segunda-feira, 27 de abril de 2009

Um reencontro pela Internet

Pela Internet, volto a ser leitor da revista Tempo e Presença – www.koinonia.org.br/tpdigital -, que esteve durante anos, quando periodicamente era impressa, sob a batuta orientadora de Jether Pereira Ramalho, meu colega no Mestrado da PUC-RJ, anos brabos 70, ambos alunos. Um aluno brilhante, a quem devo minha recristianização, presenteado que fui por ele com o livro do Leonardo Boff, Jesus Cristo Libertador. Uma leitura que me tornou mais amadurecido espiritualmente.
Pela Internet também tomo conhecimento das comemorações aniversariais de 85 anos do Jether, mais de meio século dedicado à causa ecumênica. Uma comemoração que reuniu representantes de entidades ecumênicas como Igreja e Sociedade na América Latina (ISAL), o Centro Evangélico de Informação (CEI), o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), o Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (CAALL), o Centro Ecumênico de Serviços à Educação e Pastoral Popular (CESEP), a Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE) e o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI). O culto foi realizado na Igreja Cristã de Ipanema pelos pastores Edson Fernando de Almeida (local), Manoel Bernardino Filho (congregacional), Jonas Rezende (presbiteriano), Pª Ramona Elisabeth Weisheimer e Antonio Carlos Ribeiro (luteranos), Pe. Marcelo Barros (monge beneditino), tendo como pregador o teólogo e educador Rubem Alves.
Segundo revela a Internet, o Jether é filho de pastor congregacional, tendo aprendido desde muito cedo a construir pontes, estabelecer contatos e criar relações de amizade. Uma postura que ele carrega vida afora e que marcou gerações de religiosos e leigos de diversas igrejas cristãs, do Brasil e da América Latina. Além da esposa, Lucília, de filhos e filha, netos e bisnetos, compareceram amigos de longa data, companheiros de muitas andanças.
É plenamente sabido que a atual safra de bons livros sobre Ecumenismo deve em grande parte a uma cinquentenária luta travada pelo Jether, sempre a proporcionar uma maior criticidade nos que acreditam na transcendentalidade do Ser Humano efetivamente direcionada para um construir ético. As leituras por ele indicadas conduziram inúmeros para a superação das divergências menores no mundo contemporâneo, favorecendo estruturações pela humanização das operações tecnológicas, pelas novas formas de produção, pela busca de um padrão civilizatório mais condizente com a dignidade humana e pelo revigoramento da sustentabilidade ecológica do planeta. Jether muito contribuiu na emersão de uma nova consciência cristã cósmica, apoiada na advertência do apóstolo Paulo: “Não deixem que ninguém os engane de modo algum” (2Ts 2,3)
A Oração do Ser Maduro, abaixo reproduzida, me faz recordar o Jether, posto que nela está retratado o seu jeitão mais autêntico de ser cristão.
“Pai, agora que não estou mais no tempo de alimentar tolas ilusões, aguça todos os meus sentidos, para que eu possa perceber a beleza das realidades terrestres.
Pai, agora que as mil opções foram feitas e inúmeras portas se fecharam em definitivo, dai-me o dom da aceitação para que as renúncias não sejam um fardo demasiadamente pesado para meu resto de viver.
Pai, agora que a soma dos meus inúmeros erros derrubou as ilusões de onipotência, não me retire nunca o meu ideal de continuar tentando acertar, sempre contando com a sua Graça infinita.
Pai, agora que os incontáveis desenganos e incompreensões ampliaram o meu ceticismo, conserva minha boa fé na Humanidade e a minha firme disposição de continuar bem servindo às criaturas, seus filhos muito amados.
Pai, agora que as forças do meu corpo começam a esmorecer, alerta o meu espírito, livra-me dos comodismos do cotidiano, redobrando minha vontade de permanecer lutando até os últimos instantes de minha existência.
Pai, agora que aprendi a ver a precariedade das coisas, a limitação da nossa luta e a insignificância da nossa altivez, afasta-me dos desânimos desagregadores, ampliando minha auto-estima, deixando-me cada vez mais consciente de que “nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia”.
Pai, agora que já alcancei o ponto de perspectiva que me dá uma melhor visão do pouco que sei, livra-me da defesa fácil de colocar viseiras e anteparos, e ajuda-me a envelhecer com a mente aberta dos destemidos, dos que sabem suportar as revisões comportamentais até o instante da eternização.
Pai, agora que aumenta o número de criaturas que me olham e esperam alguma coisa de mim, dá-me um pouco de sabedoria, ensina-me a pronunciar a palavra certa, inspira-me o gesto exato, norteia minha atitude, dignifica mais o meu agir com os mais jovens, mais viris, mais bonitos e bem mais dinâmicos.
Pai, agora que perdi a abençoada cegueira da juventude, só podendo continuar amando de olhos bem abertos, redobra minha compreensão sobre a solidariedade humana, ajuda-me a superar todas as mágoas, protegendo-me das amarguras do ocaso.
Finalmente, Pai, concede-me a Graça de não cair na desilusão, de não chorar os meus passados, de continuar sempre disponível, de jamais perder o ânimo de envelhecer sempre jovem, e de chegar à sua Presença ainda com inestimáveis reservas de amor”.
Parabéns, querido irmão Jether Pereira Ramalho! Que o Homão da Galiléia o cubra sempre de múltiplas bênçãos!!

Bispo Barrão

Dou de cara com João Silvino da Conceição esbaforido, espanto por todos os poros: - Faguinho, aquele ex-bispo do Paraguai, agora presidente, já tem contabilizado seis enfiaduras de sucesso, seis filhos apontados como seus, com jovens que dele devotamente se aproximaram. Para não falar nas demais embilocadas dadas sem produto final. Eita que bispo flórida da gota serena!! E ainda foi à televisão pedir desculpas pelo amontoado de comeduras acontecidas. Bispo barrão está ali, num “enfiai e multiplicai-vos” pra ninguém botar defeito !
Procuro acalmar o Silvino, dizendo pra ele que errar é humano e que todo mundo tem direito a uma segunda chance. E mostrei ao João, a opinião emitida semana passada por dom Orani Tempesta, um dos porta-vozes da CNBB: “Cada pessoa responde à fidelidade ou à infidelidade daquilo que promete. Acho que não cabe à Igreja julgar ninguém, mas a cada um de nós, vendo as coisas, dizer se está sendo fiel àquilo com que se comprometeu”.
Aí foi a vez do João, que de lesado não tem nadica, possuidor de uma deschilicosa espiritualidade, passar nas minhas ventas o texto da jornalista Bárbara Gancia, da Folha de São Paulo, onde ela “sentiu” um baita corporativismo do Dom Tempesta em defesa do ex-colega bispo esburacador. Segundo Gancia, tudo indica ter sido diferente a atitude de um outro bispo, “quando a mãe de uma menina estuprada pelo padrasto decide que a fllha deve abortar, ela corre o risco de ser excomungada”, punição que se afoita ir além da misericórdia divina, numa postura saideira hipócrita de quem deseja chamar a atenção do mundo para encobrir, como se fosse possível, as comemorações do centenário de Dom Hélder Câmara. Este, um arcebispo inesquecível, que, numa determinada ocasião, no Recife, assim se dirigiu a quem se achava tão pecador que acreditava não mais receber o perdão de Deus: “Meu amigo, não irei discutir o tamanho ou o número de seus pecados. Admito que sejam enormes, mas eu te asseguro de que a misericórdia de nosso Pai é ainda maior do que todos eles juntos. A bondade e a misericórdia divina ultrapassa tudo o que possamos imaginar”. Uma diferença gigantesca de comportamentos episcopais.
Quando vi o Lugo choramingando na TV com aquele ar de político peba, tal e qual aquele Camata, do Senado Federal, que verteu num lenço algumas lágrimas, lembrei-me de uma personalidade nordestina muito metida a cristã, que revelava a amigos o que lhe tinha acontecido na primeira noite de uma viagem de navio Recife-Portugal: “Gente, no baile de apresentação da equipe do comandante, primeira noite, conheci uma mulher belíssima. Convidei-a para dançar e ela valsava maravilhosamente. Fomos nos enlevando e terminamos a noite no camarote dela, onde transamos adoidadamente. No dia seguinte, eu soube que ela era a mulher do meu melhor amigo do Recife. E caí em prantos. Chorei tanto !!” Um dos presentes, já contaminado pela solidariedade, perguntou: - E então? Como foi o resto da viagem? E ouviram todos a resposta safadosa: - Foi chorando e transando, chorando e transando...
Se eu pudesse enviaria a seguinte mensagem aos inquisidores atuais: “Sejam menos burocrata, mais Bíblia e menos Direito Canônico. Eliminem suas babaquices e abandonem sua mania de provocar mexericos entre companheiros de trabalho, percebendo que liderança se constrói a partir da admiração dos pares, jamais por posicionamentos fiscalizadores. E principiem a pensar alto, como Ser Humano, sem complexos de sacristão babão de pequenos príncipes puritanos, sendo mais congregacionais sem perderem a ternura jamais, nunca confundindo afetividade com fricote de menino fresquelete que nunca comeu um churrasco pra não se entregar aos prazeres da carne”.
Aguardando as outras emergentes “bilocações episcopais” do presidente paraguaio, parodio Guy de Maupassant: “Em matéria de apoio evangelizador, patrocinem o que fica como semente e não aquilo que passa sem deixar rastro”. Sementes que nada têm a ver com aquelas que geram crianças. Uma lição para ser bem assimilada pelos bipos que possuem mínimo entendimento do que seja postura fraterna.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

domingo, 26 de abril de 2009

Vertentes da Mensagem do Homão

Tenho uma amiga, tornada gigante pela sagacidade neuronial transmitida, que me enviou um e-mail indagando, entre outras coisas, sobre como eu veria, nos tempos de agora, a Mensagem do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador, confrontando-a com as brabezas do profeta Isaías, no Primeiro Testamento. Indo completar 70 anos nos próximos dias, essa amiga revela a necessidade de apreender mais as orientações do Senhor Jesus, parafraseando Machado de Assis: “Estou naquela idade inquieta e duvidosa que é um fim de tarde e começa a anoitecer.” E se define da seguinte maneira: “tenho uma idade cronológica, uma idade fisiológica, uma idade mental (cabeça sempre funcionando a mil por hora), uma idade cultural, outra comportamental. ... Amo livros, sei das novidades, dos lançamentos, mas não posso ter meus livros preferidos e necessários para me dar mais bagagem cultural. O dinheiro não dá. ... Tenho que dividir meus gastos com coisas essenciais e não essenciais. Entra aí uma escala de valores que é minha, pessoal. Não abdico de um jornal (ou mais de um quando posso) e de livros.”
A cuca da Estella (nome fantasia) é pra lá de ótima. Ampliando a responsabilidade minha na elaboração de uma resposta não abobada. Respondi-lhe assim:
A mensagem do Homão pode ser escalonada em quatro grandes vertentes. A primeira se dirige favoravelmente aos pobres, aos esquecidos, aos rejeitados e aos excluídos, rejeitando os sem coração, os sem misericórdia, os sepulcros caiados, aqueles que exclusivamente enfatizam as manifestações externas, fechando os olhinhos quando se manda, levantando os bracinhos e berrando versinhos para se classificarem como de maior fidelidade.
A segunda maneira, deriva das brabezas do profeta Isaías, bastando consultar o capítulo primeiro do seu livro. O Senhor enfatiza a sinceridade interior, a do coração, posto que a fidelidade externa à tradição pode estar mascarando uma baita infidelidade interna a Deus, há muito já enojado com as assembléias e reuniões nunca férteis, que se tornam fardos inúteis, festinhas.
A exposição das maldades realizadas com nomes e sobrenomes, eis outra maneira, pedagógica, de anunciar o juízo proclamado pelo Homão. Onde os infratores sofreriam as conseqüências das atrocidades cometidas no próprio transcorrer da História.
Para os dias atuais, a quarta maneira da Mensagem se relaciona com uma nova ordem mundial indispensável. Uma ordem onde as desigualdades entre os que possuem mais e os que quase nada têm sejam reduzidas a um mínimo dignificante, onde os principais líderes “não sejam amigos de ladrões, amando o suborno e andando atrás de presentes”, tal e qual denunciado pelo profeta Isaías.
O teólogo Brian D. McLaren ressaltou recentemente para uma imensa platéia: “faça distinção entre tradições eclesiásticas e a tradição cristã, e tire a ênfase da primeira, colocando na última”. Em outras palavras: dizer que os velhos padrões estão cada vez menos eficazes já é um modo novo e muito promissor para quem deseja cidadanizar-se cristãmente, observando as árvores sem jamais deixar de sentir os ares da floresta. Tal e qual a peroração de Martin Luther King, num trecho que eu incluiria quando da formatação do Terceiro Testamento: “Pela violência pode-se matar um assassino, mas não se pode matar o assassinato. Pela violência pode-se matar um mentiroso, mas não se pode estabelecer a verdade. Pela violência pode-se matar alguém que odeia, mas não se pode matar o ódio. As trevas não podem acabar com as trevas. Somente a luz pode fazê-lo”.
Esperando ter satisfeito a indagação da amiga Estella, estou remetendo para o seu endereço O Segredo das Coisas Perdidas, um romance da tasmaniana Sheridan Hay, que retrata com maestria amizade, perda, conquista da liberdade e a descoberta de si mesmo, para trilhar com mais efetividade (e afetividade) os dias que nos restam, antes do anoitecer chegar.
(Publicado na página Religião, editada pela jornalista Carmen Peixoto, Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 26.04.2009)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Como dissolver picaretagens

Certa feita, o ex-ministro Gustavo Krause, inteligência pernambucana comprovada em prosa, verso e Galo da Madrugada, escreveu que a cultura da estabilidade econômica chama o país à razão, dissolvendo velhas e carcomidas crenças supersticiosas, bem como esmaecendo a vocação para se acreditar nos ilusionismos mágicos. Entretanto, se observarmos as coisas sob os vértices dos nossos imorais diferenciais de renda, apesar de todos os atuais paternalistas esforços governamentais, vislumbramos cenários desestruturadores, deveras preocupantes, principalmente depois de ultrapassadas as etapas dolorosas da atual crise econômica mundial, apelidada de marolinha, por um palrador que possuía “bem menas” importância antigamente.
Em duas extremidades, o dilema brasileiro. Num deles, redes televisivas esmagando pela religião a incipiente criticidade nacional, anestesiando os descuidados, alienando uma classe média ouriçada em invencionices mil, para não se falar, aqui, nas receitas para o sucesso imediato individual de qualquer um.
Na outra ponta, os comportamentos epiléptico-fundamentalistas dos que buscam os caminhos da salvação sem qualquer compostura ética prévia, não se devendo aqui excluir os que vendem tudo que é enganação, desde fiapos do pente que desassanhou os cabelos de Jesus quando da Sua primeira ida ao tabernáculo até os restos ensacados e congelados de pedacinhos da última ceia, além das correntes internéticas, que ameaçam com a bubônica quem não remeter, dia seguinte, pelo menos vinte cópias para amigos, parentes e aproximados.
Engabelando as duas pontas, e o meio também, identificamos com facilidade os Ali Babás, com seus ladrões, que garimpam fortunas sob grotescas formas exploratórias nas áreas legislativas, executivas, judiciárias e religiosas. A competitividade gerando diatribes esculhambatórias e até briguinhas de afetados pela ânsia de também começar a explorar, desrespeitando a memória dos que partiram e ainda se encontram sendo homenageados.
A pós-modernidade libertou energias, aumentando lazeres e liberdades, enormes abismos se abrindo entre os que possuem quase tudo e os que não possuem quase nada, nem sequer esperanças sadias. Ações levianas e devassas são cometidas pelos que se dizem cristãos, cada um desejando ampliar os óbulos das suas sacolinhas. A evolução tecnológica, ampliando desesperos, gerou indiferenças, já quase eliminando do cotidiano primeiromundista o vocábulo solidariedade.
Olvidamos a advertência do querido Dom Hélder Câmara: "O Cristianismo que difundimos no Continente, atribuindo tudo a Deus e quase não apelando para a iniciativa e a responsabilidade do homem chamado, pelo Criador, a dominar a natureza, a completar a Criação, a conduzir a História, alimentou nas Massas latino-americanas um sentimento passivo, fatalista e mágico".
Acredito firmemente na orientação dada por Lucas 14,28: “Quem dentre vós, quando quer construir uma torre, não começa por se assentar para calcular a despesa e avaliar se tens com que ir até o fim?”. O que talvez o apóstolo não avaliou na devida conta, os tempos eram bem outros, foi o agigantamento da cobiça na construção dessas torres, hoje também amealhadoras de milhões de dólares, advindos de idiotizados e desesperançados, que imaginam soluções mágicas para velhos e cruciantes problemas, solucionáveis todos sem panacéia alguma.
É chegada a hora da junção dos responsáveis pelos destinos do planeta. Para restabelecer diálogos, seguindo a orientação do pe. Yves Congar, um dos teólogos mais conscientes da era contemporânea: “Diz-se que a Igreja não interessa mais a ninguém, que a maioria dos homens deixou de esperar dela algo que tenha o peso do real. Isso não é exato. Uma decepção dá a medida de uma esperança, um despeito a medida de um amor. Se não se esperasse mais nada da Igreja, não se falaria tanto dela...”
Uma igreja torna-se saudável quando não se contenta em ser apenas uma crítica às outras, mas quando se torna, muito oportunamente, um julgamento severo de si mesma. E isso somente advirá com capacitação, terra e saúde, melhor distribuição de renda e ampla participação, no Brasil, dos severinos de maria.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Não às Fuleiragens, Parabéns Caruaru !

De parabéns a Prefeitura de Caruaru em dar um rotundo basta à escalada pornô que nos últimos anos vitimava os festejos juninos da capital do Agreste. E um abração entusiasmado para José Teles, pela reportagem ímpar publicada na edição dominical de ontem, 19, do Jornal do Commercio. Os dois fatos para mim dizem muitíssimo nestes tempos atuais de brasis variados, uns refinados, outros depenados, a maioria alienada, ainda sem eira nem beira.
Semanas atrás, Alceu Valença declarou, sob quase unânime concordância, que “a fuleiragem music vai destruir o Brasil lá fora”. E denunciou que o Brasil está sendo divulgado no exterior por um tipo de música canalha, que troca Chico Buarque por Ursinho blau-blau, aquela que faz saracotear a bunda para ouriçar a rima de blau. Segundo ainda Alceu, “só iam para Europa os tampas de crush, Caetano, Gil, Milton. O besta aqui foi muitas vezes. Tinha um tipo de público do cacete”. E pergunta com propriedade: “Sabe qual é o público desta música (a da fuleiragem)? Ele mesmo responde: “Quenga”. Sem pestanejar nem um pouquinho. Pura verdade.
Outro dia, quando o The Economist classificou o país do presidente Inácio da Silva de “anacrônico”, a revista estava também embasada em atitudes como as denunciadas pelo compositor Alceu Valença e pelo José Teles. Sempre atentos ao pensar equilibrado do Prof. Dr. Jair Cândido de Melo, ex-reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA: “Quando quiser avaliar uma organização, não se fixe tanto na imponência de seus prédios ou de suas máquinas, observe as pessoas, veja se há brilho em seus olhos ou sorriso em seus lábios;converse com elas e sinta se há entusiasmo em suas falas. Encontrando isso, pode ter a certeza de que a organização está bem”.
Se pudesse, recomendaria mais “pensação” e menos “esculhambação” às bandas nordestinas, que necessitam urgentemente de uma criatividade maliciosa distanciada das rabolatrias raparigais e quase explicitações de xibius, mecanismos libidinosos de nulo teor artístico, que desestimulam um turismo de lazer dos mais rentáveis, o das festividades juninas, francamente familiar até bem pouco tempo.
Interessante na zoadeira provocada pela fuleiragem pornô é o mutismo completo de algumas entidades. Observe a seguinte estrofe musical: “Ela é safada, mas gosta de apanhar / e diz que é gostoso na hora de amar / apanha pra dormir, apanha pra acordar / apanha todo dia, toda hora sem parar / eu sei o que fazer pra ela brigar / é tudo diferente, seu remédio é apanhar””. As organizações feministas deveriam estar mais atentas diante do rebaixamento explícito do sexo feminino, favorecendo o animalismo machista de uma população nordestina que ainda considera a mulher inferior ao homem, seguindo induções cretinas, passadas e atuais, de muitas religiões, inclusive a cristã.
Não sou moralista. Tampouco puritano, sob hipótese alguma. Tenho ojeriza aos faniquitosos civis, militares e religiosos. Mas confesso gigantesco constrangimento diante de mediocridades fantasiadas de chulas manifestações artísticas.
Nas festividades juninas de Caruaru, deve-se enaltecer a alegria na festa, nunca o constrangimento. Que os turistas sempre retornem com a vontade de dançar e cantar mais, sem qualquer rememoração vexatória. E que os artistas da festa assimilem a lição do educador Augusto Cury: “Ser ator ou atriz principal no teatro da vida não significa não falhar ou não chorar, mas ter habilidade para refazer caminhos, coragem para reconhecer erros, humildade para enxergar nossas limitações e força para deixar de ser aprisionado pelos pensamentos pessimistas e emoções doentias”.
No mais, é comparecer aos festejos juninos de Caruaru. Forró, arrasta-pé, milho, pamonha e sanfona para ninguém botar defeito, de deixar uma vontade arretada de quero-mais para o ano que vem.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Pneumonia sem febre

Quando o PT emergiu como uma agremiação política que possuía um ideário de decência como seu porta-bandeira mais representativo, aplaudido por todos aqueles que desejavam o Brasil ingressado numa era de dignidade civilizatória com justiça rigorosa para punir os delinquentes daslu e daspu, um gigante de pronto conquistou a admiração nacional: Plínio de Arruda Sampaio. Que recentemente, para o Instituto Humanitas Unisinos, RS, concedeu uma arguta entrevista, de onde se extrai as seguintes trechos:
“Muito se questiona o que é ser esquerda, atualmente”... “Sampaio observa a atuação das
centrais sindicais durante o governo Lula e, principalmente, durante a crise financeira mundial. O economista é pessimista em relação às consequências deste problema financeiro que tem gerado uma elevação substancial nas taxas de desemprego em todo o mundo”...“A necessidade, o sofrimento, a luta amadurecem muito, de modo que eu tenho esperança de que possam amadurecer. Mas, infelizmente, essa pneumonia sem febre que o Lula conseguiu fazer aqui, em que as coisas vão mal, mas não aparentam, quebrou a pugnacidade das organizações populares”...“As centrais sindicais estão muito fragilizadas. Elas adotaram uma tática, a meu ver, suicida. Ao invés de assumir uma posição firme hoje e mobilizar a classe para enfrentar com uma greve ou um grande movimento de massa essa dificuldade (o que pode dar certo ou errado), as centrais sindicais estão aceitando reduzir direitos já conquistados para manter o emprego por mais um tempo, uns seis meses talvez. O que dá no mesmo, pois daqui a seis meses estarão todos desempregado, o que ocorreria da mesma forma caso uma greve desse errado. Entre uma tática e outra, por que não seguir a primeira, que, pelo menos, tem uma chance de dar certo, de força o governo, de pressionar a sociedade para encontrar uma solução? Este sacrifício precisa ser socializado por todos, não só pela classe operária” ... “Quando se fica desempregado, em pouco tempo não tem o que comer. Então, era o mínimo de solidariedade social que as empresas reduzissem fortemente os seus lucros por um tempo e operar com pouco mais de zero. Mas elas não estão querendo fazer isso” ... O desemprego irá aumentar ainda mais e a situação irá ficar ainda pior. Por isso, era preciso que viesse uma legislação para que essa situação não fique na mão da vontade de algumas pessoas”... “Eu penso que deveria ser feito um programa único comum de todas as forças de esquerda: movimentos sociais, sindicatos, partidos, intelectuais etc., exigindo um programa mínimo em defesa da economia popular. Esse programa suporia uma série de estatizações, limites, modificações na nossa política externa e na nossa política econômica” ...”Eu acho que o Lula está “mais perdido do que cego em tiroteio”. Está perdido como todos estão perdidos. O Obama está perdido, o Sarkozy está perdido, ninguém tem muita ideia do tamanho dessa crise e da forma como ela vem. Sabe-se que é uma bruta crise e que não vai passar loguinho” ... “A necessidade, o sofrimento e a luta amadurecem muito, de modo que eu tenho esperança de que possam amadurecer. Mas, infelizmente, essa pneumonia sem febre que o Lula conseguiu fazer aqui, em que as coisas vão mal, mas não aparentam, quebrou a pugnacidade das organizações populares. Elas estão todas com programas recuados e propostas defensivas, de modo que ainda não sabemos se vai amadurecer com a crise” ... “Eu não acredito que essa será a última crise que o capitalismo irá viver. Mas essa crise, com certeza, fará uma ferida muito grande no capitalismo. Essa crise poderia ser solucionada se houvesse uma revolução social e política aqui, porque fecharíamos o país e, com os recursos que temos, poderíamos organizar uma economia bastante razoável para prover o básico para toda a população do país. Mas isso representaria uma mudança muito grande para as classes que hoje têm uma vida muito confortável e consomem desbragadamente. Porém, eu não vejo muitas condições para essa revolução; não vejo isso na consciência do povo. Agora, crise é crise. Sabemos como ela começa, mas não como pode se desenvolver e muito menos como vai terminar. Exemplos disso: começamos uma guerra na Europa em 1914 e resultou no socialismo. Começamos uma ‘crisezinha’ nos Estados Unidos e resultou numa outra guerra. Nunca sabemos onde uma crise vai dar, mas, pela ordem das coisas, o capitalismo não terminará agora” ... “Com a crise o Brasil vai perder o que tem de soberania. A menos que o povo venha para rua, coloque alguém como Chávez no poder e mude tudo isso. Salvo esta hipótese, a soberaniazinha que se tem será perdida. Mas eu não vejo ninguém aqui no Brasil com cara de Chávez. O panorama atual não é fácil, não é de curto prazo e se as esquerdas quiserem ter uma influência precisam organizar uma volta a longo prazo. O que elas podem fazer a curto prazo é se tornarem uma referência da luta popular pela sua intransigência na defesa dos interesses do povo”.
As opiniões acima, ditadas por um intelectual possuidor de uma imensa responsabilidade social, merecem ser lidas, refletidas, debatidas à exaustão. Para que possamos favorecer a sobrevivênvia de nossos filhos e netos, reequilibrar ecologicamente o planeta, edificar uma educação cidadã para todos e possibilitar amanhãs mais saudáveis para povos e nações, numa convivialidade duradouramente pacífica, para que todos tenham vida e vida em abundância, segundo promessa do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Pensar de Jon Sobrino

Há dois anos, o Vaticano, com suas lupas inquisitoriais que buscam pelos em casca de ovo, menos os padres pedófilos que vitimam milhares de crianças e adolescentes, condenou a obra de Jon Sobrinho, um dos mais importantes teólogos da libertação. A cúpula romana, tal e qual os mutilados visuais da Caverna de Platão, voltou-se ferozmente para as reflexões do teólogo jesuíta, de 68 anos, residente desde 1958 em El Salvador, onde foi um dos pilares fundadores da Universidade Centro-Americano. A notificação enviada ao pe. Sobrino foi aprovada e assinada pelo cardeal William Levada, o novo prefeito da Insana Inquisição, que substituiu o hoje pontífice Joseph Ratzinger, cognominado Bento XVI por escolha própria, ardoroso defensor do não uso de camisinhas na África, o continente mundialmente mais afetado pela AIDS.
As páginas de Jon Sobrino cascavilhadas pelos mexeriqueiros vaticanos foram Jesus Cristo Libertador – Leitura histórica-teológica de Jesus de Nazaré e A fé em Jesus Cristo. Talvez acossado por ciumeiras episcopais causadas pela ampliação do apoio provocado pelos textos do pe. Sobrino, a confissão vaticana advém do próprio documento condenatório: “a Santa Sé explica que decidiu aplicar o ‘procedimento urgente’ ao caso do teólogo ‘pela grande difusão, sobretudo na América Latina, que as obras do padre Jon Sobrino atingiram’".
O também teólogo Eduardo Hoonaert, pronunciou-se na ocasião da punição: “Mais um capítulo numa dolorosa história que já vai longe: a ‘penitência perpétua’ imposta a Jon Sobrino. No dia 15 de março, a Congregação Vaticana para a Defesa da Fé procede à promulgação de uma ‘penitência’ infligida ao padre jesuíta Jon Sobrino, nascido em 1938 em Bilbao, Espanha, e residente desde 1958 em El Salvador, onde foi teólogo de Dom Oscar Romero. A penitência consistirá no ‘silêncio mais absoluto’ do teólogo, não naquele ‘silêncio de um ano imposto a Leonardo Boff, mas num silêncio perpétuo, no apagar ‘per saecula saeculorum’ de uma voz que incomoda. Qual a razão de tão severo procedimento? Onde foi que Sobrino pisou feio? O texto do Vaticano explicita: ‘O teólogo não afirma abertamente a consciência divina de Jesus histórico’, ‘ele oculta a divindade de Jesus’”.
Mas o caminho se faz andando e quem se imaginava eterno dono da verdade dançou na chapa quente. A editora Paulinas, no ano paulino, lançou uma coleção intitulada Dialogando com ... . O primeiro volume foi dedicado a Juan Luis Segundo, o segundo analisou os textos de Jacques Dupuis e o terceiro, agorinha editado, analisa o pensar de Jon Sobrino, um dos principais assessores de Don Oscar Romero, o mártir latinoamericano assassinado quando celebrava a Santa Missa. Assassinato que até hoje não sofreu um pé de protesto da Santa Sé, mais preocupada em condenar a camisinha em plena África contaminada e em esconder seus pedófilos e degenerados das autoridades judiciárias.
Para quem deseja compreender mais exaustivamente o pensar de Jon Sobrinho, o trabalho organizado pelo teólogo Afonso Maria Ligório Soares, atualmente presidente da SOTER – Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, também sendo vice-presidente da INSeCT – International Network of Societies fof Catholic Theologies é de muito boa valia.
O pensar de Jon Sobrino está dividido sob cinco vertentes: Seguimento, Encarnação, Divindade, Martírio e Pobres. A primeira vertente enfoca o seguimento como categoria cristológica. A segunda analisa a teologia da encarnação na cristologia. A terceira interpreta o divino a partir das vítimas. A quarta enfoca o martírio como expressão máxima de misericórdia. E a última foca os pobres como critério de idetidade cristã.
Ao final do Dialogando com Jon Sobrino há uma bibliografia sobre os principais textos de Jon Sobrino, incluisive os editados em língua portuguesa.
A leitura esclarecedora do texto do teólogo Afonso Maria Ligório Soares não excomunga quem quer que o leia. Facilita apenas o classificar dos tridentinos.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 15.09.2009)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Trambicagens Amazônicas

A manchete do jornal Brasil de Fato merece atenção redobrada das autoridades policiais brasileiras: INCRA e MDA entregaram 67 milhões de hectares de terra na Amazônia Legal. E diz mais: “funcionários do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) teriam ‘vendido’ mais de 67 milhões de hectares em terras públicas para grileiros na Amazônia Legal”. A denúncia é da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra). De acordo com a entidade, a operação começou nas superintendências regionais do Incra, mas seu desfecho foi em Brasília, com a edição da Medida Provisória nº 458/2009, assinada pelo presidente Lula no dia 11 de fevereiro.
O protesto foi feito pela Associação Brasileira de Reforma Agrária, em debate realizado na Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). Segundo Ariovaldo Umbelino, professor de Geografia da USP e responsável pela apresentação do projeto no debate, não há qualquer dúvida sobre a intenção da Medida Provisória: regularizar o grilo na Amazônia Legal, através de ações fortuitas estabelecidas pelo que ele denominou de “banda podre” do INCRA.
Segundo o professor Plínio Arruda Sampaio, presidente da ABRA - Asssociação Brasileira de Reforma Agrária, ele acredita que a medida servirá para lavar títulos de propriedade, os quais poderão futuramente ser adquiridos pelo agronegócio. Segundo a legislação, as propriedades poderão ser vendidas dez anos depois da sua legalização. Os senadores Eduardo Suplicy e Marina Silva criticaram a regularização ter sido feito através de Medida Provisória. Segundo eles, “deveria ser um projeto de lei, dada a complexidade”, lembrando eles que o território atingido é superior ao da França.
A MP divulgada pelo Planalto é prova inconteste da opção feita pelo governo federal pelo agronegócio, em deterimento da reforma agrária a da agricultura familiar. Segundo Ariovaldo Umbelino, professor da USP, “a escolha do governo pode ser observada, por um lado, na evolução dos números de assentamentos de reforma agrária. Segundo ele, 2003, o governo federal se comprometeu a dar terras para 400 mil famílias até o fim do mandado. A insatisfação foi num crescente, até que, em 2006, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) emitiu documento criticando os números que estariam sendo “inflados” pelo governo federal. O próprio Ariovaldo, no site do órgão, copiou uma lista de famílias que tinham sido assentadas por GetúlioVargas, em 1942. Com a grita, a lista foi retirada do ar, voltando posteriormente sem mais explicitar a data do assentamento.
A bandidagem dos madereiros agride a paciência da fiscalização. Agora mesmo, eles desenvolveram um novo modo de driblar a fiscalização, promovendo o desmatamento durante a época chuvosa, quando o satélite torna-se incapaz de detectar a derrubada.
Como seria proveitoso, se todos lessem um trecho de uma das últimas cartas dirigidas às comunidades pelo oitentão Dom Pedro Casaldáliga, transcrita pelo monge beneditino Marcelo Barros, uma das minhas admirações cristãs: “Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, deinclusões absorventes, deorgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro”.
A hora é a da denúncia: a hipermodernidade libertou energias escondidas, aumentando lazeres e liberdades, enormes abismos se abrindo entre os que possuem quase tudo e os que não possuem quase nada, nem sequer esperança sadia. Ações levianas e devassas são cometidas pelos que se dizem cristãos, cada um desejando puxar os óbulos para suas sacolinhas, às escondidas, como se Deus estivesse morto, mortinho da silva. A evolução tecnológica, fantasticamente global, ampliou desesperos, gerou indiferenças, quase já eliminando do cotidiano planetário o vocábulo solidariedade. Para desespero de todos nós.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Peripécias de um abade

Ainda nos bons sebos europeus pode-se encontrar uma monumental obra intitulada História da Igreja, de autoria do abade François-Timoléon de Choisy (1644-1724), que foi decano da Academia Francesa, à qual integrou por longos 38 anos. São onze volumes de múltiplos detalhes históricos, elucidativos por excelência para quem deseja esmiuçar os ontens da institutição mais poderosa de toda a história da Humanidade.
Com o Abade de Choisy, sua trajetória existencial foi repleta de altos e baixos, salpicos e suspiros, solidões e muito boas companhias, além de duas outras facetas inesquecíveis: a de vestir-se de mulher para abrir porteiras de ovelhas desatentas ou desejosas e uma impulsão irrefreável para os jogos de azar, nos quais perdeu toda a herança dos seus antepassados.
Sentindo chegada sua fase mística, o Abade Choisy efetivou uma viagem de sete meses em direção da Tailândia, onde integrou uma missão diplomática enviada pelo rei Luís XIV, que à época nadava em ouro, prata e riquezas mil. O Abade ainda aprendeu falar português com bastante fluência para os padrões da época, posto que era a língua mais falada no Oriente.
A editora Rocco, mês passado, através de uma tradução cinco estrelas de Leonardo Fróes, tradutor premiado pela Biblioteca Nacional e pela Academia Brasileira de Letras, também laureado com o prêmio Jabuti (Poesia, 1966), traz ao público brasileiro as peripécias do Abade de Choisy vestido de mulher e com identidade feminina, por ele contadas, um estrategista dezoito quilates em promover suas aproximações fantasiadas de mulher com mocinhas ingênuas, objetivando relações carnais mais estreitas, num primoroso billau approach, utilizando aqui a terminologia marqueteira do momento.
O título do livro é por demais convidativo: Memórias do Abade de Choisy vestido de mulher. Com um posfácio do laureado Leonardo Fróes, onde se especula que o Abade do pirulito pra lá de ativo tenha perpetrado suas confidências por volta de 1720, aos 76 anos, quando também escrevia os dois últimos volumes de sua História da Igreja. Com sagacidade, o Abade dava uma no cravo e outra na ferradura, está última já não tão férrea quanto em épocas mais viris.
O Abade de Choisy, personagem da História da França que se valia da tática do pinto adormecido, nasceu em Paris em agosto de 1644, seus pais sendo funcionários da família real. Em setembro de 1640 viera ao mundo Felipe d’Orleans, seu amigo de infância, o irmão de Luís XIV, também submetido a um processo de feminização deliberada, para que se tornassem “amiguinhas íntimas”, jamais sentindo atração pelo poder real, este destinado para os que sabiam pelejar sob paus e pedras.
Com apenas 19 anos, o biografado é nomeado abade de Saint-Seine, um velho mosteiro beneditino situado nas cercanias de Lyon, muito embora desde um ano antes recebia pensão de seis mil libras do arcebispado de Auch, na condição de clérigo da diocese de Paris. Três anos depois, Timoléon conclui o curso de teologia da Sorbonne e dá uma escapadinha até Bordeaux para participar de uma peça teatral, onde fazia o papel de uma donzela, onde, dizem, aconteceu sua pós-graduação lúbrica.
Com nome de madame des Barres adquire, em 1670, o castelo de Crespon, na periferia de Bourges, acontecendo ali, entre junho e julho, os seus torneios de esfrega-esfrega com a mademoiselle de La Grise, uma das mais famosas campeãs de entre-e-sai da região. Volta a se vestir de mulher no faubourg (subúrbio) de Sain-Marceau, assumindo-se como madame de Sancy, sendo nomeado, em 1675, prior da freguesia de Saint-Lô, em Rouen.
Em 1676, o Abade conhece pessoalmente Inocêncio XI, um papa que o povo muito amava porque trabalhava pelos pobres, eliminou o deficit do Vaticano e extirpou o nepotismo, sempre preocupado com a pureza da fé e a moral na Igreja. E em 1687 é eleito para a Academia Francesa de Letras, morrendo em Paris,em 1724, como decano da Academia Francesa.
No livro, confissões enigmáticas: “o jogo, que sempre me perseguiu, curou-me dessa frivolidade por vários anos; mas todas as vezes que me arruinei e quis deixar o jogo, recaí nas minhas velhas fraquezas e voltei a ser mulher”. Diziam, por aquelas bandas, que o jogo preferido do Abade era buraco...
Vale a pena ler o livro do Abade de Choisy para compreender mais densamente porque Dom Hélder Câmara sempre proclamava que a Igreja era santa e pecadora. Com seus padres abnegados, abades meninas e arcebispos psicopatas.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

Para entender excomungadores aloprados

Gosto muito de ler textos religiosos não-hipócritas, que possuem as duas mãos e os sentimentos do mundo, como proclamava o poeta. Nos últimos tempos, uns ansiosos por desejarem sair do picadeiro fazendo um tremendo auê condenatório, para atrair os holofotes midiáticos dos que anseiam por dois mil réis de escândalos, andaram excomungando um monte de gente, inclusive um confeiteiro de Caruaru que estava vendendo uns confeitos a parentes de uma criança de nove anos, que já tinha sido “delicadamente” escorraçada de um hospital de referência nacional, tamanha a frouxidão esfinctorial causada nos escalões executivos do nosocômio.
Outro dia, um religioso pouco pastor arregalou os olhos quando viu dependuradas na parede acima do meu computador duas citações sob uma mesma titulação: Excrescência & Sabedoria. Na parte primeira, exemplo de fetidez mental, uma declaração do Comitê do Santo Ofício, datado de 19 de fevereiro de 1616. Dizia o seguinte: “Que o Sol é o centro do mundo e está completamente isento de qualquer movimento é tolo e absurdo em filosofia, além de formalmente herético, na medida em que contradiz expressamente a doutrina da Escritura Sagrada em diversas passagens, tanto em seu sigificado literal quanto com a interpretação dos padres e dos doutores”. Dezesseis anos depois de ter a famigerada Santa Inquisição, cujos sobrinhos bem atentos ainda perambulam pelos nossos derredores, ter martirizado na fogueira Giordano Bruno, que se tinha ordenado padre, pela sua insistência em defender o modelo heliocêntrico copernicano.
Na parte inferior, contraponto magistral para meus estudos e reflexões diárias, profissionais e pessoais, uma estupendamente corajosa afirmação de Galileu Galilei: “Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sensibilidade, razão e intelecto pretendia que limitássemos seu uso”.
Como estou radicalmente convencido que Deus escreve bem certinho por linhas tortuosas, eis que a editora Record acaba de oferecer ao leitor brasileiro, a biografia de Galileu Galilei, trazendo vigorosa chamada do The Guardian: “Uma alerta excepcionalmente oportuno sobre os horrores da teocracia – tanto na repressão contra a individualidade como na inevitável estagnação da ciência”.
O livro Galileu Anticristo – Uma Biografia, é produção intelectual de escritor bem sucedido, Michael White, autor de biografias de outros cientistas famosos, inclusive a de Leonardo da Vinci, o Primeiro Cientista, e a de Issac Newton, o Último Feiticeiro. E também, embora ainda não em língua portuguesa, a biografia do genial Stephen Hawkings, considerado o mais legítimo sucessor de Albert Einstein.
Uma leitura atenta da biografia de Galileu, de Michael White, ratifica sobremaneira as críticas formuladas pelo teólogo Hans Küng, quando ele denuncia as mácaras da Igreja, a cultura de fingimento, os sepulcros caiados, as pieguices tão açoitadas pelo Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador, que nunca desejou fundar novas denominações religiosas. Küng é deveras contundente: “uma igreja veraz não fornece ao homem receitas baratas para a vida particular e, muito menos, para a política mundial em suas diversas modalidades”.
Nunca me arrependo de repetir vez por outra uma reflexão famosa de Dom Hèlder Câmara, sempre amado arcebispo emérito de Olinda e Recife: “O fenômeno do presente é que a juventude, com as várias Religiões, retém freqüentemente a impressão que existe medo, egoísmo, prudência excessiva da parte daqueles que carregam os títulos de líderes religiosos – já sem liderar”.
Impressionam as bobajadas que ainda se espalham mundo afora. Um exemplo: quando ainda cardeal, o atual papa Bento XVI escreveu: “À época de Galileu, a Igreja manteve-se muito mais fiel à razão do que o próprio Galileu. O processo contra ele foi razoável e justo”.
Razão tem o autor da biografia: “Devido a tais crenças, é improvável que Galileu seja “perdoado” em algum momento pela Igreja, e os sórdidos detalhes do caso podem nunca ser revelados ao público”. E mais ainda o Dr. Peter Moore, parecendo ter morado nos últimos anos na Arquidiocese de Olinda e Recife: “Ser um pensador livre é perigoso em qualquer época. Torna-se mais problemático quando suas novas idéias desafiam doutrinas estabelecidas, combinado com falta de diplomacia”.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Analfabeto de Nível Superior

O fato aconteceu com um filho do João Silvino da Conceição, vestibulando de uma “falcudade” sediada no Grande Recife. Terminada a seleção, feita em manhã de dia único, recebeu, na saída, o boleto de pagamento das primeiras mensalidades. Surpreso, obteve a seguinte explicação: - Não se preocupe com o resultado, você e os demais não serão reprovados. Envergonhado com a bandalheira, rasgou o boleto na frente do entregador, faltando pouco para uma denúncia no Ministério Público.
O ocorrido reveste-se de uma gravidade ímpar. Revela a alibabalidade do ensino superior brasileiro, dele já tendo emergido a classificação “analfabeto de nível superior”, retrato do ser humano que é aprovado em vestibular por arte e graça de todas as “maracutaias mercadológicas”, pouco se lixando para as sequelas apontadas por um reitor de respeito: “a existência de mais vagas que candidatos para o vestibular, as facilitações do próprio processo seletivo e o precário ensino básico estão levando para o ensino superior praticamente todos os que o procuram, inclusive aqueles analfabetos funcionais. Eles foram flagrados no ensino fundamental, de lá chegam fácil ao ensino médio, que os remete com ligeiros retoques ao ensino superior. É claro que a grande maioria acaba se formando. São incapazes de entender um texto, menos ainda de fazer uma redação coerente. É fato que grande parte acaba se formando e, claro também, que o diploma, na maioria das vezes, servirá apenas para um quadro na parede”.
Tem meu entusiasmo a percepção estratégica da Secretária de Educação Superior do MEC, Maria Paula Dallari Bucci, docente da Fundação Getúlio Vargas, uma das instituições brasileiras respeitadas, de caminhada histórica aplaudida há décadas. Segundo ela, é necessário cobrar efetivamente das universidades a exigência de ter, pelo menos, um terço do seu corpo docente em regime de tempo integral. Uma legislação que já deveria estar sendo cumprida há quatro anos, atualmente sendo observada por apenas 43% das universidades privadas.
Segundo ela, “há cursos privados de excelência e há cursos públicos com problemas. Em Medicina, 4 dos 17 cursos com avaliação insatisfatória são públicos”. Apesar de a avaliação do MEC apontar que 96% das instituições com baixas notas são particulares.
A ínfima qualidade dos alunos está diretamente vinculada a uma frágil qualificação dos professores. Há até um ditado que diz que “quem sabe, faz, quem não sabe ensina numa instituição privada de ensino superior, e quem não sabe, nem faz e nem sabe ensinar vira consultor educacional dela”, com direito a arrotos de grandeza e textos ininteligíveis, laptop e olhares de soslaio, entre outras quinquilharias made in Paraguai, integrando um “embromation merchandising”.
Percebe-se hoje, sem qualquer esforço, que a sociedade civil brasileira cambaleia entre uma expressividade comodista e uma politização impotente, necessitando revigorar-se para novas edificações estruturais. A chicotada do crítico de artes Robert Hughes, do Times, é oportuna: "A velha divisão de direita e esquerda acabou se assemelhando mais a duas seitas puritanas, uma lamentosamente conservadora, a outra posando de revolucionária mas usando a lamentação acadêmica como maneira de fugir ao comprometimento no mundo real ".
A crise financeira atual, que alguns gabolas apelidaram de marolinha, favorecerá iniciativas sementeiras, dando razão a Bertrand Russell, um Prêmio Nobel que disse, em 1950, quando da sua premiação: “o que mais precisamos para tornar o mundo feliz é de inteligência”. Para eleger outros Obamas mundo a fora, favorecendo sistemas educacionais que alertem sobre um não-pensar que está viciando muitos a nunca tomar decisões. Ampliando a “obscuridade da mente”, como denunciava a sempre lembrada Hannah Arendt. Que ainda lembrava: “só tenho consciência na medida em que exercito minha capacidade de pensar”.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Presente de Páscoa

Gostaria de poder adquirir inúmeros exemplares do último livro do Rubem Alves - O Sapo Que Queria Ser Príncipe, Editora Planeta do Brasil, 2009 – e com eles presentearia um bocado de gente, amigos, padres, pastores, bispos e arcebispos de todas as denominações. Para que os agraciados saíssem das suas bobajadas travestidas de verdades absolutas, as que afastam as mentes dotadas de criticidade não-ovelhosa, cabrítica, dessas que não confundem salvação com igreja.
O Rubem Alves, que um dia foi pastor, pelos irmãos dedurado como subversivo na ditadura militar, exilando-se no exterior para agigantar-se num ver-melhor-as-coisas. Para tornar-se, hoje, aplaudido pedagogo, filósofo, cronista do cotidiano, contador de histórias, ensaísta, teólogo, psicanalista e oitentão incrivelmente desfrescurizado.
No seu delicioso escrito, Rubem Alves oferece reflexões e análises dezoito quilates, além de proporcionar alguns “causos” que primam por retratar uma religiosidade brasileira que está se esfarelando diante de uma evangelização alienada, que teima em querer ressaltar a fala da besta de Balaão e o diário de bordo escrito por Jonas no interior iluminado da Baleia, menosprezando as inteligências dos que jamais acreditaram em Papai-Noel e Perna-Cabeluda, talentos 21.
Duas historinhas para despertar curiosidade dos admiradores de Rubem Alves. A primeira aconteceu por ocasião de um visita feita por pastores brasileiros a Karl Barth, um dos mais famosos teólogos do século passado, eternizado em 1968. Pastor da Igreja Reformada, utilizou a analogia da fé como a única forma viável de se falar de Deus. Após as apresentações de praxe, para os visitantes abriu caixa de charutos de altíssimo nível, ouvindo de um dos recém chegados uma justificativa pra lá de idiota, quase em tom de reprovação – Nós, protestantes do Brasil, não fumamos . Barth sorriu ternamente, servindo-se de um dos charutos da caixa. Depois de uma boa baforada comentou: “Não importa ... O céu é tão grande que até pessoas que não fumam entram nele...
A segunda história aconteceu numa escola bíblica. A catequista, filha de um dizimista de peso, dissertava sobre o dilúvio, aquele aguaceiro gota serena que tinha cobertro toda a terra, salvando-se apenas Noé e seus familiares, juntamente com leões, coelhos, cabritos, jacarés, lebres, tigres, rinocerontes, bois e búfalos, girafas, hienas, elefantes, antas, capivaras e quem mais coube na arca, uma lapa de construção de fazer inveja ao Titanic. Foi quando se ouviu a voz de uma menininha antenada: - “Os leões, tigres e onças não comeram os cabritinhos e os coelhinhos?”. Meio zonza, a catequista justificou: - “Deus suspendeu provisoriamente a ferocidade dos felinos que, durante, 120 dias em que a arca flutuou sobre as águas, só comiam capim ao lado dos bois”. A curiosidade da danadinha foi demolidora: -“Se Deus suspendeu a ferocidade dos felinos provisoriamente, custava a ele tê-la suspendido definitivamente? Os carneirinhos e os coelhinhos ficariam tão contentes...”.
As reflexões do Rubem Alves desalienam: “Os teólogos diplomados são os piores, porque pensam que poesia é rima que se recita pra enfeitar sermão” ...”Pequei muito por não ter pecado, e ainda hoje peço perdão a Deus pelos pecados que não cometi” ... “Dietrich Bonhöeffer observou que o cristianismo não tem mensagem para as pessoas saudáveis, fortes e felizes” ... “Há inteligências de QI 200 que iluminam esgotos e cemitérios”.
Em seu texto, Rubem Alves ainda fala dos evangelizadores sapos que sonhavam em ser príncipes. E cita até um que possuía um “sonho”: “o de ter uma besta bem arreada para ir de sítio em sítio visitando os crentes e fazendo oração”. Tal e qual aquele missionário que adquiriu um terreno 50 x 100 no meio de mato fechado, interior brabão, para aguardar a chegada por lá da sua denominação. Verdade ou embromação?
Viva Rubem Alves, um teólogo cutucador por excelência!
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 01.04.2009)