sábado, 21 de julho de 2007

O Homão de Nazaré

Filho muito amado de pais extremosos, era de profissão carpinteiro, idêntica a do seu pai,. Uma atividade que requeria saber escrever bem e fazer cálculos com precisão, requisitos básicos para o exercício de uma especialidade tida e havida, à época, como “de referência”.
Mesmo sem ter deixado nada rascunhado, possuía esmerado trato, consolidado na escola rabínica de Nazaré. Uma educação sinagogal, que lhe proporcionou uma formação apropriada de homem e de judeu, da parte não-aristocrática de um povo convicto de ter sido eleito por um Deus único.
Percebia-se escolhido para renovar a Aliança, tendo sido ungido como um não-integrante dos meios sacerdotais. Mas que estaria possuidor de um selo de aprovação já anunciado com antecedência de muitas centenas de anos.
Atuando num movimento liderado por um primo próximo, de nome João Batista, depois do assassinato deste constituiu grupo próprio, nele tornando-se Mestre, batizando até mais que o próprio parente e sempre apregoando rupturas dos modos de ser e de viver dos que persistiam em continuar sobrevivendo apenas sob a Lei.
Em suas andanças e falas, favorecia reencontros substantivos com os fundamentos judaicos, que deveriam renascer para o Pai, mesmo que da Lei não se retirasse sequer uma vírgula. Com falas, gestos concretos e proposições, jamais deixou de expressar o mais puro ideal judaico, sempre a reconhecer urgência de uma restauração imediata nos princípios basilares.
Apregoando que o vento soprava onde bem desejasse se manifestar, assegurava que somente os que praticassem a verdade poderiam ver a Luz, confimando sem restrições o transmitido pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
Sem intenção alguma de julgar quem quer que fosse, encontrava-se ciente sobre a identidade de quem o tinha enviado e de para onde deveria ir, jamais renegando suas tarefas de ser luz do mundo para os que pelejavam por vida e vida em abundância.
Convivendo com as mais diferenciadas categorias sociais, somente irava-se ao extemo com os hipócritas, aqueles fingidos que se travestiam do que não poderiam ser. E reiterou, em incontáveis ocasiões, que jamais rejeitaria os que dele se aproximassem, buscando novos comportamentos e saudáveis agires.
Ungido certa feita, e por uma vez segunda, com nardo puro, perfume importado de grande valia, recomendou que se guardasse uma certa quantidade para o dia do seu sepultamento, quando regressaria para o seio de quem o havia enviado como um mais que notável profeta.
Portando um idéario intrinsecamente (r)evolucionário para a sua época, o Homão de Nazaré desabridamente anunciava que nenhum escravo é maior que o seu senhor, como nenhum mensageiro seria maior do que o remetente, nunca desmerecendo sua condição de filho de Deus obediente.
Sem complexos de superioridade, inúmeras vezes repetiu, para os ensurdecidos de então, que todos aqueles que tivessem fé fariam coisas mais surpreendentes que as dele. E que ainda faria bem maiores que as por ele produzidas.
Com determinação solidária, apregoava que tocava flauta em praça pública, embora muitos nada percebessem ou não desejassem com ele dançar e que tampouco explicitavam entristecimento diante dos lamentos por ele entoados.
Em múltiplas oportunidades, condoeu-se dos cegos, coxos e prostitutas, exteriorizando entusiasmo pela fé demonstrada por todos eles, seres humanos que não possuíam qualquer empatia com os social e eclesiasticamente bem aquinhoados de então.
Não admitia a serventia simultânea a dois senhores, Deus e Dinheiro, anunciando que o amanhã já comportava suas próprias preocupações. E no seu dia-a-dia de militante garantia recompensa a quem oferecesse ajuda, nem que fosse um simples copo d’água fria, aos rejeitados da sociedade.
Aos que o classificavam de beberrão e comilão, louvava aos céus por somente proporcionar esclarecimentos mais significativos aos menorzinhos e aos que em nada se assemelhavam aos fundamentalistas de plantão.
Enalteceu os verdadeiros, dando como exemplo aquela viúva empobrecida que contribuiu com duas moedinhas numa coleta de dízimos. E para os que jejuavam, recomendava uma boa lavagem de rosto, tornando-o o mais alegre possível, para que ninguém pudesse constatar neles os sacrifícios praticados.
Durante um bom tempo, quase três anos, o Homão de Nazaré esperanças concretas semeou, como bom médico que buscava curar os não-sarados, nada exigindo além de muita solidariedade de uns para com os outros. Como um não exclusivista credal, através de parábolas e relatos que favoreciam uma rápida memorização, transmitia boas novas, anunciando a chegada próxima do Reino no íntimo de cada um. Demonstrando ainda aos incrédulos como saciar a fome de muitos mediante uma organização social compatível com a dignidade de todas as coisas.
Em momento algum, o Homão de Nazaré exigiu carteirinha institucional de qualquer dos seus admiradores, até prometendo estar sempre presente nos pequenos grupos que o reverenciassem. Sem brabezas, soube diluir no vazio o pleito de uma mãe obsessiva que cabalava lugares privilegiados para dois dos seus filhos, na mesa diretora do escritório do além-daqui.
Ajuntador especial de mentes e corações, bom semeador de palavras, o Nazareno alertava que o egoísmo corrói toda grandeza d’alma, dilapidando as candeias individuais que deveriam, solidárias, iluminar as veredas e os descampados das estruturas cósmicas. E de vez em quando repetia Isaías, um dos seus profetas preferidos, aquele mesmo que denunciava sem comtemporizações os que oravam apenas da boca para fora, muito distanciados do coração, considerando os ensinamentos religiosos apenas rituais ditados por alguns de outras eras.
Percebendo-se na reta final de sua estadia terrestre, anunciou que iria adiante de todos para a Galiléia, depois da sua imolação, sofrida no madeiro, condenado que foi como subversivo político e blasfemo religioso.
Antecipou-se aos poetas de agora há quase dois mil anos, ao asseverar que viver não era preciso, ainda que navegar fosse, sempre sob as coordenadas do “amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
O Homão de Nazaré nunca mais voltou. Mas continua mais vivo que nunca, muitos furos acima das instituições que o têm como porta-estandarte, ainda que algumas delas, metidas a única do pedaço, persistam em escondê-lo como propriedade debaixo dos documentos dos seus purpurados, desconhecendo os ensinamentos do mesmo Galileu: o de que não havia mais judeu, nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, posto que todos são um sob as bênçãos de um Criador que não tem nem cabelo, nem barba, nem bigode, tampouco traje e rosto, mas eternamente glorificado sob o inefável codinome Eu Sou O Que Sou.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Oração Sem Nome

No consultório do Clodoaldo Sampaio, um dos mais competentes odontólogos deste Recife de meu Deus, encontrei o amigo João Silvino da Conceição com os olhos marejados de lágrimas, bastante sensibilizado com um fato acontecido momentos antes, num ônibus de linha comum. Segundo ele próprio contou, uma senhora, nascida anos 40, bem vestida e semblante serenizado por uma confiança ilimitada, vinda de muito alto, tinha distribuído entre os passageiros a Oração Sem Nome. Um bilhete encontrado no bolso de um soldado estraçalhado por um granada quase ao término da Segunda Guerra Mundial.
Sem qualquer vinculação denominacional, o escrito do soldado morto estava vazado nos seguintes termos:
“Embora jamais tenha falado contigo, Senhor, nesta quase madrugada eu Te saúdo com toda reverência. Sabes, Senhor, que sempre me disseram que Tu não existias? Que Tu apenas fazias parte da imaginação dos tolos? Na minha ingenuidade, eu bobamente acreditei que aquilo que me diziam era a mais verdadeira das verdades.
Como Te encontrei? Tudo aconteceu por um mero acaso. Ontem à tardinha, na trincheira onde me encontrava sob o pipocar das metralhadoras, observando o céu todo estrelado, fui abraçado por companheiros de esquadrão como se irmão deles fosse. E ouvi pela vez primeira alguém rezar o Pai-Nosso.
Compreendi, então, Senhor, que alguns tinham me iludido, tentando afastar-me da Tua Palavra. Pois há pessoas que mudam o mundo e há outras que para nada servem. E alguns destes últimos tinham obstruído meus ouvidos, olhos e mente para que eu não pudesse ouvir nem ler Teus ensinamentos, nem compreender o sentido reestruturador das Tuas palavras.
Não sei se Tu acreditarás no que acima escrevi, nem no que vou declarar adiante. Mas neste inferno hediondo, repleto de desesperos e desilusões, de nenhuma alegria e de muita escuridão, eu encontrei a Luz e pude contemplar a Tua infinita misericórdia, ao ler um trecho de uma carta de Paulo aos Romanos, onde o evangelizador dos gentios assegurava que todo aquele que reconhecia Jesus como Senhor, acreditando firmemente na Tua ressurreição, um dia contemplaria a Tua face.
Obrigado por me teres encontrado, Senhor. Sei que o próximo combate será um dos mais cruentos. E é bem possível que eu dê com os costados na Tua Casa, tombando com inúmeros outros companheiros. Mas já não estou sentindo nenhum tico de medo, posto que desde ontem passei a acreditar nos Teus ensinamentos.
Já não mais receio a morte, Senhor. E se a minha hora tiver chegado, partirei com a certeza de que, muito feliz, estarei para sempre no Teu regaço”.
O inesquecível Chesterton dizia que há homens que fazem com que todos se sintam grandes. E há anões mentais que torcem para que todo mundo se torne um anão como ele, nunca levando na devida conta a advertência de Abraham Maslow, o pioneiro do conceito de auto-realização e autor da Hierarquia das Necessidades: “O que não vale a pena fazer, não vale a pena fazer bem-feito”.
O João Silvino da Conceição, arretado como sempre, dizia que os companheiros do soldado morto foram os grandes evangelizadores do militar. Como também foi evangelizadora aquela senhora sessentona que distribuiu a Oração Sem Nome entre os passageiros de um ônibus qualquer. Ela seguramente transformou um enfadonho itinerário num caminho iluminado para muitos.
PS. Para meus irmãos evangélicos, companheiros de caminhada cristã, também como eu sempre necessitados da infinita misericórdia de Deus.