segunda-feira, 28 de abril de 2008

Tonho da Motoca

Metido a cavalo do cão desde fedelho, embora de inteligência reduzida, portava um caráter a serviço do sucesso a qualquer preço. Tonho da Motoca era conhecido meu de adolescência, à distância, posto que quem com ele se metia, a bosta fedia. Morava na Tamarineira, ainda que doido só por emprego fácil, nem que viesse do empenho desenvolvido entre pais de mocinhas nada mimosas, encalhadas.
Fingindo-se fiel, freqüentava denominações religiosas para, mimoseando a vaidade dos pastores dirigentes, arranjar um “salário merreca mensal” (expressão sua) que desse para pagar o consumo de gasolina do seu transporte.
Recentemente, embora não dando pelotas para os menos favorecidos, ganhou um trabalho de mentirinha no interior de Pernambuco. Alguém que não o imaginava tão “isperto” lhe arranjara uma sinecura numa prefeitura, tencionando atrelá-lo matrimonialmente a uma filha espevitada, quase sem peito, criatividade embaçada pela tagarelice exagerada, que andou sumida por tempos devido a um “embuchamento” de nascimento nunca registrado. O propósito do “protetor” era produzir o belo através de um apadrinhado que imaginava significante, nunca um insignissainte, como constatou tempos depois, ao tomar ciência que Tonho da Motoca não parava em canto algum, tendo sido até por três vezes reprovado em seleção de um só candidato.
Tonho da Motoca parece que se inspirava numa reflexão de Roland Barthes que dizia que a preguiça era parte essencial de uma experiência escolar. Intuía que o que vale são as mentiras novas, aquelas inventadas no momento oportuno, quando se está diante de um atoleimado de carteirinha, desses que asfixiam os sentimentos na ganância de mais poder. E foi assumindo, na sinecura que lhe arranjaram, uma posição reverencial, que adornou o autoritarismo ignorante que lhe era orgânico. Travestindo-se de missioneiro da salvação da pátria, arvorou-se com pretensão ao pódio, mesmo percebendo-se distanciado quilômetros do filme Diário de Motocicleta, que um jovem chamado Ernesto Guevara tinha escrito décadas passadas.
Mas Tonho da Motoca estava com seus minutos de fama quase findos. O derredor comunitário já principiava a perceber a farsa e o figimento, quando testemunharam as subserviências e bajulações praticadas diante do chefete-protetor, pródigo em sorrisos fotográficos, aqueles portadores de pitadas de muito rídiculo.
O início da derrapagem parece ter acontecido numa solenidade pública, quando alguém sugeriu a Tonho da Motoca, na ausência do protetor que estava ganhando uns trocados bem distante dali, que interpretasse o que estava escrito num para-choque de um caminhão: “Aquilo que Deus ajuntou o homem não separa. Se separou é porque Deus não juntou”.
As explicações de Tonho da Motoca, repletas de overdoses gramaticais, estupraram o bom-senso dos presentes, que logo se recordaram de Patativa do Assaré: “Prefiro falá as coisas certa com as palavra errada a falá as coisa errada com as palavras certa”. E concluíram que Tonho era um farofeiro de marca maior, a fingir tanto que já nem se lembrava mais da cara que tinha na véspera.
Entre os ouvintes, um já meio “calibrado” desabafou: “Cara, você se embriaga com a sua mediocridade. A mediocridade causa náuseas. Se eu vomitar é porque caras como a sua, de meio-inteligente, de repetidor de lugares-comuns, de medalhão cheio de empáfia, revolvem minhas entranhas e eu tenho que segurar meus bofes para eles não se despejarem em cima de você”.
No meio dos aplausos e risos gerais, Tonho da Motoca enfiou a viola no saco, percebendo-se apenas bajulador de autoridade, desconhecendo por inteiro a advertência feita por Friedrich Nietsche, numa hora apropriada: “A maneira mais simples de corromper um jovem é ensiná-lo a respeitar mais aqueles que têm opiniões iguais às suas que aqueles que têm opiniões diferentes das suas”.
E Tonho da Motoca ainda sonhava ser papa um dia... Não será nem mingau!!

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Carmelúcia Piragibe

A historinha abaixo foi calcada num trecho do livro Comédia Corporativa, de Max Gehringer, um analista empresarial ouro de lei. Uma das melhores leituras desfrescurizadas da área da Administração, hoje repleta de gurus, curadores, doutores, pitacudos, poucos sábios e muitos sabidos. Uma leitura que recomendo com entusiasmo, mesmo para aqueles que já se encontram contaminados pelo “virus da fingida competência”, sempre reproduzindo escritos recheados de compenetrados ademais, outrossim, sem embargo e outras lambanças.
O quentão da Carmelúcia Piragige, especializada em Estudos Reativos ao Assédio Sexual, era um programa de coibição de “cantadas” em ambientes profissionais. Depois de dez anos queimando pestanas e os pêlos axilares, ela se encontrava preparada para cortar pela raiz a nossa mentalidade machista, embora seu desejo maior, nunca realizado, fosse ser contemplada com mão amiga passeando pela seu torrão corporal, nunca desbravado, nem por entradas nem por bandeiras.
Vadão, batizado de Oswaldo, auxiliar de serviços gerais, quando recebeu o aviso da entrevista percebeu que teria finalmente sua promoção, desejo de quase três anos de firma. Mal sabia ele que a “conversinha” tinha sido provocada pela Merícia, fuxiqueira dezoito quilates, que contara ter ouvido o Vadão dizer que “ela precisava botar a boca no trombone”. E que outro dia, todo sorridente e safadoso, também indagara se ela tinha visto o “pincel atômico” dele.
No gabinete de Carmelúcia, Vadão olhava para todos os lados, sentado diante da “doutora”.
- Seu Oswaldo, o senhor está com algum problema na empresa?
- Dona Carmelúcia, eu sempre estive interessado em me ver numas posições diferentes...
O ar de espanto explicitou-se na Piragibe. “O safadão está lendo Kama Sutra!!”, deduziu cientificamente. Voltou a inquirir:
- O que o senhor quer dizer com isso, seu Oswaldo?
- A senhora sabe, eu não gosto de ficar por baixo ...
Carmelúcia nunca imaginara encontrar uma alma tão sebosa, logo na sua primeira semana de trabalho. Meio arrepiada, meio excitada, indagou se ele já tinha obtido algum êxito nas suas investidas.
- Aí é que tá o xis da questão, senhora doutora. Na hora agá, sempre mela...
A dedução da Carmelúcia foi quase lógica: “a cueca!!! E mantendo o decoro profissional continuou:
- Em nossa empresa, seu Oswaldo, não podemos tolerar atitudes incompatíveis com os nossos princípios. O senhor está me entendendo?
- Entendo, senhora. Mas, no fim, quem sempre acaba na mão sou eu ...
Era demais para a doutora! Reagindo de pronto:
- Temos que tomar, de imediato, uma decisão, seu Oswaldo!
- Claro, doutora!! Eu venho falando isso há bastante tempo. Mas aqui na empresa é sempre assim: um fica querendo comer o outro e a minha vez não chega nunca. Tudo aqui é na base do pistolão. Mas agora vai ser diferente, pois sei que a senhora gosta de botar a mão na massa.
- Pera aí, seu Oswaldo ... Não exagere!!, retrucou Piragibe já não mais sustentando um ar de “tou quase querendo”.
Desejando causar a derradeira impressão, Vadão arrematou, repetindo o que aprendera numa reciclagem de relações humanas:
- A senhora não vai se arrepender, doutora. Não vejo a hora de poder lhe mostrar o tamanho da minha ... consideração!
Antes da palavra “consideração”, o desmaio integral da Carmelúcia. Por excesso ou escassez, tal e qual o regulador Xavier.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, abril 2008)

terça-feira, 15 de abril de 2008

Oração e Vida

Para quem deseja ampliar, pelas mais diferenciadas formas de oração, seu amadurecimento relacional com o Criador, frei Betto afirma que “a fé cristã não admite a derrota da vida pela morte”. E recita poesia feita por Priscila Gontijo, uma jovem de 13 anos, uma lição para todos: “Vivo, logo existo / A morte não tem nada a ver / A morte é pra ser vivida / E a vida para reviver”.
A mais desafiadora das práticas religiosas é a da gratuidade amorosa. Deixar que Deus fale em nós, eis a magistral lição paulina (Rm 8,26-27), muito atrofiada pela racionalidade moderna que em tudo deseja encontrar resultados e eficácias mensuráveis. Ou por uma parcela da classe social dos “emergentes”, modelo “corpore sano in argumentum baculinum”, adepta de seitas, “correntes eletrônicas” e outras presepadas.
Algumas “regrinhas” necessitam ser seguidas por todos aqueles que, pela oração, nunca desanimam, jamais esmorecendo diante dos tropeços e facadas, desilusões e hipocrisias, falsos fervores, invejas, dores de cotovelo, nepotismos clericais, provocações, autoritarismo travestido de piedade e chantagens. Que eliminam salamaleques, amuletos, pirâmides, postulâncias por compadrios, talismãs e fetiches que alienam e destroem, nada edificando na direção da Criação. Ei-las:
1. Orar é estar disposto a “perder tempo”, sem nada temer; 2. A oração só acontece quando se está convicto, sem qualquer esforço mental, da presença infinita de Deus; 3. Através da oração, adequamos nossa vontade à vontade do Criador; 4. Oração é uma referência a Deus presente em nossa vida, podendo ser litúrgica, recitativa, meditativa, intuitiva ou simples atenção n’Aquele que é a raiz de todo ser humano, base da nossa existência, como dizia Paul Tillich, um dos expoentes teologais do século passado; 5. Orando, entender que a presença de Deus mais se expande quanto mais recolhidos estivermos.
Outro dia visitei uma artista plástica internacionalmente consagrada. No seu atelier, situado num dos recantos mais encantadores de Olinda, me deparei com dezenas de belíssimas aquarelas, retratando, todas elas, pedaços do derredor: árvores, cajus, rosas, catedrais, coqueiros, casario e muito mar. Recortes de um mundo que se encontra ainda esmaecido para os que ainda não se inseriram no “espírito” de um savoir vivre repleto de um humanismo necessariamente multicolorido.
Com seu jeito cativante de receber, sua argumentação sem retoques, sua voz bem pausada e quase grave, a pintora carregava intenso amor pela Vida, me fazendo sentir, no seu ambiente de trabalho, como que acariciado pelas mãos do Pai, na própria Casa do maior dos artesãos. Tornei-me extasiado diante das cores, humores e verdores de uma mente lucidamente criativa de “apenas” 56 anos, segundo confissão dela própria.
Conviver por alguns instantes com aquela artista, autêntico patrimônio brasileiro de Olinda e Recife, foi para mim uma forma de oração. E de agradecer ao Pai por ela existir. E por ter ficado mais humano ao conhecê-la, ao sentar na sua rede, tomar sua cachaça, contemplar seu jardim, testemunhar sua estupenda visão de mundo, sendo ela papa-jerimum pernambucanizada que nem eu, ela leão, eu apenas peixe.
Uma oração plenamente vivenciada num fim de tarde, numa ladeira de Olinda, sob nenhuma denominação religiosa, o papo se esticando depois de um café com tapioca ao molho de coco, o assunto ficando restrito à Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, programada para 4 a 11 de maio de 2008. Uma iniciativa, agora centenária, liderada por um padre anglicano, Paul Wattson, no estado de Nova York, de 18 a 25 de janeiro de 1908. Para que no planeta se plenifique a vida e vida em abundância (Jo 10,10).
(Publicada no site da Globo Nordeste, abril de 2008)

sábado, 12 de abril de 2008

O Segredo? Compartilhar

Confesso que me senti inquieto quando terminei a leitura do livro O Segredo, da Rhonda Byrne, um notável sucesso de venda mundo afora. Um livro bem estruturado, com a Lei da Atração esmiuçada em múltiplos depoimentos e resumos, numa editoração ouro de lei.
Como um terceiromundista, sem muitas assimilações globais, senti no livro a ausência de algo mais, de um plus que possibilitasse um ajuste entre a Lei da Atração lá proposta e aquilo que o rabino Jesus transmitiu em sua passagem terrestre, seguramente o que não se encontra de todo compreendido pela ortodoxia cristã a seu respeito.
Quando da leitura da última página de O Segredo, senti falta de alguma coisa parecida com a afirmação do físico e cientista brasileiro Marcelo Gleiser, autor de um recente Cartas a um Jovem Cientista, Campus, 2007, quando ele declara que “não há contradição entre ser religioso e ser cientista”. Gleiser propõe, diante dos dilaceramentos entre fanáticos fiéis e ateus sectários, simplesmente a celebração da vida. Cada um respeitando as convicções evolucionais dos demais.
Um livro pequeno, tornado público em 2004 e também chamado O Segredo, me chamou a atenção meses atrás, no aeroporto de São Paulo. E a leitura de suas pouco mais de cem páginas, editadas com simplicidade, me proporcionou uma “complementação d’alma”, parafraseando o Fernando Pessoa, que ensinava “Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, o grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos: a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.
De autoria de Michael Berg, O Segredo nos revela que a sua Lei Maior é saber compartilhar. E ele mesmo afirma que “o compartilhar se tornará mais fácil se você estiver consciente da verdadeira meta para a qual estão voltadas todas as mudanças positivas”, ressaltando que não se trata de qualquer clichê de auto-ajuda.
Em outro livro, Como Tornar-se como Deus, Rocco, 2007, o Michael Berg conta a historinha de um príncipe que morava num palácio imenso, repleto de tesouros por todos os ambientes mas incrivelmente às escuras, posto que as janelas estavam trancadas e lacradas, o interior do palácio em total escuridão. Até que um dia, um simples faxineiro armou-se de uma libertadora coragem e sugeriu ao príncipe a abertura das janelas. E foi então que o príncipe percebeu que a beleza e a claridade estavam por toda parte, sempre ao seu alcance. Ele é que tinha sido incapaz de percebê-las até o momento da abertura das janelas pelo servente.
Creio que o compartilhar pode ser bem assimilado através da notável figura de Albert Einstein, para quem “ninguém consegue ler o Evangelho sem sentir a presença real de Jesus. A personalidade dele pulsa em cada palavra. Nenhum mito tem tanta vida assim!!”
Certa feita, em abril de 1930, a Orquestra Filarmônica de Berlim dava um concerto. Ao final do programa, a platéia aplaudiu estrondosamente a orquestra. E Einstein abraçou calorosamente o solista Yehudi Menuchin dizendo: “Agora sei que existe um Deus no céu!!”
O segredo do compartilhar pode ser percebido mais concretamente através da análise de dois episódios de uma mesma época. Uma, a resposta alegórica de Einstein para definir Deus: “Não sou ateu e nem creio que possa me chamar de panteísta. Estamos na situação de uma criança que entra numa imensa biblioteca, repleta de livros em muitas línguas. A criança sabe que alguém escreveu aqueles livros, mas não sabe como. ... Essa, ao que me parece, é a atitude até mesmo do mais inteligente dos seres humanos diante de Deus”.
A outra banda, a idiótica: em 1929, o cardeal O’Connell, arcebispo de Boston, advertia os membros do Clube Católico Americano da Nova Inglaterra a não lerem nada sobre a Teoria da Relatividade, pois ela era “uma especulação confusa, que produz a dúvida universal sobre Deus e sua Criação”. Uma bobajada somente superada pelo Vaticano, dias atrás, quando proclamou mais uma relação de pecados, agora coletivizados.
PS. Para Dom Jubal Neves, bispo anglicano de Santa Maria, que um dia me presenteou com A Metáfora do Deus Encarnado, de John Hick, uma edição Vozes. Uma releitura saudável do cristianismo, a partir da figura notável do Homão de Nazaré.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Utopias Proféticas

Um livro que rompe a lógica da civilização da riqueza está sendo bem recebido pelos que se encontram cada vez mais inquietos diante da desigualdade escandalosa entre os mais ricos e os mais despossuídos. De Jon Sobrino, Fora dos Pobres Não Há Salvação, Paulinas, 2008, o livro integra a coleção Ecclesia XX e analisa em seis utópico-proféticos ensaios um momento paradoxal vivenciado pela Igreja nestes primeiros anos de século 21: uma crescente espiritualidade vivenciada sob uma forte atmosfera de descrédito nas atuais estruturas eclesiásticas.
No Prólogo, Sobrino ressalta advertência feita pelo jesuíta Ignácio Ellacuría em seu último pronunciamento público, em Barcelona, novembro de 1989, dez dias antes de ser brutalmente assassinado: “Esta civilização está gravemente enferma, e, para evitar uma desenlace fatídico e fatal, é necessário tentar mudá-la”. E Ellacuría enfatizava, sem qualquer sectarismo: “É preciso reverter a história, subvertê-la e lançá-la em outra direção”. Ellacuría, para quem ainda o desconhece, foi um teólogo jesuíta que estudava o sentido da vida num mundo tecnologicamente avançado. Nascido na província de Biscaia, novembro de 1930, filho de pai oftalmologista, bacharelou-se no Colégio dos Jesuítas de Tudela, Navarra, tendo estudado Teologia em Innsbruck, Áustria. Foi aluno do consagrado professor Karl Rahner, ordenando-se sacerdote em 1961.
Seguindo os passos de Ellacuría, Jon Sobrino em seus ensaios defende a formatação de “um novo eixo sobre o qual girem de forma humana os diversos elementos que configuram uma sociedade”. Tal processo “supõe reverter o dogma de que o mundo girará bem, definitivamente, apenas ao redor da riqueza”.
Jon Sobrino, aquele mesmo que foi censurado recentemente pela ex-Santa Inquisição, afirma que “a denúncia profética está hoje bastante ignorada pela Igreja”, sendo “substituída, no melhor dos casos, por juízos éticos sobre liberalismo, a guerra etc.” Esclarece ele que “ética não é o mesmo que profecia, doutrina social não é o mesmo que denúncia profética e, em todo caso, aquela não é suficiente, pois a palavra que só enuncia princípios éticos é facilmente cooptada”. Para ele, “a denúncia é pôr à luz os males da realidade, as suas vítimas e os seus responsáveis”.
Para os que desapercebidos estão sobre a enfermidade do planeta, algumas informações chocantes: na África, com mais de dois bilhões e meio de pessoas sobrevivendo com menos de dois euros por dia, vinte e cinco mil morrem diariamente de fome, segundo estimativas da FAO; a desertificação ameaçando a vida de mais de um bilhão e duzentos milhões de habitantes numa centena de países; Alemanha, Canadá, EEUU, França, Itália, Japão, Reino Unido, Rússia e China sendo responsáveis por mais de 90% das exportações de armas; a retenção de apenas 4% das 225 maiores fortunas do mundo sendo suficiente para dar comida, água, saúde e educação a toda a humanidade. Dados estatísticos que exigem atenção redobrada dos mais conscientes diante do declarado por um missionário cambojano em Uganda: “as estatísticas não sangram, as pessoas sim”.
Jon Sobrino mostra que a indecência social desumaniza. E que os produtores dessa ignomínia multifacetária parecem zombar autofagicamente quando menosprezam os direitos humanos fundamentais dos povos, favorecendo corrução e impunidade, agigantando o egoísmo e a insensibilidade, enaltecendo assistencialismos simplistas através da infantilização da solidariedade social e religiosa.
O 11 de setembro é conhecido, terrorismo contra os Estados Unidos. Mas o 7 de outubro caiu no esquecimento: data em que a comunidade internacional democrática bombardeou o Afeganistão. A lógica comparativa é perversa: os pobres não têm calendário.
O livro do Sobrino alfineta consciências, revalorizando a mensagem de Jesus. Por um Povo crucificado que necessita de urgente ressurreição.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, PE, 09.11.2008)

domingo, 6 de abril de 2008

Motivação e Liderança numa Igreja Missionária (Resumo Palestra)

As palavras sem obras são como tiro sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de Davi derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra
Pe. Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655)

John Shelby Spong (bispo anglicano) - “Buscar a verdade, venha de onde vier, custe o que custar

Levar na devida conta o poeta português Fernando Pessoa:
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz,
O dominó que vesti era errado
(...)
Quando quis tirar a máscara,
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi no espelho,
Já tinha envelhecido.

SEIS GRANDES ESTUPEFAÇÕES DO SER HUMANO:
1. A cosmológica, quando Nicolau Copérnico (1473-1543) aniquilou a cosmovisão geocêntrica, substituindo-a pela heliocêntrica, deslocando o homem do centro para a periferia.
2. A biológica, em decorrência da descoberta de Charles Darwin (1809-1882): as espécies têm sua origem num longo processo evolutivo, deixando o homem de ser um ato criador de Deus, embora o Universo inteiro seja.
3. A psicanalítica, mostrando que o eu não é sequer senhor da sua própria casa, pois age através de instintos e desejos que escapam ao seu controle.
4. A genética, posto que a decifração do genoma humano reduz sua existência à trivialidade, mostrando o material de construção das pessoas.
5. A religiosa, sem vinculações denominacionais
6. A internética, gutemberguiana por derradeiro.

Bússola, o instrumento que substituiu os mapas.

CRISE – a palavra da moda
A crise consiste em que morre o velho, sem que possa nascer o novo, e neste intervalo ocorrem os mais diversos fenômenos mórbidos” (Antônio Gramsci)

A rigor, dever-se-ia dizer que a Igreja está sempre num estado de crise e que sua maior insuficiência é o fato de ela só estar consciente disso ocasionalmente” (Hendrik Hendrik Kraemer, 1947)

CRISE É BUSCA DE ALTERNATIVAS

POSTURAS QUE COMPROMETEM UMA CAMINHADA EVANGELIZADORA
1. Evangelização voltada para o passado, enfatizando a subserviência e a memorização;
2. Práticas pastorais que admitem apenas uma única resposta, cultivando-se o medo do erro e do fracasso;
3. Valorização da incompetência, da ignorância e da incapacidade analítica, desprezados os necessários incentivos aos talentos de cada um;
4. Menosprezo pelo auto-conhecimento;
5. Desenvolvimento de habilidades limitadas;
6. Obediência, passividade, dependência e conformismo;
7. Abandono da imaginação e da fantasia;
8. Descaso pelo cultivo de uma visão otimista dos futuros, sem hipocrisias nem messianismos.
9. Conservadorismo passivo.

FENÔMENOS MÓRBIDOS QUE ESTÃO AFETANDO O SER HUMANO
- Apatia da criatividade
- Amordaçamento da curiosidade
- Anestesiamento da imaginação
- Desacreditação generalizada
- Ampliação das nostalgias
- Bajulismo

TIPOS DE OLHAR – OLHAR PARA DENTRO, OLHAR PARA FORA E OLHAR PARA CIMA
OLHAR PARA DENTRO
- A vida é curta demais para se pensar pequeno. Ultrapasse as suas fronteiras.
- Qualquer pessoa que escolheu um alvo alcançável, já definiu seus limites.
- “A felicidade não depende do que acontece ao nosso redor, senão do que acontece dentro de nós mesmos”. (Anônimo)
- “Podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo que plantamos” (Provérbio Chinês)

OLHAR PARA FORA
- “A principal medida de um homem não é onde ele se encontra em tempos de conforto ou onde mais lhe convém, mas onde se encontra em tempos de desafios e controvérsias” (Martin Luther King)
- Algumas pessoas gastam seu tempo procurando apagar o brilho dos outros em vez de deixarem a sua própria luz brilhar.
- “De uma pequena fagulha podem surgir imensas labaredas” (Dante)

OLHAR PARA CIMA
- O que é impossível para os homens é possível para Deus (Lc 18,27)
- Aqueles que ousam fazem, os que não ousam, não fazem nada.
- Deus nos disse: - Aproximem-se da borda. Respondemos: - É alto demais. Insistiu Deus: - Cheguem até a borda. E nos aproximamos. E Ele nos empurrou. E nós voamos.

ESTILOS COMPORTAMENTAIS CONTEMPORÂNEOS
- Habilidades interpessoais (QI, QC, QA, QP, QV, QR, QE)
- Objetividade e senso de prioridade na elaboração de metas
- Integridade, Coerência e Confiabilidade interpares
- Percepção (Apreensibilidade) - Código Restrito X Código Elaborado
- Alto envolvimento no que faz – Ator X Autor da DAB
- Geração de positividade no derredor pastoral
- Tesão existencial multifacetária.
ESTRATÉGIAS INDISPENSÁVEIS PARA UMA DIOCESE XXI
- Transferir poder e iniciativa diferenciados
- Adotar uma perspectiva sistêmica na abordagem dos problemas
- Buscar uma racional flexibilidade organizacional e administrativa
- Manter comunicações francas com todos os escalões
- Estabelecer incentivos e recompensas às iniciativas de mudança
- Não se desatentar dos fracassos anteriores e dos problemas pendentes
- Destruir a armadilha dos hábitos
- Olhar para adiante, aventurando-se com vagar
- Enfocar sempre uma postura otimista
- Combater sem tréguas o comodismo e a estabilidade.

O QUE NECESSITA SER AMPLIADO NUMA DIOCESE XXI
- Capacidade Estratégica (Cenários Futuros, Pós Lambeth 2008)
- Capacidade associativa (Coalizões denominacionais para eventos sociais)
- Capacidade criativa (Aprender sobre os efeitos para desenvolver novos métodos, sem jamais esconder o lixo debaixo do tapete)

COMO COMBATER OS COMPLICADORES NUMA DIOCESE XXI
- Destruir as barreiras da mediocridade (Simancolidade)
- Libertar a inteligência (Intuição / Heurística)
- Identificar bem convivialidade e conflitividade
- Ter princípios, jamais medos, receios, imitações acríticas.

CAUSAS DO NOSSO FRACO AGIR CLERICAL
- Preconceitos
- Espontaneísmos, basismos, messianismos e voluntarismos
- Hermetismo grupal
- Dogmatismos
- Incompetência analítica
- Burocratismos (Buropatias)
- Incapacidade de aprimorar os mecanismos de convencimento

REFLEXÕES PARA SE LEVAR EM CONTA NUMA DINAMIZAÇÃO DIOCESANA
- Se o mapa não retrata o terreno, o mapa está errado
- Sentimentos resultam do comportamento
- Nós somos o que fazemos
- A saúde mental requer a liberdade de escolha
- Perdoar é uma forma de se desapegar, mas desapego e perdão são coisas diferentes.
- O ótimo é inimigo do bom
- Traumas de infância são prisão ou ponto de partida para a mudança.

LYA LUFT, UMA MULHER DE MUITO TALENTO:
- “O equilíbrio da balança depende muito do que soubermos e quisermos enxergar”.
- “Fazer da casa o ninho, nunca a jaula, abrindo o espaço maior para as coisas positivas”.
- “Somos melhores do que imaginamos ser”.

LIÇÕES PARA ANGLICANOS DE UMA CAPITAL FEDERAL
- Para você fazer certo da primeira vez terá de se aproximar de pessoas que saibam, porque já fizeram antes, sempre levando em conta a mutabilidade dos cenários.
- Um engano só vira erro se você não aprender com ele.
- Conte-me e eu esqueço, mostre-me e eu me lembro, deixe-me fazer e eu entendo (Confúcio)
- Mude os seus pensamentos e você mudará o mundo (Niccoló Machiavelle)
- "Se você vê somente o que qualquer um vê, pode-se dizer que, além de ser muito representativo de sua cultura, você também é vítima dela". S.I.Hayakawa

O QUE O HOMÃO DE NAZARÉ DIRIA AOS SEUS FILHOS ANGLICANOS, HOJE:
- A sua melhor amiga é a sua criticidade.
- Imagine-se sobrepairando sobre as mediocridades do cotidiano.
- Desenvolva sua espiritualidade, nunca se imaginando superior a ninguém.
- Experimente tudo e fique com o que é bom.
- Ame com intensidade todas as coisas, desprezando o julgamento dos medíocres, encapuzados e encapsulados.
- Veja-se sempre bonito, mesmo que diante das intempéries naturais da Vida.
- Reserve momentos para seu lazer.
- Nunca enfrente seus momentos “down” sozinho.
- Diferencie, sem pestanejar, serenidade de passividade.
- Viva pra servir, posto que tem muita gente necessitando dos seus esforços.
- Fortaleçam um cristianismo que ultrapasse “o cristianismo”. (Leonardo Boff, Evangelho do Cristo Cósmico, Record, 2008)
- Antes dos manuais, os manuéis.
- Perceba-se sempre uma metamorfose ambulante (Raul Seixas)
- Chegar tarde para fazer a mesma coisa é sinônimo de derrota.
- Todo cuidado é pouco com as nostalgias não-curadas de desempenhos mal sucedidos
- Tente sempre alcançar as estrelas. Pode não agarrar nenhuma, mas nunca enfiará a mão na lama.
- Imagine-se sempre nunca-realizado, jamais divinamente entronizado.
- A hora de reinventar-se já chegou.
- Lembre-se sempre de quatro complicadores fatais: a ausência de uma fascinação pelo futuro, a arrogância, a cultura de fingimento e o azedume.
- Todo cuidado é pouco com as idéias vagaluminosas.

Brasília, março de 2008
(*) Da Diocese Anglicana do Recife

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Motivação e Liderança Numa Igreja Missionária

No final de março passado, participei, na Capital Federal, do XXVI Concílio da Diocese Anglicana de Brasília, atendendo fraternal convite do Bispo Primaz Dom Maurício Andrade, um pastor vocacionado para a liderança. E através do texto Motivação e Liderança numa Igreja Missionária, inseri-me num debate enriquecedor com a militância da DAB, balizando-me numa fala do Pe. Antônio Vieira de 1655, no Sermão da Sexagésima: “As palavras sem obras são como tiro sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de Davi derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra”.
No segmento “posturas que comprometem uma caminhada evangelizadora”, as que despertaram mais atenção da assembléia foram: Evangelização voltada para o passado, enfatizando a subserviência e a memorização; Valorização da incompetência, da ignorância e da incapacidade analítica, desprezados os necessários incentivos aos talentosos; Menosprezo pelo auto-conhecimento; Obediência, passividade, dependência e conformismo; Abandono da imaginação e da fantasia; Descaso pelo cultivo de uma visão otimista dos futuros, sem hipocrisias nem messianismos; Autoritarismo travestido do binômio puritanismo x moralismo.
Na parte última do debate foram escolhidas as recomendações que o Homão de Nazaré nos transmitiria, hoje, se voltasse a conviver conosco: Imagine-se sobrepairando sobre as mediocridades do cotidiano; Desenvolva sua espiritualidade, nunca se imaginando superior a ninguém; Experimente tudo e fique com o que é bom; Ame com intensidade todas as coisas, desprezando o julgamento dos medíocres, encapuzados e encapsulados; Veja-se sempre bonito, mesmo que diante das intempéries naturais da Vida; Reserve momentos para seu lazer; Diferencie, sem pestanejar, serenidade de passividade; Viva pra servir, posto que tem muita gente necessitando dos seus esforços; Fortaleçam um cristianismo que ultrapasse “o cristianismo”; Antes dos manuais, os manuéis; Chegar tarde para fazer a mesma coisa é sinônimo de derrota; Todo cuidado é pouco com as nostalgias não-curadas de desempenhos mal sucedidos; Tente sempre alcançar as estrelas, pois nunca enfiará a mão na lama; Imagine-se sempre nunca-realizadoentronizado; A hora de reinventar-se já chegou; Lembre-se sempre de quatro complicadores fatais: a ausência de uma fascinação pelo futuro, a arrogância, a cultura de fingimento e o azedume.
Durante o XXVI Concílio foi aplicado um pequeno questionário, coletando propostas e anseios para um cada vez mais proveitoso desempenho de clérigos e leigos diocesanos, as respostas advindo sob três tipos de olhar: o olhar para dentro, o olhar para fora e o olhar para cima. Após apuração, a tabulação será enviada ao Bispo Primaz, com uma sucinta análise deste observador também anglicano, embora não-integrante da DAB.
Voltei de Brasília entusiasmado com o desempenho da Igreja Anglicana na Capital Federal, sob a batuta de Dom Maurício Andrade, liderança executiva e também pastoral. Sem ânsias de erudição, ele bem compreende as posturas que fragilizam uma estratégia episcopal: Evangelização voltada para o passado, enfatizando a subserviência e a memorização; Práticas pastorais que admitem apenas uma única resposta, cultivando-se o medo do erro e do fracasso; Valorização da incompetência, da ignorância e da incapacidade analítica, desprezados os necessários incentivos aos talentos de cada um; Menosprezo pelo auto-conhecimento; Desenvolvimento de habilidades limitadas; Obediência, passividade, dependência e conformismo; Abandono da imaginação e da fantasia; Descaso pelo cultivo de uma visão otimista dos futuros, sem hipocrisias nem messianismos; Conservadorismo passivo.
Na sua fala final, ressaltou Dom Maurício Andrade o significado do que disse, um dia, Dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife, um dos maiores propulsores de uma Igreja Missionária comprometida com a libertação integral do Ser Humano: “Que importa que ao chegar eu nem pareça pássaro. / Que importa que ao chegar eu venha me arrebentando, caindo aos pedaços, / sem aprumo e sem beleza./ Fundamental é cumprir a missão e cumpri-la até o fim”.
Uma sensação de colegialidade madura testemunhei no XXVI Concílio Diocesano da DAB, com suas conflitividades expostas sem receios nem subterfúgios, ninguém desejando apagar o brilho de ninguém, posto que a vida é curta demais para se pensar pequeno.
Reli Fernando Pessoa, dias atrás: “Fiz de mim o que não soube, / E o que podia fazer de mim não o fiz, / O dominó que vesti era errado (...) Quando quis tirar a máscara, / Estava pregada à cara. / Quando a tirei e me vi no espelho, / Já tinha envelhecido”. E percebi que a Diocese Anglicana de Brasília não desconhece a advertência contida no verso pessoano, quando vi aprovado por unanimidade seu Balanço Patrimonial e o Relatório da Secretaria Administrativa, mantendo em rumo certo uma política de contenção de gastos, planejando de forma racional e equilibrada os investimentos dos amanhãs. Percebendo-se uma Diocese Missionária em busca de uma autonomia consagradora em futuro bem próximo.
Voltei de Brasília admirando mais a reflexão de Dante: “De uma pequena fagulha podem surgir imensas labaredas”. Em miúdos: aqueles que ousam, fazem; os que não ousam, não fazem nada. E a Diocese Anglicana de Brasília, através de uma liderança pastoral consistente, sem eruditismos cavilosos nem ânsias egolátricas, a todos busca energizar fraternalmente, favorecendo a construção do Reino, ciente da recomendação lucana (Lc 18,27) e sempre “desafiada a ser o jardim experimental de Deus na terra, um fragmento do reinado de Deus, tendo as ‘primícias do Espírito’ (Rm 8,23) como penhor do que há de vir (2Co 1,22)”, no dizer muito intuitivo de David J. Bosch, em seu enriquecedor Missão Transformadora, Sinodal, 2002.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Pernambuquês

Um dos passatempos do João Silvino da Conceição, este nordestino por demais arretado de bom, é escrever pequenas historietas, utilizando o pernambuquês, linguajar criado e curtido pelos que moram neste estado pioneiro, berço de Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, João Cabral de Mello Neto e Luiz Gonzaga. Este último também eleito para encabeçar a lista dos que mais se destacaram no século passado.
Aproveitando o raiar do último domingo da Ressurreição, o Silvino me mostrou um texto seu que é uma beleza de amor pelo linguajar regional. Uma meia página que deve ser divulgada aos quatro ventos, servindo também de bom alerta. Ei-la:
Sentindo-se o diabo chupando manga, só por ter sido aprovado num vestibular que carecia de maior seriedade fiscalizatória, o abilolado do Lordenelson, batizado assim em homeagem a um cabra bom do além-mar, raspou os pêlos do cocoruto e ganhou a rua para ser admirado pelas minas aguadas das redondezas, algumas minchas que nem pirraia sem ainda os frisos dianteiros.
Arremedando os arretados que foram aprovados nos vestibulares mais acochados, Lordenelson, todo metido a cavalo do cão e virado num molho de coentro, foi dar com os costados numa praça de alimentação de shopping, de braços dados com a Creonilda, uma catraia toda zambeta que fazia um rala-e-rola completo nos cafundós do Judas da área portuária.
Falando bem alto, na maior zoada, Lordnelson apregoava que tinha feito um vestibular numa faculdade tampa de foguete, onde os alesados enguiçados do saber não tinham vez de jeito maneira. E que estava naquela praça com a bobônica, pra responder pros interessados os noprós de vestibular, pra ele tudo bronca safada.
Arrodeado de uns galalaus trelosos e umas sararás amostradas, de diademas rosas recheados de birilos, Lordenelson ouviu a primeira pergunta, vinda de um tamborete de zona pra lá de cabeça feita, de alpercata de rabicho, com o diabo no couro por ter sido agoniado demais nas respostas dadas, pressa que lhe tinha surripiado o lugar primeiro de uma universidade federal. Sem poder conversar miolo de pote e não desejando se arredar dali como um abiscoitado, Lordenelson arriscou um ”não sei, essa” bem baixinho, gerando um balaio de gato depois de uns outros tantos “não sei”. Até um lanterneiro que apreciava o papo, danou-se, presenteando as fuças do Lord com uma chapoletada de deixar comendo brocha o mais arisco dos marombeiros da região.
Sentindo-se atolado e meio com a cipoada levada, tão forte que provocou um catabiu nos seus solados, Lordnelson, já sentindo uma graxinha intestinal a lubrificar-lhe o peritônio, imaginou-se no fiofó do mundo, bem distante daquela inhaca que já exalava do seu fundo de calça. Sentindo que podia comer capim pela raiz, se farrapasse em mais um “
não sei”, deslisou de mansinho, arribando-se ligeirinho para seu quartinho, muito puto da vida por ter-se enganado a respeito dos seus dotes intelectivos”.
Segundo João Silvino, a historinha acima é um alerta para os que fazem vestibular em “falcudade só carestia”: “Para que as aratacas metidas a terceiro grau se arribem, deixando de tapiar os bagos dos pés-de-chinelo com tabuletas de esparro, não carece de fusuê. Basta que os alesados saibam identificar as organizações trepeças que enrolam, que apenas desejam o tutu dos idiotas, deixando todos, nos amanhãs, profissionalmente malamanhados”.
Estou com o João Silvino e não abro nem pro trem, sob as Graças do Homão de Nazaré, que sabia das coisas sem nunca ter freqüentado universidade.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, abril 2008)

Lambeth 2008

De 16 de julho a 4 de agosto próximos, acontecerá, na Inglaterra, a mais representativa conferência anglicana do mundo. Realizada decenalmente, a Lambeth 2008 congregará mais de 800 bispos, sendo presidida pelo Arcebispo de Cantuária Rowan Williams.
A Lambeth 2008, como as conferências anteriores em suas contemporaneidades, buscará transmitir ao episcopado anglicano mundial as estratégias evangelizadoras compatíveis com os desafios de uma era que está a exigir procedimentos missionários amplamente reformados e reformadores. Além disso, a conferência deverá proporcionar a intensificação do conhecimento de cada Província sobre as demais, fortalecendo uma reflexão coletiva acerca das iniciativas que melhor compartilhem experiências e vivências intercontinentais. Favorecendo uma aprendizagem de múltiplas vias acerca da missão anglicana de bem executar a missão de Deus no mundo.
A conferência de Lambeth 2008 continuará a ampliar o intercâmbio anglicano com outras denominações cristãs e religiosas, inclusive com os ramos egressos do seu interior. Também serão convidados observadores de outras religiões.
A Comunhão Anglicana é uma grande família de igrejas. Províncias que aglutinam dioceses, cada uma com suas paróquias, missões e pontos missionários. Cada província com seu bispo primaz, cada diocese com seu bispo diocesano, algumas delas possuindo bispo coadjutor.
Segundo documento, “a Conferência de Lambeth surgiu e qualificou-se como um dos fatores aglutinantes principais para a comunhão anglicana. Nesta Conferência, são expressas as diversas opiniões das igrejas que dizem respeito a várias problemáticas, desde as mais diretamente teológicas e sociais até as políticas. As decisões adotadas pela Conferência não têm de per si força legal em relação às igrejas individuais, senão que devem posteriormente ser aprovadas ou adaptadas, de acordo com as constituições próprias, à cada Igreja.”
O diálogo da Comunhão Anglicana com as demais igrejas cristãs se estrutura no Quadrilátero de Lambeth, formada por quatro colunas fundamentais: a aceitação da Sagrada Escritura como regra de fé, o símbolo dos apóstolos e a profissão de fé niceno-constantinopolitana, os sacramentos do batismo e da ceia do Senhor e o episcopado. Quatro princípios que foram instituídos, num primeiro momento, em Chicago, 1886, adotados, posteriormente, pela Conferência Lambeth 1888.
Acredito que o futuro do Anglicanismo somente se efetivará na razão direta de uma veracidade amplamente debatida, em Lambeth 2008, por todos os bispos anglicanos do mundo, sem discriminação de espécie alguma. Onde o binômio sinceridade x fraternidade seja dominante em todas os momentos do evento, favorecendo a erradicação dos marasmos pastorais.
Assino embaixo a reflexão feita, outro dia, por um bispo anglicano da Província do Cone Sul, certamente eivada de muita autenticidade e respaldada num caminhar existencial de pastoral solidária com os excluídos do mundo: “devemos conservar a cabeça fria e o espírito quente, o bom senso, o equilíbrio, a moderação e a fidelidade, agir com determinação e firmeza e, acima de tudo, manter a humildade, como pecadores lavados pelo sangue do Cordeiro.
Muitos põem fé numa Lambeth 2008 renovadora, sem animosidades pessoais diante da formulação de críticas objetivas dos não-domesticados, que prenunciam uma erosão avalassadora das autoridades anglicanas maiores, ocasionando o reagrupamento de um sem-número de leigos diante de uma não-enxergância em reconhecer os sinais do tempo. Leigos que, na expressão feliz do desassombrado teólogo romano Hans Küng, “dispensam qualquer veneração divinizadora, aduladora, idealistas de seus admiradores (da Igreja), preferindo o amor forte, sofredor e esperançoso dos partcipantes, dos visados e dos co-responsáveis”.
Lambeh 2008 deverá instituir a veracidade como estandarte maior da sua efetividade.
(Publicado no Jornal do Commercio, 30 de março de 2008)