quarta-feira, 29 de julho de 2009

Para amanhãs libertadores

Uma advertência do teólogo Andrés Torres Queiruga deveria ser leitura obrigatória para as lideranças religiosas, leigas principalmente: “Uma já não curta experiência ensina que, com toda sua boa intenção, muitas concepções, sob imediata aparência piedosa, acabam sendo gravissimamente danosas, para nós e claramente lesivas para a honra de Deus. Uma piedade ‘atrasada’ ou um falso respeito pela letra da ‘tradição’ são demasiadas vezes o mais eficaz caldo de cultivo para o ateísmo”. Os futuros que emergem não serão fáceis para medíocres, nem para os desatentos que ainda não perceberam que a informação universalizou-se, devendo ser bem acessada, eficazmente organizada e holisticamente interpretada, sem cavilação alguma.
Num contexto “mundializado”, urge ampliar a consciência do ético, cultivando o senso crítico através de um pensar autônomo, capaz de compreender as incógnitas e os paradoxos de uma hoje de múltiplos ontens.
As lideranças leigas devem melhor administrar seus objetivos sob visão mobilizadora, percebendo que errar nunca foi crime, muito embora seja abominável permanecer no mesmo engano para sempre.
Liderança leiga é generosa com seus tropeços, corajosa nas suas convicções e princípios sempre inconclusos. Desconfia das imperiais certezas e jamais embarca na canoa dos que afirmam que se deve fazer apenas o que o coração manda. E nunca se olvida do que disse o Marquês de Maricá: “A mediocridade em tudo é uma garantia e penhor de segurança e tranquilidade, sendo a passividade sua filha predileta”.
Na construção das suas utopias, a liderança leiga evita cometer três falhas: a de desejar possuir uma visão que forneça um quadro perfeito do futuro; a pressuposição de que o hoje lhe presenteará com um mapa abrangente do amanhã; e a de que é dispensável garra incomum e férrea vontade para compreender os paradoxos dos tempos futuros.
Um trecho de 1935 parece destinado às lideranças leigas, quando a essência religiosa é, inúmeras vezes, subjugada a interesses pouco nobilitantes: “Nada de menos rígido, de menos sólido, de menos estável, do que o momento social em que vivemos. E daí o grande triunfo do oportunismo, o medo que os homens têm de tomar atitude, de optar por uma solução, de submeter-se a princípios, que o mundo de amanhã poderá deitar por terra.” Um profeta? Não, apenas Alceu Amoroso Lima, um intelectual cristão de muita credibilidade.
Em publicação não recente, Tipologia Comportamental do Chinfrinzé Brasileiro, os analistas Bill Kapp Barib e Reynald O’Liveira definiram um chinfrinzé como “um animal quase racional, extremamente similar fisicamente ao homo sapiens, que se comporta em áreas civilizadas com uma mente mixada, coexistindo nela hábitos aparentemente modernos e uma nulificada postura comportamental”. Daí, ser preocupante a alienação religiosa que anestesia incautos e desconectados, que valoriza os esmolismos, os dolorismos, os vitimismos, os fundamentalismos e os outros ismos que conquistam cada vez mais fanáticos, olvidada a advertência do Homão da Galiléia: ”Tomem cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não há nada de oculto que não venha a ser conhecido”.
Algumas recomendações para as lideranças leigas não contaminadas pelo virus descivilizatório que amesquinha a fé: “O mais importante é bloquear as ações úteis do inimigo, permitindo que ele execute à vontade as ações inúteis”; “Sempre com o olhar muito atento, conhecer bem a espada do inimigo, nunca se deixando distrair com os movimentos insignificantes dele”; “A estratégia imatura é causa de dor”.
Alegra-me a sabedoria de Bertolt Brecht: “Diante dos acontecimentos de cada dia. / Numa época em que reina a confusão. / Em que corre sangue, / Em que se ordena a desordem, / Em que o arbitrário tem força de lei, / Em que a humanidade se desumaniza. / Não digam nunca: isso é natural!!
(Publicada no Jornal do Commercio, 15.07.2009, Recife-Pernambuco)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Recados de um caderno

De uma irmã caminhante, a Meriglei, amizade férrea e correspondência eletrônica diária, recebo incentivos para ler O Caderno, de José Saramago, Companhia das Letras. Uma coletânea de opiniões e críticas do escritor lusitano expostas num blog, de setembro passado a março último.
Os estímulos da amiga das alterosas continham um “dever de casa”: identificar, nos inúmeros pensares do genial português, as similitudes com os tempos brasileiros de agora, quando posturas políticas acanalhadamente cínicas buscam soterrar justas indignações pátrias. Induzindo uma ideologia perversa, a de que os fins justificam os meios, como se o país inteirinho fosse constituído de bandidões descarados, oriundos de todos os setores e classes sociais, cada um devendo levar a maior vantagem em tudo.
Nos intervalos das visitas hospitalares à Melba dos médicos Maurício Matos e Ana Paula Tavares, exemplos iluminados de competência e dedicação, li o livro do Saramago, coletando inúmeros ditos do notável pensador luso. Que caem como uma luva nos últimos fatos e feitos praticados e promovidos pelos políticos da banda de cá.
Confesso que o “dever de casa” solicitado pela Meriglei me proporcionou uma excelente oportunidade. A de melhor distinguir políticos idôneos dos moralmente enlameados, alguns de biografias metidas a sérias, erigidas em tempos ditadoriais, de imprensa amordaçada, cidadania acorrentada e mortes friamente ordenadas. Déspotas inescrupulosos, oportunistas de carteirinha, que camuflaram suas ferocidades caudilhescas tão logo pressentiram a chegada das incipierntes manifestações pró restabelecimento da Democracia.
Quando Saramago define o ex-presidente George Bush – “inteligência medíocre, ignorância abissal, expressão verbal confusa e permanentemente atraída pela irresistível tentação do puro disparate, que expulsou a verdade do mundo para, em seu lugar, fazer fortificar a idade da mentira” -, quem melhor identificaríamos entre aqueles que escondem suas mediocridades através de publicidades milionárias, ardilosamente estruturadas por profissionais de alta qualificação técnica?
Em relação a Sílvio Berlusconi, o mandatário italiano, Saramago questiona: “na terra da máfia e da camorra, que importância poderá ter o facto provado de que o primeiro-ministro seja um deliquente?” Lembrei-me imediatamente daqueles governantes que não sabem de nada, sempre lavando as mãos, ampliando seus caráteres dúbios por derradeiro, o resto se lixando, desde que salvos seus dedos.
Finalmente, uma conclusão do autor de O Caderno - “tudo quanto dizemos e fazemos ao longo do tempo, mesmo parecendo desprovido de significado e importância, é, e não pode impedir-se de o ser, expressão biográfica” -, justifica os denominados “perdões impossíveis”. Aqueles relacionados com os que torturaram, assassinaram, exilaram e deram sumiço a inúmeros brasileiros que, de convicções diferenciadas, pleiteavam liberdade de manifestação nas decisões sobre os destinos futuros da pátria.
O aplaudido Saramago ressalta em seu livro que a questão central reinante em qualquer organização social é o poder, competindo à sociedade “identificar quem o detém, averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele fez, os meios de que se serve e os fins a que aponta”. Cabendo à ela própria, como um todo, através de uma educação radicalmente anti-embromatória, ampliar o seu senso crítico e suas estratégias de como melhor rejeitar as manipulações espúrias. Inclusive daquela esquerda que, segundo avaliação do próprio Saramago, “não tem nem uma puta ideia do mundo em que vive”, sobrevivendo eleitoralmente no “putrefacto charco da indiferença”.
Muito oportuna a leitura das anotações blogueiras de José Saramago, agora transformadas em livro. Possibilita ampliar as indignações em prol da renúncia de Sarney à presidência do Senado. Que persiste em ratificar sua biografia de manda-chuva em tempos de nula claridade democrática.
PS. No recente acordo sobre uma hidrelétrica, firmado entre o presidente-barrão Fernando Lugo e o nosso magnânimo Lula de Calcutá, reproduziu-se o manjadíssimo Convênio Pacu: o Paraguai entrando com um pau, o povo brasileiro integrando-se ao estabelecido com a monossilábica rima de Itaipu.
(Publicada, a partir de hoje, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Exemplo de muita energia

Num dos seus livros, O Código da Inteligência, editoras Ediouro e Thomas Nelson, o psiquiatra Augusto Cury enumera as quatro armadilhas da mente, embora ressaltando que “não há ser humano lúcido que não reaja com estupidez e nem outro tranquilo que não tenha seus momentos de desespero”. São elas: o conformismo, o coitadismo, o medo de reconhecer os erros e o medo de correr riscos. Segundo Cury, tais armadilhas impedem o desenvolvimento da excelência psíquica, afetiva, social e profissional do ser humano, impedindo-o de utilizar mais dinamicamente os seus talentos.
Também há o sentido inverso. Tem muitos que imaginam que são perfeitos os seus pensamentos. Pontificam sobre o derredor com um olhar todo majestático, tal e qual o daqueles esquerdeiros que nos anos da ditadura costumavam apregoar bravatas mil em mesas de bar, arrotando palavras de ordem e repetindo frases dos cobrões revolucionários de antigamente, muito embora não dispensassem um legítimo escocês e o melhor nos seus aconchegos residenciais. Muitos, hoje, estão com os rabinhos entre as pernas, acocorados num carguinho de confiança do tipo fique-quieto-só-aplaudindo, sem mais a bravura daquele guerreiro cubano, de trucidamento até hoje não muito esclarecido. E que não estão indignados diante das múltiplas bandalheiras do Senado, tampouco enojados vendo a troca de sorrisos nada formais entre Lula e aquele que foi defenestrado por milhões de caras pintadas. Militantes de uma UNE agora gordamente subvencionada para só bater palmas e dizer amém.
Outro dia, entretanto, uma reportagem de página inteira de um jornal paulista mandou meu desânimo pra merda, revigorando esperanças interiores. A reportagem entrevistava Cláudia Maximino, uma bonitona de 47 anos, administradora de empresa, pós-graduada em Recursos Humanos, capacitadora de empresas aéreas, que mora sozinha, não tem papas na língua, é presidente de uma ONG isenta de maracutaias e ainda reserva tempo para ser síndica no edifício onde mora, um bloco de 24 apartamentos. E que possui as pernas e um braço amputados, vítima que foi da Talidomida, aquele remédio que provocou deformações na formação fetal de milhares.
Sua entrevista, sem abobalhamentos pieguistas, revitaliza qualquer um. Aos oito meses teve seus pés amputados, pois tinha nascido com eles grudados em suas coxas. Foi interna na AACD dos dois aos doze anos, pois a mãe precisava trabalhar para manter a casa. E “foi na AACD que aprendi a cair e a levantar, a colocar roupas, a comer”, aos sete anos principiando a sentir o peso da discriminação por ser uma criança diferente. Certa feita, na adolescência, um meninote disse que ela era bonitinha, mas não tinha pernas, levando uma resposta desmontadora: - E você, babaca, que não tem cabeça?
Em 1991, Cláudia Maximino resolveu usar os seus conhecimentos para lutar pelos direitos das vítimas da talidomida. Através de um anúncio de jornal reuniu uma dezena de vítimas e fundou, com os incentivos do então governador Mário Covas, de São Paulo, a Associação Brasileira dos Portadores da Síndrome da Talidomida, da qual é a presidente.
A Cláudia não é uma coitadinha, sob hipótese alguma. Vaidosa, gosta de sair com os amigos, navegar na Internet, ter suas paqueras, ainda dispondo de tempo para ser militante na luta pela defesa dos animais abandonados. Uma declaração sua amplia a tesão existencial de qualquer um: “Eu não me vejo como deficiente. Faço mais que muitas pessoas que têm dois braços e duas pernas. O que manda é a cabeça da gente, a força de vontade. E isso eu tenho de sobra”.
Os alertas são dados pelo Augusto Cury, do livro citado: “Quando somos abandonados pela sociedade, a solidão é superável, mas quando somos abandonados por nós mesmos, a solidão é quase insuportável” ... “Sem sonhos, a vida é uma manhã sem orvalho, um céu sem estrelas, um oceano sem ondas, uma vida sem aventuras, uma existência sem sentidos” ... “Ninguém é digno de oásis se não aprender a atravessar seus desertos” ... “A vida é uma grande universidade, mas pouco ensina para quem não aprende a aprender”.
A Cláudia Maximino deveria assim definir-se em seu Curriculum Vitae: Pós-graduada em Recursos Humanos, especialista em Revigoramento Existencial. Braba sem perder a ternura jamais e competente na área da multifuncionalidade. Sempre a viver com a mente e os olhos voltados para os amanhãs.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

sábado, 18 de julho de 2009

Carta do Ali

Em minha Caixa Postal, recolho correspondência que está a merecer, aqui, transcrição integral. Ei-la:
Prezado Senhor: Muito tripudiado em minha imagem, tido e havido por milhões como um bandido que liderava um grupo de 40 salafrários, encontro-me bastante deprimido. Os últimos informes jornalísticos me dão ciência de uma população, a brasileira, desprovida de indignação diante das esculhambações múltiplas praticadas por inescrupulosos representantes do Povo Brasileiro. Alguns até, anós atrás, guerreiros ferozes e fanáticos contra a corrução e o desrespeito praticado com as contas públicas.
Para que haja um julgamento equilibrado sobre a minha pessoa, permito-me contar um pouco do meu caminhar. Me chamo Ali Baba e era um pobre lenhador, até me deparar com um tesouro, escondido por quarenta ladrões, numa floresta perto de onde eu morava. O tesouro dos ladrões estava depositado em uma caverna, que abria e fechava mediante uma senha. Estando por perto, ouvi perfeitamente as referidas senhas serem pronunciadas: Abre-te, Sésamo! e Fecha-te, Sésamo!, dependendo da ocasião. Consegui na caverna entrar, aproveitando uma saída da quadrilha, levando comigo algumas preciosidades.
Chegando em casa, fui pressionado pelo meu irmão mais velho, Latrocin, que também se dirigiu à gruta, no dia seguinte, de lá buscando retirar um bocado de coisas. Ganancioso por derradeiro, na hora da saída se esqueceu da senha, sendo descoberto pelos ladrões e por eles assassinado. Noite alta, na ausência dos bandidos, lá entrei e retirei o corpo do meu irmão, promovendo um sepultamento digno na tarde do dia seguinte.
A partir do sepultamento do meu irmão, começaram as minhas dificuldades. Os ladrões, não mais encontrando o corpo dele na gruta, perceberam que, além deles, alguém também conhecia a senha. Certo dia, um dos ladrões, fingindo-se de comerciante de óleo, pediu-me hospitalidade. Trazia consigo trinta e oito jarros de óleo em quase uma vintena de mulas. Dos jarros, apenas um continha óleo, os demais escondiam trinta e sete ladrões que queriam se aproveitar da minha hospitalidade. Depois do acolhimento, noite alta, descobri a maracutaia, vertendo óleo quente em cada jarro. Manhã cedinho, o meu hóspede percebendo tudo, fugiu em carreira desabalada.
Tempos depois, o ladrão-corredor, de barba e turbante, se estabelece na cidade como comerciante amigo do meu filho, sendo por ele convidado para cear em nossa casa. Sendo reconhecido por um dos nossos serviçais, é apunhalado mortalmente por um deles.
Receoso de morrer nas mãos dos bandidos restantes, resolvi migrar para um país distante, onde me associei a um grupo de políticos que teoricamente representavam todos os habitantes. Foi a minha desgraceira. Com muita lábia, iludiram-me dos pés à cabeça. Arrebentaram-me financeiramente de cabo a rabo, deixando-me sem um real para as despesas de pronto pagamento, estando eu a sobreviver, hoje, de uma bolsa-família arranjada por um companheiro também pedinte, que me ensinou os procedimentos da solicitação.
E qual é a minha revolta? É a de ver o nome Ali-Babá sendo relacionado com toda e qualquer bandalheira financeira, às mordomias escandalosas, aos salários aprovados que em muito ultrapassavam os limites estabelecidos em lei, aos arrumadinhos pra lá de safadosos mantidos entre os políticos que me enganaram, também ludibriando milhões de outras pessoas, para não falar, aqui, dos decretos secretos e dos cinismos descarados.. Tudo escancaradamente, sem medo algum de levar tapas de indignação.
Daí meu apelo: que não mais se considere Ali Babá como sinônimo de ladravaz. A língua portuguesa é muito rica e certamente encontrará outras denominações mais apropriadas. Peço-lhe ajuda, mesmo porque o que roubei, diante dos descalabros praticados ultimamente no Congresso Nacional, é fichinha pura. Uma merreca que não paga nem uma diária de hotel meia-estrela na Capital Federal.
Uma pergunta final lhe faço, amigo: Congressista bandido não é também culpa da imbecilidade dos que o elegeram?

Guardei a correspondência do Ali Babá, ladrão-fichinha nos tempos de agora.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Jesus e Joana D'Arc

Conversando com o meu irmão João Silvino da Conceição, além dos comentários sobre a degradação viária que anda vitimando o Recife, agora chamada Capital das Pontes, Rios e Buracos, um assunto por ele levantado foi uma biografia de Joana D’Arc, de autoria de Daniel Spoto, um PhD em Teologia pela Universidade Fordham. A biografia de Joana D’Arc foi publicada este ano no Brasil pela Planeta do Brasil, numa tradução sem muita inspiração estilística de Rafael Leal.
Segundo João Silvino, quem já conhece a caminhada do Homão da Galiléia através dos evangelhos sinópticos e toma conhecimento da trajetória existencial da grande guerreira que foi Joana D’Arc, não deixará passar alguns sinais convergenciais das duas vidas, tomados apenas sob ângulos históricos dos acontecimentos que os envolveram.
Impressiona nos dois relatos a pusilanimidade abjeta dos letrados – religiosos, juizes, conselheiros e portadores de função decisória – diante do dinheiro, do poder estrangeiro e dos privilégios. Responsáveis pela arregimentação de falsos testemunhos e pelas violentas coações físicas e morais exercidas sem um mínimo de defesa. Até um novo julgamento foi instaurado para cada caso, as imolações já acontecidas, absolutórios ambos, como remições dos descalabros cometidos e das ignomínias praticadas contra duas personalidades que agiam radicalmente sob ditames inspiradores divinos.
O Silvino ainda alertou para algumas “evidências” acontecidas nos dois caminhares. O sentimento de “convocação” acontecido ainda em idade infanto-juvenil, a de Jesus narrada no Templo, perguntas e respostas com os mestres de então, segundo Lucas, a de Joana acontecido por volta dos treze anos; o ambiente de dominação por potências estrangeiras nos dois contextos familiares; a punição por morte, uma por crucifixão, a outra na fogueira; a instrução primária dos dois, oriundos do meio rural; as respostas inteligentemente estonteantes oferecidas aos adversários; os relacionamentos com o Alto, indeléveis, não diagnosticados até hoje com efetividade pelas Ciências Humanas; as consequências históricas revolucionárias por eles provocadas, favorecendo a evolução comunitárias; o sofrimento causado em suas respectivas mães; as acusações partidas dos cínicos e céticos – bebarrão, comilão, prostituta, descumpridores das normas eclesiásticas, etc – que muito contribuíram nas suas condenações; a covardia e a omissão de seguidores e a solidariedade manifesta até pelos das hostes inimigas.
No seu entusiasmo, o João Silvino mostra um diálogo elaborado por George Bernard Shaw, na peça teatral Santa Joana, escrita em 1923. Um dialogo “acontecido” entre Joana e um dos seus inquisidores, a explicação dela tendo uma extraordinária semelhança com algumas explicitadas pelo Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador. Ei-la: Diz Joana: - Ouço vozes me dizendo o que fazer. Elas vêm de Deus. O inquisidor rebate: - Elas vêm da sua imaginação. Esclarecimento fulminante de Joana D”Arc: - É claro. É assim que as mensagens de Deus vêm até nós.
Na biografia escrita por Donald Spoto, aplaudido teologo, algumas características de Joana marcam e abalam os leitores mais cabríticos, que a correlacionam com o Senhor Jesus. Selecionamos algumas :
“Joana fala claramente para a vida política do século XXI”;
“Joana lutou contra a inadequação do discurso humano para expressar o que não pode ser expressado totalmente, mas que precisa sê-lo, de alguma forma”;
“Interpretação é uma palavra que afasta muitas pessoas, como se significasse falsificação, criação ou exagero”;
“Joana não era sofisticada em termos de religiosidade ou de linguajar religioso, tampouco seguia um programa estabelecido pela Igreja de modo geral ou por alguma comunidade religiosa em particular”.
Tem ainda plena razão o biógrafo Spoto: “Joana D’Arc pode ser um poderoso símbolo contemporâneo do poder transformador da fé”.
(Publicada no Jornal do Commercio, 15.07.2009, Recife-Pernambuco)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Análise Despertadora

Confesso que muito me agradam as leituras propocionadas por textos bem estruturados, não-enrolocráticos, que ampliam a “enxergância”, através de “apreendências binoculizadoras” que “desabestalham e cidadanizam”, acelerando o caminhar de todo aprendiz de tudo na direção de uma melhor transitividade crítica, sendo esta última expressão da mente criativa do saudoso educador pernambucano Paulo Freire, um talento ainda muito pouco reverenciado neste Brasil ainda meninão e pouco cidadão.
Semanas atrás, no Dia dos Namorados, recebi da Melba, inspiração de longo percurso, um dos últimos textos de Gilles Lipovetsky, pesquisador e professor da Universidade de Grenoble, França, também filósofo de nomeada. Editado pela Companhia das Letras, A Felicidade Paradoxal é um muito oportuno ensaio sobre a atual sociedade do hiperconsumo, como se consumo em doses descomunais trouxesse felicidade ou proporcionasse bem-estar mental para seus aficionados de todos os naipes e rincões.
Com base no livro, neste último final de semana estive no Hotel Portal de Gravatá, conversando com os jovens que irão estagiar no exterior, integrantes de um fabuloso programa de intercâmbio patrocinado pelo Rotary International. Conheci um intercambista, o Júlio Carlos, de 15 anos, que mora no Coque e é violinista da Orquestra Cidadã Meninos do Coque. E que irá se aprimorar musicalmente na Polônia durante seis meses, através de uma bolsa integral concedida pelo Rotary. Aproveitei a ocasião e também bati um papo com o Rodolfo, um rapaz de 19 anos, de Campina Grande, já estudante universitário de Engenharia Elétrica, também intercambista, que recentemente regressou da Alemanha, onde aprendeu alemão no Goethe Institut. E abracei o Eduardo Mota, filho do poeta Mauro Mota, um dos incentivadores maiores da minha profissionalidade, cuja filha também estagiará no exterior. E enalteci para todos os presentes A Tecelã, um poema de Mauro Mota que muito sensibilizou o Papa de então.
Agradeço ao pessoal do RC 4500 a acolhida sempre fraternal. Fiquei feliz em rever Francisco Leando Araújo, hoje Governador do Distrito, sempre amplamente incentivado pela Zazá, sua inspiração existencial e também sua colaboradora profissional, sendo ambos médicos. E tornei-me admirador de carteirinha do também médico Rivaldo Mendes, cristão militante, obstetra nota máxima da Universidade de Pernambuco. Abracei ainda o Marcelo Casimiro, cujo filho Rafael, de onze meses, nos brindava sempre com uma alegria contagiante.
Aos jovens, ressaltei as posturas viróticas que estragam uma viagem de intercâmbio: as voltadas somente para o passado, enfatizando a reprodução e a memorização; as que valorizam a incompetência, a ignorância e a baixa-estima; as que menosprezam o autoconhecimento; as que abandonam sonhos e utopias.
Relembrei para todos os presentes, o filósofo Karl Popper: “Nós não temos a verdade. Só podemos dar pitacos”. E esclareci a diferença entre bussolar e disleriar. O primeiro verbo significando estar antenado consigo, com o seu derredor e com o meio-ambiente. O segundo verbo é inspirado nas reflexões do poetaço Jessier Quirino, cabendo a carapuça naqueles que sequer percebem a veloz mutabilidade dos hojes, nunca ouvindo falar em dromologia, acomodados sempre no seu mundinho de mediocridades, distanciados de uma contemporaneidade sadiamente lúcida, que sabe viver dignamente, muito distante dos que a qualquer custo querem aparecer.
Mostrei aos intercambistas que sabedoria nada tem a ver com diploma disso ou daquilo. E citei, a título de exemplo, dois pensares do Marcolino Revoredo da Silva, um auxiliar de farmácia de Toritama (PE), inteligente que só, que o notável médico-escritor José Nivaldo eternizou como personagem título de um dos seus aplaudidos livros. A primeira: “A doutor nunca cheguei, mas tangi com as leituras a escuridão da ignorância, fazendo aprendimento que sempre gostei”. A outra: “Ciência é ciência, aparência é o avesso que pode se descoser”.
Para terminar o papo, repeti para os adolescentes um balizamento do poeta Fernando Pessoa, o português mais arretado de inteligência que eu tenho notícia. Uma lição de muita valia, que deveria tornar-se porta-estandarte de uma esplendorosa caminhada deles, de agora em diante: “Para vencer – material e imaterialmente – três coisas definitivas são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades e criar relações”.
O resto, conclui para eles, com um orgulho danado de ser nordestino, é estrume metido a cavalo, corpo de Cadilac em alma de jipe, como classificava Dom Hélder Câmara, um Dom que muito amei.
PS. Ontem à tarde visitei meu irmão quase de mesmo Flávio José Cavalcanti Neves, rotariano dos ótimos, que está se recuperando de um AVC braboso. Inteligência tinindo, esperança com alegria incomum, sempre sob as bênçãos do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Carona de muita valia

Indo ministrar no campus da UFPE uma das minhas últimas aulas semestrais, dou carona a um oitentão careca, sorridente e cheio de vida, olhos buliçosos, que para lá também se destinava, na intenção de visitar a Biblioteca Central, tida e havida como abrigo de um dos mais atualizados acervos universitários do país.
Cumprimentos preliminares feitos, identificações à parte, principiamos a trocar figurinhas sobre mundos e fundos, daqui e d’além mar, percebendo eu, de bate-pronto, tratar-se de uma mente ostensivamente privilegiada, dessas capazes de fornecer umas boas “dicas” para quem está buscando continuar vivendo num mundo repleto de complexidades. O octogenário careca e sorridente não se fazia de rogado, refletindo serenamente a cada inquietação por mim explicitada, eu me postando tal e qual menino de pré-escolar diante de professora das letras primeiras.
A apresentação pessoal feita pelo “caroneado” era de uma simplicidade sem qualquer mesura: - Mineiro de Boa Esperança, cronista do cotidiano e contador de estórias, com alergia aos piruás. Percebendo meu espanto, esclareceu: - Piruá, lá nas Minas Gerais, é aquele milho que não deseja se tornar pipoca, se recusando a mudar por mais que o fogo esquente, tornando-se endurecido a vida inteira.
Caída a ficha, ousei perguntar ao simpático companheiro mais velho se ele gostava de ensinar. A sua resposta me sensibilizou: - Ensinar é o processo pelo qual as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como herança, a caixa onde guardam seus mapas e ferramentas, para que nunca se precise começar da estaca zero. Muito embora a sabedoria não seja ter, mas saber onde encontrar. Você sabia que o homem que inventou o alfabeto era um analfabeto?
Percebendo meu estado euforizante, advertiu: - Entretanto, todo cuidado é pouco com precipitações no ensinar. A Vida tem sua própria sabedoria. Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata. Há certas coisas que têm de acontecer de dentro para fora. E concluiu, sem preocupações conclusivas: Há dois tipos de escolas, as que são gaiolas e as que são asas. Eu sempre me preocupei com aquilo que as escolas fazem com as crianças. Ultimamente ando me preocupando com aquilo que as escolas estão fazendo com os professores.
Cada vez mais embevecido com aquela mente privilegiada, logo percebi seu saber-viver encantador, filosofal sem pedanterias castradoras. E me manifestei entusiasmado: Esta carona que lhe estou dando foi uma benção recebida de Deus! Eu estava precisando conversar com alguém que soubesse rir. Quase encabulado, ele me respondeu: Já dizia Niebuhr, um especialista em religião, que o riso é o início da oração. Eu digo que a oração acontece no espírito do brinquedo, tendo Deus como companheiro. O demônio é sempre sério e nos puxa para baixo. Mas Deus é leve, menino, e nos convida a brincar. Experiência mística não é ver seres de um outro mundo. É ver este mundo iluminado pela beleza.
Uma segunda ficha caiu. Imaginei o careca sorridente como alguém de muitos mil quilômeros rodados de caminhada religiosa, talvez até missionária. Tive minha curiosidade satisfeita, com um arrazoado dele que me deixou sem poder tirar um pingo de alguns de seus ii: Um Deus que tenha uma câmara de torturas chamada inferno não merece o meu respeito e muito menos o meu amor. Somente os pássaros livres pensam no azul infinito. Um mar que se compreende não passa de um aquário. E eu não respeitaria um Deus que, havendo me dado asas, nos proibisse de voar. Deus criou os pássaros, as religiões criaram gaiolas. E as gaiolas criadas pelas religiões são feitas com palavras. Elas têm o nome de dogmas. Quero um santo que seja uma pessoa normal, exuberante, brincante. O Paraíso mora dentro de uma caixa de brinquedos.
Identificando-me como um alguém que respeitava todas as religiões, ouvi uma outra reflexão muito ratificadora: As religiões ocidentais, o cristianismo e o islamismo, se construíram com certezas. Sempre tiveram medo da dúvida. Sobre os que duvidaram, colocaram a ameaça das fogueiras ou do inferno. E isso deixou marcas tão profundas nas pessoas religiosas que, ainda hoje, elas têm medo de duvidar. O que significa que elas têm medo de pensar. E arrematou: Não tenho problemas com Deus. Mas tenho muitos problemas com aquilo que os homens pensam sobre Deus. Sou filho da tradição protestante. Não posso me livrar dela, nem quero. O que amo nessa tradição? A ousadia de pensar diferente, de andar na direção contrária; é o que mais amo. Não consigo viver sem dizer o que penso.
Na porta do Centro de Ciências Humanas, as despedidas habituais e os meus agradecimentos pelas lições recebidas. Com um sorrisão ainda mais livre, leve e solto, o oitentão arretado concluiu: Estou sempre correndo o risco de ver as coisas que digo com a seriedade do riso serem ignoradas como nada mais que uma brincadeira. A vida não suporta a mesmice. Aves engaioladas são banais e podem ser compradas em qualquer lugar. Nunca se esqueça que o riso é virtude filosófica. Aprendi que a melhor maneira de afugentar o ridículo é ser o primeiro a rir. Quem se leva a sério é, no fundo um inquisidor. Está só à espera de que a ocasião apareça. Distancie-se das pessoas muito sérias, posto que possuem problemas insolúveis. Recomende-me à sua amada esposa, e quando tiver a minha idade, perceba com saber e sabor que a velhice é quando o rio se prepara para converter-se em mar.
A terceira ficha caiu, ao ver o sábio oitentão preparando-se para deixar o carro: Rubem Alves!! Quando ele bateu a porta, o barulho do meu despertador de cabeceira anunciou que eu teria mais um dia de trabalho pela frente.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Rabiscos do João

No Centro de Convergências Humanas, um espaço de ampliação da espiritualidade transreligiosa situado bem pertinho de onde moro, deparo-me com o João Silvino da Conceição todo serelepe, mais contente que mosca em bosta novinha de vaca. Acompanhado da Zulmirinha, morenona de cabelo bem espichado, irmã mais nova da Dona Conceição sua mulher, seios ainda em posição de sentido, apesar dos quatro sugadores bem nascidos, hoje duas parelhas de nordestino de fazer gosto aos xibius mais exigentes da região. Ele sobraçava uma ruma de papel almaço mais ou menos em ordem numérica.
Depois dos abraços, sorrisos de sempre e as notícias sobre a recuperação da Melba, o Alzheimer da Dona Lu e o andamento do resto da tropa, perguntei ao João sobre o conteúdo daquela papelada, segundo ele atualmente em fase de ajeitamento final para envio a uma editora de nomeada, situada nos arredores do seu bairro.
Baseado numa confiança recíproca de muitos anos, dei uma espiadinha em algumas daquelas folhas, entusiasmando-me com o conteúdo variado dos temas. Os apontamentos estavam em ordem numérica. Consegui memorizar alguns daquela centena:
11. Deputadização – esculhambação oriunda da Câmara dos Deputados que contamina o Senado Federal, num amplo convênio-canalha de ajuda mútua entre duas áreas velhacas, a dinossáurica, oriunda da velha República, ainda sobrevivendo graças aos alheamentos políticos dos grotões rurais, e a lulocrática, mais jovem etariamente, embora especializada em trambiques, disfarces e cinismos de alta qualificação alcaponeana. O número de funcionários do Congresso Nacional enxovalha qualquer princípio democrático, enlameia o conceito de civilização tropical, nivela todos nós, inclusive o presidente Lula e seus auxiliares, nas equivalências do que existe de mais fétido no mundo subdesenvolvido.
23. Secreta – um pau-mandado de quinta categoria, xeleléu de senadora travestida de primeira dama de estado em generalizada decrepidez pública, recebendo um salário do Senado Federal que afronta a dignidade de um oficial de superior patente das Forças Armadas Brasileiras.
39. Estádios de futebol – porta de entrada de rios de dinheiro para a construção de um sem-número de praças de esporte, com o interesse primaz de engabelar os abestados de sempre, relegando para os baús do esquecimento as gigantescas necessidades de educação básica, saúde, saneamento e segurança pública para o todo nacional. O ministro do Esporte disse que “o governo federal não irá desembolsar R$1 para arenas e que comete engano quem pensa que Mundial de 2014 irá resolver todos os problemas das 12 cidades-sedes”. Pode não resolver todos os problemas, mas alguns “problemas pessoais” certamente ficarão muito bem solucionados...
84. Afastamento de desembargador – Aplausos para o Conselho Nacional de Justiça, que afastou, por trambicagens múltiplas, o desembargador Jovaldo dos Santos, do TJ do Amazonas, que de santo não tinha bulhufas. Ele foi denunciado por uma mulher de muita coragem, a advogada paulista Alessandra Camargo Ferraz, e responderá inquérito por fraude na distribuição de processos, retardo ou apressamento de processos, favorecimento de amigos e emissão de sentenças calamitosas. Espera-se o defenestramento definitivo do pretenso magistrado, dando-lhe o CEP da cadeia local.
91. Descaramento - O presidente Lula, defendendo José Sarney, protegendo o desmatamento amazônico, cinicamente aplaudindo o autoritarismo aiatolático do Irã e dedurando de “denuncismo” a imprensa brasileira, ou está a carecer de cuidados médicos ou sempre foi um “deixa que eu chuto, o resto que se dane” de excelente intuição sobrevivencial na bandidagem política pátria.
98. Cópias - O discurso do senador Pedro Simon para os que ainda possuem vergonha na cara. O Senado bastante carcomido tem as suas exceções. As que evitam sua depredação.
Perguntei ao Silvino: - E por que este semblante de felicidade, mano velho?
A resposta me satisfez plenamente: - Porque antigamente a bandidagem existia e ninguém podia denunciar, pois a imprensa estava amordaçada. Hoje, nem que queira e a vaca tussa, o presidente Lula poderá silenciar os que desejam um Brasil menos enxovalhado para os nossos filhos e netos. Estamos vivenciando uma evolução cidadanizadora. Entrando finalmente numa Democracia.
Abracei o João Silvino, disfarçando a emoção que rolava bochechas abaixo.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Para um xará bispo, com carinho

Caríssimo Dom Fernando Saburido:
Não o conheço pessoalmente, mas sobre a sua pessoa já recebi, em inúmeras oportunidades, elogios portentosos de Dom Filadelfo Oliveira, nosso bispo anglicano até pouco tempo, atualmente titular na Diocese Anglicana do Rio de Janeiro. Ele, por diversas vezes, sintetizava em poucas palavras a sua pessoa: sincero, sereno, gestor, caráter, ecumênico e helderista.
O bispo Filadelfo, também um bom pastor helderista à sua maneira, quando entre nós repetia frequentemente umas frases do saudoso Dom Hélder Câmara, aquele que ordenou o senhor em tempos não distantes. Uma pequena amostra: “Depois de intensa escuridão, mais radiante é a madrugada”; “A maior e mais grave das imprudências é a própria prudência que se fia em si, se torna calculista e prescinde das loucuras de Deus”; “Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”; “Não te deixes dilacerar entre o ontem e o amanhã. Vive sempre e apenas o hoje de Deus”; “Há pessoas que, independentes de idade, pelo que são, pelo que dizem, pelo que fazem são sempre meio-dia”; “Não bastam que os pobres te conheçam e te saibam o nome; é importante que tu os conheça e lhes saiba a história e lhes saiba o nome”. Certamente o senhor já percebeu qual o livro de cabeceira do bispo Filadelfo Oliveira. As frases por ele citadas foram extraídas de Mil Razões para Viver, uma edição 1978 da Civilização Brasileira.
Abraço-o com toda fraternidade, já confirmando minha presença nas solenidades públicas da sua posse como Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife, com meus irmãos cristãos de todas as denominações, com o pessoal do Igreja Nova, os integrantes da Associação Padre Henrique, o meu irmão João Pubben, os amigos padres Edwaldo e Reginaldo e os componentes da ex-Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese, entre os quais me incluo, com todos aqueles que o senhor já conhece há muito tempo, desde quando, entre nós, exercia as funções de Bispo Auxiliar.
Estou convicto que o irmão bispo e xará, em suas ações, andanças e falas, favorecerá reencontros substantivos, que deverão se agigantar ainda mais para o Pai. Suas falas e gestos concretos expressarão o mais puro ideal do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador, sempre a reconhecer a urgência perenemente restauradora dos princípios basilares.
Sem intenção de julgar quem quer que seja, tenho confiança na sua serenidade pastoral, jamais renegando suas tarefas de ser luz do mundo para todos os que pelejam por vida e vida em abundância.
Saberá o irmão bispo conviver com as mais diferenciadas categorias sociais, percebendo os hipócitas e os fingidos que se travestem do que não podem ser, sempre de braços abertos para os que do Senhor se aproximarem, buscando novos comportamentos e salutares conversões.
Tal e qual um bom médico humanista, o irmão bispo xará buscará restaurar a fé dos desestimulados, promovendo a solidariedade de uns para com os outros, sem jamais exigir carteirinha denominacional dos seus admiradores, prometendo estar sempre presente nos grupos que desejam ardentemente participar.
Como excelente ajuntador especial de mentes e corações, o irmão bispo ficará alerta diante dos egocentrismo que corroem a grandeza d’alma, dilapidando as candeias individuais que deveriam iluminar as veredas planetárias e os descampados das estruturas cósmicas. E de vez em quando repetirá Isaías para todos nós, aquele que denunciava sem contemporizações os que oravam apenas da boca para fora, distanciados do coração, considerando os ensinamentos religiosos apenas rituais ditados por alguns de outras eras.
Continue, meu irmão bispo, cada vez mais socialmente atento, a proclamar o anúncio do Senhor Jesus: o de que não há mais judeu, nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, posto que todos estão sob as bênçãos de um Criador que não tem nem cabelo, nem barba, nem bigode, tampouco traje e rosto, sendo eternamente glorificado sob o inefável codinome Eu Sou O Que Sou.
Que o Senhor Jesus o cubra sempre de múltiplas Graças, irmão bispo xará. Para empreender um caminhar reconstrutor sem nostalgias fóbicas. Sempre aglutinando. Jamais desmerecendo as alegrias que inundam os que, durante mais de duas décadas, desejavam respirar a Luz.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Picaretas do Congresso Nacional

Impressiona a cara-de-pau de alguns congressistas brasileiros. Acredito que os 300 picaretas apontados pelo presidente Lula, tempos atrás, já foram ultrapassados pela chegada de alguns novos salafrários eleitos por um povo que necessita saber defenestrar os bandidões do Congresso Nacional. Outro dia, um congressista do Maranhão, portador de uma gigantesca idiotia, disse temer ser obrigado, “daqui há pouco, a andar de jegue, morar em casa de palafita e mandar mensagens por pombo-correio”, face as restrições moralizadoras mínimas que deverão ser aplicadas no Congresso Nacional, hoje mais conhecido como Casa de Mãe Joana, onde a esculhambação impera, para degosto de uma minoria que decentemente se comporta.
Olvidou-se aquele parlamentar que jegue não pode galopar jegue, palafita é efeito da ação picareta de muitos políticos iguais a ele, e que pombo-correio exige capacitação técnica do responsável, certamente algo que se encontra bastante aquém do seu nível mental.
Dias atrás, numa capital nordestina, praieira por excelência e bem dotada turisticamente, “enfrentei” duas horas de convivência com um “homus bobus”, deputado federal travestido de entendido em fatos e feitos da conjuntura contemporânea, “especializado” em piroca nenhuma e despreocupado com as regras gramaticais e as estruturas lógico-formais da epistemologia para principiantes. Um jumentálico, no definir do João Silvino da Conceição, meu irmão de existência.
Racista, embora nitidamente não-branco, confessava sua irritação por todos aqueles que defendiam os menos favorecidos. Explicitamente eqüino nas Ciências Humanas, não compreendia as razões de se levantar o boicote à Cuba, acreditando que a pena de morte seria a melhor das soluções para os atuais índices de criminalidade. E ainda considerava que o objetivo último do bem viver estava intrinsecamente vinculado a três fatores: mulher, dinheiro e poder, o lazer sendo melhor usufruído por quem melhor conciliasse o “trinômio”.
Indagado por mim sobre as suas leituras feitas nos últimos anos, esboçou um sorriso debochoso, quase me deixando convencido da existência de um pedaço da humanidade que não teria seguido à risca os parâmetros evolucionais de Darwin. E perguntou, de supetão, se valia a pena ler. Devidamente adentrado nos anos quarenta, corpo bronzeado e olhos bem negros, confessou malhar três horas por dia, caminhar oito quilômetros e cumprir sesta de duas horas todas as tardes, religiosamente, embora não acreditasse em nada relacionado com o além-vida, ainda que, no pulso esquerdo, exibisse duas fitinhas amarelas que pareciam bem amarradas, quase apodrecidas.
Ao lhe dizer o que eu fazia, ensino, consultoria e pesquisa, espantou-se sem relinchar: “Como você aguenta ser isso?” E olhou-me como se eu fosse uma espécie raríssima, certamente um “homo-imbecilis”, desses que perdem muito tempo com vocação docente, cultura, empregabilidade, democracia, educação, dignidade, desenvolvimento de todos, direitos humanos, espiritualidade e cenários futuros.
No cumprimento final, respeitosamente me aconselhou: “Tás ainda ágil, amigo. Sai dessa e entra numa boa, numa que dê muito ibope, tutu e mulher, que é o que hoje vale. O resto é cascata pura, cada um devendo procurar o melhor para si, sem se preocupar em dar colher de chá pros outros”.
Almocei logo depois com um amigo de infância, ainda sentindo a sensação de ter encontrado uma espécie não-rara do atual Congresso. Que será maioria, caso as lideranças responsáveis pelos nossos destinos, juntamente como os demais segmentos comunitários, não binoculizarem estratégias compatíveis com um desenvolvimento econômico-social que privilegie um saber-fazer lastreado numa responsabilidade consciente, sem as equinocidades de alguns bípedes mal evoluídos, portadores de intenções alibabásticas., nomeados alguns até secretamente.
(Publicada no Jornal do Commercio, 01.07.2009, Recife-Pernambuco)