Um envelope todo encorpado, metido a carta, chega de muito longe, cheiroso que só. A identificação do remetente, há muito sumido dos tiragostos de Dona Zetinha, sem explicação nem até logo, revela conteúdo novidadeiro, posto que João Silvino da Conceição não iria tão longe se a motivação fosse chinfrim. Vale a pena conferir a escrita dele:
"Desculpe-me se não me despedi de mesmo, desaparecendo sem qualquer até. Mas o convite de conhecer, na Índia, a vida e os ensinamentos de Shankara, um gota serena recheado de sabedoria, em vinte prestações e a dólar mais baixo, me deixou fissurado. E como do bate-pronto do aceitamento até o check-in no aeroporto dos Guararapes foi questão de quatro dias, o jeito foi me arremeter com o avião, sem qualquer outro idioma, para Kaládi, no sul da Índia, de beleza e morenidade diferentes das daqui.
A história de Shankara é incrivelmente semelhante ao do nosso menino Jesus. Nascido por volta de 686 antes d’Ele, aos dez anos já era um prodígio, travando discussões sobre as escrituras com os antigos, que de toda parte se achegavam para ouvir aquele pedacinho de gente recitar O Fim da Ilusão, poema da sua lavra: Estranhos são os caminhos deste mundo. Vê a loucura do Homem: na infância ocupado com seus brinquedos, na juventude seduzido pelo amor, na maturidade curvado sob as preocupações, e sempre negligente com o Senhor!
Mas o trabalho mais importante de Shangara é um poema intitulado A Jóia Suprema do Discernimento, do qual envio alguns pedacinhos: O discernimento correto revela-nos a verdadeira natureza de uma corda e remove o doloroso medo ocasionado pela nossa crença ilusória de ser ela uma cobra ... Se realmente desejas a libertação, continuas bebendo com deleite, como um néctar, as virtudes do contentamento, da compaixão, do perdão, da sinceridade, da serenidade e do auto-controle ... Aquele que procura encontrar o seu iluminado Eu alimentando os desejos do corpo está tentando atravessar um rio agarrado a um crocodilo, confundindo-o com uma tábua.
Um dia, na metade da viagem, me aproximei de um seguidor de Shankara, um velhinho de 96 anos, olhinhos azuis e cabecinha raspada, sorriso nos lábios, muito diferente de umas “coisas” daí, que só vêm troço feio nos procedimentos dos demais companheiros de caminhada. Eis as perguntas feitas e as respostas conseguidas:
"Desculpe-me se não me despedi de mesmo, desaparecendo sem qualquer até. Mas o convite de conhecer, na Índia, a vida e os ensinamentos de Shankara, um gota serena recheado de sabedoria, em vinte prestações e a dólar mais baixo, me deixou fissurado. E como do bate-pronto do aceitamento até o check-in no aeroporto dos Guararapes foi questão de quatro dias, o jeito foi me arremeter com o avião, sem qualquer outro idioma, para Kaládi, no sul da Índia, de beleza e morenidade diferentes das daqui.
A história de Shankara é incrivelmente semelhante ao do nosso menino Jesus. Nascido por volta de 686 antes d’Ele, aos dez anos já era um prodígio, travando discussões sobre as escrituras com os antigos, que de toda parte se achegavam para ouvir aquele pedacinho de gente recitar O Fim da Ilusão, poema da sua lavra: Estranhos são os caminhos deste mundo. Vê a loucura do Homem: na infância ocupado com seus brinquedos, na juventude seduzido pelo amor, na maturidade curvado sob as preocupações, e sempre negligente com o Senhor!
Mas o trabalho mais importante de Shangara é um poema intitulado A Jóia Suprema do Discernimento, do qual envio alguns pedacinhos: O discernimento correto revela-nos a verdadeira natureza de uma corda e remove o doloroso medo ocasionado pela nossa crença ilusória de ser ela uma cobra ... Se realmente desejas a libertação, continuas bebendo com deleite, como um néctar, as virtudes do contentamento, da compaixão, do perdão, da sinceridade, da serenidade e do auto-controle ... Aquele que procura encontrar o seu iluminado Eu alimentando os desejos do corpo está tentando atravessar um rio agarrado a um crocodilo, confundindo-o com uma tábua.
Um dia, na metade da viagem, me aproximei de um seguidor de Shankara, um velhinho de 96 anos, olhinhos azuis e cabecinha raspada, sorriso nos lábios, muito diferente de umas “coisas” daí, que só vêm troço feio nos procedimentos dos demais companheiros de caminhada. Eis as perguntas feitas e as respostas conseguidas:
- O que deve ser evitado? As ações que nos levam a uma maior ignorância da verdade.
- Onde reside a força? Na paciência.
- Quais os males mais difíceis de extirpar? O ciúme e a inveja.
- O que é irreal? Aquilo que desaparece quando o conhecimento desperta.
- O que é libertação? A destruição da nossa ignorância.
- Em que devemos empenhar-nos? Em continuar aprendendo enquanto vivemos.
- Que coração não conseguirei conquistar, mesmo usando todas as minhas forças? O coração de um tolo ou de um ser humano que tem medo, ou está cheio de mágoa, ou é invejosamente pequeno, ou tem manias de poder, ou é incapaz de gratidão.
- Quais são as qualidades mais raras neste mundo? Ter o dom de dizer palavras doces com compaixão, ser erudito sem orgulho, ser heróico e ao mesmo tempo generoso, e ser rico sem apego à riqueza.
Estou chegando na próxima semana. E volto com uma dúvida cachorra da moléstia: será que Shankara era primo bem longe do Menino de Nazaré? As lições de ambos são incrivelmente parecidas, ambos morreram por volta dos 33 anos e os dois irradiavam muita sabedoria desde bem pequenininhos. De qualquer maneira, chegando por aí, comprarei aquele livro que o amigo me recomendou com entusiasmo, não adquirido por puro esquecimento. Mas que se encontra anotado em minha agenda: O Sagrado, de Nilton Bonder, Editora Rocco.
Recomende-me à Melba e aos seus derredores. Um beijo muito carinhoso dê na Mariana e na Maria, suas netas queridas, seus fachos de luz, as quais você dedicará o seu próximo livro. Elas terão seguramente um futuro recheado de muita felicidade cidadã. Até aí, para a festa de Reis Magos.”
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)
Estou chegando na próxima semana. E volto com uma dúvida cachorra da moléstia: será que Shankara era primo bem longe do Menino de Nazaré? As lições de ambos são incrivelmente parecidas, ambos morreram por volta dos 33 anos e os dois irradiavam muita sabedoria desde bem pequenininhos. De qualquer maneira, chegando por aí, comprarei aquele livro que o amigo me recomendou com entusiasmo, não adquirido por puro esquecimento. Mas que se encontra anotado em minha agenda: O Sagrado, de Nilton Bonder, Editora Rocco.
Recomende-me à Melba e aos seus derredores. Um beijo muito carinhoso dê na Mariana e na Maria, suas netas queridas, seus fachos de luz, as quais você dedicará o seu próximo livro. Elas terão seguramente um futuro recheado de muita felicidade cidadã. Até aí, para a festa de Reis Magos.”
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)
