Tem gente que só vive de parir poeira, eis a frase que o João Silvino da Conceição gosta de proclamar quando está no meio da sua turma, rodeado de garrafas vazias das mais variadas marcas e patentes.
A curiosidade vem de imediato: e o que é parir poeira? Para esclarecer, o João se engalana todo: parir poeira é produzir atordoamentos das mais variadas espécies com objetivos nunca explícitos, sempre induzidos por patologias variadas, tudo sendo efetivado pelo bel prazer de estabelecer divisões nos setores lúcidos, para implementação de mandonismos livres, nunca leves, sempre ao largo das elementares conveniências civilizatórias.
Para parir poeira, segundo o Silvino da Conceição, basta um receituário sem muita complexidade: uma gigantesca incapacidade de amar, uma sensação messiânica de salvador da pátria, uma inteligência voltada apenas para interesses pessoais, um derredor de aplaudidores de ocasião e um rosário de ontens sempre enaltecidos, embora nunca na devida conta comemorados pelos outros.
Segundo João, os paridores de poeira são identificados nas diferenciadas categorias sociais, nos dois gêneros, na oposição e na situação, em denominações religiosas, sindicatos e quartéis, entre eles sempre existindo a dúvida acerca de quem é o mais soberano, diante da existência de um só trono. Alguns se sentem sócios ou sósias de Deus, pouco se lixando para a advertência contida na primeira carta de Paulo aos coríntios: “Mas Deus escolheu o que para o mundo é loucura para envergonhar os sábios; e escolheu o que para o mundo é fraqueza para envergonhar o que é forte” (1Co 1,27).
Depois de mais de uma dúzia de questionamentos, com os esclarecimentos indispensáveis, o João Silvino encarece um pouco mais de atenção para fornecer algumas dicas que lhe foram repassadas por um nordestino muito arretado, Paulo Freire, já eternizado, após ter deitado raízes múltiplas e pluriideacionais num Nordeste com ânsia de novos horizontes. A primeira delas está no livro Pedagogia da Esperança, que Freire diz ser “uma defesa da tolerância, que não se confunde com a conivência, da radicalidade; uma crítica ao sectarismo, uma compreensão da pós-modernidade progressista e uma recusa à conservadora, neo-liberal”. E ainda revigora: “ou nos desenvolvemos cada vez mais e organicamente, ou pereceremos historicamente, isto é, nos transformamos numa vasta massa humana de teor de vida mais vegetativa do que histórica, carente de tudo e sob a proteção inevitável de um paternalismo”.
Uma senhora presente, ladina, visivelmente satisfeita, indaga do Silvino se as Escrituras Sagradas podem favorecer a conversão de um paridor de poeira. A resposta veio de bate-pronto: “Não só podem, como devem ser explicitadas diante do empoeirador: Quando dois homens se envolverem numa briga, terão que levar a causa ao tribunal (Dt 25,1); Que a mão do Senhor esteja sempre com todos nós, guardando-nos de males e livrando-nos de dores (1Cr 4,10)”.
Diz Silvino que a poeira quando for dissipada, sem vencidos nem vencedores, saberemos todos, cada um nos seus espaços específicos, cimentar muito bem os próprios caminhares, percebendo-nos sempre metamorfoses ambulantes, conscientes da misericórdia divina, que saberá consolidar para nós as obras de nossas mãos (Sl 90,7).
E aí foi a vez da mulher arguta: - Nas terras do mestre Vitalino, João, saberemos guardar no coração os ensinamentos do Senhor, sempre inclinando nossa inteligência para o discernimento, pois de há muito sabemos “como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento” (Pv 3,13).
A reunião findou com uma oração, todos encarecendo as graças suficientes para que a poeira não mais ofusque os olhos dos incautos, tampouco obstrua a caminhada de todos aqueles que buscam em Jesus de Nazaré seu principal facho de luz existencial, radicalmente respeitados os destinos futuros de cada Filho da Criação.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)
A curiosidade vem de imediato: e o que é parir poeira? Para esclarecer, o João se engalana todo: parir poeira é produzir atordoamentos das mais variadas espécies com objetivos nunca explícitos, sempre induzidos por patologias variadas, tudo sendo efetivado pelo bel prazer de estabelecer divisões nos setores lúcidos, para implementação de mandonismos livres, nunca leves, sempre ao largo das elementares conveniências civilizatórias.
Para parir poeira, segundo o Silvino da Conceição, basta um receituário sem muita complexidade: uma gigantesca incapacidade de amar, uma sensação messiânica de salvador da pátria, uma inteligência voltada apenas para interesses pessoais, um derredor de aplaudidores de ocasião e um rosário de ontens sempre enaltecidos, embora nunca na devida conta comemorados pelos outros.
Segundo João, os paridores de poeira são identificados nas diferenciadas categorias sociais, nos dois gêneros, na oposição e na situação, em denominações religiosas, sindicatos e quartéis, entre eles sempre existindo a dúvida acerca de quem é o mais soberano, diante da existência de um só trono. Alguns se sentem sócios ou sósias de Deus, pouco se lixando para a advertência contida na primeira carta de Paulo aos coríntios: “Mas Deus escolheu o que para o mundo é loucura para envergonhar os sábios; e escolheu o que para o mundo é fraqueza para envergonhar o que é forte” (1Co 1,27).
Depois de mais de uma dúzia de questionamentos, com os esclarecimentos indispensáveis, o João Silvino encarece um pouco mais de atenção para fornecer algumas dicas que lhe foram repassadas por um nordestino muito arretado, Paulo Freire, já eternizado, após ter deitado raízes múltiplas e pluriideacionais num Nordeste com ânsia de novos horizontes. A primeira delas está no livro Pedagogia da Esperança, que Freire diz ser “uma defesa da tolerância, que não se confunde com a conivência, da radicalidade; uma crítica ao sectarismo, uma compreensão da pós-modernidade progressista e uma recusa à conservadora, neo-liberal”. E ainda revigora: “ou nos desenvolvemos cada vez mais e organicamente, ou pereceremos historicamente, isto é, nos transformamos numa vasta massa humana de teor de vida mais vegetativa do que histórica, carente de tudo e sob a proteção inevitável de um paternalismo”.
Uma senhora presente, ladina, visivelmente satisfeita, indaga do Silvino se as Escrituras Sagradas podem favorecer a conversão de um paridor de poeira. A resposta veio de bate-pronto: “Não só podem, como devem ser explicitadas diante do empoeirador: Quando dois homens se envolverem numa briga, terão que levar a causa ao tribunal (Dt 25,1); Que a mão do Senhor esteja sempre com todos nós, guardando-nos de males e livrando-nos de dores (1Cr 4,10)”.
Diz Silvino que a poeira quando for dissipada, sem vencidos nem vencedores, saberemos todos, cada um nos seus espaços específicos, cimentar muito bem os próprios caminhares, percebendo-nos sempre metamorfoses ambulantes, conscientes da misericórdia divina, que saberá consolidar para nós as obras de nossas mãos (Sl 90,7).
E aí foi a vez da mulher arguta: - Nas terras do mestre Vitalino, João, saberemos guardar no coração os ensinamentos do Senhor, sempre inclinando nossa inteligência para o discernimento, pois de há muito sabemos “como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento” (Pv 3,13).
A reunião findou com uma oração, todos encarecendo as graças suficientes para que a poeira não mais ofusque os olhos dos incautos, tampouco obstrua a caminhada de todos aqueles que buscam em Jesus de Nazaré seu principal facho de luz existencial, radicalmente respeitados os destinos futuros de cada Filho da Criação.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

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