Numa das celebrações dominicais da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, o Deão Rev. Sérgio Andrade, por quem nutro estima fraternal, comentou rapidamente acerca de um livro que tinha lido, ainda curtindo a notícia de sua futura dupla paternidade, pela chegada próxima de gêmeos, a Karina, sua esposa, numa gestação muito abençoada. E insistiu para que eu o lesse, emprestando-me seu exemplar, avisando-me que já havia uma fila de mais dois.
O livro publicado pela editora Record, A Próxima Cristandade, do historiador britânico Philip Jenkins, deveria ser tema de amplas discussões estratégicas em todas as denominações religiosas, diante dos problemas que estão afligindo inúmeras delas. Favorecendo a emersão de novos procedimentos evangelizadores, sobremaneira cativantes, capazes de atrair uma juventude sadiamente crítica, que anseia por uma espiritualidade mais próxima de uma concretude histórica século XXI. Sem desmerecer, sob hípótese alguma, os alicerces cristãos fundacionais, estou convencido da necessidade da efetivação de múltiplas ultrapassagens, favorecendo iniciativas que alavancarão nossa gente para um novo modo de ser Igreja, mais compatível com as exigências de um século que se explicita perturbador, numa pós-modernidade que ainda se comporta como uma criança engatinhante.
No livro, Jenkins revela que as questões religiosas, nos últimos tempos, receberam pouquíssimas análises projetáveis, não sendo levados em conta os deslocamentos dos eixos de um Cristianismo até bem pouco considerado uma religião européia, para não-negros, não-pobres e não-jovens. Segundo o autor, reproduzindo dados da World Christian Encyclopedia, atualmente 1/3 do total de habitantes do planeta são teoricamente cristãos: 560 milhões na Europa, 480 na América Latina, 360 na África, 313 na Ásia.
Numa projeção para 2025, os 2,6 bilhões de cristãos do planeta estarão distribuídos da seguintes maneira: 633 milhões na África, 640 na América Latina, 460 na Ásia, a Europa, caindo para terceiro lugar, com 555 milhões. Em 2050, apenas 1/5 dos três bilhões de cristãos do planeta serão brancos não-hispânicos. E Jenkins conclui: “no plano global, a religião do futuro deverá ser o islamismo”. Uma das religiões monoteístas, baseada nos ensinamentos de Maomé (570-632 d.C.), chamado de O Profeta, contidos no livro sagrado, o Corão. A palavra islã significa submeter e exprime a submissão à lei e à vontade de Alá. Seus seguidores são chamados de muçulmanos, que significa “aquele que se submete a Deus”.
Quando ainda me detinha nas últimas páginas do livro do Philip Jenkins, me deparo com uma entrevista, na Bienal do Livro de São Paulo, da escritora Julia Franck, , considerada o mais aplaudido nome da atual literatura alemã, autora de A Mulher do Meio Dia, edição brasileira Nova Fronteira. Segundo ela, “hoje, as pessoas escolhem tudo. Pela liberdade de escolha pouca gente na Alemanha e na Europa acredita em Deus ou tem alguma forma de espiritualidade. Deus virou uma noção do passado”.
Por que tamanha desacreditação generalizada acarretou uma situação tão incomodatícia para as históricas denominações cristãs? Será que a debilitação do Cristianismo se deve exclusivamente aos que se encontram do lado de fora das inúmeras igrejas? Ou será, como na América Latina, que também é consequência direta das indiferenças diante das denúncias proféticas de Dom Hélder Câmara, nosso inesquecível e único Dom, vez por outra debilmente imitado? Uma delas: "O Cristianismo que difundimos no Continente, atribuindo tudo a Deus e quase não apelando para a iniciativa e a responsabilidade do homem chamado, pelo Criador, a dominar a natureza, a completar a Criação, a conduzir a História, alimentou nas Massas latino-americanas um sentimento passivo, fatalista e mágico". Uma segunda: "É urgente evitar que os jovens se convençam de que a Igreja é mestra em preparar grandes textos e sonoras conclusões, sem a coragem de levá-las à prática".
Será que patrocinar grandes reuniões, com representações de quase todo mundo, para obtenção de caminhares cada vez mais tartarugais, esquecendo a extrema urgência de se formar amplas frentes para eliminar divisões e falsas posições teóricas seria a solução? E fingir desconhecer, por incompetências ou egolatrias, nepotismos ou invejas, medos de perdas condominiais ou salafrarismos diversos, a convicção exposta pelo Dom, o Hélder Câmara naturalmente: "Deus é e quer ser Pai de todas as Criaturas Humanas, de todas as Raças, de todos os Tempos, de todas as Cores, de todas as Línguas, de todas as Crenças e todas as Ideologias".
Será que o Cristianismo só se dá bem diante das massas menos favorecidas, menos críticas, mais sujeitas às ilusões mais desenxabidas, que se portam abobadas diante dos sabidos e sabidões que pregam anestesias, jogando na lata do lixo a “Ecclesia semper reformanda” de Martinho Lutero? Será que o Cristianismo se torna mais palatável quando permanece indiferente diante das atrocidades cometidas com os excluídos do mundo, desde que seus “cofrinhos” estejam bem fornidos e seus apaniguados bem entronizados em situações confortáveis?
Os novos tempos que já se encontram entre nós não serão fáceis para evangelizadores medíocres, tampouco para os desatentos, leigos, clérigos e purpurados, que ainda não perceberam que a informação universalizou-se, para tornar-se conhecimento devendo ser bem acessada, eficazmente organizada e holisticamente interpretada, sem burocracias pernósticas, nem tampouco os olimpiquismos de mentirinha, para serem mostrados em fotos de sites específicos.
Sejamos bem conscientes dos nossos tropeços, corajosos nas convicções e fiéis a princípios. Desconfiando sempre das imperiais certezas e jamais embarcando na canoa dos que afirmam que se deve fazer apenas o que o coração mandar. Nunca se olvidando do que proclamou o Marquês de Maricá: “A mediocridade em tudo é uma garantia e penhor de segurança e tranqüilidade, sendo a passividade sua filha predileta”.
Na construção das nossas utopias, evitemos cometer três falhas gritantes: a de desejar possuir uma visão que forneça um quadro perfeito do futuro; a pressuposição de que o hoje lhe presenteará com um mapa abrangente do amanhã; e a de que é dispensável garra incomum e férrea vontade para compreender as incógnitas e os paradoxos dos tempos futuros.
Busquemos amparo nas Lamentações do profeta Jeremias: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã” (Jr 3, 21-22).
E jamais devemos esquecer, em nosso caso brasileiro, a grande bofetada crítica do pernambucaníssimo Joaquim Nabuco, que não titubeou em denunciar o Cristianismo da época, durante a Campanha Abolicionista: “A deserção pelo nosso clero do posto que o Evangelho lhe marcou foi a mais vergonhosa possível; ninguém o viu tomar a parte dos escravos, fazer uso da religião para suavizar-lhe o cativeiro, e para dizer a verdade moral aos senhores”. E disse mais: “Acabar com a escravidão não basta; é preciso destruir a obra da escravidão”.
Para nós, cristãos, a missão deve ser muito semelhante àquela que foi praticada pelo querido arcebispo metropolitano acima citado: “Continuar a converter é preciso e mais que oportuno. Converter corações, mentes e estruturas integra nosso dever de militantes, sempre sabendo resguardar-se dos escribas e fariseus, dos que ‘gostam de circular com togas, dos que devoram as casas das viúvas e simulam rezar longamente" (Mc 12, 38-40). ... “As ondas do passado já foram bem maiores e nós fomos capazes de suplantá-las. E superamos os obstáculos sob contínua inspiração ética, ‘dispensando os que são soberbos, derrubando governantes dos seus tronos, exaltando os humildes, enchendo de coisas boas os famintos e despedindo de mãos vazias os ricos’ (Lc 1, 51-55)”.
Saibamos entender, na ousadia cotidiana dar sempre um passo adiante, que a fé e a esperança não devem ser esmaecidas por otimismos vazios, incapazes de dizer “sim” e “não” em ambientes que necessitam diferenciar o “apenas bom” do “essencialmente ótimo”, consubstanciado no poder das novas experiências paradigmáticas de cooperação e junção de esforços ecumênicos, facilitadoras da emersão das cidadanias cristãs ativas, bem-informadas e influentes.