As nossas estatísticas sociais são chocantes, nos prostrando humilhados perante os países civilizados. Uma delas: o Brasil tem uma “biblioteca” pública para cada 33 mil habitantes, enquanto a França tem 13 vezes mais bibliotecas por habitante do que o Brasil. Lá a proporção é de uma instituição para cada 2.500 pessoas. Os dados foram fornecidos pela Fundação Biblioteca Nacional.
No Dia do Bibliotecário, comemorado minguadamente há alguns dias, a realidade é por demais cruel: cerca de 6,5% dos municípios brasileiros não possuem bibliotecas. Segundo a presidenta do Conselho Federal de Biblioteconomia, “o índice de bibliotecas por habitante no país é tragicamente insuficiente”. E a Nêmora Arlindo Rodrigues, atual dirigente maior do CFB, ainda é mais incisiva: “mais de 90% das bibliotecas não têm acervo adequado, não atendem às demandas nem possuem profissionais capacitados”.
Um outro dado é retrato fiel da alienação da nossa gente: segundo o Instituto Pró-Livro, 73% dos brasileiros não frequentam bibliotecas. E uma fotografia estampada em recente reportagem de jonal sulista sutilmente deprecia a nossa região, por mais que explicite ser uma iniciativa de bons méritos: jegues carregando livros no sertão de Pernambuco, como forma de incentivar a leitura. O título é por demais ironizante: “no nordeste, jegue vira biblioteca ambulante”.
Segundo a professora Eunice Soriano de Alencar, PhD e representante do Brasil, tempos atrás, no Conselho Mundial para o Superdotado e Talentoso, algumas posturas tornam-se extremamente lesivas para os que não gostam de ler, não apreciam uma leitura reflexiva, nem frequentam bibliotecas, todas viróticas. São as seguintes: 1. Capacitação voltada para o passado, enfatizando a reprodução e a memorização; 2. Práticas profissionais que admitem apenas uma única resposta, cultivando-se o medo do erro e do fracasso; 3. Valorização da incompetência, da ignorância e da incapacidade analítica, olvidados os incentivos aos talentos de cada um; 4. Menosprezo pelo auto-conhecimento; 5. Desenvolvimento de habilidades limitadas; 6. Obediência, passividade, dependência e conformismo; 7. Abandono da imaginação e da fantasia; 8. Descaso pelo cultivo de uma visão otimista dos futuros, sem hipocrisias nem messianismos.
Considero a leitura o melhor combustível para se seguir adiante, continuando a travar o bom combate, acreditando sempre que o mundo se revolucionará pacificamente através da ação radicalmente solidária dos seres pensantes. E vibro quando leio uma reflexão de uma concluinte de Pedagógico 1980, em instituição sediada na periféria da capital paranaense, reproduzida, aqui, com muita satisfação: “Gosto de gente com a cabeça no lugar, de conteúdo interno, idealismo nos olhos e dois pés no chão da realidade. Gosto de gente que ri e chora, se emociona com uma simples carta, um telefonema, uma canção romântica, um gesto de carinho, um abraço e uma ternura. Gente que ama e sabe curtir saudades. Gosto de gente que cultiva flores, admira paisagens, semeia perdão, reparte vivências e confidências, sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis por mais desgastantes que sejam. Gente que orienta, entende, aconselha, busca a verdade e quer sempre aprender, ainda que a lição advenha de uma criança, de um pobre ou de um analfabeto. Gente de coração desarmado, sem ódio e preconceitos cavilosos. Gente que erra e reconhece, cai e levanta, apanha e assimila os golpes, tirando lições dos erros, fazendo redentoras suas próprias lágrimas e sofrimentos. Gosto de gente assim, desconfiando que é desse tipo de gente que Deus também gosta”.
Os pensamentos da Lúcia Souza, autora do texto acima, indicam rumos comportamentais consistentes para todos aqueles que necessitam reestruturar-se para continuar seguindo adiante, num mundo de cenários múltiplos, díspares e divergentes, atualmente se debatendo numa crise gigantesca.
Tenho uma imensa compaixão dos que possuem alma pequena. Dos complexados por esse ou aquele motivo, dos que se imaginam corporalmente belos e se desestruturam com as primeiras rugas. Dos que não entendem a concepção moderna de família, refugiando-se num tribalismo hermético. Dos que não sabem rir, sentindo-se sempre os catões da diocese. Dos que se imaginam libertos, somente porque não prestam mais contas dos seus atos e andanças a companheiros, superiores ou subordinados. Dos que se arvoram de poderosos quando espezinham humildes, de quatro de postando, rabinho entre as pernas, diante dos superiores.
Admiro profundamente aquelas pessoas que fecham os olhos para ver melhor. Que sofrem constrangimentos afetivos para ampliarem sua capacidade de integrar-se no Cosmo. Que não menosprezam acasos, pois eles só favorecem as mentes preparadas. E também admiro os que se apaixonaram, que nem eu, pelo paradoxo da Existência: aceitar a limitação de, não sendo Deus, confiar plenamente n’Ele, agindo como se tudo dependesse de nós.
Mas, e as Bibliotecas? Elas, se bem edificadas, com acervos atualizados e profissionais capacitados para educar e cativar, seguramente multiplicariam os talenos brasileiros, do nível da Lúcia Souza, aquela paranaense magrinha que um dia conheci, de origem muito simples, hoje Adjunta IV da Universidade Federal do Paraná, doutorado concluído recentemente, na Alemanha, com louvor máximo.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)
No Dia do Bibliotecário, comemorado minguadamente há alguns dias, a realidade é por demais cruel: cerca de 6,5% dos municípios brasileiros não possuem bibliotecas. Segundo a presidenta do Conselho Federal de Biblioteconomia, “o índice de bibliotecas por habitante no país é tragicamente insuficiente”. E a Nêmora Arlindo Rodrigues, atual dirigente maior do CFB, ainda é mais incisiva: “mais de 90% das bibliotecas não têm acervo adequado, não atendem às demandas nem possuem profissionais capacitados”.
Um outro dado é retrato fiel da alienação da nossa gente: segundo o Instituto Pró-Livro, 73% dos brasileiros não frequentam bibliotecas. E uma fotografia estampada em recente reportagem de jonal sulista sutilmente deprecia a nossa região, por mais que explicite ser uma iniciativa de bons méritos: jegues carregando livros no sertão de Pernambuco, como forma de incentivar a leitura. O título é por demais ironizante: “no nordeste, jegue vira biblioteca ambulante”.
Segundo a professora Eunice Soriano de Alencar, PhD e representante do Brasil, tempos atrás, no Conselho Mundial para o Superdotado e Talentoso, algumas posturas tornam-se extremamente lesivas para os que não gostam de ler, não apreciam uma leitura reflexiva, nem frequentam bibliotecas, todas viróticas. São as seguintes: 1. Capacitação voltada para o passado, enfatizando a reprodução e a memorização; 2. Práticas profissionais que admitem apenas uma única resposta, cultivando-se o medo do erro e do fracasso; 3. Valorização da incompetência, da ignorância e da incapacidade analítica, olvidados os incentivos aos talentos de cada um; 4. Menosprezo pelo auto-conhecimento; 5. Desenvolvimento de habilidades limitadas; 6. Obediência, passividade, dependência e conformismo; 7. Abandono da imaginação e da fantasia; 8. Descaso pelo cultivo de uma visão otimista dos futuros, sem hipocrisias nem messianismos.
Considero a leitura o melhor combustível para se seguir adiante, continuando a travar o bom combate, acreditando sempre que o mundo se revolucionará pacificamente através da ação radicalmente solidária dos seres pensantes. E vibro quando leio uma reflexão de uma concluinte de Pedagógico 1980, em instituição sediada na periféria da capital paranaense, reproduzida, aqui, com muita satisfação: “Gosto de gente com a cabeça no lugar, de conteúdo interno, idealismo nos olhos e dois pés no chão da realidade. Gosto de gente que ri e chora, se emociona com uma simples carta, um telefonema, uma canção romântica, um gesto de carinho, um abraço e uma ternura. Gente que ama e sabe curtir saudades. Gosto de gente que cultiva flores, admira paisagens, semeia perdão, reparte vivências e confidências, sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis por mais desgastantes que sejam. Gente que orienta, entende, aconselha, busca a verdade e quer sempre aprender, ainda que a lição advenha de uma criança, de um pobre ou de um analfabeto. Gente de coração desarmado, sem ódio e preconceitos cavilosos. Gente que erra e reconhece, cai e levanta, apanha e assimila os golpes, tirando lições dos erros, fazendo redentoras suas próprias lágrimas e sofrimentos. Gosto de gente assim, desconfiando que é desse tipo de gente que Deus também gosta”.
Os pensamentos da Lúcia Souza, autora do texto acima, indicam rumos comportamentais consistentes para todos aqueles que necessitam reestruturar-se para continuar seguindo adiante, num mundo de cenários múltiplos, díspares e divergentes, atualmente se debatendo numa crise gigantesca.
Tenho uma imensa compaixão dos que possuem alma pequena. Dos complexados por esse ou aquele motivo, dos que se imaginam corporalmente belos e se desestruturam com as primeiras rugas. Dos que não entendem a concepção moderna de família, refugiando-se num tribalismo hermético. Dos que não sabem rir, sentindo-se sempre os catões da diocese. Dos que se imaginam libertos, somente porque não prestam mais contas dos seus atos e andanças a companheiros, superiores ou subordinados. Dos que se arvoram de poderosos quando espezinham humildes, de quatro de postando, rabinho entre as pernas, diante dos superiores.
Admiro profundamente aquelas pessoas que fecham os olhos para ver melhor. Que sofrem constrangimentos afetivos para ampliarem sua capacidade de integrar-se no Cosmo. Que não menosprezam acasos, pois eles só favorecem as mentes preparadas. E também admiro os que se apaixonaram, que nem eu, pelo paradoxo da Existência: aceitar a limitação de, não sendo Deus, confiar plenamente n’Ele, agindo como se tudo dependesse de nós.
Mas, e as Bibliotecas? Elas, se bem edificadas, com acervos atualizados e profissionais capacitados para educar e cativar, seguramente multiplicariam os talenos brasileiros, do nível da Lúcia Souza, aquela paranaense magrinha que um dia conheci, de origem muito simples, hoje Adjunta IV da Universidade Federal do Paraná, doutorado concluído recentemente, na Alemanha, com louvor máximo.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)
