segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Educação em Direitos Humanos

Recentemente, mais uma denúncia nas páginas dos principais jornais brasileiros. Maus tratos e humilhações em seres humanos indefesos, praticadas por animalescos policiais militares. Que não foram devidamente capacitados em suas respectivas corporações, desconhecendo por completo uma reflexão feita pelo subcomandante Marcos, do Exército Zapatista, em 2001, aqui transcrita para todos os leitores deste Portal: “A Dignidade exige que sejamos nós mesmos. Mas a Dignidade não é somente que sejamos nós mesmos. Para que haja Dignidade é necessário o outro. E o outro só outro na relação conosco. A Dignidade é então um olhar. Um olhar a nós mesmos que também se dirige ao outro olhando-se e olhando-nos. A Dignidade é então reconhecimento e respeito. Reconhecimento do que somos e respeito a isto que somos, sim, mas também reconhecimento do que é o outro e respeito ao que ele é. A Dignidade então é ponte e olhar e reconhecimento e respeito. Então a Dignidade é o amanhã. Mas o amanhã não pode ser se não é para todos, para os que somos nós e para os que são outros. A Dignidade é então uma casa que nos inclui e inclui o outro. A Dignidade é uma casa de um só andar, onde nós e o outro temos nosso próprio lugar, isto e não outra coisa é a vida, e a própria casa. Então a Dignidade deveria ser o mundo, um mundo que tenha lugar para muitos mundos. A Dignidade então ainda não é. Então a Dignidade está por ser. A Dignidade então é lutar para que a Dignidade seja finalmente o mundo. Um mundo onde haja lugar para todos os mundos. Então a Dignidade é e está por construir. É um caminho a percorrer. A Dignidade é o amanhã”.
Para compreendermos com seriedade o movimento dos zapatistas, alguns dados se fazem necessários: enquanto o México se desenvolveu, a região indígena de Chiapas continuou parada durante décadas. As crianças ainda morrem de disenteria; o estado tem sete quartos de hotel para cada habitante, enquanto os leitos de hospital são apenas 0,4 para cada residente; enquanto Chiapas é o terceiro produtor nacional de energia elétrica e o primeiro em hidroenergia, só um terço das casas indígenas tem luz; a cada 35 minutos uma pessoa morre de fome; de cada 100 moradores, 54 são desnutridos. O jornalista Igor Fuser, México em transe, retrata os índios mexicanos: "são menos do que um negro no sul dos Estados Unidos antes de Martin Luther King e menos do que um operário nordestino nas alamedas perfumadas dos Jardins, o reduto da elite paulistana".
A Educação em Direitos Humanos exige que se alerte sobre as conseqüências políticas e sociais da atual globalização: menos pessoas com mais riquezas, produzidas com a exploração de mais pessoas com menos riquezas. Em outras palavras: "a pobreza do nosso século não é comparável a nenhuma outra. Não é, como já foi alguma vez, o resultado natural da escassez, mas o conjunto de prioridades impostas pelos ricos ao resto do mundo".
Aos que trabalham na Educação dos Direitos Humanos, devem ser ressaltadas as características da globalização: supremacia do poder financeiro, guerra, destruição/despovoamento, ataques aos Estados Nacionais, mercado como figura hegemônica que atravessa todos os aspectos da vida humana em todas as partes, maior concentração de riqueza em poucas mãos, maior distribuição de pobreza, aumento da exploração e do desemprego, milhões de pessoas sem moradia, delinqüência nas esferas públicas, entre outras mazelas.
Uma nova geração de cabeças pensantes se torna indispensável. Um dia, alguém escreveu: “A hora de voltar a travar o bom combate é chegada. O desânimo cívico acarretará conseqüências desagradáveis para todo mundo. A erosão da credibilidade não beneficiará ninguém. O momento está a exigir grandeza. E renúncia dos que ainda não se entrosaram eficazmente, para que a região possa reencontrar a sua história, sempre almejando possuir as duas mãos e o sentimento do mundo.”
É chegada a hora da reconstrução mundial em todos os quadrantes.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife, PE, http://pe360graus.globo.com)

Sobre o Danadão Chifrudo

Numa escola bíblica, área metropolitana de capital nordestina, a catequista ensinava que Deus tinha criado todas as coisas. - Tudo mesmo?, indagou um garoto de olhos binoculares, desse que não deixa passar nem um traque ilógico. – Tudo, mas tudo mesmo foi Deus quem criou, meu filho!, enfatizou, olhinhos revirados pro alto, a jovem que tinha pouca experiência no relacionamento com gente de QI esperto, estando mais acostumada com os quietosos, aqueles que pouco pensam, nada reclaman, sempre suspirando pela chegada da hora do lanche. E a pergunta questionadora veio de sopetão: - Até o Diabo?
A orientadora engasgou-se, tossiu que só, terminando por pedir para ir ao toalete se recompor. Ela ignorava o que os pesquisadores de cuca menos hermética chamam hoje de “auxiliar de Deus incumbido da tarefa de pôr em teste a devoção dos homens”. Erradicando definitivamente, para a pós-modernidade, a figura do Danadão Chifrudo, de rabo e tridente, de focinho parecido com ... deixa pra lá.
Conversando com um rabino de nomeada, ele me mostrou pesquisa de um professor emérito da Universidade da Califórnia, publicada no Brasil. Sob título Satã: uma biografia, Editora Globo, 2008, lá está escrito com todas as letras que “a figura de um demônio assustador não existe em nenhuma passagem das Escrituras”. E que “a identificação da serpente do Gênesis com o Diabo, assim como a imagem de um anjo caído que aprisiona e tortura almas no inferno, só surgiram muito posteriormente, durante os primeiros séculos da Igreja”.
Afoitamente, pedi o livro emprestado por quinze dias. Logo me arrependendo, não por ter medo do chifrudo, mas por um vício que me acompanha desde os tempos da UNICAP, onde me graduei: o de sempre sublinhar as partes mais interessantes do livro, não sendo possível tal proceder nos textos que são de propriedade alheia. Adquiri um exemplar na Livraria Cultura, onde sempre sou muito bem atendido pelo Cláudio, um relações-públicas-vendedor para ninguém botar defeito, que encontra o seu livro, sugerindo mais três ou quatro, todos de muito boa qualidade.
Segundo Henry Ansgar Kelly, autor do livro e também diretor do Centro de Estudos Medievais e Renascentistas da universidade acima citada, no Novo Testamento retirou-se de Satã as funções de um simples e detestável funcionário do Governo Divino, transformando-o no Danadão Chifrudo.
O livro é bastante esclarecedor sobre o Capeta, em suas várias características ao longo dos séculos. O autor explicita uma honestidade ímpar: “O perigo em todo escrito histórico é o impulso de fazer leituras atualizadas de acontecimentos passados tendo como base teorias atuais, ou seja, interpretar o passado à luz de conhecimentos mais recentes”. Uma reflexão que amplia o respeito pelo livro.
A pesquisa do Ansgar é apresentada em cinco partes. A primeira trata de saída dos livros datados a partir do século VI a.C., Números, Jó e Zacarias. Analisa depois a Bíblia Septuaginta, os Intertestamentários de Henoc e Jubileus e os Manuscritos do Mar Morto. Na segunda parte, dedicada ao Novo Testamento, são analisados os escritos autênticos de Paulo, os quatro Evangelhos, as cartas de Paulo não escritas por ele, onde Satã aparece como um funcionário do Governo Divino. A parte terceira analisa os Pais da Igreja, relacionados seus ditos com os de Maomé no Alcorão, enquanto a parte quatro apresenta a tese da Origem de Alexandria (254 d.C), quando o Danadão peca por orgulho. A parte última identifica a crença em Satã tal como praticada nos tempos modernos. O livro é concluído com pesquisa sobre as crenças e não-crenças da história do Diabo.
Os cristadelfianos
não acreditam que o diabo seja um anjo caído, mas sim uma personificação do pecado manifesto em indivíduos, associações/governos civis, militares e eclesiásticos. Não acreditam num anjo caído porque todos os anjos, segundo o que entendem por Verdade Bíblica, não pecam. Mas isso é assunto para uma outra oportunidade.
(Publicado no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Reflexões sobre Preconceitos

Confesso que me frustrei bastante em não comparecer ao lançamento do livro do Abdias Moura, dias atrás. Baitas problemas familiares impediram a minha presença na fila de autógrafos e aplausos. Entretanto, o livro Sexo, Nação e Cor, da editora Tempo Brasileiro, já foi lido e rabiscado todo.
Parabenizo Abdias pela contemporaneidade do tema e pela sua intenção de não transformar o texto numa discussão para ambientes apenas acadêmicos. O seu livro, leitura agradabilíssima, não resvala para pieguismos nem denuncismos cavilosos, tudo sendo analisado por quem é dotado de sólida formação universitária. Dele também li O Sumidouro do São Francisco e O Evangelho do Subdesenvolvimento, ensaios editados pela mesma editora.
Nunca é demais alertar para os preconceitos – os antigos e os emergentes – que pululam ao nosso derredor. Ainda outro dia aprendi uma lição notável, que me foi transmitida, via televisiva, pelo estupendo Milton Gonçalves, que infelizmente não é meu parente. O verbo denegrir contém um enorme preconceito racial, significando tornar-se negro, desejando-se diminuir o valor de alguém.
Nos ensaios, Moura analisa os preconceitos contra mulher, judeus e cristãos, muçulmanos, índios, raça, pobres e doentes, matuto e nordestino, bem como contra os homoafetivos. Na área racial, por exemplo, ele afirma que “por muitos anos, insistiu-se em dizer que no Brasil não existe racismo, mas isso é um discurso que não se sustenta diante de uma análise desapaixonada das ocorrências no nosso dia-a-dia”. E cita fato acontecido em 2007, no Maranhão, quando o compositor Geremias Pereira da Silva foi espancado até a morte, pelo fato de, sendo negro, ter sido confundido com um assaltante. O assunto nunca tendo sido objeto de interesse midiático, a nível nacional. E também relata fato acontecido no Recife, quando foi detida uma advogada que ofendera verbalmente um vigia negro, no bairro de Boa Viagem.
O preconceito mais antigo que se tem notícia é o que se manifesta contra a mulher. Se observarmos o livro do Gênesis, vê-se que dois escribas se pronunciaram: um disse que “macho e fêmea Deus criou-os”. Simultaneamente, a um só momento. Mais outro copista, mais machista e seguindo a cultura da época, escreveu que Deus criou o homem do pó da terra, a mulher sendo dele extraída através de uma costela. Tendo aparecido pelo simples fato de o homem não poder ficar sozinho, balançando seus “equipamentos” para baixo e para cima do Éden, sem companhia inspiradora, ainda que dele originária. Até o maior teólogo católico da Idade Média, Tomás de Aquino (1225-1274), considerava a mulher “um homem incompleto”. Raciocínio de quem, à época, só imaginava “aquilo” como identificador de superioridade. Até mesmo um monge beneditino, Odo de Cluny (1030-1097), proclamava que “abraçar uma mulher é como abraçar um saco de esterco". Diz a história não-oficial que tal declaração só se efetivou depois de uma noite de muito vinho, quando o monge, a mil doidão, entrou numa vacaria e esfregou-se lascivamente a um monte fecal destinado para o adubo de uma área de plantio.
Bem analisado também é o capítulo sobre o preconceito estabelecido contra os homossexuais. A exposição feita pelo Abdias Moura prima pela cristalinidade dos prós e contras, desde o Levítico, no Antigo Testamento, até uma matéria jornalística recente, divulgada em edição nacional, que falava da dificuldade do Sistema Nacional de Saúde em distinguir com objetividade gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, nas seus estudos de fertilização assistida, onde a fecundação não deveria acontecer por uma relação indesejada.
Apenas uma sugestão eu faria afoitamente ao Abdias Moura, profissional que prezo: a de, em futuro muito próximo, elaborar um ensaio sobre Multiculturalismo, Sincretismo e o Estatuto da Igualdade Racial. Para que possamos melhor analisar nossos preconceitos e cavilações, num país de ainda inúmeros senões.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife-Pernambuco)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Padrinho Inesquecível

A revista Algomais trouxe como reportagem de capa, em seu número de novembro, os 30 anos do Complexo Portuário e Industrial Governador Eraldo Gueiros, mais conhecido e admirado como Porto de Suape. Desenvolvimento, empreendedorismo e criatividade estratégica alavancando atividades que ensejarão a Pernambuco um PIB de R$ 140 bilhões por volta de 2020.
Entretanto, o que mais me sensibilizou na reportagem foi o testemunho de Emílio João Schuler Júnior, o funcionário mais antigo de Suape, advogado formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Emilinho, meu padrinho de casamento há quarenta anos!!
Talento, bom senso e dignidade, misturados a uma imensa dose de comunicação interpessoal, o Emilinho tem uma admirável história de vida, bem antes dos bancos universitários. De pai empresário do ramo de tecidos eternizado em plena fase produtiva, viu-se, como filho mais velho, com a responsabilidade de tocar o barco da casa com a sua mãe, família de cinco pessoas. Dona Conceição gerenciou por anos uma companhia de aviação de nomeada, no Recife. Atualmente residindo na Suiça, tem um filho que é aplaudido pastor, que estava para vir dirigir o Seminário Batista, o da rua do Padre Inglês, seminário de maior biblioteca teológica da região.
Para não atropelar as parcas receitas da casa, o Emilinho se “especializou” no troca-troca do Mercado de São José. Tecidos remanescentes da loja fechada, ternos paternos, relógios semi-novos, entre outras mil e uma peças, eram levados para o mercado, onde pontificava um vende-compra-permuta-e-volta-quanto? que sempre o beneficiava, graças à sua capacidade de, sem perder a ternura jamais, levar vantagem nas negociações. Em papos que muito favoreceram sua profissionalidade futura de excepcional mestre-de-cerimonial, olhos, ouvidos e bigodes sempre atentos. Tudo enturmado numa elegância e bons perfumes calibradores de uma conversa recheada de criatividade e sorrisos marotos, traduzidos em historinhas que não coram frade algum, embora todas engraçadíssimas.
Tenho o Emilinho como um dos tipos inesquecíveis da minha caminhada terrestre. Estudamos juntos na Escola do Tenório, edifício Pirapama, onde algumas vezes por mês lá comparecíamos para tomar contato com as novidades da praça, paulistas, cariocas e estrangeiras. De lá caminhávamos até o Pastel do Japonês, situado no hoje famoso Beco da Fome, onde um pastel-com-carne-e-queijo complementava o somente de carne que tínhamos usufruído minutos antes. Um pastel, o do japonês, que ainda reverencio, almoçando ou jantando na Quina do Futuro, cada vez melhor e mais freqüentada, as saudades do Emilinho emergindo a mais de mil, deixando-me mais próximo dos meus tempos de universidade e de outros “estudos”.
De excelente memória, o Emilinho, hoje, é um milionário de amigos, seus admiradores. Graças a ele, conheci o Caxangá Golf Clube, as peripécias de Mr. Pickwick e as aventuras de Oliver Twist, personagens notáveis de Charles Dickens, além de outras indicações que o espaço não comportaria, tampouco nossa atual serenidade conjugal. Sua predileção era fotografias e equipamentos de equitação. Seu quarto de solteiro era repleto de livros raros, estampas de época, tudo muito supervisionado pela mãe atenta, nunca autoritária, dignidade comportamental para ninguém botar defeito.
Tenho certeza que por esta crônica o Emílio João Schuler Júnior não esperava. Mas eu a fiz, logo após ler seu depoimento sobre Suape, para dar testemunho de uma amizade imorredoura sentida por um padrinho de casamento que sempre se portou como se de mim um irmão de mesmo fosse, sem cavilações nem puritanagens, sendo mestre nas orientações das “agens” que muito contribuíram para o meu caminhar. Uma delas, a risadagem, para ficar numa sem censura. Arma bem utilizada pelos combatentes das lorotagens dos que imaginam o tsumani financeiro mundial uma marolinha. Debilulagem das grandes.

(Artigo publicado no Jornal do Commercio, Recife – PE, 19.11.2008)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Recuperação para todo mundo

O acontecido numa escola municipal do Recife, dias atrás, é sintoma de uma sociedade que se encontra muito enferma. Um débil mental, desejando inconscientemente ter o mesmo noticiário televisivo de um outro anormal, aquele que sequestrou e matou uma adolescente em São Paulo, resolveu esfaquear a ex-namorada em pleno espaço escolar. Espalhando pânico e terror num ambiente que deveria ser acolhedor por excelência, favorecendo um saber ser na direção de um ter suficiente para uma sobrevivência cidadã.
Alguns quantitativos educacionais, entretanto, revelam o que está acontecendo “por debaixo dos panos”, como diz a música do Ney Matogrosso. E são por demais preocupantes: sete em cada dez brasileiros, de 15 a 19 anos, não possuem condições de conseguir um emprego de bom salário. Reflexo da má qualidade do ensino na América Latina, segundo o BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento. No Brasil, dois outros indicativos são lastimáveis: 43% dos jovens não possuem ensino fundamental; e dos que concluíram esta faixa de ensino, 50% não lograram aprovação no nível 1, o mais elementar de um exame de leitura.
Será que a precariedade se localiza apenas nos dois primeiros graus de ensino? De jeito maneira!, como diz o nosso homem do campo. Muito recentemente, dois professores titulares da renomada Universidade de São Paulo assim se pronunciaram num artigo de jornal: “No centro nobre da Cidade Universitária instalaram-se pelo menos sete agências bancárias, mas não há um museu de ciências, uma bela livraria, um bom teatro ou cinema. Nem mesmo se instalou a biblioteca Mindlin, cuja doação foi anunciada há cerca de dez anos”. Situações, lá e cá, que apontam para uma degradação do sistema educacional brasileiro, com as cada vez menores exceções que merecem aplausos.
Na opinião de Célio Lasmar, leitor atento, “educação é um assunto deveras relevante, pois a educação é o único processo conhecido para se construir seres humanos úteis, responsáveis e produtivos e que venham a agregar valores e conhecimento à sua sociedade e à espécie humana como um todo”. E foi contundente: “se depender de pesquisas, artigos, e boas intenções de alguns poucos, jamais chegaremos a lugar algum em termos de dar às nossas crianças um ensino de alta qualidade, que venha a formar além de profissionais para o mercado de trabalho, cientistas, pesquisadores, cidadãos de verdade cientes do funcionamento da sociedade, de seus deveres para com ela e de seus direitos diante dela”.
Creio ser chegada a hora de proporcionar uma recuperação para todos os setores educacionais da nossa sociedade, hoje submersa num estupidificante hedonismo individualista. Que a embromação seja combatida, como tudo indica que aconteceu com mais de 600 municípios brasileiros, que elevaram os índices de aprovação na Educação Básica para melhorar ou manter o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, de 2005 a 2007, o desempenho dos alunos em Matemática e Português tendo caído ou sofrido perniciosa estagnação. Segundo o aplaudido professor Mozart Ramos, presidente-executivo do movimento Todos Pela Educação, já foram identificadas as capitais brasileiras onde os valores do IDEB aumentaram, havendo piora no desempenho em Português e Matemática. Uma lição que deve ser apreendida pelos não-demagogos: aprovar não significa que o aluno aprendeu ou que a escola cumpriu sua função de ensinar.
Cobrar responsabilidade de toda a sociedade, eis inadiável tarefa para todos aqueles que desejam ver o país ingressar no rol das nações soberanas.
O tempo urge e os amanhãs já chegaram. A atual crise financeira mundial pode oferecer lições duradouras para os dirigentes educacionais, para os pais conscientes, para as igrejas desalienadas que postulam a libertação do ser humano todo e de todos os seres humanos. Cumprindo-se efetivamente o que estabelece o artigo 32 da LDB e a nossa Constituição, chamada um dia de Cidadã.
(Publicada no site da Revista ALGOMAIS, Recife-PE, www.revistaalgomais.com.br)

domingo, 16 de novembro de 2008

Por um novo modo de ser família

Muito recentemente, um talentoso executivo, Ênio Resende, lançou um texto que tem tudo a ver com os tempos ultra-velozes que estamos vivenciando. Intitulado As 4 Principais Lideranças da Sociedade e suas Competências, Editora Summus, é destinado a pais, educadores, gerentes e líderes comunitários. Quatro categorias radicalmente imbricadas, não ingenuamente principiadas pelo autor pela mais significativa liderança da pós-modernidade, os pais, hoje a necessitar de uma estratégia reestruturadora condizente com os amanhãs que já se encontram instalados entre nós, globalizadamente.
Com a responsabilidade de também serem educadores, gerentes e líderes comunitários, pois afinal de contas não estão situados isoladamente num pedaço do deserto, os pais, segundo Resende, devem ser possuidores de algumas qualidades: saber entender a psicologia de crianças e adolescentes; saber entender as atitudes rebeldes das crianças e jovens, mantendo a calma diante deles; empenhar-se no desenvolvimento de empatias com filhos e colegas deles; saber impor respeito pela firmeza e coerência de atitudes, sem autoritarismos nem hipocrisias; saber inspirar confiança; saber tratar de questões delicadas com os filhos; saber não ser paternalista; saber ser amigo, bem mais que autoridade; e saber como dar mais e melhor atenção. Acrescentaria algumas outras, também muito necessárias: perceber-se uma metamorfose ambulante, a la Raúl Seixas; possuir acurado senso crítico em relação ao IMI (Indicadores das Mutabilidades Internas) e ao IME (Indicadores das Mutabilidades Externas); combater sistematicamente a perversidade das nostalgias e dos saudosismos, sabendo saudavelmente envelhecer; reconhecer que a quase totalidade dos ontens não mais retornará; ampliar a auto-estima, nunca explicitando coitadismos, moralismos, puritanismos, vitimismos e dolorismos; sempre ter em mente que nada é casual, tudo é causal, bastando se olhar mais acuradamente para os ontens acontecidos; e apreender que “humildade demais não faz bem ao caráter de um cidadão decente”, como diz Luiz Berto, autor do muito aplaudido O Romance da Besta Fubana, principalmente quando a tal humildade apenas é fantasia escolhida para engabelar os desligadões dos derredores.
Quando constato pais aparentarem posturas recheadas de portentosos níveis de fingimento, fico a rememorar a Parábola da Solidariedade do Frei Beto: “Havia milhares e milhares de brasileiros formando uma grande roda em torno de imensa e fumegante montanha de feijão-com-arroz. Todos, portando enormes talheres, buscavam trazê-las à boca, nada conseguindo pela extensão do garfo. Era um inferno. Num outro contexto, milhares e milhares de outros brasileiros se amontoavam em torno de uma gigantesca porção de feijão-com-arroz. Com garfos enormes, maiores que os do primeiro contexto, alimentavam-se a contento, cada um levando o feijão-com-arroz à boca do outro”.
Vivemos atualmente, no Brasil inclusive, uma profunda crise ética. Uma crise umbilicalmente associada a uma gigantesca reestruturação econômica mundial. Agravada em nosso país pela fragilidade de uma educação cidadã, ministrada por pais e professores, que se encontram ainda distanciados de um assumir mais consequente, cada parte transferindo para a outra competências que lhe são inerentes. E essa ausência de um comprometimento ético efetivo com a transformação do hoje acarreta conformismos e desesperanças, ampliando individualismos mórbidos, fazendo o todo resvalar para um viver sem as “enxergâncias” dos amanhãs, a gerar ondas comportamentais predatórias, de consequências funestas.
Num contexto de radicais mudanças, a revitalização das funções dos pais, também como educadores, gerentes e líderes comunitários, torna-se uma questão de sobrevivência societária. Muitos furos acima da mera ampliação dos níveis de escolaridade, se está exigindo deles talento e sensibilidade, compromisso e compreensão, visão futura e o dever de jamais tornar rotina o que vem sofrendo alterações cenariais contínuas, a ninguém sendo permitido esconder-se por detrás de passados que não mais retornarão.
Não desejamos uma sociedade de consenso, tampouco de pensamento único, mas carecemos fazer um omelete quebrando o mínimo de ovos possível, os pais bem dotados de agilidade política e credibilidade moral, aliadas a uma convivialidade prazerosa, sem a qual estaremos nos remetendo para um não-futuro desagradável para todos.
Para todos os pais leitores desta revista, uma parábola judaica exemplifica bem como se pode sair do atual bulício familiar. Servirá para pais, e mães naturalmente, que se encontram tonteados, sem saberem por onde começar. Mais ou menos é essa a versão: um homem de classe média, profissional liberal, remediado, temente a Deus mais por covardia que por princípio, saiu para uma caminhada na floresta e nela se perdeu. Vagueou horas sem fio, tentando encontrar a saida para o seu sufoco . Para onde ia, nada encontrava. De repente, deparou-se com um outro ser humano. E perguntou de bate-pronto: "Você pode me mostrar o caminho de volta à cidade, pois tenho que efetivar algumas providências ?". A resposta do outro o intrigou: "Também estou perdido. Mas podemos juntos ajudar um ao outro". Diante do abismamento provocado, a conclusão recheada de muita esperança: "Vamos agir em conjunto. Cada um pode dizer ao outro os rumos que já tentou e que não deram certo. Certamente isto nos ajudará a encontrar o caminho correto".
Creio que a hora da sociedade civil voltar a travar o bom combate é chegada, voltando-se mais para as questões familiares. A erosão da credibilidade paterna não beneficiará ninguém, nem mesmo os mais conservadores e autoritários. O momento está a exigir grandezas. E renúncias. E novas apreensões culturais. E gestos não-machistas concretos. Democracia, discernimento e disciplina, eis o trio de qualquer soerguimento familiar.
Para todos os pais, analisar os novos horizontes é prova de fidelidade a um futuro que já se aboletou entre nós, tal fato somente não enxergando quem teima em continuar abulicamente vivendo na idade da pedra lascada, ainda que portando telefone celular e dirigindo motores importados. Tal e qual aqueles que nos remeteram, no filme-parábola, ao Planeta dos Macacos... E saber compreender as grandes lições de Peter Drucker, um homem de leituras amplas, recentemente eternizado, mestre em perguntas simples e devastadoras, daquelas que deixam os “ispecialistas”, aqueles que se imaginam notáveis, só com a cara e a coragem de continuar enxergando o “quase nada”. Uma das suas, parece até que voltada para todos os pais: Por que todo homem absorto nas rotinas cotidianas do seu serviço possúi uma mente confusa e obstruída por preconceitos e cavilações mentais?
Eu tenho um amigão, João Silvino da Conceição, um arretado PhD em coisas da vida, que costuma dizer que todo pangaré que fica sempre olhando para os seus problemas, será por eles derrubado. E cita não sei quem, alguém que ele leu e muito gostou: “Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”.
Saber ser antes de ter é postura sábia. Ter sem ser é guilhotina na certa.

(Artigo publicado na revista Programa Escola de Pais do Brasil, no IV Seminário Inter-regional Norte/Nordeste e II Seminário Regional Seccional Recife-PE, Recife, PE, lançada em 15 de novembro de 2008)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Futebol & Conhecimento

Uma pequena amostra do noticiário esportivo dos últimos tempos: 1. Um campeão do mundo seduzido por um prostituto de rua, levado para um motel com mais dois travestis, causando uma barafunda da gota serena, tudo terminando numa delegacia de polícia; 2. Em plena partida de futebol internacional, jogador irracional, doido por quinze minutos de fama, arranca cartão amarelo das mãos do juiz com ferocidade tipicamente animal; 3. Atleta de Olimpíada se descontrola em plena competição mundial, ao perceber extravio de sua vara, perdendo também um lugar no pódio vencedor; 4. Atleta, fricotamente envaidecido por um já-ganhou antecipado por bobeira feita por competidor anterior, dá uma cambalhota mal feita, caindo com os quartos do chão e as mãos na face, cobrindo choro descontrolado; 5.Técnico de futebol, apatetadamente, sendo flagrado enviando uma “banana” para a torcida.
Tudo faz crer que os acontecidos acima retratam uma emocionalidade deficitária, causada por fatores vários, desde idióticos eudeusamentos midiáticos até cavilosidades familiares dos que antes não gozavam aplausos, passando pelos marqueteiros que induzem ascensões falaciosas dos ainda em formação.
Para uma melhor compreensão, reproduzo uma parábola contada por monges budistas: numa excursão, um jovem encontrou um ninho de águia. Retirando de lá um ovo, alojou-o em casa sob uma galinha chocadora. O resultado foi o nascimento de um filhote de águia no meio dos pintainhos. Bem criada, a aguiazinha não sabia sequer que não integrava a categoria. A falsa galinha jamais tomou a iniciativa, até observar uma águia sobrevoando o galinheiro em missão caçadora. Uma convicção surgiu: ”Não sou galinha. Não nasci prá viver em galinheiro. Meu destino é o céu”. E alçou vôo, deslumbrada, imaginando-se muito águia, embora conservando toda a formação de galinha. Resultado: tornou-se águia, sem jamais ter abandonado uma mentalidade de galinha.
Na área dos esportes, principalmente na do futebol, amador e profissional, um banho educacional (conhecimento + comportamentalidade + desindividualismo + invenção do futuro) se torna urgente. Para jogadores, técnicos e dirigentes, inclusive os das federações, os primeiros sendo os mais prejudicados, abandonados no frigir dos ovos. No Sindicato dos Jogadors Profissionais, por exemplo, nunca se deveria esquecer a advertência famosa do sociólogo espanhol Ortega y Gasset: “Como é possível rãs discutirem sobre mar, se nunca sairam do brejo?” Que bem complementa um conhecido provérbio iídiche: “Para o verme num rabanete, o mundo inteiro é um rabanete”.
Através de uma estratégia de ampliação do conhecimento e da cidadania, facilmente se reconheceria os talentosos de mesmo, renegando os gigantes da fanfarria e os anões neuroniais, inimigos mortais de todo e qualquer ramo profissional. Somente através de consistentes dinâmicas educacionais se poderia erradicar os mentalmente ananzados e os fafas grandalhões, os que apenas fingem ser, sem um mínimo senso crítico, facilmente superados antes de atingir a linha de chegada.
Outro dia , alguém disse: “Quem tropeça na educação, murcha no crescimento”. As promessas de vida fácil, com muito dinheiro, estão multiplicando os otários compulsivos. E quando o otário é alertado, sente-se ressentido, como se o mundo inteirinho estivesse tentando destruir seu tresloucado projeto de enriquecimento ultra-rápido.
Diz um escritor amigo meu, o Luiz Berto, que: “Pode-se perdoar tudo num homem, menos que não bote força para deixar de ser burro”. Em outra palavras: para que o futebol não afunde, temos que ter uma nova maneira de pensar.

(Publicado no Portal do Fernando Santana, hoje empresário bem sucedido, um dos maiores atletas da história do futebol pernambucano, de quem fui, com muito orgulho, professor na Universidade, Curso de Administração)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Frases para todos os gostos

No Komida Kaseira, encontrei o João Silvino da Conceição saboreando um pernil de cordeiro, depois de umas preliminares de caldinho e arrumadinho de carne, adentradas ao ritmo de algumas lapadas geladíssimas de “refrigerante” de cor bem branquinha.
Serelepe como nunca e bem humorado que só, o João Silvino mostrava a todo mundo seu laptop, adquirido em dezoito prestações, chique todo, antes da crise braba que se alastra mundo a fora. Muito embora o terremoto financeiro tenha sido interpretado como simples marolinha pelo Lula, um presidente que nunca sabe direito sobre o que está acontecendo pelos seus derredores, tudo explicado rapidamente por qualquer “boa idéia”.
O João Silvino tinha, como página principal do laptop, o sítio http://www.frasear.com, onde se podia ler mais de um milhar de frases, algumas de gente famosa, outras de alguns paspalhões da política, complementando a parte folclórica do endereço eletrônico.
Uma das frases mais aplaudidas foi a de Abraham Lincoln, versando sobre a mediocridade. Dizia: “Deus deve amar os homens medíocres. Fez muito deles.” Um prato cheio para tempos de agora, favorecendo o bate-boca dos presentes, os risos se multiplicando através das “estórias” extraídas do Guia Eleitoral. O salão do restaurante explodindo em vivas quando alguém descobriu, lendo bem alto, uma frase de Theodore Roosevelt: “Quando respondem à chamada no Congresso, os parlamentares não sabem se respondem ‘presente’ ou ‘inocente’”. Lá como cá, safadões há.
Uma citação promoveu uma especulação danada, todo mundo querendo dar seu pitaco. A frase é do antigo mandão político da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, temido ACM: “Todos sabem que não sou prostituta, mas todos sabem que ele é ladrão”. Os palpites sobre o nome do salafrário variavam de A a Z, passando por Jaboatão dos Guararapes e a candidatura de Paulo Maluf, em São Paulo, entre os de maior citação.
A algazarra só serenou quando um senhor de cabelos grisalhos, fartos bigodes, afrodescendente, manifestou o desejo de mostrar aos presentes um livro que adquirira na véspera e que o induzira a uma leitura de varar noite, tamanha as sabedorias nele contidas. Diante da curiosidade da maioria, alguns analfabetos políticos brechtianos ficando nas deles, O Livro das Citações foi retirado de uma bolsa de couro de tira comprida, das que pós-graduados logo se identificam. Utilizando-se de um subtítulo, Um breviário de idéias replicantes, Eduardo Gianetti, mineiro que também escreveu o oportuníssimo Vícios privados, benefícios públicos, expõe reflexões de notáveis, classificando-as em quatro grandes blocos. Cada citação traz o nome do autor, as notas situadas no final da coletânea contendo a identificação integral da fonte pesquisada.
Uma frase lida pelo proprietário do livro o deixou ainda mais admirado pelos presentes. De Karl Popper, a reflexão citada: “Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença entre nós no que diz respeito aos fragmentos que conhecemos, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância”. Com o sorriso próprio dos bons espadachins da réplica e tréplica, leu um pensamento de Montaigne, que desalentou visivelmente os poucos disleriados que fingiam entender o que estava se passando no salão do restaurante: “a obstinação e a convicção exagerada são a prova mais cabal da estupidez. Haverá algo mais enfático, resoluto, desdenhoso, contemplativo, grave e sério do que um burro?
Os aplausos aconteceram com uma espontaneidade estusiasmante. E reduplicaram, quando o afrodescendente de cabelos brancos, óculos de grau e bigodes fartos, leu a última reflexão, atribuída a Confúcio: “Se um país é regido pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria são objeto de vergonha. Se um país é regido pelos princípios da razão, a riqueza e as honras são objeto de vergonha”.
A tarde, para muitos, foi de intensa reflexão sobre o ocorrido no restaurante bom demais.
(Publicada, hoje, no Portal da Globo Nordeste, Recife – PE, http://pe360graus.globo.com)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Um pedido de socorro

Entusiásticos aplausos para o concurso infanto-juvenil promovido recentemente pelo Jornal do Commercio, com a efetivação da redação Cidadania – Meu Lugar no Mundo. Uma iniciativa que pode alavancar muitas outras.
No Grupo C, de crianças de 10 a 12 anos, o vencedor foi Bruno Cavalcanti, 11 anos, aluno da Escola Municipal Levino Ferreira, do Recife. Ele, como os demais premiados, merece os múltiplos parabéns de todos os nordestinos. Transcrevo abaixo sua redação, para que os leitores do Portal ALGOMAIS possam aquilatar melhor a cidadania do vencedor. Ei-la:
Cidadania significa a paz das pessoas. Respeito das pessoas. Aonde eu moro não tem cidadania porque lá não tem a igualdade das pessoas. Lá tem mortes todo mês; crianças não brincam com medo de tiro; a rua é deserta no sábado e no domingo. A prefeitura não liga para o que está acontecendo não bota policiamento nas ruas eles não ligam mesmo. Lá onde eu moro tem uma escadaria que tem muitos abusos com as crianças, como estupros e a polícia não chega lá. Quem pegou alguns tarados foram as pessoas que moram lá. Assim, eu queria que mudasse, mas ninguém liga. Eu sou uma criança que estuda em um colégio que não tem nenhum lugar de lazer, então não me divirto. Quando eu chego em casa tem que ajudar minha mãe, eu queria saber se a vida é assim mesmo, com discriminação, sem amizade, sem amor. Mas se a vida não tiver amor não tem nada de paz. A vida seria escura, mas todas pessoas podem mudar.”
Confesso, Bruno, que percebi na sua carta, educada sob todos os aspectos, um baita pedido de socorro, em nome de todas as crianças do Nordeste. Uma região que necessita ser possuidora de uma maior dose de responsabilidade social, ampliando o bem-estar dos seus filhos menos favorecidos, antes que eles se voltem, por desesperança aguda, para “negócios” outros que enriquecem os sabidos de sempre.
Na sua carta, Bruno, você clama pela erradicação das iniciativas demagógicas que matam o ser humano de vergonha e viciam o cidadão, como cantava Luiz Gonzaga, o rei do baião. Por iniciativas pedagógicas poderiam ser citadas escolas de mentira, com diretores e professores mal remunerados e sem consistente capacitação pedagógica, além de edificações-cloacas sem segurança. Além dos cursos embromatórios de pedagogia em “falcudades” que apenas se preocupam com boletos de pagamento.
Leia, Bruno, com atenção, o que escreveu Betty Milan: “A escola deve se ocupar da formação do cidadão. ... Temos que ensiná-las a discernir amizade de cumplicidade. A escola precisa educar transmitindo valores. ... Fazer da escola um lugar de doutrinação é um equívoco, como dizia a filósofa alemã Hannah Arendt. Porque a doutrinação é contrária ao desenvolvimento do espírito crítico, que a boa educação também requer”.
Você soube escrever sua redação, Bruno. Mas não sei se você sabe que, segundo dados do IBGE, “dos 2,43 milhões de pessoas de sete a 14 anos que não sabem ler e escrever, a grande maioria (87,2%) está matriculada em alguma turma de ensino fundamental ou médio”.
Acredito, Bruno, que a sua redação ampliará a consciência dos dirigentes públicos do nosso Nordeste. Que deverão atentar mais para a educação fundamental das nossas crianças, reestruturando os cursos de pedagogia, que concentram, segundo pesquisa recentemente efetivada pela Fundação Carlos Chagas, mais de 3.000 disciplinas, onde apenas 5,3% da carga horária é destinada ao ensino infantil.
Mas a tarefa da cidadanização é de todos, Bruno. Das associações de moradores, dos sindicatos dos professores, dos Conselhos Estaduais e Municipais de Educação, que deveriam ser possuidores de uma “enxergância” estratégica sem as “burocratâncias xerográficas e carimbológicas” que fazem babar os que possuem obsessão por muitas folhas de processo, se possíveis amareladas e com traças.
E não se esqueça de ler O Analfabeto Político, um poema do Bertolt Brecht, que o fará ainda mais cidadanizado, lhe asseguro com toda estima e admiração.
(Publicado no site da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco,
www.revistaalgomais.com.br)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Hora de Agigantar-se

Quando se lê análises de gente talentosa, sem demagogia nem populismos vagabundóides, pode-se ampliar a esperança em nosso futuro nacional, apesar das estrepolias dos mundos financeiros internacionais e dos peritos criminais de mentirinha que são contratados para encobrir façanhas assassinas. Jacques Attali, autor de Uma Breve História do Futuro, editora Novo Século, aponta as onze potências econômicas e políticas que emergirão até 2025: Japão, China, Índia, Rússia, Indonésia, Coréia, Austrália, Canadá, República Sul-Africana, Brasil e México. Mesmo sem relevar as turbulências do capitalismo mundial, que “está submetido às mesmas ameaças que as das formas anteriores: a sua segurança está em perigo, a sua classe criativa não é mais leal, os progressos técnicos industrialmente exploráveis são cada vez mais lentos, a economia é cada vez menos rentável, a especulação financeira cada vez mais desenfreada, as desigualdades se agravam, a raiva grita, um endividamento considerável se desenvolve.”
Sobre os amanhãs, Attali dedica o capítulo final ao Brasil. Ele levanta três hipóteses pelas quais o Brasil nunca conseguiu tornar-se potência: primeira, porque é um país herdeiro de uma história colonial e política atormentada, sempre dominado por proprietários fundiários e castas burocráticas e militares, desligados do desenvolvimento industrial, do lucro, da mobilidade, da inovação e das tecnologias, sempre vivendo na saudade de um passado magnífico. A segunda prende-se à negligência sobre a constituição de uma força naval, uma marinha militar e comercial forte, não atentando para o desenvolvimento portuário, nunca se preparando convenientemente para o retorno do nomadismo. A terceira é por demais dolorosa: o país nunca formou suficientes marinheiros, engenheiros, pesquisadores, comerciantes e industriais, jamais atraindo para seus rincões cientistas, financistas, empreendedores qualificados, “hoje se encontrando gangrenado pela máfia, pela corrupção, pela prostituição e pelas drogas”. E diz ainda: “um crescimento mais rápido do Brasil depende da sua capacidade de consolidar sua estabilidade monetária, sanear duradouramente as suas finanças públicas, implantar um ambiente fiscal favorável aos investimentos privados, desenvolver a sua indústria de exportação, melhorar a qualidade do seu sistema educacional e reformar um setor público obsoleto e corrompido que impede sua competitividade”.
Attali declara que “o Brasil nunca se tornou uma potência porque não soube, em momento algum, obedecer às leis da história do futuro”. E dá um balizamento: “o futuro do Brasil dependerá de agora por diante da maneira pela qual ele conseguir curvar-se às regras do sucesso: criar uma Estado sólido, um Estado justo, uma democracia transparente, criar um meio-ambiente relacional, suscitar um desejo de um destino comum, favorecer a mais livre criação, construir um grande porto e uma grande praça financeira, formar equitativamente os cidadãos nos saberes novos, desenvolver maciçamente os seus laboratórios de pesquisa, a sua capacidade florestal, o seu sistema financeiro, a sua indústria agro-alimentícia, as energias de substituição, dominar as tecnologias do futuro, elaborar uma geopolítica e fazer as alianças necessárias”.
A ampliação da inteligência da classe política brasileira, atualmente em patamar dinossáurico, para aqui não ofender os nossos parentes primatas, está diretamente relacionada com a ampliação da cidadania pátria, única capaz de favorecer a emersão de uma inteligência coletiva, muitos furos acima da simples soma das inteligências dos humanos.
A lição última: “o bem comum da humanidade será ainda maior, na medida em que um número maior de humanos tiver acesso aos bens essenciais”.
PS. Também recomendável ler Karl Marx ou o Espírito do Mundo, de Attali. Pra evitar as bobajadas esquerdeiras.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife - Pernambuco, 05.11.2008)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Um pensante sem fricote

Imagino a cara de horror dos puritanosos, aqueles que se utilizam de lenço de papel extra macio para urinar, evitando pegar “naquilo”, se lessem o ensaio da estupenda escritora Hannah Arendt sobre Ângelo Giuseppe Roncalli, o sempre recordado papa João XXIII (1958-1963), empreendedor do Concílio Vaticano II. O texto se encontra em Homens em Tempos Sombrios, Companhia de Bolso, 2008.
Depois do passamento de Pio XII, Angelo Roncalli foi, com grande surpresa para si, eleito papa
em 28 de outubro de 1958, na 11ª votação, tomando o nome de João XXIII (Ioannes PP. XXIII, pela grafia latina). Homenageando São João Evangelista, a escolha causou uma enorme surpresa, dado o último pontífice a chamar-se João fora o francês Jacques D'Euse (João XXII), na Idade Média.
O serpentário do Vaticano tinha suscitado o nome de Roncalli, por imaginá-lo modesto, idoso e “bonzinho”, já bem próximo da saída terrestre. E porque não tinham chegado a um acordo. Escolheriam o gorducho Roncalli por ter ele as características de um candidato provisório e transitório, que não perturbaria os dissimulados conservadores entocados na Cúria. Antes disso, eles tinham até conseguido deslocar o arcebispo Giovanni Battista Montini para Milão, fazendo com que Pio XII não lhe concedesse o chapéu cardinalício, impossibilitando sua presença no conclave, tornando-o não elegível, mesmo indo de encontro às leis da igreja que possibilita a qualquer homem batizado e maior de idade ser o escolhido.
No Brasil, se diz com muita freqüência, que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Acredito que foi o que aconteceu com a eleição de Roncalli. E ouso dizer que a eleição de João XXIII foi uma “pegadinha” do Espírito de Deus, que “incutiu” na mente dos notáveis do Colégio dos Cardeais uma total ignorância sobre quem era Roncalli. Uma afirmação posta no Diário do próprio, depois de eleito, é prova substancial da “pegadinha” praticada: “eles dizem e crêem que sou um tolo. Talvez eu seja, mas meu orgulho não me permite pensar assim. Este é o lado engraçado em tudo isso. ... Esqueceram que ser manso e humilde não é a mesma coisa que ser fraco e complacente”.
A simplicidade de Roncalli lhe custou contrariedades, provocadas por tensões entre ele e o vespeiro romano. E tudo começou já em 1925, quando ele foi designado visitador apostólico na Bulgária, uma função classificada de “semi-obscuridade”, lá permanecendo por dez anos. Ele mesmo escreveu, vinte e cinco anos depois, sobre “a monotonia daquela vida, que era uma longa seqüência de alfinetadas e arranhões diários”. Em 1935, foi transferido para Istambul, onde permaneceu por mais dez anos, até ser núncio apostólico em Paris, em 1944, onde ele confessa “a diferença entre meu modo de ver as situações no local e certas formas de julgar as mesmas coisas em Roma fere-me consideravelmente; é a minha única cruz efetiva”.
Com Angelo Roncalli, segundo Hannah Arendt, simplicidade não significava abestalhamento nem ovelhicidade aparvalhada. Certa feita, foi abordado pelo embaixador Franz von Papen, que lhe encareceu uma “mãozinha” em Roma para obter o apoio do papa à Alemanha. Uma resposta exemplar foi dada: “E o que vou dizer sobre os milhões de judeus que seus conterrâneos estão assassinando na Polônia e na Alemanha?”. O fato aconteceu em 1941, quando a fúria assassina dos nazistas ainda tomava suas primeiras iniciativas.
Um outro lado da personalidade do papa João XXIII também é narrado pela consagrada escritora judia: “Haviam chegado encanadores para consertos no Vaticano. O papa ouviu um deles praguejar em nome de toda a Sagrada Família. Ele saiu e perguntou educadamente: - "Você tem de fazer isso? Não pode dizer merda! como nós?".
Todas as histórias acima, segundo Arendt, mostram um João XXIII com “um verdadeiro desapego às coisas do mundo, uma magnífica liberdade de preconceitos,... um senso quase voltaireano”.
Decididamente, João XXIII era um papa não moralista. Sem fricotagem alguma.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste – Recife, Pernambuco)

Para consolidar amanhãs

Passadas as emoções de mais um pleito eleitoral, dois alertas necessitam ser mais trombeteados pelos quatro cantos do país. Primeiro: a valorização da passividade cívica é caminho certo para a domesticação do todo, favorecendo a ampliação dos que, proclamando-se os puros do planeta, postulam alcançar um lugar ao sol, continuando descompromissados com a dignidade política e a evolução comunitária.
O segundo é dirigido aos milhões de cristãos brasileiros de todas as denominações: sem senso crítico não se percebe o quão distanciada está a Igreja dos anseios de uma população marcada pela fome e por uma crescente desesperança. E sem senso crítico de todos os filhos do Homão jamais se edificará uma Igreja Cidadã irmã siamesa de uma Igreja Religião. Esta, sem aquela, a pregar um evangelho repetitivo, de mentalidade enfadonha, sem muito realce na unidade comunitária. A outra, buscando uma mensagem evangélica adequada à realidade, sempre atenta à complexidade global, criativa na formulação de dinâmicas evangelizadoras multiplicadoras de habilidades e competências “cabríticas”, nunca “ovelhísticas”, as primeiras paulofreireanas por derradeiro, identificadas pelas mentes que ultrapassaram a “consciência ingênua”, adotando uma “consciência crítica” evolucionária. As segundas, vivendo de balidos lamuriosos e olhinhos revirados.
As indagações emergem com facilidade: Como deve ser a função da Igreja, em suas múltiplas denominações, diante dos novos e desafiantes contextos mundializantes, que estão a exigir a maximização dos diálogos inter-religiosos? Que esclarecimentos construtivos e movimentações renovadoras podem cativar inteligências, eliminando os torpores que apenas desmoronam estruturas e autoridades? Onde estão as autoridades emergentes renovadas, que reafirmem a análise de Hans Küng, um dos talentos teológicos contemporâneos: “Pastores e mestres têm suas tarefas específicas. Nem teólogos metidos a bispos, nem bispos metidos a teólogos”?
Para os cristãos comprometidos com as reduções das excrescências sociais que agridem o nosso planeta, a leitura de Desafios aos Cristãos do Século XXI, Paulus, refaz energias, amplia maturações para novas formas de agir. Algumas afirmações do padre Comblin são verdadeiras vacinas contra as bobajadas dos que imaginam que os problemas se resolvem num simples estalar de dedos ou numa frase idiota para apalermados: 1. O mundo dos excluídos veio para ficar; 2. O atual sistema econômico domina de modo absoluto o mundo todo, somente o contestando alguns intelectuais sem poder; 3. Estamos ainda na fase inicial da exclusão, o que está vindo por aí tende a ser ainda pior, posto que não depende de um governo, regime político ou constituição de Estado; 4. É irresponsabilidade pensar que o problema da exclusão social está sendo resolvido e que algumas boas pregações podem mudar a evolução atual do mundo; 5. Os excluídos estão formando um mundo próprio, separado, com sua cultura e relações sociais; 6. A cultura do mundo dos excluídos não é muito conhecida, porque não consegue interessar aos sociólogos; 7. A função do poder executivo consiste em comprar os votos dos congressistas para que aceitem as decisões tomadas pelas instâncias do poder econômico; 9. Os funcionários públicos estão destinados a uma vida cada vez mais medíocre. 10. A influência da Igreja na atual sociedade é minima, para não dizer inexistente.
O teólogo Brian D. McLaren ressalta: “faça distinção entre tradições eclesiásticas e a tradição cristã, e tire a ênfase da primeira, colocando na última”. Perceber que os velhos padrões estão cada vez menos eficazes já é um modo novo e muito promissor para quem deseja cidadanizar-se cristãmente, observando as árvores sem jamais deixar de perceber a extensão do bosque. Exigindo iniciativas que sobrepujam os denominacionalismos que estão em ritmo há muito tempo declinante.
(Publicado no site da Revista Algomais, Recife-Pernambuco,
www.revistaalgomais.com.br)