domingo, 31 de agosto de 2008

A Essência da Oração

O meu amigo frei Betto, uma admiração de muitos anos por mim sentida, costuma afirmar que devemos ter, quando diariamente oramos, um relacionamento cada vez mais amadurecido com o Criador. E repete, de vez em quando, que “a fé cristã não admite a derrota da vida pela morte”.
Outro dia, em Brasília, Priscila Gontijo, uma adolescente de 13 anos, soropositiva, escreveu uma poesia-lição para todo os seus colegas de escola: “Vivo, logo existo / A morte não tem nada a ver / A morte é pra ser vivida / E a vida para reviver”.
Lembremo-nos sempre que a mais desafiadora das práticas religiosas é a da gratuidade amorosa. Deixar que Deus fale em nós, através do Espírito Santo, eis a magnífica lição que o apóstolo Paulo nos deixou (Rm 8, 26-27).
Algumas “regrinhas”, entretanto, necessitam ser seguidas por todos aqueles que, pela oração, nunca desanimam, jamais esmorecendo diante dos tropeços, desilusões e desesperanças, eliminando amuletos, pirâmides, talismãs e fetiches que apenas iludem, nada edificando na direção do Criador. Ei-las: 1. Orar é estar disposto a “perder tempo”, sem nada temer; 2. A oração só acontece quando se está convicto, sem qualquer esforço mental, da presença infinita de Deus; 3. Através da oração, adequamos nossa vontade à vontade de Deus; 4. Oração é uma referência a Deus presente em nossa vida, podendo ser litúrgica, recitativa, meditativa, intuitiva ou simples atenção n’Aquele que é a raiz de todo ser humano e o sentido último de nossa existência; 5. Orando, sempre entender que a presença de Deus mais se expande quanto mais recolhidos estivermos.
Conviver com pessoas amadas é também uma forma de oração. De agradecer ao Pai por ela existir. Uma oração que se pode vivenciar todas as horas, numa iluminação recíproca muito abençoada.
Rev. Fernando Antônio Gonçalves
(Publicado no site da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, Recife-Pernambuco)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Análise de Talento Brasileiro

Confesso satisfação ao ler artigo do sociólogo, cientista político e escritor Hélio Jaguaribe intitulado No Limiar do Século 21, sábado desses. Fundador do ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros, professor de Harvard, Stanford e do MIT – Massachusetts Institute of Technology, atualmente Decano do Instituto de Estudos Políticos e Sociais da Universidade Cândido Mendes. Lucidez plena, 85 anos.
No artigo, três tipos de problemas: os relacionados com o Brasil, os vinculados ao mundo e os do ser humano. Os do Brasil são três: integração nacional e continental, desenvolvimento geral e modernização tecnológica. Os mundiais também são três: desenvolvimento das regiões atrasadas, instituição de um modelo razoável de ordenação internacional e ajustamento da civilização industrial às condições de sua sustentabilidade no planeta. E os dos seres humanos estão também correlacionados à erosão das convicções religiosas, seqüela das aversões estupidificantes do Cristianismo para com as evoluções científicas desenvolvidas a partir de Descartes.
O professor Jaguaribe revela que apenas um terço da população brasileira se encontra em condições compatíveis às de um país europeu, a educação sendo nosso calcanhar de Aquiles. Com uma universalização da educação básica ainda a merecer múltiplas superações, tamanha a quantidade de furos a serem vencidos por programas nunca assistencialistas.
A emersão de um novo humanismo, segundo o autor de Um Estudo Crítico da História, é imperativo em nossa atual conjuntura mundial, quando se constata que “a Terra não é mais o inesgotável e permanente suporte da vida humana”, devendo ser “judiciosa e cuidadosamente administrada”. Segundo o cientista, “o destino do homem deixou de depender dos deuses e da suposta inesgotabilidade da natureza e passou a depender, integralmente, de um apropriado comportamento do próprio homem”. E em relação ao Brasil, uma resposta dada em entrevista é consistente: “Temos um sistema político clientelista, não somos uma verdadeira democracia. Dentro de uma democracia clientelista, é muito difícil ter um estado eficiente.” E foi além: “Na medida em que não existe um bloco programático consistente, o governo é obrigado a costurar alianças espúrias, sob pena de não poder governar. O problema brasileiro passa por aí.”
Saibamos, apesar de todos os senões existenciais, ser radicalmente humanistas, fiéis seguidores de alguns “mandamentos”: 1. Que a produção atenda às reais necessidades do povo, jamais servindo apenas às exigências do sistema econônico; 2. Que a relação entre as pessoas seja de colaboração, nunca de exploração; 3. Que o antagonismo dê vez a solidariedade; 4. Que se empenhe pelo consumo adequado: 4. Que as organizações sociais tenham por objetivo o bem-estar humano; 5. Que todos sejam, na vida social, participantes ativos.
O palmarense Luiz Berto, autor do muito aplaudido O Romance da Besta Fubana, está coberto de razão: “humildade demais não faz bem ao caráter de um cidadão decente”. Principalmente quando a tal humildade apenas é fantasia escolhida por espertalhões moralistas e puritanosos para engabelar os desligadões de todos os matizes.
O mundo já percebeu que a lição religiosa que nos transmitiram – sofrer bem muito por aqui, para ganhar o reino depois do passamento – foi ensinamento anti-evangélico repassado aos longo dos séculos para perpetuar dominações e aprimorar o abestalhamento de milhões. E o planeta está há muito tempo de olho pregado nos “sabidos e sabidões”, naqueles metidos a “ispecialista” do tipo que cascavilha “as consequências ambientais provocadas pelos resíduos quantitativos das dobras intestinais dos cupins machos do semi-árido nordestino, área urbana”. O resto que se danando fique, findando sempre do jeito que está.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife - Pernambuco)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ponto.com(petência)

Segundo análises atentas, o apetite voraz por ganhos imediatos está fazendo a caveira de muitos, nas nações desenvolvidas, principalmente na mais espalhafatosa, hoje presidida por um bufão sem qualquer dimensão histórica, o integral reverso das memoráveis lideranças norteamericanas. A vontade de retornar o investido no menor espaço de tempo, sem uma solidez cognitiva capaz de fazer frente às turbulências de contextos mercadológicos cada vez menos estáveis, já corroem as estratégias inovadoras de algumas áreas de alta tecnologia.
A conjuntura me lembra umas “correntes” que vez por outra anestesiam incautos que buscam levar vantagem em tudo, tal e qual aquela marca de cigarro cujo garoto-propaganda era um jogador da seleção brasileira tricampeã de 1970, no México. Uma seleção que também se desmoronou, tamanha a desfaçatez dos que dela se utilizaram travestidos de Ali-Babá, os demais quarenta não sendo de difícil identificação pela CPI do Congresso Nacional. E o Dunga fazendo papel de anão abobado, falante e sem mais condições mínimas de orientar talentos.
O jogo que faz moda, vez por outra, é o seguinte: reúne-se “uma meia dúzia de três ou quatro”, como dizia um irmão marista gozador, para lançar uma ponto.com gota serena, mais arretada tornada pela milionária publicidade feita, que catapulta as ações para a estratosfera, adquiridas pelos tolos, que imaginam poder ganhar rios de dinheiro com tão “espetacular” negócio. Com as ações infladas artificialmente, os fundadores da ponto.com vendem suas cotas por um preço elevado, o final todo mundo já sabendo. Há casos recentes onde acionistas de determinada ponto.com ficavam, em média, sete dias com as ações do empreendimento, passando adiante como se uma batata quente estivesse lhe queimando as mãos. No frigir dos ovos, os últimos “otários”, além de chamuscarem as mãos, terminam por queimar também os traseiros, contribuindo para uma desacreditação generalizada, causando um desaquecimento da vanguarda tecnológica e uma perniciosa desaceleração na credibilidade do empreendedorismo.
Bom seria que empresários e homens públicos pudessem dar uma paradinha em suas caminhadas, os primeiros na direção de balancetes que buscam demonstrar supremacia sobre os concorrentes, os segundos nas suas bolações eleitoreiras para não ficarem de fora do bloco dos aclamados. E lessem atentamente o livrinho do Leandro Konder Os Sofrimentos do “Homem Burguês”, editado há alguns anos pelo Senac-SP, instituição privada atualmente responsável por uma coleção “destinada a acolher a amplíssima gama de assuntos e gêneros que dão substância à vida social do país”. Trocando em miúdos: uma louvável iniciativa que se preocupa com as posturas que obscurecem as ações humanas conseqüentes. E que deseja evitar o surgimento de comandos sectários, de qualquer naipe, que fragmentam os alicerces democráticos já edificados.
Os últimos dados do IBGE sobre distribuição de renda reforçam a urgente necessidade de se ler o texto do Konder, para bem diferenciar sexo de promiscuidade, nudez artística de amostração televisiva, divulgação governamental de propaganda enganosa, transcendência religiosa de ilusionismos aeróbicos, tristeza de chorismo, postura olímpica de vitimismo, lucro honesto de apropriações moralmente escandalosas. E os dados apresentados pela revista Veja, edição 2074, 20-08-2008, confirmam a necessiade da leitura do livrinho-gigante do Konder.
Saibamos bem diferenciar Ana Maria Braga de Fernanda Montenegro, Pedro Simon de Renan Calheiros e Dunga do Felipão, para não se dizer que, aqui, se falou apenas de flores. E para que depois não se venha com chorumelas, lastimando o tamanho do estrago feito na evolução democrática do Brasil, uma país que necessita pôr de lado sua infantilidade cidadã.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Carta-Desabafo

Do jeito que recebi, transcrevo, abaixo, a carta sem identificação que me foi enviada por uma professora primária do interior do Brasil, acerca das últimas pesquisas educacionais, reportagem contida na revista VEJA desta semana, nas bancas.
Presado Profeçor: Com muita sem-grassa, inda atonteada com os rezultados da pesquiza dos primêro e segundo grals, valo-me da presente para espreçar a minha pró-funda preoculpassão com o qui vai acontecê com a mininada do depôs do oje brasilêro. Obiservo muinta gente uzando a inducação para sobidas nas caderas politicas, deixando os que ficam desinducados sem cualquer dereito a ter uma remonerassão decente, num local de trabalho díguino. Sem inducação compreta em conta, letra e instruturas do saber, a gente não ficará mais melhor na crassificassão mundial de conpetitividade, atualmente no trigézimo primero lugar, apezar de sêrmos crassificado entre as 14 maiores enconomias do praneta. O rezultado é que ficamos andando pratrás, qui nem siri, sem que se tome uma providença de arromba pela corrussão desimbestada de muitos, incrusive nas ingrejas. Precizamos de munta vergônia na cara e justissa de boa qualidade para botar os mais sabidórios no chilindró um bucado de tempos, sejam eles de palitol e gravata, ou de farda, batina e enchada. Bandido, no meu modo de vê, num é só aquele que se veste mal, mais todo aquele que bota a mão onde num é devido, os dinhêros sendo do povo. O ministéro púbrico carece de mais apoio pra denunciá bandidões e bandidinhos, tudo sem dereito a sela especiar. Qui aparessa uma entidade qui desenrole uma Frente Nacionau por uma Inducação Populá de Boa Coalidade, a favorecê os menos apetrexados, os que poçuem intelijênça mais num disponhem de suspensóro financêro, evitando que o Brasil si derrote por ele mêrmo no palco do mundo. Que Deus ilumine bem munto o noço paíz, fasendo com que ele comsiga enjaulá os sabidos di sempre.Um abrasso bem brasilêro. Otilha.
Um grande e carinhoso abraço, dona Otilha. Seu desabafo, entregue anonimamente na portaria do condomínio, me deixou por demais esperançoso num Brasil diferente daqui pra frente, revalorizado através de uma educação fundamental nunca de mentirinha, de boa qualidade. Os prédios de fino acabamento complementando a totalidade dos professores sem remunerações humilhantes, bibliotecas reais e virtuais de grande valia, direitos e deveres sendo do conhecimento pleno da comunidade, o corporativismo messiânico sendo posto de quarentena através de uma ampla respeitabilidade recíproca das partes envolvidas, sem embromações nem chafurdos de vil categoria.
Um sistema educacional que se deseja ver respeitado nas pesquisas e levantamentos feitos por organismos nacionais e estrangeiros necessita saber implementar os cinco processos de um modelo de gestão do conhecimento, observadas logicamente as complexidades e nuanças de cada um dos seus subsistemas. Os processos são os seguintes, sempre em causação circular: Mapear, Gerar, Disseminar, Usar/Assimilar, Manter.
Num contexto cada vez mais pós-moderno, onde os ontens não mais retornarão, torna-se estratégia fundamental perceber, além das pedras do caminho do Carlos Drummond de Andrade, as areias movediças que asfixiam até os de boa vontade, incluindo os que se aferram a parâmetros de há muito inexistentes. O vexatório desempenho olímpico do Brasil em Pequim 2008 amplificou para todo o planeta a real situação da nossa juventude.
Pedra, cal, tecnologia e utensílios são insumos excelentes, muito embora o mais fundamental deles seja ainda o trinômio conhecimento x dedicação x dignidade salarial, uma argamassa que catapulta talentos, iniciativas e cidadania, desalojando da passarela os que apenas mostram corpos sarados, renegando os neurônios da criatividade. Possibilitando um existir cidadão que favoreça uma criticidade que defenestre, sem contemplações, arroteiros e embromadores, nepotistas e oportunistas, que se imaginam sempre a salvo pelo uso continuado de deslavadas posturas fingidas.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Como escrever sem academiquês

Quando o talentoso pesquisador Dan Ariely, do MIT resolveu escrever sobre as fraquezas, erros e gafes das decisões cotidianas que sofrem influências de múltiplas forças invisíveis – emoções, relatividades, expectativas, apegos e normas sociais, entre outras -, seguramente estava baseado nas mundialmente conhecidas Recomendações dos Sábios da Mandchúria. Balizamentos indispensáveis para quem busca integrar-se em trabalhos coletivos, desenvolvidos com pessoas inteligentes, criativas, generosas e de bem com a vida. Ei-los: “Abra seus braços para as mudanças, mas não deixe que elas ultrapassem os seus valores. Ame profundamente, sem medo de se machucar, pois esta é a única maneira de viver plenamente. Lembre-se permanentemente dos 3 R’s: Respeito por si próprio, Respeito pelos outros e Responsabilidade pelas suas ações. Não permita que pequenas disputas machuquem uma grande amizade. Leia mais livros e assista menos TV. Tenha um forte comprometimento e contínua paixão pelo seu trabalho. Nunca zombe dos sonhos dos outros. Fortaleça seu conhecimento, pois este é o único meio de se atingir a imortalidade. Nunca interrompa alguém que lhe estiver elogiando. Uma vez por ano vá a algum lugar onde nunca esteve antes. Se ganhar muito dinheiro, ajude outras pessoas enquanto estiver vivo, posto que essa é a maior de todas as riquezas. Aprenda algumas regras e quebre umas outras tantas. Memorize uma poesia favorita. Fale devagar, mas pense de modo rápido. Lembre-se de que grandes paixões e grandes realizações envolvem grandes riscos. Quando perceber que cometeu um erro, aja rapidamente para corrigi-lo. Passe algum tempo sozinho. Tenha sempre uma visão positiva do mundo e do seu derredor. Tenha responsabilidade sobre sua própria vida, criando um forte diferencial pessoal. E lembre-se sempre que os melhores relacionamentos são aqueles em que o amor é maior que a necessidade”.
No seu livro Previsivelmente Irracional, Campus, 2008, ele esmiuça as forças ocultas que influenciam as decisões nossas de cada dia. Revelando, para início de conversa, as origens do seu modo heterodoxo de ver o mundo, tudo teve início quando da explosão de um foguete de sinalização, de magnésio, que o deixou, israelense de 18 anos, com 70% do corpo com queimaduras de terceiro grau. Prostrando-o, envolto em múltiplas bandagens, por três anos num hospital. Tempo que lhe propiciou a emersão de observações mais consistentes sobre o comportamento seu e dos outros, iniciadas a partir de conversas com enfermeiras, por ocasião da troca diária das ataduras.
A leitura do livro do Ariely, hoje titular da cátedra Alfred P. Sloan, professor de Economia Comportamental do MIT - Massachusetts Institute of Technology, reforça a necessidade de divulgar entre os docentes universitários brasileiros, os balizamentos dos sábios da Mandchúria acima. Quando vejo um jovem docente universitário, bolsão a tiracolo, barba por fazer e um ar de quem descobriu a Lei do Universo, como se todo o seu derredor fosse constituído de párias muitos graus abaixo do seu iluminado saber, fico a imaginar como seria bom para aquele metido a ser conhecer o testemunho do próprio Ariely, quando da sua visita a uma instituição de pesquisa, em Princeton: “Até consegui passar algum tempo na cozinha do instituto, aprendendo a cortar, assar, fritar e cozinhar sob a supervisão dos chefs Raymond e Blancher – eu não poderia querer lugar melhor para ampliar meus horizontes”.
O texto do Ariely desfrescuriza, desabestalha, transforma derredores, favorecendo um outro mundo que está a caminho, abrindo veredas para “enxergâncias” construídas coletivamente, a partir da colaboração de auxiliares de todos os matizes. Leitura sem academiquês, para quem entende que “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. Abandonando as pesquisas que tentam provar que é possível ao ser humano abocanhar seus próprios cotovelos.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife - Pernambuco)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Por uma evangelização século 21

Numa das celebrações dominicais da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, o Deão Rev. Sérgio Andrade, por quem nutro estima fraternal, comentou rapidamente acerca de um livro que tinha lido, ainda curtindo a notícia de sua futura dupla paternidade, pela chegada próxima de gêmeos, a Karina, sua esposa, numa gestação muito abençoada. E insistiu para que eu o lesse, emprestando-me seu exemplar, avisando-me que já havia uma fila de mais dois.
O livro publicado pela editora Record, A Próxima Cristandade, do historiador britânico Philip Jenkins, deveria ser tema de amplas discussões estratégicas em todas as denominações religiosas, diante dos problemas que estão afligindo inúmeras delas. Favorecendo a emersão de novos procedimentos evangelizadores, sobremaneira cativantes, capazes de atrair uma juventude sadiamente crítica, que anseia por uma espiritualidade mais próxima de uma concretude histórica século XXI. Sem desmerecer, sob hípótese alguma, os alicerces cristãos fundacionais, estou convencido da necessidade da efetivação de múltiplas ultrapassagens, favorecendo iniciativas que alavancarão nossa gente para um novo modo de ser Igreja, mais compatível com as exigências de um século que se explicita perturbador, numa pós-modernidade que ainda se comporta como uma criança engatinhante.
No livro, Jenkins revela que as questões religiosas, nos últimos tempos, receberam pouquíssimas análises projetáveis, não sendo levados em conta os deslocamentos dos eixos de um Cristianismo até bem pouco considerado uma religião européia, para não-negros, não-pobres e não-jovens. Segundo o autor, reproduzindo dados da World Christian Encyclopedia, atualmente 1/3 do total de habitantes do planeta são teoricamente cristãos: 560 milhões na Europa, 480 na América Latina, 360 na África, 313 na Ásia.
Numa projeção para 2025, os 2,6 bilhões de cristãos do planeta estarão distribuídos da seguintes maneira: 633 milhões na África, 640 na América Latina, 460 na Ásia, a Europa, caindo para terceiro lugar, com 555 milhões. Em 2050, apenas 1/5 dos três bilhões de cristãos do planeta serão brancos não-hispânicos. E Jenkins conclui: “no plano global, a religião do futuro deverá ser o islamismo”. Uma das religiões monoteístas, baseada nos ensinamentos de Maomé (570-632 d.C.), chamado de O Profeta, contidos no livro sagrado, o Corão. A palavra islã significa submeter e exprime a submissão à lei e à vontade de Alá. Seus seguidores são chamados de muçulmanos, que significa “aquele que se submete a Deus”.
Quando ainda me detinha nas últimas páginas do livro do Philip Jenkins, me deparo com uma entrevista, na Bienal do Livro de São Paulo, da escritora Julia Franck, , considerada o mais aplaudido nome da atual literatura alemã, autora de A Mulher do Meio Dia, edição brasileira Nova Fronteira. Segundo ela, “hoje, as pessoas escolhem tudo. Pela liberdade de escolha pouca gente na Alemanha e na Europa acredita em Deus ou tem alguma forma de espiritualidade. Deus virou uma noção do passado”.
Por que tamanha desacreditação generalizada acarretou uma situação tão incomodatícia para as históricas denominações cristãs? Será que a debilitação do Cristianismo se deve exclusivamente aos que se encontram do lado de fora das inúmeras igrejas? Ou será, como na América Latina, que também é consequência direta das indiferenças diante das denúncias proféticas de Dom Hélder Câmara, nosso inesquecível e único Dom, vez por outra debilmente imitado? Uma delas: "O Cristianismo que difundimos no Continente, atribuindo tudo a Deus e quase não apelando para a iniciativa e a responsabilidade do homem chamado, pelo Criador, a dominar a natureza, a completar a Criação, a conduzir a História, alimentou nas Massas latino-americanas um sentimento passivo, fatalista e mágico". Uma segunda: "É urgente evitar que os jovens se convençam de que a Igreja é mestra em preparar grandes textos e sonoras conclusões, sem a coragem de levá-las à prática".
Será que patrocinar grandes reuniões, com representações de quase todo mundo, para obtenção de caminhares cada vez mais tartarugais, esquecendo a extrema urgência de se formar amplas frentes para eliminar divisões e falsas posições teóricas seria a solução? E fingir desconhecer, por incompetências ou egolatrias, nepotismos ou invejas, medos de perdas condominiais ou salafrarismos diversos, a convicção exposta pelo Dom, o Hélder Câmara naturalmente: "Deus é e quer ser Pai de todas as Criaturas Humanas, de todas as Raças, de todos os Tempos, de todas as Cores, de todas as Línguas, de todas as Crenças e todas as Ideologias".
Será que o Cristianismo só se dá bem diante das massas menos favorecidas, menos críticas, mais sujeitas às ilusões mais desenxabidas, que se portam abobadas diante dos sabidos e sabidões que pregam anestesias, jogando na lata do lixo a “Ecclesia semper reformanda” de Martinho Lutero? Será que o Cristianismo se torna mais palatável quando permanece indiferente diante das atrocidades cometidas com os excluídos do mundo, desde que seus “cofrinhos” estejam bem fornidos e seus apaniguados bem entronizados em situações confortáveis?
Os novos tempos que já se encontram entre nós não serão fáceis para evangelizadores medíocres, tampouco para os desatentos, leigos, clérigos e purpurados, que ainda não perceberam que a informação universalizou-se, para tornar-se conhecimento devendo ser bem acessada, eficazmente organizada e holisticamente interpretada, sem burocracias pernósticas, nem tampouco os olimpiquismos de mentirinha, para serem mostrados em fotos de sites específicos.
Sejamos bem conscientes dos nossos tropeços, corajosos nas convicções e fiéis a princípios. Desconfiando sempre das imperiais certezas e jamais embarcando na canoa dos que afirmam que se deve fazer apenas o que o coração mandar. Nunca se olvidando do que proclamou o Marquês de Maricá: “A mediocridade em tudo é uma garantia e penhor de segurança e tranqüilidade, sendo a passividade sua filha predileta”.
Na construção das nossas utopias, evitemos cometer três falhas gritantes: a de desejar possuir uma visão que forneça um quadro perfeito do futuro; a pressuposição de que o hoje lhe presenteará com um mapa abrangente do amanhã; e a de que é dispensável garra incomum e férrea vontade para compreender as incógnitas e os paradoxos dos tempos futuros.
Busquemos amparo nas Lamentações do profeta Jeremias: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã” (Jr 3, 21-22).
E jamais devemos esquecer, em nosso caso brasileiro, a grande bofetada crítica do pernambucaníssimo Joaquim Nabuco, que não titubeou em denunciar o Cristianismo da época, durante a Campanha Abolicionista: “A deserção pelo nosso clero do posto que o Evangelho lhe marcou foi a mais vergonhosa possível; ninguém o viu tomar a parte dos escravos, fazer uso da religião para suavizar-lhe o cativeiro, e para dizer a verdade moral aos senhores”. E disse mais: “Acabar com a escravidão não basta; é preciso destruir a obra da escravidão”.
Para nós, cristãos, a missão deve ser muito semelhante àquela que foi praticada pelo querido arcebispo metropolitano acima citado: “Continuar a converter é preciso e mais que oportuno. Converter corações, mentes e estruturas integra nosso dever de militantes, sempre sabendo resguardar-se dos escribas e fariseus, dos que ‘gostam de circular com togas, dos que devoram as casas das viúvas e simulam rezar longamente" (Mc 12, 38-40). ... “As ondas do passado já foram bem maiores e nós fomos capazes de suplantá-las. E superamos os obstáculos sob contínua inspiração ética, ‘dispensando os que são soberbos, derrubando governantes dos seus tronos, exaltando os humildes, enchendo de coisas boas os famintos e despedindo de mãos vazias os ricos’ (Lc 1, 51-55)”.
Saibamos entender, na ousadia cotidiana dar sempre um passo adiante, que a fé e a esperança não devem ser esmaecidas por otimismos vazios, incapazes de dizer “sim” e “não” em ambientes que necessitam diferenciar o “apenas bom” do “essencialmente ótimo”, consubstanciado no poder das novas experiências paradigmáticas de cooperação e junção de esforços ecumênicos, facilitadoras da emersão das cidadanias cristãs ativas, bem-informadas e influentes.

sábado, 16 de agosto de 2008

Obrigado, Dom

Amado Dom Hélder: quando das proximidades das comemorações do centenário de seu nascimento, sinto-me no dever de, em oraçãos múltiplas, continuar a agradecer ao Pai pelos seus inúmeros ensinamentos, transmitidos para os mais diferenciados rincões deste mundão de Deus.
Nós lhe somos eternamente devedores. Pelas memoráveis meditações deixadas pelo padre José, uma delas retrato fiel da sua atuação magnificamente ecumênica entre nós: “As árvores que jamais perdem o viço, que são perenemente verdes, olham, com uma ponta de inveja, as árvores que se desnudam de folhas e lembram esqueletos ... Quando a primavera irrompe, só quem foi despojado vibra com o milagre da ressurreição.”
Jamais esqueceremos o seu pronunciamento, em abril de 1964, diante da multidão que o aplaudia em frente à Matriz de Santo Antônio, quando advertiu muito fraternalmente, com seu jeitão carinhoso de dizer bem o que bem queria dizer: “Ninguém pretenda prender-me a um grupo, ligar-me a um partido, tendo como amigos os seus amigos e querendo que adote as suas amizades.” Como que a anunciar, uma vez mais, o seu maior desejo cristão, o de ver todos com muita vida e vida em abundância.
Não olvidaremos jamais seu apoio pastoral à Comissão Justiça e Paz, quando as aves governamentais não eram de gorjeio e tampouco queriam por aqui cantar democraticamente. E sempre recordaremos a manifestação do poeta Fernando Pessoa, freqüentemente a todos nós mostrada quando sua intuição percebia os nossos primeiros sinais de esmorecimento: “Não conto gozar a minha vida, nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade, ainda que para isso tenha de a perder como minha”.
Sentimo-nos ainda profundamente felizes pelas suas imorredouramente incontáveis manifestações de apreço à Maria Santíssima, Mãe do Homão. Sob o exemplo dela, saberemos continuar a caminhar pelas veredas da Vida, proclamando a Justiça Social, aguardando, através de uma postura ativamente não-violenta, a chegada de novos tempos, religiosos inclusive, quando então nos tornaremos ainda mais fraternos.
Suas múltiplas utopias evangelizadoras, todas elas vivenciadas sob as pegadas de Jesus de Nazaré, continuarão incorporadas ao nosso ideário existencial. Como sempre helderistas, divulgaremos mais eficazmente as suas mensagens, para uma inserção consciente de todos nos planos de Deus, em momento algum subestimando seu alerta: “Das barreiras a romper a que mais custa e a que mais importa é, sem dúvida, a da mediocridade”.
Devedores da sua trajetória sementeira, de incontáveis bons frutos, nos sentiremos cada vez mais profundamente recompensados pela sua firme presença espiritual entre nós, cada um se considerando parcela, inclusive Dom Maurício Andrade, nosso Primaz Anglicano e seu fã de carteirinha, sem imitações nem fingimentos. Todos nós respaldados num ensinamento transmitido no seu querido Seminário da Prainha, na sua amada Fortaleza: “Confia no Senhor de todo coração e não te fies em tua própria inteligência" (Pv, 3-5).
Embora saudosos e ainda não de todo conformados, estamos jubilosos com as proximidades das comemorações do centenário de seu nascimento, aplaudindo sua profética meditação: “Quando sentires o primeiro sinal inconfundível de morte próxima, não te fies em ti ... Agarra-te com a Graça. Aviva a crença na vida eterna. Não peças um segundo a mais. Fecha os olhos e pula no abismo de misericórdia da compreensão divina.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

domingo, 10 de agosto de 2008

Fé e Ecumenismo

Toda vez que releio a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) ponho-me a imaginar sobre o que vem acontecendo no mundo de hoje, onde preconceitos mil persistem como divisores de denominações religiosas, fragilizando a fé num Deus que é a Base de Toda Existência.
Como seria o fuxiquismo na época do Nazareno? Madames, com maridos dotados de uma baita ojeriza a tabaco e bebida fermentada, horrorizadas diante do acontecido em Samaria, onde o Rabi da Galiléia pediu água a uma mulher que se encontrava no quinto casamento. Para não falar da cura dos leprosos, da mulher do corrimento e do não-cumprimento dos sabás. Para nada dizer sobre a destruição das barracas que faziam transações cambiais no Templo. E sem calcular o espanto de alguns fundamentalistas puritanosos, nos primeiros tempos de andança do Nazareno, com a Sua afirmação de que “a salvação vem dos judeus” (Jo 4,22).
Para combater a nossa incapacidade de conviver com os diferenciados de todos os matizes, aplaudo o documento do CONIC, no I Congresso Missionário Ecumênico, ano passado. Nele estão ações para ultrapassar os obstáculos do caminhar com todos: a) buscar comunhão na compreensão ampla da missão que compreenda a defesa da dignidade da pessoa humana, na prática da justiça, na construção de novas relações sociais que promovam a vida para todos, como dimensões essenciais do anúncio do Evangelho; b) sabendo-se parte do cotidiano, buscar sintonia na compreensão da realidade social, em seus desafios e interpelações para a vivência e o anúncio do Evangelho; c) compreender que há situações particulares em que as necessidades dos cristãos podem ser supridas mais eficazmente pelo trabalho conjunto das Igrejas do que isoladamente; d) eleger instrumentos e espaços comuns de missão; e) criar condições para um maior conhecimento de outra denominação, já que a ignorância em relação ao outro e à outra alimenta o "pré-conceito";f) incentivar a formação ecumênica em seminários, escolas bíblicas e teológicas, e na catequese e educação cristã das Igrejas-membro do CONIC no sentido de promover a dimensão ecumênica da identidade cristã e eclesial; g) desenvolver uma espiritualidade ecumênica, promovendo encontros de cristãs e cristãos de diferentes Igrejas para oração comum, assumindo a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos no calendário litúrgico das Igrejas; h) divulgar melhor as iniciativas de diálogo ecumênico e inter-religioso entre as igrejas-membro do CONIC; i) intensificar o esforço de integração entre o ecumenismo de base e o eclesiástico; j) incentivar maior participação de jovens e mulheres nas tomadas de decisões e na realização dos programas ecumênicos das nossas Igrejas; k) desenvolver nas Igrejas-membro do CONIC o comportamento de ações comuns frente aos problemas relevantes da sociedade brasileira; l) ampliar e fortalecer canais de diálogo com as Igrejas pentecostais bem como outras Igrejas não participantes do CONIC, construindo relações de acolhida e respeito mútuo; m) estimular as autoridades eclesiásticas a assumirem os projetos ecumênicos de suas próprias denominações ou dos organismos ecumênicos aos quais elas pertencem.
Com fé no Galileu, o judeu mais puro dos nascidos de mulher, continuo achando as Boas Novas ainda pouco cumpridas nas denominações cristãs. Por vaidades múltiplas, medos de perder poder, ânsia de ser poderoso, literalismos, perspectivas de maior amealhamento ou sectarismo reacionário diante das evoluções científicas e arqueológicas cada vez mais notáveis. Ou por não perceberem que o importante é o destino, nunca os caminhos trilhados. Tal e qual os integrantes do Judaísmo Messiânico, um movimento muito antigo, constituído por seguidores d’O Caminho, estruturado nos dois primeiros séculos. Que defendem que Yeshua não instituiu uma nova religião, vindo cumprir a antiga (Mt 5,17), dando continuidade às Escrituras Hebraicas (2Tm 3,16). Eles permanecendo judeus, Judeus Messiânicos, conforme testemunha o próprio apóstolo Paulo (Cl 4,11). Até hoje, meus irmãos de fé e camaradas.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Pitacos Cutucadores

1. Como atenuar nas religiões a mediocridade que agiganta a indolência mental e absolutiza relativismos, marginalizando o agir crítico-criativo que trava bons combates contra as indisposições cognitivas que alimentam alienações religiosas, acelerando a morte de Deus?
2. Caracterizado o Brasil como “um país com um desejo infinito, apesar de por vezes imperfeito, impaciente e confuso, de viver experiências e adquirir conhecimento”, por que o método Paulo Freire não está sendo amplamente divulgado através de uma capacitação maciça de educadores dispostos a atenuar a transitividade ingênua da juventude, hoje num debiloidismo cultural quase auto-fágico?
3. Com computadores de alta geração, internet, televisão a cabo, DVD, multiplicação das informações, iPod, celulares mundializados e tantas outras maravilhas, algumas delas até estimuladas por forças poderosas e onipresentes, não se tornaria indispensável, para o primeiro grau de ensino brasileiro, um reforço considerável na consolidação de um pensar-para-agir capaz de melhor proporcionar a emersão de uma cidadania comprometida com todos, independentemente das necessidades mercadológicas, ensejando uma “enxergência comunitária multifacetária”?
4. Nenhuma superpotência econômica, cultural, política e militar foi construída por levas de imbecis e debilóides. Grécia, Roma, Grã-Bretanha, Portugal, Espanha, Alemanha, Japão e China, só para citar algumas, explicitaram suas variadas grandezas através de lideranças vigorosas e estratégias cativadoras, todas elas fascinantes pelo menos nas fases primeiras. Por que a consagradora performance do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco ainda não foi amplamente trombeteada, para que as demais instituições responsáveis pelo preparo dos talentos futuros possam assimilar uma “metodologia vitoriosa de ensino-aprendizagem”?
5. Parodiando Michael Legault, autor do aplaudido THINK! Porque Não Tomar Decisões Num Piscar de Olhos, “as igrejas cristãs acabaram se tornando uma burocracia complexa e mais preocupada em controlar as regras e evitar problemas do que em estar comprometida com o conhecimento, o progresso, a busca da verdade e o raciocínio claro, inovador e analítico”.
6. Quando as lideranças religiosas lerem O Papel Educativo das Igrejas na América Latina, de Paulo Freire, perceberão melhor as razões pelas quais não se desvencilham das posturas tradicionais. Segundo Freire, quando se separa mundanidade da transcendência, menos compromisso se tem com a libertação dos oprimidos de todos os matizes. Sendo impossível a neutralidade histórica de qualquer pessoa ou instituição.
7. “Eu nunca neguei a minha camaradagem com Cristo e nunca neguei a contribuição de Marx para melhorar a minha camaradagem com Cristo. Marx me ensinou a compreender melhor os Evangelhos”. Com tal sentimento de pertença, Paulo Freire percebeu-se mais conscientemente ativado na história, na sociedade e na indução transformadora da direção de um mundo bem mais humano, vocacionado para ser mais, um direito de todos.
8. Dom Hélder Câmara proclamava que a coisa mais pecaminosa era a miséria e a mais ecumênica era a luta para que todos pudessem viver. Certa feita, o Dom ganhou um Preto Velho de um umbandista e chegou com ele numa comunidade cristã, postada de olhares espantados. A explicação: “é que eu estava visitando um irmão, do qual séculos me distanciaram”.
9. O Rabi Hilel proclamava que “mais estudo, mais sabedoria; mais orientação, mais compreensão; mais generosidade, mais paz”. Quando chegará o tempo das religiões perceberem que essência une muito mais que circunstância? Certo está o rabino Nilton Bonder: “a condição de peão é chave para toda e qualquer estratégia e a estratégia é a alma do jogo”. Ser peão e sábio, eis a receita da contenda.
10. Constatação de muita valia: Educação x Fé, um binômio existencial libertador.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste)

sábado, 2 de agosto de 2008

Sobre o Viver

Eis uma historinha real. No ano 1929, agosto, um jovem indiano de 34 anos assumiria as funções de grão-mestre de uma ordem secreta chamada Estrela do Oriente. Ele estava sendo preparado desde os 13 anos por uma sociedade teosófica. Aprendera idiomas, mergulhara fundo nas religiões do planeta, assimilara o que existia na filosofia, apreendera realidades múltiplas e se aperfeiçoara em convivialidades fraternais, ampliando respeitos e admirações.
Na posse, eis que, diante dos convidados, declara extinta a ordem “de uma vez por todas e para sempre”. Em declara que “a Verdade é uma terra sem caminho”, ninguém podendo dela aproximar-se “por nenhuma religião, nenhuma seita”. Proclamou que “a crença é uma questão puramente individual”, pois “o Mestre mora dentro de nós, não precisamos buscar nada nos outros”. E que sua preocupação era “libertar o homem de todas as prisões, de todos os temores”, não desejando ter seguidores, pois “a partir do momento em que seguimos alguém, deixamos de seguir a Verdade”. E concluiu: “Não serei mais um cego conduzindo cegos”.
O jovem chamava-se Jiddu Krishnamurti, falecido em 1986, Califórnia, USA. Tinha sido “descoberto” por Charles W. Leadbeater, integrante de uma Sociedade Teosófica, que o percebeu dotada de uma mente talhada para ser “Instrutor do Mundo”. Imaginava Leadbeater, sob a liderança futura de Krishnamurti, congregar todos aqueles que acreditavam nos princípios da sociedade, aderindo sob a forma de doação de propriedades e contribuições financeiras.
Rejeitando ser guia espritual, o jovem principiou a palestrar, apontando para a necessidade de aprofundar a consciência, “esse vasto espaço que existe no cérebro, onde há inimaginável energia”. Preocupado com a educação, Krishnamurti fundou escolas em diferenciadas partes do mundo, onde se aprendia a conviver com o quotidiano, através de descondicionamentos que redundavam no florescimento interior.
A editora Nova Era, recentemente lançou o primeiro volume de uma trilogia denominada Comentários Sobre o Viver – Breves Textos. Na contra capa, uma advertência: “Muitos dos temas que hoje se encontram na ordem do dia foram abordados por ele. ... A diferença é que ele não quer que você o siga: quer que você reflita, questione, descubra dentro de você sua própria verdade”.
Em sua biografia consta um fato ocorrido seis anos da sua eternização. Krishnamurti proferia palestra na Inglaterra, quando alguém o questionou sobre as razões que o levavam a continuar falando, “gastando energia, quando ninguém parecia mudar”. A resposta dada calou os presentes: "Antes de mais nada, eu não dependo de vocês como um grupo que vem ouvir o palestrante. O orador não está ligado a nenhum grupo em particular, nem está precisando de uma assembléia. Penso que quando alguém vê algo verdadeiro e belo, ele quer contar às pessoas sobre isso, por afeição, por compaixão, por amor. E, se não houver quem esteja interessado, tudo bem, mas aqueles que estão interessados, talvez eles possam reunir-se. Você pode perguntar à flor por que ela cresce, por que ela tem perfume? É pela mesma razão que o orador fala".
O João Silvino, quando tomou conhecimento do livro, quase endoida. E me mostrou ainda o testemunho de Henry Miller, escritor consagrado: "Eu não conheci nenhum outro homem vivo cujo pensamento fosse mais inspirador."
Uma lição extraída da leitura do livro, para todos os Filhos da Criação deste tempo de pós-modernidade: "Enfrente o medo, convide-o, não o deixe chegar de repente, inesperadamente, mas encare-o constantemente, busque-o com diligência e determinação. Não deixe os problemas criarem raiz. Passe por eles rapidamente, atravesse-os como se estivesse cortando manteiga. Não permita que eles deixem uma marca, acabe com eles assim que eles apareçam. Você não pode evitar ter problemas, mas acabe com eles imediatamente".
Muita gente deveria ser mais Krishnamurti. De todas as religiões.