quarta-feira, 21 de maio de 2008

Assembléia dos Purpurados

A convocação chegou em papel especial, brilhoso, endereçamento esmeradamente a letras góticas, envelope fechado com selo da autoridade maior. E o objetivo era um só: ampliar a dignidade das discussões e debates sobre temas polêmicos, evitando-se as cocadas de sal que bem não fazem a cristão de bom caráter.
Na mesa das autoridades, como pano de fundo, uma faixa enorme dizia Maldito o que faz com negligência o trabalho do Senhor! (Jr 48,10). E de cada lado, duas outras citações: a primeira proclamava Que a tua mão esteja comigo, guardando-me de males e livrando-me de dores (1Cr 4,10), enquanto a segunda continha Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada me domine (1Co 6,12).
Concluída a saudação inicial, o de barbas branquinhas a presidia. Ao seu lado direito, um jovem de personalidade cativantemente forte, aparentando uns trinta e poucos anos. Do outro lado, um senhor de muitos quilômetros percorridos, embora dotado de impressionante energia revitalizante, como se o hoje já fosse do seu pleno conhecimento, tudo muito bem captado pelo seu cabelo engomado, eriçado em forma de chama. Nas demais cadeiras, uma senhora muito meiga, olhar atento ao que se passava na platéia; um senhor bem idoso, de cajado, a portar camisa com o impresso Só o amor constrói; um judeu baixinho, invocadíssimo, tido como aluno de Gamaliel; e um de nome original Cefas, que tinha tido uma função deveras significativa no Concílio de Jerusalém, tempos primeiros.
A platéia era composta de gente de toda espécie. Sérios, obreiros, missionários, coerentes, convertidos e bem intencionados eram maioria esmagadora diante dos fingidos, ananicados, metidos a sério, hipócritas e puxa-sacos, uma minoria insignificante que só queria ver o circo pegar fogo. Sem qualquer criticidade, mais emoção que bom senso, os minoritários ansiavam pela chegada dos quinze minutos de fama na produção dos alaridos de costume, desses que às vezes deixam os mais conscientes com uma vontade danada de retrucar raivosamente.
Cumpridas as formalidades de praxe, coube ao presidente da Mesa Diretora a Fala Máxima: Vivemos instantes históricos encruzilhadais. Preservar a identidade dos testamentos que nos balizam é o que nos importa atualmente. Entendam de uma vez por todas que toda linguagem crítica é desobediente, e que ainda não se inventou uma vacina que a proteja de equívocos e mal-entendidos. Percebam que o principal valor ético é o da bondade, as reticências explicitadas por omissões, intenções débeis,nepotismos, fuxicarias ou ânsias de poder, nada devendo ser próprio para uma sempre buscada conduta cristã ilibada. Não iremos muito longe se perseverarmos nos conduzindo, de precariedade em precariedade ou tentando descobrir piolho em casca de ovo. Nunca se olvidem de um fato: a narração e a argumentação constituem a irrenunciável tarefa metodológica de qualquer teologia. Convém, mais que nunca, serenar e buscar sempre o lado contemporâneo das coisas, nunca se esquecendo que o Ser Humano é algo muitíssimo mais valioso que um breve parêntese entre duas obscuridades, a do nada, de onde ele veio, e a do sepulcro, para onde seu corpo se encaminhará. Todo Ser Humano que se leva a sério postula edificar amanhãs compatíveis com a Mensagem, somente aplacando sua inquietude quando adentrar no último porto, onde se localiza a Minha Casa. Inútil é querer pontificar as modalidades de ser fiel a Mim, pois cada um vive como pode, na vida digna que lhe foi dada, a ninguém sendo dado o direito de sentir-se acima do bem e do mal. Viver a meu favor e do lado deste Jovem que sempre foi Eu é muito arriscado. Como também merece aplausos generosos viver sem menosprezar ninguém, pois atire a primeira pedra quem nunca maculou qualquer um dos balizamentos da Criação.
Cabisbaixos, os da platéia perceberam-se miúdos, envergonhados das suas pequenezas, entristecidos com suas ânsias de poder e de permanecer assalariados a qualquer preço. Aberta a palavra aos participantes, ouviu-se um uníssono: Eu pecador ...

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