domingo, 13 de maio de 2007

Síntese da Vida de Paulo de Tarso

Saul de Tarshish ou Paulo de Tarso, como os romanos o chamavam, era intelectual brilhante, advogado e teólogo fariseu. Nasceu em Tarso, região da Cilícia, Ásia Menor, atual Turquia, uma cidade com aproximadamente 300 mil habitantes (At 9,11; 21,39; 22,3). Uma cidade de muita gente, ruas estreitas, casas miúdas, vida social trepidante, posto que era importante centro de cultura e de comércio, com um porto muito ativo.
No tempo de Paulo, o Império Romano já declinava por algumas razões que persistem no mundo contemporâneo: “permissividade social, imoralidade, descaso com o bem-estar do povo, guerras infindáveis, elevada taxa de confisco, destruição brutal da classe média, desprezo cínico pelas virtudes, busca da riqueza materialista, abandono da religião, políticos venais, deterioração do sistema monetário, suborno, criminalidade, distúrbios, atividades incendiárias, manifestações de rua, perda da firmeza masculina, escândalo dos cargos públicos, atitudes de vale-tudo, tolerância diante das injustiças, burocracias e burocratas insensíveis, desprezo pela honra dos homens de bem e, acima de tudo, um afastamento do Absoluto”. (Extraído de Taylor Caldwell, O Grande Amigo de Deus, Record, 2004, 21a. edição)
Podemos dividir a vida de Paulo em quatro grandes períodos:
a. Do nascimento aos 28 anos: o judeu praticante
b. Dos 28 aos 41 anos: o convertido fervoroso
c. Dos 41 aos 53 anos: o missionário intinerante
d. Dos 53 até a morte aos 62 anos: o prisioneiro (quatro anos) e o organizador de comunidades (mais cinco anos)
Segundo Atos de Paulo, um escrito apócrifo do segundo século, “ele era um homem de pequena estatura”, “parcialmente calvo, pernas arqueadas, de compleição robusta, olhos próximos um do outro, e nariz um tanto curvo.” Se esta descrição merecer crédito, ela fala um bocado mais a respeito desse homem natural de Tarso, que viveu quase sete décadas cheias de acontecimentos após o nascimento de Jesus. Ela se encaixaria no registro do próprio Paulo de um insulto dirigido contra ele em Corinto. “As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra desprezível” (2 Co 10:10)
Sua verdadeira aparência teremos de deixar por conta dos artistas, pois nada sabemos ao certo. Matérias mais importantes, porém, demandam atenção — o que ele sentia, o que ele ensinava, o que ele fazia.
Sabemos o que esse homem de Tarso chegou a crer acerca da pessoa e obra de Cristo, e de outros assuntos cruciais para a fé cristã. As cartas procedentes de sua pena, preservadas no Novo Testamento, dão eloqüente testemunho da paixão de suas convicções e do poder de sua lógica.
Aqui e acolá em suas cartas encontramos pedacinhos de autobiografia. Também temos, nos Atos dos Apóstolos, um amplo esboço das atividades de Paulo. Lucas, autor dos Atos, era médico e historiador gentio do primeiro século. Assim, enquanto o teólogo tem material suficiente para criar intérminos debates acerca daquilo em que Paulo acreditava, o historiador dispõe de parcos registros. Quem se der ao trabalho de escrever a biografia de Paulo descobrirá lacunas na vida do apóstolo que só poderão ser preenchidas por conjecturas.
À semelhança de um meteoro brilhante, Paulo lampeja em cena como um adulto numa crise religiosa, resolvida pela conversão. Desaparece por muitos anos de preparação. Reaparece no papel de estadista missionário, e durante algum tempo podemos acompanhar seus movimentos através do horizonte do primeiro século. Antes de sua morte, ele flameja até entrar nas sombras além do alcance da vista.
Antes, porém, que possamos entender Paulo, o missionário cristão aos gentios, é necessário que passemos algum tempo com Saulo de Tarso, o jovem fariseu. Encontramos em Atos a explicação de Paulo sobre sua identidade: “Eu sou judeu, natural de Tarso, cidade não insignificante da Cilícia” (At 21,39). Esta afirmação nos dá o primeiro fio para tecermos o pano de fundo da vida de Paulo.
No primeiro século, Tarso era a principal cidade da província da Cilícia na parte oriental da Ásia Menor. Embora localizada cerca de 16 km no interior, a cidade era um importante porto que dava acesso ao mar por via do rio Cnido, que passava no meio dela. Ao norte de Tarso erguiam-se imponentes, cobertas de neve, as montanhas do Tauro, que forneciam a madeira que constituía um dos principais artigos de comércio dos mercadores tarsenses. Uma im­portante estrada romana corria ao norte, fora da cidade e através de um estreito desfiladeiro nas montanhas, conhecido como “Portas C­ilicianas”. Muitas lutas militares antigas foram travadas nesse passo entre as montanhas.
Tarso era uma cidade de fronteira, um lugar de encontro do Leste e do Oeste, e uma encruzilhada para o comércio que fluía em ambas as direções, por terra e por mar. Tarso possuía uma preciosa herança. Os fatos e as lendas se entremesclavam, tornando seus cidadãos ferozmente orgulhosos de seu passado.
O general romano Marco Antônio concedeu-lhe o privilégio de libera civitas (“cidade livre”) em 42 a.C. Por conseguinte, embora fizesse parte de uma província romana, era autônoma, e não estava sujeita a pagar tributo a Roma. As tradições democráticas da cidade-estado grega de longa data estavam estabelecidas no tempo de Paulo.
Em Tarso cresceu o jovem Saulo. Em seus escritos, encontramos reflexos de vistas e cenas de Tarso de quando ele era rapaz. Em nítido contraste com as ilustrações rurais de Jesus, as metáforas de Paulo têm origem na vida citadina.
O reflexo do sol mediterrânico nos capacetes e lanças romanos teriam sido uma visão comum em Tarso durante a infância de Saulo. Talvez fosse este o fundo histórico para a sua ilustração concernente à guerra cristã, na qual ele insiste em que “as armas da nossa milícia não são carnais, e, sim, poderosas em Deus, para destruir fortalezas” (2 Co 10,4).
Paulo fala de “naufragar” (1 Tm 1,19), do “oleiro” (Rm 9,21), de ser conduzido em “triunfo” (2 Co 2:14). Ele compara o “tabernáculo terrestre” desta vida a um edifício de Deus, casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (2 Co 5,1). Ele toma a palavra grega para teatro e, com audácia, aplica-a aos apóstolos, dizendo: “nos tornamos um espetáculo (teatro) ao mundo” (1 Co­ 4,9).
Tais declarações refletem a vida típica da cidade em que Paulo passou os anos formativos da sua meninice. Assim as vistas e os sons deste atarefado porto marítimo formam um pano de fundo em face do qual a vida e o pensamento de Paulo se tornaram mais compreensíveis. Não é de admirar que ele se referisse a Tarso como “cidade não insignificante”.
Os filósofos de Tarso eram quase todos estóicos. As idéias estóicas, embora essencialmente pagãs, produziram alguns dos mais nobres pensadores do mundo antigo. Atenodoro de Tarso é um esplêndido exemplo. Embora Atenodoro tenha morrido no ano 7 d.C., quando Saulo não passava de um menino pequeno, por muito tempo o seu nome permaneceu como herói em Tarso. E quase impossível que o jovem Saulo não tivesse ouvido algo a respeito dele.
Quanto, exatamente, foi o contato que o jovem Saulo teve com esse mundo da filosofia em Tarso? Não sabemos; ele não nos revelou. Mas as marcas da ampla educação e contato com a erudição grega o acompanham quando homem feito. Ele sabia o suficiente sobre tais questões para pleitear diante de toda sorte de homens a causa que ele representava. Também estava cônscio dos perigos das filosofias religiosas especulativas dos gregos. “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens... e não segundo Cristo”, foi sua advertência à igreja de Colossos (Cl 2,8).
Paulo não era apenas “cidadão de uma cidade não insignificante”, mas também cidadão romano. Isso nos dá ainda outra pista para o fundo histórico de sua meninice. Em At 22,24-29 vemos Paulo conversando com um centurião romano e com um tribuno romano. (Centurião era um militar de alta patente no exército romano com 100 homens sob seu comando; o tribuno, neste caso, seria um comandante militar.) Por ordens do tribuno, o centurião estava prestes a açoitar Paulo. Mas o Apóstolo protestou: “Ser-vos-á porventura lícito açoitar um cidadão romano, sem estar condenado?” (At 22,25). O centurião levou a notícia ao tribuno, que fez mais inquirição. A ele Paulo não só afirmou sua cidadania romana mas explicou como se tornara tal: “Por direito de nascimento” (At 22,28). Isso implica que seu pai fora cidadão romano.
Podia-se obter a cidadania romana de vários modos. O tribuno, ou comandante, desta narrativa, declara haver “comprado” sua cidadania por “grande soma de dinheiro” (At 22,28). No mais das vezes, porém, a cidadania era uma recompensa por algum serviço de distinção fora do comum ao Império Romano, ou era concedida quando um escravo recebia a liberdade.
A cidadania romana era preciosa, pois acarretava direitos e privilégios especiais como, por exemplo, a isenção de certas formas de castigo. Um cidadão romano não podia ser açoitado nem crucificado.
Todavia, o relacionamento dos judeus com Roma não era de todo feliz. Raramente os judeus se tornavam cidadãos romanos. Quase todos os judeus que alcançaram a cidadania moravam fora da Palestina.
Devemos, também, considerar a ascendência judaica de Paulo e o impacto da fé religiosa de sua família. Ele se descreve aos cristãos de Filipos como “da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu” (Fp 3,5). Noutra ocasião ele chamou a si próprio de “israelita da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim” (Rm 11,1). Dessa forma Paulo pertencia a uma linhagem que remontava ao pai de seu povo, Abraão. Da tribo de Benjamim saíra o primeiro rei de Israel, Saul, em consideração ao qual o menino de Tarso fora chamado Saulo.
A escola da sinagoga ajudava os pais judeus a transmitir a herança religiosa de Israel aos filhos. O menino começava a ler as Escrituras com apenas cinco anos de idade. Aos dez, estaria estudando a Mishna com suas interpretações emaranhadas da Lei. Assim, ele se aprofundou na história, nos costumes, nas Escrituras e na língua do seu povo. O vocabulário posterior de Paulo era fortemente colorido pela linguagem da Septuaginta, a Bíblia dos judeus helenistas.
Dentre os principais “partidos” dos judeus, os fariseus eram os mais estritos. Estavam decididos a resistir aos esforços de seus conquistadores romanos de impor-lhes novas crenças e novos estilos de vida. No primeiro século eles se haviam tornado a “aristocracia espiritual” de seu povo. Paulo era fariseu, “filho de fariseus” (At 23,6). Podemos estar certos, pois, de que seu preparo religioso tinha raízes na lealdade aos regulamentos da Lei, conforme a interpretavam os rabinos. Aos treze anos ele devia assumir responsabilidade pessoal pela obediência a essa Lei.
Saulo de Tarso passou em Jerusalém sua virilidade “aos pés de Gamaliel”, onde foi instruído “segundo a exatidão da lei. . .“ (At 22,3). Gamaliel era neto de Hillel, um dos maiores rabinos judeus. A escola de Hilel era a mais liberal das duas principais escolas de pensamento entre os fariseus. Em Atos 5,33-39 temos um vislumbre de Gamaliel, descrito como “acatado por todo o povo.”
Exigia-se dos estudantes rabínicos que aprendessem um ofício de sorte que pudessem, mais tarde, ensinar sem tornar-se um ônus para o povo. Paulo escolheu uma indústria típica de Tarso, fabricar tendas de tecido de pêlo de cabra. Sua perícia nessa profissão proporcionou-lhe mais tarde um grande incremento em sua obra missionária.
Após completar seus estudos com Gamaliel, esse jovem fariseu provavelmente voltou para sua casa em Tarso onde passou alguns anos. Não temos evidência de que ele se tenha encontrado com Jesus ou que o tivesse conhecido durante o ministério do Mestre na terra.
Da pena do próprio Paulo bem como do livro de Atos vem-nos a informação de que depois ele voltou a Jerusalém e dedicou suas energias à perseguição dos judeus que seguiam os ensinamentos de Jesus de Nazaré. Paulo nunca pôde perdoar-se pelo ódio e pela violência que caracterizaram sua vida durante esses anos. “Porque eu sou o menor dos apóstolos”, escreveu ele mais tarde, “. . . pois persegui a igreja de Deus” (1 Co 15,9). Em outras passagens ele se denomina “perseguidor da igreja” (Fp 3,6), “como sobremaneira perseguia eu a igreja de Deus e a devastava” (Gl 1,13).
Uma referência autobiográfica na primeira carta de Paulo a Timóteo jorra alguma luz sobre a questão de como um homem de consciência tão sensível pudesse participar dessa violência contra o seu próprio povo. “. . . noutro tempo era blasfemo e perseguidor e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade” (1 Tm 1,13).
A história da religião está repleta de exemplos de outros que cometeram o mesmo erro. No mesmo trecho, Paulo refere a si próprio como “o principal dos pecadores” (1 T 1,15), sem dúvida alguma por ter ele perseguido a Cristo e seus seguidores.
Não fora pelo modo como Estevão morreu (At 7,54-60), o jovem Saulo podia ter deixado a cena do apedrejamento sem comoção alguma, ele que havia tomado conta das vestes dos apedrejadores. Teria parecido apenas outra execução legal. Mas quando Estevão se ajoelhou e as pedras martirizantes choveram sobre sua cabeça indefensa, ele deu testemunho da visão de Cristo na glória, e orou: “Senhor, não lhes imputes este pecado” (Atos 7,60).
Embora essa crise tenha lançado Paulo em sua carreira como caçador de hereges, é natural supor que as palavras de Estevão tenham permanecido com ele de sorte que ele se tornou “caçado” também —caçado pela consciência.
Os eventos que se seguiram ao martírio de Estevão não são agradáveis de ler. A história é narrada num só fôlego: “Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” (Atos 8,3).
A perseguição em Jerusalém na realidade espalhou a semente da fé. Os crentes se dispersaram e em breve a nova fé estava sendo pregada por toda a parte (Atos 8,4). “Respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor” (Atos 9,1), Saulo resolveu que já era tempo de levar a campanha a algumas das “cidades estrangeiras” nas quais se abrigaram os discípulos dispersos. O comprido braço do Sinédrio podia alcançar a mais longínqua sinagoga do império em questões de religião. Nesse tempo, os seguidores de Cristo ainda eram considerados como seita herética. Assim, Saulo partiu para Damasco, cerca de 240 km distante, provido de credenciais que lhe dariam autoridade para, encontrando os “que eram do caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém” (Atos 9,2).
O que se passava na mente de Saulo durante a viagem, dia após dia, no pó da estrada e sob o calor escaldante do sol? A auto-revelação intensamente pessoal de Romanos 7,7-13 pode dar-nos uma pista. Vemos aqui a luta de um homem consciencioso para encontrar paz mediante a observância de todas as pormenorizadas ramificações da Lei. Isso o libertou? A resposta de Paulo, baseada em sua experiência, foi negativa. Pelo contrário, tornou-se um peso e uma tensão intoleráveis. A influência do ambiente helertístico de Tarso não deve ser menosprezada ao tentarmos encontrar o motivo da frustração interior de Saulo. Depois de seu retorno a Jerusalém, ele deve ter achado irritante o rígido farisaísmo, muito embora professasse aceitá-lo de todo o coração. Ele havia respirado ar mais livre durante a maior parte de sua vida, e não poderia renunciar à liberdade a que estava acostumado.
Entretanto, era de natureza espiritual o motivo mais profundo de sua tristeza. Ele tentara guardar a Lei, mas descobrira que não poderia fazê-lo em virtude de sua natureza pecaminosa decaída. De que modo, pois, poderia ele ser reto para com Deus?
Com Damasco à vista, aconteceu uma coisa momentosa. Num lampejo cegante, Paulo se viu despido de todo o orgulho e presunção, como perseguidor do Messias de Deus e do seu povo. Estevão estivera certo e ele errado. Em face do Cristo vivo, Saulo capitulou. Ele ouviu uma voz que dizia: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues;. . . levanta-te, e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer” (At 9,5-6). E Saulo obedeceu.
Durante sua estada na cidade, “esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu nem bebeu” (Atos 9,9). Um discípulo residente em Damasco, por nome Ananias, tornou-se amigo e conselheiro de Paulo, acreditando piamente na sua conversão. Mediante as orações de Ananias, Deus restaurou a vista a Paulo.
Com base em uma bibliografia selecionada previamente, enumeramos os dez balizamentos explicitados pelo notável Carlos Mesters, em livreto memorável (Paulo Apóstolo, um trabalhador que anuncia o Evangelho, Paulus, 2004, 8a. edição):
1. A fonte de espiritualidade, onde encontrá-la?
2. Trabalho profissional e anúncio do Evangelho
3. Viver o conflito sem perder a paz e a ternura
4. Fé e política: como combinar as duas coisas
5. Defender o Evangelho ou a vida?
6. O lugar da mulher na vida das comunidades
7. Evangelho e Cultura
8. As nossas comunidades e as cartas de Paulo
9. O dom das línguas e a variedade dos Movimentyos na Igreja
10. O Evangelho deve ser BOA NOVA.
Paulo foi morto pela espada quando tinha por volta de 62 anos de idade.

NOTA
O interesse maior, na síntese acima confecionada, será o de, falando de Paulo de Tarso, o grande bandeirante do Cristianismo, entrelaçá-lo estreitamente com a tarefa principal dos cristãos de todas as denominações: favorecer, sob a Palavra de Deus, a cidadanização dos ainda não-incluídos, os filhos prediletos da Criação.

(*) Pesquisa também efetivada em vários sítios da Internet.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Um caso latino

Pela Internet, lendo um dos jornais mais populares da Argentina, tiragem acima dos 500 mil exemplares diários, me empolguei com um fato interessante, digno de ser contado para os pernambucanos de alto astral.
Um empresário sessentão, de vida pregressa razoavelmente bem constituída, há mais de oito meses mantinha um caso com uma secretária-executiva de uma distribuidora de cosméticos, vizinha de andar no Carlos Gardel Comercial Center, um arrojado empreendimento arquitetônico, de metro quadrado muito acima do custo médio portenho, garagem privativa e tudo mais.
Seguindo fielmente uma receita aplicada com maestria no craque Ronaldinho, o canarinho mais dentucinho da paróquia futebolística latina, a boazuda da secretária anunciou que tinha engravidado. Há mais dois meses as chuvas tinham parado, algumas manifestações de enjôo já emergiam um pouco exageradamente até, muito embora de um modo hipnoticamente correto, de amedrontar até os mais convencidos.
Sentindo que sua jovem mulher siciliana poderia situar-se, almodovarmente, à beira de um ataque de nervos, o garanhoso empreendedor, em troca de uma boa bolada financeira, explicitada em verdíssimos dólares americanos, conseguiu para a secretária uma reciclagem nos arredores de Roma, na Itália, com direito a hospedagem, pensão integral, sala de parto, certificado e batistério.
No embarque, a recomendação final, quase patética:
- Gatíssima, quando a criança nascer me envie um cartão postal, escrevendo no verso apenas a palavra “spaghetti”. Embarcarei imediatamente para ver o fruto da nossa paixão. Tudo vai dar certo, tenha certeza.
Alguns meses depois, horas após uma serena parição cesariana, eis que sobre a mesa do empresário donjuan aterriza um postal italiano belíssimo, a Madona com o Menino, uma criação artística admirada por milhões de turistas do mundo inteiro. Mas aí aconteceu o inesperado. Substituindo a aguardada manifestação de alegria, eis que o ronaldizado empresário argentino deu uma revirada nos olhos, suspirou de maneira pouco comum e caiu desfalecido durinho no carpete do escritório, despertando um fuzuê da gota serena nos funcionários, com direito a internamento imediato numa especializada clínica cardiológica, sediada duas quadras além do Comercial Center.
A esposa siciliana do empresário-reprodutor foi convocada às pressas, saindo de uma sessão de descelulitização geral diretamente para o pronto-socorro, testemunhando, em lá chegando, que desconhecia inteiramente as causas do mal súbito que tinha vitimado o seu maridão, tido e havido como mais lança que apenas espada. Segundo ela própria, naquele dia tudo transcorria na maior normalidade até o recebimento, pelo marido, de um postal advindo da capital italiana, com um texto pouco compreensível.
Lendo novamente os dizeres do postal para o marido, buscando esclarecimentos, eis que um novo ataque cardíaco aconteceu, levando o empresário-barrão definitivamente para a Eternidade.
No corre-corre dos preparativos para o sepultamento, o cartão postal da Madona com o Menino foi relegado a um canto da UTI. No verso, a explicação definitiva da fulminação do capitalista-fornicador. Lá estava escrito, numa letrinha bem arrumadinha, de baixa escolaridade: "Spaghetti, Spaghetti, Spaghetti, Spaghetti - Dois com salsichas e almôndegas, dois sem".Uma mensagem pra ninguém viver direito ....