quarta-feira, 26 de março de 2008

Um Dom José de muita saudade

Apesar dos posicionamentos religiosos advindos, nos últimos tempos, de múltiplas denominações cristãs, espanta-me o crescente acocoramento de todas elas diante das gritantes crueldades sociais que se multiplicam em nome de uma globalização que apenas amplia as desigualdades regionais. Parecendo estar valendo novamente aquela máxima que proclamava ter que sofrer bem muito por aqui caso se desejasse ingressar em definitivo nas mansões celestiais.
Entretanto, um livro editado pela Paulus, em meados da década passada, amplia esperanças e reduz angústias em todos aqueles que buscam seguir princípios religiosos para “remover montanhas”, percebendo que Deus nada pode fazer por um povo que sofre sem pão, segurança e sem trabalho, se não contar com as “minorias abraâmicas” - expressão muito feliz de Dom Hélder Câmara, o autêntico Dom -, aqueles abnegados que discordam de “uma igreja preocupada consigo mesma, ensinando uma salvação que por vezes se torna utópica, persistindo em um evangelho voltado para si mesmo e, o que é pior, para um sistema de religiosidade que impõe barreiras à prática do verdadeiro evangelho da justiça, praticado e ensinado por Jesus”, reproduzindo as palavras do pastor Aguinaldo Castanheira, da Igreja Batista Getsâmane, Belo Horizonte-MG.
O livro acima mencionado é Dom José Maria Pires – Uma Voz Fiel à Mudança Social, coleção dos pronunciamentos feitos, de março de 1966 a dezembro de 1995, por Dom Pelé, como era carinhosamente chamado, dada sua negritude, quando da sua gestão episcopal à frente da Arquidiocese da Paraíba. Uma coleção meticulosamente organizada por Sampaio Geraldo Lopes Ribeiro, um paraibano que se tornou escudeiro de Dom José, que sempre o acompanhou, mesmo ele como ex-arcebispo, nas suas andanças evangelizadoras pelos interiores das Minas Gerais, encantando públicos sempre numerosos.
Os testemunhos contidos no livro sobre Dom José Maria Pires redobram os ânimos dos que combatem sem denodo “uma miséria generalizada, que assume proporções alarmantes, produto de um processo historicamente desencadeado a partir de fatores econômicos, políticos, sociais, culturais e, por que não dizer, religiosos”, a exigir um novo entendimento planetário, uma nova concepção de desenvolvimento, “para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Vale transcrever alguns: “O Brasil inteiro deve um preito de gratidão a esse homem, ao mesmo tempo meigo e enérgico nas mais diversas posições” (Dom Paulo Evaristo Arns); “Dom José Maria Pires é, para mim, o exemplo vivo do autêntico discípulo de Jesus. Negro, nunca negou a raça. Ousado, jamais temeu defender a causa dos pobres e os direitos humanos” (Frei Betto); “É ecumênico e macroecumênico, como por natureza. Está com o Povo, faz-se Povo. Sendo mineiro, se fez nordestino; sendo arcebispo, se fez companheiro” (Dom Pedro Casaldáliga); “O povo o amava porque sabia e sentia que ele estava realmente dedicado, fiel à sua palavra e comprometido com a causa dos excluídos.” (Pe. José Comblin).
A sua última Carta Pastoral, sua Mensagem de Despedida, é documento que deveria ser lido e relido por todos aqueles que desejam ser bispos de mesmo, sem faniquituices nem pruridos moralistas. Uma Carta Pastoral que revela fraquezas e vitórias, decepções e alegrias, deficiências e uma vontade férrea de servir ao Senhor com alegria. Com uma franqueza ímpar, Dom José revela: “Minha paraibanidade está cada vez mais comprometida com os pobres. Tenho que ser fiel a eles, para ser fiel a ela. Cidadania só existe quando todos têm casa, comida, trabalho, educação, saúde e lazer”.
Dom José sabia falar. Falava com elegância, voz máscula a serviço do Senhor, solidária com os excluídos da Vida. Foi ele que, destemidamente, após a resignação de Hélder Câmara, manteve, no Nordeste II, a palavra evangelizadora dele.
Pe. Comblin tem toda razão sobre Dom José: “A Paraíba não se esquece dele!”
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife-PE, em 26.03.2008)

terça-feira, 25 de março de 2008

Encontro de Paixão, 20 Anos Depois

Ganhei este ano um presente de Páscoa diferente. Um “alimentador” que há mais de duas décadas buscava reencontrá-lo nas capitais brasileiras, após havê-lo perdido para alguém que agora não me recordo, que o havia solicitado para um manuseio de final de semana. A busca recuperatória de exatamente um quarto de século foi coroada de pleno êxito graças aos excepcionais recursos internéticos utilizados pelo mundo atual.
Conto o caso como o caso foi, nunca esquecendo Paulo Cavalcanti, um grande conhecedor de Eça de Queiroz, além de comunista de muito caráter e idealismo, promotor público de primeira grandeza. Logo depois que foi lançado o livro Cidadela, de Antoine de Saint Exupéry, em 1982 pela editora Nova Fronteira, adquiri um na saudosa Livro 7, do Tarcísio Pereira, destino de todas as manhãs dos meus sábados de então. Local de encontro para papos dos mais variados calibres entre técnicos, cientistas, literatos e anedotistas, todos voltados para amanhãs brasileiros mais libertários.
Gosto de ler livros rabiscando as páginas, sublinhando linhas ou ressaltando nas margens os pontos mais relevantes. Quando já estava ultrapassando a metade das mais de quinhentas páginas de Cidadela, meados de 1984, alguém que visitava a Fundação Joaquim Nabuco solicita de empréstimo o livro que eu elogiava sem moderação. Depois de mais de trinta dias, o livro me foi anunciado como perdido. Com edição esgotada, nas principais livrarias recifense nenhum sinal do bendito.
Vez por outra, quando emergia a vontade de concluir a leitura de suas páginas, Cidadela voltava a ser procurado. Em vão. Até que, este ano, o endereço de um site muito apropriado para os amantes da boa leitura me foi dado por um irmão muito amado, o Arãozinho Parnes, brasiliense por atividades profissionais desempenhadas na esfera federal: www.estantevirtual.com.br. Uma cooperativa de quase seiscentos sebos, atendendo mais de três mil e quinhentos cidades brasileiras, com um serviço de entrega primeiromundista.
E o reencontro de seu, mais de vinte anos depois. A remessa de Cidadela acontecendo através de um sebo situado em Belo Horizonte, o exemplar em perfeito estado de conservação, sem um risquinho sequer.
Cidadela foi publicado na França em 1948, Éditions Gallimard, quatro anos após o desaparecimento de Exupéry no mar. Ele começou a trabalhar a obra em 1936, sempre afirmando aos amigos que estava escrevendo um poema. Em 1943, os originais já continham mais de novecentas páginas datilografadas. Exupéry costumava confidenciar aos mais íntimos: “em comparação com essa obra, todos os meus outros livros não passam de exercícios”.
Seus pensamentos eram inicialmente escritos em pequenos cadernos, numa caligrafia de poucos amigos. Sob forte instinto premonitório, Exupéry, poucos dias antes do seu trágico fim, em 31 de julho de 1942, solicitou ao seu superior, coronel Gavoille, que entregasse o seu espólio ao Dr. Georges Pélissier, caso não mais retornasse das suas missões aéreas.
Embora seja Exupéry considerado por muitos como intelectual que tenha perdido a fé, Cidadela é um conjunto de reflexões de um ser humano que está a procura de Deus. Em busca profunda por um novo conceito civilizatório, a partir dos excelentes estudos de filosofia adquiridos nos bancos escolares de juventude. Como biógrafo, Marcel Migeo classificava Exupéry como “um dos homens transcendentes do seu século”.
Confesso que o reencontro com Cidadela foi por demais excitante, somente testemunhado pela Melba, meu facho de luz existencial. Como um filho pródigo, recebi o livro de braços abertos pelo Sedex, numa embalagem impecável.
Duas frases do livro, para os leitores deste blog muito estimado: “Dar é lançar uma ponte por cima do abismo da tua solidão”; “o presente é sempre a única coisa que urge pôr em ordem”.
PS. No site citado, dois ou três exemplares de Cidadela pelos sebos Brasil afora. Aos interessados, sucesso!
(Publicado Portal da Globo Nordeste, Colunistas 360, março de 2008)

terça-feira, 18 de março de 2008

Guerra por Talentos

O afilhado mais novo do João Silvino da Conceição, recentemente tornado fera de um curso superior, me pergunta sobre as perspectivas futuras dos atuais universitários, num amanhã que já se faz presente nos cenários mundializados de agora. A resposta que eu lhe ofereci está calcada no ponto mais crítico dos atuais indicadores estatísticos, segundo as revistas especializadas: a falta de novos talentos para cargos executivos. Um estrago que causará impactos negativos bem maiores que os benefícios proporcionados pela Internet, pelas ultra-rápidas alterações tecnológicas e pelas mutabilidades quase diárias de um mercado de bens e serviços cada vez mais interdependente.
Em escala planetária, o mundo empresarial se depara com uma convergência de fatores antes nunca acontecida, envolvendo índices demográficos, alterações sociológicas e reestruturações organizacionais, sem levar na devida consideração a ampliação da competitividade. Os prognósticos analíticos dos institutos mais consagrados apontam para uma situação preocupante: se as empresas menosprezarem a demanda de executivos qualificados, poderão se ver fora dos contextos concorrenciais em poucos anos. A própria atual crise norte-americana é em parte causada pela deficiência de talentos executivos, a começar pela própria figura presidencial, sem sombra de dúvidas uma das personalidades mais grotescas da história política da grande nação do hemisfério norte.
Uma estatística dos países desenvolvidos aponta para a relevância da questão: entre 2000 e 2015, o número de pessoas entre 35 e 45 anos – o conhecido talent pool (fonte de talentos) se reduzirá em 15%. Com dois fatores adicionais: as Faculdades de Administração, as mais conceituadas logicamente, estão desenvolvendo analistas de negócios, relegando a segundo plano a formação de lideranças profissionais; e o crescimento quantitativo das pequenas e médias empresas, bem mais atraentes que as gigantescas, que estão se despersonalizando velozmente, graças a uma incapacidade de ampliar, além das faixas salariais, o prazer em seus ambientes de trabalho.
Os sinais dessa emergente crise de talentos também podem ser dimensionados por outros sintomas: a rotatividade de altos executivos – segundo levantamento realizado pela Management Review, mais de 40% dos novos executivos contratados fracassam antes de completar dois anos de trabalho; a impotência das organizações em identificar e manter os executivos mais vocacionados; e um falho sistema de formação de novos talentos, por uma atenção quase exclusiva na preparação de recursos humanos que atendam apenas as necessidades da organização.
A ausência de talentos nos países desenvolvidos acarretará um gigantesco prejuízo para as regiões que estão buscando ocupar seus espaços no cenário internacional. O Brasil como um todo é exemplo marcante na América Latina. A recrutação de novos executivos até nas regiões mais desenvolvidas reduzirá, em futuro próximo, o nível de reposição, acarretando uma competitividade capenga, sem as indispensáveis muletas estratégicas. Para se ter um exemplo desesperante, em São Paulo, Folha de São Paulo de 14 de março 2008, pesquisas educacionais apontam para uma gigantesca ignorância em matemática elementar: mais de 80% dos estudantes do ensino público daquele estado não dominam os princípios básicos da ciência dos números.
No Nordeste, particularmente em Pernambuco, uma liderança estadual ainda marcante no cenário regional, poderemos não ter um Vale do Silício. Mas certamente devemos evitar o surgimento de um Vale do Soluço, todo mundo a lamentar o leite derramado.
Que as nossas lideranças empresariais mais significativas possam, através de uma ampla conjugação de esforços com o Executivo Estadual, sobrepujar os obstáculos que já se agigantam. Para continuarmos a ser Leão do Norte, brasileiros acima de tudo.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com)

sábado, 15 de março de 2008

Para uma Jovem

Não a conheço, amiga, nem de vista nem de sobrenome. Mas seu apelo nos Classificados do Jornal do Commércio do Recife, no domingo passado, me sensibilizou fortemente. Apesar de não saber onde seu pai se encontra, aquilatei bem o seu desejo de tê-lo de volta, para romper o silêncio e quebrar os muros invisíveis que estão atrapalhando o relacionamento de vocês dois.
Tenho a convicção plena de que separação judicial dos seus pais não deve impossibilitar um relacionamento sadio entre pais e filhos, posto que as partes são interdependentes e se necessitarão para todo o sempre, como complementações d’almas.
Às vezes, cara jovem, os fatos da vida não acontecem como os pais desejam, por mais que tenham feito todo o possível. Diante dos atropelos, enxergá-los como feitos revitalizadores altamente corretivos para todos, inclusive para os que não compreenderam de pronto a dinâmica do acontecido.
Admirei muito a sua maturidade, Maria Verônica. Hoje, mais que nunca, é preciso romper o silêncio e quebrar os muros que de há muito foram edificados pela humanidade. Acreditar nas possibilidades dos impossíveis é dever de todo aquele que tem a Esperança como sua base sobrevivencial primeira. E você, buscando a reversão de um nunca mais, transcende o simplesmente racional, procurando amarrar pontas, pelejando consigo mesma, no tempo e no espaço, para viabilizar sonhos acalentados, utopias sadias que bem retratam comprometimentos com pessoas e fatos de um cotidiano cada vez mais agressivo e angustioso.
Parabenizo-a, Verônica, pela sua "ousadia". A "ousadia" de movimentar-se na busca de um resultado estabelecido. Você está plenamente consciente de uma verdade muito divulgada: todo ser vivo torna-se bem menos vivo a partir do instante em que não mais se movimenta na busca de um ideal.
É certo que você, em inúmeras horas, perceber-se-á repleta de incertezas mil, com uma sensação de estar fazendo papel de tola, a correr o risco de expor-se ao ridículo, no seu círculo de amizade. Jogue fora esse sentimento mesquinho. Das suas incertezas faça brotar a grandeza de uma radical confiança no reencontro com o seu paizão querido. Nem que seja para um reencontro social apenas, posto que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, proclamação do poeta Fernando Pessoa, para quem também “tudo que brilha, olhos de Deus são”.
Você jamais será derrotada pela omissão, Verônica. A sua confiança na "inspiração que faz crescer", explicitada na imprensa, bem fundamenta a sua caminhada. Que deverá ser entendida como um caminho trilhado sobre os dois conceitos que consubstanciam a sua própria existência: escuridão e certeza. Integrar-se na escuridão para melhor entender os "porquês" da distância pai-filha, eis o nascedouro da sua certeza.
Como pai, agora também avô todo coruja da Mariana, da Maria e da Júlia, permita-me enviar-lhe uma reflexão de Inácio Larrañaga, um espanhol que dedicou sua vida à América Latina: "Nunca se deixe levar pela ilusão. Ela é parecida com a esperança, mas é o contrário dela. Saiba discernir o esforço da violência, e a ilusão da esperança. Nunca sonhe em conseguir emoções fortes. Porque, se não as conseguir, vai impacientar-se. A impaciência vai gerar a violência, isto é, vai tentar conseguir aquela impressão à força. A violência vai gerar a fadiga, e a fadiga degenerará em frustração".
Desejo-lhe mil sucessos reconciliatórios, amiga. Para seu paizão, também para mim um desconhecido, os votos de maturidade para compreender um apelo amoroso de filha, jamais piegas. Ele certamente também está a sentir as seqüelas de uma separação conjugal não-desejada, muito embora, às vezes, irreversivelmente necessária.
Feliz reencontro, Maria Verônica!! Que o amanhã lhe seja cada vez mais recheado de concretizações, sem nunca olvidar o poeta Pessoa, de minha admiração maior, também chamado Fernando Antônio: “A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos. Só nós somos sempre iguais a nós-próprios”.
Uma Feliz Páscoa, paizão da Verônica! Não permita que animosidades passadas o atormentem. Vá assistir Antes de Partir, com os talentosos Nicholson e Freeman. Para reenergizar-se, abandonando as possíveis puritanices cavilosas de ovelhas moralistas. Reencontrar a Verônica faz parte do seu caminhar de pai. Esteja convicto de que seu gesto reconciliatório iluminará mais fortemente o espetáculo chamado Vida.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Por uma sociedade menos malvada

Um ensaio oportuno, edição Vozes - Democracia Econômica – Alternativas de Gestão Social -, serve de alerta para os que estudam e analisam os processos de decisão que enfeixam a denominação governança. Que vão muito além das apenas eleições periódicas dos nossos representantes políticos. Procedimentos que envolvem vidas, valores e futuros de um planeta que se encontra numa asfixia provocada por gigantes corporativos sem qualquer controle social.
As análises são da autoria de Ladislau Dowbor, um PhD em Ciências Econômicas e professor titular da PUC de São Paulo, também consultor das Nações Unidas. Que ressalta, apoiado na literatura internacional, a urgência da adoção de soluções que ultrapassem as simplificações tradicionais de um contexto social hoje dicotomizado entre empresas e Estado. Soluções que emergirão através da disseminação gratúita do conhecimento, única via para uma efetiva e duradoura democratização do desenvolvimento global.
Segundo Dowbor, as novas realidades estão a exigir formatações diferenciadas dos estudos e interpretações vigentes, desatrelados dos problemas correlacionados com o aquecimento global e com a contaminação crescente dos recursos hídricos terrestres, causadora por ano da morte de mais de quatro milhões de crianças. Conseqüência direta de uma gigantesca concentração da riqueza global, onde somente 2% das famílias detêm mais da metade da riqueza mundial, aos 50% mais pobres cabendo apenas 1% do montante.
No livro, dois sinais de alerta: um, do próprio autor: “os dramas que se desenrolam em câmara lenta são os mais perigosos”. O outro, de Nicholas Stern, que foi economista-chefe do Banco Mundial: “a mudança climática apresenta um desafio único à ciência econômica: trata-se da maior e mais abrangente falência do mercado já vista”.
Agrava-se a situação social do planeta. Os 10% mais ricos países do planeta já abocanham 55% do produto, ampliando a distância entre países ricos e países pobres. Os poderosos adquirindo propriedades, os mais sofridos comprando bens de sobrevivência, a evidenciar uma polarização autofágica. Dowbor ressalta uma estatística: em 2000, a riqueza familiar terrestre, estimada em 125 trilhões de dólares, foi equivalente a 144 mil dólares por pessoa nos EEUU, 181 mil dólares no Japão, 1.110 dólares na Índia e 1.400 na Indonésia, a bem retratar a dimensão de uma tragédia anunciada.
Atualmente, 4 bilhões de pessoas possuem uma renda anual per capita abaixo de 3 mil dólares. A imensa maioria da população da Terra está situada fora das faixas do progresso, posto que a exclusão econômica atualmente atinge mais de dois terços da humanidade.
Também já se sabe que a generalização do perfil de consumo dos mais abastados é integralmente inviável. Com um agravante: mais de 2/3 do crescimento demográfico do planeta se verifica na área da exclusão social. O planeta está encolhendo a cada dia que passa e os miseráveis estão tomando crescente conhecimento das razões da sua humilhante pobreza.
Debater mais acentuadamente as idéias de um Celso Furtado é mais que necessário para os jovens universitários de Economia, cuja maioria dos ensinamentos apreendidos já não mais iluminam a viabilização das alternativas possíveis, tornando-os dóceis tecnocratas a caminho de um lugar ao sol, se possível bem distanciado do sofrimento das áreas indigentes.
Os admiradores de Celso Furtado já identificam seu herdeiro mais representativo no cenário nacional: a economista Tânia Bacelar de Araújo. Talento acadêmico aliado a uma acuidade analítica dotada de preocupações sociais e postura ética. Qualificações capazes de superar, em parte, ausências basilares de nossa nacionalidade: Paulo Freire (autor da expressão-título deste artigo), Celso Furtado, Florestam Fernandes, Darcy Ribeiro, Milton Santos, entre outros gigantes. A favorecer a emersão de um Consenso Brasil, a unanimidade permanecendo sempre burra, na feliz definição do pernambucaníssimo Nelson Rodrigues.
(Publicado Portal da Globo Nordeste – http://pe360graus.globo.com - , Colunistas 360, março de 2008)

domingo, 9 de março de 2008

Jesus e as Mulheres

Parabéns à teóloga Ivone Gebara pelo ensaio Teologia Feminista – Uma Expressão da Contracultura na Religião, revista Filosofia Ciência & Vida n° 17, editora Escala. Nele, a autora ressalta que “o feminismo tem sido rejeitado pela maioria das Igrejas. Elas não abrem mão do poder patriarcal de Deus e do masculino sobre o sagrado”. E vai mais além, a PhD pela Universidade de Louvain, há décadas enraizada em terras nordestinas: “Creio que as teologias feministas continuarão a ser produzidas e a se difundir em pequena escala. Em meio às novas gerações encontramos algumas mulheres e alguns homens que não se sentem à vontade nas concepções teológicas tradicionais. Seu mal-estar continua fonte de contestação no interior das igrejas e um convite para repensar nossas crenças. Hoje, mais do que no passado, as crenças religiosas manifestam seu caráter político. O feminismo teológico aparece então como uma política plural de compreensão do ser humano e particularmente das mulheres”. Vale a pena ler o ensaio da teóloga Gebara, que “participou da elaboração e implantação da Teologia da Libertação, no Brasil, ao lado do bispo Dom Hélder Câmara, ...”
Quem desejar erradicar seus arroubos machistas, também não pode descartar a leitura de uma filósofa-socióloga francesa, que há anos consagra-se ao estudo dos mitos existentes na história das civilizações, mormente aqueles que ostentam desprezo pelo feminino. Como o relatado no Gênesis, quando o autor inspirado disse que Deus declarou que não seria bom que o homem ficasse só, necessitando de alguém que o ajudasse como se fosse a sua outra metade (Gn 2,18), tirando esse alguém do próprio corpo de Adão (Gn 2,22).
O livro da francesa chama-se Jesus e as Mulheres, edição Vozes. A autora, Françoise Gange, a partir de uma análise dos escritos encontrados em Nag Hammadi, Egito, em 1945, excluídos do Cânon, como heréticos, no século IV, revela como o termo prostituta atribuído à Maria de Magdala pelos Padres da Igreja foi fruto de uma forte antipatia por uma mulher dotada de estupendo nível de discernimento intelectual, “que dialogava de modo privilegiado com Jesus nas reuniões da comunidade”. Segundo Françoise, “num texto intitulado Pistis Sophia, vê-se Jesus, tocado pela compreensão perfeita de Maria de Magdala e pela profundidade do seu pensamento, chamá-la de ‘a bem-aventurada em sua elocução.’” Declaração que redundou num pedido de Pedro ao Nazareno: a exclusão de Magdala do grupo, posto que “as mulheres não são dignas da vida”.
O texto de Françoise Gange é um convite a um revigoramento do feminino no século XXI. Se o Nazareno veio renovar a Aliança entre Deus e a humanidade, a presença feminina já deveria não mais estar satãnizada desde os primórios do cristianismo? E o desempenho de Maria de Magdala, proprietária do castelo de Magdalon, além de outro em Betânia, área próxima de Jerusalém, onde várias vezes Jesus descansou “acompanhado dos Doze”, não deveria ser aplaudido?
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife-PE, 09.03.2008)

Patrulhismos Nunca Evangélicos

Outro dia, numa mesa só de guaranás, para não dar mais o que falar aos que nunca se lembram das traves enfiadas nos próprios olhos, apenas se preocupando com os ciscos detectados nos escritos dos outros, o João Silvino da Conceição, meu irmão de caminhada, fazia uma reflexão muito oportuna sobre o Homão de Nazaré, aquele mesmo que foi chamado de “beberrão, comilão, amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11,19) por alguns “sósias” de Deus à época, “túmulos que não são vistos, por sobre os quais os homens andam sem o saber” (Lc 11,44). Mais realistas que o Rei, posto que, peritos na Lei, se apoderaram da chave do conhecimento, nem entrando, nem deixando entrar os que estavam prestes, segundo ainda o evangelista Lucas (11,52).
Dizia o João: “A característica de todo ser cristão sempre na defensiva é o desprezo que ele nutre por si mesmo, posto que emocionalmente é dependente. E o pior dos dependentes é aquele cuja aspiração maior é parecer-se com os libertos, para tornar-se também um deles. O dependente é eivado de preconceitos, alienado. É falso moralista, se posicionando sempre com uma insegurança que mutila a sua própria criatividade, se amesquinhando com não rara freqüência. Basta cutucá-lo um pouco para se perceber seus impulsos secundários e a sua inveja. Suas posturas místicas e mecanicistas de encarar a vida o tornam defensor de primeiríssima água de gestões egolátricas, onde a colegialidade, a fraternidade dialogal e o amor sem fronteiras não são forças determinantes da sua calculista existência humana. Cristão defensivo é a mola frenadora de toda evangelização”.
Certa ocasião, me deparei com um testemunho pra lá de inacreditável. Um jovem intelectualmente superdotado, atlético nos seus vinte e oito anos, me declarava que passava inúmeras vezes por medíocre para evitar a rejeição social na sua área evangélica. Em outras palavras: uma inteligência obstruída pela incultura majoritária!!
Somos um país vocacionado para uma irreversível liderança continental. E os mais responsáveis estão percebendo que os oportunismos religiosos não beneficiam ninguém. Um dia, breve embora não muito ainda, a maturidade da convivialidade religiosa chegará. Aí todos perceberão que somente sobreviverão se agirem como conseqüentes, cada um dominando plenamente a cartilha dos seus direitos e dos seus deveres, sempre agindo sem mesquinhez alguma.
Nos anos 90, li uma entrevista do leigo católico Otto Maduro. Concedida a Lúcia Ribeiro, do Instituto de Estudos da Religião -, o intelectual venezuelano dissertou acerca de uma Ética da Ternura que urge ser estabelecida entre os que se congregam num cristianismo multicultural. Segundo ele, já tarda um repensar “reformático” acerca das dimensões religiosas da vida. Que devem ser estruturadas através de críticas e autocríticas, diálogos francos e corajosos, sem os salamaleques dos menicacas que imaginam estar entendendo tudo, nem tampouco os moralismos dos que se auto-rotulam de donos absolutos da verdade.
Numa Igreja Cristã que abriga as mais diversas correntes de pensamento, sem que sejam afetados seus pilares doutrinais básicos, é dever de honestidade reconhecer o quanto alguns dos seus posicionamentos pastorais estão distanciados dos cotidianos vivenciados em múltiplos contextos sócio-culturais. A gerar "esquizofrenias" as mais disparatadas, que somente favorecem a disseminação de uma hipocrisia social dicotomizada entre uma rigidez anti-humana e uma permissividade que desrespeita o próprio conteúdo da Mensagem.
O documento de Santo Domingo, da Católica Romana, é incisivo: "A persistência de certa mentalidade clerical nos numerosos agentes de pastoral, clérigos e inclusive leigos (cf. Puebla,784), a dedicação preferencial de muitos leigos a tarefas intra-eclesiais e uma deficiente formação privam-nos de dar respostas eficazes aos atuais desafios da sociedade" (96).
Para todo cristão, especialmente os mais jovens, que ultrapassaram a pleno vapor os umbrais do Século XXI, ser efetivamente cristão tornar-se-á historicamente cada vez mais fundamental para os destinos do mundo. Para ele, sua denominação religiosa e para todo o seu derredor. E para os derredores dos derredores regionais. Para que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).

quarta-feira, 5 de março de 2008

Ortodoxia, Chesterton, 100 Anos

Nos dias do reinado de Momo passado, aproveitei algumas boas horas para duas iniciativas: arrumar meu canto de estudo, reorganizando livros ainda não digeridos integralmente, e reler Ortodoxia, de G. K. Chesterton, agora numa edição comemorativa do centenário de lançamento (1908-2008), promovida pela Mundo Cristão, uma editora de bom conceito.
A aquisição comemorativa também foi efetivada pelo prefácio especialmente elaborado para edição por Philip Yancey, de quem sou leitor vez em quando, dado seu estilo nunca enfadado de evangelizar. Pois estou absolutamente convencido, como Yancey, que um dos melhores métodos de “desenvagelizar” um ser humano parte exatamente daqueles líderes religiosos que abominam o humor, possuem posturas puritanosas e moralistas, sempre revestindo seu muitas vezes mal disfarçado autoritarismo burocratizante com atitudes humildes pretensamente helderísticas, como se Dom Hélder Câmara, o inesquecível Dom, tivesse deixado algum herdeiro em qualquer denominação religiosa. Diz Yancey que numa sociedade repleta de gente posuda e sofisticada que menospreza religião, um sisudo teria muito menos impacto do que um bobo da corte. Principalmente se fosse apenas um não-humilde metido a “ovelhoso”, com mania corretora nos empreendimentos alheios.
No prefácio do Yancey é traçado um perfil do Chesterton, o estereótipo do “gordo alegre”, ratificados pelos seus mais de 140 quilos. E que apelava para o humor quando debatia com personalidades as mais diversas, entre elas George Bernard Shaw, H. G. Wells e Bertrand Russell, entre tantas outras. Sua pena arguta, irônica às vezes, sempre recheada de muita ousadia, influenciou Hemingway, Borges, Garcia Márquez, Gandhi e Martin Luther King.
Revela ainda Yancey, em seu prefácio, que Chesterton reconhecia que a Igreja não representava bem o Evangelho. Em inúmeros lugares, segundo ele, tudo parece estar enferrujado, desgastado, sem vida, a carecer de um novo espírito de aventura, de novos modos de apresentar a mensagem cristã. E Chesterton afirmava que as virtudes cristãs – fé, esperança e amor – são virtudes alegres e exuberantes, nunca retratos bolorentos de posturas clericais pouco associadas a uma modernidade que está a exigir novos procedimentos evangelizadores, capazes de fazer multiplicar o pensar de Franz Kafka sobre o próprio Chesterton: “Ele é tão alegre que parece ter encontrado o próprio Deus!” Que o poeta T.S.Eliot endossou com ímpar maestria: “ele fez mais que qualquer dos seus contemporâneos para sustentar a existência dessa minoria importante para o mundo moderno”.
Acredito que Chesterton deve ter enfurecido os sérios e os metidos a sério, a grande maioria daquela época. Durante a Primeira Guerra Mundial, uma madame inglesa, dessas sempre mal amadas e pouco resolvidas, vendo Chesterton perambular pelas ruas de Londres, dele se aproximou perguntando: - “Por que você não está na frente?” Obtendo uma pronta resposta: - “Cara madame, se a senhora der uma rápida olhada deste lado, vai ver que já estou!
Carecemos de novos Chesterton num mundo repleto de pendores totalitários, alguns deles travestidos de religiosos portadores de patologias fóbicas as mais diferenciadas. Há quatro anos, Suzanna Arundhati Roy, novelista indiana e ensaísta muito respeitada pelo seu ativismo político, declarou em Paris: “Um outro mundo está a caminho. Muitos de nós não estaremos mais aqui para assistir à sua chegada. Mas, quando há silêncio em volta, se mantenho o ouvido atento, eu já consigo ouvi-lo respirar”. Foi essa mulher notável, que em 2005 declarou num Congresso Internacional de múltiplas repercussões: “O assalto contra o Iraque é um assalto contra todos nós: nossa dignidade, nossa inteligência, nossa humanidade e nosso futuro”.
Em Ortodoxia, Chesterton não explica como a fé cristã pode ser abraçada, mas como ele pessoalmente passou a abraçá-la. Tal e qual a resposta dada por ele, quando lhe perguntaram qual o livro que gostaria de ler se estivesse numa ilha deserta: “Já sei: Guia prático para construção de navios”.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Pangarés e Farolagens

De quando em vez, deparo-me com um atoleimado ser humano pela frente. Abilolado, como dizia minha vó Zefinha. Sem entender bulhufas de uma contemporaneidade cada vez mais dinâmica, destila besteiras por todos os poros, irracionaliza fatos do cotidiano mais simples, perambula rodeado de crenças malucas, retratando um subdesenvolvimento mental que é o pior de todos eles. E vive a engabelar ele mesmo e o seu derredor com suas invencionices e presepadas.
O João Silvino da Conceição, esse arretado PhD em coisas da vida, costuma dizer que todo pangaré que fica sempre olhando para os seus problemas, será por eles derrubado. E cita não sei quem, alguém que ele leu e muito gostou: “Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”. Ele ficou impressionado, certa feita, com uma entrevista concedida pelo Stephen Hawkings, esse físico britânico portador de uma crescentemente gravíssima doença neurológica, quando ele declarou estar se sentindo muito feliz por ter contribuído para um melhor conhecimento das origens do Universo! E o Stephen estava recém-casado!!
Numa das últimas visitas que fiz à casa-quase-casebre do Silvino da Conceição, conversa vai, conversa vem, cerveja sempre gelada e uns pedacinhos de queijo coalho para desenfastiar o estômago, ele me disse que bem vive quem sabe entender as três regras de um jogo de damas. Atendendo a minha curiosidade, declinou-as: 1. não se pode fazer duas jogadas por vez; 2. somente se pode mover para frente; 3. quando se chega na última fila, se está livre para se ir onde quiser. E arrematou, riso franco, peito aberto, sem medo algum de ser feliz: “Se todo pangaré soubesse aplicar as regras de um jogo de dama, logo logo deixaria de ser um pangaré cheio de estrepolias”. E concluiu, cheio de convicção: “Todo ser humano que sofre antes do necessário sofre mais do que o necessário”.
Gosto muitíssimo de papear com o Silvino da Conceição, principalmente quando, vez por outra, insatisfações múltiplas parecem querer catapultar meu otimismo cristão para bem longe. Quando de minha visita última, já portão aberto e abraços de até-outro-dia dados, ele presenteou-me com uma das suas, uma “saideira” de primeiríssima: “Quando alguém se considera um ser humano puro e simples, e com um terceiro acontece o mesmo, então é natural se encontrarem para um bate-papo sempre aberto, as diferenças administradas com sabedoria e paciência recíprocas. Quando, entretanto, um deles se considera uma altíssima montanha, o outro pensando o mesmo, as convergências jamais acontecerão. Montanhas podem ser altas, mas jamais podem se tocar...”
De retorno às minhas aulas, ainda mais cônscio das responsabilidades magisteriais e dando continuidade ao meu mandato no Conselho Estadual de Educação de Pernambuco, exercido com muita fraternal independência, sem rebaixamento nem bajulações, tampouco nepotismo, para tanto contando com a colaboração notável dos pares conselheiros e de admiráveis funcionários, sinto-me cada vez mais apto na identificação dos pangarés da província, para rejeitar suas farolagens, que apenas ampliam inquietações e desconfortos, sejam elas civis, militares e religiosas. E torno-me bem mais afiado na identificação das “montanhas” do Silvino da Conceição, charladores que se auto-intitulam com uns títulos pós isso e pós aquilo, apenas trombeteados para engabelar panacas, como se todos fossem remelosos lambaios dos seus conjunturais postos de mando.
No mais, é não esquecer Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”.
Mário Quintana e João Silvino da Conceição, doutores de Vida, cada um com seus níveis de sabedoria, ainda que sem brasões nem lamentações.

sábado, 1 de março de 2008

Os Muitos Paus do Mário

Rendo minhas homenagens aos construtores da cultura popular nordestina. Que ainda não bateu pino graças aos esforços de um grupo de abnegados, que efetivam suas pesquisas sacrificadamente, tirando dos magérrimos próprios bolsos o necessário para divulgação dos seus estudos.
Nesse resistente universo, o lugar do folclorista Mário Souto Maior, hoje assessor em assuntos de folclore na Mansão Celestial, está no primeiríssimo escalão. Os seus livros Nomes Próprios Pouco Comuns, Dicionário do Palavrão e Dicionário Folclórico da Cachaça, subsidiam centenas de pesquisas, que necessitam de trilhas seguras e honestas, distanciadas dos embusteiros pesquisadeiros, macunaímicos e vivaldinos.
Além da trilogia acima, o Souto Maior também fez entrega ao Nordeste Cultural de um texto pra lá de apetitoso: Geografia Popular do Pau Através da Língua Portuguesa. Trezentas e cincoenta expressóes analisadas, sem resvalar para o chulo e o grotesco. Sem obscenizar seu meticuloso ensaio, ele demonstrou como o pau contribuiu para as manifestações do nosso brasileiríssimo dia-a-dia, ainda não de todo tragado pelos importados maneirismos primeiromundistas.
Imaginei logo uma pessoa muito distanciada das raízes da nossa gente entender o significado da frase “no largo da feira de Casa Amarela encontrei o Dr. Fulano a-meio-pau, caindo pelas tabelas”. Ou uma outra, recém chegada do outro lado do Atlântico, ainda toda ardida pelos anos de bunda esfregada nos bancos de pós-pós-graduação sobre quase nada, a não entender opinião de companheiro de academia: “o deputado fulano de tal está sujo-que-nem-pau-de-galinheiro na CPI do Cartão Corporativo”.
Outro dia, uma faxineira declarava para uma madame toda perua que era pau-pra-toda-obra, indo logo por-cima-de-paus-e-pedras quando algum afoito desejava por-os-pauzinhos-ao-sol. E o marido da soçaite quase cai em desespero, ao ouvir de auxiliar de escritório, alto e bom som, que estava de olho grande num pauzão e que por conta disso já estava ajeitando o pauzinho-do-matrimônio. E que o casório aconteceria rapidamente, pois gostava mesmo era de pau-na-égua. Pedia apenas ao dono da casa, autoridade de primeira entrância, que fosse na sua vara bulir-com-os-pauzinhos, pois, mais que ninguém, o patrão era habituado a conhecer-o-pau-pela-raiz .
Para não fazer-casa-com-pau-bichado, já li um bocado de vezes, de cabo a rabo, o imperdível livro do Mário Souto Maior. Também não desejando ser pau-de-amarrar-égua, nem tolerando os que adoram viver-à-sombra-do-pau, fiz questão de ganhar-os-paus para me deliciar com a leitura da pesquisa do Mário, meu ex-companheiro da Fundação Joaquim Nabuco, pai do Jan e avô do Bruno, esses arretados da Informática, consultores de tudo que é gente, inclusive burra que nem eu, um metido, vez por outra, a descobrir-o-mel-de-pau na minha área de trabalho.
Tomei ciência que souto, em Portugal, é bosque espesso. E o Mário Souto Maior, folclorista popular de primeira linha, nunca desejou mudar-de-pau-pra-cacete, ficando sempre no bosque dele, convencido que nem-todo-pau-dá-esteio.
Sempre estudioso, graduado em Direito, o Mário Souto Maior jamais foi de passar-pelo-pau-do-canto. Nem de ficar-com-cara-de-pau, pois ladino como ele era, dominava como ninguém a situação, tal e qual formiga-que-sabe-que-pau-roi.
Não desejando deitar-os-pauzinhos-fora, reverencio com muita saudade um intelectual pernambucano que jamais quis ser um dois-de-paus, em tempo algum desejando disputar-pau-a-pau com quem quer que fosse.
Um autêntico sábio nordestino foi o Mário Souto Maior. Agrestino, jamais negou que se um-dia-é-do-pau-o-outro-é-do-machado. Um intelectual que está a merecer justa homenagem num logradouro público da nossa região metropolitana.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste)