segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

João Silvino, de longe

Um envelope todo encorpado, metido a carta, chega de muito longe, cheiroso que só. A identificação do remetente, há muito sumido dos tiragostos de Dona Zetinha, sem explicação nem até logo, revela conteúdo novidadeiro, posto que João Silvino da Conceição não iria tão longe se a motivação fosse chinfrim. Vale a pena conferir a escrita dele:
"Desculpe-me se não me despedi de mesmo, desaparecendo sem qualquer até. Mas o convite de conhecer, na Índia, a vida e os ensinamentos de Shankara, um gota serena recheado de sabedoria, em vinte prestações e a dólar mais baixo, me deixou fissurado. E como do bate-pronto do aceitamento até o check-in no aeroporto dos Guararapes foi questão de quatro dias, o jeito foi me arremeter com o avião, sem qualquer outro idioma, para Kaládi, no sul da Índia, de beleza e morenidade diferentes das daqui.
A história de Shankara é incrivelmente semelhante ao do nosso menino Jesus. Nascido por volta de 686 antes d’Ele, aos dez anos já era um prodígio, travando discussões sobre as escrituras com os antigos, que de toda parte se achegavam para ouvir aquele pedacinho de gente recitar O Fim da Ilusão, poema da sua lavra: Estranhos são os caminhos deste mundo. Vê a loucura do Homem: na infância ocupado com seus brinquedos, na juventude seduzido pelo amor, na maturidade curvado sob as preocupações, e sempre negligente com o Senhor!
Mas o trabalho mais importante de Shangara é um poema intitulado A Jóia Suprema do Discernimento, do qual envio alguns pedacinhos: O discernimento correto revela-nos a verdadeira natureza de uma corda e remove o doloroso medo ocasionado pela nossa crença ilusória de ser ela uma cobra ... Se realmente desejas a libertação, continuas bebendo com deleite, como um néctar, as virtudes do contentamento, da compaixão, do perdão, da sinceridade, da serenidade e do auto-controle ... Aquele que procura encontrar o seu iluminado Eu alimentando os desejos do corpo está tentando atravessar um rio agarrado a um crocodilo, confundindo-o com uma tábua.
Um dia, na metade da viagem, me aproximei de um seguidor de Shankara, um velhinho de 96 anos, olhinhos azuis e cabecinha raspada, sorriso nos lábios, muito diferente de umas “coisas” daí, que só vêm troço feio nos procedimentos dos demais companheiros de caminhada. Eis as perguntas feitas e as respostas conseguidas:
- O que deve ser evitado? As ações que nos levam a uma maior ignorância da verdade.
- Onde reside a força? Na paciência.
- Quais os males mais difíceis de extirpar? O ciúme e a inveja.
- O que é irreal? Aquilo que desaparece quando o conhecimento desperta.
- O que é libertação? A destruição da nossa ignorância.
- Em que devemos empenhar-nos? Em continuar aprendendo enquanto vivemos.
- Que coração não conseguirei conquistar, mesmo usando todas as minhas forças? O coração de um tolo ou de um ser humano que tem medo, ou está cheio de mágoa, ou é invejosamente pequeno, ou tem manias de poder, ou é incapaz de gratidão.
- Quais são as qualidades mais raras neste mundo? Ter o dom de dizer palavras doces com compaixão, ser erudito sem orgulho, ser heróico e ao mesmo tempo generoso, e ser rico sem apego à riqueza.
Estou chegando na próxima semana. E volto com uma dúvida cachorra da moléstia: será que Shankara era primo bem longe do Menino de Nazaré? As lições de ambos são incrivelmente parecidas, ambos morreram por volta dos 33 anos e os dois irradiavam muita sabedoria desde bem pequenininhos. De qualquer maneira, chegando por aí, comprarei aquele livro que o amigo me recomendou com entusiasmo, não adquirido por puro esquecimento. Mas que se encontra anotado em minha agenda: O Sagrado, de Nilton Bonder, Editora Rocco.
Recomende-me à Melba e aos seus derredores. Um beijo muito carinhoso dê na Mariana e na Maria, suas netas queridas, seus fachos de luz, as quais você dedicará o seu próximo livro. Elas terão seguramente um futuro recheado de muita felicidade cidadã. Até aí, para a festa de Reis Magos.”
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco
)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Realidades do Dom

Uma festa de muito calor humano, a solenidade de entrega do título de Cidadão Pernambucano ao padre João Pubben, o Padre Joãozinho, de Dois Unidos, meu amigo-irmão de muitos anos. Aconteceu no dia 29 de novembro passado, na Assembléia, sob a presidência do deputado Antônio Morais, paroquiano da Casa Forte do padre Edwaldo Gomes, uma das pilastras do clero pernambucano.
Os autores da proposta, bravos deputados Terezinha Nunes e Pedro Eurico, em seus pronunciamentos não regatearam elogios ao ex-arcebispo de Olinda e Recife, o inesquecível Dom Hélder Câmara, carinhosamente chamado de Dom pelos seus mais próximos colaboradores, um tratamento carinhoso nunca auto-intitulado.
Dom Hélder Câmara foi de suma importância em momentos decisivos da vida do padre Joãozinho, o primeiro encontro acontecido em maio de 1968, o então arcebispo com 59 e o sacerdote holandês com pujantes 29 anos. O último se verificando em 27 de agosto de 1999, quando o mais velho partiu para a eternidade, incluindo-se no Deus Pai Todo Poderoso, Aquele que é Senhor da Vida.
Antes da solenidade, o padre João Pubben fez chegar a todos os presentes algumas anotações pessoais a respeito dos seus encontros com Dom Hélder Câmara. E enumerou as dez realidades na vida de Dom Hélder que o tocaram profundamente:
1. Era uma liderança pastoral onde contemplação e ação nunca estavam dissociadas.
2. Sua fé portentosa, em inúmeras ocasiões desanuviavam por completo as angústias dos que o procuravam.
3. Vivia a Eucaristia intensamente, afirmando sempre “ser o ponto mais alto do meu dia”.
4. Era um homem livre, parecendo que as estruturas da Sociedade e da Igreja para ele não existiam. Dom Jacques Gaillot, bispo de Partênia, declarou, no Recife, que “quando a gente tem medo não é livre, e quando é livre provoca medo”.
5. Buscava o principal da realidade, o supérfluo ficando em plano desprezível. Com isso, ganhava tempo e energia para se dedicar ao que era importante.
6. Dificuldades não o desanimavam, todas elas o convidavam a se jogar ainda mais na liça para vencê-las.
7. Era dotado de descomunal compreensão. Escutava os sofrimentos e as dificuldades dos que o procuravam mais com o coração que os ouvidos, reconfortando todos mais com o coração que a boca.
8. Misericordioso sempre, apesar dos sofrimentos causados pelos poderosos do Mundo e da Igreja. Inutilmente se encontrará uma palavra dura em seus escritos dirigida aos que o detratavam.
9. Amava a vida, “o sonho mais lindo de Deus”, como canta Reginaldo Veloso, ex-pároco do Morro da Conceição.
10. Muito amável e muito humano. Seus gestos solidários são incontáveis.
O documento distribuído pelo novo Cidadão de Pernambuco assim terminava: “Que Dom Hélder Pessoa Câmara viva para sempre feliz no Silêncio de Deus e que nós caminhemos na Paz do Senhor e na Fraternidade das Irmãs e dos Irmãos”.
Dou testemunho público do carinho de sua paróquia para com seu padre muito amado. Na Assembléia Legislativa, quando pronunciava seu discurso, o deputado Pedro Eurico citou o povo de Dois Unidos ali presente. Mais de uma centena de pessoas se levantaram numa calorosa salva de palmas, com muitos vivas de alegria não programada.
Como padre lazarista, João Pubben, o Padre Joãozinho de Dois Unidos, partiu da sua terra natal para dedicar-se aos pobres do Nordeste do Brasil, tornando-se uma referência de amor aos preferidos de Deus. Nascido em 16 de janeiro de 1939 em Heiden, na Holanda, lá se ordenou em 1965. Radicado em Dois Unidos há quase quarenta anos, também presta assistência às comunidades de Passarinho e Esperança, ainda sendo colaborador do Espaço Geriátrico Nossa Senhora da Conceição e voluntário do Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco (PROCAPE).
De nome pomposo – Johannes Franciscus Gerardus Pubben – o agora Cidadão Pernambucano padre Joãozinho tornou-se de direito um Leão do Norte. Pronto para continuar a travar o bom combate, sem jamais perder a fé.
Jornal do Commercio, Recife, PE,12.12.2007

domingo, 23 de dezembro de 2007

Pessoanas

Nas minhas horas de folga, cumpridas as obrigações para com a restauração da saúde da minha mulher, aulas, consultoria e voluntariado, muito aprecio vagabundear os olhos por escritos não-técnicos, que muito me reoxigenizam a cada amanhecer. Vez por outra, deparo-me com textos sedutores, cativantes, que me prendem madrugada a dentro, prostrando a parte física, ainda que deixando o espírito mais que serelepe, antenadíssimo, capacidade ampliada de identificar os fingidos e apequenados do derredor. Uma eficaz terapia, sem qualquer dispêndio financeiro, nem hora marcada, nem roupa apertada, paletó e tal.
Mês passado, um fato inabitual, num consultório médico, me proporcionou curtir mais feliz um oportuno feriadão. Deparei-me, minutos antes do atendimento sempre atrasado, com um livro de bolso, edição portuguesa, contendo textos de intervenção social e cultural, em prosa, do poeta Fernando Pessoa. Provocado pelas primeiras páginas e saído do consultório, encomendei um exemplar na livraria mais próxima. E pude verificar como Fernando Pessoa sempre esteve léguas distanciado das torres de marfins, locais preferidos pelos intelectuais de então, habituados a contemplar, à distância, o espetáculo do mundo, mãos nunca sujas, fingidamente puritanas e moralistas, civis, militares e eclesiásticas.
Em Fernando Pessoa, com seus mais conhecidos heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, a situação cultural portuguesa, a política dos partidos, a estagnação social, o nepotismo episcopal e o provincianismo figuram entre seus principais textos fustigantes, apesar do seu modo de ser recatado e tranqüilo, aparentemente divorciado dos buruçus cotidianos.
O poeta não receou arriscar seu nome em prol de causas antipáticas aos donos do poder e até mesmo à própria sociedade de então. Demonstrando coragem, coerência e muito humor, Pessoa desmistificou personalidades, hábitos e costumes, brandindo sua pena na defesa de uma ética libertadora, capaz de fazer corar o diocesano de lá, cândido por conivência ou conveniência nunca sincera.
Algumas das vergastadas do poeta mais parecem dirigidas à Nação Brasileira, tamanhas as suas semelhanças contextuais:
- “Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”;
- “O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela, em segui-la mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”;
- “O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos, e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância extrema - o cargo que exerce, a posição social, a fortuna que tem....”

Por isso, energizado pelo notabilíssimo poeta lusitano, recomendo às pessoas do meu relacionamento, pessoal e internético, nunca relegar um aforismo escrito pelo jesuíta espanhol Baltasar Gracián, em 1647, como que pondo fé na cidadania cristã futura de todos, cada um sendo autor e ator em um Reino que já se instalou entre nós, desde a ressurreição do Homão de Nazaré:
Ninguém nasce perfeito. Para tornar-se um Ser Humano o mais completo possível, profissional e pessoalmente, cultive o discernimento com maturidade, possua gosto elevado e inteligência aguçada para todas as coisas. Estude muito por meio de muitos, sempre fazendo do conhecimento seu melhor companheiro. Nunca abra a porta para o menor dos males, posto que os demais estão por detrás dele. Não se esquecendo de que até as lebres puxam as barbas de um leão morto, nunca brinque com a sua coragem. Só o verdadeiramente superior vê em dobro. Dizer não é tão importante quanto saber gostar de todas as boas coisas. A compreensão de um amigo vale mais que apenas a boa vontade de muitos. Amigos sensatos afastam as mágoas, os tolos acumulam. Os que mais se orgulham de suas proezas são os que menos têm motivos para tanto. Contente-se em fazer, deixando os comentários para os demais. Um espírito frouxo prejudica muito mais que um corpo fraco. Seja antes de ter”.
Relembremos o diálogo de Felipe com o Etíope, contido nos Atos dos Apóstolos (8,30-31). Perguntas e respostas que encerram grandezas de ambos os lados, o primeiro buscando ampliar o enxergar do segundo, este desejando orientar-se com alguém em quem pudesse depositar confiança, vendo-o pastor por derradeiro.

PS. Em breve, livro sobre verso, vida e prosa de Fernando Pessoa, de autoria do jurista José Paulo Cavalcanti Filho, também da Academia Pernambucana de Letras. Uma das prodigiosas inteligências brasileiras.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Para Entender Religiões

Segundo estimativas recentes, 15% da população terrestre não professam religião alguma, em torno de 4% sendo o percentual daqueles que se opõem a qualquer prática religiosa. Mais o fato mais preocupante é a desagregação das denominações religiosas do Ocidente. Três razões são apontadas: as acomodações ou obsolescências das próprias instituições; o acelerado desenvolvimento dos meios de comunicação e das correntes migratórias, a favorecer a multiplicação dos “produtos” religiosos; e o desencantamento com os anos 60 e 70 do século passado, ensejando novas formas de religiosidade, a maioria respaldada em correntes fundamentalistas.
Enquanto os menos atilados imaginam-se seguros diante das práticas anestésicas dos mais sabidos, os mais críticos, mesmo sob olhares de sutil censura e disfarçada rejeição, entendem que “Deus é antes de mais nada, liberdade”. E que a salvação não pode ser plenamente vivenciada em ambiente de constrangimento e medo, posto que a fé não pode ser vivenciada a partir da aceitação passiva dos conceitos doutrinários.
Um percurso temático foi recentemente elaborado por Michel Reeber, do Grupo de Estudos e de Pesquisa da Universidade de Ciências Humanas de Estrasburgo. São quatrocentos verbetes, contendo termos, conceitos e idéias que muito facilitarão o crente de qualquer denominação a compreender mais adequadamente a mensagem do Criador, propagada ela pelas denominações mais diferenciadas. A edição brasileira ainda possui um acréscimo sobre religiões, crenças e rituais praticados no país, um trabalho elaborado pelo professor Marcelo Ayres Camurça, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais.
Os verbetes relacionados às grandes religiões – hiduísmo, budismo, judaísmo, cristianismo e islamismos – são descritos de modo mais que satisfatório no livro do Reeber. Também no anexo se pode entender o que é candomblé, comunidades eclesiais de base, kardecismo, orixás, pajelança, santo daime, umbanda e vale do amanhecer. Parágrafos esclarecedores, numa linguagem não hermética, que certamente muito facilitarão a caminhada de cada leitor na sua trilha confessional.
A atual safra de bons livros sobre Religião proporciona uma maior criticidade nos que acreditam na transcendentalidade do ser humano efetivamente direcionada a partir de um construir existencial ético. As novas leituras conduzirão os diferenciados crentes na superação das dores do mundo contemporâneo através dos seguintes projetos-desafios: a humanização das operações tecnológicas, as novas formas de produção na busca de um padrão civilizatório mais condizente com a dignidade humana e o revigoramento da sustentabilidade ecológica do planeta. Alcançado elas, uma nova consciência cósmica se estabelecerá, apoiada na advertência do apóstolo Paulo: “Não deixem que ninguém os engane de modo algum” (2Ts 2,3)
Atualmente, embora prepondere ainda as manobras espúrias de antigamente – mandonismos, nepotismos, amealhamentos espúrios, anestesiamentos e alienações - são ainda poucos os seres humanos que percebem a decisiva importância da religião para a implementação de solidárias políticas globais. E quem ratifica tal argumentação é o teólogo Hans Kung, em livro editado pela Vozes, em 1999: “No mundo moderno, é a religião uma força central, talvez a força central que motiva e mobiliza as pessoas. ... Convicções religiosas e família, sangue e doutrina são as realidades com as quais as pessoas se identificam e em função das quais lutam e morrem”. Estou convencido que emerge velozmente uma baita revolução ética, amplamente respaldada nos princípios ecumênicos de uma Teologia da Inclusão Social. É só aderir pra humanamente saber fazer acontecer. Uma tarefa que também estará a cargo do CBMI - Centro Brasileiro de Missão Integral, em implantação no Recife, através do seu Mestrado em Missão Integral, evangelicamente supradenominacional, programado para se iniciar em meados do primeiro semestre de 2008. Sob as bençãos do Homão de Nazaré.

sábado, 8 de dezembro de 2007

A Janela

Certa feita, dois homens seriamente doentes foram internados numa mesma enfermaria de um grande hospital regional. O cômodo era bastante pequeno e nele havia apenas uma janela que dava para o exterior da edificação. Um dos pacientes tinha, como parte integrante do seu tratamento, permissão para sentar-se na cama por uma hora durante as tardes, sua cama se situando bem próximo da tal janela. O outro paciente, contudo, por força de recomendação médica, passava todo o seu tempo deitado de barriga para cima, restando-lhe tão somente o direito de ficar olhando para o teto do compartimento.
Todas as tardes, quando o homem cuja cama ficava perto da janela era colocado em posição sentada, ele passava o tempo descrevendo para o companheiro o que via lá fora. Segundo ele, da janela se descortinava um lindo parque, onde havia um lago com patos e cisnes, todos eles beneficiados pelos nacos de pão atirados pelas crianças que passeavam em seus barquinhos de madeira, devidamente supervisionados pelos seus pais ou babás. Na relva situada ao redor do lago, jovens namorados, de mãos dadas, trocavam juras de amor por entre árvores e flores, inúmeros jogos de bola se desenrolando ao longo dos espaços destinados à prática de esportes. Ao fundo, por detrás das últimas fileiras de arbustos, avistava-se o belo contorno dos prédios da cidade, com suas antenas parabólicas revelando a chegada de um novo milênio.
O homem que estava deitado ouvia atentamente o companheiro descrever tudo isso, saboreando com avidez o que estava sendo descrito nos mínimos detalhes. Escutou atentamente sobre como uma criança quase caiu no lago e sobre como as garotas estavam bonitas em seus vestidos de verão, cabelos bem cortados, corpos bem delineados e sorrisos de alegria, irradiando felicidade por todos os poros. As descrições do narrador faziam-no sentir como se estivesse realmente observando o que acontecia lá fora, tamanha a riqueza dos detalhes recebidos.
Numa tarde de maio, no homem sempre deitado ocorreu um pensamento: por que o paciente que ficava perto da janela deveria sozinho ter todo o prazer de ver o que estava acontecendo lá fora? E por que ele não poderia ter também a chance de contemplar o que estava acontecendo no mundo exterior? Sentiu-se um tanto envergonhado pelo sentimento de inveja, mas quanto mais tentava não pensar assim, mais queria que ocorresse uma reviravolta da situação. E faria qualquer coisa para isso acontecesse.
Numa noite, o homem da janela, subitamente, acordou sufocado. Debatendo-se desesperadamente, suas mãos procuraram inutilmente o botão que alertaria a enfermeira. Ao lado, indiferente ao drama, seu companheiro de ambiente hospitalar não moveu uma palha sequer em defesa do infeliz, mesmo quando a respiração dele parou por completo.
Pela manhã, o corpo do falecido foi levado para o necrotério, para os preparativos do sepultamento. Tão logo o defunto saiu da enfermaria, o outro perguntou se poderia ser colocado na cama perto da janela. Sendo prontamente atendido, viu-se devidamente aconchegado sob boas cobertas.
Sentindo-se só, apoiou-se sobre os cotovelos, esticando-se ao máximo para ver também o mundo do lado de fora da janela. E viu apenas um muro, igualzinho aos demais ...Principiando mortalmente a se desesperar, o novo inquilino da janela percebeu que a Vida é, sempre foi e será aquilo que nós a tornamos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Não ao apodrecimento da Esperança

Quem poderia ser o “herdeiro” do educador Paulo Freire no cenário brasileiro? Quem poderia ser o também professor que irradiasse com uma sabedoria nunca pedantocrática doses maciças de uma construção cidadã na direção de uma juventude que assiste atônita ao apodrecimento das suas esperanças mínimas? Quem saberia aliar, como tão bem Paulo Freire sabia, educação, política e contaminação afetiva, na conscientização lúdica, sem perda da seriedade analítica, dos caminhares restauradores da dignidade pátria, com distribuição menos desigual de renda, terra, prazer e liberdade? Quem, dos mais próximos derredores de Paulo Freire, poderia se responsabilizar pela continuidade do seu ideário, com muita sabedoria filosofal, sem as sapienciais arrogâncias dos que se imaginam portadores únicos de verdades nunca destronáveis?
Nordestinamente, eu aprontaria meu voto para um educador que conheço apenas da leitura de alguns de seus livros. Uma mente privilegiada pela capacidade de anunciar e analisar sem as acomodações dos que nunca atentaram devidamente para um refletir de Guimarães Rosa: “o animal satisfeito dorme”. Um humanista que se abeberou de uma convivência com Paulo Freire de muitos anos, aprendendo e apreendendo com aquele nordestino ouro de lei.
Não titubearia em sufragar o educador Mário Sérgio Cortella como um dos mais bem cotados “herdeiros” do consagrado alfabetizador pernambucano. Como autor de Não Nascemos Juntos – Provocações Filosóficas, Vozes 2007, Cortella percebe que o Século XXI chegou com suas grandezas e múltiplas indecências sociais. Exigindo, para uma sua melhor compreensão, a multiplicação de leituras indiviuais e coletivas, na busca da ampliação da solidariedade para com os menos favorecidos. Leituras que ajudarão a caminhar, sem nunca desapartar-se da lição magistral de Antônio Gramsci: "O modo de ser do novo intelectual não pode mais consistir na eloqüência, motor exterior e momentâneo dos afetos e das paixões, mas num imiscuir-se ativamente na vida prática, como construtor, organizador, persuasor permanente; da técnica-trabalho, eleva-se à técnica-ciência e à concepção humanista histórica, sem a qual se permanece 'especialista' e não se chega a 'dirigente', especialista mais político.”
Já se disse que a nossa crise brasileira, que também se incorpora a uma crise mundial, é muito profunda. É prenúncio do fim de uma era, início de uma nova fase, onde quase todo mundo ainda se encontra atordoado. E a ausência de uma “enxergância” comprometida com a transformação do hoje está levando os mais desavisados a uma não conformação com o fortalecimento do setor político, gerando-se neles dupla tendência: uma, a de se ser hipercrítico em relação a tudo aquilo que se apresenta para discussão; a outra, a de se tornar subcrítico diante do que lhe é imposto goela abaixo. E os hiper e os sub não estão ampliando a cidadania da gente brasileira.
Inúmeros confundem tradição, modernidade e pós-modernosidade, ora alimentando bloqueios e perplexidades, ora reforçando "soluções de facilidade". Substituindo liberdade por uma licenciosidade perversa, que sempre serviu de excelente pretexto para se impossibilitar salutares avanços sociais.
É chegada a hora de uma honesta reavaliação da vida nacional. A hora de reinventar-se chegou, para a superação dos obscurantismos políticos, sociais, culturais e religiosos.
Nada ameaça mais uma democracia que a gestão daqueles que desconhecem a tese fundamental: em toda democracia, as respostas são difíceis diante de uma demanda facilmente induzida. Estratégias e táticas bem definidas e discutidas, contínua postura dialogal e um ver-melhor-o-derredor bem poderiam constituir os balizamentos para uma nação que já assimilou a lição maior: "entre revolta e resignação, a tarefa principal do ser humano deverá ser a de compreender/explicar para transformar.”
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, 05.12.2007)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Achado do João Silvino

Dos pampas, o João Silvino da Conceição me trouxe um livro precioso. Editado em 1999 pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS, em comemoração aos seus 30 anos de existência, Jesus de Nazaré, Profeta da Liberdade e da Esperança congrega 20 magníficos ensaios, com temas os mais variados.
Na Apresentação, o pe. Aloysio Bohnen, SJ, comunica os três traços que caracterizam a coletânea: a multiautoralidade, a interconfessionalidade e a interdisciplinaridade. E questiona: qual é o lugar e o papel sociais da religião numa sociedade que já passou ou que venha a passar pela experiência histórica da emancipação socioeconômica, sociopolítica e sociocultural, possuidora do objetivo maior de testemunhar o vínculo inseparável entre fé e a promoção da justiça do Reino?
Enaltecendo o excelencialidade do conjunto, quatro ensaios despertaram minha atenção: Jesus e o Judaísmo (Henry Sobel), Nem Homem nem Mulher (Maria Clara Bingemer), Jesus Cristo e os Jovens (Hilário Dick) e Um Encontro Libertador (Luiz Eduardo Wanderley).
O escrito do rabino Sobel é mote para reaproximações concretas e esclarecimentos recíprocos sobre algumas anotações rancorosas emitidas pelas partes de um mesmo tronco abraâmico. Salientando que Jesus se considerava judeu fiel às suas origens, se reportando à Torá em suas pregações e seguramente praticante diário da Shemá, Sobel afirma que o dito em Mc 5,43 não se encontra em parte alguma do Antigo Testamento. Muito pelo contrário, Sobel reproduz Pv 25,21-22 para rebater o lapso cometido. E reproduz palavras de João Paulo II, em 1997: “Não se pode exprimir de maneira plena o mistério de Cristo sem recorrer ao Antigo Testamento. A identidade humana de Jesus define-se a partir do seu vínculo com o povo de Israel”.
A análise do pe. Hilário Dick, uma mente contemporânea, fotografa bem o amor dos jovens pela figura do Homão de Nazaré. Afirma que os jovens não apreciam muito dos que falam dEle, “porque há falas que O tornam muito etéreo ou concreto demais”. E diz quais os aspectos apreciados pelos jovens em Jesus: a liberdade com que Ele vivia a vida; o amor que Ele tinha pela natureza; a não-distinção de pessoas; o seu espírito revolucionário. Cita o canto Seu Nome é Jesus Cristo, sucesso de juventude dos anos 60, relembra o “Jesus Cristo, eu estou aqui!” do Roberto Carlos e ainda menciona os filmes Hair e Jesus Cristo Superstar, que levou cristãos, à época, “a estarem presentes na fundação de um partido de esquerda”.
A parte composta por Maria Clara Bingemer, PhD em Teologia pela Gregoriana de Roma e Coordenadora do Centro Loyola de Fé e Cultura, parte de uma constatação: “entre os diferentes tratados da Teologia que buscam repensar-se a partir da perspectiva da mulher, a Cristologia é talvez um dos mais importantes e, certamente, dos mais polêmicos”. Embora ressaltando que “a Cristologia é percebida inclusive por muitas mulheres como sendo a doutrina da tradição cristã que mais freqüentemente foi usada contra elas”, Maria Clara ressalta em duas partes do seu ensaio – Jesus e as mulheres e O feminino e a segunda pessoa da Trindade – as rupturas provocadas pelo Nazareno, devolvendo às mulheres o pedestal que elas sempre foram merecedoras.
Por fim, sem deixar de enaltecer a excelência dos ensaios restantes, o texto de Luiz Eduardo Wanderley revolve seu passado e enfrenta seus amanhãs como sexagenário ativo, exibindo como eixo estruturador a pessoa de Jesus de Nazaré. Filho de de pais religiosamente católicos romanos, Wanderley reflete sobre o papel do leigo nas caminhadas futuras do Cristianismo, num hoje de mudanças aceleradas, de intensa urbanização e de estresses múltiplos, onde não parece existir mais tempo para a meditação, a oração e a solidariedade de uns para com os outros.
Um presentão e tanto recebi do João Silvino. Uma edição de excelente conteúdo sobre o Homão que tanto amamos, irmão de Caminhada Libertadora.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Análise Desmistificadora

Para quem só vive de pulinhos aeróbicos em celebrações religiosas, sem saber bem os porquês das coisas, dos fatos e das estratégias usadas pelos evangelizadores nos primeiros anos do Cristianismo, um texto mostra com nitidez e honestidade investigatória o perfil bíblico dos doze discípulos do Homão de Nazaré, incluindo Matias, o que substituiu Judas Iscariotes. De autoria de Aramis DeBarros, Doze Homens, uma Missão, editado pela Hagnos, traz ainda uma introdução que analisa com detalhes as condições culturais, políticas e religiosas vigentes no século I da era cristã. As razões que levaram os saduceus a reagirem fortemente à presença evangelizadora dos apóstolos, a lapidação pública de Estêvão, a prioridade dos apóstolos em permanecer em Jerusalém, os aspectos facilitadores da difusão da fé cristã no mundo greco-romano, a desumana exclusão social do Império Romano, cuja faixa mais abastada e mais influente era chamada de classe senatorial, “cujos membros eram respeitosamente tratados como illustres, clarissimi ou spectabiles”, “só a eles cabendo o direito ao uso distintivo da faixa púrpura na toga”, tal e qual ainda se utiliza nos tempos de agora, mormente por aqueles que necessitam se sentir diferenciados.
As trajetórias de Bartolomeu, Mateus, Simão Zelote, Judas Iscariotes, Tomé, André, Filipe, Judas Tadeu, João, os dois Tiagos e Simão Pedro são criteriosamente pesquisadas. Muito esclarecendo a história dos primeiros tempos apostólicos, quando os desafios eram múltiplos, as hostilidades se agigantavam e a Mensagem do Homão não poderia ser esquecida, tampouco relegada.
No livro do DeBarros, encontra-se a explicação do beijo de Judas em Jesus no Jardim do Getsêmane. Dada a semelhança muito forte entre Tiago, filho de Alfeu, e Jesus, tornou-se necessário bem certificar-se quem deveria ser feito prisioneiro. Segundo DeBarros, “Tiago Menor é representado pela arte cristã primitiva e medieval como, talvez, o mais belo dos apóstolos”.
O autor de Doze Homens, uma Missão efetiva três perguntas bastante instigantes: “Como e por que a história, a secular e a eclesiástica, permitiu que boa parte da vida e da obra desses gigantes do cristianismo caísse no obscurantismo?; Por que o registro escrito de suas façanhas não é proporcional à relevância que esses homens ostentavam na Igreja primitiva?; e, a terceira, Por que os relatos remanescentes sobre os apóstolos apresentam-se tão fragmentados, confusos e, freqüentemente, amalgamados com narrativas lendárias ou fantásticas?” Os fatores inibidores da historicidade dos doze são cinco, segundo DeBarros: a modéstia e a simplicidade dos apóstolos; a ausência de uma perspectiva histórica duradoura; desinteresse da história secular pelo cristianismo primitivo; o advento da sucessão apostólica; e a crescente rivalidade entre a igreja oriental e a ocidental e a corrida pelas relíquias.
No livro é explicitada a caça às relíquias da época. Descambando para uma crassa idolatria, onde até Constantino, que se autoproclamou Pontificex Maximus dos cristãos, mandou enterrar um machado tido como usado por Noé na construção da arca, três outras relíquias são citadas, criadas pelos sabidões da época: uma pena extraída da asa do anjo Gabriel, uma porção láctea do sagrado seio de Maria e um frasco contendo ungüento de nardo puro usado em Jesus por Maria, a irmã de Lázaro.
A Introdução ao Mundo Apostólico, parte primeira do livro, é encerrada com a narrativa da visão estratégica utilizada pelos apóstolos. Uma estratégia reconhecida, posteriormente por Paulo de Tarso, em sua Carta aos Romanos: “Sempre fiz questão de pregar o evangelho onde Cristo ainda não era conhecido, de forma que não estivesse edificando sobre alicerce de outro” (15,20). Uma igreja que crescia sem maquinações com os poderosos de então.
(Jornal do Commercio, 28 de novembro de 2007)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Lições de um Talento Lusitano

Da professora Edla Soares, um dos ícones da educação brasileira, admiração de muitos anos, recebo artigo do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, recentemente publicado. Intitulado Socialismo do Século 21, o texto do pesquisador luso deveria servir de mote para amplas discussões nas classes eclesiais, políticas e sindicais, favorecendo a emersão de novos ideários, de novas alternativas para a atual crise planetária, onde as desigualdades sociais se agigantam, a violência se intensifica e uma despolitização assustadora toma conta de uma mocidade cada vez mais voltada para os interesses pessoais.
O socialismo do século 21 necessita da concretização de fecundantes debates reconstrutores, onde os erros e fracassos dos passados recentes sejam esmiuçados, “para que seja credível a vontade de evitá-los”. Sem a violação massiva dos direitos humanos, tampouco qualquer cerceamento da liberdade de imprensa, com menos estatização e mais controle social comunitário.
Segundo Sousa Santos, algumas características para um socialismo 21 poderiam balizar os debates: complementaridade entre democracia representativa e democracia participativa; legitimidade da diversidade de opiniões; produção menos assentada na propriedade estatal dos meios de produção que na associação de produtores; regime misto de propriedade, onde coexistam propriedade privada, estatal e coletiva (cooperativa); predominância, a longo prazo, da economia do altruísmo sobre a economia do egoísmo; respeito crescente para com a natureza e a justiça distributiva; transparência mais efetiva do Estado, favorecendo o seu controle público e a criação de espaços públicos não estatais; reconhecimento da interculturalidade e da plurinacionalidade; radical combate à corrupção, aos privilégios e às discriminações raciais, sexuais e religiosas. E estratégias para implantação de socialismos de várias tonalidades em diferentes países, posto que torna-se cada vez menos viável a adoção de um modelo único, não multifacetado.
Ousaria revelar alguns norteamentos que ensejariam a consolidação de um socialismo 21 com dignidade para gregos e troianos, erradicando as ações marginais dos que apenas desejam levar vantagem em tudo: “A liberdade é uma responsabilidade e não um privilégio; Pessimismo é a ausência de angústia, quando não compensada pela presença da Esperança; O germe mais maléfico da nossa crise política é o do faz-de-conta; Entre revolta e resignação, a tarefa principal do ser humano deverá ser a de compreender/explicar para transformar; Uma geração que amesquinha a geração que a precedeu, que não consegue reconhecer as grandezas nem o seu significado necessário, é uma geração que mostra ser minúscula, que não tem confiança em si mesma, ainda que assuma pose de gladiador e exiba mania de grandeza”. Reflexões de autores diversos, que facilitariam caminhadas, ampliariam compreensões e despertariam cidadanias, criatividades e competências. Com estratégias e táticas bem definidas e amplamente discutidas, além de intransigente postura dialogal para um ver melhor o derredor.
Nossa atual crise de valores, que também se incorpora a uma crise mundial, é muito profunda. E a ausência de uma profissionalidade cidadã comprometida com a transformação do hoje está levando inúmeros à adoção de uma das alternativas desastrosas: a de se ser hipercrítico em relação a tudo aquilo que desagrada, por não sair do seu grupelho; ou a de ser subcrítico, acomodando-se cordeiramente diante de qualquer proposta.
A reflexão de Wilfred Cantwell, estudioso das religiões, é procedente: “Necessitamos, caso quisermos resolver satisfatoriamente os problemas humanos que afligem o mundo moderno, de uma compreensão mais adequada de religião, tanto da religião de outras pessoas quanto da nossa, do que aquela de que dispussemos em geral até o momento”.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, PE, em 21.11.2007, Página Opinião)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Responsabilidades e Desafios

Certa feita, em 1936, Albert Einstein, um dos maiores cientistas de todos os tempos, antecipava um alerta aos de nível superior, hoje: “o desenvolvimento da capacidade geral do pensamento e julgamento independentes deve ser sempre colocado em primeiro plano, e não a aquisição de conhecimentos específicos. Quando uma pessoa domina os fundamentos de sua disciplina e aprendeu a pensar e trabalhar independentemente, por certo haverá de encontrar seu caminho e, além disso, será mais capaz de se adaptar ao progresso e às mudanças do que outra cujo aprendizado tenha consistido sobretudo na aquisição de conhecimentos detalhados”. Antecipação também explicitada, muitos anos atrás, pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre: “Não há futuro sem presente, como não há presente sem passado. (...) O que é preciso, para termos um sentido assim total e assim dinâmico, quer de tempo, quer de cultura, é que não nos deixemos seduzir, como é a tendência de alguns, por um lado, pelo que é transitoriamente moderno como se fosse um estado definitivo de tempo ou de cultura; por outro lado, pelo já consolidado em valor erudito, como valor clássico, valor alfabético, como valores que constituíssem outro estado definitivo ou único de tempo e de cultura”.
Para bem compreender as duas reflexões acima, torna-se indispensável perceber a existência de dois tipos de linguagens: código restrito e código elaborado. Do primeiro se utilizam os que partilham as mesmas pressuposições. Usa-se o segundo para se falar de sujeitos a respeito dos quais não partilhamos as mesmas análises. O discurso técnico fica com o primeiro dos códigos, interessado apenas em colocar em ordem o derredor, para controlá-lo. O código elaborado vincula-se ao interesse interpretatório para emitir uma opinião, resultando a reflexão crítica, aquela que tem por objetivo maior renovar mentalidades.
Numa entrevista, o filósofo Gaston Bachelard declarou para o seu interlocutor: - O senhor, manifestamente, vive em um apartamento e não numa casa. E explicou: - Uma casa possui, além da zona de habitação, um sótão e um porão, e nela sempre estamos subindo ao sótão e descendo ao porão. Quis ele dizer que há pessoas que vivem apenas do hoje, sem atentar para as lições dos ontens, desatentas para as ilações que estruturarão futuros.
Em 1947, Einstein voltava a declarar: "Nós, cientistas, acreditamos que o que nós e nossos semelhantes fizermos ou deixarmos de fazer nos próximos anos irá determinar o destino de nossa civilização. E consideramos nosso dever explicar incansavelmente esta verdade, ajudar as pessoas a perceberem tudo que está em jogo e trabalharem não por um apaziguamento, mas por uma compreensão e um entendimento definitivo entre os povos e nações de concepções diferentes".
Dois personagens históricos, já eternizados, legaram-nos ponderações inesquecíveis, que muito bem se ajustam às ponderações acima. O escritor Albert Camus aconselhava: "Para as grandes coisas são necessários princípios; para as pequenas, basta a misericórdia". Já o jesuíta Teilhard de Chardin, ainda muito temido por um cristianismo acomodado e de cócoras, nos ensinava a sua missão terrestre: "Quanto mais os anos passam, mais fico achando que minha função terá sido simplesmente ser, à imagem bem reduzida do Batista, aquele que anunciava e chamava o que havia de vir".
Estamos numa fase brasileira encruzilhadamente desafiadora. Um tempo de alavancagem evolucional ou de consolidação como nação subalterna. Na Educação, transferimos para o Segundo Grau grande parte do ministrado nos anos primários. E para a pós-graduação o indispensável que deveria ser ministrado na graduação, ficando esta abarrotada de complementações dos anos secundários. Tornamos “ginasializado” o ensino superior, gerando uma enorme acriticidade, desejada apenas pelos menos conscientes, futura sucata de um mundo cada vez mais evolucionário.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Oração do Caminheiro Nordestino

Pai Nosso que nos contempla do Reino Eterno, fortalece a resistência dos que estão sofrendo privações neste Nordeste, às vésperas dos festejos natalinos. Abençoa os que procuram a Tua Verdade, ampliando neles a vontade de auxiliar os mais necessitados. Que a Tua infinita Misericórdia se espalhe por toda a região, convertendo as mentes e os corações dos ainda não comprometidos com a Tua Palavra.
Pai Nosso, que a Tua Bondade derrame por todo Nordeste a Paz, a Esperança e a Solidariedade Comunitária. Fortalece em cada nordestino a capacidade de bem compreender a Missão confiada por Ti. E consolida a fé dos que Te adoram, abençoando a caminhada dos Teus filhos e filhas na construção de ações concretas que favoreçam os necessitados de terra, educação, saúde, trabalho, teto e amor.
Pai Nosso, alivia as dores e sofrimentos dos Teus filhos e filhas, multiplicando a vontade de Te servir com alegria, no testemunho do Evangelho em todas as ocasiões. E perdoa aqueles que Te ofendem, Te abandonam e Te rejeitam por ignorância ou desatenção.
Pai Nosso, que os Teus Ensinamentos fortaleçam a luta dos que sonham por um Nordeste mais justo e mais humano para com seus filhos e filhas, menos desigual e melhor orientado para os amanhãs de muita Luz.
Pai Nosso, que as preces de todas as religiões sejam por Ti ouvidas, alimentando a fraternidade entre povos e nações.
Pai Nosso, que a Tua Luz ilumine aqueles que anseiam por Tua Palavra. E faz de todos os Teus Filhos espelhos da Tua Gandiosa Mensagem de Amor.

sábado, 10 de novembro de 2007

Por um consistente despertar

O lançamento recente, no Brasil, de dois livros impactantes – Deus não é grande, de Christopher Hitchens; e Deus, um delírio, de Richard Dawkins , o primeiro bem mais estruturado que o segundo – pode acarretar um efeito altamente positivo: o de alertar as religiões para a urgência de uma maior compreensão das últimas descobertas científicas, assim propiciando uma aproximação com os mais jovens, principalmente com os mais questionadores.
A juventude, mormente a dos países mais cidadanizados, de há muito já assimilou a famosa advertência de Ivan Illich, o célebre monsenhor católico romano de Cuernavaca, México: “Nunca confundir salvação com igreja”. E muito se identifica também com o canto do poeta menestrel Oswaldo Montenegro: “Que o espelho reflita em meu rosto / Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância / Pois metade de mim é lembrança do que fui / A outra metade não sei”. Duas reflexões, distanciadas décadas um da outra, que balizam uma espiritualidade planetária crescente dissociada das organizações religiosas que não mais sabem refletir uma fé madura, contemporaneamente alicerçada nos saberes últimos.
As expressões acima apenas ratificam, na exploração mental dos mais débeis, o “ópio do povo” de Karl Marx, caracterizado no absurdo dito por uma professora de Hitchens, autor de um dos livros acima citados: “Talvez vocês não vejam sentido em toda essa fé, hoje, mas verão um dia, quando começarem a perder entes queridos”. Uma estupidez de densidade equivalente àquela pronunciada por um religioso, numa celebração datada poucos dias após a grande cheia de 1975, no Recife: “Sabem por que o Recife teve essa cheia tão violenta? Porque Recife está pecando demais!!” Uma bobajada paquidérmica que tornou agnóstico jovem estudante de geologia sentado na assistência, que bem sabia as causas da inundação que tanto fez sofrer a capital pernambucana.
Lamentavelmente, as instituições religiosas século XXI ainda não se desapartaram inteiramente dos procedimentos hipnotizadores que tanto mal fez à humanidade, favorecendo sectarismos múltiplos, fundamentalismos contagiantes, arrecadações milionárias, nepotismos desagregadores, fingimentos e hipocrisias quilômetros distanciados do dito por Dietrich Bonhoeffer, enforcado pelas forças nazistas, aquelas mesmas que receberam à época apoio explícito de inúmeras denominações religiosas alemãs: “Nossa maturidade nos conduz a um verdadeiro reconhecimento de nossa situação diante de Deus. Deus quer que saibamos que devemos viver como quem administra sua vida sem ele.” Bonhoffer advogava um cristianismo à parte da religião, como Paul Tillich insistiu na tese de um Deus que não poderia ser definido de maneira pessoal, como um ser, mas de forma impessoal, como Base de Toda Existência.
Lamentavelmente, há líderes religiosos que se assentaram sobre seus estudos passados, por conivência ou conveniência. Por conivência, por perceberem que as ministrações anestésicas ainda são do agrado dos adeptos de uma ignorância antiintelectual. E por conivência, proclamando que Deus é igual a qualquer percepção que se tenha dele, favorecendo o parar de crescer dos seus próprios derredores.
A religiões necessitam urgentemente de clínicas oftalmológicas. Para uma “enxergância” maior dos seus evangelizadores hojes e amanhãs. Que a devoção seja um meio para agigantar nossas tarefas de co-criadores do Reino. Com um batismo livre de toda negatividade, apenas focado na maravilhosa e na esperança de um viver sem os horrores e decrepitudes do cotidiano, todos sendo contemplados, sem violações do livre arbítrio, aos acessos à maravilha do divino. Onde a figura do Homão de Nazaré continuará sendo o ícone central, o porta-estandarte que oferecemos ao mundo, sem jamais relevar a advertência feita pelo jesuíta Roger Haight, em seu esclarecedor Jesus, Símbolo de Deus, Paulinas, 2003: “Inculturação não significa acomodar a mensagem evangélica à cultura humana, e sim permitir que a substância do evangelho assuma a forma de uma cultura local”. Ser pós-moderno é radicalmente diferenciado de ser pós-modernoso. O primeiro é estar-se contemporaneamente no mundo. O segundo apenas é malabarismo sobrevivencial, as práticas apenas favorecendo o ambulatorial que procrastina, jamais o hospitalar que acama para ultrapassagens duradouras.
Se a igreja, em suas variadas vertentes, foram profundamente responsáveis por múltiplas ondas de negatividade, ignorância, alienação e opressão, a hora da virada é chegada, seja qual for o nosso medo de mudar, de perder poder, de desepiscopalizar-se, abandonando uma hostilidade defensiva, reflexo de uma imaturidade ou de uma ataxia pastoral, a incompreender, por razões que a própria razão desconhece, que ”a eclésia resultante será baseada na experiência das pessoas, não nos desejos da hierarquia”.
Como também externou John Shelby Spong, bispo aposentado anglicano, espero que meus filhos e netos, um dia, possam proclamar sem medo algum de serem felizes: “Deus é real para mim, e Jesus é minha porta de entrada para essa realidade”.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Ética, Ciência e Profissionalidade

Diante do acocoramento cívico de alguns senadores mercantes, muito oportuno o editado recentemente, 2007, pela Zahar Editora, sob título Textos Básicos de Ética – de Platão a Foucault. Organizados por Danilo Marcondes, titular do Departamento de Filosofia da PUC Rio de Janeiro, também vice-reitor acadêmico daquela consagrada universidade, os textos objetivam deixar a juventude universitária em contato com as idéias dos grandes pensadores sobre o assunto. Lidando diretamente com as reflexões, os alunos conhecem os conceitos-chave e os argumentos centrais da filosofia ocidental, ensejando discussões coletivas as mais diferenciadas, favorecendo uma profissionalidade ajustada aos parâmetros comportamentais condizentes com uma sadia convivialidade planetária.
Falando em profissionalidade, lamentavelmente é ainda bastante significativa a quantidade de jovens neurotizados às vésperas da conclusão dos estudos pré-vestibulares. Com 15, 16 ou 17 anos, já são pressionados pelo derredor para escolher uma profissão, sem tomar sequer conhecimento de milhares de atividades bem remuneradas, além de muito prazerosa. Diante de um cada vez mais diminuto número de empregos, não percebem eles os caminhos para o exercício de uma trabalhabilidade alavancadora.
A Campus Editora tornou público Cartas a um Jovem Indeciso, do professor José Roberto Whitaker Penteado, profissional reconhecido pela competência em áreas as mais diversas, como jornalismo, informática, economia, literatura e ciência política.
A partir de uma dedicatória criativa – a Elza, que me ensinou a importância do e – Penteado inicia suas reflexões citando Pablo Neruda: morre lentamente quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos. Acredita o autor que a era das especializações únicas profissionais está com seus dias contados, dando-se, hoje, preferência, a pessoas versáteis, de talentos múltiplos.
Profissional aplaudido, Whitaker aponta alguns requisitos para uma trabalhabilidade ativamente crescente: falar e escrever corretamente, leitura sistemática, curiosidade por tudo do mundo organizacional, disciplina de vida e convivialidade prazerosa. Sem esquecer a lição da Dona Vera, sua madrasta: “Na vida, a gente deve se arrepender do que fez, nunca do que deixou de fazer”.
Para os que ainda não perceberam a diferença entre os cientistas e os pescadores, nem sabem do que trata o ictiolalês, tampouco não descobriram porque o estômago da ciência é análogo ao estômago das vacas, o livro-lição do Rubem Alves, O Que é Científico?, Loyola Editora, é uma excelente oportunidade de clarear os horizontes mentais dos que desejam captar mais intensamente o que quis dizer o poeta Manoel de Barros: “A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir seus encantos. A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá. Quem acumula muita informação perde o condão de advinhar: divinare. Os sabiás divinam.” Uma vacina apropriada para as doenças civilizatórias modernas: tédio, falta de sentido, sentimento de futilidade, inexistência de propósitos. Doenças que vitimam aqueles que não percebem que toda ciência, por melhor que seja, quando erigida como única linguagem para se conhecer o todo, acaba produzindo dogmatismo, cegueira e emburrecimentos.
O às vezes amaldiçoado Nietzsche um dia escreveu: “as convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras”. Todo convicto sempre imagina que as suas bobeiras são sabedorias, nem sempre percebendo o que está acontecendo com ele próprio, pois desaprendeu, quase sempre, de ser generoso, prestativo e confiável. Sem nunca aceitar que toda teoria é uma hipótese que ainda não foi desbancada.
Três autores, inúmeras lições de como alicerçar uma profissionalidade cidadã século vinte e um.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Caneca, Capiba e os Amanhãs Regionais

Dois talentos nordestinos, com opiniões energizantes. A primeira, do Frei Caneca, identificava como pés de chumbos aqueles que demandam um tempão para tomar decisão, pensando mais nas vantagens que serão obtidas que nos benefícios proporcionados. A segunda é do Capiba, grande carnavalesco: “Fiquem velhos, mas não envelheçam”.
Se analisarmos as duas personalidades, encontraremos nelas qualidades comuns: um viver com penso, uma transitividade nunca terminal, uma tesão existencial de múltiplas enxergâncias. Vivos e jamais azedos, parecem irmanados ao poeta Fernando Pessoa, que proclamava “só uma grande intuição pode ser bússola nos descampados da vida”.
Por que as ações de Caneca e Capiba, cada um na sua especialidade, repercutem até hoje, propiciando inspirações estratégicas? Porque suas ações eram concretas, separando essência de circunstância, nunca agindo como ovelhas abestadas, mas como cabritos saltitantes, sempre escapando das armadilhas metidas a boazinhas. Eles eram candeias que iluminavam. Contaminadores por excelência, buscavam contribuir para a edificação do social através da renovação das suas próprias mentes, livrando-se das amarguras de um cotidiano que se torna cada vez mais hipócrita em épocas de semana santa.
Os dois pernambucanos, se ainda convivessem conosco, se extasiariam ao tomar ciência de estatística comprovada: “o mundo inventou mais nestas últimas 40 décadas do que o aparecimento do ser humano, há três milhões de anos”. E aplaudiriam o pensar do apóstolo Paulo: “uma esperança que pode ser vista não é esperança”.
Imagino questões levantadas pelos dois guerreiros: Será que a cidadanização completa do brasileiro não faria muitos perderem suas boquinhas? Por que será que as denominações religiosas que apregoam a necessidade de seus membros serem sal da terra, se encontram em situações insossas, sem capacidade de induzir evoluções sociais, com espiritualidades distanciadas de um fazejamento efetivo? Por que será que Índia e Brasil, com semelhantes níveis de desenvolvimento, possuem índices de criminalidade tão díspares, lá baixíssimos, aqui uma vergonha que o mundo já tomou ciência, afetando nossa imagem de país cordial? Por que a Justiça é tão morosa, induzindo a entronização da punição pelas próprias mãos? Por que os “aloprados” da base de sustentação do Governo não são defenestrados definitivamente? Por que os larápios, que eram capazes de bater carteiras sem deixar marcas, agora usam armas de fogo, assassinando famílias inteiras, enquanto as autoridades discutem turisticamente as causas da criminalidade? Por que o mérito e o talento se encontram sumidos dos principais cargos comissionados, sendo substituídos por compadrios medíocres, os nomeados sem as mínimas competências gerenciais de bem administrar o patrimônio público? Por que o horror da barbárie vem gradativamente acovardando os dignos de todas as classes sociais? Por que se fala tanto nas atrocidades acontecidas no Iraque, quando fatos similares estão ocorrendo sob nossos olhos, com a devida complascência das autoridades públicas? Por que o policial que abandona o caminho da lei não é tratado como marginal especializado, a merecer penas mais severas? Para que secretaria de mulher, se inúmeras continuam sendo assassinadas?
Abandonar a embromação, o fingimento, o faz-de-conta, o bom mocismo, o assistencialismo eleitoreiro e a demagogia desenfreada, eis uma estratégia efetiva para a ampliação de uma cidadania, a do povo brasileiro, que necessita livrar-se das amarguras incompatíveis com os desafios de um século, o 21, que está a exigir construções mais efetivas para a erradicação das múltipla opressões. Inúmeras delas sutilmente populistas.

sábado, 20 de outubro de 2007

Pedido de um Prêmio Pulitzer

Outro dia me deparei, num livro, com um pedido do próprio autor. Ele havia lido, na Internet, uma carta dirigida a um reverendo fundamentalista, desses que acreditam na leitura literal das Sagradas Escrituras. E fazia um apelo, o escritor Garry Wills, PhD em Línguas Clássicas pela Johns Hopkins University, Professor Emérito pela North-Western University, também Prêmio Pulitzer por Lincoln at Gettysburg, sobre história norte-americana, autor de O Que Jesus Quis Dizer, lançamento 2007 da Rocco Editora: quem soubesse algo sobre o autor da carta, que remetesse a identificação autor para seu endereço eletrônico.
Afinal, qual o maior interesse do autor de O Que Jesus Quis Dizer? Apenas parabenizar o remetente pelo conteúdo do recado, dado por ocasião da proibição de um bispo católico de San Diego de ministrar enterro cristão a um homossexual declarado. O conteúdo da mensagem internética parece caber na carapuça de todos aqueles que, vestidos de roupas macias de púrpura (Mc 16,19-31), imaginam-se integralmente puros, sem mácula alguma, de vidas pregressas intocáveis, só faltando a declaração de que provieram também de uma virgem.
A carta inicia-se por um agradecimento do seu autor pelos ensinamentos da Lei de Deus transmitidos por um religioso, inclusive o que lembra Lv 18,22. E encarece ao mesmo pregador alguns outros conselhos: como adquirir escravos de nações vizinhas, tanto homens como mulheres, vencendo Lv 25,44; como vender a filha como escrava, segundo a recomendação contida em Ex 21,7; como saborear um bom crustáceo, sem considerá-lo abominável, sem desobedecer a Lv 11,10; como me aproximar do altar do Senhor, mesmo possuindo uma visão deficiente, ou sendo corcunda, anão ou com um dos testículos em desacordo com a anatomia mais usual, sem atentar para Lv 21,20; como aparar as pontas da barba ou cortar o cabelo em volta das têmporas, ultrapassando a proibição expressa em Lv 19,27; e, finalmente, como poder jogar basebal usando luvas de couro de porco, se está vedado o seu uso em Lv 11,6-8. E a carta é concluída com um final de quase súplica: “Sei que o senhor estudou esses assuntos em profundidade e, portanto, possui um conhecimento considerável sobre essas questões e estou confiante que possa me ajudar. Obrigado mais uma vez por lembrar-nos que a palavra de Deus é eterna e imutável”.
A leitura do livro de Garry Wills deve ser feita levando-se em conta as causas das discordâncias apontadas por Alexandre de Afrodisia, um célebre comentarista de Aristóteles do final do século II, início do III, muito respeitado entre os gregos e os árabes. São três, atualizadíssimas: a primeira, o apego ao poder e a polêmica, que impossibilitam o polemista de menos emocionalmente apreender a verdade como ela é; a segunda, são as sutilezas acerca da controvérsia, dada sua profundidade e dificuldades múltiplas de compreensão; a terceira diz respeito à própria ignorância e capacidade limitada do querelante. O famoso Maimônides (1135-1204) - considerado por muitos como o maior filósofo judeus de todos os tempos, sendo chamado por São Tomás de Aquino de “Moisés, o Egípcio” -, no Guia dos Perplexos, parte primeira, aponta uma quarta causa: o costume e o estudo, posto que “as pessoas naturalmente gostam daquilo a que estão acostumadas e que as atrai”. Concluindo com maestria: “quanto menos atributos negativos uma pessoa admite, maior a limitação da sua percepção”, uma estonteante tapa de luva de pelica nos que se acham puros e imaculados, donos da verdade, sósias do Altíssimo.
Fico a imaginar de que lado ficariam algumas das atuais autoridades religiosas, inclusive os purpurados, se vivessem no tempo do Homão de Nazaré. Certamente macomunados com aqueles que o chamavam de impuro (Lc 11,38), que o acusavam de muita conversa com as rameiras do seu tempo (Lc 7,39), que o denunciavam por ser estimulador da imoralidade (Mc 2,16) e de viver como glutão e bêbado (Lc 7,34), postando-se como um cismático (Jo 8,48), um bastardo (Jo 8,41), agente do diabo ou o próprio diabo (Mc 3,22, Jo 7,20), entre outras leviandades. As punições para os que defendessem o Nazareno logo seriam aplicadas: pedido de desculpas públicas no papiro oficial da igreja local, licença de três meses para um melhor repensar, proibição de ensinar, ou silêncios obsequiosos remetidos por comunicações oficiais fleumáticas.
As igrejas de hoje, sob diversas estratégias, parecem querer esconder Jesus, através de um conservadorismo generalizado das traduções dos Evangelhos, denuncia Garry Wills, no seu O Que Jesus Quis Dizer. Um Jesus que anunciou que era Caminho, Verdade, Luz e Vida. Um Jesus leigo, sem diplomas, que combateu os sepulcros caiados. E que ainda se sente novamente crucificado quando observa religiosos molestando crianças, “pastores” de televisão, membros de religiões diferentes se devorando, perseguidores de homossexuais refletindo posturas nazi-fascistas.
Estou absolutamente convencido: ninguém arrostará o Jesus da fé. Aquele que nos ensinou que a religião mais verdadeira é aquela que advém do coração: solidária, fraterna, sem fazer distinção de espécie alguma, sempre atenta às súplicas dos mais necessitados e enfermos, seus Filhos prediletos.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Abraço Solidário

Envio fraternal abraço para o Ricardo Gondim, pastor da Assembléia de Deus Betesda, autor de um livro, recentemente lançado pela Editora Ultimato, intitulado Eu Creio, Mas Tenho Dúvidas. Reflexões que mais me aproximaram de Deus, possibilitando a ampliação da minha responsabilidade diante de fatos e feitos eclesiais, presbiterais, episcopais e leigos.
Um dia me entusiasmei com uma afirmação de Ivan Illich, o corajoso monsenhor de Cuernavaca, México: “jamais confundir salvação com igreja”. E continuo com a mesma convicção diante das posturas inerciais de algumas denominações, preocupadas com teologias enlatadas e discursos estéreis, como bem coloca o dedo na ferida o pastor Gondim, um nascido cearense, hoje paulista de ação pastoral.
Os posicionamentos do Ricardo Gondim merecem ser respeitados pelos que, não se considerando passivas ovelhas, sentem-se cabritos, atentos às mutações planetárias nos mais diversos setores das Ciências, Humanas inclusive. Não aceitando o determinismo dogmático da teologia, também não crê na predestinação. Não sendo fundamentalista, identifica na Bíblia textos como mitos, sentido filosófico, e outros como partes da cultura popular de Israel. Não considerando a Bíblia como conjuntos de livros psicografados, aceita-a plenamente como páginas inspiradas pelo Espírito Santo, redigidas de acordo com as percepções culturais, científicas e sociológicas de cada redator.
Enfrentando dissidências várias, a grande maioria delas ainda na fase chamada de transitividade ingênua pelo educador pernambucano Paulo Freire, o pastor está convencido de que “a favela não fazia parte das intenções criativas de Deus”, “toda miséria sendo um acinte, uma aberração”. E faz um alerta preventivo: “Não estou em crise, não ando depressivo, não venho tentando ajustar a Bíblia a alguma circunstância mal resolvida de minha alma. Pelo contrário, estou superentusiasmado com Deus”.
Diferenciando-se da mediocridade que parece tomar de assalto inúmeras igrejas cristãs brasileiras, o pastor Ricardo Gondim revela em seu livro uma respeitável bagagem de leituras reflexivas. Entre os autores por ele citados, um deles é o famoso Rabino-Chefe da Grã-Bretanha e Comunidade Britânica. Educado em Cambridge e Oxford, o rabino Jonathan Sacks é uma das maiores autoridades contemporâneas em moral, tendo lançado neste ano, pela Editora Sêfer, um texto muito aplaudido: Para Curar Um Mundo Fraturado – A Ética da Responsabilidade, um dos conceitos mais característicos e polêmicos do judaísmo de todos os tempos. O capítulo 10 é destinado ao nascimento da responsabilidade, onde o rabino Sacks faz uma reflexão oportuna sobre quatro histórias contidas no Gênesis: Adão e Eva, Caim e Abel, Noé e o Dilúvio e a Torre de Babel.
A leitura do livro do pastor Ricardo Gondim engrandece o ser-cristão de qualquer um. Para identificar as mediocridades explicitadas nos últimos tempos, uma delas a de considerar herética a Bíblia Sagrada Nova Versão Internacional lançada pela Editora Vida. Para assimilar com ares de pós-modernidade as pistas que indicam o nosso aprofundamento numa espiritualidade libertadora, uma delas a de ter “cuidado com líderes que se envaidecem com seus títulos e gostam de tratamento formais”, posto que Jesus jamais teve escritório com diplomas pendurados nas paredes, para admiração dos que nada entendem de enfeitados papéis assinados, vidros e molduras.
Para meu crescente entusiasmo, o pastor Ricardo Gondim cita também um outro famoso rabino, Abraham Joshua Heschel, eternizado em 1972, um dos mais famosos teólogos contemporâneos, um dos mais ativos defensores dos direitos civis nos Estados Unidos e da liberdade religiosa dos judeus na União Soviética.
O livro do rabino Heschel, de uma cristalina simplicidade, está repleto de reflexões bem dosadas de paixão e eloqüência, racionalidade e equilíbrio, leitura imperdível para todos aqueles que acreditam na Criação e no seu Criador. E logo no primeiro parágrafo do capítulo inicial de um dos seus mais famosos livros, Deus em Busca do Homem, Editora Arx, SP, 2006, uma declaração que reflete excepcionalmente bem o conteúdo do livro do pastor Gondim: “Costuma-se culpar a ciência secular e a filosofia anti-religiosa pelo eclipse da religião na sociedade moderna. Seria mais honesto culpar a religião por suas próprias derrotas. Ela decaiu não porque foi contestada, mas porque se tornou irrelevante, enfadonha, opressiva e insípida. Quando a fé é completamente substituída pelo credo, o culto pela disciplina, o amor pelo hábito, quando a crise de hoje é ignorada pelo esplendor do passado; quando a fé se torna um mero objeto herdado em vez de uma fonte de vida; quando a religião fala somente em nome da autoridade em vez da compaixão, sua mensagem se torna sem sentido”.
Reverencio o pastor Ricardo Gondim, por ter divulgado reflexões que alavancam novas evangelizações, que fortalecem a missão integral do ser humano, que refreia os hedonismos e nepotismos das mais variadas espécies, nos remetendo celeremente para as palavras de Moisés: “Amarás o Senhor, seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda sua vontade”. Que ditas com plena convicção, eis que se pode repetir o que fez a Míriam, a irmã de Arão, que pegou um pandeiro e fez um cortejo de alegria, cantando e dançando, sob as graças do Altíssimo.
Sou anglicano, helderista, transreligiosamente ecumênico, mariano e apaixonado pelo Homão de Nazaré. E não creio, como o pastor Gondim, na predestinação, concordando também que um culto legítimo necessita de racionalidade. E assino embaixo quando ele afirma que “todo legalista precisa de pessoas que nunca se percebem livres”.
Não gosto, como o pastor Gondim, da serenidade dos cemitérios, como ele já não tendo tempo disponível para lidar com mediocridades, posto que as poucas jabuticabas do meu cesto existencial se tornam mais diminutas a cada amanhecer. E, como ele, não desejo perder minha alma em nome da religião.
Assino também algumas afirmações do Ricardo Gondim: “não me aquietei na espera da morte”, “perdi a inveja dos acadêmicos com seus raciocínios herméticos”, “não me flagelo quando tropeço”, “mantenho-me teimoso com os meus sonhos”, “insisto em não me conformar com a trágica sorte dos miseráveis”, “ainda acredito em ideais”, “não pretendo desistir”, “não caibo dentro dos estreitos caminhos por onde viajam as hienas que por natureza riem, desprezando seus semelhantes”, “não gosto de gente que se acha dona dos triunfos alheios”, e “não me considero capaz ou legítimo representante de coisa alguma”.
O livro do pastor Ricardo Gondim é cutucador por derradeiro. Não serve para os abestados da vida, tampouco para os que proclamam a todo instante “Deus quis” e “Se Deus quiser”, desatentos para a grandiosa “Sob as Graças do Senhor”. Nem para os que não se percebem como colaboradores de Deus, segundo a sabedoria paulina.Encerro este meu aplauso solidário ao pastor Ricardo Gondim, utilizando as suas próprias palavras, que irrestritamente endosso: “Tenho muitos nãos porque desejo, um dia, concretizar meu grande sim: são eles que formam meu canto e minha prosa”.

sábado, 13 de outubro de 2007

João, o Bom Pastor

Aluno secundarista, preparando-me para enfrentar as provas vestibulares, uma personalidade diferenciada já ocupava lugar proeminente em meu imaginário de cristão não vinculado às orientações recebidas de um pai devoto e de mãe atenta em acompanhar solidária o marido às celebrações dominicais. Eleito em outubro de 1958, o gorducho Ângelo Roncalli, com nome de João XXIII já anunciava, noventa dias depois de eleito, a convocação de um concílio essencialmente pastoral, guiando sua igreja para uma nova etapa, onde não se deveria mais buscar a manutenção da autoridade com as armas da repressão, “governando com o remédio da misericórdia em vez de severidade”. Anúncio que me entusiasmou bastante, muito embora de assuntos eclesiásticos eu de muito poucas letras entendesse.
Os tempos seguintes ampliaram minha admiração por aquele gorducho sorridente, que já tinha sido olhado de esguelha pelos superiores, que concluíram que ele não era muito prudente ao propor idéias inconcebíveis, como a que propunha a efetivação de casamentos mistos, quando lecionava sobre a vida e o pensamento dos primeiros patriarcas da igreja no Seminário Pontifical Laterano, em Roma. E que tinha sido punido com a função de copista de cartas, posteriormente sendo deslocado para a distante Bulgária, depois sendo “premiado” com funções na Turquia muçulmana, lá permanecendo por dez anos. Somente recebendo o chapéu vermelho de Pio XII, em 1953, que o nomeou para líder espiritual de Veneza.
O que mais me fascinava em João XXIII era sua capacidade de trabalhar em colaboração com não-católicos: na Turquia, ajudou inúmeros judeus, favorecendo a fuga deles da Alemanha hitlerista. Depois de encerrada a tragédia nazista, ele viu horrorizado um documentário que mostrava corpos de judeus empilhados em Buchenwald. E exclamou perante muitos: “Como isso pode acontecer? O corpo místico de Cristo!!
Minha admiração por João XXIII foi gradativamente se ampliando a partir de gestos e atitudes que o consagraram como um papa muito amado. Apenas dois exemplos: suas visitas surpresas a orfanatos, prisões, escolas públicas, casas geriátricas; e quando erradicou a proibição de visitas à cúpula da Basílica de São Pedro quando ele estivesse caminhando no jardim superior. Argumento convincente: “Por que eles não deveriam olhar? Não estou fazendo nada de escandaloso”.
O papa João XXIII mostrou ao mundo inteiro que o Vaticano II não foi um concílio para combater heresias, mas uma ampla reunião onde se buscaria um novo modo, pós-moderno sem dúvida, de sem espraiar mundo afora a mensagem salvífica do Homão de Nazaré.
As forças conservadoras, comandadas pelo cardeal Alfredo Ottaviani, se encontravam mais acessas que nunca. Fato: por ocasião da reunião preparatória para a eleição dos componentes das dez comissões permanentes, sobre a mesa de cada um foram colocadas, para orientação, listas dos membros a serem eleitos. Mas aí, e em toda a História tem sempre um aí grandioso, um cardeal de 78 anos, cabelos honradamente brancos, levemente curvado e de nariz aquilino, levantou-se e disse alto e bom som: “Não iremos aceitar as listas de candidatos preparados para nós antes da abertura do Concílio. Por outro lado, não temos tempo para escolher nossos próprios candidatos, e requisitamos um adiamento para tomarmos nossas próprias decisões”. O cardeal Aquiles Lienart, arcebispo de Lille, norte da França, entrou para a História como um que não aceitou as matreirices da Cúria.
A História também registra que os conservadores não queriam a efetivação do Concílio, se referindo ao evento como “o desatino do papa”, pois iria revelar ao mundo as diferenças internas. E sabiam destilar bem seus venenos, a exemplo do apelido dado ao cardeal Jan Alfrink, o atlético líder da igreja na Holanda, por seus contatos fraternais com os irmãos cristãos não-papistas: “anti-romano”.
O resto da história, todo helderista conhece. E o Juracy Andrade, mais que ninguém, sabe tudo sobre desmonte eclesiástico.
Vou ficando por aqui. Segundo Luiz Gonzaga: “que Deus do céu nos ajude!!” E ao Pe. Edwaldo Gomes, meu irmão de caminhada, de modo todo especial.

sábado, 6 de outubro de 2007

Reflexões de um sempre aprendiz

Para os que estão de folga, é recomendável uns instantes de meditação, para retificar comportamentos e contemplar novos horizontes. Sempre atentando para o revelado pelo salmista - Por que temer, nos dias infelizes, a malícia dos espertalhões que me cercam, e os que contam com sua fortuna e se vangloriam da sua riqueza? (Salmo 49). E valendo muito redimensionar seus níveis de cidadania, evitando sutis envenenamentos consumistas, inoportunas desatualizações culturais e desastrosos esmorecimentos espirituais, que comprometem as três pilastras do viver: a dignidade, a integridade e a auto-realização.
Oportuno também, num minutinho entre papos e passeios, uma releitura sobre o que disse Albert Schweitzer, ao receber o Prêmio Mundial da Paz, em Oslo, 1952: “O homem tornou-se um super-homem...Mas super-homem com poderes sobre-humanos que não atingiu o nível de razão super-humana.... Impõe-se sacudir nossa consciência ao fato de que nos tornamos tanto mais desumanos quanto mais nos convertemos em super-homens”. Palavras complementadas pela constatação feita por Erich Fromm, outro especialista em raça humana: “Somos uma sociedade de pessoas notoriamente infelizes: solitários, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes — pessoas que ficam alegres quando matamos o tempo que tão duramente tentamos poupar”. Dois pensares que poderão auxiliar muitos na descoberta de um novo Eu, mais humanizado, mais ecológico, mais entrosado nos novos cenários empreendedores mercadologicamente dinâmicos, mais familial comunitariamente, a aldeia global sendo seu domicílio século XXI.
Muitos, após seus períodos praeiros que já chegaram, perceberão que “atividade é uma conduta intencional socialmente reconhecida, que resulta em mudanças correspondentes, socialmente úteis”. E que ter maior poder cerebral será, sem dúvida alguma, o próximo desafio dos próximos anos dois mil, uma nova fronteira, com diferenciadas formas de convivialidade. Sempre usando o tempo como ferramenta, jamais como um divã, como costumava alertar o inesquecível presidente Kennedy.
Recomendaria, com a devida vênia, para os que ainda estão de papo pro ar, identificar seu melhor mentor: leituras, papos, Internet, orações, meditação transcendental, ioga, trabalho comunitário, entre outros muitos. Com o cuidado para não se deixar escravizar por correntes, visões, tarôs e tarados. Percebendo que o futuro chega rapidamente. E que todo futuro vira hoje, para ser logo passado, numa velocidade alucinante.
De volta ao batente, atenção para não cuidar das coisas certas nas horas erradas, o vice-verso também sendo desagradável. Não esquecendo que a raça humana não se locomove em bandos, nem jamais duvidando que a competência é bem mais rentável que mero diploma.
Permanecer sempre no centro do seu ser, ainda é a melhor maneira de se aprender um pouquinho mais. E de apreender derredores, fatos e cenários. Vacinando-se contra a confiança em demasia, a especialização individual excessiva, a rotinização do convívio e a cegueira estrutural.
E sonhar sempre. Sempre com os pés bem plantados e o coração apaixonado, posto que a lição de T.S.Eliot continua lucidamente contemporârea: “Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar”.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Ecumenismo e Fuxicaria

Possuo admiração pelos que buscam a unidade de todos os Filhos de Deus, numa luta comum contra a fome, a miséria e a violência. Que atemorizam os que possuem e os que nada amealham. E concordo integralmente com Dom Pedro Casaldáliga, um bispo que dignifica o Evangelho, pondo o Direito Canônico no seu lugar devido: “Tudo é relativo, menos Deus e a fome”. E aplaudo Jean Ziegler, no relatório da ONU sobre alimentação: “De fome morrem cem mil pessoas por dia, e a cada sete segundos uma criança de menos de dez anos. E como a fome pode ser superada, uma criança que morre de fome, hoje, morre assassinada”. E sinto asco por todos aqueles que buscam encontrar cisco nos olhos de seus irmãos de caminhada para denunciá-los às Santas Inquisições da vida, desapercebendo-se, porque mais voltados para a Lei do que para a Graça, das suas imensas traves mentais, que os tornam menos pastores e mais capatazes ansiosos para agradar com delações à chefia maior. Sentem com isso um prazer não-humano em apontar defeitos de auxiliares aos superiores, desatentos, porque quase bonecos de barro, das tarefas libertadoras que envolvem questões basilares de todo planeta. Pobres de espírito, não possuem criticidade diante dos poderes de plantão, sempre obcecados em não perder, se é que é possuidor, a liderança sobre alguns superados.
Diz o teólogo Paulo Suess que “a primeira pobreza é não conhecer o Cristo e não conhecê-lo de modo adequado, autêntico e integral”. E conhecer o Cristo integralmente é saber estar convencido de que nem as pílulas de Frei Galvão, recentemente tornado santo, nem a missa em latim, ajudarão nosso povo no conhecimento autêntico da fé no Filho de Deus.
A reflexão do teólogo Hans Küng, em seu livro Religiões do Mundo, Verus, 2004, é por demais alertadora: “Muitos europeus perderam a esperança no cristianismo, desenganaram-se dele. Voltaram as costas para as igrejas. Identificam o cristianismo com burocracia e pompa, com a ditadura, com a hostilidade à mulher e ao sexo, com a igreja oficial autoritária e incompreensiva...”
Os adeptos do dura lex sed lex, sem qualquer compromisso com a alegria e a confraternização de irmãos cristãos, ainda não se deram conta de que o cenário é pós-confessional. E que o modelo mais cativante é o que busca refletir uma comunidade mundial ecumênica multicultural e multireligiosa, a combater os estreitamentos humanos, a favorecer a participação igualitária das mulheres, sempre ressaltando uma gigantesca tarefa, a de promover, muito acima de artigos, parágrafos e alíneas feitas pelo ser humano, uma nova ordem mundial, onde desponte uma realidade espiritual voltada radicalmente para o bem estar do ser humano todo e de todos os seres humanos.
O teólogo Hans Küng está coberto de razão: “não haverá sobrevivência da humanidade, sem paz entre as nações; não existe paz entre as nações sem paz entre as religiões, nem paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões”.
O Cristianismo de todos os naipes necessita de uma ampla reforma, cada denominação olhando as demais como parcela, seguindo o deixado pelo evangelista São Mateus (7,12). Acredito visceralmente na ultrapassagem dos obscurantismos, dos fundamentalismos e dos fuxiquismos atuais que a nada conduzem. Creio firmemente numa cultura de não-violência e do integral respeito à vida. Numa cultura de parceria. Numa cultura de ampla solidariedade e justiça. Numa cultura de tolerância e muita veracidade.
Continuo anglicano paulinamente helderista, percebendo-me inconcluso. E fico a imaginar o comportamento dos fuxicosos diante da advertência paulina sobre a necessidade de renovar as mentes, tendo a mesma atitude uns para com os outros.
Somos cooperadores de Deus, independentemente de carteirinha religiosa. Com a Graça, jamais com a Lei e a Inquisição, que de santa não tem patavina.
Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 03.10.2007

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Frases quase conexas

Num sábado desses, contente que só por estar bem perto das minhas netas Mariana e Maria, que vieram iluminar minha existência, cascavilhei uns apontamentos que teimavam em resistir ao tempo, atocaiados no fundo de uma gaveta metida a socavão de papéis de ontem. E resolvi juntar algumas frases neles contidas, sem identificar seus autores, oferecendo àqueles que ainda estão azeitando suas “birutas”, para melhor auscultar a direção dos ventos de uma trabalhabilidade duradoura. A não-identificação é proposital, para que todos possam refletir melhor sobre as frases, pouco importando para épocas, nacionalidades, ideologias, nomes e sobrenomes de seus autores.
Minha intenção é de que cada um dos pensamentos aqui expostos subsidie reestruturações comportamentais naqueles que necessitam ser mais para que possam usufruir adequadamente os talentos oferecidos pela Criação. Ei-las, para os que possuem vontade de reenergizar-se existencial e profissionalmente:
A sabedoria é o conhecimento temperado pelo juízo. Através dos séculos existiram homens que deram o primeiro passo ao longo de novos caminhos, sem outros recursos além de sua própria visão. Só o homem é o arquiteto de seu próprio destino.
A maior revolução em nossa geração é que seres humanos, modificando as atitudes mais íntimas de sua mente, podem modificar os aspectos exteriores de sua vida. Tornar-se águia sem mentalidade de galinha, por mais emplumada que esta seja. Tudo pode ser mudado; mas nada será mudado até que se comece.
O mais importante é não parar de questionar. A curiosidade tem sua própria razão de ser. Nunca perca a sagrada curiosidade. Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar.
O pessimista queixa-se da ventania. O otimista espera que ela acabe. O realista ajusta as velas. Há sempre um momento no tempo em que uma porta se abre e deixa o futuro entrar. Aquele que tem um porquê para viver pode enfrentar todos os comos.
Há muito a ser dito em favor do fracasso. Ele é mais interessante do que o sucesso. Fracassado é o homem que erra e não é capaz de aproveitar a experiência. Não existe fracasso, a não ser em não continuar tentando com criatividade e flexibilidade.
O sucesso é medido não tanto pela posição que alguém alcançou na vida, mas pelos obstáculos que ela ultrapassou enquanto tentava vencer. Uma jornada de mil milhas começa com um simples passo. Um objetivo nada mais é do que um sonho com um limite de tempo. Quanto mais a razão crítica dominar, mais empobrecida será a vida.
O único homem que nunca comete erros é aquele que nunca faz coisa alguma. Não tenha medo de errar, pois você aprenderá a não cometer duas vezes o mesmo erro. A única coisa permanente é a mudança. Não podemos esperar que o mundo mude. Não podemos esperar que os tempos se modifiquem e nós nos modifiquemos junto, por uma revolução que chegue e nos arrebate em sua marcha.
A coragem é inegavelmente uma das grandes virtudes da humanidade. Ela sempre garante imensa tranquilidade de consciência. A timidez, o escrúpulo e a dúvida, ao contrário, torturam frequentemente o espírito e conduzem às derrotas e ao desespero. Não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo seu país.
O diploma não encurta as orelhas de ninguém. Eu não tenho a fórmula para o sucesso. Perigoso é um pouco de conhecimento. Tolo é aquele que naufragou seus navios duas vezes e continua culpando o mar. Seres humanos podem mudar sua vida mudando suas atitudes. Comece a tecer e Deus lhe mandará a linha.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O Abismo da Ética

Demonstrando oportuna indignação, o teólogo Leonardo Boff escreveu recentemente um texto veemente contra a patifaria acontecida no Senado Federal, com a vexatória absolvição do presidente daquela Casa, inclusive com a ignominiosa conivência e conveniência de líderes até então considerados de bom calibre ético. Alguns trechos do artigo intitulado A Bacia de Pilatos: “O que envergonha os cidadãos é verem Senadores, alguns velhos provectos, sem qualquer dignidade, verdadeiros mafiosos do poder, voltarem as costas à sociedade e fazerem-se cegos e surdos ao clamor das ruas. Estão tão enjaulados em seus privilégios na redoma do Senado que nem lhes importa o que a mídia e a opinião pública pensam deles. ... Mas, o que envergonha mesmo é a recaída de membros do PT. São pecadores públicos contumazes. Já haviam antes enviado a ética nem sequer para o limbo, mas diretamente para o inferno. Por isso, são desprezíveis como Pilatos. Este se acovardou diante do povo e condenou Jesus. Mas, antes fez um gesto que passou à história como símbolo de pusilanimidade, de covardia e de falta de caráter. Diante do povo, lavou as mãos com água. Essa bacia de Pilatos foi ressuscitada no Senado. Mas a água não é água. São lágrimas dos indignados, dos cansados de ver injustiças e dos dilacerados diante da contínua impunidade. ... Todos os que se abstiveram, podem acrescentar a seus nomes o sobrenome de Calheiros. Como revelou publicamente seu voto, o Senador Aloísio Mercadante merece agora ser chamado de Aloisio Mercadante Calheiros. Pelo esforço da argumentação em favor da não cassação de Renan, a Senadora Ideli Salvatti merece que lhe apodemos de Ideli Salvatti Calheiros.”
Diante da inconformação geral da maioria da gente brasileira, também responsável pela entronização da bandidagem no Congresso Nacional, algumas questões se agigantam nas mentes mais politizadas do eleitorado. Valeria a pena elevar o país a um regime unicameral? Por que a inconclusa cidadania brasileira acabrunhou-se diante da estabilidade inflacionária, mais ainda nas camadas menos privilegiadas, que se acomodaram diante das bolsas-isso e bolsas-aquilo distribuídas sem a menor construtividade cidadã, parecendo até repetição dos tempos dos Césares, que se refastelavam diante da ovelhice das massas beneficiadas com pão e circo? Por que ninguém está debatendo pesquisa comparativa recente de pesquisador universitário fluminense, sobre opiniões das diversas classes sociais brasileiras? Por que mentir perante os próprios pares do Senado não é mais falta de decoro parlamentar? Por que os governantes deste país continuam se escondendo por detrás das portas, diante dos descarados casos de nepotismo surgidos nos diferenciados setores políticos nacionais? Será que o voto secreto continuará acobertando o acanalhamento da classe política brasileira? Será que não está chegada a hora de se redimensionar quantitativamente a representatividade parlamentar nas assembléias e câmaras municipais, também buscando-se a remunicipalização do todo pátrio, hoje encharcado de municípios faz-de-conta? Por que será que o Leão da Receita é tão brabo para com assalariados pixotes, se acocorando passivamente perante os poderosos financeiros, aqui se incluindo os grandes bancos? E, finalmente, por que a sociedade civil brasileira, tal e qual mariposa sem boca, continua anestesiada pelos messianismos de algumas agremiações partidárias que se imaginam vestais impolutas, únicas portadores da verdade?
As emoções de voar principiam-se com a experiência sentida pelas ameaças do cair. Eis uma lição que muitos políticos ainda não perceberam, curtidores planaltinos do bom e do melhor, mamadores dos financiamentos públicos e dos mensalões. Que não conjugam o verbo arriscar, preferindo o ti-ti-ti das futilidades, apoiados na eterna paciência dos adeptos de um inadmissível “Deus quis”.
Artigo publicado no Jornal do Commercio, Recife, PE, em 19.09.2007

domingo, 2 de setembro de 2007

Para ampliar a enxergância

Deparo-me com o João Silvino da Conceição sobraçando um taludo volume. E ele vai logo me explicando do que se trata, pois é sabedor da minha curiosidade por livros e revistas: uma edição Imago 1976 do livro Ser Cristão, de Hans Küng, o mais aplaudido teólogo vivo da atualidade. E logo declara, com alegria incontida, que o valioso presente lhe foi enviado pela Sara Soares, bibliotecária do Seminário Teológico Anglicano de Porto Alegre, que adquiriu o livro num sebo gaúcho, atendendo suas insistentes buscas Brasil afora.
E o João me faz uma ponderação: não sabe a razão de não ter sido o livro do Küng reeditado no Brasil. Segundo ele, o livro se destina para os que não crêem, ainda que indagando com seriedade; para os que já tiveram fé, mas não se sentem mais confortáveis com a sua descrença; para os que se sentem inseguros na fé; para os que oscilam entre fé e descrença; e para os céticos. E também para “cristãos e ateus, gnósticos e agnósticos, pietistas e positivistas, católicos fervorosos e tíbios protestantes e ortodoxos”. Que “não se resignam, nem satisfazem com vagos sentimentos, com preconceitos subjetivos e probabilidades aparentes”, nem pretendem ser adeptos de um cristianismo barato. Nem tampouco pretendem substituir o saudavelmente tradicional pelos “recursos de uma arte cosmética e conformista de adaptação”.
Ressalta, o João Silvino, a seriedade intelectual do Hans Küng, quando ele declara não ter intenção de oferecer novas adaptações de algum credo, nem análises dogmáticas com respostas prontas, tampouco fazer propaganda de algum cristianismo novo. Segundo Küng, “o que pretendemos é uma introdução objetiva e atual, sem a preocupação de converter e livre de uma lírica teológica, sem os requintes da escolástica e o jargão da teologia moderna”.
O livro comporta quatro grandes partes: O Horizonte (os desafios dos modernos humanismos e das religiões universais), A Diferença (o específico do cristianismo, o Cristo real, Cristianismo e Judaísmo), O Programa (contexto social, a causa de Deus, a causa do Homem, o conflito, as interpretações, a vida nova, comunidade da fé) e A Práxis (a práxis da Igreja, ser-homem e ser-cristão, ser-cristão como radical ser-homem).
Ressaltando a beleza de Ser Cristão, João Silvino destaca alguns pontos significaticos constatados pelo teólogo Küng: as Igrejas gastaram tempo demais em resguardar alianças entre trono e altar; funcionaram por séculos como guardiães do status político, econômico e social; encapsularam-se diante da modernidade; e acovardaram-se diante das reformas inevitáveis, coibindo – por fogueira, silêncios obsequiosos, demissões e excomunhões ridicularmente exdrúxulas – o pensar criativo, evolucionário por excelência. O cristianismo, segundo Küng, deve ser entendido como um diamante: jamais sendo dilapidado, mas lapidado, se possível levado a brilhar.
O livro parece refletir dois posicionamentos do sempre amado Dom Hélder Câmara: 1. “Nestes tempos de egoísmo, de alienação, de ódio, de injustiça, o Espírito do Senhor cumpriu um trabalho que, sem Ele, seria impraticável: com todas as Pessoas, de todas as Raças, de todas as línguas, de todas as Religiões, de todos os Grupos Humanos, Ele desperta Minorias que têm fome e sede de justiça, e que estão dispostas a ajudar na construção de um mundo mais justo e mais humano”; 2. “O fenômeno do presente é que a juventude, com as várias Religiões, retém freqüentemente a impressão que existe medo, egoísmo, prudência excessiva da parte daqueles que carregam os títulos de líderes religiosos – já sem liderar”.
É chegada a hora de evolucionar cristãmente a mocidade, auxiliando-a na defesa do desenvolvimento do homem todo e de todos os homens. Tornando-a irmã militante do Homão de Nazaré, edificando-a como protagonistas da Mensagem Crística, nunca reduzindo-a a cordeirinhos apalermados sem qualquer sentido de ultrapassagem cósmica.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Desopilação da Moda

Os tempos internéticos têm proporcionado uma notável ampliação dos conhecimentos técnico-científicos, a multiplicação de “talentos cibernáuticos”, a mundialização de algumas idiotices e a aparição de umas tantas vaidades dinossáuricas. Mais ou menos idênticas à daquele recém posgraduado sulista que está inserindo na rede Internet capítulos e mais capítulos de sua tese de doutorado, patrocinada por uma fábrica de bolachas, trabalhinho apenas lido pelos componentes da banca examinadora. A intenção do trejeitado é ser reconhecido e, se possível, aclamado como de nível superior, posto que, até agora, dada a instituição cursada, ninguém ainda percebeu.
Mas a maior alegria na Internet está acontecendo com a emersão de centenas de taglines, pequenas frases que revelam trocadilhos, gozações e desmoralizações com ideários tidos e havidos como tradicionais ou de eterna eficácia.
Classifiquei uma vintena de taglines, para proporcionar ao leitor uma avaliação acerca da criatividade brasileira, apesar de todos os pesares e desatenções educacionais possíveis:
1. Não há nada no escuro que você possa ver; 2. Mulher é um conjunto de curvas capaz de levantar um segmento de reta; 3. Parte do automóvel que é vendida no Egito: os faraóis; 4. A ejaculação precoce era conhecida na Antiguidade como mal que mela; 5. Nunca ligou para dinheiro, quando ligou estava ocupado; 6. Rouba dos ricos e dá aos pobres, além de ladrão é gay; 7. Barganhar: receber um botequim de herança; 8. Se barba impusesse respeito, bode não teria chifres; 9. Deus criou o homem antes da mulher para não ouvir palpites; 10. Já que a primeira impressão é a que fica, use uma impressora laser; 11. Abelha morre eletrocutada numa rosa-choque; 12. Estouro: bovino que sofreu operação de mudança de sexo; 13. Menstruação é ruim? Pior é quando ela não vem!; 14. A zebra disse prá mosca: você está na minha lista negra; 15. Se bebida curasse alguma coisa, cachaça tinha bula; 16. Tudo na vida é passageiro, menos motorista e cobrador; 17. Loira Gelada é só uma mulher esticada numa mesa do IML; 18. No dia que chover mulher, quero uma goteira em cima da minha cama; 19. Meu gato morreu em miados do ano passado; 20. Virgindade é que nem picolé: acaba no pau.
Homenageio, transcrevendo as taglines acima, um notável pesquisador, pioneiro na coleta do que havia de mais pitoresco em para-choques de caminhão: Marcos Vinicios Vilaça, hoje personalidade consagrada nacionalmente. Em publicação editada pela Fundação Joaquim Nabuco, então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, ele revelou ao país inteiro, em 1961, a criatividade e o humor, as ironias e as farpas dos caminhoneiros brasileiros, uma das alavancas da integração nacional norte-sul, leste-oeste: “Não sou pipoca, mas pulo um pouco”, “Cerveja só gelada, mulher só quente”, “Mulher e parafuso, comigo é no arrocho”, “Sem amar não se vive” e “Mulher feia e urubu, comigo é na pedrada”.
As tiradas de ontem e as de agora, sinais vitais da vivacidade intelectiva de um povo, o brasileiro. Um povo criativo por excelência, pronto para desenvolver o seu território pátrio, se lhe derem vez, voto, chão e enxada.

sábado, 11 de agosto de 2007

Pegadinha de Deus

Outro dia, num sinal de trânsito recifense, recebi da Campanha do Quilo, uma ímpar iniciativa de solidariedade promovida pelos nossos irmãos espíritas, um folheto. Providencialmente endereçado aos Pais que amanhã festejam seu Dia, como se eles necessitassem de um dia especial, se não fosse o interesse estritamente comercial da comemoração. Uma verdadeira pegadinha de Deus.
Como Deus escreve certo por linhas muito tortas, a leitura do folheto me fez muito um bem extraordinário, percebendo-me cada vez mais como um inconcluso Filho da Criação, de múltiplos defeitos e algumas qualidades, sempre a mercê da Infinita Misericórdia do Altíssimo.
Compatilho a mensagem do folheto com todos vocês, na certeza de vê-los cada vez mais firmes e fortes diante das atuais turbulências civis, militares e eclesiásticas, daqui e d'além mar.

OLHE EM TORNO DE VOCÊ
Olhe para trás!
Veja os obstáculos que você já superou.
Veja quanto já aprendeu nesta vida e quanto já cresceu.
Olhe pra frente!!
Não fique parado, levante-se quando tropeçar e cair.
Estabeleça metas, tenha planos e prossiga com firmeza.
Olhe para dentro de si!!
Conheça seu coração e analise seus projetos de vida.
Mantenha puros os seus sentimentos. Não permita que o orgulho, a vaidade e a inveja dominem seus pensamentos e seu coração.
Olhe para o lado!"
Socorra quem precisa de você. Ame o próximo e seja sensível para perceber as necessidades daqueles que o cercam.
Olhe para baixo!!
Não pise em ninguém.
Perceba as pequenas coisas e aprenda a valorizá-las.
Olhe para cima!!
Há um Deus maior que você, que lhe ama muito! E tem todas as coisas sob seu controle.
Olhe para Deus!!
Perceba a profundidade, a riqueza e o poder da bondade divina. Sinta esse Deus que olha por você em todos os dias da sua vida!!