segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Reflexos de Dois Bispões

Tenho amigo muito querido, o John Dubar, inteligência que respinga sinceridade e independência, que me enviou testemunhos de dois bispos extraordinários: Dom Aloísio Lorscheider e Dom Clemente Isnard, o primeiro sem mais atribulações terrestres, já na Casa do Pai. Os casos eu conto como eles se foram, recordando, com muita saudade, o meu amigo comunista Paulo Cavalcanti, uma das dignidades humanas conhecidas em minha caminhada.
O escrito de Dom Clemente Isnard vem acompanhado de uma denúncia de sorrateira proibição perpetrada pelo Núncio Apostólico Dom Lourenzo Baldisseri. Traz um prefácio do pe. José Comblin, que declara que “Dom Clemente expressa o que muitos bispos pensam mas não podem dizer”, muito embora “diante da excessiva concentração dos poderes em Roma, é bom que alguns bispos tenham a coragem de dizer o que pensam”.
Fatos são narrados nas páginas de Reflexões de um Bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais, editora Olho d’Água, 2008. Um deles: poucos sabem que, no século XIX, Roma efetivou um exame das ordenações anglicanas, tendo a comissão encarregada sido de opinião que naquela denominação se havia perdido a sucessão apostólica, devendo todos os bispos e presbíteros serem reordenados em caso de reconciliação das Igrejas. Outro: na igreja romana, um bispo, Ambrósio, foi eleito numa assembléia, sendo ele apenas um funcionário civil que ali se encontrava burocraticamente, nem batizado sendo. Ordenado, foi o grande pastor de Milão, final do século IV, tendo inclusive batizado Santo Agostinho.
Dom Clemente Isnard é favorável à ordenação de mulheres e também ao fim do celibato, sendo de opinião que “episcopado não é uma honraria e sim um serviço”. E mais sobre o livro não revelo, para não estragar o prazer de uma boa espiadinha.
O segundo livro, edição 2008 da Universidade Federal do Ceará, tem um título pra lá de cutucador: Mantenham as Lâmpadas Acessas – Revisitando o Caminho, Recriando a Caminhada. A iniciativa partiu de pessoas que desde 2002 se encontram para refletir a realidade. Intitulando-se de O Grupo, eles entrevistaram Dom Aloísio Lorscheider em manhãs de “diálogo fraterno”. Com o apoio da UFCE, O Grupo tornou pública a entrevista, subdividida em partes – A Pessoa, Os Últimos 40 anos da Igreja, e O Legado da Esperança – trazendo ainda valiosos testemunhos, um deles do pe. José Comblin, que afirma: “como presidente do CELAM teve coragem e paciência heróica para suportar o secretário-geral, Alfonso Lopez Trujillo. Só por isso já mereceria a beatificação, porque supõe realmente uma virtude heróica”. E disse mais: “como presidente da CNBB, Dom Aloísio conseguiu salvar o episcopado brasileiro da vergonha de ter apoiado o golpe militar”. E não faz por menos: “ficará na história o discurso pronunciado por Dom Aloísio no início da conferência de Puebla. Esse discurso pode ter sido o acontecimento mais significativo da carreira dele à frente do CELAM”. Um discurso feito após o pronunciamento de João Paulo II, que tinha sido “cochichado” por Lopez Trujillo, causando um desalento generalizado. Como declara Comblin, “foi como uma ducha fria capaz de apagar todos os entusiasmos”. E Dom Aloísio Lorscheider reagiu à altura, através de um pronunciamento que catapultou novamente os ânimos.
Dois testemunhos de dois bispões. Um, o de Dom Clemente Isnard, bem mais simples, embora não menos corajoso. O outro, papo gravado com Dom Aloísio Lorscheider, deveria ser lido e relido pelos seminaristas de todas as denominações cristãs. Para que apreendam adequadamente uma realidade que amplia empobrecimentos nestes primeiros anos de século. As reflexões de Dom Aloísio são as de um comprometido com a libertação integral do ser humano: “se não conseguirmos motivar os nossos seminaristas para a inserção, então, realmente, seria melhor fechar o seminário”... “um sínodo que não acrescenta nada ao que a tradição já dizia é, na minha opinião, uma perda de tempo”... “a motivação religiosa encontra-se muito mais próxima do medo e da insegurança do que da convicção e do compromisso”. As carapuças estão disponíveis...
Manter as lâmpadas acessas, sim, apesar de todos os pesares, inclusive eclesiásticos. Caminho revisitado, caminhada recriada, jamais confundindo salvação com igreja, como bem proclamava Ivan Illich, o notável de Cuernavaca, no México.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste – Recife, Pernambuco)

sábado, 25 de outubro de 2008

O Dom da Esperança

Nas proximidades do centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara, 2009, muitos textos, inclusive biográficos, irão enriquecer o conhecimento acerca do ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, um Dom que permanecerá para sempre nos corações e mentes dos que anseiam por novas estruturas sociais, com uma Igreja amplamente reformada, libertadora por derradeiro, agregadora de todas as raças e gêneros, sem discriminações nem preconceitos, respeitadora do Maior de todas as demais religiões não-cristãs.
Se me perguntassem sobre uma leitura não-acadêmica, sem apud nem outrossim nem ibid em cada pé de página, que favorecesse uma visão ampla e sem detalhismos sobre o inesquecível Dom, sem pestanejar indicaria uma recente publicação da Paulus, 2008, intitulada Dom Hélder Câmara um modelo de esperança, de autoria do pesquisador Martinho Condini, doutorando do Programa de Educação da PUC-SP.
Em quase duzentas páginas bem editoradas, o leitor toma conhecimento de uma vida pastoral que também foi objeto de preconceito, calúnia e difamação, intra e extra-eclesialmente, jamais abalando a esperança de quem “sempre exergava o lado bom das circunstâncias”. Como afirma o pe. Joseph Comblin, “escrever a biografia de Dom Hélder é fazer a história da Igreja no Brasil desde 1940, a história da Igreja Latino-Americana desde 1955 e a história da Igreja Católica desde o Vaticano II”.
Segundo o autor, a grande virada na vida religiosa do Dom aconteceu em 1955, quando da realização do Congresso Eucarístico Internacional, no Rio de Janeiro. Diante do estupendo nível organizacional do Congresso, o Dom recebeu a seguinte recomendação do cardeal francês Gerlier, então titular apostólico de Lyon: “por que, meu irmão Hélder, você não põe todo esse talento deorganizador que Deus lhe deu a serviço dos pobres? Você sabe que o Rio de Janeiro é uma das cidades mais belas do mundo. Mas é ao mesmo tempo uma das mais pavorosas, porque todas essas favelas, como vocês chamam, são um insulto ao Criador, neste quadro de beleza”. O cardeal fez emergir o “bispo das favelas”, uma chacota que não o incomodava, pois acentuou nele a convicção de que a favelização dos principais centros metropolitanos brasileiros era uma decorrência direta da ausência de uma política agrária distributivista, que muito desestimularia o êxodo rural, principal fator de crescimento da miséria. A Cruzada São Sebastião, o Banco da Providência, a Feira da Providência foram algumas das iniciativas tomadas pelo então bispo auxiliar do Rio de Janeiro.
Uma segunda alavancada aconteceu na vida pastoral do Dom quando da sua transferência para o Recife, em 1964, “uma tentativa de silenciá-lo, deixá-lo mais distante do Distrito Federal e, também, do poder”, posto que “Dom Jaime entendia que seu auxiliar deixava em segundo plano o combate ao comunismo ateu, a seu ver o principal causador dosproblemas da humanidade, para priorizar a atuação social e política no combate às injustiças”.
No livro, Martinho Condino faz uma apanhado criterioso dos enfrentamentos do Dom com o regime militar, a Igreja Católica e o Vaticano, amplamente respaldados na afirmação do pe. José Ernnane Pinheiro, que trabalhou na Arquidiocese de 1967 a 1986, na formação de seminaristas: “Dom Hélder completou no Recife sua conversão ao pobre e ao compromisso social”. E ressalta duas personalidades que apoiaram Dom Hélder em situações delicadas: o general Amaury Kruel e o embaixador Mário Gibson Barbosa, dois gestos significativos.
Anexados ao texto principal, quatro entrevistas são transcritas pelo autor: com Dom Paulo Evaristo Arns, pe. Joseph Comblin, Leonardo Boff e Dom Cândido Padim. Depoimentos que muito bem refletem a vida de quem soube fazer a hora, nunca esperando acontecer.
PS. Sugestão apenas: que se reproduza em edição primorosa, nas comemorações centenárias do próximo ano, a primeira entrevista dada por Dom Hélder depois do seu retorno ao noticiário. Quem o entrevistou foi a notável jornalista Divane Carvalho, então na sucursal do Recife do Jornal do Brasil. Abril de 1977.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Biblioterapia, uma boa idéia

Nos arquivos da minha mãe, num envelope sem lacre, encontrei o que tinha escrito há muitos anos, numa fase de reconstrução existencial, ainda atormentado por desfeitas cometidas com pessoas do meu derredor: Gostaria muito de ver melhor o amanhã, / Para esquecer os meus erros e desencontros. / Para recomeçar com acertos e também tropeços, / Sem receio algum de continuar sendo. / E caminhar sem temer novos julgamentos, / Buscando iniciativas eficazes, / As mais próximas de todas as criaturas. / Investiria mais no meu Eu-com-Deus-nos-homens, / Jamais postulando ser mais que ninguém. / E voltaria novamente a me recobrir de esperança, / Buscando o significado de cada amanhecer, / Sem a amargura dos meus mil ontens. / Tornando-me ainda mais com os outros, / Para nunca mais me deixar.
O desejo acima, sempre inconcluso, se efetivando foi ao longo dos anos, graças às leituras e papos agradáveis que ampliaram a “enxergância” e a solidariedade para com os “menos” que se multiplicam mundo afora. Um imenso débito contraído com livros e amigos(as) de todas as idades, todos comungantes do pensamento de Henry Miller, um dia explicitado em página de quase-memória: “Ninguém é tão importante nem tão sábio para que entreguemos nosso destino a ele. A única maneira pela qual alguém pode nos conduzir é nos restituindo a crença em nosso próprio pensamento”.
Imensa satisfação tive dias atrás, quando tomei ciência da inauguração da Escola da Vida (School of Life), em Londres, de alguns sócios-escritores, entre eles Alain de Botton, Robert Macfarlane e Geoff Dyer. Definida como “pequena loja com grandes ambições”, a Escola da Vida estabelece o primeiro contato com o cliente a partir de algumas questões: Como vocês descreveria seus hábitos de leitura?; Quando você lê e onde?; Você termina o que você começa a ler?; O que está te preocupando?; Onde você se imagina daqui a dez anos?; e. Quais são suas paixões? Uma entrevista é marcada e as orientações são feitas por um biblioanalista. Além da biblioterapia, a Escola da Vida também oferece uma série de outras oportunas iniciativas.
Numa das minhas viagens últimas a São Paulo, tomei conhecimento de algo parecido, a Casa do Saber. Iniciativa oriunda do empresário Jair Ribeiro da Silva Neto, que reunia amigos em sua casa para estudar e discutir filosofia. A Casa do Saber tornou-se realidade a partir de um grupo de associados, inclusive a atriz Maria Fernanda Cândido. Um centro de estudos que oferece cursos livres, palestras, debates e oficinas, suprindo carência histórica por instituições com tal perfil.
Quando Recife possuirá uma Escola de Vida, acolhendo um público ansioso pela ampliação de sua aventura pessoal e intelectual, portando intensa curiosidade, mente aberta e um voraz apetite pela vida? Para seguir em frente, contemplando amanhãs convicto de que os ontens não mais retornarão? E, sem menosprezar a capacidade de amar, assimilando Rudyard Kipling?: “Mostrar seus sentimentos é arriscar-se a se expor; dar a conhecer as suas idéias, os seus sonhos, é arriscar-se a ser rejeitado; amar é arriscar-se a não ser retribuído no amor; viver é arriscar-se a morrer; esperar é arriscar-se a desesperar; tentar é arriscar-se a falhar. Mas devemos nos arriscar! O maior perigo na vida está em não arriscar. Aquele que não arrisca nada, não faz nada, não tem nada, não é nada!”.
O Recife necessita de um grupo que reinvente, aqui, uma Escola de Vida, favorecendo um caminhar mais coerente com os tempos futuros. Para se enxergar muito além da fachada. Incentivando a alegria de viver, onde todos se reconheçam como um aprendiz de tudo, aplaudindo o irlandês Charles Handy: “não devemos permitir que nosso passado, por mais glorioso que seja, interfira em nosso futuro”.
PS. Para a querida Susana Azevedo, talento recifense, que dispõe, por herança, de uma biblioteca que não deveria sair do Recife.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Reputações à Vista

O noticiário foi encharcado de excrescências nos últimos dias: a “festinha” para os executivos dada pela AIG, seguradora norte-americana auxiliada pelo governo USA em 85 bilhões de dólares, onde foram gastos 443 mil dólares com comes e bebes e o escambau; as bravatas amolecadas do presidente Rafael Correa, do Equador, contra executivos da Odebrecht, passando por cima do Poder Judiciário do seu país e desrespeitando promessas feitas ao colega brasileiro; as dilapidações financeiras tentadas em Jaboatão dos Guararapes, PE, de pronto denunciadas pelo prefeito eleito e firmemente rejeitadas pelo governador Eduardo Campos; as agressões cometidas a Barack Obama pelos partidários da dupla oposicionista, para muitos réplica fiel da dupla Débie & Lóide, que, revelando deploráveis furores racistas, não moveram um pio de protesto, cinicamente consentindo nas provocações; a intenção do papa Bento 16 em querer aliviar a barra conceitual de Pio XII, abrindo o processo de sua beatificação, ele Pio XII acusado de omisso na matança de milhões de judeus pelo regime nazista, o qual teve entre os membros de sua juventude o próprio atual pontífice; os litros de silicone nos seios, anunciados por mulheres neuronialmente nulas, enlouquecedoras de homens eqüinamente abilolados, desamamentados precocemente; as incomodações possessivas de Mc Cain com as fotografias que estão tirando das pernas da candidata à vice-presidência USA Sarah Palin, em lugar de mostrar sua inteligência política, minúscula por derradeiro; e, finalmente, a “gabarolice programada” do presidente Lula, declarando ser apenas uma marolinha o que vai acontecer no Brasil com a crise financeira mundial, desconhecendo os efeitos catastróficos do fenômeno derretedor de trocentos bilhões de dólares. Que afetarão inclusive a Marta, a que sabe relaxar e gozar, não sabendo com altivez perder.
Para não ficar falando somente em coisas muitas negativas, vale a pena aqui ressaltar pontos positivos acontecidos nos últimos dias, que muito favorecerão a cidadania planetária: o programa de treinamento para comunidades brasileiras que a UNICEF estará lançando proximamente, auxiliando na montagem de redes de educação, saúde, lazer, esporte, assistência social e cultura, envolvendo crianças e adolescentes; a revalorização das análises gramscianas, sobre o papel do Estado no desenvolvimento como um todo; o investimento de um bilhão de reais que o Govervo Federal vai efetivar, em 2009, na formação de profissionais da educação básica em faculdades públicas; a espetacular vitória de Thaíse Guedes, pernas e braços amputados, para a Câmara de Vereadores de Maceió, vítima da meningite, para batalhar pelos portadores de deficiência; estudos iniciais no país para identificar, aqui, os nossos “rednecks”, aqueles de classe média baixa, branca, conservadora e interiorana, que se imaginam integrados à globalização, jamais se percebendo vítimas dela, por nada entenderem de cidadania política; e a volta para o xilindró do ex-ditador Jorge Videla, um dos orquestradores da Operação Condor, que possuía seguidores por toda latinoamérica, incluindo nossas bandas. Os daqui, sem punição alguma, até o momento presente.
A crise financeira de trilhões de dólares defumados trará proporcionará alguns benefícios. Favorecerá a maturidade política dos dirigentes mundiais, ampliará a cidadania dos que apenas desejam levar vantagem em tudo, reduzirá as ingenuidades eleitorais e desmascarará as religiões promotoras do qualquer-coisa-Jesus-resolve-desde-que-contribua-com-a-sacolinha. Promoverá a emersão de lideranças políticas, religiosas, civis e militares e reduzirá a incompetência dos especialistas que ainda não perceberam que o desenvolvimento de todos e do ser humano como um todo se encontra além das meras matematizações da Economia, que sempre foi ciência humana por derradeiro.
No mais, por enquanto, é cantar o Funk do Xixi, da Ivete Sangalo. Mijada só.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste – Recife, Pernambuco)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Crise bem explicada

A atual crise financeira americana, que está deixando o mundo todo arrepiado, dando baita dor de barriga nos especuladores de ejaculação precoce e um medo arretado de 1929 em dose estupradora, necessita ser melhor explicada para os que nada entendem de economês, nem de financês, nem do embromation system de Wall Street, que ensejou tsumânico estrupício no sistema imobiliário do Tio Sam.
Na companhia da Mônica Barguil, uma prima talentosa muito querida que mora em São Paulo, o João Silvino da Conceição resolveu explicar, para um grupo de nordestinos, a atual crise americana, utilizando-se de uma linguagem bem compreensível. E ofereceu, como ilustração, um fato acontecido recentemente em terras mineiras, onde um Quintão boa pinta pode derrubar o caneco das mãos de quem não sabe bem pontuar, apesar dos padrinhos.
A historinha do João Silvino fez um sucesso tão da gota serena que eu mesmo a ele pedi licença para reproduzi-la nesta coluna do Portal da Globo Nordeste, um site pra lá de porreta, também conhecido como Portal do Duda, em homenagem a uma pessoa estimada pra caramba, gente ouro de lei, de quem sou admirador de carteirinha.
A história contada pelo João Silvino é a seguinte: o “seu” Biu tinha um bar meio peba na Vila Corgo, Bandeira do Sul, MG. Um dia, ele decidiu vender cachaça "na caderneta" aos seus mais assíduos fregueses, todos bebuns cinco estrelas, de extraordinárias lapadas, a maioria desempregada. E ao decidir vender a crédito, ele aumentou um pouco o preço da dose (a diferença sendo o sobre preço que os pinguços pagariam pelo crédito).
O gerente do banco de “seu” Biu, um jovem metido a ousado administrador, concluinte de um emibiêi por correspondência, de pronto intuiu que as cadernetas do bar constituíam um ativo recebível ou, melhor dizendo, um papagaio recuperável. E de bate-pronto começou a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o pindura dos pinguços do “seu” Biu como garantia das boas.
Uns outros zécutivos de bancos, colegas de afoiteza do gerente do banco do “seu” Biu, foram bem mais além. Deram sustança de mesmo aos papagaios recebíveis, transformando-os num monte de papéis com apelido, CDBs, CDOs, CCDs, UTIs, OVNIs, SOSs, PQPs, entre outros bem mais difíceis de soletrar, que pintosos pós-graduados lap-topados qualificavam de acrônimo, ainda que ninguém soubesse ao certo o real significado deles. Tal e qual os papéis da MERBOSA, tornados públicos lá pelos idos do 34/18 da Sudene, tempos depois, para orgasmo dos gozadores, revelados títulos de araque, a sigla apenas retratando uma empresa de mentirinha, a Merda Bosta S/A, que quase pontuou no mercado de ações da época. Um papel fedido, além do mais.
Logo logo, uma agência regional reguladora, dessas que, se não existissem, ninguém notaria, afiançou todos os papéis, na perspectiva de vê-los impulsionando o mercado de capitais, favorecendo outras operações da BM&F, Bolsa de Mercado e Futuros, tudo a partir do lastro inicial, popularmente conhecido como “as cadernetas dos pinguços do 'seu’ Biu”.
Em pouco tempo, os Penduricalhos de Papagaios, na forma original ou transformados em Berloques, Plumas, Paetês, Lantejoulas, o escambau, começaram a ser negociados como se fossem títulos dotados de muita credibilidade, com garantias tidas como reais, nos mercados de 73 países, sendo inclusive vendidos para os aposentados da China, país campeão de velhicidade.
Até que um dia, e sempre tem um dia, alguém descobriu que os bebuns da Vila Corgo não tinham um puto para pagar as contas, a bodega do “seu” Biu encerrando as portas, por falta de “forgo” (fôlego) financeiro. E toda a cadeia que foi estruturada pelos “ispecialistas emibiêi” enlamerdou-se por inteiro, todos finalmente percebendo que “tudo de bêbado não tem dono”.
O final da historinha todos já sabem: os pebas “em sofrência” por um bocado de tempo, ninguém sendo trancafiado pelas maracutaias praticadas. Tampouco ninguém sendo responsabilizado pela falência da “fantasmática montagem financeira”, que apenas favoreceu os “ispertos” de sempre.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, Recife – Pernambuco)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Oitentão Guerreiro

Costumo repetir o que proclama João Silvino da Conceição: - Existem três tipos de dignatários nas confissões episcopais, os bispos, os bispinhos e os bispões. Os primeiros cumprem suas funções corriqueiramente, os segundos se apequenam por ausência de vocação pastoral, adeptos que são, no mau sentido, do nadismo, enquanto os terceiros, gigantes por formação, fé e liderança, representam o ideário cristão mais legitimado pela mensagem do Homão da Galiléia.
Possuo profunda admiração por lideranças religiosas que reestruturam comportamentos individuais e coletivos, favorecendo a dignificação de povos e nações. O arcebispo Dom Hélder Câmara, o sempre amado Dom, é o meu estandarte maior, todo mundo sabe disso. Ele, com outros notáveis do seu porte, soube promover, no continente latinoamericano, uma consciência cidadã cristã e uma sensação de envolvimento bem compromissado com a dignidade dos seres humanos. Sempre possuidor de uma sensibilidade evangelizadora capaz de bem compreender a lição do poeta: “Conta teu jardim pelas flores, nunca pelas folhas que caem; conta teus dias pelas horas douradas, esquecendo por completo as nuvens; conta tuas noites pelas estrelas, nunca pelas sombras; conta tua vida pelos sorrisos, jamais pelas lágrimas derramadas; e, alegremente, com o correr do tempo, conta tua idade pelos feitos, jamais pelos anos já vividos”. Denunciando quando preciso, sem perder a ternura jamais.
Se me perguntassem qual seria a minha segunda maior admiração episcopal, sem pestanejar elegeria um oitentão guerreiro, que há mais de quarenta anos se fixou no extremo norte do Mato Grosso: Dom Pedro Casaldáliga, uma das figuras exponenciais da Teologia da Libertação, hoje bispo emérito de São Félix do Araguaia. Que apesar das limitações do locomover e do falar provocadas pelo Mal de Parkinson, não dá sinais de cansaço nem de pessimismo, sempre defendendo a Esperança, segundo ele o DNA mais profundo da gente brasileira.
Em dezembro passado, ele deu uma entrevista à revista Forum, revelando defesa da reforma agrária e das causas indígenas. Por suas posições sociais, por duas vezes foi convocado pelo então chefe da Congregação da Doutrina da Fé, antiga Santa Inquisição, atualmente papa Bento XVI, face acusações que lá chegaram, afirmando ser ele um perigoso marxista. Nas suas explicações esclarecedoras, Casaldáliga declarou que foi Karl Marx quem melhor falou sobre a pobreza e sobre as mazelas do capitalismo. E disse ainda que o Brasil continuaria uma sociedade arcaica enquanto houvesse proteção ao latifúndio. Avaliando o governo Lula, Dom Pedro acredita que ele poderia ter feito mais pela distribuição de terra, não avançando diante das concessões e alianças da governabilidade.
Antenado sempre, mundial e localmente, Dom Pedro enfatiza que não se pode ficar alheio para os problemas do bairro – água, saúde, escola, saneamento – diante das preocupações com os problemas da África. E não titubeia: “para que a minha esperança seja crível, preciso agir, esperar e fazer, criar e acolher. Porque a esperança cristã é comprometida, tornando-se pecados sociais as passividades e as acomodações”.
Feliz do ser humano, como Dom Pedro Casaldáliga, que sabendo usufruir de muito bom humor, torpedeia hipócritas, falsos moralistas, bajuladores e trolhas, afugentando maus olhados, ficando em paz com o seu interior sempre grávido de autêntica simplicidade, as simploriedades passando ao largo, sem qualquer bem-aventurança. E mais feliz ainda é quem priva da amizade de um talento episcopal raríssimo como ele, posto que, vacinados, também discípulos se tornam, perenizando-se na arte de continuar a semear oxigenadores contentamentos, através dos mais variados modos de evangelizar sem fricotagens.
Eu agradeço ao Pai ter podido, um dia, abraçar, em Camaragibe, município da Região Metropolitana do Recife, um bispão chamado Pedro Casaldáliga!
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife – Pernambuco)

domingo, 5 de outubro de 2008

Pérolas de Sebo

A partir de recomendação do amigo-irmão Edmar Pimentel, reverendo da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, de uns tempos para cá me acostumei a visitar o endereço eletrônico www.estantevirtual.com.br, de excelente serventia para os que buscam textos já retirado das vitrines das livrarias. Um sítio que reune mais de mil sebos e livreiros do país, envolvendo 209 cidades brasileiras, inclusive o Recife, com seu famoso Sebo Brandão, também magnificamente bem instalado na rua Ruy Barbosa 15-B, Salvador, Bahia.
Através do endereço eletrônico consegui adquirir algumas preciosidades. Uma delas, recuperando uma perda causada por descaso de pretenso amigo, é uma edição Imago 1976 do livro Ser Cristão, de Hans Küng, o mais aplaudido teólogo vivo da atualidade. Um exemplar em perfeitas condições, que bem complementou cópia xerográfica enviada pela Sara Soares, bibliotecária do Seminário Teológico Anglicano de Porto Alegre. No livro, Küng destina as suas reflexões aos que não crêem, também se dirigindo aos que já tiveram fé, não mais se sentindo confortáveis com a sua descrença. E também oferece seu trabalho aos que se sentem inseguros, oscilando entre fé e descrença. E para “cristãos e ateus, gnósticos e agnósticos, pietistas e positivistas, católicos fervorosos e tíbios protestantes e ortodoxos”, que não pretendem ser adeptos de um cristianismo barato. Nem tampouco aceitam substituir o saudavelmente tradicional pelos “recursos de uma arte cosmética e conformista de adaptação”.
Uma das últimas pérolas recebidas foi um livro editado pela Papirus, em 1987, de autoria de Rubem Alves, a tradução da sua tese de doutoramento Towards a Theology of Liberation, tornada pública em Washington, 1969. Duas emoções sentidas. Uma, na orelha, lendo trecho do prefácio escrito por Harvey Cox, na edição inglesa: “Prestem bem atenção vocês, ideólogos, teólogos e teóricos do mundo rico, dito desenvolvido. O Terceiro Mundo, de pobreza, fome e impotência impostas, e crescente indignação, encontrou uma voz teológica que se ouve como um sino. ... Nas palavras de Rubem Alves, o Terceiro Mundo não é nem mudo e nem irreflexivo. Ele não permitirá que nem o seu destino político e nem sua definição teológica venham de nós”.
A outra alegria foi o prefácio escrito pelo próprio Rubem Alves à edição publicada pela Papirus e que tomou o título de Da Esperança. Um prefácio gostoso, assim por ele iniciado: “Peço desculpas por ter escrito um livro assim tão chato. ... Se escrevi desse jeito foi porque me obrigaram, em nome do rigor acadêmico. Eles pensam que a verdade é coisa fria e até inventaram um jeito engraçado de escrever, tudo sempre no impessoal, como se o escritor não existisse, e assim o texto parece que foi escrito por todos e por ninguém”. Uma tremenda cacetada no traseiro (para aqui não dizer bunda, um termo bem mais apropriado ao meio ambiente glúteo) daqueles que se imaginam muitos quilômetros acima do cotidiano da vida. Um prefácio ainda bem mais apetitoso de se ler, quando nele Rubem se mostra como ele realmente é, livre, leve e solto, contando a estória de um galo que dizia para seus companheiros de poleiro, antes do amanhecer, que iria cantar para fazer o sol nascer. Segundo Alves, há teólogos que se parecem com o galo, nunca percebendo que sabe inventar outros cantos, reconhecendo que o astro-rei nunca vai se zangar.
O prefácio de Da Esperança, do Rubem Alves, escrito pelo próprio, em 1987, deve ser lido e relido e mais umas vezes novamente lido. Para com balizamento diferenciar comportamentos dignos de aplausos daqueles que, pequenos, marginais e sem reconhecimento, através de uma situação de “caça às bruxas”, lambuzam-se todo, desejando participar da mesa do poder terrestre. Muito diferentemente daquele irmão em Cristo, que, sabendo das dificuldades do Rubem Alves, bateu-lhe à porta para oferecer ajuda. Sendo ele apenas um paramédico maçon, que detestava a política bajulatória dos travestidos de pastores...
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife, Pernambuco)

sábado, 4 de outubro de 2008

Tapa com luva de pelica

O fato é verdadeiro e está contado por Rubem Alves, no seu magnífico Ostra Feliz Não Faz Pérola, editora Planeta. Resumidamente, eu o reproduzo abaixo, para desconforto daqueles que se horrorizam com as declarações de Alves, uma delas explicitada no último número de Filosofia Ciência & Vida: “Se eu fosse Deus, eu atacava todos os teólogos cristãos com uma praga de hemorróidas, por eles serem capazes de pensar sobre Deus o que eles pensam”. Tal e qual, segundo ele, com o narrado no Antigo Testamento, que revela Deus atacando os filisteus com uma praga do famoso incômodo.
Tudo aconteceu com locutora de rádio, nos Estados Unidos, que possuía um programa desses que dá conselhos aos que a acionam por telefone. Certo dia, indagada sobre homossexualidade, ela respondeu que se tratava de uma abominação, pois assim estava escrito na Bíblia, em Levítico 18:22.
Uma semana depois, a locutora recebeu uma cartinha, aqui reproduzida em versão condensada: “Querida Dra. Laura: Obrigado por se esforçar para educar as pessoas seguindo a Lei de Deus. Através da sua audiência, eu desejo compartilhar conhecimentos com seus ouvintes. Além de Lv 18:22, há outras recomendações bíblicas que a senhora também deveria divulgar. Exemplificando: 1. Desejando vender uma filha como serva, como indica Êxodo 21:7, qual deveria ser o preço mais adequado? 2. Também em Levítico 25:44, que estabelece que posso possuir escravos, um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, nunca aos canadenses. A senhora poderia explicar os diferentes tipos de escravos? 3. Sabendo não estar autorizado a ter qualquer contato com mulheres menstruadas, conforme Levítico 18:19, como devo proceder para saber se elas estão ou não impuras? 4. Tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados, desrespeitando o que está escrito em Êxodo 35:2, que estabelece pena de morte aos infratores. Posso encarecer a alguém que execute a tarefa? 5. Em Levítico 21:18-21 diz que ninguém poderá se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista ou for defeituoso. Como devo proceder, se sou míope? Como devo orientar um amigo brasileiro, o Faguinho, que puxa por uma perna e ainda é míope? 6. Como proceder, seguindo Levítico 19:27, para que meus amigos de cabelos cortados e barbas bem aparadas possam sobreviver à punição? 7. Cumpro Levítico 11:6-8, nunca tocando em pele de porco morto. Como aprecio jogar futebol americano, cujas bolas são feitas de couro daquele animal, será que poderei jogar de luvas? E se, por acaso, a bola bater em meu braço ou em meu rosto? 8. Possuo um tio, o Serginho, que tem a mania de usar roupa de algodão e poliéster, desrespeitando Levítico 19:19. E vive proferindo umas palavrinhas de baixão calão, que enrubesce o bispo da gente. Ao invés de apedrejá-lo publicamente, não seria mais higiênico queimá-lo numa reunião privada, como se faz com todo aquele que dorme com a sogra ou com o sogro, conforme recomenda o Levítico 20:14? Tinha muitas outras indagações, mas iria lhe tomar tempo. Obrigado de novo por recordar-nos que a Pavra de Deus é eterna e imutável.
Aos fundamentalistas, a pergunta que não deseja ficar mofando no fundo do baú: Será que a reflexão do Rubem Alves não é oportuna? Será que ele não está coberto de razão quando diz que “as Igrejas muito contribuíram para tirar o prazer da vida inteira”?
Não aprecio os pegajosamente humildes. São subservientes demais para o meu gosto. Não se respeitam. Esmagam suas potencialidades, reduzindo-as a um quase nada insosso, absolutamente coisificado. Mesmo que travestido de puritano caviloso.
A exclamação da raposa, citada pelo Frei Caneca, numa das cartas de Pítia e Damão, se faz necessária aqui: “Oh quanta species cerebrum non habet!”. Na tradução do prof. Antônio Paim: “Ó quanta beleza! Mas não tem cérebro!”. Também será que o pensar, para os fundamentalistas, é uma tentativa de se ser maior que Deus? Devendo-se sempre ser ovelha, jamais cabrito histórica e socialmente antenado?