terça-feira, 30 de setembro de 2008

Solidariedade para tempos críticos

Uma senhora muito bem situada na vida, antigamente madame vai-com-as-outras-que-eu-topo-tudo, tinha se tornado cristã já tarde na vida. Certa tarde, quando andava por um dos jardins do seu bairro, acompanhada de uma neta, ouviu os lamentos de um mendigo. Compadecida, colocou uma nota de pequeno valor em sua mão. Mais adiante, também contribuiu com a APAF – Associação Pernambucana de Apoio aos Doentes de Fígado, sediada no Hospital Universitário Osvaldo Cruz, no Recife. Ouvindo, então, uma oportuna observação da neta de seis anos:
- Vovó, acho que a senhora perdeu muito dinheiro desde que se tornou cristã, não é?”
- Perdi, respondeu sorrindo a amada vovó. Perdi meu temperamento explosivo, meu hábito de criticar os outros e a tendência de gastar todo o meu tempo livre em eventos sociais banais e em prazeres sem significado algum. Também perdi um espírito ganancioso e egoísta. E também perdi a mania de viver de sobrenome e diplomas conquistados.
E com uma alegria contagiante, completou:
- Em compensação, o que eu ganhei você nem calcula. Ganhei paz de espírito, no poder da oração; ganhei um Amigão que está sempre comigo, que me conhece, me ama e me protege; e ganhei uma fé que não dá lugar a nenhum temor, principalmente quando estou trabalhando como voluntária, auxiliando os que mais necessitam. Estou feliz pelo que perdi e nada paga o que ganhei!

Como anda a sua Fé na Humanidade, a partir da que você edificou em nome do Homão da Galiléia?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Além do apenas medíocre

Como as denominações cristãs estão se tornando cada vez mais conservadoras, quando não reacionárias, neste ainda engatinhante terceiro milênio fico a imaginar muitas vezes as pedradas sofridas pelos que tiveram a coragem de ser herege, vocábulo que significa aquele que escolhe. E de imediato me solidarizo com Ariel Alvarez Valdés, sacerdote católico, teólogo e biblista, licenciado em Teologia Bíblica pela Faculdade Bíblica de Jerusalém, diploma conquistado com a distinção Summa cum Laude. Também PhD em Teologia Bíblica pela Universidade Pontifícia de Salamanca, Espanha, autor de múltiplos textos que buscam a divulgação popular da investigação científica da Bíblia, com traduções em italiano, francês, inglês, alemão, flamengo, russo, ucraniano e romeno.
O padre Valdés foi muito recentemente “enjaulado” pela Congregação para a Doutrina da Fé, a mesma Santa Inquisição de ontem, de nome agora pomposo e sem mais o furor assassino fogueiral de antigamente. Punição crudelíssima, apesar de, em 1999, um perito contratado pelo Vaticano para analisar os textos do sacerdote ter declarado que os seus trabalhos “prestam um grande serviço aos católicos com pouca formação” e que “a notável acolhida que seus escritos tiveram entre os agentes de pastoral indica um reconhecimento de seu serviço à Igreja nessa tarefa de ampla divulgação”.
A perseguição da ex-Santa Inquisição teve início em 1995, quando o titular da Congregação era o papa atual. Apesar de, em 2006, o Vaticano ter dado por satisfeito os esclarecimentos prestados, em 2007 um novo censor foi indicado e novas retratações foram exigidas. Até que, em 3 de abril deste ano, uma carta assinada pelo bispo Angelo Amato informava a adição de um novo “texto para ser acrescentado ao elenco das retratações”, ressaltando, observe-se a pusilanimidade, que “o autor não deve fazer nenhuma referência a esta Congregação na publicação das retratações”. Uma covardia eclesiástica, das estupidamente vis com certeza.
O mais lamentável é que o acovardamento se espalhou. Ainda que não tenha defendido Alvarez Valdés, o presidente da Sociedade Argentina de Teologia, um tal de Victor Manuel Fernández, tranqüilizou os associados, entendendo que as considerações sobre o caso “nos ajudam, uma vez mais, a precisar bem o alcance das sanções, para não dar a entender que qualquer sanção afeta o livre desenvolvimento de nossa investigação teológica ou exegética em temas que continuam abertos ao debate”. Em outras palavras: Tudo bem, macacada, nada para alarme! Muito embora o padre Ariel Alvarez Valdés continue punido por causar “perplexidade”, não podendo escrever ou ensinar até que aceite retratar-se, afirmando “que o faz por vontade própria e não a pedido do Vaticano”. De morrer de rir, toda a pantomima.
Outro dia, manuseando a nova edição do livro do pastor presbiteriano Jonas Rezende, também cortado da sua denominação por uma santa punição, encontrei uma declaração de Lúcio Flávio Villar Lyrio, famoso delinqüente brasileiro, até mote do filme premiado Passageiro da Agonia. Onde ele enfaticamente proclama: “Numa sociedade de perseguidores e perseguidos, eu quero ser perseguido porque o perseguido tem a opção de todos os caminhos, mas ao perseguidor só resta ir atrás do perseguido”.
Para quem nunca leu, eis a dica: chama-se Deus Fora do Espelho, o texto de autoria de Jonas Rezende, editora Mauad. Que leva a opinião balizada de Antônio Carlos Vilaça: “o livro é forte, no sentido de que rompe a barreira do convencional, da mediocridade, da rotina”.
Uma leitura para cabritos, imprópria para as ovelhas lamuriosas que não percebem a sábia ironia de Bernard Shaw: “o poder não corrompe: idiotas, entretanto, se chegam ao poder, corrompem o poder”.
O povo é sempre sábio: Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento. Caminhemos ... cantando sempre e seguindo, sem mais medos inquisitoriais, o Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste – Recife, Pernambuco)

sábado, 27 de setembro de 2008

História de um Vivente

Recebo de presente, pelo correio, mais uma louvável iniciativa da Editora Paulus: Jesus, a história de um vivente, do teólogo Edward Schillebeeckx, um dos responsáveis, na Holanda, por uma teologia que “denunciava, de maneira mais enérgica e por vezes mais ruidosa que os outros, o atraso, a incompreensibilidade, a ineficácia e a inatualidade das estruturas teológicas tradicionais, que já constituem mais uma arma em mãos do ateísmo do que um instrumento a serviço do Evangelho”, na análise feita por Battista Mondin, em Os Grandes Teólogos do Século Vinte, Teológica 2003. Uma coletânea bastante demandada pelos que observam um dos mais espetaculares fenômenos dos últimos tempos: o despertar dos leigos de todas as igrejas, cristãs e não-cristãs, pelas questões religiosas e teológicas.
Como ainda não me debrucei sobre o livro editado pela Paulus, tomei conhecimento do teólogo Schillebeeckx através de exposições didáticas do meu caríssimo irmão anglicano Gustavo Oliveira, quando dele fui aluno nos ainda bons tempos de Seminário, em Boa Vagem. Segundo Gustavo, Schillebeeckx é belga, nascido em Amberes em 1914, tendo estudado Filosofia e Teologia em Lovaina, ingressando na Ordem Dominicana em 1934. Doutorou-se em 1951, tendo participado dos trabalhos do Concílio Vaticano II, juntamente com o teólogo Hans Küng. Os dois, com mais alguns outros, inclusive Dom Hélder Câmara, vistos como “observadores comunistas” pelos integristas do conclave.
Segundo pesquisa feita na Internet, “depois do Concílio Schillebeeckx foi sujeito a investigação por parte do Vaticano por conta de suas escandalosas opiniões heterodoxas concernentes ao nascimento da Virgem, da instituição da Eucaristia, da Ressurreição e do fundamento da Igreja”. Ele até foi chamado de “maldito perito conciliar”, entre outros mimos. Até o Cardeal Suenens levou sua lamborada: “Da lista negra, ele (Suenens) foi promotor dos carismáticos heréticos – declarou que a o Concílio Vaticano II foi a Revolução francesa dentro da Igreja. Este cardeal Suenens é um dos nomeados por Nossa Senhora das Rosas, e que receberá um grande castigo pela sua participação na destruição da Igreja”, segundo padre Kramer em seu livro, onde não criticou o perito Joseph Ratzinger, por razões hoje plenamente conhecidas de todo mundo. Revela ainda a pesquisa que, desde 1968, Schillebeeckx é objeto de observação e de críticas por parte da atual Congregação para a Doutrina da Fé. Em 1979 foi chamado a Roma para depor diante dela.
Segundo o pensar de Schillebeeckx, “os dogmas têm um sentido dentro de uma perspectiva histórica determinada e utilizam noções tomadas de uma cultura particular.” Essa historicidade leva-o a reinterpretar os dogmas, levando em conta as condições da existência dos homens. Por isso, a ortodoxia só é plenamente possível sobre a base de uma “ortopráxis”: é na prática efetiva da Igreja que se realiza uma nova compreensão da mensagem da fé.
A unidade de uma mesma fé e de uma mesma confissão só é reconhecível na “pluralidade de opiniões teológicas”. E o “que é verdade para o teólogo, o é também para cada crente”. Num mundo secularizado, “Deus manifesta-se normalmente sob a forma de ausência”. Ao abordar os problemas do ponto de vista histórico, aplica-os também Schillebeeckx à figura de Jesus, cujo estudo tem lhe valido duras críticas.
Abaixo, alguns pensamentos de Edward Schillebeeckx, um dos responsáveis pela renovação teológica holandesa e um dos idealizadores do à época controvertido Catecismo Holandês.
"A proximidade de Deus aos seres humanos e seu amor vivificante podem tornar-se realidade na Igreja quando esta se realiza no mundo"; "O passado demonstrou que, muito antes de a Igreja ter analisado os problemas sociais, já houve pessoas que através de seu compromisso pessoal e de um diálogo pré-analítico com o mundo chegaram à decisão moral de que mudanças fundamentais eram necessárias”; "O mundo e a história dos homens, em que Deus quer realizar a salvação, são a base de toda realidade salvífica: é aí que primordialmente se realiza a salvação... ou se recusa e se realiza a não-salvação. Neste sentido, vale 'extra mundum nulla salus', fora do mundo dos homens não há salvação”; “Há mais verdade (religiosa) em todas as religiões no seu conjunto do que numa única religião, o que também vale para o cristianismo"; “Maria é o braço que une a humanidade santa e salvadora de Cristo à nossa humanidade”; "Jesus é Deus em linguagem humana"; "É preferível não reconhecer a Deus, não acreditar na vida eterna do que acreditar num Deus que em nome da outra vida despreza, oprime e humilha o ser humano nesta vida"; "O Reino de Deus está essencialmente ligado à pessoa de Jesus de Nazaré”.
A fé cristã deve ser uma busca sempre renovada, como ensinou Martinho Lutero, o principal da Reforma. Também levando em consideração os horizontes planetários que se avizinham, depois do início histórico do século XXI, neste mês de setembro de 2008.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Origens das Patifarias Brasileiras

Ao telefone, o João Silvino da Conceição estava pra lá de apoplético: - Veja como anda a trambicagem na Câmara de Vereadores do Recife!! Não envergonha todos os recifenses que possuem decência?! Com exceção de uns bem poucos, a quase totalidade meteu os pés pelas mãos na fabricação de recibos falsos e outras molecagens. Só queria que o povo pernambucano desse um troco bem arretado nas eleições de outubro próximo, devolvendo para a sarjeta os que de lá jamais deveriam ter saído. Tá demais a esculhambação nacional!!! Parece até que razão integral tem a letra daquela música que diz “Tá tudo dominado...!”.
Procuro amenizar a ira do João, recomendando-lhe a leitura de um livro que já se encontra em sua terceira edição, editora José Olympio. Um texto elaborado pelo historiador Emanuel Araújo, um sergipano que trabalhou com Antônio Houaiss na Enciclopédia Mirador Internacional, também tendo sido Diretor da Editora Universidade de Brasília, presidindo posteriormente seu Conselho Editorial até 2000, quando eternizou-se. Intitulado O Teatro dos Vícios, nele estão contidas cenas deliciosas de peraltices as mais diversas, acontecidas em nossa sociedade urbana colonial, desde cópulas intermediadas por demônio, freiras namoradeiras, bispos que se esfregavam em parentes próximos, além de maridos de ceroulas e mulheres de bustos à mostra. E enriquecimentos rápidos, uso de recibos falsos, burocratas venais e nepotismo desenfreado de civis, militares e religiosos, praticados diante de uma comunidade que desconhecia sua cidadania, preferindo espelhar-se nas escabrosidades cometidas pelos maiorais de então.
Conta Emanuel Araújo que o padre Vieira, certa feita, diante dos despudorados nepotismos praticados escreveu: “vota o conselheiro no parente, porque é parente; vota no amigo, porque é amigo; vota no recomendado porque é recomendado; e os mais dignos e beneméritos, porque não têm amizade, nem parentesco, nem valia, ficam de fora. Acontece isto muitas vezes! Queira Deus que alguma vez deixe de ser assim.”
Fiquei a me lembrar de artigo publicado, há poucos dias, na Folha de São Paulo, por um deputado federal nordestino que, sem um menor pingo de pudor, defendia o nepotismo por ele praticado em seu gabinete, nele lotando dezenas de parentes. E me lembrei de umas outras lambanças praticadas por gente metida a moralista, puritanosa de carteirinha, na obtenção de auxílios financeiros beneficiadores de familiares muito próximos. Cujo processo foi enviado passando por cima de paus e pedras, sem a menor consideração pelas instâncias decisórias intermediárias.
Quantos empreendimentos, no passado, foram implementados “pra boi dormir”, ou “pra inglês ver”? O Banco do Brasil foi criado por Dom João VI para favorecer um pedido de empréstimo de alguns seus amigos. E a Universidade do Brasil foi instituída por decreto, sem uma sala de aula, para se conceder o Honoris Causa ao então rei da Bélgica. Por coisas como tais, um mercador inglês, Thomas Lindley, escreveu um dia: “prevalece a astúcia mesquinha e velhaca, principalmente quando efetuadas as transações com o estrangeiro, aos quais pedem o dobro do preço que acabarão aceitando por sua mercadoria, ao passo que procuram desvalorizar o que terão de obter em troca, utilizando-se de todos os artifícios ao seu alcance.”
João Silvino da Conceição saiu menos afogueado, ainda que bastante enraivecido pelas patacoadas últimas acontecidas em nosso território, em todos os setores, muitas delas praticadas pela certeza da impunidade. E muito apreciou os versos de Gregório de Matos, século XVII: “Mas todos nos alegramos / que isto somos e isto fomos, / que então alegres nos pomos / quanto mais nos enganamos.” E externou sem muita convicção: - Será que assim somos porque nunca tivemos uma guerra civil de verdade, tudo tendo acontecido por obra e graça de múltiplos jeitinhos e inúmeras safadezas?
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Historinha Simples

No Seminário Vesgo, onde todos se esmeravam para falar teologuês bem complexo, para satisfazer o maiorzão que tinha estudado até javanês, um docente aprumadinho declarava para seus corujosos ouvintes que os atributos de Deus se classificavam teologicamente em absolutos e relativos, naturais e morais, positivos e negativos, próprios e metafóricos.
Atônito, o encarregado dos serviços gerais de limpeza, cabra danado de inteligente, apesar da escolaridade nula, comentou para o porteiro:
- Essa classificação mais confunde que esclarece. Lá na minha comunidade a gente aprendeu que os atributos divinos podem ser os seguintes: Unidade, Eternidade, Espiritualidade, Onisciência, Onipotência, Onipresença, Imutabilidade, Sabedoria, Verdade, Santidade, Justiça e Bondade.
Reflexão do porteiro:
- Bem que me disseram que para entender a Divindade não se precisa de muita escolaridade. Basta apenas saber com amor aspirar as essências...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Elegildo, um cidadão muito arretado

Encontro o João Silvino da Conceição, sempre cabrito e nunca ovelha, antenado todo diante das eleições do próximo dia 5 de outubro, quando novos prefeitos e um bocado de vereadores serão eleitos no Brasil. Ele me informa que já escolheu os seus candidatos, depois de uma conversa muito porreta que teve com o Elegildo, na Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, onde eles freqüentam os cultos dos domingos, sob a batuta do dinâmico deão Sérgio Andrade.
Perguntado se poderia revelar as “dicas” recebidas do Elegildo, Silvino não se faz de rogado:
1. Eliminar os candidatos de partidos-picaretas, que somente vêm a público em época de eleição. “Dize-me em quem votas e eu direi que tipo de cidadão tu és”, um ditado danado de bom.
2. Nunca se deve votar apenas pelo rosto bonitinho, ou carinha engraçadinha. Ou pelo andor.
3. Caridade é bonita. Aproveitamento da miséria dos outros é coisa bem diferente.
4. Desconfiar de quem promete resolver tudo sozinho, tal e qual um Pai Grande, protetor dos “frascos e comprimidos”, na ingenuidade recente de um rapazote interiorano.
5. Observar bem se o candidato tem o “rabo” preso a fatos que contrariaram os interesses dos mais necessitados.
6. Desconfiar de quem explora a vida pessoal dos demais candidatos. Crítica política é uma coisa, agressões gratúitas e pessoais são outros quinhentos.
7. Evitar boca-de-urna, já levando pro caminho da urna as suas escolhas.
8. Saber que não basta apenas votar. Tem que acompanhar a atuação dos eleitos.
O João Silvino me disse ainda que o Elegildo chegou pra ficar de vez. Para fazer diminuir cada vez mais o número de eleitores abobados, aqueles que votam errado ou votam nulo.
E ressaltou todo serelepe: - Daqui pra frente, vou sempre ouvir cada vez mais o Elegildo. Para nunca mais me deixar enganar pelos demagogos de carteirinha.
Percebendo que a acomodação é um atentado contra as recomendações do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador, fui conversar com o Elegildo, sendo muito bem recebido na sua residência, um quartinho pequenino que lhe foi concedido pelo meu irmão Epitácio Gueiros, administrador da Catedral. Durante o papo, acompanhado de um suco de mangaba feito a capricho, o Elenildo me mostrou os Dez Mandamentos de um caminhar efetivamente cristão em busca de um contexto mais humano e solidário para o nosso Pernambuco. Com a devida permissão dele, explicito-os: 1. Jamais ser revolucionário morto; 2. Não confiar nos que pensam ter esboços mágicos e respostas definitivas; 3. Não temer, em momento algum, discutir, discordar, debater e projetar cenários-amanhãs; 4. Nunca fingir dialogar, transparecendo espírito amargo e dogmático; 5. Respeitar as instituições legislativas e judiciárias, jamais permitindo, pela omissão, que elas resvalem para a classificação “coisas bolorentas e inúteis”; 6. Entender que o ativismo das minorias é reflexo das necessidades de um novo sistema de produção; 7. Difundir sempre que os movimentos reivindicatórios das comunidades são mais que necessários e desejáveis, posto que despertadores para futuros menos injustos; 8. Incentivar, legitimando, a diversidade, com todos tendo direito a vez e voz; 9. Sempre impossibilitar as tiranizações civis, militares e eclesiásticas; 10. Compreender e difundir sem esmorecer a Mensagem Libertadora de Jesus de Nazaré, que sacrificou-se para que “todos tivessem vida e vida em abundância”.
Segundo Elegildo, a sobrevivência dos anéis e dos dedos de todos estão na razão direta da vontade política da participação de todo mundo. E é ele mesmo quem ressalta: “o ditado ‘pimenta no abre-te-sésamo dos outros é refresco’ é alerta para gregos e troianos. A hora mundial é de muito refletir para um agir rápido e consistente, solidário e nunca-suicida.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste – Colunistas 360)

Um papo com Rubem Alves

Vez por outra me imagino entrevistando alguém talentoso que admiro, coletando as respostas dos seus textos mais significativos. Um exercício que me faz um bem danado, porque me torna mais próximo do entrevistado, mesmo que apenas no faz-de-conta.
Outro dia, “entrevistei” o Rubem Alves, um dos intelectuais mais conhecidos do Brasil, possuidor de uma imensa capacidade de deixar fingidos e amacacados com as calças nas mãos e as cuecas por comprar. Eis o que aconteceu, contando com ajuda de um casal irmão que muito admiro:
P: Por que o espirro tem semelhança com o orgasmo?
R: Porque ele começa com uma discreta coceira, que vai crescendo até estourar numa explosão eólica extremamente prazerosa seguida de alívio. Até os antigos bolaram uma forma de ter orgasmos nasais artificialmente, inventando o rapé. O rapé era o Viagra nasal daqueles tempos. Espirro dá prazer sem fazer mal.
P. Como se pode definir a ciência?
R. A ciência é a caça de um pássaro definido de antemão que, depois de apanhado, será preso numa gaiola de palavras.
P. Como está se sentindo diante das homenagens prestadas no último 15 de setembro, quando completou 75 anos?
R. Tal e qual Alberto Caeiro: “Procuro despir-me do que aprendi, procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desencaixotar minhas emoções verdadeiras, desembrulhar-me e ser eu, animal humano que a natureza produziu”. E fico com uma pena danada dos adultos que assumiram a máscara de adultos, que se identificaram com isso que a sociedade fixou como normalidade para pessoas de uma certa idade.
P. Quem o senhor considera poeta?
R. O Patativa do Assaré, um homem extraordinário. Veja o que ele escreveu: “Pra gente aqui ser poeta / Não precisa professor / Basta vê no me de maio / Um poema em cada gaio / Um verso em cada fulô”. Somente os poetas sabem que um ovo é muito mais que um ovo ...
P. Como vê a moda da Inteligência Emocional?
R. Não existe Inteligência Emocional, o que existe é Emoção Inteligente.
P. Uma declaração de amor?
R. A de Fernando Pessoa: “Quando te vi amei-te já muito antes. Tornei a encontrar-te quando te achei”.
P. Quando os seres humanos perderam o Paraíso?
R. Quando deixaram de ser crianças brincantes e se tornaram adultos trabalhantes ...
P. E a relação pais e filhos?
R. Conheço pessoas bem informadas que são idiotas perfeitos. O que se ensina é o espaço manso e curioso que é criado pela relação lúdica entre pais e filhos. Lembro-me de um pai que levava o filho para brincar. Com a mão esquerda empurrava o balanço. Com a direita segurava o jornal que estava lendo. Em poucos anos, sua mão esquerda estará vazia. Em compensação, ele terá duas mãos para segurar o jornal.
P. Como você definiria Deus?
R. Para mim, Deus é o nome que dou a um vazio imenso que mora na minha alma, vazio onde voam os meus desejos na esperança de encontrar, no futuro, as coisas amadas que o tempo me roubou.
P. Gosta de ler?
R. Aprecio muito. Mas toda leitura, como dizia Schopenhauer, só é boa quando é bovina, quando leva à ruminação. Sempre recordando Karl Popper: “Nós não temos a verdade. Nós só podemos dar palpites...”
P. O senhor tem dúvidas?
R. Inúmeras. Penso que as convicções são as principais armas do Diabo. O cristianismo e o islamismo se edificaram sobre certezas. Sempre tiveram medo da dúvida, pois têm medo de pensar, pois é na dúvida que o pensamento se inicia. Por isso, as crianças são os melhores teólogos, fazendo perguntas que ninguém mais faz.
P. Fale sobre perdão.
R: - Não sei se se deve perdoar sempre. Como perdoar o torturador? Como perdoar o adulto que espanca uma criança? Como perdoar a Inquisição, os campos de concentração, a bomba atômica, os homens públicos que s enriquecem à custa do dinheiro do povo que sofre e morre? Quem perdoa tudo é porque não se importa com nada.
Entrevista encerrada, apresentei o Rubem Alves ao João Silvino da Conceição, que o chamou para um guaraná amigo num barzinho próximo. Pedindo que ele explicasse melhor a reflexão de Robert Browning, segundo a qual “uma minhoca que ama o seu torrão seria mais divina que um Deus sem amor no meio dos seus mundos”.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Entre Irmãos

Foi boa demais a reunião virtual acontecida no almoço oferecido pela Carminha Costa, comemorando seus 6.0 de vida bonita, sorrisão à disposição do mundo. Gente de excelente nível convivencial, os comes e bebes transcorrendo numa descontração exemplar, a aniversariante com o filhão a tiracolo, ele chegado recentemente da Alemanha, profissional quase pronto.
Depois do primeiro prato, para o lado de fora fui chamado e apresentado a três pessoas, uma das quais eu me relaciono desde recém nascido, o João Silvino da Conceição. Ele estava ciceroneando Rubem Alves e Jonas Rezende. Duas personalidades bastante conhecidas, de sofrimentos infantis causados por apertos financeiros familiares. O pai de Rubem indo à falência, Jonas pedindo à mãe, como presente de aniversário, um prato de batatas fritas para aliviar o estômago. Ambos evangélicos-cabritos, jamais ovelhas abiloladas. Os dois sendo madeira de lei, aquela que cupim não rói.
Silvino e eu logo aguçamos nossas orelhas, quando Rubem Alves declarou que as religiões criaram gaiolas, a história do Cristianismo estando cheia de gaiolas. E disse mais: “Deus nos deu pensamento. O pensamento são as asas que Deus nos deu. Sou um filho da tradição protestante. Não posso me livrar dela nem quero. O que amo nesta tradição? A ousadia de pensar diferente, de andar na direção contrária: é o que mais amo. Eu prefiro o canto solitário dos sabiás ao canto gregário das maritacas, todas repetindo a mesma coisa”.
Em concordância, Jonas Rezende, que também foi considerado herético pela sua denominação religiosa, manifestou-se: “as instituições religiosas tendem, como qualquer instituição, para o conservadorismo e possui um cacoete histórico de excluir os divergentes”. E disse mais: “A própria palavra herege significa ‘aquele que escolhe’, razão tendo Robert Aron ao proclamar que toda nova fé começa por uma heresia”. E esclareceu: “Acredito que a Reforma do século XVI foi modéstia demais. E eu desejo superar a inércia como quem deseja mais do que antigas conquistas requentadas. Penso como os teólogos Romano Guardini e Paul Tillich: tanto a idade moderna quanto a era protestante estão próximas do esgotamento total. Basta ler o livro profético de Roger Garaudy intitulado O Ocidente é um Acidente. Na minha opinião, Lutero estava tão comprometido com questões eclesiásticas, que não percebeu os ventos renovadores da revolução renascentista”.
Todo metido a entendido, o João Silvino resolveu dar o seu pitaco para as duas celebridades presentes virtualmente na festa da Carminha: “Fico a imaginar a irritação dos inteligentes de outrora diante das discussões acerca dos sexos dos anjos, a temperatura do inferno, o que aconteceria se um rato roesse uma hóstia ou quantos anjos caberiam numa cabeça de alfinete. Convicto estou, como o professor Jonas, que cabe à Teologia levar o ser humano a libertar-se de uma estreita visão eclesiástica, que faz da religião um quisto no corpo social, livrando a sociedade de uma mentalidade de sacristia, tal como fez a rainha Éster, ao se recusar servir de bibelô na corte do poderoso rei Assuero. Como bem disse o professor Jonas é preciso coragem para não mais adubar as flores fenecidas”.
O papo alcançou as quatro horas da tarde. O Rubem Alves anunciou sua partida, para atender outros compromissos. Antes de ir embora, fez uma pequena reflexão: “O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem.”
João Silvino e eu, ainda emocionados com o encontro, oramos juntos. Nem percebendo que Deus estava bem juntinho de todos nós, aplaudindo o Rubem Alves e o Jonas Rezende.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife – Pernambuco)

domingo, 14 de setembro de 2008

Dois Textos para Gente Amada

A ESSÊNCIA DA ORAÇÃO
O meu amigo frei Betto, uma admiração de muitos anos por mim sentida, costuma afirmar que devemos ter, quando diariamente oramos, um relacionamento cada vez mais amadurecido com o Criador. E repete, de vez em quando, que “a fé cristã não admite a derrota da vida pela morte”.
Outro dia, em Brasília, Priscila Gontijo, uma adolescente de 13 anos, soropositiva, escreveu uma poesia-lição para todo os seus colegas de escola: “Vivo, logo existo / A morte não tem nada a ver / A morte é pra ser vivida / E a vida para reviver”.
Lembremo-nos sempre que a mais desafiadora das práticas religiosas é a da gratuidade amorosa. Deixar que Deus fale em nós, através do Espírito Santo, eis a magnífica lição que o apóstolo Paulo nos deixou (Rm 8, 26-27).
Algumas “regrinhas”, entretanto, necessitam ser seguidas por todos aqueles que, pela oração, nunca desanimam, jamais esmorecendo diante dos tropeços, desilusões e desesperanças, eliminando amuletos, pirâmides, talismãs e fetiches que apenas iludem, nada edificando na direção do Criador. Ei-las: 1. Orar é estar disposto a “perder tempo”, sem nada temer; 2. A oração só acontece quando se está convicto, sem qualquer esforço mental, da presença infinita de Deus; 3. Através da oração, adequamos nossa vontade à vontade de Deus; 4. Oração é uma referência a Deus presente em nossa vida, podendo ser litúrgica, recitativa, meditativa, intuitiva ou simples atenção n’Aquele que é a raiz de todo ser humano e o sentido último de nossa existência; 5. Orando, sempre entender que a presença de Deus mais se expande quanto mais recolhidos estivermos.
Conviver com pessoas amadas é também uma forma de oração. De agradecer ao Pai por ela existir. Uma oração que se pode vivenciar todas as horas, numa iluminação recíproca muito abençoada.

(Publicado no site da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, Recife-Pernambuco)


UM PRESENTE DANADO DE BOM
De amigo, recebi um belo presente: as Obras Completas de Teresa de Ávila. Os escritos de Teresa de Jesus refrigeram aqueles que esperam soluções eclesiais com a velocidade dos correios eletrônicos de agora. Eles ensinam como responder ao Senhor da História, ao Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador.
Autodidata, a formação de Teresa foi exclusivamente doméstica. O seu primeiro livro, A Vida, foi escrito quando se aproximava dos cinqüenta anos. Reformadora dos cenários religiosos do seu tempo, com seu espírito crítico, sua ousadia e seu apaixonado serviço à causa do Senhor, jamais contemporizou com os clérigos e bispos de então.
Contando com a colaboração de São João da Cruz, Teresa de Ávila, também Teresa de Jesus, buscou transmitir aos seus companheiros de apostolado as quatro atitudes fundamentais que devem ser tomadas para saber responder às interpelações de Deus: discernimento teologal, centralização em Cristo, comunhão com a Igreja e uma esperança ativa. Através de tais atitudes, o caminho a ser seguido será o de um continuado amadurecimento/crescimento, partilhando-se o destino de Jesus, morrendo-se filho da Igreja, expondo-se às contradições e às dificuldades através de uma vivência plena de uma espiritualidade encarnada na realidade cotidiana, com a esperança de cumprir bem a missão confiada pelo Filho do Homem.
As cartas de Teresa de Ávila são francas, diretas e desassombradas. Sobre assuntos os mais variados, escreve para nobres e plebeus, pessoas humildes e parentes. Seu estilo é muito agradável. Como na carta enviada, em 19 de novembro de 1576, à Madre Maria, Priora de Sevilla: “Antes que me esqueça. Muito boa teria eu achado sua carta ao Pe. Mariano se não fosse aquele latim. Deus livre a todas as minhas filhas de presumirem de latinistas. Nunca mais lhe aconteça isto, nem consinta”. Uma paulada nas pedantices que já naquela época pululavam por algumas comunidades religiosas.
Um pouco de Teresa, diariamente, revigorará homens e mulheres de nossa Igreja. Que necessitam apaixonar-se mais por Jesus de Nazaré, embebedando-se dos Seus ensinamentos, na construção de amanhãs mais humanos, mais agradáveis a Deus.

(Publicado no Boletim Dominical da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, 31.08.2008)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Indicação para uma irmã em Cristo

De Caxias do Sul, uma presbiteriana me solicita a indicação de um texto que dê uma visão abrangente acerca dos grandes teólogos do século XX, de leitura sem complicação afologética (que afoloza o ânimo de quem quer saber um pouco mais).
A indicação que faço, pois gostei muito do lá contido, é a de um livro editado pela Teológica, em 2003, chamado OS GRANDES TEÓLOGOS DO SÉCULO VINTE. De autoria de Battista Mondin.
O livro se encontra estruturado da seguinte maneira:

Parte I - OS TEÓLOGOS PROTESTANTES E ORTODOXOS
- Introdução à História da Teologia Protestante
- Karl Barth e a Teologia da Palavra de Deus
- Emil Brunner e a Teologia Dialética
- Paul Tillich e a Teologia da Correlação
- Reinhold Niebuhr e a Teologia Apologética
- Rudolf Bultmann: Desmitologização da Revelação e Teologia Existencialista
- Oscar Cullmann e a Teologia Bíblica
- Dietrich Bonhoeffer e o Cristocentrismo A-Religioso
- Jürgen Moltmann e a Teologia da Cruz e da Esperança

- Introdução à História da Teologia Ortodoxa
- Serghiei Bulgakov e a "Sofiologia"
- Ghiorghiu Florovski e a Síntese Neopatrística
- Vladimir Losski e a Teologia Mística

Parte II - OS TEÓLOGOS CATÓLICOS
- A Teologia Católica do Concílio de Trento ao Concílio Vaticano II
- Garrigou-Lagrande e a Teologia Tomista Tradicional
- Teilhard de Chardin e o Evolucionismo Cristocêntrico
- Romano Guardini e a Teologia da Existência Cristã
- Karl Rhaner e a Teologia Antropocêntica
- Marie-Dominique Chenu e a Teologia das Realidades Terrestres
- Yves Congar e a Teologia Eclesiológica Ecumênica
- Henri ubac e a Teologia Histórica
- Urs Von Balthasar e a Estética Teológica
- Edward Schillebeeckx e a Teologia Sacramental
- Bernar Lonergan e o Método Teológico

Segundo o prefácio "um dos mais surpreendentes fenômenos dos últimos anos é o interesse sempre mais vivo que os leigos vêm demonstrando pelas questões religiosas e teológicas, não apenas da própria Igreja, mas também de todas as religiões, indistintamente".
As causas? Ruptura das barreiras tradicionais, o ecumenismo, linguagens e estilos mais cativantes, um "desboloramento generalizado" provocado por cristãos-cabritos que estão sempre em busca das essências cristãs. Como bem define o amado por quase todo mundo teólogo Rubem Alves, "não somos o que somos por termos as idéias que temos. Temos as idéias que temos por sermos o que somos. Primeiro vem a vida, depois vem o pensar".
Uma excelente leitura "descobridora" para todos aqueles que desejam sempre observar o lado de trás das máscaras, para compreender melhor reforma e ruptura, ovelhas e cabritos, certeza e inquisição, libertação e domesticação. Sem jamais deixar de lado a recomendação bíblica - amplia a sua tenda, mas firma com zelo a sustentação do lugar onde você habita - abraço-os com fraternidade nordestina, sob as bênçãos do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Sobre a Besta Fubana

Merece entusiasmados aplausos a Dissertação de Mestrado feita pela professora norte-riograndense Ilane Ferreira Cavalcante sobre uma consagrada ficção de Luiz Berto, palmarense da gota serena, não sei por que ainda não devidamente acampado na Academia Pernambucana de Letras. Intitulado O Romance da Besta Fubana – Festa, Utopia e Revolução no Interior do Nordeste, o texto da PhD em Educação, também docente do CEFET do Rio Grande do Norte, deixa os leitores com uma vontade danada de reler A Prisão de São Benedito e Outras Histórias (1991), A Serenata (1986), Nunca Houve Guerrilha em Palmares (1987), Memorial do Mundo Novo (2001), sem falar numa espiadinha na edição mais nova de O Romance da Besta Fubana (1995), editada pela Bagaço, empreendimento vitorioso do Arnaldo Afonso e um bocado de gente cinco estrelas.
O lançamento do livro de Ilane Cavalcante foi um evento tríplice: homenagear a docente, reverenciar a Besta Fubana e rever Luiz Berto, que se confessou, um dia, por um personagem, ser “encabulado por não ter mais aquela vibração dos dias antigos para torcer pelo cordão encarnado; de ter perdido a oportunidade de pilotar um avião pelos ares, de não ter feito carreira nos encantamentos da profissão de camelô, ou de Velho de pastoril, de ter ficado safado demais para quem foi criado no catecismo e de não ser cego dos dois olhos para, assim, tocar com sentimento uma sanfona pelas feiras do Agreste”. Uma confissão que foi complementada por outras declarações, todas elas contidas no livro A Serenata, cujo trecho chamado O Bar se encontra na Revista O Caixote (www.ocaixote.com.br) para quem quiser se deliciar com o estilo cativante de Luiz Berto, esse tarado por leituras desde os primeiros anos de escola, antes de completar 15 já tendo devorado Dante, Júlio Ribeiro, Castro Alves, Euclides da Cunha, entre outros. Tudo chegado às suas mãos pela Livraria do “seu” Odilo, um ousado palmarense proprietário de uma iniciativa não muito comum nos interiores da Zona da Mata. A Carne, de Júlio Ribeiro, por exemplo, creio que que foi o livro que mais tenha encantado o Berto naquela época. Mental e manualmente...
Segundo Ilane Cavalcanti, Berto escreveu O Romance da Besta Fubana de janeiro a dezembro de 1983, reservando julho para uma viagem a Palmares, onde fez levantamentos na biblioteca municipal, que consolidariam sua criação. E a idéia sementeira foi a seguinte: um grupo de pessoas que empalma o poder numa cidade, nela instalando uma república autônoma, com constituição, hino e bandeira específicos. A cidade seria Palmares e o grupo dirigente se constituía de um astrólogo, um cego esmoler, uma prostituta e um sapateiro comunistas. Todo grupo sob a sábia liderança de um cantador de viola, um predestinado por derradeiro. O ano escolhido foi o de 1953, quando a infância do autor fervilhava de fatos e feitos prenhes de muita imaginação e jactâncias revolucionárias.
Foi uma noitada de alegrias, reunindo gente viciada em aplaudir Luiz Berto, que nem eu. Me senti feliz com a festa da Bagaço, uma editora que muito honra Pernambuco, que tem o mesmo “p” de Palmares e o o mesmo “p” de pujança no relacionado às edições que envolvem o popular com o erudito, sonhos e lutas, tudo antenado com os amanhãs cidadanizados que já entre nós se aboletaram.
O Berto continua produzindo textos com a capacidade de afrontar os emplumados de sempre. Seguindo à risca Rudyard Kiplig: “Mostrar seus sentimentos é arriscar-se a se expor; dar a conhecer as suas idéias, os seus sonhos, é arriscar-se a ser rejeitado; amar é arriscar-se a não ser retribuído no amor; viver é arriscar-se a morrer; esperar é arriscar-se a desesperar; tentar é arriscar-se a falhar. Mas devemos nos arriscar! O maior perigo na vida está em não arriscar. Aquele que não arrisca nada, não faz nada, não tem nada, não é nada!”.
Que o meu amigo Luiz Berto sempre multiplique sua obra memorável. Mesmo tornando-se mais convencido de que “esse negócio de escrever ficção é coisa de viado ou de cabra safado”.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife, Pernambuco)

Para Nunca Esquecer

Vez por outra, um basta! retumbante torna-se inadiável. Quando Francis Fukuyama anunciou uma era de apatia generalizada, muitos não o compreenderam. Mas o fato está aí: do ponto de vista pessoal, as seqüelas das mudanças econômicas acontecidas nas últimas décadas são terrificantes. Evaporou-se a noção do que seja personalidade e caráter, com eles se esvaindo o conceito de dignidade comportamental. Em todas as áreas e funções.
O consultor Solano Portela Neto escreveu: “Se você está com uma vida profissional de escravidão e apatia; se você é um daqueles que vai acordar algum dia apenas para perceber que sua vida foi roubada por uma organização qualquer, se você não almeja a conquista de uma independência que lhe permita dedicar mais tempo a você e aos seus, não precisa preparar-se para os tempos que já se encontram entre nós. Você profissionalmente já quase não existe”.
O arremate do dito acima: “Eles perderam a visão, o gosto, o tato e o olfato, e com eles foram-se também a sensibilidade, a ética, os valores, a qualidade, a forma; todos os sentimentos, os motivos, a alma, a consciência e o espírito”. A sensação que fica é aquela retratada pelo poeta Fernando Pessoa: “Fiz de mim o que não soube, / E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. (...) Quando quis tirar a máscara, / Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi no espelho, / Já tinha envelhecido.
A releitura de uma fábula de La Fontaine é pertinente para muitos que teimam em se esconder de tudo. Conta ela que um bravo leão se apaixonou pela filha de um velho lenhador, de formosura exemplar e seios deslumbrantes, sem silicone de qualquer espécie. Pedindo a mão da jovem em casamento, para poder usufruir bem do resto, o bravo leão ouviu uma sonora negativa, em função de suas afiadíssimas presas. Após uma dolorosa extração dentária coletiva, reiterou perante o lenhador sua intenção, ouvindo nova recusa, por causa das suas amoladas garras. Após arrancar as dez unhas, sem mais garras nem presas, retornou à moradia do lenhador para um novo pedido. O velho, percebendo o leão sem garras nem presas, abdicado de sua propria natureza e com uma desestruturação cívica no limite, arma-se com um porrete de bom tamanho e esmaga-lhe a cabeça.
Eis um lema que deve servir para pessoas e instituições: “Saiba controlar seu destino, senão alguém fará isso por você, de uma maneira sempre perversa”. E o saudoso Abraham Maslow, agora reeditado para gáudio de seus admiradores, não deixa por menos: “Se você se contentar com menos do que pode ser, será infeliz pelo resto da vida”.
Em casa, rememorei o que tinha escrito há alguns anos, numa quase já vivência de momentos futuros: Gostaria muito de ver melhor o amanhã, / Para esquecer os meus erros e desencontros. / Para recomeçar com acertos e também tropeços, / Sem receio algum de continuar sendo. / E caminhar sem temer novos julgamentos, / Buscando iniciativas eficazes, / As mais próximas de todas as criaturas. / Investiria mais no meu Eu-com-Deus-nos-homens, / Jamais postulando ser mais que ninguém. / E voltaria novamente a me recobrir de esperança, / Buscando o significado de cada amanhecer, / Sem a amargura dos meus mil ontens. / Tornando-me ainda mais com os outros, / Para nunca mais me deixar. E aplaudi, seguro do que estava aplaudindo, o pensamento de Henry Miller, um dia explicitado em página memorável de quase-memória: “Ninguém é tão importante nem tão sábio para que entreguemos nosso destino a ele. A única maneira pela qual alguém pode nos conduzir é nos restituindo a crença em nosso próprio pensamento”.
Ratifico o poeta Fernando Pessoa: “Eu não sei o que me reserva o amanhã”. E reverencio, porque muito o amo, o meu melhor Amigo, Filho do meu Pai, que já dizia, quando caminhava por estas bandas, que aquilo que semeamos é o que iremos colher. Uma lição que deveria ser acatada por todos eleitores, às vésperas de mais um comparecimento às urnas eletrônicas, por um Brasil de mesmo gigante.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Leituras de Alavancagem

Em meu sempre inconcluso aprimoramento existencial, de um fato estou convencido: o anti-semitismo que grassa no planeta há séculos, ainda hoje com resquícios fortes em determinadas re(li)giões, funda-se também em leituras do Novo Testamento. Algumas traduções não explicitaram de modo correto os fatos acontecidos há quase dois mil anos. Muito pelo contrário, alguns ramos do Cristianismo tornaram-se responsáveis pela “doutrina” que responsabilizava os judeus pelo assassinato do Nazareno. Como também sob a Bíblia foram justificadas a prática da escravidão, a segregação racial e a política do apartheid, tidas como condizentes com a vontade de Deus. Atualmente, algumas denominações cristãs tradicionais ainda acreditam “que denegrir a humanidade e qualificá-la como arruinada, caída, má e pecadora faz com que a realidade do Deus teísta, externo à vida, seja mais facilmente aceita”.
Para quem deseja tornar-se cristão compromissado social, política e historicamente com os amanhãs que já se instalaram em todos os quadrantes, recomendaria duas leituras de alavancagem, para tornar-se mais transdenominacional, respeitando todas as demais manifestações religiosas; para perceber-se cidadão cósmico; para travar bom combate com as argumentações fundamentalistas, compreendendo bem as razões do teólogo Paul Tillich: “o fundamentalismo possui traços demoníacos”; e para ampliar sua fé no Homão da Galiléia, Irmão Libertador de judeus e gentios, povos e nações.
1. Para assimilar mais “ecologicamente” os ensinamentos do Nazareno, o Novo Testamento Judaico, editora Vida, em língua portuguesa. Um livro judaico, escrito por judeus, que tem por público-alvo judeus e não-judeus. Para milhões que, de um modo intelectualmente não-ingênuo, buscam adquirir ou continuar a depositar confiança irrestrita no Deus de Avraham, Yitz’chak e Ya’akov e no Messias judeu Yeshua. Segundo David Stern, o tradutor do grego para o inglês, os não-judeus foram enxertados,”como ramos de oliveira selvagem” na “oliveira cultivada” dos judeus, como explicou muito sabiamente São Paulo na sua Carta das Romanos (11,16-26). E como o próprio Yeshua proclamou: “a salvação vem dos judeus” (Jo 4,22)
A leitura do Novo Testamento Judaico deve ser acompanhada da Bíblia Hebraica editada pela editora Sêfer – que ressalta, em Jeremias 31,30, que haveria uma nova aliança, onde seriam perdoadas iniqüidades, os pecados não mais lembrados. Proporciona esclarecimentos múltiplos, induzindo sadios debates. Como aquele que declara: o Messias deu término à Torah ou Ele é o objetivo dela?
2. Comentário Judaico do Novo Testamento, editora Atos, de primeira edição lançada o ano passado. Seu autor, David Stern, classifica seu trabalho como um “comentário desperta-consciência”, de dupla finalidade: para que os judeus saibam que o NT apresenta Yeshua de Nazaret como filho de David e para que os cristãos tenham a certeza de que são para sempre um só povo com os judeus, o NT não devendo dar espaço para qualquer anti-semitismo. No prefácio para a versão portuguesa, o pastor Gary Haynes é categórico: “não consegui parar de ler o CJNT: algo precioso, profundo na sua forma de explanar o Novo Testamento, mas ao mesmo tempo simples e de fácil compreensão”. Um Comentário que inspirará estudos do NT sob novos prismas, sem opiniões pré-concebidas sobre assuntos judaicos, estribando-se na convicção de que “ainda há necessidade de se escrever mais comentários judaico-messiânicos sobre todos os livros da Bíblia, tanto do Tanakh (AT) quanto do Novo Testamento”.
Duas ferramentas para os que buscam mudar-se para poder mudar as coisas do derredor. E para os que desejam manter-se integralmente ativos num contexto espiritualmente ainda pouco libertador.
Já se disse: “no dia em que o que se espera do futuro se iguala ao que se deseja, começa-se a envelhecer”. Saibamos na fé como nunca espiritualmente envelhecer.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Observatório do Recife

Com entusiasmo, li a entrevista da economista Kilsa Rocha na revista Algomais, aquela que o recifense lê cada vez mais gostando. E o tema foi o lançamento do Observatório do Recife, um movimento que congrega entidades da sociedade civil, tendo por finalidade monitorar a gestão municipal, oferecendo indicadores e propostas nas áreas de saúde, educação, segurança, saneamento, habitação, turismo, cultura, lazer, direitos do cidadão, meio ambiente, emprego e renda, criança e adolescente.
Segundo a economista, “o Observatório é uma resposta ao desejo da sociedade civil de participar da gestão do Recife”. Uma sociedade civil que há muito se distanciou das aspirações macro-sociais, imaginando-se auto-suficiente no trato do seu mundinho, tornando-se desatenta para o balizamento que ensina que “pouco adianta cuidar de um só boi, se a boiada, como um todo, está à beira do despenhadeiro”.
Em boa hora as entidades do Observatório do Recife, sem firulas nem fricotes, perseguirão uma auto-avaliação corajosa, descobrindo seus pontos fracos e suas comunicações deficientes. Para oferecimento de proposições capazes de catapultar o Recife para patamares mais reluzentes. Percebendo que a era pós-industrial libertou energias escondidas, aumentando lazeres e liberdades, enormes abismos se abrindo entre os que possuem quase tudo e os que não possuem quase nada, nem sequer esperança sadia. Quase já eliminando do nosso cotidiano maurício o vocábulo solidariedade.
A mentalidade da nossa sociedade civil, de um modo geral, ainda carece de uma visão menos autofágica. Fomos a última nação a abolir o regime escravocrata. Somos herdeiros de quatro séculos de escravidão e pouco mais de um século de libertação. Nos países capitalistas não-escravocratas, as elites empresariais perceberam que é por demais salutar para o dinamismo econômico que o trabalhador tenha renda para consumir, posto que isso amplia a economia de mercado, fortalecendo a convivência entre Trabalho e Capital. Sem jamais utilizar as pessoas como objetos, tampouco apenas valorizando-as por aquilo que elas podem beneficiar.
Nos países capitalistas não-escravocratas, o papel do Estado foi compreendido sob uma vertente não-tacanha, existindo dois tipos de Estados desenvolvimentistas: o conservador e o transformador. Os exemplos mais recentes de Estados transformadores: o Japão (disseminando o acesso à educação) e a Coréia (efetivando uma reforma agrária que serviu de base para o seu desenvolvimento industrial). Para não se falar da China, que há poucos dias nos deu uma Olímpiada de invejável organização e beleza ímpar.
Acredito firmemente que a economista Kilsa Rocha se baseará na orientação dada pelo evangelista Lucas 14,28: “Quem dentre vós, quando quer construir uma torre, não começa por se assentar para calcular a despesa e avaliar se tens com que ir até o fim?” Sua arguta inteligência já percebeu que toda crise torna-se saudável quando não se contenta em ser apenas uma crítica aos outros, mas quando se torna, muito oportunamente, um julgamento da própria crise. Por isso, urge desanestesiar o quanto antes a classe média pernambucana, ainda enebriada por um plano de estabilidade que deveria ser entendido como ponto de partida, jamais de chegada, essencialmente meio para se atingir um nível de maior dignidade para todos os segmentos sociais, mormente os menos favorecidos.
Um exercício de primeira hora, eu recomendaria aos integrantes do Observatório do Recife, que estarão pelejando pelo soerguimento da imagem empreendedora da capital: leituras reflexivas sobre provincianismo. E mais: sobre as artificialidades do apenas progresso e os arroubos grandiloqüentes de um já-fui-bom-nisso que apenas inspiram lamuriantes compadecimentos, sem nada de proveitoso.
Acredito no sucesso do Observatório do Recife, pois ponho fé na dinâmica estratégica da economista Kilsa Rocha, uma profissional de excelente perfil técnico. Gostaria apenas de oferecer duas pequenas sugestões. A construção de um site de cativante nível, a primeira delas. Um pensar mais distanciado de um 2015 que se encontra logo ali, a segunda. Talvez um 2020 seria uma boa meta, doze anos além do nosso hoje, três gestões municipais.
No mais, é recomendar para os componentes do Observatório do Recife a concentração das suas atenções iniciais nas quatro principais lideranças da sociedades contemporâneas: pais, educadores, gerentes (decisores) e líderes comunitários. Uma classificação feita pelo Enio Resende, no seu livro As 4 Principais Lideranças da Sociedade e Suas Competências, recentemente lançado pela Summus Editorial. Um texto sem eruditismo para um bom início de conversa.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife, Pernambuco)