sábado, 31 de janeiro de 2009

Tolerância e Punibilidade

Outro dia, um não muito distanciado dos atuais, financeiramente nebulosos, o escritor Umberto Eco, professor de semiologia da Universidade de Bolonha, romancista de sucesso, autor de O Nome da Rosa e também de O Pêndulo de Foucault, foi entrevistado pelo francês Le Monde. Sem papas na língua, denunciou uma estupidificante indiferença moral diante dos extremismos políticos que estão proliferando no mundo inteiro, mormente os de extrema direita. Para ele, as categorias "direita" e "esquerda", radical dicotomia de trinta anos atrás, não são mais compatíveis com os instantes históricos do agora.
As últimas décadas, aceleradamente evolucionárias, não devem provocar indiferença nos portadores de uma criticidade avessa a dogmatismos e ortodoxias. Distinções esclerosadas "cegam", obstaculizando análises desapaixonadas, desestabilizando emocionalmente os mais jovens e os menos experientes. E os que, aturdidos pela velocidade da História, postulam a validade de tudo, nada recusando, tudo sendo permitido, as regras morais consistentes não mais servindo para balizamentos comportamentais e políticos. Resultando em cafajestadas provocadas por pretensos defensores do povo, consideradas pelo grupelho como manifestações democráticas autênticamente populares, quando não passam de ato de puro vandalismo, um desserviço acima de tudo.
Defende Umberto Eco, com a responsabilidade de ser um intelectual de renome internacional, a missão de todo ser-pensante: delinear os limites entre o tolerável e o não-tolerável. Segundo ele, não há "nenhuma verdadeira diferença entre os ‘skinheads’ e os neonazistas de hoje e os nazistas da geração anterior". E vai além: "Continua sendo a mesma forma de imbecilidade e de atração pelo mal, o mesmo ódio pelos outros e o mesmo desejo de destruição".
Num país onde a ética comportamental é ridicularizada pelos que apregoam cinicamente saber levar vantagem em tudo, o pensamento desalienante deve merecer um esforço continuado, para discernir entre o que se encontra ultrapassado, obsoleto, e o que é moderno, atualizado, contemporâneo. E, ainda, o que foi considerado errado no passado e o que continua erroneamente sendo feito nos dias de hoje, numa aldeia global de múltiplos e cada vez mais interdependentes segmentos.
Acredito que temos uma obrigação cidadã muito acima das agruras do cotidiano: o direito de desconfiar das posturas políticas enganosas e das ruidosas manifestações sectárias. O dever de persistir reconstruindo os fatos históricos do nosso ontem sob um prisma revisionista é característica maior de todo historiador cientificamente idôneo, que não se permite resvalar para os negativismos analíticos das conjunturas instáveis. O próprio Umberto Eco, em sua entrevista, declara que "a Terra é redonda: não se pode ir à esquerda demais". E explica: a força de perseguir a idéia mais extrema, a mais provocadora, a mais "inovadora", acaba por dar a volta e se ver situada na extrema direita. Os exemplos são centenas ao nosso derredor. Inclusive de recentes bispos romanos anti-semitas e contrários ao Vaticano II. Nada bentos.
Nas ante-vésperas de mais uma eleição presidencial, aparecerão "milagreiros donos da verdade", grunhindo palavras de ordem, odiando tudo e todos, desancando a moral alheia, arrotando uma “fraseologia pseudo-revolucionária”, num quanto-pior-melhor oportunista, esquizóide, cretino mesmo.
Populismo, ignorância e incompetência, definitivamente não são armas para quem busca transformações sociais consequentes e duradouras. George Orwell costumava dizer que os jovens intelectuais de classe média vão para a esquerda por desemprego, sempre cobrando dos outros aquilo que não podem oferecer. Por aqui, os mais exaltados serão alguns fronteiriços, que buscarão seus quinze minutos de fama no guia eleitoral.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

As Enxergâncias do Dom

Lembro-me como se fosse hoje: meu pai, em 1968, mostrando-me, entusiasmado, um livro de Dom Hélder Câmara, Revolução Dentro da Paz, editado naquele ano pela Sabiá. O “velho”, de personalidade conservadora, ainda que nunca reacionária, admirava profundamente a ação pastoral do Dom e os seus pronunciamentos a favor de um mundo mais humanizante. E se extasiava com as reflexões analíticas do arcebispo, principalmente com sua afiadíssima capacidade sementeira de pugnar por novos amanhãs civilizatórios.
O livro, coletânea de reflexões feita por um grupo de admiradores, quarenta anos depois e às vésperas do centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara, merece ser cuidadosamente guardado. Ele proporciona um panorama das principais preocupações do Dom. Sua visão evolucionista, por exemplo, é explicitada de modo cristalino, através de uma conclusão pra lá de sutil: “custaram alguns a entender que o essencial a salvar – ontem, hoje e sempre – é a presença do Criador e Pai. O mais é maneira de contar ao alcance de todos”.
Diante do maniqueísmo dos tridentinos e fundamentalistas contemporâneos, o Dom, há mais de quarenta anos, já dizia que “a oposição excessiva, feita por alguns, entre matéria e espírito, corpo e alma, quase firmava a convicção de que o espírito, sim, é criação de Deus, mas o corpo é quase criação do diabo”. E concordava com o teólogo Chenu, quando este afirmava que “a carne não pode ser sempre tida como sinônimo de pecado, de vez que o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.
Aplaudindo um humanismo bíblico e cristão, o Dom acreditava que o cristianismo somente se fortaleceria através de um desenvolvimento científico evolucionário, por “acolher o que há de verdade em todos os humanismos, inclusive os ateus, por mais unilaterais e agressivos que se tornem”. E reconhecia no ser humano “o direito e o dever de dominar a terra e completar a criação”, cabendo ao próprio capacitar-se em todos os campos do saber”.
No livro, o Dom enviou um recado aos economistas da época: “Querem os economistas um bom começo para a revolução a empreender contra o econômico pelo econômico ...? Passem a bater-se pelo reconhecimento de que os mais rentáveis investimentos são os vinculados diretamente à formação do homem. Valorizem o homem como o centro e o fim da atividade econômica”. Recomendação ainda válida para os tempos de agora, dada a advertência de Bárbara Ward, uma extraordinária figura humana daquele tempo, que o próprio Dom reproduzia para seus colaboradores: “A riqueza, aliada à indiferença, atrai o castigo clássico que é, por indiferença e dureza de coração, perder contato com os anseios das grandes massas da Humanidade”.
Sei da imensa admiração sentida por Dom Maurício Andrade, Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, pelo sempre amado Dom Hélder Câmara. E foi dele que, outro dia, ouvi uma reflexão feita pelo Dom, ressaltando os dois ângulos de uma visão entorpecida: “...quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista."
Ratificando o pensar de Dom Hélder Câmara – “quase sempre o ateísmo nasce de deficiências na vida e no pensamento dos crentes” – sonho com a efetivação de um Movimento Solidariedade & Libertação, que congregasse os que amam o Homão da Galiléia, independentemente das denominações religiosas, estas hoje em franco declínio por descontemporaneidade. Um Movimento que ensejasse iniciativas que favorecessem a desalienação de milhares. Com uma justificativa que vem do próprio Dom: "É urgente evitar que os jovens se convençam de que a Igreja é mestra em preparar grandes textos e sonoras conclusões, sem a coragem de levá-las à prática".
Os balizamentos do Movimento seriam voltados para uma reflexão-ação eminentemente binoculizadora, por derradeiro antecipadora de amanhãs, percebendo-se todos metamorfoses ambulantes.
(Publicada na Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, janeiro 2009, p. 29)

Contra fanatismos

Confesso sem qualquer arrependimento: não nutro simpatia alguma pelos fanáticos, sejam eles fundamentalistas religiosos, esportivos, políticos e ideológicos. E também defino como um tipo camuflado de fanático os moralistas.
A minha antipatia se manifesta primeiramente diante dos fanatismos jumentálicos, aqueles que se manifestam despidos dos argumentos mínimos, sem os quais não se principia um diálogo conseqüente, ainda que jamais convergente.
Ratifico o pensar da vovó Neuza, 78 primaveras tinindo de muita pensação: “perdi completamente o pouco preconceito que por ventura tinha. Preto, branco, amarelo, rico, pobre, famoso, desconhecido, gay....só não tolero muito burrice e ignorância. Perco um pouco a paciência”. Há, no campo religioso, um transtorno mental denominado “síndrome de Jerusalém”: pessoas que, visitando Jerusalém, de repente inflamam-se, pondo fogo em mesquitas, igrejas e sinagogas. Ou, se comportando de uma outra maneira, tiram as roupas, sobem num elevado qualquer e começam a profetizar para uma platéria de três ou quatro apenas curiosos. E os pronunciamentos são os mais diferenciados, indo de política, poluição, fim próximo do mundo, nudismo, bem e mal, sexo, homoafetividade, meio ambiente e excesso de silicone nos peitos.
Acredito que somente os moderados de cada tipo de sociedade poderão estancar as fúrias fanáticas, desde que o combate seja explicitado efetivamente através de manifestações racionalmente constituídas de esperança na efetivação das soluções para os principais problemas apresentados. Restaurando alegrias, fascinações, entusiasmos e os “desmedos” (não-medos).
Um estudioso de fanatismo, Amós Oz, judeu militante do Movimento Paz Agora, diz que “o fanatismo está em todos os lugares, e suas formas mais silenciosas, mais civilizadas, estão presentes em nosso entorno”. E enfatiza: “a semente do fanatismo sempre brota ao se adotar uma atitude de superioridade moral”.
Qual a melhor arma para se combater o fanatismo? O senso de humor é a indicação eleita em todos os quadrantes, psiquiátricos, psicológicos e comportamentais. E a prova é cabal: nunca se viu um fanático com senso de humor, a recíproca também sendo muito verdadeira, nunca se viu uma pessoa dotada de senso de humor tornar-se fanática. Resultado: quem tiver senso de humor fica como que imune ao fanatismo. É sempre bom reparar o comportamento de uma pessoa, civil, militar ou religiosa, diante de uma outra bem humorada, que sabe contar uma boa história, algumas até bem apimentadas, sem resvalar para mediocridades: geralmente olhando de soslaio, de cara semi-amuada, externando risinhos mínimos para não ser identificado como um que não compreendeu devidamente o “espírito da coisa”. E geralmente não tolera que o bem humorado esteja no centro das atenções, quando ele deveria ter para ele todos os holofotes, dada sua superioridade auto-imaginada.
Tenho um amigo-irmão que me relembra, vez em quando, como sua avó querida explicava aos netos a diferença entre judeu e cristão. Dizia ela: “Vejam só: os cristãos acreditam que o Messias já esteve aqui e que certamente voltará algum dia. Os judeus sustentam que o Messias ainda está por vir. Já houve tanta raiva, perseguição, derramamento de sangue, ódio a respeito disso ... Por que? Por que as pessoas não podem simplesmente esperar e ver? Se o Messias vier e disser “oi, é bom revê-los”, os judeus vão ter reconhecer seu engano. Se, de outro modo, o Messias chegar dizendo “muito prazer, é um prazer conhecê-los”, todo o mundo cristão terá que pedir desculpas aos judeus. Entre o dia de hoje e aquele momento futuro, apenas vivam e deixem viver”.
Não se deve ser pacifista sob cargas sentimentalóides, muitas delas camuflando covardias e frouxidões. Acredito que toda guerra é terrível, embora considere que o pior de tudo é a agressão.
E o poeta Robert Froes estava recheado de razão: “uma boa cerca faz bons vizinhos”.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 28.01.2009)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O Gato e o Safadão

Quando o presidente Charles de Gaulle afirmou que o Brasil não era um país sério, muita gente fez carinha de protesto, como se por aqui nunca tivesse havido safadeza, como, por exemplo, a de conceder título de Doutor Honoris Causa ao rei da Bélgica sem que houvesse uma única sala de aula funcionando em universidade, a Universidade do Brasil tendo sido criada no papel dias antes para legitimar a honraria. Ou instituir o Banco do Brasil, hoje uma entidade que merece respeito, para aprovar crédito a amigos do imperador que estavam passando uns apertos. Ou impossibilitar a extradição de condenado italiano através de mil e uma argumentações, inclusive cartas presidenciais, quando em tempos recentes devolveram à Cuba dois boxeadores olímpicos que desejavam ficar por aqui protegidos da “democracia” castrense. Para não acrescentar nadica ao babaovismo desenfreado que se vem praticando diante do poder, filmando-se até trajetória de mãe e erigindo-se parque com o nome da dita, tal e qual fizeram com a mãe de um outro primeiro mandatário também nordestino.
Quando a Justiça é lenta, burocratizada e nada exemplar, os casos se multiplicam, haja visto o que aconteceu semana passada com o programa Bolsa Família, quando um salafrário do município de Antônio João, uma das áreas mais pobres de Mato Grosso do Sul, coordenador do programa da prefeitura, inseriu Billy, o seu gato de estimação, na lista de beneficiados, o bichano tendo recebido cinco meses de “salário”.
O safadão, Eurico Siqueira da Rosa, concursado da municipalidade desde 2006, só foi descoberto na visita feita por agente de saúde, que pedia explicações pelo não comparecimento da “criançaBilly Flores da Rosa ao posto de saúde para medição e pesagem. Diante da resposta honesta da esposa do salafrário – “Mas o único Billy aqui é o meu gatinho” -, o caso veio à tona, todo mundo tomando conhecimento e o bandido ainda tendo tempo de solicitar exoneração do serviço público neste mês de janeiro, sem levar um pai-nosso de penitência, quando o mínimo merecedor seria uma boas cipoadas no rabete, por difamar o serviço público brasileiro e desrespeitar a honorabilidade de um pacato bichano.
O lado mais significativo da história do gato matriculado no Bolsa Família, entretanto, foi a declaração prestada por Neuza Carrillo, secretária municipal de Assistência Social. Que deveria ser aplaudida Brasil afora, pela sinceridade: “Se houvesse um setor em Brasília encarregado de receber e verificar a documentação, fraudes como essa se tornariam mais difíceis de acontecer”. Trocando em miúdos: se houvesse mais seriedade nos setores públicos da Capital Federal, muita patifaria seria desvendada, cabendo ao Judiciário punir exemplarmente os fraudadores.
Lamentavelmente, no Brasil, continua plenamente válida a resposta dada a um repórter por cangaceiro nordestino famoso, quando de sua saída da Casa de Detenção, hoje Casa da Cultura, após anistia concedida pelo presidente Dutra: “Moço, nesta cadeia não vi ladrão algum de mais de dois contos de réis”. Em outras palavras: só ladrão peba estava ali, pois os especializados, palitó e gravata, até hoje se aboletam em postos de destaque, alguns xeleléus até sendo encarregados de levar uns dólares na cueca.
Quando um ex-governador afirma ter um patrimônio muito superior ao declarado nas eleições últimas, ninguém se importa. Estudiosos em direito eleitoral afirmam que Newton Carneiro “não corre risco algum de sofrer sanções eleitorais”. E mais: “como não foi eleito, a única chance de a irregularidade prejudicar uma futura candidatura seria se a falha fosse na prestação de contas de campanha”.
Por favor, leitor, pare de gargalhar. O Rui Barbosa é quem tinha razão. E as coisas estão bem piores que no tempo dele. Pois tem bandido em tudo quanto é canto do Brasil.
Infelizmente, nem gato eu tenho em casa. Só uma mãe bem velhinha com Alzheimer e uma mulher maravilhosa de muita dignidade.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Evitando gafes

Outro dia, aqui no Recife, em reunião de excelentes contas correntes, madame dizia que não via chegar a hora de, embarcando para a Europa na semana seguinte, lá conhecer o Mercado Comum Europeu, posto que, com a crise estampada no mundo inteiro, iria encontrar mil e um produtos em liquidação. O assombroso do dito é que ele sofreu concordância unânime dos presentes, entre eles três marmanjos de semblantes quase asininos, todos entusiasmados com os sonhos da socialite que não possuía qualquer tonalidade loura em seu penteado.
Para evitar esparrelas, a Globo editou, ano passado, manual que poderá livrar inúmeros embaraços vexaminosos. De um londrino, Mark MacCrum, Viagem sem Gafe – descubra como se comportar da América Latina a Ásia, “é um guia global para todas as ocasiões, desde as primeiras saudações aos ritos finais”. Que, de maneira divertida, evita constrangimentos de viagem, daqueles que favorecem a multiplicação das “estórias”.
Na Alemanha, por exemplo, aperta-se em primeiro lugar a mão da Frau (senhora, mulher casada) e só depois se cumprimenta o marido. E na França, o rebonjour é gostosamente utilizado quando se encontra alguém por uma segunda ou terceira ou quarta vez num mesmo dia, embora o aperto de mão esteja válido para o dia inteiro.
Todo cuidado com o arreganhamento dos dentes num primeiro contato, pessoal ou profissional. Em muitas culturas, considera-se coisa séria o ato de cumprimentar alguém. Regrinha de ouro: “quando conhecer alguém tome como exemplo o comportamento de seu novo conhecido: se ele sorrir, sorria também; senão, boca fechada.
Para quem é beijoqueiro, atenção redobrada quando se estiver em determinadas regiões. No Vietnã e na China, por exemplo, os beijinhos na testa e no rosto são estritamente proibidos, podendo até levar ao suicídio, em determinadas regiões rurais, se uma mulher for vista beijando um homem. Na Nova Zelândia, os maioris cumprimentam apertando as mãos e roçando o nariz e a testa para compartilhar o mesmo hálito, sopro da vida.
Segundo McGrum, os gestos tornam-se os atalhos mais rápidos para mal-entendidos e hostilidades. Na Sardenha, o polegar para cima poderá acarretar, num engarrafamento de trânsito, palavrões e imprecações diversas, inclusive ameaças de morte. O gesto é considerado insultuoso, tal e qual o daquele dedo médio bem estirado...
Toda precaução com os dois dedinhos em forma de V, utilizado mundo a fora pelo presidente Inácio da Silva, na presença de inúmeras personalidades estrangeiras ao seu redor. Na Austrália e na Irlanda, o gesto tem o significado do brasileiríssimo “vá se fu***” Também sendo atitude rude na Arábia Saudita e no México, se com a adição do próprio nariz enfiado entre os dedos.
Outro dia, na Coréia, um empreendedor brasileiro fez a famosa figa, quando dos entendimentos preliminares de um contrato de exportação brasileira. Considerado lá como de extrema ofensa, pois é considerado uma “banana” em miniatura, a solenidade de assinatura do acordo sofreu retardo de três dias, até os esclarecimentos surtirem efeitos e as feições amuadas se diluírem, para gáudio das partes e alívio mental do infeliz inculto.
Em viagem turística, em São Paulo, num restaurante japonês pra lá de chic, casal de interioranos comemorava quinze anos de casamento. Ao receber a famosa toalinha, conhecida como oshibori, exclusivamente destinada para a limpeza das mãos, o maridão passou-a pelo pescoço e rosto, após o que deu nela uma caprichada assoada, de som escutado, sob risinhos, nos quatro cantos da casa. Riso não contido até pelo garçon que atendia quando o matutão enfiou um dos hashis (pauzinho) num pedaço de peixe, levando-o à boca com um sorriso de mula de fazer inveja em qualquer baia.
E se alguém estiver passeando pela Finlândia, nunca esquecer de que o passatempo nacional de lá é tomar sauna. Para uma população de cinco milhões de almas, existem dois milhões de saunas. Cada um com a sua toalha, por pura questão de higiene.
O livro do McGrum seguramente ajudará todos na minimização das mancadas.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Em busca de novos amanhãs

Depois de assistir pela TV a posse do Barack Obama na presidência dos Estados Unidos e de testemunhar o bota-fora “descanse em paz” do ex-mandatário Bush, cinicamente ainda sorridente, talvez aliviado por não ter sido “premiado” com as sapatadas de um jornalista que não se aprimorou convenientemente, telefonei para o João Silvino da Conceição, meu irmão camarada, encarecendo sua opinião. Encontrei-o emocionado, convicto de que o mundo se deparará com novos tempos.
Mas o que João Silvino desejava mesmo era que eu desse minha opinião sobre um e-mail que ele tinha enviado sobre o último livro do cardeal Carlo Maria Martini, publicado na Itália, Alemanha e Espanha, encartado nas listas de mais vendidos. Em forma de entrevista dada ao jesuita alemão Georg Sporschill, o volume traz o título “Colóquios noturnos em Jerusalém. Sobre o risco da fé”.
Lamentando não ter sido traduzido ainda no Brasil o Conversazioni notturne a Gerusalemme, titulo em italiano, disse ao João que tinha lido apenas um livro do cardeal Martini, o Em que creem os que não creem, Record, mas que havia recebido de amigos excelentes referências sobre o último livro do cardeal Martini, principalmente sobre uma afirmação sua dotada de muita coragem: “Deus não é católico. Ele está além disso”.
Para que a turma da inquisição que ainda perambula por nossos derredores não venha com quatro pedras nas mãos e uma fogueira já acessa, é bom ressaltar que o papa Bento XVI, nas vezes que falou em público sobre o cardeal Carlo Maria Martini, famoso biblista e arcebispo de Milão de 1980 a 2002, sempre o fez de maneira muito elogiosa, classificando-o de “mestre da lectio divina, que ajuda a entrar na vida da Sagrada Escritura”. Ainda que o cardeal Martini não tenha sido magnânimo ao analisar os atos magisteriais dos últimos pontífices, de Paulo VI em diante.
Em seu livro, o cardeal Martini, com notável sutileza, acusa a Igreja Romana de uma involução histórica, ao mesmo tempo que pugna por uma Igreja “valente” e “aberta”, títulos de dois capítulos do livro. E no seu trabalho, o cardeal traça uma descrição de Jesus vinculada a um ideal de justiça muito terreno, o que deixa o Jesus de Martini a uma distância quilométrica do Jesus de Bento XVI, no livro deste intitulado Jesus de Nazaré,.
Algumas afirmações do cardeal Martini merecem atenções e análises redobradas: “Deus está além dos limites e das definições que nós estabelecemos. Na vida, temos necessidades deles, é óbvio, mas não devemos confundi-los com Deus”. ... “Se escutamos Jesus e cuidamos dos pobres, dos oprimidos, dos doentes, Deus nos conduz para fora, para a imensidão. Ensina-nos a pensar de modo aberto”. ... “Por medo às decisões, pode-se deixar escapar a vida. Quem decidiu as coisas de maneira muito improvisada e incauta será ajudado por Deus a se corrigir. [...] Não me assustam tanto os defeitos da Igreja. Angustiam-me, pelo contrário, as pessoas que não pensam. [...] Quisera indivíduos pensantes. [...] Somente então se colocará a questão se são crentes ou não crentes. Quem reflete será guiado em seu caminho. Tenho confiança nisso”.
Será que poderíamos, como cristãs, ler o livro do cardeal Martini comungando-o com o discurso do presidente Obama? O João Silvino diz um convincente sim à pergunta, principalmente se atentássemos para a afirmação do novo presidente: “Às pessoas dos países pobres, prometemos trabalhar a seu lado para fazer suas plantações produzir e para deixar que fluam águas limpas, para alimentar corpos famintos e mentes sedentas. E, para as nações como a nossa, que gozam de prosperidade relativa, dizemos que não podemos nos dar ao luxo de sermos indiferentes ao sofrimento fora de nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos naturais do mundo sem pensar nos efeitos. Pois o mundo mudou, e precisamos mudar com ele”.
É chegada a hora de tornar o Cristianismo compatível com os desafios dos tempos de agora. A era das responsabilidade libertadora também é chegada para todas as denominações cristãs. Transreligiosamente, inclusive.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Aforismas &Carapuças

Se o leitor não entendeu ao certo o que é marolinha, ilusória classificação dada pelo presidente Inácio da Silva para a atual crise financeira que se abate sobre os quatro cantos do planeta, e se encontra um tanto aturdido com as últimas cotações das bolsas de valores e os índices crescentes de desemprego mundial, algumas boas leituras poderiam ampliar a sua “enxergância”, favorecendo a consolidação de um equilíbrio corpo-mente capaz de assegurar uma redução da turbulência na sua existencialidade dos próximos tempos.
Para início de conversa, o leitor deve ser capaz de entender as linhas e entrelinhas de Às Vezes..., um poema do genial Fernando Pessoa, que proclama: “Deus costuma usar a solidão / Para nos ensinar sobre a convivência. / Às vezes, usa a raiva para que possamos / compreender o infinito valor da paz. / Outras vezes usa o tédio, quando quer nos mostrar / a importância da aventura e do abandono. / Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar /sobre a responsabilidade do que dizemos. / Às vezes usa o cansaço, para que possamos / compreender o valor do despertar. / Outras vezes usa a doença, quando quer / nos mostrar a importância da saúde. / Deus costuma usar o fogo,/ para nos ensinar a andar sobre a água. / Às vezes, usa a terra, para que possamos / Compreender o valor do ar. / Outras vezes usa a morte, quando quer / nos mostrar a importância da vida.
Analisando vagarosamente os versos do Fernando Pessoa, o leitor deve ser capaz de aquilatar as suas duas dimensões. A dimensão de sua interiorização: controle da sua vida, rejeitando toda escravidão; saber escolher por si mesmo, rejeitando as manipulações; desenvolver seu modo próprio de ser pessoa (vocação pessoal), rejeitando toda instrumentalização. E a dimensão da sua abertura: com o mundo (trabalho, celebração e festa); com os outros (diálogo, amizade, confrontação, amor); com o Criador (fé, confiança, obediência e compromisso).
Em incontáveis ocasiões, o leitor sentirá impotência diante de tanta injustiça, de tanta mediocridade, de tanta corrupção, de tanto favorecimento espúrio, de tanto compadrio, de tanta violência entre nações, que ampliam neuroses e desequilíbrios psíquicos e religiosos. E que nos fazem esquecer os caminhos de reintegração à vida social, os mecanismos que restituem a alegria de viver e as estratégias de bem combater a inveja, a mentira, a fofoca, o nepotismo, o moralismo, o puritanismo, a falta de coragem e a ausência de conteúdos éticos comportamentais.
Se estiver curtindo férias e desejar levar uns bons beliscões despertadores, recomendaria ao leitor os Aforismos sem Juízo, editora Bertrand Brasil, do jornalista e escritor Daniel Piza, autor de uma aplaudida biografia de Machado de Assis, Prêmio Jabuti. Seus aforismos são inimigos do chavão, posto que, segundo ele próprio diz, “o irracionalismo faz mal à paixão como o racionalismo à razão”.
Para que o leitor tenha uma amostra tira-gosto, eis alguns aforismos do Daniel Piza: “o preço do comodismo é a ignorância”; “não levar a vida a sério por não poder suportá-la é o drama brasileiro”; “o fanatismo é a ideologia do idiota”; “a ordem dos favores não altera o corrupto”; “não existe plástica para a burrice”; “qualquer pergunta fundamental envolve mais que uma área de conhecimento”. Os outros mais de 400 “aforismos sem juízo” do livro estão reservados para o leitor que busca reerguer-se, sacudir a poeira e dar a volta por cima, sempre entendendo porque todo aforismo “é um pensamento que corre por fora e que pode chegar primeiro, se alimentado com humor”.
No mais, nossa admiração por Charles Chaplin, o eterno Carlitos! Que nos deixou uma lição inesquecível: “Viva!!! Bom mesmo é ir a luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante”.
Depois das suas férias, leitor amigo, venha bem quente que o mundo já está fervendo!
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Maturidade Religiosa

No seu livro O Evangelho de Tomé – uma bússola para a evolução espiritual, Nova Era, 2006, o ex-sacerdote jesuíta Ron Miller, responsável pelo Departamento de Religião da Universidade Lake Forest, Illinois, EEUU e fundador da Common Ground, organização sem fins lucrativos para o estudo e o diálogo inter-religioso no mundo, conta dois fatos reais por ele vivenciados.
O primeiro aconteceu em 1999, por ocasião do Congresso Mundial de Religiões, em Capetown, Africa do Sul. Durante um almoço, ele sentou-se ao lado de uma bruxa wicca, uma religião neopagã fundamentada nos cultos da fertilidade que se originaram na Europa Antiga. Que lhe fez o seguinte comentário sobre o Dalai Lama, um dos conferencistas: “O Dalai Lama é uma pessoa adulta. Isto é um alívio”. Que Miller interpretou da seguinte maneira: “Pude entender tamanha inteligência e sabedoria. Vivemos em um mundo largamente dominado por crianças, e aqui me refiro às pessoas imaturas, não às pueris e inocentes”.
O segundo fato, contraponto magistral do primeiro, ocorreu defronte da residência de Ron, inverno brabo, quando ele preparava aula para a Common Fround. Um buzinaço insuportável interrompeu suas reflexões, fazendo-o dirigir-se até a janela. Na rua coberta de neve, dois motoristas acionavam as buzinas dos seus automóveis, um defronte do outro, quando havia um recuo logo atrás de cada um dos veículos. Quando os dois motoristas saíram dos seus respectivos assentos para uma discussão acalorada, dedos em riste, só lhe restou cerrar a janela e voltar para suas reflexões, tamanha a infantilidade comportamental dos brigões.
Embora cultuando um calendário católico durante uma vivência jesuítica de mais de vinte anos, Ron Miller acredita ser chegada a hora da estruturação de um outro tipo. E enumera uma lista de pessoas que poderiam ser nele incluídas, todas adultas, entre elas Maria Madalena, Moisés, Maomé, Santa Hildegarda, São Francisco de Assis, Buda, Ramakrishna, Martin Luther King Jr, Mahatma Gandhi e Thomas Merton. Um calendário com gente de todas as religiões, personalidades históricas que tivessem atingido um elevado nível de evolução humanitária.
Em seu livro, Miller é taxativo: “Evolução é nossa natureza. Limites, sistemas fechados, definições pueris – essas questões simplesmente não se enquadram nos propósitos humanos. Por isso, sempre me refiro em minhas aulas e livros aos três P’s do conhecimento: parcial, provisório e perspectivo”. Uma vacina efetiva diante do avanço dos fundamentalismos religiosos, que se infiltram ostensivamente em todos os rincões terrestres, num mundo onde a grande maioria que lê os Testamentos não os compreendem, oscilando entre o abandono imediato e o fanatismo irracional.
No livro O Evangelho de Tomé – uma bússola para a evolução espiritual, Ron Miller reverencia o papa João XXIII, “um homem que pôde viver com o despertar de sua própria identidade. Por ser um homem iluminado, encontrou coragem para abrir as janelas de todos os problemas, de maneira que a luz pudesse cintilar sobre a fragmentada Igreja. Infelizmente, todos os sucessores papais de João XXIII trabalharam rápido em fechar todas as janelas ecumênicas e progressistas”.
Cada um dos 114 versículos do Evangelho de São Tomé descoberto por alguns felás, beduínos egípcios, em dezembro de 1945, perto de um rochedo chamado Jabal al-Tarif, no Alto Egito, não muito distante da cidade de Nag Hammadi, amplia nossa maturidade. Não tendo sido por coincidência uma descoberta acontecida no ano do lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.
O Evangelho de Tomé reflete os ensinamentos ministrados pelo Homão da Galiléia, que jamais intentou fundar qualquer religião, apenas transmitindo como favorecer a paz entre os seres humanos, utilizando uma crescente energia interior, aquela que faz aproximar amorosamente a criatura do Criador, numa fusão de infinita maturidade.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Lei de Gresham estendida

Em Economia, a Lei de Gresham proclama: “a moeda má expulsa a moeda boa do mercado”. Em outras palavras, no Brasil: as coisas bandidas terminam por esconder as boas ações e as iniciativas corretas, gerando a impressão generalizada de que tudo está ao bel prazer dos ladrões e dos ali-babás, onde até trambiqueiros, travestidos de vestais, com auxílio de familiares fantasiados de assessores, violentam a dignidade brasileira, metendo as patas, como bestas-feras sequiosas, no patrimônio público. Gerando em inúmeros a sensação de que não adianta mais lutar pelo caminhar correto, ampliando a impotência diante de tanta injustiça, de tanta mediocridade, de tanta corrupção, de tanto favorecimento espúrio, de tanto compadrio. De tanta esculhambação, no final das contas.
O noticiário está repleto de “mimosidades” que maculam a credibilidade dos brasileiros conscientes. Um amigo-irmão, João Silvino da Conceição, anotou os principais fatos das últimas semanas. Uma pequena amostra: prisão, no Espírito Santo, de uma quadrilha togada, que utilizava linha sacaneira de montagem de sentenças para beneficiar um monte de comparsas, também salafrários; quatorze formandos de medicina da Universidade Estadual de Londrina ofendendo pacientes e soltando rojões dentro do hospital, portando bebidas alcoólicas, comportando-se como vândalos e pouco se lixando para o Conselho Regional de Medicina de lá; reitores de universidades sendo defenestrados por se locupletarem de finanças não pessoais; milhares de euros detectados em meias e cueca de um passageiro chamado Quadrado, já réu no processo do mensalão, tal e qual aquele assessor de deputado cearense que carregava um punhado de mil dólares também nos fundos; o enfraquecimento do INCRA para possibilitar a expansão do agronegócio na Amazônia; senador José Sarney definindo puxasaquisticamente a Dilma Rousseff, também no passado conhecida por outros cognomes, de “sacerdotisa do serviço público”, na presença do presidente Inácio da Silva, numa solenidade marqueteira em Palmas; e arrozeiros afoitos, pouco se lixando para o Poder Público, expandindo suas áreas cultivadas para dentro das reservas indígenas.
Puxa-saquismos e falcatruas quando se misturam dá um explosivo gota serena de trágico. E quando a paciência ultrapassa os limites do tolerável, é bom recordar o que aconteceu recentemente em Melbourne, Austrália. Uma dedicada vovó, Ava Estelle, 81 anos, ficou tão chocada quando dois delinquentes estupraram sua neta de 18 anos que conseguiu localizá-los, mandando bala nos seus equipamentos escrotais. Tomando um táxi, a vovó foi até a delegacia de polícia mais próxima, colocou a arma no balcão do plantonista e lhe disse com toda a calma: - "Por Deus, esses bastardos não vão estuprar mais ninguém!" A polícia informou que a virtuosa avozinha mandou para o outro mundo somente os bagos dos dois criminosos, ambos fugitivos de penintenciárias locais.
Especialistas do Judiciário australiano agora estudam o que fazer com a vovó guerreira, que seguramente cometeu um ato diferenciado. Um deles, o investigador Delp Jones, declarou à imprensa: - O que ela fez está errado e ela infringiu a lei, mas é difícil mandar uma velha senhora de 81 anos para a cadeia. Especialmente quando 3 milhões de pessoas na cidade querem nomeá-la Prefeito!
Fico a imaginar se a prática da vovó Ava Estelle for aplicada no Brasil para os alibabás do erário público, que não se aperceberam ainda da advertência feita pelo Dr. Sérgio Fernando Moro, culto e brilhante juiz federal de Curitiba, apenas 36 anos: “Urge fazer distinção. Democracia e direitos fundamentais não se confundem com Justiça de casta, e a aplicação igual da lei penal democrática não é autoritarismo. Justiça sem fim é justiça nenhuma”.
O que está pedindo o juiz Fernando Moro? Apenas “enxergância solucionatória” para viabilizar a missão mais importante, hoje, das lideranças nacionais: ressuscitar a esperança. Uma missão que vai muito além da verborragia do presidente Inácio da Silva.
PS. Um 2009 porreta para os militantes da Esperança!!!
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Um Livro Iluminador

Muito gostaria de ver o julgamento do presidente Bush e seus principais auxiliares por um tribunal internacional como Malfeitores da Humanidade. A invasão do Iraque já está sendo a mais lucrativa das guerras da história. Segundo estudo realizado pelo economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, os gastos já teriam ultrapassado três trilhões de dólares, vitimando mais de um milhão e duzentas mil pessoas, entre março de 2003 e agosto de 2007.
Somente uma empresa chamada Halliburton, que tem incluso em sua folha de pagamento o vice-presidente Dick Cheney, também Vice-Malfeitor, ganhou, através de uma subsidiária, um contrato de 7 bilhões de dólares “para cuidar da logística, da extração de petróleo, de reparos de emergência”. Contrato que foi firmado entre as partes sem qualquer concorrência. Divulgação da BBC, junho 2008: mais de 23 bilhões de dólares foram destinados para pagamento de propinas e outras fraudes, onde até mercenários particulares estão sendo pagos a razão de mil dólares/dia.
Uma outra empresa, a Bechtel Corp, também contratada sem concorrência alguma, “embolsou 2,3 bilhões para reconstruir a rede elétrica e de esgotos, o abastecimento de água e a infra-estrutura viária, deixou o Iraque em novembro de 2006 sem terminar uma única ponte”. Atualmente, os iraquianos têm duas horas de eletricidade por dia, 68% da população não bebem água potável, quase 70% de desemprego, 80% da população não possuem saneamento.
Os dados acima foram extraídos do livro O Deus Exilado: Breve História de uma Heresia, Civilização Brasileira, 2008. Sua autora, Marília Fiorillo, é professora de história da filosofia e doutrinas políticas na Universidade de São Paulo, PhD em História Social, com tese sobre o cristianismo primitivo e o Evangelho de Tomé. Ela denuncia, logo nas primeiras páginas do texto, os criminosos saques permitidos pela gangue Bush, quando “mais de 15 mil artigos de incalculável valor histórico, artístico e comercial (sumérios, babilônicos, partas) e centenas de milhares de tabuletas de escrita cuneiforme desapareceram”. Vandalizações praticadas em mais de dez mil sítios arqueológicos do Iraque. Sem contar as bombas que pulverizaram o Museu de Mosul e a pilhagem canalha do Museu Nacional Arqueológico de Bagdá, sob a complascência de um George Nero Bush, demência e deliqüência que não dignificam a memória histórica dos EEUU, de passados e gestos nobilitantes. Os que classificaram as barbaridades de “pequenos danos colaterais”, não devem ter seus nomes desgravados da lista dos que macularam a História da Humanidade.
O livro da professora Maria Fiorillo traz, na sua capa última, testemunho de personalidade muito aplaudida no cenário teológico mundial, Leonardo Boff, para quem o livro é “útil para entender o cristianismo sem as limitações e os vezos de que a pesquisa cristã e ecumênica padece”. Segundo ele, “o gnosticismo é anterior ao Cristianismo. Suas questões fundamentais estão ainda hoje na agenda de cada um: De onde viemos? Por que estamos neste mundo? Como podemos nos libertar do mal? Que salvação nos é prometida? ... Mais que uma filosofia, o gnosticismo significava um estado de espírito ou uma forma de habitar o mundo”.
Com um estilo sedutor, O Deus Exilado: Breve História de uma Heresia investiga com proficiente acuidade as múltiplas facetas do cristianismo primitivo, conservando-se distanciado dos dogmas e da rigidez institucional que muito contribuíram para mascarar a essência dos ensinamentos do Homão da Galiléia. Principalmente depois da descoberta do Códex Tchacos, nas proximidades das ruínas do retiro de Santo Antão, no Egito. Que revelou ao mundo já pós-moderno o Evangelho de Judas, até então totalmente desconhecido.
Razão plena tem Boff sobre o livro: leitura iluminadora e também libertadora. Que nos faz entender melhor sobre os cordeirismos e os cabritismos de uma era que necessita ser mais cidadã.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 14.01.2009)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Relembrando os paus do Mário

Neste início de ano, repleto de tropeços, sonhos desfeitos e decepções diversas, inclusive episcopais, ao rebu sendo acrescida a barafunda causada pela crise financeira internacional, ainda não devidamente percebida pelo presidente Lulinha, o da Marolinha, recordo um ex-companheiro da Fundação Joaquim Nabuco, Mário Souto Maior, eternizado sob protestos dos muitos que o amavam, eu incluso na relação.
Pesquisador do folclore nordestino, o Mário foi um dos mais legítimos perpetuadores da cultura popular nordestina. O seu lugar, como folclorista, está situado no primeiríssimo escalão. Os seus livros Nomes Próprios Pouco Comuns, Dicionário do Palavrão e Dicionário Folclórico da Cachaça ainda hoje subsidiam dezenas de textos, que necessitam de trilhas seguras e consistentes, distanciadas dos embusteiros travestidos de pesquisadeiros, macunaímicos uns, pra lá de vivaldinos a grande maioria.
Para uma leitura relaxante de férias, sempre ao alcance de uns taludos cajus e umas lapadas de uma bem destilada “branquinha”, aquela que é abominada pelos puritanosos de carteirinha, olhinhos virados e pantins diversos, recomendo um dos textos mais deliciosos do Mário Souto Maior: Geografia Popular do Pau Através da Língua Portuguesa. Trezentas e cinquenta expressões analisadas, sem resvalar para o chulo e o grotesco.
Sem apelar para obscenidades, no seu meticuloso ensaio Souto Maior demonstra como o pau contribuiu para as manifestações do nosso brasileiríssimo dia-a-dia, não de todo tragado pelos importados maneirismos primeiromundistas.
Imaginei logo uma pessoa muito distanciada das raizes da nossa gente buscando entender o significado da frase “no largo da feira de Casa Amarela encontrei o Dr. Fulano a-meio-pau, caindo pelas tabelas”. Ou uma outra, recém chegada do outro lado do mundo, com anos de bunda esfregada nos bancos da pós-graduação, não assimilando o pensar de um companheiro de universidade nordestina: “o deputado fulano de tal está sujo-que-nem-pau-de-galinheiro na CPI do mensalão”.
Outro dia, o fato foi contado pelo meu irmão João Silvino da Conceição, uma faxineira declarava para sua patroa que era pau-pra-toda-obra, indo logo por-cima-de-paus-e-pedras quando algum afoito desejava por-os-pauzinhos-ao-sol. E o marido da socialite quase cai em desespero, ao ouvir de um auxiliar que estava de olho grande num pauzão (mulher grande) e que por conta disso já estava ajeitando o pauzinho-do-matrimônio (os teréns do ajuntamento) E que o casório aconteceria rapidamente, pois gostava mesmo era de pau-na-égua (agilidade). Pedia apenas ao dono da casa, autoridade de primeira entrância, que fosse na sua vara bulir-com-os-pauzinhos, pois, mais que ninguém, o patrão era habituado a conhecer-o-pau-pela-raiz .
Para não fazer-casa-com-pau-bichado, li mais de duas vezes, de cabo a rabo, o livro do Mário Souto Maior. Também não desejando ser pau-de-amarrar-égua, nem tolerando os que adoram viver-à-sombra-do-pau, fiz questão de ganhar-os-paus para me deliciar com a pesquisa do Mário, meu ex-companheiro da Fundação Joaquim Nabuco, pai do Jan e avô do Bruno, dois arretados da Informática, consultores de tudo que é gente, inclusive ignorante que nem eu, um metido, vez por outra, a descobrir-o-mel-de-pau na minha área de trabalho.
Tomei ciência que souto, em Portugal, é bosque espesso. E o Mário Souto Maior, folclorista popular de primeira linha, nunca desejou mudar-de-pau-pra-cacete, ficando sempre na seara, convencido que nem-todo-pau-dá-esteio.
Não desejando deitar-os-pauzinhos-fora, esta crônica, com a licença do competente Roberto Tavares, ratifica uma demonstração de querer bem a um intelectual que jamais quis ser um dois-de-paus, em tempo algum desejando disputar-pau-a-pau com quem quer que fosse.
Um autêntico sábio nordestino, o Mário Souto Maior. Agrestino, jamais negou que se um-dia-é-do-pau-o-outro-é-do-machado. Hoje, na eternidade, os seus eflúvios continuam provocando imensas saudades.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Transexual Pioneiro

Gostaria de estar presente na posse do transexual Alessandro Sousa Santos, na Câmara Municipal de Salvador, Bahia, para lá testemunhar o clima de respeito. Eleito pelo Partido Republicano, Alessandro é mais conhecido como Léo Kret do Brasil, e irá representar a comunidade LGBT soteropolitana, lutando contra a homofobia e a discriminação.
Para quem ainda desconhece, a sigla GLBT foi substituída pela LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e trangêneros), aprovada na Primeira Conferência Nacional GLBT, realizada em Brasília, em junho de 2008. Conferência convocada por Decreto Presidencial de 28 de novembro de 2007, para propor diretrizes para a implementação de políticas públicas e o plano nacional de promoção da cidadania e direitos humanos do LGBT, avaliando e propondo estratégias para o Programa Brasil Sem Homofobia, iniciativas que visam promover a cidadania a partir da equiparação de direitos e do combate à violência e à discriminação.
As primeiras declarações do vereador Léo Kret do Brasil à imprensa impressionaram: - Quero mostrar a todos que sou transexual e respeitada. Kret carrega uma gigantesca responsabilidade, a de não possibilitar que sua atuação amplie preconceitos e discriminações sobre a comunidade LGBT, ensejando perseguições, humilhações e assassinatos.
Duas observações são necessárias, para esclarecimento dos desavisados: 1. A Classificação Internacional de Doenças (CID) não inclui a homossexualidade como doença desde 1993. A homossexualidade não é uma escolha, a pessoa nasce homossexual; 2. Orientação sexual é a atração afetiva e/ou sexual que uma pessoa sente pela outra. A orientação sexual existe e varia desde a homossexualidade exclusiva até a heterossexualidade exclusiva, passando pelas diversas formas de bissexualidade.
Na Conferência, as propostas dos GTs aprovadas na Plenária Final estavam distribuídas em áreas, favorecendo a implementação do Programa Brasil Sem Homofobia nos três poderes da República. Combatendo inclusive a intolerância religiosa estigmatizadora em diversos aspectos. E ampliando apoios ao PL 297/2008, que possibilita a troca do prenome dos interessados, e ao PL 122/06 que criminaliza a homofobia.
Concordo com o definido em documento específico: “a sexualidade não é sinônimo de coito, sendo uma disposição à experimentar a si mesmo e ao outro segundo o registro do prazer e da criação. Sexualidade é disposição que motiva o contato e a intimidade e se expressa na forma de sentir, de ser, de se relacionar. Sexualidade, portanto, refere-se a uma importante dimensão da experiência humana que está diretamente relacionada ao laço social.”
Para os homofóbicos, uma orientação: “Homofobia é conseqüência direta da hierarquização das sexualidades e do status superior arbitrariamente conferido à heterossexualidade, suposta como natural, em detrimento de outras manifestações e expressões das identidades e das práticas sexuais, tidas como inferiores ou mesmo anormais. A homofobia é um fenômeno que costuma produzir ou se vincular a preconceitos e mecanismos de discriminação, de estigmatização e violência contra pessoas LGBT e, mais genericamente, contra todas as pessoas (inclusive as heterossexuais) cujas expressões de masculinidade e feminilidade não se enquadrem nas normas de gênero, culturalmente estabelecidas. A homofobia, portanto, vai além do grave quadro de hostilidade e violência contra LGBT. Ela desencadeia e realimenta processos discriminatórios, representações estigmatizantes, processos de exclusão, dentre outros, voltados contra tudo aquilo que remeta, direta ou indiretamente, às práticas sexuais e identidades de gênero discordantes do padrão heterossexual e dos papéis estereotipados de gênero.”
Como heterossexual exclusivo e assumido, desejo boa sorte ao vereador Léo Kret do Brasil, na Câmara de Vereadores de Salvador, Bahia.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Meditações para Maltrapilhos

Nos primeiros degraus de 2009, quando se comemorará o centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara, o nunca esquecido arcebispo de Olinda e Recife, encareceria à minha gente amada, a leitura de um texto estruturado durante mais de duas décadas - entre alegrias, sofrimentos, desesperanças, fidelidades e infidelidades, desorganizações intelectuais e comportamentais - por um cristão que transita admiravelmente bem entre a academia e as favelas, povoados e cortiços do mundo inteiro.
Sem os pieguismos anestesiantes que desfidelizam juventudes, Brennan Manning é o autor do livro Meditações para Maltrapilhos, Mundo Cristão, 2008. Um caminhante que “realiza um magistral trabalho ao soprar a poeira da teologia desgastada e permitir que a graça de Deus faça o que somente ela pode fazer: maravilhar”, segundo testemunho de Max Lucado, um tampa-de-foguete pra lá de bom também.
O próprio Manning explica a razão de ser do seu trabalho: “Confiar de forma inabalável hoje num maltrapilho é algo extraordinário, porque em geral exige um grau de coragem que chega às raias do heroísmo. Quando a sombra da cruz de Cristo recai sobre as pessoas na forma de fracassos, pesares, rejeição, abandono, desemprego, solidão, depressão, a perda de um ente querido; quando ficamos surdos a tudo o mais, exceto ao bramido estridente da nossa próprIa dor; quando o mundo ao redor repentinamente se apresenta como um lugar ameaçador e hostil, bem podemos bradar de angústia: ‘Como um Deus de amor permite que isso aconteça?’. E assim é lançada a semente da desconfiança, obrigando-nos a uma situação de escolha: nos afastaremos de Deus, ou nos voltaremos em direção a ele mesmo quando a escuridão o esconde de nossa visão? Escolher a luz de Deus na noite escura do desespero é um ato heróico de coragem”.
Uma fidelidade que não deve impossibilitar a capacidade de caminhar, posto que somos sal da terra, ela tornando-se mais atabalhoada se perdermos o sabor, que pode ser interpretado tal e qual aquela letra de música que diz “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Sempre seguindo dois alertas de Dom Hélder Câmara: “A maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar”; "Quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista."
O trabalho do Manning está dividido em 365 meditações, cada uma delas acompanhada de um versículo apropriado. Os títulos das reflexões de Manning são alertadores por excelência, não devendo satisfazer os “docinhos de Jesus”, aqueles que se imaginam já premiados com a sorte grandona, já se sentindo aboletados na mesa principal lá de cima. Exemplos: Um convite à ação; Chamado, mas não para ser capacho; Sem espaços para fingimentos; A confiança que se arrisca; Espiritualidade machista; Usando máscaras; Fé ou Fórmula?. Pequenas cipoadas, ministradas com muita fraternidade, reativando convicções, erradicando bobajadas, desmontando crenças estéreis e realçando essências estruturadoras. Sem qualquer bolor. Nem cinismo.
Através de Manning, exercitaremos as três aberturas do Ser Humano: a abertura com o mundo (trabalho, celebração e festa), a abertura com os outros (diálogo, amizade, confrontação, amor) e a abertura com Deus (fé, confiança, obediência e compromisso). Rejeitando escravidões e abominando manipulações, inclusive as religiosas, descartando todas as instrumentalizações espúrias.
Evangelizador é todo cristão que busca esclarecer os intoxicados pelas crendices e superstições, inúmeras delas alimentadas pelos próprios cristãos, que ampliam neuroses e desequilíbrios psíquicos e religiosos. Evangelizar é implementar as recomendações do Homão: curar os enfermos (reintegração à vida social), ressuscitar os mortos (devolver a alegria de viver a quem está desesperançado), purificar os leprosos (os amaldiçoados), e expulsar os demônios (a inveja, a mentira, a fofoca, o nepotismo, o moralismo, o puritanismo, a falta de coragem e a ausência de conteúdos éticos comportamentais).
As reflexões espirituais diárias de Manning orientarão, em 2009, como multiplicar nossos esforços na busca da “viabilização do impossível”, fazendo-nos situar além da “implementação do viável”. Lastimando menos, concretizando mais.
Ser cristão é antever “enxergâncias solucionatórias”, efetivando a missão mais importante da Igreja, segundo Leonardo Boff: a de ressuscitar a esperança, “missão que vai muito além dos dogmas e das doutrinas”. Nunca menosprezando a advertência de Benjamin Disraeli, político britânico de origem judaica portuguesa, que foi primeiro-ministro do Reino Unido: “a vida é curta demais para ser pequena”.
PS. Citação bíblica contida na Meditações para Maltrapilhos, 1° de janeiro: “O Senhor lhe apareceu, dizendo: ‘Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atraí’” (Jeremias 31,3)