quinta-feira, 28 de maio de 2009

Crise do quarto de vida

Numa revista semanal recente, uma reportagem deveria merecer as atenções das autoridades educacionais brasileiras, principalmente as vinculadas ao ensino superior. Trata-se da crise que está afetando jovens da faixa de 25 a 30 anos, crise existencial predominantemente de classe urbana e instruída, que carrega “incertezas, isolamento, confusão e ansiedade sobre trabalho e relacionamento”. Na literatura médica anglo-saxônica, ela é classificada como quarterlife crisis, em nosso português assumindo a denominação crise do quarto de vida.
Quem trabalha na área do ensino superior facilmente percebe entre os alunos aqueles que não conseguem tomar decisões porque ainda não sabem o que querem, também nada decidindo porque ainda não sabem quem são. E ainda não sabem quem são porque podem ser o que desejarem, assim imaginam, diferentemente dos seus pais que possuíam, aos 25 anos, objetivos claros e determinados: casamento com filhos, trabalho e casa. E porque se imaginam poder fazer o que bem entenderem, tais jovens terminam por assimilar milhões de dúvidas e apreensões dos mais variados quilates, resultando em portentosas inseguranças, que terminam por vitimar inteligências de excelentes potenciais.
A reportagem define: “a atual geração tem mais dinheiro, mais autonomia, mais direitos do que as anteriores, mas não sabe direito o que fazer com tanta liberdade. Investir na carreira? Estudar no exterior? Tirar um ano sabático? Diante de tantas dúvidas, a vida fica estagnada, num labirinto de muitas saídas, mas nenhuma muito clara”. Assim, diante das incertezas, surgem os denominados “filhos cangurus”, aqueles que ainda não se descolaram dos pais, permanecendo no bem-bom residencial. No Brasil, as últimas estatísticas revelam a existência de 3,3 milhões de famílias com filhos cangurus.
Com a crise financeira nos quatro cantos do planeta, a crise dos 25 se instala com mais intensidade, agigantando-se as encruzilhadas existenciais, desfavorecendo a emersão de uma postura sartreana: "Não importa o que fizeram de mim, importa o que eu faço daquilo que fizeram de mim". A crise fará renascer o Ser antes do Ter numa classe média que se encontrava apenas preocupada com amanhãs de Ter, resvalando o Ser para os ontens doutrinais que catapultavam amplas discussões e múltiplas idéias. Onde a música “Ouro de Tolo”, do menestrel baiano Raul Seixas, caía como uma luva de pelica.
A questão que se agiganta nos jovens da crise do quarto de vida é shakespeareana: ser ou não ser? Os que se imaginam ficar neutros, se enganam profundamente. Não se pode ficar neutro em momento algum da nossa existência. Ou praticam a sinceridade ou aderem ao cinismo, tal e qual é exercido atualmente no Congresso Nacional, que está a necessitar de uma intensa varredura, queira Deus pacíficamente.
Para os jovens em crise, o século XXI tornou-se bem mais complexo do que o século anterior. Tudo parece estar de ponta cabeça, apesar dos avanços gigantescos da tecnologia e dos meios de comunicação, com os microcomputadores efetivando feitos memoráveis, ligando instantaneamente os quatro pontos do mundo. A maravilha tecnológica convivendo com milhares de mortes de civis, desemprego em cascata, desestruturações familiares, drogas e bandidagens, corrupção em todos os poderes da vida pública, pirotecnias sexuais episcopais, infidelidades múltifacetárias e descriatividades religiosas, tudo contribuindo para a ampliação da degradação do ser humano e o desespero existencial dos jovens ainda não ingressos numa maturidade emocional.
Dizem os especialistas que dois tipos se destacam entre os seres humanos. O primeiro é o desespero pelo desejo de não ser um eu próprio, denominado de desespero-fraqueza. O outro desespero se configura pelo desejo de ser um eu próprio, conhecido como desespero-desafio. O segundo bem promissor, o primeiro autodestrutivo.
Lição última: existem pessoas que não assumem o "esperado" delas, mas olhando para si, fazem algo novo, desmistificando todas as expectativas dos outros! Exemplo notável é o de Helen Keller (1880-1968), que nasceu cega, muda e surda. E quando todos esperavam que fosse mais uma criança deficiente, eis que, através da ajuda de sua professora Ana Clivam, ela desafiou o seu destino e aprendeu, agigantando-se para o mundo inteiro.
Que os jovens em crise apreendam a reflexão de Martin Heidegger: "O homem é um ser que está para além da sua própria situação". Jamais tornando-se escravos da rotina, nunca portadores do desespero-fraqueza. Porque compreenderão, enfim, que os que mantiverem posturas de desespero-fraqueza, jamais se permitirão alcançar as utopias desafiadoras que diante deles se postaram, impossibilitando-os do cumprimento das missões que lhes foram destinadas pela Criação.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

Caminho do Crescimento Espiritual

Na última semana de abril último, participei do Concílio Diocesano da DARJ - Diocese Anglicana do Rio de Janeiro. Por deferência fraternal de Dom Filadelfo Oliveira Neto, bispo diocesano da Cidade Maravilhosa, também participei de um Encontro sobre Meditação, acontecido no Mosteiro de São Bento, dois dias, as reflexões sendo efetivadas por Dom Luiz Prado, Reitor do SETEK - Seminário Anglicano de Porto Alegre, Bispo Emérito da Igreja Anglicana. Exposições que se tornaram para mim um bálsamo restaurador, fortificando meu Anglicanismo radicalmente ecumênico e me tornando mais próximo daquele Reitor, uma personalidade dotada de conhecimentos sem fingimentos, nem faniquitismos.
Durante suas falas, Dom Prado citou várias vezes um livro, distribuindo cópias xerográficas de alguns dos seus parágrafos. O livro chama-se CELEBRAÇÃO DA DISCIPLINA, de Richard Foster, teólogo e professor da Friends University e pastor da Evangelical Friends Church, também fundador da RENOVARE, uma organização cristã voltada para a renovação da Igreja.
Confesso que os pequenos trechos do livro me provocaram uma intensa curiosidade. Falar em Espiritualidade, na minha atual faixa etária de caminhante ainda aprendiz de tudo, não me seduz na grande maioria das vezes. E a razão é muito simples: da bibliografia existentes sobre o assunto, a grande maioria dela se encontra eivada de bobajadas sentimentalóides, “ovelhísticas”, sem criatividades nem ousadias evangelizadoras “cabríticas”, do tipo daquelas que promovem profundas reenergizações interiores, capazes de remover montanhas políticas, sociais e religiosas de um mundo que se encontra ameaçado por todos os lados. Conforme alerta feito no próprio prefácio do livro de Richard Foster, editado desde 1978 pelo mundo afora, no Brasil já em segunda edição pela Editora Vida, comemorando o aniversário de 30 anos da edição primeira: “Os maiores problemas de nossa época não são tecnológicos, pois lidamos consideravelmente bem com eles. Tampouco políticos ou econômicos, porque as dificuldades nessas áreas, embora evidentes, em larga medida são problemas de segunda ordem. Os maiores problemas são morais e espirituais e, a menos que consigamos progredir nesses setores, talvez nem mesmo consigamos sobreviver. Foi por isso que as culturas avançadas do passado entraram em decadência”. E o prefaciador ressalta que o propósito do livro “não é ser sectário, mas genuinamente ecumênico”.
Há mais de dez dias estou debruçado sobre as linhas de CELEBRAÇÃO DA DISCIPLINA, de Richard Foster, sempre agradecendo ao Homão da Galiléia um dia ter conhecido fraternalmente Dom Luiz Prado, num papo-construção que aconteceu das nove da noite até as cinco da madrugada, regado a leite maltado e refrigerantes diets, alguns sanduíches e absoluta liberdade de falar e ouvir. Do livro, em breve, ousarei fazer uma resenha, submetendo-a a alguns irmãos bispos anglicanos. Do quilate dos que estavam comigo naquela madrugada, num papo evangelizador por excelência, ninguém desejando ser mais que ninguém, abjurados os eruditismos “metidos a cavalo do cão”, saborosa expressão do meu Nordeste sofrido, mas altaneiro, a la Graciliano Ramos e Frei Caneca. Eu sendo o mais raquítico em termos neuroniais.
O livro CELEBRAÇÃO DA DISCIPLINA tem a seguinte estrutura:
Introdução – As disciplinas espirituais: porta de entrada para a liberdade.
Parte I – As disciplinas interiores: meditação, oração, jejum e estudo.
Parte II – As disciplinas exteriores: simplicidade, solitude, submissão e serviço.
Parte III – As disciplinas comunitárias: confissão, adoração, orientação e celebração.
A leitura do livro é por demais oportuna. Até para respaldar “as transformação de uma consciência de si que se torna mais forte do que a consciência das regras, das normas, bem como das exigências dos sistemas dentro dos quais vivemos e agimos, obrigando-nos a trazer à memória uma idéia que tão freqüentemente foi esquecida e mesmo violentamente rejeitada por muitos: a idéia de sujeito, isto é, do indivíduo reconhecido como criador dele mesmo”, reproduzindo, aqui, o pensar do sociólogo Alain Touraine, exposto em seu livro Pensar Outramente, Vozes, 2009.
PS. Para o meu irmão Rev. Edmar Pimentel, agora feliz na Diocese de Santa Maria, Rio Grande do Sul, sob a batuta de Dom Jubal Neves, que muito amamos fraternalmente.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Escuridão com muita luz

Forte emoção senti, sábado passado à tarde, numa livraria recifense de excelentes atributos técnico-científicos e culturais, quando me deparei com A História da Minha Vida, autoria de uma das minhas maiores admirações terrestres: Helen Adams Keller, aos 18 meses de nascida tornada surda, muda e cega, depois de acometida por uma violenta febre.
Eternizada em 1968, aos 87 anos, com 14 livros pubicados, traduzidos em mais de 50 idiomas, ela foi agraciada com títulos e diplomas honoríficos por inúmeras instituições do mundo inteiro, tendo sido condecorada, no Brasil, com a Ordem do Cruzeiro do Sul; na França nomeada Cavaleiro da Legião de Honra; e no Japão agraciada com a Ordem do Tesouro Sagrado. Uma amostra das significativas homenagens prestadas por inúmeras instituições científicas e humanitárias.
Os testemunhos sobre Helen Keller são profundamente significativos. Apenas dois aqui: “A maior mulher de nossa época” (Winston Churchill) e “Ela será famosa daqui a mil anos como é agora” (Mark Twain). Consagração a comprovar que as deficiências físicas dela não obstaculizaram sua caminhada de sucesso como pensadora e ativista de nobilitantes causas humanas.
A história de Helen Keller foi lançada em 1903 e narra sua trajetória de vida até o terceiro ano do Radelife College, onde para ingressar prestou exames, nos dias 29 e 30 de junho de 1899, com 19 anos, em grego elementar, grego avançado, geometria, álgebra e latim avançado, tendo sido a primeira deficiente visual a se graduar naquela instituição. Em 1904, conseguiu o bacharelado cum laude (com louvor) em Letras.
Peço licença aos leitores Algomais para transcrever três cartinhas de Helen Keller. A primeira carta foi por ela redigida com 7 anos de idade para a prima Anna: “helen escreve ana george vai dar helen maçã simpson vai atirar numa ave vai dar helen um doce médico vai dar remédio mildred mãe vai fazer vestido novo mildred”. A segunda foi escrita com 11 anos para o rev. Phillips Brook: “... Minha professora acaba de me contar que o senhor se tornou bispo e que seus amigos em toda parte estão contentes porque alguém que eles amam foi grandemente honrado. Não entendo muito bem qual o trabalho de um bispo, mas tenho certeza de que deve ser bom e útil e fico contente que meu querido amigo seja corajoso e sábio e bastante amoroso para realizá-lo. É muito bonito pensar que o senhor possa falar a tantas pessoas sobre o terno amor do Pai celestial por todos os Seus filhos, mesmo quando eles não são gentis e nobres como Ele deseja que fossem. ...”.
A terceira carta, a última explicitada no livro editado pela José Olympio Editora, que é a versão brasileira da edição de 2003 norteamericana, ressalta a impressionante evolução do pensar de Helen Keller, ela então com apenas 21 anos, dirigida ao senador George Frisbie Hoar: “... Eu pensava que quando estudasse governo civil e economia, todas as minhas dificuldades e perplexidades iam florescer em belas certezas, mas ai de mim, vejo que há mais joio que trigo nesses férteis campos do conhecimento. ...”
De parabéns a diretoria do Lions Club International, que declarou o dia 1º de junho como o "Dia de Helen Keller". Uma excepcional iniciativa. A provocação de Helen tendo acontecido em junho de 1925, durante a Convenção do Lions Club Internacional, realizada em Cedar Point, Ohio, EUA, quando ela desafiou os Leões a se tornarem "paladinos dos deficientes visuais na cruzada contra a escuridão". Proclamando com uma paciência histórica nunca vitimista: "Eu sou sua oportunidade. Estou batendo à sua porta."
No Helen Keller Memorial Park, em 1971, situado no mesmo local onde ela nasceu, há um busto de Hellen Keller com uma placa gravada com os seguintes dizeres: “Eu sou sua oportunidade".
A leitura de A História de Minha Vida alavanca entusiasmos, multiplica compromissos e agiganta as mentes mais conscientes na luta pela ampliação das “enxergâncias” físicas e mentais do mundo contemporâneo, sempre carente de muito mais luz.
PS. Que no próximo 1° de junho, o pioneirismo de Helen Keller seja comemorado com ações catapultadoras.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um apoio troncho demais

Tenho a impressão que alguma está acontecendo nos meandros da política externa brasileira, leia-se “prática de aderir a quem tiver mais grana em potencial”. E me refiro ao apoio dado à candidatura do atual ministro egípcio à Unesco, em detrimento de um intelectual brasileiro, Márcio Barbosa, de efetivos serviços prestados àquela organização, tendo comandado três convenções internacionais.
Para que se tenha idéia do tipo do apoio brasileiro ao candidato egípcio, Farouk Hosny, basta informar que este senhor, há mais de 20 anos ministro da Cultura daquele país, já prometeu queimar todos os livros em hebraico. E ele está se candidatando à Unesco, uma organização voltada para a cultura, o diálogo e a tolerância. Tudo em nome de uma geopolítica, segundo Celso Amorim, um desejo de maior amigamento do Brasil com o bloco árabe e africano.
Fico a imaginar se o presidente Lula estimulando a cultura da marula, árvore originária das savanas e encontrada na África do Sul, sendo visto tomando doses diárias de licor de amarula, somente para ampliar as exportações brasileiras para o continente africano.
Também me espanta que a presença do ministro egípcio no Brasil não seja merecedora de rejeições por parte da inteligência brasileira, murista (em cima do muro) por derradeiro. Ou de um movimento intelectual em prol da candidatura Márcio Barbosa. E o motivo poderia ser apenas o de apoio ao Brasil, que foi um dos signatários de um movimento internacional, a partir da ONU, contra a intolerância, o presidente Lula tendo sido um dos primeiros signatários.
Não tenho simpatia por quem está entronado como Ministro da Cultura egípcio há 22 anos. Leituras de um pretérito infaustamente ainda presente ressoam em interiores quase carcomidos pelas decepções e desalentos. Muito embora o Egito tenha sido o primeiro país do mundo árabe a reconhecer Israel, em 1979, recentemente o ministro-candidato egípcio declarou ser contrário à normalização das trocas culturais com o Estado judeu. Declaração não levada na devida conta pelo chanceler Amorim, que certamente desconhece o que foi escrito por um talento brasileiro chamado Celso Furtado, por quem tenho uma admiração crescente, diante das pretensas “formigas atômicas” do Itamarati: "Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de auto-destruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas."
O escritor Umberto Eco, de O Nome da Rosa, um intelectual de renome internacional, atribui como missão de todo ser-pensante dignamente cidadão, a de bem delinear os limites entre o tolerável e o não-tolerável, sempre a partir de outra lição milenar: "Quem tem um mapa mais rico, se orienta melhor no mundo. Quem tem mapa limitado fica mais frequentemente enrolado". Parece que o mapa do chanceler Amorim é bem pequenininho e já quase historicamente ilegível. E que ele ainda não reconhece a advertência do Carlos Lessa, nosso aplaudido trans-economista: “Todos conhecemos dezenas de pessoas que têm diploma de nível superior e já não sabem absolutamente nada do que, supostamente, aprenderam quando tiraram o diploma
Razão tem o Fernando Gabeira: “A candidatura de um brasileiro não é melhor porque nasceu aqui; é melhor porque conhece todos os meandros da Unesco e, através da competência, conseguiu a simpatia de muitos países. E porque jamais admitiria a queima de livros em hebraico ou mesmo em qualquer outra língua”.
Meu protesto é de gente miúda. Para não me tornar omisso diante da escalada de um egípcio facistóide.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Um novo enigma, o 21

No último feriadão, reli um trabalho que me foi enviado por personalidade quase-baiana, geólogo competente, amigo de infância, também respeitável analista de conjuntura política, quinzenalmente integrando, numa churrascaria reputada da capital do acarajé, uma mesa de notáveis, para debates sobre ontens e amanhãs. De autoria do professor Pinto de Aguiar, homem público de notório saber, Notas Sobre o Enigma Baiano foi editado em 1958, numa edição conjunta com a Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia, atendendo “anseios generalizados das populações baianas e suas elites, pela obtenção de uma taxa de crescimento econômico mais satisfatória que a atual”. Tal e qual o que por aqui está acontecendo, ninguém aguentando mais a penúria de quase tudo e o vitimismo acocorado de muitos.
A partir de pesquisas efetuadas pelos jornais “A Tarde” e “Jornal da Bahia”, o professor Pinto Aguiar soube captar a mensagem, oferecendo preliminarmente valiosos indicadores, mesmo levando na devida conta a natureza apenas jornalística dos inquéritos efetuados.
Quando todo Pernambuco se envolveu na luta pela implementação, aqui, de uma Refinaria de Petróleo, entre outros empreendimentos de vulto, numa união de esforços que deveria ser permanentemente acima do apenas conjuntural, oportuno se torna transcrever algumas considerações do mencionado professor. A partir delas pode-se tentar edificar as respostas para o enigma pernambucano, urgentes antes que a vaca se abolete definitivamente no brejo, numa crise internacional que desfavorecerá os menos taludos. Ei-las, a ordem de apresentação pouco sendo relevante:
1. “O desenvolvimento econômico processa-se, não somente com ‘recursos naturais ou humanos’, mas também através de comportamentos, de políticas, de condições institucionalizadas”.
2. “Planejamento não significa estatismo, e sim demonstração de que o homem tem capacidade para dirigir, em termos racionais, os seus próprios destinos”.
3. “Necessitamos de uma atitude de fé esclarecida, de otimismo realista, para não nos abandonarmos, comodistamente, à condição de inferioridade em que vivemos, acomodando-nos a apelar para um paternalismo estatal que, pelo menos quanto à Bahia, não tem sido dos mais favoráveis”.
4. “A mera constatação de que a Bahia está sofrendo um processo de empobrecimento, não oferece os rumos para uma política de correção desta conjuntura”.
5. “É evidente que temos direito de pleitear contra um tratamento político-econômico que reputamos injusto. Entretanto não devemos alimentar esperanças de que argumentos desta natureza sejam suficientes para obter tudo o que necessitamos”.
Eis cinco itens, um elenco de constatações muito oportunas, feitas em 1958, que deveriam servir de ponto de partida para uma reflexão analítica, comandada pela sociedade pernambucana, acerca das nossas fragilidades desenvolvimentistas, muito mais políticas que técnicas, muito mais de psicologia social que de argumentações racionais, muito mais de tesão que de arrotos boçais tipo “já fui bom nisso”, “somos os maiores do mundo”, “aqui é aqui, o resto é resto”, entre outras besteiradas.
Que a luta travada pela implementação da Refinaria nos traga, independentemente de qualquer resultado, uma definitiva lição: quando se trata de Pernambuco, no cenário nacional, a união de todos é indispensável, o controle político interno do a ser conquistado sendo outros quinhentos reais.
Uma analista de nomeada, Jonathan Wolff, autor de texto bastante oportuno em época de crise mundial braba como a atual – Porquê Ler Marx Hoje?, Lisboa, Corovia, 2004 – alerta com propriedade: “Uma coisa é ser capaz de identificar os defeitos do capitalismo e outra, bem diferente, é ser capaz de dizer o que se deveria fazer em seu lugar”.
No mais, pedir ao Criador mais clareza mental para entender os Seus sinais, independentes das bobajadas episcopais. Jamais se olvidando de fazer, cada um, a parte que lhe compete na trajetória terrestre. Sem perder a ternura jamais. Abandonando os mapas e aprimorando-se no entendimento das bússolas, que ampliarão as nossas “enxergâncias” sobre o futuro pernambucano, que deverá ser muito arretado, se concretamente quisermos.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Encilopédia sedutora

Conheço pessoas que se distanciam das denominações religiosas por um desencantamento típico: a ausência de criatividade nas exortações emanadas por lideranças que se tornaram insípidas, mais preocupadas com o mealheiro que com a restauração da dignidade do Ser Humano. Muito blá-blá-blá e pouca “sustança”, utilizando aqui a gostosa expressão do nosso homem do campo, que assimila melhor que muitos intelectuais, a reflexão famosa do Mahatma Gandhi, uma das minhas admirações significativas: “Há um poder misterioso indefinível que permeia tudo. Eu o sinto, embora não o veja. É esse poder invisível que se faz sentir e ainda desafia todas as provas, porque é tão contrário a tudo aquilo que eu percebo por meio dos meus sentidos. Transcende os sentidos. Mas é possível chegar a uma conclusão sobre a existência de Deus até certo ponto. Percebo vagamente que enquanto tudo ao meu redor é variável, agonizante e implícito a toda essa mudança, existe um poder vivo que é invariável, que mantém tudo unido, que cria, dissolve e recria. Esse poder ou poder que inspira é Deus. Pois consigo ver que no meio da morte, a vida persiste; no meio da inverdade, a verdade persiste; no meio da escuridão, a luz persiste. Consequentemente, eu entendo que Deus é vida, verdade e luz”.
Para atenuar, erradicando talvez, as desilusões denominacionais de muitos, as editoras Paulinas e Loyola lançaram, há algumas semanas, uma enciclopédia ricamente ilustrada, organizada por John Drane, teólogo escocês por demais conhecido por suas pesquisas sobre espiritualidade, estabelecendo pontes entre a Bíblia e o mundo contemporâneo, principalmente após o surgimento da chamada Nova Espiritualidade.
A Enciclopédia da Bíblia, um só volume, é referência ideal para lares, escolas e bibliotecas por motivos relevantes: dados confiáveis, análises e explicações elaboradas por especialistas, fornecendo informações alicerçais sobre a história, o culto e o mundo da Bíblia, tudo complementado por centenas de fotos, mapas e ilustrações que realçam os temas expostos.
Estruturada em 7 partes, seis de conteúdo – Esboço da História Bíblica, Povos e Impérios, O Mundo da Bíblia, Religião e Culto, A Vida e o Ensinamento de Jesus, A Bíblia Livro a Livro –, a última se constituindo de um localizador rápido – Pessoas, Lugares, Temas e Índice Remissivo -, que torna velozes as consultas praticadas.
Também através da Enciclopédia da Bíblia, toma-se conhecimento das diferenciações entre o cristianismo primitivo e os demais grupos judeus da época, pelo acolhimento que aquele oferecia aos não-judeus.
Duas partes da Enciclopédia da Bìblia atraem sobremaneira as atenções dos consultores. A primeira diz respeito aos povos e impérios que se entrelaçam no desenvolvimento histórico da Bíblia, descritos com ímpar habilidade narrativa. Nela, sumérios, egípcios, canaanitas, filisteus, babilônios, persas, gregos e romanos atapetam o conjunto dos livros sagrados, Primeiro e Segundo Testamentos, onde se mesclam história, poesia, narrativas, visões, epístolas, evangelhos, elementos devocionais, filosofia e ética. A segunda parte analisa individualmente cada livro da Bíblia, incluindo os denominados livros deuterocanônicos, que não fizeram parte da Bíblia hebraica, se inserindo nas escrituras cristãs por meio da tradução grega chamada de A Septuaginta, a maioria tendo sido escrita originalmente em grego. Na Bíblia hebraica genuína há 39 livros, cobrindo mais de 1500 anos de vida comunitária, a partir de Abraão.
Decididamente, a Enciclopédia da Bíblia é bem mais sedutora que as suas congêneres. A partir de uma editoração bem elaborada, pode-se ainda vivenciar múltiplos aspectos da História Sagrada, incluindo saúde e medicina, vestuário, mineração e metalurgia, cerâmica, artes e ofícios. Uma leitura que enseja ampliação da cultura cristã de cada um, seja qual for a denominação preferida.
(Publicada no Jornal do Commercio em 20.05.2009)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O marchand e o bolo-de-rolo

Na revista Piauí, maio 2009, num ensaio do crítico de artes Bruno Moreschi – Abre alas que lá vem bolo-de-rolo -, a personalidade empreendedora de um pernambucano se encaixa no subtítulo do trabalho: Como o marchand Marcantonio Vilaça conseguiu elevar as cifras da arte brasileira contemporânea.
O texto é para ser lido devagar, tomando ciência da caminhada de um pernambucano nascido num agosto de 1962, filho de casal muito amado – Marcos Vinicios e Maria do Carmo -, do primeiro partindo a iniciativa de matricular o então pimpolho com a idade de dois anos na Escolinha de Arte do Recife, da família de Abelardo Rodrigues. “um dos maiores colecionadores de arte sacra do país”. Uma escola de muita credibilidade que fazia emergir as potencialidades artísticas da garotada da região. Se a memória não me trai, uma escolinha situada na rua do Cupim, nas Graças, bem pertinho do Palácio do Bispo e parede e meia com a casa de uma tia, a tia Lúcia, esposa de Nelson Quintas, um notável ambidestro, o único por mim conhecido até hoje.
E como entra o bolo-de-rodo na caminhada empreendedora do Marcantonio? Tudo aconteceu, segundo Bruno Marchesi, numa tarde quente de agosto de 1998, num vôo internacional. Tão logo instalado em uma das poltronas, leitura ainda focada nas manchetes da primeira página do New York Times, Marcantonio sentiu uma cutucada no ombro esquerdo, seguida da frase “this is my seat, sir!” (este é meu lugar, senhor!). Frase dita por uma mulher de mãos na cintura, sem um pingo de paciência, cabelos pretos e bochechas rosadas. Percebido o erro de assento, Marcantonio, fidalguia em pessoa, desculpou-se, indo para seu lugar, recebendo de troco “um suspiro de aborrecimento”.
Resolvida a questão, apreendida a imagem da mulher, passou Marcantonio a cascavilhar sua memória, fazendo fé na hipótese de que aquela madame não lhe era estranha. Poucos segundos depois, eis que o computador mental do Marcantonio fornece a identificação daquela senhora de ar abusado e sotaque nova-iorquino carregado: Barbara Gladstone, proprietária de uma galeria de arte que levava seu nome. Uma galeria de arte conhecida mundialmente.
Mais rápido que o vapt de vapt-vupt, Marcantonio percebeu que ali estava uma excepcional chance de se apresentar. Retirando da maleta de mão três volumes, dirigiu-se à madame Gladstone, se identificando como marchand brasileiro, pedindo licença para mostrar seus brindes. Antes que a senhora abrisse a boca para um não, o Marcantonio já lhe fazia entrega de um CD de Maria Bethânia, Pássaro Proibido, identicando-a como “a maior cantora do Brasil”.
Sem esperar reação da madame, ele lhe deu o segundo presente, “um embrulhinho cilíndrico de papel-alumínio”. Ao abri-lo, a senhora foi contemplada com um cheiro sedutor de goiaba. “It’s bolo-de-rolo”, esclareceu logo Marcantonio, sorrindo orgulhoso da sua pernambucanidade, posto que aquele bolo não era um bolo qualquer. Tratava-se de um bolo-de-rolo feito pela sua mãe, Maria do Carmo, para ele enviado com muito amor e carinho.
Usando as pontas dos dedos, a senhora Gladstone provou um naco razoável do bolo-de-rolo. E sentenciou: “God! This is marvelous” (Deus! Isto é maravilhoso!). Sentindo firmeza na sua escalada relacional, Marcantonio apresentou trabalho de uma artista brasileira, soletrando pausadamente seu nome: Be-a-triz Mi-lha-zes. Que recebeu para o seu trabalho uma adjetivação que deixou Marcantonio sem ânimo: Bullshit (Conversa fiada).
Talento não desanima, é impulsionado pelas pedras do caminho. Lá da eternidade, de braços cruzados como gostava de se posicionar por aqui por baixo, Marcantonio viu, maio de 2008, a tela O Mágico, de Beatriz Milhazes, ser arrematada por 1.049 milhão de dólares, em Nova York. Uma vitória espetacular da artista e do “farejador” da artista. Faro premonitório do Marcantonio era próprio dos talentosos que nem ele. Mesmo que não sendo acreditado, num primeiro instante, por quem achou maravilhoso, num vôo internacional, o bolo-de-rolo da Maria do Carmo, sua mãe.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

domingo, 17 de maio de 2009

Por um autêntico Homão da Galiléia

Creio firmemente que o Cristianismo atual está profundamente em débito com o mundo contemporâneo. Diante das habilidosas estratégias políticas do imperador Constantino, século IV, tornando o Cristianismo religião oficial de Estado, o que nos resta, hoje, do Cristianismo Nazareno? Ou, em outras palavras, será que o Cristianismo que se nos apresentam hoje sob inúmeras vertentes é a palavra original e o exemplo de vida verdadeiro de Jesus? Por que a Igreja, em suas múltiplas e nada convergentes ramificações, não se propõe a consolidar para o mundo cristão, após um Concílio Ecumênico Especial, as pilastras essenciais do Cristianismo, reduzindo ao mínimo possível as divergências inter e intra-denominacionais? Por que os denominados Evangelhos Apócrifos e Pseudo-epígrafos da Bíblia ainda são acanhadamente analisados, vistos sob suspeitas, tomados como quase-eréticos? Por que persiste a covardia histórica de não confessar a exclusão do feminismo na origem do cristianismo primitivo, mormente com Madalena e as suas outras companheiras de caminhada nazarena? Por que, em relação ao Anglicanismo, as idéias do bispo John Shelby Spong não são debatidas com a sinceridade que elas merecem? Será que as idéias do bispo aposentado de Newark, EEUU, poderiam fragmentar ainda mais o já estilhaçado Anglicanismo planetário? Por que, na Europa contemporânea, multiplicam-se os adeptos de um movimento chamado Com Jesus, Sem Igreja, ampliando a espiritualidade de milhões, embora distanciando-os das burocracias denominacionais? Por que não se divulga mais intensamente o Evangelho Q (Quelle), cuja extraordinária reconstrução acadêmica do texto grego ficou sob a supervisão do prof. James M. Robinson, do Instituto de Antiguidade e Cristianismo de Claremont, Califórnia, USA?
Sobre o Evangelho Q, uma reflexão do prof. James D. Tabor (A Dinastia de Jesus: a história secreta das origens do cristianismo, Ediouro 2006) merece atenção redobrada: “A fonte Q nos leva de volta aos ensinamentos originais de Jesus, sem muito do arcabouço teológico acrescentado posteriormente pelos evangelhos”. Segundo Jomar F. P. Filho, A Identidade Secreta de Maria Madalena, editora Isis, 2009, “O Jesus de Q é um Mestre preocupado com seu povo, com os pobres e desvalidos, leprosos, cegos, aleijados, endemoniados, prostitutas, funcionários públicos, estrangeiros, tudo que a elite religiosa judaica considerava impuro”. Diferente do Jesus dos evangelhos sinópticos (miraculoso), do Jesus de João (um deus preexistente) e do Jesus de Paulo (que não O conheceu pessoalmente), o Jesus de Q é um ser divino que vive com os pés no chão, no dia-a-dia. Um reformador, um pregador incansável de um mundo novo baseado no amor e na justiça, anunciando um Reino de Deus que se encontra dentro de cada um. Uma confirmação feita pelo Próprio em Lucas 17,21.
Seria excelente que o papa Bento XVI tivesse se lembrado de alertar as autoridades judaicas sobre a necessidade de serem concluídos os trabalhos sobre os Manuscritos do Mar Morto, iniciados em 1953 e inconclusos até o momento presente, tendo sido publicado menos de trinta por cento. Em 1977, o Dr. Geza Vermes, em um dos seus livros, previu que se poderia estar diante do maior escândalo acadêmico do século XX, dada a manipulação que a equipe encarregada dos Manuscritos estava efetivando como se o levantamento fosse propriedade exclusiva de um determinado grupo religioso.
É preciso sarar bem a terra, hoje, com a volta original da Mensagem do Homão da Galiléia, para que os que reconhecerem sejam reconhecidos. Caso contrário, se os cegos forem guiados por outros cegos, todos cairão no abismo. Lições extraídas do Evangelho Segundo Tomé, o Dídimo.
Na terra sarada, livre das peias inquisitoriais e dos enxertos introduzidos pelos dominadores, que o sagrado feminino seja restaurado, eliminando-se as tensões e contradições entre a mensagem original do Homão da Galiléia e as doutrinas elaboradas pelos dominadores a partir do século IV. Como alertou Robert Funk, diretor do Seminário de Jesus, Califórnia: “Já nos saturamos da perseguição contra judeus e bruxas; da justificação da escravidão de negros; da repressão contra as mulheres, o sexo e a sexualidade; e da defesa intransigente de um clérigo masculino dominante e que se autopromove. ... Não podemos, não devemos recuar diante do compromisso com a ignorância e má interpretação que alimenta tão absurdo mau uso das Escrituras”.
O puxão de orelha final cabe ao Pe. José Comblin, um belga nordestinado, paraibano por cidadania conquistada: “A própria Igreja parece paralisada, não sabendo o que fazer. Publica documentos mais ou menos inofensivos que mutiplicam advertências, mas que quase ninguém lê”.
Não basta levantar bracinhos e ficar de olhinhos revirados, o corpo se tremelicando todo. Saibamos ser, antes de ter. Jamais assistindo passivamente a transformação da Igreja numa grande multinacional midiática para tolos, de sedutores trejeitos arrecadadores para os desatentos de todos os quadrantes.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sonhos Vivificantes

Volto a ler outro livro do rabino Harold Kushner, uma pequena obra prima prefaciada por um outro religioso. Leitura que é uma das belezas deste Brasil de hoje, ainda tão carente de esperanças.
Nas suas reflexões, excelentes para quem se encontra meio baratinado diante dos agitados tempos modernos, Kushner conta a história de um garoto que chegou da Escola Dominical e narrou para mãe a passagem do Mar Vermelho mais ou menos assim: “Os israelitas sairam do Egito perseguidos pelo Faraó e acamparam às margens do Mar Vermelho. Percebendo a aproximação das milícias inimigas, Moisés usou seu celular, a força aérea israelita foi acionada e os submarinos da marinha, com seus foguetes último modelo, protegeram todos durante a construção de uma gigantesca ponte, que permitiu a travessia de todo o povo, a alimentação ficando por conta de uma empresa especializada em fast-food”. Diante do espanto materno, o pirralho admitiu: “Não foi bem assim, mãe, mas se eu contasse da maneira que me contaram, você nunca iria acreditar”.
A historieta contada pelo rabino Kushner alerta todos aqueles que relatam fatos passados, religiosos ou não, com tamanho grau fantasiador que impossibilita uma convicção mínima sobre o acontecido, principalmente quando a transmissão é feita para aqueles que estão numa outra circunstância, com uma outra mentalidade. Não saber transmitir fatos passados é contribuir para a disseminação de explicações balofas, sentimentalóides e generalizantes. Fundamentalistas algumas.
Nossos símbolos, religiosos ou não, necessitam de uma contínua reoxigenação, postos em desuso aqueles que envelheceram ou tornaram-se inexpressivos. A questão relevante é saber transmitir aos mais jovens, através de uma sistemática educacional consistente, os símbolos que continuam vivificando religiões, cidadanias, ideários de justiça social e fraternidade, percebendo, e também influenciando, as velocíssimas mudanças culturais dos atuais contextos globalizantes.
Transcrevo, aqui, a título de exemplo notável, trecho da Oração do Amanhecer do jornalista Andrade Lima Filho, escrito há trinta e cinco anos atrás. De uma beleza simbólica atualizadíssima: “Tu, Senhor, és um cara legal. Eu sei. Sei e creio. ... És o olhar do cego, a audição do surdo, a voz do mundo, a muleta do paralítico. És o sol das almas e o sal da vida. O princípio e o fim, o alpha e o ômega, o xis da grande equação na misteriosa e insondável aritmética do ser”. Um estilo, agradável, sedutor, sem babaquices espasmódicas, tampouco lamuriantes.
Reler o que permanece atualizado é muito diferente de releituras saudosistas, que apenas martirizam, posto que não mais energizam. Voltar a ler textos imorredouros é saber eternizar-se com eles, aproximando-se de um Ômega repleto de muita luz. Como, por exemplo, reler o Padre-Nosso, uma oração para gregos e romanos, teístas e pesquisadores.
PS. Para Dom Luiz Prado, Bispo Emérito e Reitor cinco estrelas do SETEK – Seminário Anglicano (Porto Alegre), que a cada dia agiganta-se mais relacionalmente, tornando-se primorosa companhia para um papo evangelizador. E para Dom Filadelfo Oliveira Neto, Bispo da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, que me proporcionou a oportunidade de conhecer mais de perto o seu clero.
(Matéria publicada no Portal da Globo Nordeste, blog Bate e Rebate)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Circulares Históricas

De múltiplos parabéns o Governo do Estado de Pernambuco pela edição das Cartas enviadas por Dom Helder Câmara, nosso sempre amado ex-Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife, por ocasião das sessões do Concílio Vaticano II e durante os períodos intervalares daquele conclave, tudo acontecendo entre 1962 e 1965.
Graças ao Governador Eduardo Campos, um helderista confesso no Um Registro de Confiança e Superação, por ele próprio redigido e que serve de apresentação magna da coleção editada pela CEPE, Pernambuco divulga para o mundo lusófono, numa primeira etapa, a correspondência de um bispo que soube com habilidade ímpar atuar evangelicamente nos bastidores do Concílio Vaticano II. Impulsionando a Igreja para dias mais solidários para com os sem vez, sem voz e sem poder da América Latina, buscando minimizar as ações conservadoras de uma instituição sempre dócil aos grandões do mundo e aos ditadores de plantão desde Constantino, ela mesmo também responsável por inúmeros retrocessos e trucidamentos no desenvolvimento histórico da humanidade.
As Circulares Conciliares e Circulares Interconciliares, em dois tomos de três volumes para cada categoria, também carrega a logomarca do Instituto Dom Helder Câmara, o IdHEC, que tem Maria Lúcia Moreira da Costa, a Lucinha Moreira, na presidência do Conselho de Curadores, e o ativo advogado Bruno Ribeiro de Paiva na presidência da Diretoria Executiva.
Da responsabilidade de Lucinha são as Notas das duas primeiras edições das Circulares. Na primeira, ela ressalta uma memorável conferência do Pe. José Comblin, acontecida em 2001, quando aquele teólogo lançou um repto: “que se fizesse entre nós o que a Igreja de El Salvador realizara com os escritos e homilias de Dom Oscar Romero, hoje enfeixados em dez preciosos volumes”. Um desafio que foi aceito por um grupo formado pelo Pe. João Pubben, Lauro Oliveira e Zildo Rocha, a coordenação sendo entregue ao historiador Luiz Carlos Marques, Doutor pela Universidade de Bolonha. A tarefa foi iniciada em maio de 2002, contando com o inestimável apoio logístico do CeDoHC – Centro de Documentação Helder Câmara, criado em 1999 por iniciativa da então incansável secretária de Dom Helder, Maria José Duperron Cavalcanti, também diretora da Obras de Frei Francisco.
O projeto inicial, que era apenas a publicação das cartas conciliares e interconciliares de Dom Helder Câmara, desdobrou-se numa iniciativa de edição das obras completas do Dom, onde estão incluídas “outras 1.832 circulares escritas do Recife para a ‘família’ do Rio de Janeiro, além de milhares de outras páginas de meditações, sermões, poesias e esboços de discursos e conferências”.
O prefácio do volume primeiro é do Pe. José Comblin, que ressalta a importância da iniciativa, uma resposta às aspirações dos que estão preocupados com o futuro do Cristianismo e da própria Igreja, pois as Obras Completas do Dom se constituem num documento-testemunho capaz de induzir milhões no caminho de um ecumenismo libertador vocacionado para ser ator principal na construção do Reino entre nós. Afirma Comblin com resoluta propriedade: “eu sou daqueles que têm a convicção de que os escritos de Dom Hélder ainda serão fonte de inspiração na América Latina daqui a mil anos”. Uma certeza de que as Obras Completas de Dom Helder Câmara servirão de inspiração/balizamento para os cristãos de todas as denominações.
Apenas como aperitivos: em carta escrita em 1° de novembro de 1963, 31ª. Circular, o Dom escreveu: “Vivemos numa hora decisiva que exige métodos corajosos”; em carta de 15 de maio de 1964: “os pastores, que volta e meia estão aqui e seguem minha vida de perto, querem, uma vez por mês, uma Noitada Ecumênica, durante a qual rezaríamos, cantaríamos e brincaríamos juntos”. Constatações válidas para todos aqueles que buscam a Paz Universal e o desenvolvimento de todos os Povos, mesmo após a passagem das mediocridades episcopais inquisitoriais.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

sábado, 9 de maio de 2009

Besteiras Administrativas

A editora SENAC, São Paulo, acaba de produzir uma maravilhosa “bíblia” para os senhores prefeitos e secretários municipais que assumiram em janeiro passado. Também de muita utilidade para líderes religiosos e comunitários. Trata-se de Besteiras Administrativas, de Mark Eppler, um profissional especialista em liderança, gerenciamento e serviços de atendimento ao público em geral. E o livro foi escrito para todos aqueles que ainda não perceberam as estupendas mudanças acontecidas nos últimos anos e a gigantesca crise global que açoita o mundo de alguns meses para cá.
O livro se inicia contando como uma empresa conseguiu perder um cliente de 2 milhões de dólares. O seguinte foi esse, como diz o bravíssimo sertanejo: Um determinado cliente, após descontar um cheque de 100 dólares num estabelecimento bancário, encareceu da caixa a validação do seu bilhete de estacionamento. A caixa, imperiosa cumpridora das atribuições que lhe foram dadas em seu estágio de algumas semanas, se negou a proceder a validação, alegando que ele não havia executado uma “transação”. Informando que possuía uma boa conta bancária, teve mais uma vez negado seu pedido. Irritado, apelou para a gerência, recebendo a mesma negativa, ratificando as “orientações” recebidas pelos superiores. No dia seguinte, John Barrier, o cliente do estacionamento, dirigiu-se à matriz do banco e encerrou sua conta bancária, um pouco mais de dois milhões de dólares.
Preservando as identificações, um fato similar aconteceu no Recife, anos oitenta. Um velhinho, agradabilissimo, por todos conhecidos da empresa, seu fundador e pai do então presidente, solicitou a uma das caixas que trocasse um cheque de alguns trocados, uma micharia. Recebendo a negativa, foi informado que a autorização poderia ser dada pelo gerente geral, postado a alguns metros adiante. O estimado velhinho foi até o gerente geral, que sabia que ele era o genitor do presidente e fundador do vitorioso empreendimento, dele recebendo nova negativa, com uma frase complementar: - Esta determinação nem a mãe do presidente da República desmancha. Poupada a caixa, o gerente geral teve agradecida sua contribuição na empresa, sendo seu contrato rescindido. E o velhinho pai do presidente não moveu uma palha sequer no desligamento do empregado. Foi a indignação geral pela grossura cometida que catapultou o arrogante gerente-geral “quase-dono”.
Na semana recém finda, um governador cassado afundou-se no próprio lago, quando bateu pé e arrotou que não sairia do palácio do governo, imaginando uma baita reação popular a seu favor. O que não aconteceu, restando ao novo mandatário a limpeza e higienização sanitária do lago em apreço.
Administrar não é tarefa para qualquer um. Que diga o atual Bento XVI, praticamente náufrago diante dos seus últimos pronunciamentos, criticados no documento Ante la crisis eclesial, onde 300 teólogos e responsáveis de comunidade de base espanhóis, entre os quais A. Torres Queiruga, Juan Masiá, J.A. Estrada, J. J. Tamayo e J. I. González Faus, protestam contra a infidelidade ao Concílio Vaticano II e denunciam o medo vaticano diante das necessárias reformas.
O livro do Mark Eppler orienta todos aqueles que gostam de cercar-se de babões bajuladores, afastando-se por consequência os funcionários possuidores de uma criticidade alavancadora. E que se esquecem que uma lição imorredoura é a que revela que “nenhum conhecimento, contudo, é tão importante quanto a capacidade de aprender e amadurecer com os erros passados – sejam os próprios, sejam os dos outros”.
Conheço inúmeros que necessitam ler o livro do Eppler: os que desejam monopolizar a glória, os que não sabem manter a chama acessa, os que buscam viver da glória dos mortos, os prolixos e os que foram gerados em pé numa rede. Incluindo os que imaginam que o hábito faz o monge, quando apenas fazem filhos às vezes, a exemplo do ex-bispo Lugo, do Paraguai.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um Vieira ainda desconhecido

Nas comemorações, ano passado, do quarto centenário de seu nascimento, causou espanto o desconhecimento que ainda se tem dos textos do padre jesuíta Antônio Vieira. Missionário, político, pedagogo, orador e intelectual, precursor do diálogo inter-cultural e inter-religioso, defensor dos povos indígenas, ele foi um religioso profundamente humano, sempre fiel à sua consciência. Um adensamento das leituras sobre o famoso orador iluminaria mais as estratégias nacionais, públicas e empresariais, de bem conduzir nosso país na direção de amanhãs condizentes com uma dignidade cidadã que anda um tanto esmaecida.
Boas iniciativas foram tomadas. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, com a Alameda Casa Editorial, trouxe ao público mais comprometido com a História e a Literatura do Brasil a História de Antônio Vieira, de João Lúcio de Azevedo, com um prefácio esplendorosamente esclarecedor de Pedro Puntoni, atualmente professor de História do Brasil colonial da USP. A segunda foi da Editora Globo. Que editou, do mesmo João Lúcio de Azevedo, o primeiro volume de Cartas, do padre Vieira, editadas em Lisboa e em três volumes, entre os anos de 1925 e 1928, com análise de Alcir Pécora, pesquisador do Departamento de Teoria Literária da Unicamp.
A História de Antônio Vieira, classificado por Fernando Pessoa como “imperador da língua portuguesa” se divide em seis períodos: O Religioso (1608-1640), O Político (1641-1650), O Missionário (1651-1661), O Vidente (1661-1668), O Revoltado (1669-1680) e O Vencido (1681-1697), onde relata o final da vida do jesuíta na Bahia, Salvador.
No prefácio do professor Pedro Puntoni, dois fatos pitoresos acontecidos com o padre Antônio Vieira. O primeiro se deu quando ele era ainda menino, no adro da antiga Sé de Lisboa. Diante da indagação de um cônego – “De quem sois meu menino? –, respondeu sem pestanejar: - “Sou de Vossa Mercê, pois me chama seu”. De outra feita, alguém lhe perguntou de onde ele era. Resposta: - “Vossa Mercê não me conhece”. E diante da argumentação infantil – “Eu conheço metade do mundo”, o esclarecimento definivo: - “Pois eu, Senhor, sou da outra metade”.
Para quem não deseja ler as cartas e a biografia do padre Antônio Vieira, a editora Objetiva lançou, há poucas semanas, o romance A Eternidade e o Desejo, da escritora portuguesa Inês Pedrosa. Um texto de força poética sensual, que narra a história de Clara, uma professora, que retorna a Salvador após anos de uma dramática experiência pessoal, quando se tornou cega ao tentar salvar de um tiroteio um homem que amava. E o seu retorno ao Brasil, na busca de conforto a inspiração, se faz nas pegadas dos sermões do padre Antônio Vieira. Na companhia de Sebastião, um companheiro de viagem que lhe empresta os olhos, ela visita as igrejas históricas da capital baiana, percorre novamente o Pelourinho, reencantando-se com o candomblé e os seus orixás. Para descobrir Emanuel, novamente tornando-se capaz de sentir paixão e muito desejo.
O romance traz, no desenrolar da trama e em negrito, inúmeras citações de inesquecíveis sermões do padre Vieira, duas das quais eu explicito nesta crônica, como aperitivo sedutor de primeira “entrância”: “a cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas; e tal era a dos escribas e fariseus. Homens com os olhos abertos e cegos. Com olhos abertos, porque, como letrados, liam as Escrituras e entendiam os Profetas; e cegos, porque vendo cumpridas as profecias, não viam nem conheciam o profetizado”. A outra: “O coração, os pés, as mãos, as asas, tudo vem da cabeça, que é molde da própria fantasia. Se esta for de homem, as ações serão racionais; se de águia, altivas; se de leão, generosas; de se boi, vis”.
Grande Antônio Vieira!! Que necessita ser mais lido e relido pelos que desejam uma nação bem mais altaneiramente brasileira.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife-PE, em 06.05.2009)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Desafios para classe média

O fato é por demais representativo para o momento atual de crise planetária, onde um desabestalhamento se faz amplamente urgente em todos os setores. Também num país onde, dizem, Deus é brasileiro, e que se deseja passado a limpo com todos os erres e effes por detrás das grades, sem lero-lero nem mas-mas-mas, de palitó, farda, toga ou macacão
Um endinheirado nordestino classe mais que média-média, travestido de empreendedor XXI , resolveu observar o milagre asiático no seu endereço de origem , bem ali do outro lado do mundo. Comprou passagem ida-e-volta, conseguiu a companhia de um alguém que arranhava bem um inglês quebra-galho e partiu lampeiro que só para conhecer o outro lado do mundo.
Após os desembaraços alfandegários, na primeira parada anunciou seu maior desejo: conhecer um Mestre Zen, desses tidos e havidos como um danado-de-bom na sabedoria. E foi parar num dos mosteiros existentes, obstinado e pretensioso que só vendo.
Encontrar um convento antigo foi quase um já. E um Mestre Zen à sua inteira disposição foi cortesia turística de primeira hora. Apresentado, as inevitáveis perguntas, argumentações lógicas à parte, não tardaram .
De repente, o Mestre Zen, já sentindo os seus bagos desacomodados, resolveu também questionar:
- Você sabe muitas coisas, não sabe ?
A resposta veio de bate-pronto:
- Percebe-se, caro Mestre?
Sorriso sibilino, todo já análise feita, o Mestre retornou:
- Estou disposto a lhe testar, o amigo concorda?
Peito estufado, sem pestanejar, externou um " Como não , caríssimo Mestre " enxeridíssimo e sem qualquer reticência . E com um acréscimo desafiador: - Pode perguntar o que quiser.
O diálogo foi mais ou menos assim, como me contaram depois:
- O amigo sabe onde está neste momento?
- Claro que sei, caríssimo Mestre. Estamos num lindo bosque.
- E onde está este bosque, amigo?
- Ora, prezado Mestre. Na Ásia.
- E onde está a Ásia?
- No nosso planeta Terra, Mestre, com certeza, utilizando um “com certeza” típico dos emergentes amerdaçados.
- E onde está o nosso planeta, amigo?
- Ora, Mestre ... No Universo, claro!
- E onde está o Universo, caríssimo brasileiro?
O embatucamento foi pra ninguém botar defeito. O suor principiava a correr sovaco abaixo . Mas a resposta não tardou:
- Na verdade, aplaudido Mestre, eu realmente não sei.
E a ponderação severa, a penúltima, aconteceu:
- Veja só, o amigo nem sabe onde está e acha que já sabe muito. O amigo ainda tem muito que aprender, sem dúvida alguma.
Emputecidíssimo, o notável rebateu sem mais as conveniências de um bom relacionamento:
- Qualé, Mestre, até mesmo o senhor não sabe a resposta correta, né não?
O xeque-mate até hoje não se desinstalou da supina cuca do:
- Pois esta é a nossa diferença, amigo caríssimo. Minha ignorância é baseada em meu entendimento, enquanto o seu entendimento é baseado em sua ignorância. Sou um tolo bem humorado, você é um sério idiota.
A posição da classe média brasileira será decisiva para os destinos nacionais, numa pós-modernidade envolta com uma crise braba. Lamentavelmente, nos últimos vinte anos, a classe media brasileira tem estado acorrentada a duas visões equivocadas. A primeira, quando defende os imensos privilégios de um compulsivo consumo, como se ele fosse viável para o todo nacional. A segunda, mais ingênua ainda, é a de exigir sacrifício dos privilegiados de sempre, como se eles estivessem dispostos a desprendimentos solidários.
Uma pós-modernidade sadia deve reincorporar as inúmeras vantagens das relações perdidas, dos gostos esquecidos, dos níveis culturais despedaçados por um consumismo imediato e asneirado pelos endinheirados de final-de-semana, culturalmente apatetados, presas fáceis dos "magos da mente", inúmeros já explicitando um cansaço generalizado, incomodativo até, rima perfeita para tocaias fascistóides.
Deveria uma atenta classe média estar sempre de olho vivo diante do notável provérbio iídiche: "Para o verme num rabanete, o mundo inteiro é um rabanete". E para um outro, nordestiníssimo, todo povão: “Quem gosta de sempre botar, um dia vai levar sem dó, piedade e cuspe”. Seja qual for a cor do olhinho e textura da pele.
(Publicado no site da Revista ALGOMAIS)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Educação para a Cidadania

Aplaudi duas declarações do professor Mozart Neves Ramos, ex-reitor da UFPE e dinâmico ex-secretário de Educação de Pernambuco, prestadas recentemente ao Guia da Educação, parte integrante de uma revista semanal.
Com a responsabilidade de ser o executivo principal da ONG Todos pela Educação, ele afirmou: “A Educação é o único elemento vetor que consegue alinhar desenvolvimento social com desenvolvimento econômico. Os países que hoje atuam como protagonistas são aqueles que apostaram fortemente em Educação, como a Coréia e a China”. E disse mais: “A verdadeira independência só vai existir quando todos os brasileiros estiverem na escola”.
As declarações do Mozart Neves estão a exigir uma ação mais que reativa dos nossos dirigentes públicos. Apesar do presidente Inácio da Silva ter alardeado ser o mandatário que mais investiu em educação, estudos recentes não confirmam sua bravata. O INEP, instituto de pesquisas vinculado ao Ministério da Educação, lançou recentemente uma análise dos gastos em educação nas três esferas de governo – União, Estados e Municípios – entre 2000 e 2006. Segundo os dados apurados pela pesquisa, os gastos anuais com Educação no período analisado representaram apenas 0,7% do PIB, com exceção do ano de 2004, quando o percentual ficou em 0,6%. Na série histórica, o maior percentual aconteceu em 2001 – 0,8% - ainda no governo FHC.
A professora Maria Beatriz Moreira Luce oferece uma razão: “A explicação talvez seja que a prioridade à educação não foi proporcional ao crescimento da economia”. Se tal explicação for verdadeira, ela está indo no sentido oposto ao pensar do professor Mozart Neves Ramos, este com uma reflexão absolutamente correta.
Se alguém me perguntasse sobre a diferença existente entre um político brasileiro e um norteamericano, excluídas as bandalheiras que os mafiosos cometem, eu apontaria nos segundos uma atenção mais acentuada por análises e pesquisas. Dou um exemplo que se tornou conhecido. Em 2005, a jornalista Samanta Power, professora em Harvard recebeu um telefonema do então senador Barack Obama, convidando-a para ser sua assessora de política internacional no seu gabinete. Ele tinha lido o livro Genocídio: a retórica americana em questão, texto que a fez ganhadora do prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo político americano. Ela aceitou o convite, trabalhando como assessora do Obama por três anos, não sendo surpresa alguma se for convidada para outras missões.
Lamentavelmente, nossos parlamentares, cada vez mais fisiológicos em suas proposições e articulações, com as exceções que minguam a olhos vistos, ainda não perceberam a gravidade do momento financeiro internacional. Talvez acreditando na análise besteirológica cometida pelo nosso presidente, que disse que a “crise era assunto do Bush”, como se ele, tal e qual um ET, estivesse a salvo do charco global.
O sociólogo americano James Petras diz que “estamos entrando no olho do furacão, 2009 vai ser um dos piores anos desde 1929”. E um outro sociólogo, o alemão Ulrich Beck, opina: “O que há poucos anos teria sido impensável revela-se agora como uma possibilidade real: a férrea lei da globalização do livre mercado ameaça descompor-se e colapsar a ideologia correspondente”.
A confiança não será restaurada, tampouco ampliada, com arrotagens dos que nunca souberam de nada. E a educação fundamental deverá ser urgente e seriamente ampliada por nossa sociedade civil, favorecendo uma cidadania que consolide a soberania da nossa gente, para não deixar esvair os nossos ainda tênues eflúvios democráticos, dando vez a emersão de regimes ditatoriais de múltiplas brutalidades.
Saibamos bem aprontar planilhas alavancadoras. Mesmo que perdendo alguns dedos, mas preservando a capacidade de pensar e a coragem de saber construir, remetendo o país para patamares civilizatórios mais consolidados.
Publicado no Jornal do Commercio, Recife-PE, 29.04.2009)