quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Madalena, Pedro e Paulo

Encontrei o João Silvino da Conceição na introdução (posse) de Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, novo bispo da Diocese Anglicana do Recife, considerado um dos mais talentosos biblistas brasileiros.
Também entusiasmado com a chegada do bispo, seu conhecido desde os tempos do ITER – Instituto de Teologia do Recife, uma escola de lideranças missionárias destruída pelos de enxergância nulificante, o Silvino se fazia acompanhar do Maruilson, major do Exército da Salvação, inteligência privilegiada a serviço da evangelização de jovens e adultos.
De uma pasta surrada, exalando os últimos suspiros de utilidade, o João mostra sua mais recente reflexão. Folha de papel almaço preenchida por caligrafia troncha, explicitada através de uma pena porosa de meia idade.
O título do “ensaio” do Conceição despertou atenções: Madalena, Pedro e Paulo. Refletia leituras feitas pelo Silvino nos últimos tempos, sintetizadas em folhas numeradas, anotações buscando esmiuçar eventos de mais de dois mil anos, sempre carentes de maior luminosidade analítica. Reproduzo um trecho, correção ortográfica autorizada:
“Acredito que lideranças dos primeiros tempos da era atual, após o martírio do Rabino Yeshua, não viam com bons olhos a supremacia exercida por Maria Madalena, declarada certa feita Apóstolo dos Apóstolos. Tal ressentimento se respaldava em preconceitos da época, cujos ecos ressoam até os tempos atuais. Também impressiona o fato de Paulo nunca ter mencionado o ministério de Jesus, seus ensinamentos e viagens, parecendo até que o ex-torturador se arvorava de “ligado diretamente”, característica auto-proclamada em seus escritos. Talvez uma maneira de compensar as desconfianças nutridas por Pedro e a família do Nazareno, inclusive Madalena, significativamente ausente nas suas cartas e nos Atos dos Apóstolos.
Contraditoriamente, Paulo cita inúmeras outras mulheres, provavelmente incapazes de ofuscar a sua liderança e sem qualquer aproximação afetiva com o mestre galileu. Pérsida, Trifena, Trifosa, Febe, Priscila, Júnia e tantas outras integrantes da comunidade paulina de fé não conviveram intensamente com o filho de Maria e José.
Madalena, independentemente de qualquer aproximação íntima com o Ressuscitado, não deve ter ficado ausente da Última Ceia, encontro onde participaram discípulos e apóstolos, homens e mulheres, hoje retratado com apenas a presença dos doze, além do Mestre. Sem qualquer crédito concedido para a equipe de apoio, os que prepararam a Santa Ceia, ainda que permanecidos do outro lado do salão.
Por inveja, incompetência, enxergância troncha ou idiotia machista, as mulheres foram sendo gradativamente eclipsadas das atividades eclesiásticas hierarquicamente superiores. A ousadia machista foi tamanha que até na primeira epístola de Paulo a Timóteo, hoje classificada como não-paulina, encontra-se uma aberração descabida: “A mulher deve aprender em silêncio, com toda sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio” (2,11-12). Uma contradição com as práticas delas em algumas comunidades, quando ensinavam, pregavam e profetizavam. Os próprios evangelhos contemplam oito listas de mulheres que serviram a Jesus das mais variadas maneiras. Em todas elas, com a exceção de uma, Madalena é citada em primeiro lugar. Por exemplo, em Mateus 27,61 e 28,11 encontramos a mesma citação, uma bem próxima da outra: ‘Maria Madalena e a outra Maria ...’.
A cada dia me convenço mais da necessidade da mulher rejeitar a postura de objeto, tornando-se mais apta para o bom combate, intuição aguçada a serviço de tarefas evangelizadoras e missões libertadoras, para que todos possam conhecer a Verdade que liberta (Jo 8,32), independentemente das preferências sexuais de cada um”.
Esse João Silvino da Conceição é um arretado!! Assino embaixo!!
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 24.01.2007)

domingo, 14 de janeiro de 2007

Um Missionário de Talento

Num dezembro 9 de 1990, um sacerdote ortodoxo era assassinado a golpes de machado na cabeça na periferia de Moscou. Na mesma data em que se celebra a liturgia da decapitação de João Batista, profeta que pagou caro por não fazer concessões aos poderosos da sua época.
Filhos de pais judeus sem fé, Aleksandr Mien desde criança foi atraído pelos estudos religiosos, sendo ordenado após conclusão do seu curso superior de Biologia. Seu ministério sacerdotal atraía um número cada vez mais elevado de intelectuais moscovitas. Atores, poetas, escritores, artistas, músicos, filósofos, misturavam-se a velhinhos e lavradores para ouvirem o padre Mien falar de Deus.
Um dos pensadores moscovitas contemporâneos mais destacados, Serguei Averintsev, definiu o padre Mien como “o missionário da tribo dos intelectuais”, dada sua fraternidade com todas as Igrejas cristãs, sua gigantesca estima e amor pelo judaísmo e sua vastíssima erudição. Demonstrada em seus muitos trabalhos, entre os quais uma história das religiões, em cinco volumes e um aplaudido mundialmente dicionário bíblico.
Além disso, o padre Aleksandr Mien foi o primeiro sacerdote ortodoxo a ministrar curso de religião numa escola do Estado, após instalado o processo de transformações políticas, econômicas e sociais comandado por Mikhail Gorbatchov, então secretário-geral do Partido Comunista da época. Muito embora, mesmo antes da perestróika, ele já exercesse atividades pastorais às escondidas, sempre a valorizar os talentos dos participantes.
Mas o texto de Mien que mais se popularizou, circulando clandestinamente bem antes das aberturas políticas, foi Jesus, Mestre de Nazaré: a história que desafiou 2.000 anos, no Brasil publicado pela Cidade Nova, já na décima quinta edição em 2004. Usando estilo romanceado e recorrendo às mais recentes descobertas da ciência bíblica, o padre Mien escreveu um livro para todos, “para quem nada sabe sobre Jesus, para quem o conhece e nele crê, e também para quem possui bons conhecimentos bíblicos e teológicos”. Um milhão de exemplares vendidos após um ano de lançado na capital russa!
O padre Mien percebia, com uma lucidez notável, que Jesus foi parte integrada ao pensamento judaico da sua época, tendo vivido, ensinado e morrido no madeiro como judeu. O rabino Byron L. Sherwin, do Conselho Consultivo do Instituto para a Compreensão entre Judeus e Cristãos, é taxativo: “não é possível entender plenamente a vida e os ensinamentos de Jesus fora do contexto judaico de que precedem”. E foi mais incisivo quando escreveu “tanto para cristãos como para judeus, compreender Jesus como judeu pode constituir o fundamento da remoção de barreiras entre cristãos e judeus, bem como configurar-se como o fundamento de um diálogo fraterno”.
Com mentalidade sempre contemporânea, padre Mien reconhece que “em sua pregação, Jesus se reportava às formas tradicionais da poesia bíblica. Suas palavras freqüentemente soavam como uma recitação solene, trazendo à mente os hinos dos antigos profetas. ... As parábolas eram conhecidas em Israel desde a Antiguidade, mas Jesus fez delas o meio por excelência de transmissão da sua doutrina. Ele não se dirigia só ao intelecto de quem o ouvia, mas queria tocar todo o ser do homem. Traçando quadros conhecidos da natureza e da vida cotidiana”.
Um provérbio iídiche dá resposta plena aos majoritários contextos sociais século 21: “Muitos se queixam de sua aparência, mas ninguém se queixa do seu cérebro”. Traduzindo em miúdos: inúmeros não sabem pensar corretamente, posto que os atuais condicionamentos induzem a uma permissividade que extrapola o limites de uma convivialidade sadia. Ou, vendo pelo outro lado da moeda, muitos pensam tanto sobre quase nada, que terminam tornando-se ignorantes em quase tudo.
O talentoso Oscar Wilde dizia que só os medíocres se conhecem. Será que estamos adequadamente apetrechados para enfrentá-los?

sábado, 13 de janeiro de 2007

Fuxicos, Indecências e Grandeza

1. Tenho uma aversão profunda a fuxicos, principalmente se advindos de baratas de sacristias, aquelas mal-amadas, de auto-estimas reduzidas, que levam e trazem fofocas de todos os tipos, através de bilhetes anônimos, recados e e-mails. Fatos acontecidos recentemente me fazem relembrar o que aconteceu numa cidade do interior nordestino, anos 50, quando um bispo recebeu a visita de uma fuxiqueira língua-de-trapo, que lhe assoviou ao pé do ouvido sobre um determinado padre que, pároco de um município menor, quase toda semana se deslocava para uma cidade maior, pernoitando na casa de uma viúva ainda jovem, sem ainda qualquer peça de reposição ou enchimento. Como toda pessoa que tem mania de emprenhar pelos ouvidos, o bispo logo chamou o padre acusado para confirmar o fato. Sem piscar um olho, o padre confirmou o pernoite na casa da viúva. E ressaltou que não achava nada de mais, posto que ela era sua irmã mais nova. O bispo colocou a rabeca debaixo do sovaco, livrando-se de processo judicial.
2. Quando se fala em indecências, as imagens dos presidentes da Câmara e do Senado me saltam aos olhos, fazendo-me relembrar aquele filme premiado Dois Perdidos numa Noite Suja. E ainda existe cara-de-pau que declarou ser o aumento um modo de evitar fuga de cérebros do Congresso. Como as vergonhas de uma grande maioria já não existem, pode-se concluir que no Congresso Nacional ficaram os cérebros privilegiados da bandidagem parlamentar, artífices de primeira linha nas artes prometéicas, aquelas que patrocinam elevações de salário de parlamentar com chapéu alheio, o do povo brasileiro. Artes também denominadas no jargão político brasileiro da atualidade de severinagens.
A hora é de pensar alto: será que os trambiques e patacoadas praticados pelos políticos brasileiros não é o lado contrário da face da moeda eleitorado minoritário, que elege um digno Paulo Rubem Santiago, por exemplo? O outro lado, ampla maioria, é alienado, aloprado e sem responsabilidades, vendido a troco de poucos reais, que vota em cafajestes porque vítimas sempre foram de um caldo cultural que não cidadaniza, apenas trampoliniza os mais “ispertos” para postulações eleitorais de resultados garantidos.
Fico a imaginar se o país não sairia lucrando se houvesse uma remunicipalização nacional, com a fusão de municípios, no que resultaria numa redução grandiosa de despesas com salários e penduricalhos. Poderíamos ainda ter dois senadores por estado da federação e a redução de 1/3 da Câmara Federal, a proporcionalidade de cada unidade da federação acontecendo na razão direta do número de eleitores.
3. Na direção oposta da ojeriza sentida por fuxicos e indecências, a vitória do estudante Ricardo Hidemi Baba, 21 anos, no vestibular Fuvest, SP, amplia minhas esperanças, com os socialmente mais responsáveis, no futuro nacional. Em cadeira de rodas e com dificuldade de fala, com paralisia cerebral e já cirurgiado quatro vezes, Ricardo declarou: “acho que filosofia me ajudaria na carreira de ser escritor”. Uma inteligência a serviço da cultura brasileira, muito diferente daquele animal universitário que recentemente jogou um toco de cigarro acesso no colinho de bunda mostrado por aluna que se encontrava sentada com outros colegas, provocando nela queimaduras de segundo grau. Atitude que merece expulsão das lides universitárias, posto que o elemento só teria prontuário policial.
Uma crise torna-se saudável quando não se contenta em ser apenas uma crítica aos outros, mas quando se torna, muito oportunamente, um julgamento de si mesma. E isso somente advirá com mais capacitação, terra e saúde, melhor distribuição de renda e mais participação, no Brasil, dos severinos de maria, sem os disleriados que apenas desalavancam nosso desenvolvimento, usando a classificação do Jessier Quirino, esse poeta nordestino arretado de bom.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Novela do filho do Silvino

Gosto que me enrosco de gente “ispilicuti”, termo utilizado pela minha mãe, quando sua mente ainda não se encontrava danificada pelo mal de Alzheimer. A significar danadinho, buliçosamente espirituoso, que gosta de invencionices e de buscar resposta para tudo. Tal e qual o Junior do João Silvino, que bolou um roteiro de novela baseado nas ficções surgidas nas televisões latinas.
O enredo do Junior divide os personagens em categorias: a dos coitadinhos inconseqüentes, de expressões quase dementes, ansiosos por proteção ou milagre para solução dos seus problemas; a dos cornistas inconformados, que desejam a mulher e/ou marido de volta, pouco se lixando para os penduricalhos acumulados nas testas; a dos depreciadores raciais, que reduzem seres humanos a condições vexatórias; a dos abestalhados juvenis, que atordoam professores, pais e avós, tias e agregados, com lacrimosos uis e ais meus Deus; a dos que agridem, provocando lesões criminosas; a dos atropelados, cirurgiados, esparadrapados, sequestrados, cabeças raspadas, patrimônios dilapidados, além dos desacordados de longo percurso; e a dos amassos inconvenientes e cios descontrolados. E mais: a dos jagunços pebas e freiras perversas, os primeiros retratando bandidos de meia pataca, tipos famintos e maltrapilhos, sem eira nem beira, apenas nordestinidade; a dos celerados travestidos de raptores, políticos e outras porcarias; a dos messiânicos e das profecias advindas de patamares não terrestres, de lufadas que tentam arrepiar até os cabelos do sovaco dos aleijados; e o bloco do merchandising, hoje um dos setores mais rentáveis, que incrementa as receitas e diminui os custos da produção, até utilizando aviões de combate modernos, de preferência oficiais.
Além disso, os personagens devem ter participação cênica de acordo com o ritmo da novela ou parentesco com gente graúda da instituição, mesmo que o conteúdo ético não seja o mais apropriado para estes tempos turbulentos de início de século. A falta de caráter não pode ficar ausente da trama, tampouco a infidelidade e o troca-troca dos pares, devendo ter uma boa prioridade as posturas raparigais, os trambiques e os cinismos mais acafajestados, da serventia ao senhorio. Sem esquecer os salamaleques dos emergentes e as paraplegias.
Para umas ocasiões, se faz indispensável o retorno de superados preconceitos e estereótipos, não podendo faltar velhas fofoqueiras, meninotes de recado, policiais corrutos, subornos, além das patologias contemporâneas dignas de registro.
O Junior tem estratégias tidas e havidas como infalíveis: audiência garantida, enrolação mais prolongada; maldades e perversidades, somente com atuações cinco estrelas de atores de belíssimas performances, mesmo que para isso seja utilizada maquiagem anti-dinossáurica e pílulas de soerguer cabeças tombadas; e muita publicidade dos participantes em comerciais de TV e rádio, das pinturas de casa às manifestações de sabão em pó e torcidas de bem geladas para ver a lona do peitoril desabar.
Os capítulos finais se destinam para dar uma arrumadinha convergente na trama e seus diversos segmentos. Uma tesourada no bandido metido a sabido, uma queimadinha do brabão no depósito de escravos, uma boa sova na malvada comerciante de meninos, dada pelo marido ex-assaltado e também chifrado, coronel virando cangaceiro e cangaceiro disputando o amor da mocinha, os meninos, já crescidinhos, inaugurando-se em festas de sala e cama e os avôs se viagrando para não perderem a fama de picadeiros.
Dependendo da audiência, testemunhos de mentirinha, cenários escondendo a miséria de milhões e competentes doses anestésicas contribuindo para um arremate sempre bonzinho. Para faturamentos cada vez maiores, novas histórias “panem et circensis” serão escritas, posto que, afinal de contas, ninguém é de ferro para enfrentar os desafios da vida.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife-Pernambuco, 10.01.2007)

sábado, 6 de janeiro de 2007

A Sabedoria do Consumo

Se houvesse indicações sobre as mais significativas personalidades brasileiras, para um dos primeiros lugares votaria sem titubear no rabino Nilton Bonder, líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil. Seu livro último, Ter ou Não Ter, Eis a Questão - Campus 2006 – deveria servir de mote para as denominações que interpretam a busca da posse como uma “malignidade espiritual”, posto que, segundo o próprio Bonder, “não é possível ser sem ter”. Segundo ele, deve-se destruir as barreiras de uma hipocrisia religiosa estabelecida entre os conceitos de “ser” e “ter”, para se reconstruir as linhas mestras de uma Economia do Desejo capaz de revelar valores substantivos.
Bonder analisa um tipo de posse que, além de não ter características pecaminosas, se torna alicerce indispensável à própria existência. E se lança na contra-mão do senso comum da moral e da espiritualidade abobada: “toda vez que o ‘ter’ for originado numa necessidade, se fará instrumento e nutriente do ‘ser’, ou seja, reforçará a medida e a limitação que configuram nossa experiência de ‘ser’. Toda vez que o ‘ter’ se apropriar de algo que foge à limitação real do ‘ser’, que prescindir de uma necessidade real que o justifique, diminuirá o tônus e tornará flácida a experiência do ‘ser’”.
O questionamento principal do Bonder – Como foi que o mundo ficou assim: medido pela capacidade aquisitiva, com sonhos que se traduzem em consumos, sentidos e tendências que são originárias do mercado? – aponta para duas vertentes elucidativas: responsabilizar a ignorância para evitar defrontar-se com outras “inteligências” é a primeira; a segunda, a busca da imprescindibilidade da posse, em vez de tratá-la como mera patologia.
Nilton Bonder ratifica o pensar de Abraham Joshua Heschel, falecido em 1972, um dos mais importantes teólogos judeus contemporâneos: “Existem conceitos mortos e conceitos vivos. Um conceito morto já foi comparado a uma pedra que se planta na terra. Um conceito vivo é como uma semente” ... “A religião não nos é concedida, de uma vez por todas, como algo que possamos guardar num cofre. Ela precisa ser recriada o tempo inteiro”.
O livro do Bonder não deve ser lido bruscamente, como se lê uma revista semanal de superficialidades fuxicosas, atualmente em evolutivas vendas nas bancas de revistas, sintoma preocupante do desenvolvimento da classe média brasileira. Suas constatações merecem reflexões de causalidade, aquelas que buscam os porquês, pois nada é casual.
Algumas das boas cutucações do rabino Bonder, engenheiro pela Universidade de Colúmbia, PhD em Literatura Hebraica pelo Jewish Theological Seminary, induzem instantes de reflexão amadurecida: “Tenho encontrado tanto Reis buscando os segredos dos sapateiros como sapateiros infelizes porque não conseguem ser Reis”; “O erro mais comum de nossa civilização é acreditar que a posse é uma realidade, de que coisas possam ser tomadas por outras coisas e que isso não seja uma forma de acoplar medidas”; “Quem rouba tem menos ‘Eu’, menos posse de si”; “A velhice repleta de desejos de posse reflete uma inócua tentativa de conter a morte e resistir às novas demandas do organismo”; “Há magnatas que ao construir sua vida e sua fortuna interagem profundamente com o mundo e muito possuem. Há pobres que se protegem do risco e do esforço e pouco possuem. Há magnatas que nada ou pouco levarão deste mundo, e despojados com invejáveis bagagens de posse e que deste mundo muito levarão”.
Vale a pena ler o texto do rabino Bonder. Que em seus livros aponta para a dinâmica das pausas em nossas existências. Pausas que, nas crises, favorecem a recuperação do sentido da caminhada, onde a realidade da Verdade beija a do Amor. A ratificar Leonardo Boff, outro arretado do espaço religioso: “O sub-aproveitamento do potencial da vida humana é a mais terrível das experiências humanas, o desperdício de vida constitui a pior miséria humana”.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Anotações para um começo de ano

O apóstolo Paulo, em sua Primeira Carta aos Coríntios (1Co 1,27), parece estar escrevendo nos dias que antecederam o final de 2006, ao anunciar que a sabedoria de Deus é eletiva. Diz ele: “Deus escolheu o que no mundo é loucura para envergonhar os sábios, e escolheu o que para o mundo é fraqueza para envergonhar o que é forte.”
Os acontecimentos que estão aturdindo a sociedade brasileira nos últimos tempos não seriam mais algumas das sabedorias divinas? Para alertar os abiscoitados de sempre, aqueles que ainda não perceberam que “a verdadeira conduta em conformidade com a vontade de Deus não é àquela que conduz à ortodoxia, mas àquela que nos leva à ortopráxis”?
Carecemos de informações credíveis para efetivamente poder separar o joio do trigo, favorecendo o sal da terra que necessita ser purificado em prol das imensas desigualdades mundiais, que muito nos envergonham às vésperas de cada Natal. Quando, aqui, os Noéis, portando imensos sacos apenas para uns bem poucos, ignoram solenemente nossa humilhante classificação de Nação que é uma das vice-campeãs do mundo em pior distribuição de renda. E que paga, desde o Governo Fernando Collor, os juros mais elevados do planeta, transferindo do Orçamento Público para os mais afortunados grupos financeiros, somente em 2005, a bagatela de 150 bilhões de reais, DEZ VEZES MAIS que o destinado para minorar a fome de milhões de famílias brasileiras, irmãs e irmãos nossos, também filhas e filhos da Criação.
A análise incomodatícia é do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Universidade de Campinas: “Não vamos nos enganar: os últimos 25 anos, primeiro de instabilidade e depois de estagnação, deixaram, sim, uma herança maldita. O País foi submetido aos humores do rentismo, ou seja, à defesa assustada da riqueza já existente e líquida, imobilizado pela aversão aos azares e incertezas do investimento e da criação de riqueza nova”. E conclui ele, que continua um competente e aplaudido homem de esquerda, apesar dos seus mais de sessenta anos: “é o alto preço que o presente agrilhoado ao passado cobra do futuro”.
A ânsia por políticas sociais mais criativas se respalda nos noticiários das publicações sérias. Por exemplo, segundo o IBGE, “o mercado de trabalho brasileiro piorou de 1995 a 2005. A taxa de desemprego subiu de 6,1% para 9,3% e houve queda de 12,7% no rendimento médio dos trabalhadores nesses dez anos. Para os jovens entre 18 e 24 anos, o nível de desemprego atingiu 17,8%, em 2005. Jovens que têm, em média, 8,7 anos de estudo.”
Entre os caminhos crísticos e os caminhos não-crísticos insere-se o discernimento das lideranças evangelizadoras. Segundo o teólogo J. Sobrino (O seguimento de Jesus como discernimento cristão, IN: Jesus na América Latina, seu significado para a fé e a cristologia, SP, Loyola/Vozes, 1985), “entendemos por discernimento cristão a busca concreta da vontade de Deus, não somente para ser captada, mas também para ser realizada. Entendemos o discernimento, portanto, não só pontualmente, mas também como um processo no qual a vontade de Deus realizada verifica também a vontade de Deus pensada”.
Caberá aos militantes cristãos, cada um nas suas denominações religiosas e de braços fraternalmente dados com os seguidores das demais religiões do mundo, utilizar uma metodologia do discernimento criativa essencialmente libertadora, centrada em três grandes eixos: a elaboração de conceitos, ensejando compreender adequadamente a situação real dos fatos históricos e sociais; a análise crítica de conhecimentos e práticas, assimilando os ventos soprados pelo Espírito para sobrepujar a visão do senso comum e as visões científicas que contrariam a vontade de Deus; e a direção das condutas éticas, ministeriais e missionárias, integrando-as na formatação concreta de ações que propiciem a ampliação da dignidade humana em todas as nações e povos. Ações que possibilitem o engajamento mais profundo de todos nas questões de um tempo, o brasileiro em nosso caso particular, na efetivação de boas obras através da edificação de uma mística não exclusivamente emocional, vacina que não se deixará engabelar, tampouco escravizar, pelos conhecimentos falazes e vãos, segundo advertência contida na primeira carta paulina aos colossenses. Sem puritanismos cavilosos nem moralismos que apenas desrespeitam a constatação divina de que tudo havia ficado muito bom (Gn 1,31).
Num contexto de muita bandalheira, como o brasileiro de agora recordemos 1Samuel 3. Um jovem auxiliar de cego que é chamado para revigorar a fé e a esperança do seu povo, denunciando a corrução, inclusive as eclesiásticas, inúmeras vezes disfarçadas sob mantos oportunistas, aparentemente evangelizadores.
Saibamos colegiadamente, numa fraternidade que nunca erradique a criticidade que emana do livre-arbítrio, consolidar nossa missão terrestre: a de fazer o povo enxergar novos modos de viver em grupo, cada um transformando e sendo transformado, numa convivialidade fraterna, radicalmente libertadora, ninguém sendo enganado por ninguém.
Se cada um cumprir sem destemor a missão que Deus nos confiou, aceleraremos a chegada de um Novo Tempo, ainda que muito depois dos nossos retornos ao Pai. Quando isso acontecer, de onde estivermos, ouviremos os ecos do trecho final de um dos mais vibrantes pronunciamentos do pastor Martin Luther King (Eu tive um sonho): “quando nós permitirmos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e em todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro: ''Livre afinal, livre afinal. Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.''
No Espírito de Deus que sempre liberta, FELIZ 2007 para todos!!!!!