasil das boas leituras conhece, aplaude e o tem como um guru muito porreta. Um escritor que exercita sua terapia através de uma sólida sabedoria, transmitida por múltiplos ensinamentos. Sem filosofês, nem aquelas afetações de olhinhos revirados e semblante bestalhão, típicas dos fingidos malabarismos transcendentais de carterinha, mais mealheiros que sementeiras.
Nos seu último livro, Desfiz 75 anos, editora Papirus, 2009, Rubem Alves aprimora com invulgar talento, sua capacidade de escrever com alegria d’alma, aquela que é mais eficaz que o simples prazer. Uma diferença por ele bem explicada: enquanto o prazer necessita de um objeto e tem um limite, a alegria só necessita da memória. Fica-se alegre somente em pensar num momento de felicidade vivenciado, jamais se saciando de uma fome de alegria. Rubem Alves é categórico: “Quem tem alegria está em paz com o universo, sente que a vida faz sentido”. E de quebra ainda cita o premiado guitarrista Norman Brown, que considera a perda da alegria uma consequência direta da ausência da simplicidade de viver, fortalecendo as pulsões do desistir, também conhecido por Tânatos, na mitologia grega.
A leitura do livro do Rubem deve ser concretizada como se ele estivesse contido num conta-gotas. Pingado bem devagar no interior de cada um, cada reflexão sendo degustada sem qualquer precipitação, os olhos percorrendo as linhas com a volúpia de quem deseja ser mais cidadão num país que necessita ser possuidor de uma distribuição de renda menos aviltante, nunca abjeta.
O texto Lições de Política detina-se aos eleitores 2010, aqueles que irão eleger os novos governados, o presidente da República, uma nova Câmara de Deputados e uma parte do Senado Federal, os dois últimos integrantes de um Congresso Nacional que urge ser solidamente higienizado pelos eleitores de todos os rincões. Apenas um ítem, como amostra: “’Todos os cidadãos são livres e têm o direiro de exercer a sua liberdade’. As galinhas são vegetarianas e têm o direito de comer milho. As raposas são carnívoras e têm o direito de comer as galinhas”.
Os textos do livro do Rubem Alves possuem, no final de cada um, reflexões de duas admirações suas: Fernando Pessoa e Miguel de Unamuno. Duas delas, uma de cada um, respectivamente: “Dói-me na inteligência que alguém julgue que altera alguma coisa agitando-se. A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana” ; e “Talvez que a imensa via-láctea, por nós contemplada nas noites claras, esse enorme anel do qual nosso sistema planetário não é mais do que uma molécula, não seja por sua vez, mais que uma célula do Universo do Corpo de Deus”. E muito vale a pena ler e reler o parecer por ele redigido, a pedido da reitoria da UNICAMP, sobre o educador Paulo Freire. Um primor de não-parecer, sem burocratês, nem academiquês pedantocrático.
A última página do livro é inesquecível para os que postulam uma evolução com radical respeito pelo meio ambiente. Uma página-bofetada aplicada nos prefeitos “modernosos”, que menosprezam o verde que não asfixia, favorecendo espigões que estrangulam sadios desenvolvimentos urbanos e ampliam congestionamentos, muros e medos. Intitulada Árvores, sinal de atraso ..., a crônica conta a história de uma cidade, cujo prefeito, de imbecibilidade ampliada por uma auto-proclamada empáfia – “O Município é eu” - estimulou o corte de árvores para que a cidade se tornasse melhor apreciada pelos situados nos altos.
(Publicada hoje no Jornal do Commercio, 14.10.2009, Recife-Pernambuco)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Abecedário da Crise

Aluna antenada de Administração me encarece uma bibliografia sobre a crise financeira mundial, apelidada meses atrás de “marolinha” por mandatário pródigo em acarinhar elites quando longe das massas, sempre que possível próximo dos sem-nada como paizão único e indispensável. Um político que binoculiza com competência muitos furos acima da sua agremiação partidária e dos seus descriativos opositores.
Confessando o meu distanciamento das Ciências Econômicas, comprometi-me a coletar indicações de especialistas vários do Curso de Economia da UFPE, um dos mais conceituados do país. E a indicação foi auspiciosa: uma seleção organizada pelo jornalista Sérgio Sister, enfeixada num pequeno livro chamado O abc da crise, Fundação Perseu Abramo, 2009.
Com menos de duzentas páginas, o livro fornece uma boa fotografia sobre o furacão financeiro que assolou o mundo em setembro do ano passado, volatilizando alguns trilhões de dólares a partir do centro nervoso do capitalismo mundial. Um tsumani financeiro que até mereceu um sagaz comentário do ex-poderoso ministro Delfim Netto, no jornal O Globo de 20 de setembro último: “As crises são próprias ao capitalismo. Nos últimos 150 anos, houve 42 crises. Umas maiores, outras menores. Esta foi diferente no sentido de que foi uma crise de omissão do Estado. Criou-se a mitologia de que o mercado era perfeito, resolveria sozinho qualquer problema. O mercado é um instrumento poderosíssimo, mas precisa de regras. Não há mercado sem Estado forte, justamente para garantir seu funcionamento. Não houve só um fracasso dos economistas. Houve um fracasso, na verdade, da orientação da teoria econômica”.
Com um exemplar nas mãos, uma leitura de fim de semana confirmou a excelência do lançamento. O pequeno livro analisa com clareza as diversas facetas da crise, suas origens, a ampliação das desigualdades causadas e as alternativas de superação. Na Introdução, o jornalista Sérgio Sister esclarece o objetivo dos textos: “contribuir para a compreensão da crise econômica e financeira que se abateu sobre o mercado financeiro norte-americano e que se alastrou pelo mundo, com força de um tsumani a partir de setembro de 2008”. E ressalta: “uma parte importante dos acontecimentos, talvez a maioria deles, foi ocorrendo sem que as pessoas se dessem muita conta do que estavam fazendo. São como que forças cegas, misturadas com oportunismo, empreendedorismo, altruísmo, malandragem, boa e má fé”.
As análises apresentadas nos ensaios estão sob um foco não-liberal, efetivadas por especialistas que não acreditam na crença da mão invisível do mercado. E a justificação da descrença é correta: “o pensamento liberal que imperou durante anos e anos, desde a década de 1980, hoje se atira aos pés do Estado, pedindo ajuda para cobrir rombos de bancos, oferecer créditos e impulsionar empresas e setores inteiros ameaçados de quebra e extinção.”
Alguns textos devem ser lidos com redobrada atenção: os do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, docente da UNICAMP, e os de Paul Krugman, Prêmio Nobel Paul de Economia 2008, um dos mais aplaudidos economistas norte-americanos. O primeiro ressalta que o problema também deve ser observado com as antenas voltadas para o próprio umbigo nacional, onde “ligada a ignição da ganância infecciosa, os tripulantes não podem brecar o expresso da alegria, até o comboio descarrilar”. E o segundo adverte sobre os sinais óbvios que antecedem as catástrofes financeiras, onde desresgulamentações generosas provocam bancarrotas em cascatas, gerando “soluções esparadrapos” que imobilizam os traumas, sem atentar para as causas estruturais dos estragos provocados.
O sociólogo Francisco de Oliveira, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, anuncia com lucidez, no seu texto Criar Cinco Embraer por Ano, a estratégia política para a superação da crise: “é uma questão delicada para ser tratada num debate aberto; sem oficialismos de uns nem preconceitos de outros. A história brasileira repete um impasse do desenvolvimento que não pode ser respondido com uma farsa porque seu resultado seria uma tragédia. Dessa vez o que se vislumbra como possível, repito, é fazer por baixo, bases sociais existentes, e organizações disponíveis, aquilo que nos anos 1930 e nos anos 1950 se fez por cima: destravar o desenvolvimento e expandir o mercado interno. É preciso tratar isso com cuidado, insisto, sem oficialismos do PT, sem o sectarismo do PSOL e do PSTU”.
Eu apenas acrescentaria uma coisinha à reflexão do Chico Oliveira: também destravar o desenvolvimento nacional sem os “messianismos ambientalistas” dos que, portando aloprados coletes verdejantes, se postam de detentores de uma panaceia para as desigualdades regionais brasileiras. Sem nem perceberam em que areias movediças estão se afundando.
PS. A ministra-candidata Dilma Rousseff afirmou recentemente, em entrevista-marketing, que a ideia do Estado Mínimo é falida. Sou favorável ao fortalecimento de um Estado Cidadão, necessário para coibir inchamentos estatais inconsequentes, também emulando iniciativas empreendedoras privadas socialmente responsáveis. Com Educação Pública de qualidade, sem fingimentos embromatórios.
(Publicada, a partir de hoje, 12/10/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Bussolamentos do João

Tão logo esmaeceram as comemorações pela escolha do Brasil para sediar as Olimpíadas 2016, no Rio de Janeiro, uma vitória indiscutível do presidente Lula, as rinhas políticas se ampliaram, preliminares 3x4 das refregas eleitorais 2010.
Nas comemorações havidas na Praça da Casa Forte, um lanche taludo aconteceu com o amigo João Silvino da Conceição, na manhã seguinte ao anúncio que alegrou milhões de brasileros e um montão de cariocas na praia de Copacabana. O João, que nunca foi de ficar de costas, sempre acompanhado de seus rabiscos em papel pautado, sua desolímpica sabedoria manifesta numa às vezes pouco sutil capacidade de enviar recados para gregos e troianos, independentemente dos saldos bancários, sobrenomes, níveis neuroniais ou neurológicos dos agraciados.
Sem a sua amada Dona Conceição, sete-arrobas morenas generosamente distribuídas e que muito bem nele satisfazem cabeça, tronco e membros há três décadas, aproveitou ele o lanche para me mostrar uns escritos reflexivos destinados aos futuros eleitos de todo Brasil. Sem a mínima preocupação de agradar siglas e gêneros. Nem os vereadores da PEC.
Os escritos do João Silvino me cativam pela sua sinceridade. Longe de ser um intelectual preparado, ele manifesta sua criatividade de maneira arguta, sem qualquer meio mas. Sem complicações hermenêuticas, tampouco simploriedades levianas. E sem abdicar de uma cidadania vinculada a uma responsabilidade social que busca transformar promessas em realidades, dando o melhor de si em qualquer circunstância.
Eis as “recomendações” do Silvino para todos os eleitos:
1. Um princípio não deve ser nunca olvidado: "em toda democracia, as respostas são difíceis diante de uma demanda facilmente induzida". E numa sociedade brutalmente injusta como a nossa, muitas pessoas desejarão respostas imediatas para seus problemas, requerendo uma gerência competente nas conflitividades estabelecidas.
2. Manifestações legítimas podem ficar empanadas por exteriorizações anarcoesculhambativas de grupelhos que apenas desejam emporcalhar o exercício da Cidadania Brasileira e as representações eleitas, só para tirar proveitos futuros, quando, para tais marginais, o xilindró seria o destino mais apropriado. Inclusive para os que, criminosamente, destroem laranjais.
3. Caridade é bonita. Aproveitamento da miséria dos outros é coisa bem diferente de uma efetiva pedagogia cidadã. Denegrir iniciativas passadas, hoje copiadas sem a menor cerimônia, é prova cabal de cretinice para os mais conscientes.
4. Participando todos de um único cosmo, nele estão refletidas esperanças, conquistas e humilhações. O adesismo cínico é tão grotesco quanto ingenuamente imaginar que alguns episódios e personalidades estrovengas do passado não poderão retornar jamais.
5. Quem só possuir apenas uma visão "economicista" jamais acreditará nas potencialidades do Ser Humano como construtor de amanhãs. A reflexão do saudoso Celso Furtado é sempre relevante: “O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Mas será que o triângulo é retângulo?”
6. Crítica política é uma coisa, chafurdices são outros quinhentos reais. Debates consistentes edificam a consolidação das cidadanias coletivas. Troca de desaforos ou entrevistas bem arrumadas nos meios de comunicação só engabelam os que ainda acreditam em Perna Cabeluda e Cumade Fulôzinha.
7. O Cristóvam Buarque, um pernambucano competente e de honorabilidade comprovada, sabe das coisas: "O caminho não está em repudiar o socialismo, ou ficar na crítica ao neoliberalismo. Mas em entender a dimensão da crise, perceber a realidade da luta de interesses e oferecer alternativas que incorporem as massas, sem perder o apoio das camadas que são assalariadas, mas que já participam do bem-estar do país moderno que é o Brasil".
8. Em qualquer circunstância, seguir o receituário de Lao-Tsé, reagindo inteligentemente mesmo diante dos tratamentos não inteligentes.
9. Durante o mandato exercido com dignidade, perceber, como Aldous Huxley, que “experiência não é aquilo que acontece com o homem; é o que o homem faz com aquilo que acontece com ele.”
10. E entender que a crise maior, nos últimos tempos, não é econômico-financeira. É uma crise de percepção, onde muitas das peças do xadrez político ainda não perceberam a existência de inúmeros pontos de um caminhar conjunto, para o fortalecimento do regime democrático através da ampliação da igualdade social.
No mais, disse João Silvino, é desejar sorte aos futuros eleitos, representantes legítimos de um brasileiríssimo processo gradativo de desoligarquização regional. Com o meio ambiente nunca sendo fingidamente utilizado como mecanismo eleitoreiro para anestesiamento dos tolos.
(Publicada, a partir de hoje, 08.10.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

sábado, 3 de outubro de 2009

Mar adentro

Quando das comemorações da entrada em um novo século, também milênio, recordo desafio feito ao mundo romano pelo carismático papa João Paulo II, uma liderança cristã incontestável: o de remar mar adentro, “recordando com gratidão o passado, vivendo com paixão o presente e abrindo-se com confiança ao futuro”.
Os objetivos daquele pontífice convergiam para o fortalecimento dos compromissos espirituais e pastorais da sua igreja, muito embora o seu desafio pudesse ser estendido às denominações cristãs e demais religiões da terra. Um desafio possuidor de uma intenção basilar, a de ampliar uma espiritualidade pastoral século XXI muito além dos avanços tecnológicos e dos métodos sofisticados da comunicação pós-moderna.
Por um novo dinamismo espiritual para sua igreja, eis a manifestação explicitada por João Paulo II nos primeiros degraus deste novo século, sem o qual a sua igreja se tornaria, cada vez mais, uma bolorenta empresa prestadora de serviços religiosos. Tanto ela, como as demais agremiações religiosas, a grande maioria mais envolvida com a captação de recursos das ovelhas que com uma evangelização libertadora capaz de bem cidadanizar os necessitados do robustecimento do binômio imanência x transcendência, para que todos tenham vida e vida em abundância, segundo o sonho joanino (Jo 10,10).
Se me perguntassem quais os principais “pecados capitais” das pastorais que sobrepairam a pós-modernidade, ousaria enumerar aqueles que mais estão afetando os mais diferenciados rincões religiosos, macro e microrregionalmente. O primeiro deles é o do ativismo, guiado por impulsos quase patológicos, efetivando iniciativas sem tom nem som, improvisadas, relegadas as reconstruções necessárias, indispensáveis. Como se o Oiapoque fosse igual a Nova York.
Um segundo pecado é o do falso messianismo, que consiste em agir como se a missão primeira fosse a gestão dos bens materiais da sua diocese ou paróquia, descuidando-se da edificação do Reino. Primeiro a corte e o cofre, depois o coração.
A cegueira culpável é o terceiro dos pecados capitais. Os que se imaginam acima do bem e do mal frequentemente nele incorrem, nunca percebendo o que há de desastroso em suas atividades, posto que, não sendo pastores, estão impregnados de auto-suficiência, de orgulho disfarçado, de inveja miúda, tornando-se tão somente preocupados com sua pomposidade litúrgica e os pronunciamentos recheados de duvidosa erudição. Além disso, nada entendem de conflitividade, preferindo o bajulismo dos oportunistas aos alertas dos independentes.
A esterilidade talvez seja o pecado que mais ressalta uma inexpressividade pastoral. O profeta Isaías já denunciava as uvas azedas (Is 5,1-7), condenando aqueles que não dão vida ao seu rebanho, dele se aproveitando para benefícios próprios, os interesses pessoais muitos furos acima dos coletivos, ainda que efetivados por debaixo dos panos.
Falar no idealismo ingênuo como pecado é redundância para muitos seguidores do Homão da Galileia. Todo idealista ingênuo critica amarga e duramente a hierarquia, as estruturas, utilizando instrumentos que não nascem da fé, muito menos do amor. Denotando ressentimentos pedradores das intenções construtoras.
Por fim, o despotismo, a inveja e o ciúme são os últimos “pecados capitais” da seleção feita. O despotismo é praticado por aquele que “sente-se dono das pessoas, do grupo ou comunidade, da paróquia ou diocese, acreditando que sempre tem razão”. A inveja, intrínseca à personalidade de inúmeros religiosos, afasta-os do acontecido com Saul (1Sm 18, 6-9), tornando-se o mais relevante impecilho de uma atuação mais integrada das lideranças leigas. E o ciúme, pior nos homens que nas mulheres, creio eu, é mais rancoroso nas cúpulas eclesiásticas que no “chão da fábrica”.
Travar o bom combate, eis o balizamento para gregos e troianos que acreditam na mensagem do Homão da Galileia, aquele filho amado de Maria e José, que um dia nos repassou uma dica maravilhosa, a de amarmos uns aos outros, sem qualquer salamaleque nem fuxicação.
PS. Um abraço de parabéns no Rev. Paulo Garcia pelo seu setentenário, externado esta semana em inúmeros outdoors da capital pernambucana.