sábado, 23 de junho de 2007

Jesus e Pedro, Nordeste Afora

Não conheço pessoalmente o consagrado cineasta Guel Arraes, mas gostaria muito que ele lesse o texto do Eduardo Hoornaert, historiador e professor da Universidade Nacional Autônoma do México, no livro-homenagem aos 80 anos de Pe. Comblin, A Esperança dos Pobres Vive, editora Paulus.
Segundo Hoornaert, depois de muitas andanças mundo afora, Jesus e Pedro se estabelecem no Nordeste. O Nazareno, olhar antenado, bem velhinho, cajado nas mãos, a face corada pelo sol, com a Torá, o livro sagrado dos seus primeiros tempos de sinagoga, ao alcance das mãos. Pedro, mais moço, observador recatado e temeroso de quase tudo, sempre ao lado d’Ele, circulando no meio das feiras e praças, prestando atenção para anotações noturnas dos ditos e chistes trocados por centenas de desempregados, de rostos estropiados por mil desesperanças, a fé inalterada no que se encontra muito acima do sol esturricante.
No passeio, desapercebidos de teólogos, exegetas e outros talentos, os dois se deparam com uma velhinha bem chochadinha, pano preto nos cabelos embirilados, a portar um caderno de apontamentos sobre uma teologia por demais apropriada para a região: a Teologia da Enxada. Escrita pelo padre belga nordestinado, oitentão de incansáveis andanças, morador da Casa da Árvore, Bayeux, Paraíba.
No texto de Hoornaert, lido, relido e muito apreciado, a Teologia da Enxada é considerada o mais audacioso projeto teológico de Mestre Comblin, explicitado sobre duas grandes vertentes, a da tradição da Igreja e a da teologia do povo. Segundo a velhinha, entusiasta primeira de um assentamento na periferia, “toda pregação da Mensagem deve ser capaz de ser entendida pelos mais desletrados, para que eles possam melhor compreender o que o Homão pede a cada um de nós”. Num ensino mútuo que lubrifica o querer.
Imagino um roteiro elaborado pelo Guel, com o Milton Gonçalves bem caracterizado de noventa anos, E com Pedro, caminheiro, sempre cauteloso, embora radicalmente apaixonado pelos ensinamentos recebidos. Ambos, com ouvidos bem grudados nas explicações da velhinha sobre as intenções da Teologia da Enxada: “uma comparação constante entre o significado religioso que o povo atribui à sua vida e o sentido que lhe atribui a revelação bíblica”, a ressaltar “uma cultura nordestina impregnada de valores cristãos”, ponto de partida das reformulações necessárias para um novo caminhar, existencialmente mais solidário e com os pés no chão, na direção de um agora sem demora de pão mais bem distribuído.
Muito material já existe, coletado em inúmeras pesquisas efetivadas por jovens estudantes. Em Tacaimbó, Pernambuco, e Salgado de São Félix, Paraíba, existem anotações para fazer roteiros da gota serena, a redundar num filme de bom tamanho e efeitos de bilheteria semelhantes aos alcançados por Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro. Uma produção que mereceria aplausos generalizados, mais uma vez a demonstrar a inteligência do trabalhador rural, sem lenço nem documento, sem letras nem posses, que aos poucos vai se percebendo como parte essencial de um país controlado por uma elite mesquinha, que crítica tudo que não estiver ao seu gosto, sempre a reproduzir o negativo do estrangeiro, desconhecendo que o nosso grande destino, como Nação, somente será consolidado a partir de uma efetiva integração nacional, de bem menos violência e bandidagem, muito socialmente solidária, economicamente mais equilibrada.
O final do filme retraria o Nazareno, o Pedrão e a velhinha, de mãos dadas com um sem-terra, um sem-teto, um sem-emprego e um com-fome, a pressentirem a chegada de novos tempos e horizontes para um planeta que está a merecer a convergência dos pensamentos díspares, resguardadas as individualidades, rejeitados os individualismos pernósticos ainda cheio de eiras e beiras, embora por tempos cada vez mais diminutos.

Decisão e Coragem

Tempos atrás, numa reunião com alguns decisores, deparei-me com um cenário inusitado para os meus botões. Depois de ampla discussão, mais de quatro horas, na elaboração de um arrazoado a ser enviado para várias autoridades sobre violência e criminalidade, alguns explicitaram uma frouxidão de bom tamanho. E a borradeira comportamental tornou-se mais lamentável, diante das explicações fornecidas, todas elas revestidas de uma bambeza de fazer inveja às mentes mais atoleimadas do Nordeste, uma região que necessita com urgência fortalecer suas virilidades cívicas, econômicas, religiosas e sociais, para não ampliar mais o conceito de região de coitadinhos que os demais brasileiros de nós possuem. Tampouco de região de fuxicos múltiplos.
O pior aconteceu no dia seguinte. Bem cedo, os ouvidos dos signatários testemunharam mil e outras desculpas de nula categoria, alguns arrependimentos pela deserção e umas tardias dores de cotovelo, na intenção ingênua de reparar o frouxismo desempenhado.
Fui testemunha ocular das posturas diarréicas. E fiquei a matutar com meus teréns sobre as razões do comparecimento dos frouxêncios à reunião. Por que cargas d’água deitaram falação e fizeram colocações, se os seus interiores mentais não respondiam ao mínimo desejo de honrar o documento, dignificando as calças vestidas e o gênero no batistério declarado? Pensei mais: será que o espírito do Cabo Anselmo neles se tinha encasquetado, para ensejar um repasse relatorial do acontecido aos senhores do mando conjuntural? Será que alguns trocados por ventura recebidos por serviços de subserviência prestados não estariam inoculados no caráter desses posicionamentos pusilânimes, tal qual aqueles cometidos pelos puxa-sacos de plantão, que mal disfarçam a vontade indômita de lamber as mãos dos superiores, tenham eles as paranóias que tiverem? Ou será que a turbulência da pós-modernidade está a favorecer um amoralismo desvirilizatório, que deixa a cidadania de quatro e a paciência dos moralmente bem equilibrados zerada?
Outro dia, citei neste canto de página um teólogo contemporâneo, John Stott, anglicano mundialmente querido e aplaudido. Dele é a autoria de um livro reeditado recentemente, preciosidade de primeira grandeza. E é com base no Cristianismo Básico de Stott, que envio alguns procedimentos anti-frouxurais para os ananicados de carteirinha.
Segundo Stott, o palavrório piedoso é deplorável para quem busca assumir conscientemente seu papel. Inúmeras vezes, na vida, é preciso dar um passo adiante, mesmo correndo os riscos dos mais variados calibres. E a busca de uma postura mais condizente com a cidadania pessoal e a resistência denominacional exigem saber analisar com diligência; postar-se com humildade sem qualquer poltronaria, posto não estar dirigindo cavalos e mulas (Sl 32,9); colaborar com sinceridade, mente sempre aberta aos demais como parceria; obedecer às regras estabelecidas previamente, sem se deixar envolver pelos oportunismos baratos, nem pelos catecismos da infância, por mais atropelada que ela tenha sido.
Bom seria que os amarelados da reunião percebessem o pensamento do apóstolo Paulo de Tarso, quando ele chicoteia “os homens que com as suas maldades suprimem a verdade” (Rm 1,18).
John Stott diz ainda que “o medo é o maior inimigo da verdade”. E eu diria que a atrofia daquilo é, talvez, a maior epidemia do século XXI, ratificando o que a minha querida mãe Maria Luisa dizia quando o Zé e eu ainda éramos adolescentes: quem muito se abaixa o bernardino aparece. Uma lição inesquecível para nós, à época engatinhantes na Vida, filhos de pais remediados, mas que nunca se deixaram levar pelas sereias da frouxura, da pusilanimidade e da fuxicosidade, como se salário e posição social fossem as coisas mais importantes do mundo, depois de lavadas as mãos da sujeira imunda da covardia abjeta.

sábado, 9 de junho de 2007

Sinalizações para a Vida

Para aqueles que reclamam de tudo, nem mesmo se suportando mais, vale a pena uma paradinha para ampliar um enxergar mais condizente com os desafios de um mundo que rapidamente torna-se cada vez mais diferenciado.
Levando sempre em alta conta duas sinalizações, uma feita pelo economista Celso Furtado (“O planejamento não deve destruir as raízes da criatividade”), a outra advinda do professor William Edwards Deming ("A transformação não significa apagar incêndios, resolver problemas ou criar melhorias simplesmente cosméticas. A transformação deve ser feita por pessoas que detenham um profundo conhecimento"), alguns balizamentos tornam-se indispensáveis para os profissionais de todos os quilates.
Muitos executivos brasileiros, de instituições públicas e privadas, ainda não perceberam que suas áreas de comando se encontram em processo de decomposição. Por não atentarem, eles e seus profissionais, que o trabalho se despojou de uma simples materialidade, tornando-se pólo gerador de um paradigma onde despontam a criatividade, a parceria, a flexibilidade, a versatilidade e a capacidade de apreender.
Como aprimorar uma trabalhabilidade que reflita a capacidade do ser humano desenvolver competências, aprofundar o auto-conhecimento, ampliar parcerias e assumir posições de comando? E como desmontar as cavilosidades dos invejosos, daqueles que não conseguem assimilar, por vaidade patológica ou desatualização gerontológica, a dinâmica dos tempos de agora? Eis os desafios para jovens e veteranos.
Miguel de Cervantes, o pai do Dom Quixote, proclamou que “não há amizade, parentesco, qualidade, nem grandeza que possam enfrentar o rigor da inveja”. Uma tese que pode ser superada, se eficazmente vivenciadas algumas diretrizes comportamentais: 1. Leve em consideração que grandes amores e novas conquistas envolvem grande risco; 2. Quando perder, não perca a lição; 3. Observe os três R's: Respeito a si mesmo, Respeito aos outros e Responsabilidade por todas suas ações; 4. Lembre-se que não conseguir o que você quer é algumas vezes um grande lance de sorte; 5. Aprenda as regras de modo a saber quebrá-las da maneira mais apropriada; 6. Não deixe uma disputa por questões menores ferir uma grande amizade; 7. Quando perceber que cometeu um erro, tome providências imediatas para corrigí-lo; 8. Passe algum tempo sozinho todos os dias; 9. Abra seus braços para as mudanças, sem abrir mão de seus valores; 10. Lembre-se que o silêncio é algumas vezes a melhor resposta; 11. Viva uma vida boa e honrada. Assim, quando ficar mais velho e pensar no passado, poderá obter prazer uma segunda vez; 12. Uma atmosfera de amor em seu ambiente é fundamental para a vida; 13. Em discordância com entes queridos, trate apenas da situação corrente, sem levantar questões passadas; 14. Compartilhe amplamente o seu conhecimento, uma maneira de alcançar a imortalidade; 15. Seja gentil para com a terra; 16. Uma vez por ano, vá a algum lugar onde nunca esteve antes; 17. Lembre-se que o melhor relacionamento é aquele em que o amor mútuo excede o amor que cada um precisa do outro; 18. Julgue o seu sucesso por aquilo que teve de renunciar para consegui-lo; 19. Entregue-se total e irrestritamente nas mãos de Deus, consciente do seu papel de também construtor do Reino; 20. Sinta-se em contínua superação.
E entenda cotidianamente o pensar do saudoso João Cabral de Mello Neto: “E não há maior resposta que o espetáculo da vida”.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Ovelha ou Protagonista?

Numa das suas últimas passagens por terras nordestinas, o teólogo brasileiro Carlos Eduardo Calvani, um dos talentos anglicanos mais elogiados pelos não-paranóicos, reproduziu para os que o assistiam, o parágrafo inicial de um texto de sua autoria: “Rótulos são perigosos. Eles funcionam como camisas-de-força ou armaduras que nos aprisionam numa posição, impedindo muitas vezes a liberdade de desviar-se daquelas linhas previamente definidas na rotulação. A história da teologia em nossa Comunhão Anglicana está marcada por pelo menos três grandes rótulos que definem certos posicionamentos teológicos. Costuma-se dizer que há anglicanos "evangélicos", "anglo-católicos" e "liberais". O grande problema da rotulação é que a ela se seguem determinados discursos explicativos de cada uma dessas tendências, e tais discursos na maioria das vezes, além de ingênuos e pouco claros, estão recheados de preconceitos.” E salientou ainda sobre a necessidade dos cristãos de todas as denominações serem mais que simples “ovelhas”, percebendo-se “pedaço significativo na construção do Reino de Deus”.
Em sua aplaudida Teologia Sistemática, recentemente no Brasil lançada em quinta edição revista pelas editoras Escola Superior de Teologia e Editora Sinodal, o teuto-americano Paul Tillich (1886-1965) identifica o dever de um sistema teológico satisfazer duas necessidades básicas: “a afirmação da verdade da mensagem cristã e a interpretação desta verdade para cada nova geração.” E ele mesmo com destemor declara que “elevar algo finito e transitório a uma validez infinita caracteriza uma postura fundamentalista que possui traços diabólicos”. Para alegria dos mais antenados com estratégias evangelizadoras que buscam “reconhecer os sinais dos tempos”, sendo também devedores, como o apóstolo Paulo, de gregos e bárbaros (Rm 1,14), eis que a editora Paulus divulga texto de um militante cristão romano declaradamente apaixonado pela sua Igreja. Ovelha ou Protagonista? – a Igreja e a Nova Autonomia do Laicato no Século 21, de Renold Blank, que acredita sem pestanejar que a Igreja é capaz de ouvir propostas e proposições de nunca-ovelhas. Capazes de torná-la menos distanciada do mundo urbano brasileiro contemporâneo, onde se localiza mais de 70% das pessoas. Uma salutar manifestação que deverá favorecer novos multiplicadores nas demais denominações cristãs, muitas delas, hoje, unicamente voltadas para um como melhor amealhar, posto que “ganham vida à custa dos pecados do povo e por causa disso querem que o povo peque” (Os 4,8)
O livro do Blank pode ser tema de debate nos centros religiosos ecumênicos, que se percebem partes intercomplementares na construção do Reino. E que buscam substituir uma mentalidade de instituição por uma mentalidade de comunhão e que não prescindem da colaboração dos leigos nunca-ovelhas, emancipados “que rejeitam as antigas estruturas feudais e hierárquicas, em nome de sua própria autonomia, liberdade e responsabilidade”. Sempre com a caridade devida para com os ingênuos, aqueles que agarram-se nas autoridades, temendo qualquer superação dos conceitos mortos.
Toda passividade, inclusive a do laicato, é o primeiro passo para a indiferença e o distanciamento dos mais responsáveis em qualquer denominação religiosa. Compete ao leigo consciente das diferenciadas denominações cristãs perceber-se “em missão”, para travar o bom combate, sempre atentos às palavras de Oséias: “Chamem a seus irmãos ‘meu povo’, e a suas irmãs ‘minhas amadas’” (Os 2,1)
A figueira cristã da parábola lucana (13,6-9) mostra um ser humano a encarecer ao dono da vinha mais um ano, tempo necessário para adubar o seu derredor. O tal “encarecedor” é um leigo, inserido no contexto campal da época, que ousou pedir prazo para recuperar a arvorezinha. Um protagonista, certamente, consciente do seu papel. Jamais uma ovelha bobalhona.
Jornal do Commercio, 06.06.2007