segunda-feira, 19 de maio de 2008

Um Desconvidado em Lambeth 2008

Sonhei que, bem de mansinho, sempre acompanhado fraternalmente de perto pelo Deão de Canterbury, Reverendíssimo Robert Willis, o teólogo John Shelby Spong, que foi bispo anglicano por 24 anos de Newark, Estados Unidos, ingressava no amplo amplo salão, onde em instantes aconteceria a solenidade de abertura da Lambeth 2008, presidida pelo arcebispo Rowan Williams. Numa pasta modesta que ele portava numa das mãos, alguns papéis, inclusive um trecho de texto bem escrito do Rev. Jorge Aquino, um comentário sobre Lambeth 1998: “ A nossa visão da missão deve oferecer a esperança profunda de que o propósito principal da humanidade é glorificar Deus e ter alegria eterna da presença de Deus. A missão é amor, a suprema realização do novo mandamento, (Jo 13.34,35). Todavia, a nossa estrutura raramente nos proporciona um ambiente onde se possa amar a alegria que transforme as pessoas, as comunidades e as vizinhanças em que vivemos. ... Reconhecemos que, para a revitalização dessa forma, é preciso que a nossa Igreja mude sua maneira de ser, em muitos lugares, mude atitudes, acolha pessoas e cuide delas para o crescimento. Tudo isto implica em transformação.
Cumprimentando todos os presentes, o bispo Spong não manifestou nenhuma intenção de falar. Apenas postou em cima de uma pequena mesa situada ao lado esquerdo da entrada principal um impresso de página e meia, onde já estava empilhado um quase milhar de folders contendo a programação oficial e os assuntos pertinentes ao evento.
O impresso do Spong se iniciava com uma definição de Cristianismo Progressista, que ele mesmo adotara para elaborar seu trabalho mais recente Jesus For The Non-Religious, edição Harper 2008: “Cristianismo Progressista é o nome dado a um movimento do Cristianismo Protestante contemporâneo, caracterizado pela disposição de questionar a tradição, aceitar a diversidade humana e pela forte ênfase na justiça social. Possui uma crença profunda na centralidade da instrução de amarmo-nos uns aos outros no ensino de Jesus Cristo. Direcionando os seus adeptos em três vertentes: na compaixão, na promoção da justiça e misericórdia, e na solução dos problemas sociais da pobreza, discriminação, e questões ambientais.
Logo abaixo da definição acima, os oito pontos basilares do Cristianismo Progressista: 1. Tentamos compreender Deus através da vida e ensinos de Jesus; 2. Reconhecemos a fé de outras pessoas que têm outros nomes para o caminho que as leva a Deus, e reconhecemos que seus caminhos são verdadeiros da mesma maneira como nossos caminhos são verdadeiros para nós; 3. Compreendemos que o partilhar do pão e do vinho em nome de Jesus seja uma representação de uma antiga visão do banquete de Deus para todos os povos; 4. Convidamos todas as pessoas a participar em nossa comunidade e em nossa vida de adoração, sem insistir que elas se tornem como nós para serem aceitas, incluindo, mas não se limitando a: crentes e agnósticos; cristãos convencionais e céticos; mulheres e homens; aqueles de todas as orientações sexuais e identidades de gênero; aqueles de todas as raças e culturas; aqueles de todas as classes e habilidades; aqueles que esperam um mundo melhor e aqueles que perderam a esperança; 5. Sabemos que a maneira como tratamos uns aos outros é a expressão mais completa do que cremos; 6. Encontramos mais graça na busca por entendimento do que em certeza dogmática, mais valor na dúvida que em absolutos; 7. Organizamo-nos em comunidades dedicadas a equipar-nos para o trabalho que sentimos sermos chamados a realizar: esforçar-nos pela paz e justiça entre todas as pessoas, proteger e restaurar a integridade de toda a criação de Deus, e trazer esperança àqueles que Jesus chamou de os menores de seus irmãs e irmãos; e 8. Reconhecemos que ser seguidores de Jesus é custoso, e implica amor desinteressado, resistência consciente ao mal, e renúncia de privilégio.
No verso do impresso, uma historinha despertadora, daquelas que ressaltam a importância da tomada de decisões consistentes, sem as quais todo empreendimento naufraga, mesmo os mais aparentemente indestrutíveis. Tal e qual o acontecido com o RMS Titanic, afundado em 15 de abril de 1912, na sua viagem inaugural, saindo de Southampton, Inglaterra. Naufrágio que vitimou mais de mil e quinhentas pessoas. Um transatlântico portentoso, cujo panfleto de propaganda da viagem primeira estampava um garboso “concebido para ser infundável”. Um projeto de muito dinheiro, destruído por uma fatídica constatação do inquérito: “se os vigias noturnos tivessem binóculos, a tragédia seria evitada, pois o iceberg seria visto de longe”.
A historinha contida no folheto do bispo Spong era a seguinte:
Uma vez um mestre fez uma experiência com seus alunos. Pegou um vaso e encheu-o com pedras grandes. Depois, ergueu o vaso e perguntou aos alunos: o vaso está cheio? A turma se dividiu, com alguns dizendo que sim e outros que não. O mestre então, pegou algumas pedras pequenas e colocou-as no vaso. As pedras pequenas se encaixaram entre as grandes, e o mestre ergueu o vaso, novamente, perguntando: o vaso está cheio? Desta vez a maioria da turma respondeu que sim. O mestre, então, pegou um saco de areia e despejou dentro do vaso. Depois, repetiu a pergunta. A grande maioria respondeu que sim. O mestre, então, pegou uma jarra de água, derramou no vaso, e perguntou: o vaso está cheio? A turma finalmente chegou a um consenso. Todos responderam que sim. Então o mestre falou: Este vaso é como a nossa vida. Se eu tivesse colocado as pedras pequenas, a areia ou a água em primeiro lugar, não haveria espaço para as pedras grandes. As pedras grandes na nossa vida são: família, amigos, carreira, trabalho, lazer e saúde. É fundamental que não descuidemos delas. Não podemos perder muito tempo com coisas sem importância (as pedras pequenas), pois corremos o risco de não haver espaço para as coisas que realmente são importantes (as pedras grandes).”
No meu sonho, retirando-se após muitos abraços e algumas caras entronchadas, o bispo Spong declarava a uma jornalista que oficiosamente iria cobrir o evento: - Desejei apenas ressaltar, com o meu folder, como uma instituição “titanítica” pode esboroar-se rapidamente caso binóculos não sejam utilizados. Nem as pedras mais importantes trabalhadas com atenção redobrada, deixando os pedregulhos para outras ocasiões menos significativas. A imaturidade não desaparece se não nos apossarmos de nossa vida episcopal responsavelmente. Disse e repito: Ainda sou um crente. Deus é infinitamente real para mim. Sou cristão. Jesus é para mim não apenas uma presença de Deus, mas a porta de acesso para a realidade de Deus que está além de minha capacidade de entender. Sou uma pessoa de oração, o que para mim significa contemplar o significado de Deus como vida, amor e existência e agir de acordo com esse significado. Sou uma pessoa com profundos compromissos éticos, o que para mim significa tornar-me agente da vida, do amor e do existir para todas as pessoas, através de comportamento tanto individual como corporativo. A marca de fé que almejo é uma maturidade senhora de si e não uma dependência própria de criança. Minha esperança de céu está na habilidade de compartilhar a eternidade de Deus, que é a fonte da vida, do amor e a Base da Existência.
Ainda no meu sonho, abençoando Lambeth 2008 mesmo de longe, o bispo John Shelby Spong retornava aos seus pagos, deixando a jornalista aos prantos, por ter sido abraçado por um teólogo de muita binoculidade.

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