quarta-feira, 30 de julho de 2008

Binoculizando Amanhãs

Abraço o João Silvino da Conceição no casamento do Diogo com a Carolina, ele filho querido de Guida e Romualdo e profissional muito estimado no BNDES, concursado de primeira chamada, agora morando na antiga capital federal.
O João Silvino estava acompanhado da sua gata, uma bonitona bem recheada, sorrisão a comprovar uma amorosa convivência deles com a Criação. Serelepe como nunca, ele trazia para me presentear um livro que eu já havia lido emprestado meses atrás. Segundo ele, “uma leitura de arrebentar a rebimboca da parafuseta, tamanha a excitação que ela provoca, intelectual é claro, para evitar admoestações destemperadas dos sósias de Deus”.
A análise prospectiva feita pelo economista argelino Jacques Attali, ex-presidente do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento – Uma Breve História do Futuro, editora Novo Século, 2008 – traz um prefácio à edição brasileira de Gesner Oliveira, presidente da Sabesp – Companhia de Saneamento Básico de São Paulo. Que enumera as sete potencialidades brasileiras e os desafios para se alcançar um patamar civilizatório compatível com as demais nações desenvolvidas. São elas: a consolidação do regime democrático; uma maior mobilidade da sociedade civil; um razoável grau de empreendedorismo; uma notável homogeneidade cultural; a dotação de recursos energéticos; regras mais estáveis para investimento; e um processo de migrações internas, tornando-se o país, hoje, uma sociedade urbana, com apenas 16% da população no campo.
O Silvino acrescentou mais algumas: um Judiciário mais célere, uma cidadania eleitoral mais atuante em tempo contínuo, um respeito mais acentuado para com o meio-ambiente e uma política agrária que promova a dignidade existencial das filhas e dos filhos da Criação.
Uma classificação planetária medíocre alcançaremos, segundo Oliveira, se não atentarmos para alguns “pecadões” que nos cercam: uma indecente taxa de juros, a ineficiência gritante dos serviços públicos, principalmente educação, saúde e segurança; a não implementação de uma política de investimentos públicos de longo prazo; a não efetivação de uma salto educacional de qualidade nos níveis de ensino, principalmente em educação básica; uma tartarugal desburocratização, incompatível com as redes de comunicação; uma frágil agressividade mercadológica no exterior; e uma tímida e assistencialista redistribuição de renda.
A alegria de se ver uma Petrobrás como a sexta maior empresa do planeta, seu valor de mercado sendo maior que o PIB argentino, não pode ser completa diante de uma corrupção sem freios, trabalho escravo no campo, dengue, malária, níveis tenebrosos do ensino de ciências e matemática, devastação ambiental, hanseníase, caos aéreo, desnutrição infantil, nepotismo, prostituição infantil e varig-logro.
A sociedade brasileira necessita melhor perceber os desafios que se postam em seus próximos amanhãs: a produção do planeta ultrapassa 40 trilhões de euros, crescendo a uma taxa de 4% ao ano, velocidade jamais atingida; o ensino superior chinês formando 800 mil engenheiros em 2006; a União Européia, em recente documento, afirmando que “os mercados financeiros não podem governar os Estados”. E ainda: “que o problema está no modelo atual de governo econômico e das empresas, baseado numa débil regulamentação, com um controle inadequado e uma oferta demasiado débil de bens públicos”.
Uma binoculização dos amanhãs nacionais favorecerá a solidificação da nossa soberania nacional, sem os “estreitismos ideológicos” que sectarizam, tampouco os “populismos assistencialistas” que “anestesiam” setores que permanecem na faixa de exclusão social. Percebendo os contrastes, defenestrando a corrução, punindo os responsáveis, independentemente de classe social, e alijando do poder político decisório os que se lambusam com as maracutaias e pirotecnias financeiras.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife-PE, 30.07.2008)

domingo, 27 de julho de 2008

Mitos da Criação

Numa época de carências, onde se vendem muito bem embrulhadas ilusões de sucesso, a denúncia do psicólogo Esdras Guerreiro, ex-docente-visitante do prestigiado Instituto Max-Planck, da Alemanha, se encaixa como uma luva: "As pessoas querem respostas imediatas para as suas aflições. É por isso que as seitas estão crescendo enquanto as religiões tradicionais estão perdendo fiéis. O fenômeno de crer num líder capaz de nos ensinar a remover os obstáculos para os nossos objetivos pessoais não é novo , mas se reforça nos momentos de crise".
A sociedade moderna está sendo lamentavelmente edificada sob o império do egoísmo, muito embora a sabedoria popular ensina que “quanto mais se verga o arco, mais longe voará a flecha, quebrando-se o arco se a curvatura for excessiva”. As promessas de vida fácil, com muito dinheiro estão multiplicando os otários compulsivos, a compulsão sendo bem mais poderosa que o apenas racional. E se se é honestamente advertido, o otário sente-se ressentido, como se o mundo inteirinho estivesse tentando destruir seu projeto de enriquecimento ultra-rápido.
Por via de conseqüência, um individualismo perverso está asfixiando uma sadia individualidade cósmica. Assusta, hoje, demonstrar solidariedade, manifestar sensações fraternais, condoer-se com os menos favorecidos, ser ombro amigo, melhor se sendo solidário à distância, sensibilizando-se com as crianças africanas, horrorizando-se com os massacrados da Bósnia, evitando-se sequer falar nas atrocidades cometidas, no Brasil, pelos considerados bandidos, de todos os naipes criminosos públicos e privados.
Tenho uma profunda admiração pelos que possuem aquilo que Blaise Pascal, notável matemático, definia como esprit de finesse. E que é diretamente proporcional ao asco sentido pelos que se imaginam muito acima das divindades, sócios de Deus, igualzinho aquele ajumentado metido a cristão recuperado que entrava nas igrejas de óculos escuros para Deus não lhe pedir autógrafo nem ficar com lero-leros bajulatórios com ele.
Uma leitura que amadurecerá a sadia espiritualidade de jovens e adultos, mostrando a imensa transcendentalidade contida nos interiores de cada ser humano, se encontra num livro que o João Silvino da Conceição está devorando há dias, sem nem estar mais saindo para tomar uns “refrigerantes” geladíssimos com os amigos. Trata-se de Mitos da Criação, de Philip Freund, Cultrix, 2008. Que mostra de um modo exemplarmente fascinante, as origens do universo nas religiões, na mitologia, na psicologia e na ciência.
Só um exemplo do livro, como petisco: “os iurucarés, da Bolívia, dizem que Aimasunhe, o demônio, era responsável pela queda do fogo do céu. Tudo embaixo morreu; plantas, seres vivos, a raça humana. Só um homem, que tinha previsto o que podia acontecer, providenciara comida e abrigo numa caverna. Quando a chuva do fogo começou, ele se escondeu lá. De vez em quando, para saber se o fogo ainda campeava, estendia uma vara comprida pela boca da caverna. Em duas ocasiões ela voltou queimada, mas da terceira vez estava fria”. Alguém já viu coisa parecida nas Escrituras Sagradas, Antigo Testamento, acontecida com um tal de Noé? O que tinha um barco entupido de bichos?
O florentino Nicolau Maquiavel, autor de O Príncipe, permanente fonte de consulta para cristãos politizados de todos os engajamentos sociais, dividiu os cérebros em três categorias: a dos que pensam por si mesmo, a dos que discernem a partir do entendimento dos outros e a dos que não entendem nem a partir de si nem a partir dos outros. Na categoria última certamente estão inseridos os que perderam sua contemporaneidade crítica, não enxergando o abismo implantado pelos que imaginam que os fins valem todos os meios.
Na primeira das categorias de Maquiavel, sem qualquer dúvida, se posiciona a figura gigante do mestre PhD em Física Harbans Lal Arora, serenamente a entender que “para se melhorar a situação presente, o melhor caminho é estar bem consciente de sua enorme dificuldade”. Possuindo a alegria de servir, despindo-se das pedanterias dos que costumam se auto-idolatrar por absoluta ausência de discípulos, sem assimila a lição de Spinoza, em sua Ética: “A alegria é a passagem de um homem de uma perfeição menor a uma perfeição maior”.
O livro que o João Silvino da Conceição está lendo delicia os que se imaginam de bem com a vida, sorriso sempre atento diante das convilialidades prazerosas. Dessas que promovem a convergência das interrogações atinentes às origens do Universo e às razões pelas quais “um polinésio teria uma lenda que é quase exatamente igual à contada por um nômade nórdico”. O texto enseja uma compreensão mais nítida sobre “as obstinações das igrejas, majoritamente indispostas a reverem seu discurso dogmático” e as “fortes tendências anticlericais”, cujos respectivos sectarismos obstaculizam a mais cristalina das constatações: ciência e fé são duas faces de uma mesma moeda, simetricamente opostas, a revelarem a Criação, cada uma a seu modo específico, a partir da Base de Toda Nossa Existência.
O momento é de nocautear os catões hipócritas, aqueles mesmos que vivem observando puritanamente ciscos nos olhos dos outros, olvidando-se das traves cravadas retinas adentro. Tal e qual aquele VC (vigarista cristão) que arrancou dois mil reais de uma fiel, num culto recente, contando-lhe chorosamente seu lado vitimoso, tudo muito bem ensaiado. E várias vezes repetido. E que buscou até ganhar celular de um abilolado do culto dominical que freqüentava.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Lambeth 2008 e a Terra Devastada

A propósito da reunião de um bocado de bispos anglicanos na Inglaterra, Conferência de Lambeth 2008, me chega aos olhos um ensaio pra lá de oportuno, do teólogo luterano Gottfried Brakemeier, Professor Emérito da Faculdade EST, São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Intitulado Ciência ou Religião: Quem Vai Conduzir a História?, Sinodal 2006, nele está descrito um entrevero acontecido, 1860 em Oxford, entre o bispo anglicano Samuel Wilberforce e o cientista Thomas Huxley, quando de um debate sobre a teoria da evolução das espécies, desenvolvida por Charles Darwin. Petulantemente, o bispo indagou de Huxley, com muita ironia, se ele se considerava descendente do macaco pela linha materna ou paterna. A resposta do cientista foi acachapante: preferia ter um macaco entre seus antecedentes a um bispo que relutava encarar a verdade.
Lamentavelmente, ainda nos tempos atuais, a intolerância religiosa sobrevive fortemente nos mais diferenciados contextos sociais, como se tivéssemos uma só alternativa: adaptações estupidificantes ou alheamentos auto-destrutivos. A favorecer a ampliação da esterilidade da vida contemporânea, com suas alienações, enfados, niilismos, hedonismos, superstições, egoísmos e desesperos.
Os participantes de Lambeth 2008 devem estar cientes da advertência célebre de uma pesquisadora consagrada, Karen Armstrong, freira católica durante sete anos, autora de Uma Breve História de Deus, Companhia das Letras, 2008: “Se os líderes religiosos profissionais não podem nos instruir no conhecimento mítico, nossos artistas e romancistas talvez possam ocupar esse papel sacerdotal e apresentar uma visão nova a nosso mundo perdido e avariado”. Uma intelectual de renome, que se refundou existencialmente a partir da leitura do poema A Terra Devastada, de T.S. Eliot, profeticamente escrito em 1922. Uma leitura que possibilita uma estratégia de “fincar raízes produtivas do ‘lixo pétreo’ da modernidade”, evitando-se uma desintegração espiritual mais acentuada da atual cultura ocidental.
A História do Cristianismo está repleta de intolerâncias das mais variadas espécies. Intolerâncias que se arrastam até os nossos dias, através de insensatezes múltiplas geradas pelo medo de perder poderes. Também reflexo de uma arraigada incompetência de perceber o significado mais profundo do que seja uma “metamorfose ambulante”, aqui utilizando expressão famosa de um menestrel baiano já eternizado.
A verdade é nua e crua, pedindo desculpas pela indiscrição invasiva e intrusiva: em tempo algum da história da humanidade, excluindo o fenômeno Homem de Nazaré, nenhum transformação surtiu mais efeito social que a alterações científicas principiadas no século XVII. Evoluções múltiplas que estão a exigir, há muitas décadas, uma reestruturação das concepções teológicas cristãs, evitando-se uma catastrófica ampliação do divórcio entre o crer e o saber. Que há muito está afetando as atuais gerações do mundo universitário.
Não postulo um cristianismo de “coitadinhos” como o caminho mais seguro para se sair dos atuais e brabos atoleiros. Mas tampouco gostaria de ver as lideranças anglicanas contempladas com as vergastadas do poeta Fernando Pessoa, no seu Ultimatum de 1917, prenúncio intuitivo das mesmices que afundariam a criatividade de uma sociedade, a portuguesa, nas décadas iniciais do século passado: “Passai frouxos que tendes a necessidade de serdes os 'istas' de todos os 'ismos'; passai, radicais do Pouco, incultos do Avanço, que tendes a ignorância por coluna da audácia; passai, gigantes de formigueiro, ébrios da vossa personalidade de filhos de burguês, com a mania da grande-vida roubada na despensa paterna e a hereditariedade indesentranhada dos nervos; passai, bolor do Novo, mercadorias em mau estado desde o cérebro de origem; passai, decigramas da Ambição; passai, cerebrais de arrabalde; passai, senhores feudais do Castelo de Papelão; passai, cabeças ocas que fazem barulho porque vão bater com elas nas paredes; passai, absolutamente passai, porque o que aí está não pode durar, porque não é nada!!”.
Para os que ainda não assimilaram as advertências de Pessoa e para os que fingem não perceber o “debaixo do pano”, utilizo as palavras do poeta, quando ansiava por novos ares civilizacionais: “Deixem-me respirar! Abram todas as janelas! Abram mais janelas do que as janelas que há no mundo!” E creio estar reproduzindo o anseio de muitos milhões de anglicanos do mundo desenvolvido.
Pressinto algo de grandioso e fecundo para este século que ainda se situa em sua primeira década. Desde que caiba a todos, sem moralismos cavilosos nem puritanismos abobados, manter sob controle férreo os interesses mesquinhos. Sabendo bem conduzir seus irmãos de caminhada diante das encruzilhadas da História, reconhecendo que a escada terrestre jamais possuirá o último degrau. Uma excelente maneira de ratificar o dito popular que sabiamente proclama: quem gosta de passado é museu.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Despertadores para um Brasil século 21

O diagnóstico da jornalista Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo, dias atrás, revelou-se de uma oportunidade ímpar: “o povão está cansado de lero-lero e de ver os céus coalhados de gaviões e as gaiolas entupidas de pardais”. A sociedade trabalhadora está começando a se irritar com os tribunais superiores que, de penca, estão emitindo solturas para bandidões de bilhões, através de “decisões técnicas” metidas a cumpridoras de alta justiça. E anda danada da vida com as trambicagens do Congresso Nacional, vez por outra inventando novos cargos para não-concursados, atendendo conchavos de pé de escada de zona de meretrício.
Lamentavelmente, a maioria da nossa gente está acomodada, apenas cuidando dos seus teréns, não percebendo que um imenso tsumani amoral agiganta-se por todos os setores. Envolvendo num mesmo chiqueiro “ispertos” e os metidos a “de cima”, convictos todos de uma impunidade cada vez mais sólida, punição apenas para os pebas, as prostitutas e os negros. Fenômeno que atingirá gregos e troianos, bispinhos e bispões, socialites e emergentes, todos os “disleriados” que não possuem uma “enxergância bussolínica” capaz de “binoculizar” os amanhãs nacionais, favorecendo a ampliação de uma rapinagem de sobrenomes os mais diferenciados.
Como não se tornar civicamente autofágico na atual quadratura brasileira? Basta perceber que o melhor caminho poderá acontecer nas eleições que se avizinham, oportunidade ímpar de defenestrar políticos acanalhados, lambedores sem senso crítico, vagabundos demagogos, oportunistas de piruetas múltiplas, do tipo abandonar o Morro da Conceição para se lambusar na soleira da porta dos Manguinhos, imaginando-se consciente da lição do genial Fernando Pessoa: “Para vencer – material e imaterialmente – três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades e criar relações”. Como se o “saber trabalhar” fosse para usufrutos ilícitos, o “aproveitar oportunidades” contivesse práticas nepotistas e banditosas e o “criar relações” se destinasse a cafajestadas praticadas a torto e a direito. Como se a maioria da sociedade brasileira tivesse desativado em definitivo seu nível rebelioso, não mais sabendo diferenciar sexismo e sexualidade, emoção e histerismo, generosidade e vampirismo, humor e canalhice, política e deliqüência, pastoral e patrulhismo.
Está na hora de se estudar melhor dois indicadores: o IMI – Índice de Mutabilidade Interna e o IME – Índice de Mutabilidade Externa. As mutabilidades internas acontecendo no interior da sociedade brasileira, as externas explicitadas por um mundo que se apercebe mais distanciado das espiritualidades imaturas, atento às recomendações de Malidoma Somé, líder religioso africano: “Muitas pessoas se apegam à espiritualidade como se esta pudesse servir de abrigo para se esconderem daquilo que é real. Assim não funciona. Sabemos que funciona quando o espírito que está por trás de você acompanha-o aonde quer que você vá e lhe mostra como enfrentar a adversidade”.
Necessário acelerar a hora do agigantar-se da nossa brava gente brasileira. Fazendo cumprir o muito bem dito pelo Jessier Quirino, esse nordestino danado de bom, amigo do Luiz Berto, autor também arretado de A Besta Fubana: “Sois argumento de foice / Sois riacho correntoso / Tu sois carquejo espinhoso / Sois calo de coronel / Sois cor de barro a granel / Sois couro bom que não mofa / Sois um doutor sem farofa / Sem soqueira de anel”.
No mais, é retirar o título de eleitor da gaveta, imaginar-se plantando uma sonora bofetada cívica, seguida de cusparada das boas, nos políticos bandidos, tornando-se cada vez mais consciente, tal e qual aquele que se encontra comprometido com os direitos e deveres, sabendo agir com responsabilidade, sempre atuando para melhorar o estado geral do derredor por onde passa, sendo companheiro, divulgando que a bandidagem não faz bem a ninguém, nem aos próprios criminosos, de dias contados.
(Publicado no site da Globo Nordeste)

sábado, 19 de julho de 2008

Na Época do Homão

Para quem gostar de situar os personagens da época do maior fenômeno da História da Humanidade, Jesus de Nazaré, nada como o exaustivo levantamento feito pelo pesquisador Geza Vermes, professor emérito da Universidade de Oxford, atualmente considerado o maior estudioso do famoso Rabi da Galiléia, também aplaudido como um dos analistas mais fecundos dos Manuscritos do Mar Morto. Intitulado Quem é Quem na Época de Jesus, Record 2008, 310 p., o levantamento traz informações preciosas sobre personalidades vivenciadas num período de duzentos anos, desde a mudança de governo na Palestina, do domínio selêucida-grego para o controle romano em 63 a.C., até o segundo levante contra Roma, acontecido em 135 d.C.
Estão listados no Quem é Quem imperadores e estadistas romanos, soberanos judeus/herodianos, governadores romanos da Judéia, governadores romanos da Síria, procônsules de Acaia, sumos sacerdores judeus, mulheres de destaque, rabinos, carismáticos e ascetas judeus, revolucionários, escritores e personalidades do Novo Testamento. E a análise feita pelo Germes em muito se diferencia dos outros levantamentos, posto que é desenvolvida sob uma predominância religiosa estritamente histórica, em oposição à devocional comumente editada. As personagens são descritas com “clareza e habilidade”, como bem definiu The Guardian, conceituado jornal britânico.
Seguramente, quem não já ouviu falar de Maria, José, João, Pilatos, Madalena e Barrabás, personagens que viveram na época de Jesus? Mas quem sabe quem é Berenice, Simão de Peréia, Trajano e Gabínio, que também viveram naqueles tempos? Será que sabemos bem diferenciar os vários Jesus da época? O Jesus de Nazaré, o Jesus filho de Ananias, o Jesus filho de Gamaliel, o Jesus filho de Damneu, o Jesus filho de Fiabi e o Jesus filho de See? E sabemos ao certo quem foi o Judas que foi irmão de Jesus? Judas, Judas filho de Saforeu, Judas Galileu ou Judas Iscariotes?
O pesquisador Geza Vermes escreveu muitos livros relacionados ao Nazareno. Dos editados em língua portuguesa estão à disposição A Paixão, A Natividade, O Autêntico Evangelho de Jesus, As Várias Faces de Jesus, Manuscritos do Mar Morto, Jesus e o Mundo do Judaísmo, além do Quem é Quem na Época de Jesus recentemente tornado público. A leitura deste último muito favorece a compreensão dos demais, pois sempre é salutar analisar acontecimentos e vivências situando e datando os personagens envolvidos, compreendendo a dinâmica histórica, para melhor apreender o essencial, pondo de lado as fantasias e invencionices dos relatos, frutos da criatividade de autores e transmissores.
Na atual época preponderantemente urbana, ainda recheada de agressões as mais variadas e de misérias insuportáveis, onde centenas de milhões já não mais apreendem o sentido da vida, vivendo sob medo permanente, os mais conscientes não mais aceitam fazer parte “de um rebanho de gado que corre na direção indicada por um pastor”. Eles percebem que uma pessoa cada vez qualificada torna-se cada vez menos ovelha, pois “cada vez menos uma pequena classe de clérigos, formados em filosofia e ciências e até em teologia, está defronte de uma massa imensa de leigos ignorantes e sem formação”. E recordam com muita convicção a recomendação dada pelo apóstolo Paulo, da libertação do jugo da escravidão.
O Quem é Quem na Época de Jesus de Geza Vermes estimula a emersão de novas e antenadas pastorais urbanas, a partir do desempenho dos que fizeram história no tempo de Jesus de Nazaré, filho de Maria e José. Iniciativas que possam divulgar com mais efetividade o sentido da vida, ultrapassando as questiúnculas que apenas tentam disfarçar intenções de dominação de uns grupos sobre outros, anestesiando os mais débeis.
O Quem é Quem na Época de Jesus salienta a atuação de vários protagonistas, leigos e religiosos. Apesar da nostalgia daqueles que não perderam, em suas dioceses e paróquias, clérigos e leigos, as posturas pouco criativas dos sempre montados em infantis cavalos-de-pau.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Areias que Machucam

Outro dia, participando do programa Geraldo Freire, na líder JC, em companhia do frei Aloísio Fragoso e do José Nivaldo Júnior, historiador refinado, o nome de Rubem Alves foi citado. Um dos participantes anunciou que ele tinha editado recentemente um livro. Uma coletânea de pensamentos acumulados durante anos, reflexo de uma caminhada de alegrias e decepções, altos e baixos, risos e lágrimas. Sempre a enxergar novos amanhãs, desafiadores todos eles, prenhes de uma “enxergância” muito acima das mediocridades que se encorujam diante dos desdobramentos das ciências.
Pela Internet, providenciei a aquisição do livro do Rubem Alves, professor emérito da Universidade de Campinas, também agraciado com a Medalha Carlos Gomes, pela sua contribuição à cultura brasileira. E o texto, de releituras prazenteiras, ratificou a lucidez do autor.
O título é provocador: Ostra Feliz Não Faz Pérola. Reflexões que se iniciam a partir de uma análise sobre o comportamento do molusco que, atormentado por um grão de areia, o envolve “com uma substância lisa, brilhante e redonda”, transformando-o numa linda pérola. Uma metáfora esplendorosa, que lembra um mote helderiano: "quanto mais se esmaga a cana, mais ela oferece doçura".
Os “retalhos analíticos” do Rubem Alves refletem um saber sem fricotagem, um olhar crítico sobre o mundo atual, com suas veleidades e grandezas, suas religiosidades que não disfarçam ânsias de mando e falsos pieguismos, suas atrocidades bélicas travestidas de “cruzadas democráticas”, suas decrepitudes ideológicas, suas inventividades sociais sem um mínimo de fulgor, seus parlamentos sensabores, de oposições integralmente destituídas de estratégias consistentes, mais parecidas com papagaios em areia muito quente.
0 livro de Alves é uma sementeira neuronial que aguça nossa criticidade, denunciando a ausência de “simancolidades”. Proporciona boas cutucadas nos que se ensimesmam, contempladores dos próprios umbigos, que não percebem como elevados se encontram seus NR, Níveis de Ridicularia. Como aquele casal de estudantes brasileiros que cursava pós-graduação na Universidade de Louvaina, Bélgica. Numa festa, dançando entusiasmados, repararam que os demais estavam parados, observando-os. No final da música, ouviram um comentário: “É a primeira vez que vejo um casal dançando o hino nacional da Bélgica”. Ou aquela velhinha que procurou o seu pastor desesperada, posto que tinha concluído, lendo Ap 22,15, que seu cãozinho de estimação não entraria no céu. E que Alves, se a consulta fosse com ele, assim responderia: “Fique tranquila. O seu cãozinho estará eternamente ao seu lado ... Não só o seu cãozinho como gatos, girafas, macacos, peixes, tucanos, patos e gansos ... Deus gosta de bichos. Os bichos o louvam melhor que os humanos. Se Ele gosta de bichos eles serão ressuscitados no último dia ...”.
O Rubem Alves transita bem entre o erudito e o popular, explicitando com muita propriedade a diferença entre um professor talentoso – opus proprium dei – e um docente medíocre – opus allienum dei - , os segundo tornando-se grande maioria nas “falcudades” de todos os quadrantes.
Na parte Religião, Rubem Alves destaca-se com singular propriedade. Certa vez, um repórter perguntou-lhe se ele acreditava em Deus? Resposta: “Que Deus? O Deus de são Francisco não era o Deus de Torquemada. São Francisco usava o fogo do seu Deus para aquecer a alma. Torquemada usava o fogo do seu Deus para churrasquear hereges em fogueiras que eram a diversão do povo”.
A definição que Rubem Alves faz de Deus é antológica: “Deus é o nome que dou a um vazio imenso que mora em minha alma, vazio onde voam meus desejos na esperança de encontrar, no futuro, as coisas amadas que o tempo me roubou”.
A leitura do novo livro de Rubem Alves defenestra fingidos e amacacados, bajuladores e incompetentes, falsos humildes civis, militares e eclesiásticos.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife-Pernambuco, em 16.07.2008)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Dois Paulos, Dois Dicionários

Outro dia, quando de uma preparação de aula, deparei-me com dois pensares de Alberto Magno (1200 – 1280), filósofo e teólogo dominicano alemão, ardoroso defensor da coexistência pacífica entre ciência e religião: “não se pode pensar corretamente sobre Deus quando se pensa erroneamente sobre o mundo”; “a ciência da natureza não consiste em ratificar o que os outros disseram, mas em buscar as causas dos fenômenos”. E me lembrei de um outro teólogo, contemporâneo, Paul Tillich (1886-1965), o representante mais significativo do existencialismo religioso, que denunciava a existência de um “efeito casulo” numa teologia que não desejava entrelaçar-se com a ciência, a ética, a sociologia, a antropologia, a paleontologia, a psicologia social e a física quântica, nunca repudiando os dualismos cartesianos (corpo x alma, homem x mulher, certo x errado, céu x terra, etc). Ele fazia um questionamento de muita propriedade: “Onde estão vivendo as pessoas para as quais devemos comunicar o Evangelho de uma maneira que elas sejam capazes de tomar uma decisão genuína?
Para ampliar evangelizações, fés, “enxergâncias” e “binoculizações” compatíveis com efetivas existências cidadãs, desalienando cada vez mais os comprometidos com uma espiritualidade cristã libertadora edificadora de cenários futuros que rejeitem as palavras vazias, as culturas de fingimento e as arapucas de engaiolar abobados, dois excelentes dicionários foram tornados públicos recentemente: o Dicionário de Paulo e Suas Cartas e o Dicionário Paulo Freire. O primeiro, fruto de um projeto tri-editorial - Vida Nova, Paulus e Loyola – seguramente proporcionará análises acuradas sobre "um novo modo de contemplar Paulo". Através das suas 1288 páginas, o leitor encontra ainda um Índice Geral, facilitando o encontro de informações relevantes, além de um Índice de Artigos e a relação dos colaboradores, com a nominação dos artidos redigidos por cada um deles.
Através de 214 ensaios, pode-se ter uma apreendência acentuada sobre a apóstolo dos gentios, sobre quem se credita a expansão vitoriosa do cristianismo. Segundo os autores, "mestres e pesquisadores vão encontrar aqui um instrumento de trabalho e uma sinopse de subsídios bibliográficos e discussões resumidas para ajudá-los em suas aulas e provocar mais discussões".
O segundo dicionário, de Paulo Freire, o “andarilho da utopia por um mundo mais humanizado”, traz verbetes que aceleram um inadiável reaprender Brasil, utilizando uma ousadia epistemológica, um engajamento político e um pensar esperançoso. Que acelera a transição de um pensar ingênuo para um pensar crítico, este último sempre inconcluso, posto que todos devemos ser “metamorfoses ambulantes”, segundo Raul Seixas, o menestrel baiano já eternizado. Segundo o educador brasiliense Pedro Demo, “o sistema não teme o pobre que tem fome, teme o pobre que sabe pensar”. E o próprio Paulo Freire, ao analisar a realidade, foi categórico: “a capacidade de penumbrar a realidade, de nos ‘miopizar’, de nos ensurdecer que tem a ideologia faz, por exemplo, a muitos de nós, aceitar docilmente o discurso cinicamente fatalista neo-liberal que proclama ser o desemprego no mundo uma desgraça do fim do século”. Compromisso eivado de muita fé na transcendentalidade: “É daqui que se parte para chegar lá”.
A imbricação de mão-dupla dos dois dicionários paulinos muito favorecerá uma ação transformadora que agigante a cidadania do povo brasileiro na direção de uma contextualização humanizadora, sempre a repudiar os predadores sociais.
Compete aos educadores e evangelizadores, conscientes de suas missões, a assimilação do que realmente importa, aprimorando o trinômio conhecimento x criatividade x solidariedade a favor dos excluídos, num agir socialmente evolucionário. Solidários, para os de fé cristã, com os ditames do Homão de Nazaré. Favorecendo em todos o poder de exercer uma cidadania comunitária, nunca individualista, de maneira dignificante.
As leituras e consultas aos dois dicionários em muito fortalecerá uma espiritualidade libertadora cidadã. E é Paulo Freire quem sintetiza com uma objetividade cativante: “Cada vez se diz mais, nos dias que correm, que a educação de que se precisa hoje não tem nada a ver com o sonho, com utopia, conscientização e sim com o treinamento técnico e científico-profissional do educando. É exatamente isso que sempre interessou às classes dominantes: a despolitização da educação. Na verdade a educação precisa tanto da formação técnica, científica e profissional quanto do sonho e da utopia
O Dicionário de Paulo e Suas Cartas faz ressaltar uma altivez do apóstolo nunca orgulhosa, seu desvitimismo, seu descoitadismo, sua máscula paixão pela causa do Cristo, apesar de não O ter conhecido em vida. Fato que, entretanto, nunca intimidou sua auto-classificação de apóstolo superior, quando “Deus me separou desde o ventre materno, e me chamou por sua graça” (Gal 1,15), somente tendo conhecido pessoalmente o chefe Pedro três anos depois das primeiras pregações.
As tarefas dos discípulos dos dois Paulos, nos segmentos educacionais e religiosos brasileiros, são apaixonadamente desafiadoras. A eles compete, com um endurecimento que jamais menospreze a ternura, salvar os pingüins (os sempre frios), os pájaros de una sola pluma (os que sabem cada vez mais sobre uma nota só), os treineiros (que ainda não sabem educar) e os audiovisueiros (os que imaginam saber transmitir pela simples exposição/leitura das transparências.
Educação e Cristianismo, sob as mais diferenciadas vertentes, necessitam de uma urgentíssima reforma. Acredito visceralmente na ultrapassagem dos obscurantismos, dos fundamentalismos e dos niilismos atuais que a nada conduzem. Creio firmemente numa cultura de não-violência e do integral respeito à vida. Numa cultura de parceria. Numa cultura de ampla solidariedade e justiça. Numa cultura de tolerância e muita veracidade. Sem puritanismos nem moralismos cavilosos, cadáveres insepultos de passados que não nos elevam.
Da minha parte, continuarei educador anglicano, trans-ecumênico, paulofreireanamente helderista, percebendo-me sempre inconcluso. Sempre cabrito, nunca ovelha, a observar os apegos comportamentais dos fundamentalistas diante da advertência paulina sobre a necessidade de renovar as mentes, para bem utilizar os corações.
Somos cooperadores da Criação, independentemente de carteirinha religiosa. Com a Graça, jamais com a Lei e a Inquisição, que de santa não tem patavina.

sábado, 12 de julho de 2008

Citações Preciosas

Sempre estou a recordar um docente querido da Universidade Federal do Paraná, emérito educador e autor de Chão de Escola – A (Cons)ciência do Cotidiano Educativo, no qual ele reage às mesmices do discurso retórico que não morde o concreto do agir pedagógico. No seu texto, através de refinadíssimas parábolas, Lauro Wittmann busca ser, como cidadão, menos idílico e mais realista, mais consciente e comprometido, alicerçando-se na sabedoria dos despossuidos para continuar lutando por uma educação útil, competente e indispensável para todos.
Lembro-me bem de uma das suas estórias. Acontecida na residência de um dos seus amigos, que buscava contratar os serviços de uma profissional do lar. Entrevistando uma delas e solicitando as suas pretensões salariais, ouviu singular resposta: - Depende. Se for para trabalhar com penso, é mais caro. Se for para trabalhar sem penso é mais barato. Diante do atordoamento do entrevistador, a explicação: - Se o senhor quiser que eu pense como administrar o dia-a-dia da sua casa é um preço. Mas se o senhor quiser apenas que eu cumpra as suas ordens, o preço será menor.
Nós, brasileiros, estamos precisando de dirigentes, em todos os setores, "com penso". Que percebam que a realidade se encontra num patamar muito distanciado dos "olimpiquismos" academicistas, dos burocratismos pedantocráticos, das religiosidades moralistas e dos populismos maneiros dos apenas assistencialistas. A partir do com penso, a capacidade de agir de altera, valendo a pena o refletir de Carlos Castañeda: "Um caminho é só um caminho, e não há desrespeito a si ou aos outros em abandoná-lo, se é isto que o coração nos diz... Um caminho é só um caminho". Traduzindo em miúdos: "Se você fizer o que sempre fez, vai ter o resultado que sempre teve".
Na área eclesiológica, diante de tantas partições cristãs, algumas apenas em busca de resultados contábeis, um pensar de João Calvino (1509-1564), o notável reformador religioso francês, contido em As Institutas (Cultura Cristã, 2006), faz um alerta sobre determinadas intenções: “O coração humano possui tantos interstícios em que a vaidade se esconde, tantos orifícios em que a falsidade estreita, e está tão ornado de hipocrisia enganosa que ele com freqüência trapaceia a si próprio”. Advertência que se imbrica com a do escritor húngaro-americano John Lukacs: "Devemos tomar cuidado com a tentação perigosa de ver a História basicamente do ponto de vista do presente , embora tenhamos consciência de que o que sabemos no presente seja um reflexo inerente à nossa visão do passado".
Como anglicano, admiro, sem perda da criticidade necessária, o posicionamento do educador baiano Anísio Teixeira: "Eu não tenho responsabilidade nenhuma com as minhas idéias. Eu tenho, sim, uma responsabilidade com a verdade". Entendo que os autênticos ratificam as palavras de Cláudio Abramo, jornalista: "No fundo acho que está tudo errado. Perdemos os caminhos e as bússolas, nessa confusão conceitual em que nos mergulhamos. Sei que de todos os lados há erros, safadezas e injustiças, e até crimes, alguns horríveis. Mas existe uma espécie de solidariedade fraternal, a nível epidérmico, que nos faz sempre voltar os olhos para os mais desprotegidos e os mais desvalidos da terra. Não sei, exatamente, quanto se avançou nesse terreno, mas sei que algo deverá surgir de tudo isto, dessa gigantesca agonia de um mundo que está falido para que renasça um outro, em que as idéias e os conceitos sejam novos e duradouros".
Do meu canto de estudo, acredito que todo dirigente assentado numa cadeira decisória, deve se precaver de alguns aplausos recebidos dos seus arautos, se apercebendo da profundidade da notável lição de Plutarco: “Não preciso de quem faça sim quando eu concorde e faça não quando eu discorde. Minha sombra faz isso muito melhor”.
Para alguns mais próximos recomendaria uma dose diária de Simancol, uma homeopatia primeiro mundo, sem restrição médica. Muito recomendada pelas boas novas.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Um Amós da pós-modernidade

Ele é “a voz da sanidade que ultrapassa a confusão, a mentira, a baboseira histérica e a retórica existente no mundo sobre os conflitos atuais”. Amós Oz é o seu nome, um nascido em Jerusalém, há mais de três décadas militante do movimento pacifista israelense Paz Agora.
A tese do Amós é contundente: “o fanatismo que ora vivemos é uma das conseqüências da infantilização da espécie humana”. Ele também considera contagiados com o virus do fanatismo os antitabagistas enfurecidos, os vegetarianos radicais e os que não podem olhar para uma garrafa de cerveja sem moralismos cavilosos, posto que “o fanatismo sempre brota ao se adotar uma atitude de superioridade moral”, como se todo fanático portassem fórmula única de salvação instantânea, como novos Redentores ou Messias. O próprio Amós é quem alerta: “o fanatismo é extremamente pegajoso, mais contagioso que qualquer vírus”.
Nas conferências pronunciadas na Alemanha, janeiro 2002, Amós Oz recomenda alguns balizamentos para se reduzir os fanatismos cotidianos, religiosos, civis e militares. A primeira recomendação é a de se ler mais, para ampliar a imaginação e radicalmente reconhecer que todo ser humano é uma península, metade plantada em terra firme – família, cultura, tradições nacionais, sexo, linguagem, entre outros laços -, a outra metade a contemplar a imensidão dos oceanos, com imaginação, sonhos, contradições e encruzilhadas. A segunda recomendação prende-se ao sentimentalismo excessivo, o que se encontra amasiado com a falta de imaginação. E a terceira prende-se a um binômio quase desapercebido num mundo ansioso pela implementação de um pensamento único. Através da dupla conformidade x uniformidade, pode-se erigir crudelíssimos fanatismos, favorecendo a emersão de políticos e religiosos ávidos por bajulismos, ainda que em pouco tempo desmascarados pelos de maturidade alicerçada. Diz Amós que “o fanático quer salvar sua alma, quer redimi-lo, quer libertá-lo do pecado, do erro, do fumo, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares ou curá-lo de seus hábitos de bebida ou de voto”. E disse mais: “Nunca vi na minha vida um fanático com senso de humor, nem vi uma pessoa com senso de humor virar fanática”. Eu complementaria Amós, pedindo excusas pela ousadia: “Os puritanosos, os moralistas, os metidos a certinhos e os que se imaginam possuidores de uma família acima do bem e do mal são portadores privilegiados do fanatismo mais feroz, fingidamente travestido de maneirismos cordeirísticos, as garras muito bem camufladas por detrás de caráteres oportunistas”.
Nas três conferências proferidas, enfeixadas em seu livro Como Curar um Fanático, Ediouro 2004, Amós advoga que o conflito entre israelenses e palestinos gira em torno de uma dolorosa questão: De quem é a terra? Segundo ele, um conflito entre o certo e o certo, entre duas reivindicações convincentes sobre uma mesma região. Que possui erros grosseiros cometidos por israelenses e palestinos, as partes deconhecendo que são possuidoras de uma relação peninsular, ainda que jamais podendo perceberem-se fundidas. E que são merecedoras de dois Estados, um judaico, outro palestino
Nos pronunciamentos, Amós Oz destaca o humor como a melhor vacina anti-fanatismo, religioso ou político, ideológico sempre. E ele mesmo brinda seus leitores com pitadas de refinado humor, segundo ele herdado de uma sábia avó. Que um dia assim explicou para ele a diferença entre judeu e cristão: “Os cristão acreditam que o Messias já esteve aqui e que certamente voltará um dia. Os judeus sustentam que o Messias ainda está por vir. Já houve tanta raiva, perseguição, derramamento de sangue e ódio. Por que que pessoas não podem simplesmente esperar e ver? Se o Messias vier e disser ‘oi, é bom revê-los’, os judeus vão ter que reconhecer seu engano. Se, de outro modo, o Messias chegar dizendo ‘muito prazer, é um prazer conhecê-los’, todo o mundo cristão terá que pedir desculpas aos judeus”.
Lição da avó: apenas viva e deixe viver. Uma lição pacifista por derradeiro.

sábado, 5 de julho de 2008

Amós, um baita crítico para os dias de hoje

Consultando a Revista da ENA - Escola Nacional de Advocacia, número 5, maio passado, à procura de uma informação solicitada pela minha mulher, advogada especializada em Direito de Família, eis que me deparo com um texto inusitado, de autoria do advogado José Rossini Campos do Couto Corrêa. Logo depois da leitura do ensaio Direito & Teologia: Amós, Profeta de Qual Justiça? fui compulsivamente tentado a ler um pouco mais sobre Amós, um simples boieiro e cultivador de sicômoro, um tipo de figueira africana. Amós nasceu na cidade de Tecoa, distante dezesseis quilômetros ao sul de Jerusalém, por volta de 765 a.C., época de prosperidade econômica, desenfreda idolatria e padrão de vida luxuoso para uma ínfima minoria.
Muito embora não tendo sido educado para ser profeta, nem tido qualquer presença em alguma capacitação específica, Amós, como um ser humano comum, acreditou ser sua obrigação moral alertar as autoridades da época – políticas e religiosas sobretudo – sobre as condições miseráveis vivida pela grande maioria de uma população que se distanciava cada vez mais do mínimo necessário para uma sobrevivência decente.
Sem temer a cara feia do sacerdote Amazias, que o denunciou ao rei Jeroboão II, Amós percebeu que as atividades comerciais se encontravam intimamente mancomunadas com as religiosidades engabelatórias dos sacerdotes, a maioria preocupada em transações que amealhassem cada vez mais tesouros, os despossuídos que se apegassem às migalhas remanescentes das reuniões de compra e venda que semanalmente aconteciam.
Imagino Amós, hoje, relatando sua caminhada:

O Senhor me tirou do pastoreamento de gado e senti Ele me incentivando com um Vai e adverte às autoridades do povo de Israel. Senti firmeza na voz do meu coração e percebi a imensa responsabilidade de anunciar a palavra do Senhor, bradando indignado diante das condições sociais de exploração e injustiça em que o povo vivia.
Em hipótese alguma poderia calar a minha voz. Além disso, havia toda uma classe de poderosos que vivia do luxo e do fausto às custas dos menos favorecidos, dos que não possuíam nem voz nem vez. E que morriam de fome sem ter ninguém que os ajudasse. Sem que a classe sacerdotal levantasse um dedo para os auxiliar ou denunciar a situação imoral em que viviam.
Era mais que evidente que havia uma clara distinção entre os dois grupos: os ‘
oprimidos’ e ‘os que amontoavam opressão e rapina’, sob as bênçãos pútridas das autoridades religiosas, que tinham perdido sensibilidade social, sem atentarem, sequer por um instante, que elas mesmos seriam as vítimas futuras, posto que ‘negar aquela realidade seria prolongar uma duradoura ilusão religiosa’.
A coisa era tão agressivamente anestesiante que os líderes religiosos desrespeitavam por completo o explicitado em Ex 20,4-6, ratificando observação de milhares: “
quando os desafios ameaçam a segurança religiosa dos sacerdotes, a verdade passa a não ser o objetivo primacial deles”.
Fui tão rude que acabei sendo expulso do país, na conspiração atuando até o sacerdote Amazias, ávido em agradar os da elite política, ainda que perdendo toda noção de justiça distributivista.
Com raríssimas exceções, os religiosos daquela época “
pisavam a cabeça dos necessitados”, “negavam justiça aos oprimidos”, “bebiam o vinho recebido como multa”, pintavam e bordavam como se diz hoje. Desatentos que estavam sobre uma futura “revolução do conhecimento e da maturidade humana que desacreditariam os moldes teístas do passado”.
Voltando aos meus bois e aos meus sicômoros, resolvi escrever algumas páginas, mesmo sem ter sido educado como os outros parecidos comigo, apenas relembrando os ensinamentos parcamente recebidos durante a minha caminhada entre os despossuídos.”

Podemos classificar Amós como um pregador leigo, dotado de um senso de justiça muito acurado, sempre preocupado com os deslizes éticos e morais da sua gente, inclusive dos religiosos. O nome Amós significa “carga” ou “carregador”. Através de um estilo simples, em alguns momentos até pitorescos, sem os rebuscados dos metidos a sério, construiu metáforas nocauteadoras.
Estou convicto da reedição do mesmo discurso enérgico, denunciador dos colapsos éticos e morais da sociedade, se Amós voltasse a este mundo nos tempos de agora. E ele certamente escreveria para os pósteros:

As manchetes dos jornais modernos estão pródigas em notícias sobre a corrupção em geral, envolvendo figuras que, pelo seu estatuto religioso, social e político, bem poderiam ser pontos de referência. Os problemas sociais estão presentes em todos os quadrantes do mundo. A opressão e as grandes desigualdades da renda mundial, a falta de sensibilidade pelo sofrimento do outro, a exclusão social, a hipocrisia religiosa e a ânsia de grandes lucros estão destruindo os direitos dos mais frágeis. E quando o fosso da desigualdade social se torna cada vez maior, agiganta-se a ânsia de fazer justiça pelas próprias mãos. E quando a fogueira da vaidade se agiganta, mais o fosso se amplia entre os que possuem quase tudo e os que de nada são proprietários.”

Imaginei Amós lendo Wittgenstein sobre a vaidade: “a mais terrível força do mundo. A fonte dos maiores males”. E recordei Fernando Pessoa: “O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação”. E me alegrei visualizando o bater palmas de Amós lendo o que foi escrito por Thomas Sheehan, professor de estudos religiosos da Stanford University: “Se realizarmos a cirurgia radical que é necessária, não desaparecerão somente certas formulações tradicionais da fé, mas também muito do conteúdo pressuposto do cristianismo. Nosso único consolo é que, se não houver uma intervenção radical, e logo, o paciente morrerá”.
Eu desejo ver o Cristianismo plenamente recuperado da gigantesca crise que vivencia na pós-modernidade. Livre das causas pérfidas, muitas delas por ele próprio estatuídas. Continuo com uma arraigada fé na mensagem do Reino do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador, jamais confundindo salvação com igreja, como proclamava Ivan Illich, o inquieto monsenhor de Cuernavaca, México, fundador do CIDOC – Centro Internacional de Documentação Cultural, falecido em 2003, aos 76 anos de idade. Originalidade desconcertante, autor de Sociedade sem Escola, Vozes, Ivan Illich sempre proclamava, mesmo quando retornado à condição laica, que “a maioria das idéias-chave que fazem do mundo contemporâneo esta realidade particular é de origem cristã”.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Esclarecendo Um Irmão

O João Silvino da Conceição me perguntou, num churrasco bem regado a “refrigerantes” acontecido no espaço do casal Valéria/Jean Pierre, por que tanta admiração eu nutria pelo anglicano John Shelby Spong e encareceu mais dados sobre esse teólogo.
Informei ao Silvino que o bispo Spong, nascido em 1931, na Carolina do Norte, USA, desde 2000 é bispo aposentado da Diocese de Newark, Nova Jersey. É um teólogo, biblicista e escritor. Defende causas liberais, como a da igualdade racial e dos direitos de mulheres e homossexuais. E batalha por uma reavaliação da fé cristã, longe do teísmo e da crença na vida após a morte como recompensa ou punição pelo comportamento humano.
Informei ao Silvino que o bispo Spong foi Professor Palestrante da Universidade de Harvard, lugar de destaque antes ocupado por Hans Küng, H. Richard Niebuhr, Paul Tillich, William Temple e John A. T. Robinson, este último bispo anglicano como ele, uma admiração de Spong, sentida bem antes da publicação de Honest to God, que proporcionou a Robinson pedido de desculpas de Michael Ramsey, arcebispo de Cantuária à época, que reconheceu sua reação negativa como um dos maiores erros da sua primazia. O bispo Robinson morreu em 1983, no ostracismo, ocupando a insignificante posição de deão da Capela do Trinity College, “geralmente ocupada por um recém formado em teologia”.
Satisfazendo a curiosidade do João Silvino da Conceição, enumerei para ele algumas proposições defendidas pelo bispo Spong, seguramente um homem de muita coragem teologal, hoje às vésperas dos seus 77 anos. Ei-las: Uma nova forma de falar a respeito de Deus deve ser encontrada; A narrativa bíblica da criação perfeita e acabada da qual os seres humanos caíram no pecado é mitologia pré-Darwiniana, e absurdo pós-Darwiniano; A Ressurreição é uma ação de Deus. Jesus foi ressuscitado no significado de Deus. Não pode, desta forma, ser uma ressurreição física ocorrida na história humana; Oração não pode ser um pedido feito a uma divindade teística para agir na história humana de uma maneira específica; A esperança de vida após a morte deve ser separada para sempre da mentalidade de controle de comportamento de recompensa e punição. A igreja deve abandonar, então, sua dependência na culpa como um motivador de comportamento; Todos os seres humanos representam a imagem de Deus e devem ser respeitados pelo que são. Desta maneira, nenhuma descrição externa de um ser, seja baseado na raça, etnia, gênero ou orientação sexual, pode apropriadamente ser usada como base para rejeição ou discriminação.
Senti-me asfixiado diante das indagações do Silvino. Ofereci a ele um exemplar do penúltimo livro do bispo Spong – Um Novo Cristianismo para um Novo Mundo, a Fé além dos Dogmas , Verus, 2006 – já combinando a leitura, a vários olhos, de Jesus For The Non-Religious, Harper 2008, com lançamento em português programado para o fim do próximo semestre.
Um texto do Spong de pronto entusiasmou o João Silvino da Conceição: “Precisamos de uma reforma para que a eclésia do futuro convide as pessoas para o universo de Deus, onde elas possam agir corporativamente para enaltecer a vida, expandir o amor e estimular a existência”.
Razão em demasia tinha o rabino Abraham Joshua Heschel, teólogo israelita: “Costuma-se culpar a ciência secular e a filosofia anti-religiosa pelo eclipse da religião na sociedade moderna. Seria mais honesto culpar a religião por suas próprias derrotas. Ela decaiu não porque foi contestada, mas porque se tornou irrelevante, enfadonha, opressiva e insípida. Quando a fé é completamente substituída pelo credo, o culto pela disciplina, amor pelo hábito; quando a crise de hoje é ignorada pelo esplendor do passado; quando a fé se torna um mero objeto herdado em vez de uma fonte de vida; quando a religião fala somente em nome da autoridade em vez da compaixão, sua mensagem se torna sem sentido”.
Silvino e eu assinamos embaixo, sem piscar.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 02.04.2008)