sábado, 24 de maio de 2008

A Volta do Imbecil

Por favor, ninguém tome a carapuça. Trata-se de uma revista francesa – L’Imbécile – que retornou às bancas após um breve período de ausência. Um periódico que se inspira num slogan do escritor Julien Green, eternizado em 1998: “Mesmo no homem mais inteligente, há sempre bastante estofo para fazer um imbecil”.
A reportagem sobre O Imbecil, eu a li na revista Primeira Leitura. E fiquei a matutar com os meus botôes, numa época de pensamento quase único, onde todo mundo parece seguir a cartilha do Chapeuzinho Vermelho, aquela que bobamente foi enganada pelo lobo mau que traçava até as vovozinhas, hoje cada vez mais portadoras de saborosas carnes, graças aos botox, tirox, enfiox, retirox e eliminox, além das cânulas sanguessugas, as tais que diminuem os bolsões nunca de pobreza, deixando o que era rechonchudo transformado em terreno plano, desamolegante por excelência.
É sempre bem vinda uma revista inteligente, mesmo no continente europeu, que foge das mesmices retrógradas de uma direitona muito estúpida, das messiânicas posturas de uma esquerda dinossáurica, matando a cobra e mostrando o pau, todinho, para aqueles que se fantasiam de PP (pessoas progressistas), enganando os historicamente lesos e os mentalmente abestados. Revista distanciada quilômetros das revistas norte-americanas metidas a engraçadas, que deixam os de lá se urinando de tanto gargalhar, mesmo que a partir de um humor construído sobre dez tostões de neurônios.
O segundo número de O Imbecil traz uma definição antológica sobre o que seria um demagogo eleito: “Ele não vem de lugar nenhum. E se dirige para lugar nenhum. Nada é pior do que um visionário, um homem providencial, um profeta. O futuro é pesadelo dos franceses, então, melhor que seu edificador seja inodoro, banal e sorria gentilmente”. E a inspiração desta definição se pauta no pensar do semiólogo Roland Barthes (1915-1980), explicitado no seu livro Mitologias.
Creio quem o Brasil está muito bem servido de inteligências que desconstroem falsidades e besteiróis, imitações baratas e babaquices políticas, para não falar das baboseiras eclesiais, dos debates inócuos, dos argumentos e hipóteses asneirentas e das modas de calças que apenas ressaltam o cenário pélvico de adolescentes lindas e coroas nostalgicamente ainda esperançosas.
Para os entendidos em desmontagens das posturas aparentemente sérias, ousaria sugerir dois temas bastante atuais. Ei-los:
1. Por que, nos programas e novelas televisivas, o erotismo desnecessário e os amassos quase despudorados substituíram a criatividade lúdica e o suspense bem tramado? Ou será que os níveis neuroniais e analíticos dos telespectadores diminuíram dramaticamente?
2. Por que as autoridades educacionais brasileiras não estão se preocupando com os talentos infanto-juvenis das escolas públicas, imaginando todos aptos para os esportes e nunca para as áreas científicas e artísticas, salvando as exceções que são pontuais por excelência?
Dois pontos, duas perplexidades sentidas, dois questionamentos cidadãos. De um professor universitário que tem sempre em pedestal o conselho da Cora Coralina: "Aprendi que mais vale lutar do que recolher dinheiro fácil."

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