terça-feira, 31 de março de 2009

Rasgando a fantasia

As nossas estatísticas sociais são chocantes, nos prostrando humilhados perante os países civilizados. Uma delas: o Brasil tem uma “biblioteca” pública para cada 33 mil habitantes, enquanto a França tem 13 vezes mais bibliotecas por habitante do que o Brasil. Lá a proporção é de uma instituição para cada 2.500 pessoas. Os dados foram fornecidos pela Fundação Biblioteca Nacional.
No Dia do Bibliotecário, comemorado minguadamente há alguns dias, a realidade é por demais cruel: cerca de 6,5% dos municípios brasileiros não possuem bibliotecas. Segundo a presidenta do Conselho Federal de Biblioteconomia, “o índice de bibliotecas por habitante no país é tragicamente insuficiente”. E a Nêmora Arlindo Rodrigues, atual dirigente maior do CFB, ainda é mais incisiva: “mais de 90% das bibliotecas não têm acervo adequado, não atendem às demandas nem possuem profissionais capacitados”.
Um outro dado é retrato fiel da alienação da nossa gente: segundo o Instituto Pró-Livro, 73% dos brasileiros não frequentam bibliotecas. E uma fotografia estampada em recente reportagem de jonal sulista sutilmente deprecia a nossa região, por mais que explicite ser uma iniciativa de bons méritos: jegues carregando livros no sertão de Pernambuco, como forma de incentivar a leitura. O título é por demais ironizante: “no nordeste, jegue vira biblioteca ambulante”.
Segundo a professora Eunice Soriano de Alencar, PhD e representante do Brasil, tempos atrás, no Conselho Mundial para o Superdotado e Talentoso, algumas posturas tornam-se extremamente lesivas para os que não gostam de ler, não apreciam uma leitura reflexiva, nem frequentam bibliotecas, todas viróticas. São as seguintes: 1. Capacitação voltada para o passado, enfatizando a reprodução e a memorização; 2. Práticas profissionais que admitem apenas uma única resposta, cultivando-se o medo do erro e do fracasso; 3. Valorização da incompetência, da ignorância e da incapacidade analítica, olvidados os incentivos aos talentos de cada um; 4. Menosprezo pelo auto-conhecimento; 5. Desenvolvimento de habilidades limitadas; 6. Obediência, passividade, dependência e conformismo; 7. Abandono da imaginação e da fantasia; 8. Descaso pelo cultivo de uma visão otimista dos futuros, sem hipocrisias nem messianismos.
Considero a leitura o melhor combustível para se seguir adiante, continuando a travar o bom combate, acreditando sempre que o mundo se revolucionará pacificamente através da ação radicalmente solidária dos seres pensantes. E vibro quando leio uma reflexão de uma concluinte de Pedagógico 1980, em instituição sediada na periféria da capital paranaense, reproduzida, aqui, com muita satisfação: “Gosto de gente com a cabeça no lugar, de conteúdo interno, idealismo nos olhos e dois pés no chão da realidade. Gosto de gente que ri e chora, se emociona com uma simples carta, um telefonema, uma canção romântica, um gesto de carinho, um abraço e uma ternura. Gente que ama e sabe curtir saudades. Gosto de gente que cultiva flores, admira paisagens, semeia perdão, reparte vivências e confidências, sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis por mais desgastantes que sejam. Gente que orienta, entende, aconselha, busca a verdade e quer sempre aprender, ainda que a lição advenha de uma criança, de um pobre ou de um analfabeto. Gente de coração desarmado, sem ódio e preconceitos cavilosos. Gente que erra e reconhece, cai e levanta, apanha e assimila os golpes, tirando lições dos erros, fazendo redentoras suas próprias lágrimas e sofrimentos. Gosto de gente assim, desconfiando que é desse tipo de gente que Deus também gosta”.
Os pensamentos da Lúcia Souza, autora do texto acima, indicam rumos comportamentais consistentes para todos aqueles que necessitam reestruturar-se para continuar seguindo adiante, num mundo de cenários múltiplos, díspares e divergentes, atualmente se debatendo numa crise gigantesca.
Tenho uma imensa compaixão dos que possuem alma pequena. Dos complexados por esse ou aquele motivo, dos que se imaginam corporalmente belos e se desestruturam com as primeiras rugas. Dos que não entendem a concepção moderna de família, refugiando-se num tribalismo hermético. Dos que não sabem rir, sentindo-se sempre os catões da diocese. Dos que se imaginam libertos, somente porque não prestam mais contas dos seus atos e andanças a companheiros, superiores ou subordinados. Dos que se arvoram de poderosos quando espezinham humildes, de quatro de postando, rabinho entre as pernas, diante dos superiores.
Admiro profundamente aquelas pessoas que fecham os olhos para ver melhor. Que sofrem constrangimentos afetivos para ampliarem sua capacidade de integrar-se no Cosmo. Que não menosprezam acasos, pois eles só favorecem as mentes preparadas. E também admiro os que se apaixonaram, que nem eu, pelo paradoxo da Existência: aceitar a limitação de, não sendo Deus, confiar plenamente n’Ele, agindo como se tudo dependesse de nós.
Mas, e as Bibliotecas? Elas, se bem edificadas, com acervos atualizados e profissionais capacitados para educar e cativar, seguramente multiplicariam os talenos brasileiros, do nível da Lúcia Souza, aquela paranaense magrinha que um dia conheci, de origem muito simples, hoje Adjunta IV da Universidade Federal do Paraná, doutorado concluído recentemente, na Alemanha, com louvor máximo.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Camilo, Missionário Rebelde

Com sagacidade, as ocupações dos sem-teto homenageiam os que despem-se dos seus confortos e poderes para um enfrentamento com os pedradores, na busca de soluções que aliviem os seus índices existenciais.
Uma das ocupações brasileiras denominou-se Ocupação Camilo Torres, em MG, num terreno que pertencia à CODEMIG, transferido para o particular, em 1992, por um décimo do seu valor venal, num crime contra o patriônio público. Agravado pelo compromisso de um nunca efetivado empreendimento industrial na área.
Durante a pendenga que até agora favorece os poderosos, indagações surgiram sobre o homenageado Camilo Torres, um nascido em 1929 e filho da alta burguesia da Colômbia. Seu pai era catedrático na Universidade Nacional da Colômbia, também servindo o país como Cônsul, em Berlim.
Após um semestre no Curso de Direito, Camilo ingressa, em 1948, no Seminário, ordenado padre em 1954. Enviado à Bélgica, estudou sociologia em Louvain, graduando-se em 1958 com um trabalho que analisava a gradativa proletarização de Bogotá.
No retorno, foi nomeado capelão da Universidade Nacional, ali fundando uma Faculdade de Sociologia, principiando a ter problemas com o cardeal Luís Concha Córdoba, que logo o destituiria da capelania, impedindo-o de exercer quaisquer funções administrativas na universidade. Em 1965, pressionado pelo alto clero, a 27 de julho celebra sua última missa, quando escreve uma Mensagem aos Cristãos: "Deixei os privilégios e deveres do clero, porém não deixei de ser sacerdote. Creio que me entreguei à revolução por amor ao próximo. Deixei de rezar missa para realizar este amor ao próximo, no terreno temporal, econômico e social. Quando meu próximo não tiver mais nada contra mim, quando tenha realizado a revolução, voltarei a oferecer missa, se Deus me permitir. Creio que assim sigo o mandamento de Cristo: ‘quando levares tua oferenda ao altar, e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda sobre o altar, e vai reconciliar-te com teu irmão, e então volte e apresente tua oferenda’(Mt 5, 23-24). Depois da revolução, os cristãos terão a consciência de que estabelecemos um sistema que estará orientado para o amor ao próximo".
Acusado se subversivo, coloca-se a serviço do Exército de Libertação Nacional, morrendo a 15 de fevereiro de 1966, em sua primeira ação guerrilheira. Até hoje, o exército colombiano não revela o destino dada ao seu corpo.
Camilo Torres considerava que quem definia o caráter pacífico ou violento da sociedade não era a classe popular, mas a classe dos governantes. Guiado por um lema chamado "o amor eficaz para todos", sua ação era um convite para que "a próxima geração não fosse mais de escravos, mas de homens livres", tal e qual o caminho que o Cristianismo deveria perseguir.
Camilo Torres buscava recuperar a esperança de milhões de párias, iguais aos moradores da Ocupação Camilo Torres, com seus trapos, farrapos, mulheres e filhos. Ele tinha consciência da expressão utilizada por Hans Kung: “uma igreja veraz não fornece ao homem receitas baratas para a vida particular e, muito menos, para a política mundial em suas diversas modalidades”. E assinaria embaixo o que escreveu, um dia, outro santo rebelde, Dom Hélder Câmara, amado arcebispo de Olinda e Recife: “o fenômeno do presente é que a juventude, com as várias Religiões, retém freqüentemente a impressão que existe medo, egoísmo, prudência excessiva da parte daqueles que carregam os títulos de líderes religiosos – já sem liderar”.
Somente quando forem derribadas as máscaras que tornaram petrificados as cúpulas das denominações cristãs, quando não mais persistirem o marasmo, a cultura de fingimento e os sepulcros caiados tão incisivamente denunciados pelo Homão da Galiléia, perceberemos a essência do proclamado pelo poeta Victor Jará, homenageando Camilo Torres: “Onde caiu Camilo nasceu uma cruz, porém não de madeira, e sim de luz".
(Publicada hoje, 26.03.2009, no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Filosofia com Humor

Já disse mais de uma vez, para gregos e troianos, que mantenho um pé atrás diante dos que não possuem senso de humor, puritanosos e moralistas que se imaginam superiores a todos os demais mortais. Tenho uma alergia gota serena dos que se imaginam sócios de Deus, principalmente dos que se acham sósias do Absoluto.
Quando o assunto é Filosofia, então, a imagem que me vem à cabeça é a de um sujeito sisudo, cabelos desgrenhados, unhas pouco polidas, olheiras de viciado em leituras esotéricas, dessas que levam uns trinta minutos para juntar duas frases.
Nos meus tempos de Colégio Marista, as aulas de Filosofia eram ministradas pelo padre Arnaldo, de excepcionais virtudes, pensador dos ótimos, fingido ar de brabeza em coração de criança muito amada. Mas o livro recomendado, Regis Jolivet, não era atraente nem para os que iriam fazer Engenharia, tampouco os que se destinavam à Medicina. Pouco sedutor, inclusive, para os que se submeteriam ao vestibular de Direito, ainda que de leitura obrigatória, por conta dos silogismos e argumentos outros que deveriam ser apreendidos para a prática forense de então.
Hoje, o ensinar Filosofia tornou-se bem menos traumatizante, muito embora alguns docentes, por postura pra lá de nostálgica, persistam em ensimesmar-se como galo sabido e único perante seus derredores acadêmicos, como se travestidos estivessem de Epicuro, Epicteto e outros filosofauros, companheiros dos peripatéticos.
Estudar Filosofia, pelo menos suas estruturas básicas, é um dever para todos aqueles que desejam possuir uma profissionalidade consolidada num pensar desabobalhante. Os compêndios tornaram-se didáticamente saborosos, seus autores mais capacitados para um expor sedutor dos assuntos específicos.
Outro dia, recebi um Compêndio de Epistemologia – John Greco e Ernest Osa, Loyola, 2008 -, contendo dezessete ensaios sobre tópicos centrais da epistemologia, escritos propositadamente para não-especialistas e o público instruído. Seus autores possuem erudição e acessibilidade. Um volume de mais de setecentas páginas, de excelente desenvolvimento expositivo. Junto com ele, veio um outro livro de Filosofia, duzentas e poucas páginas, escrito por dois diplomados por Harvard, que desejavam comprovar que as diversas partes da Filosofia – Metafísica, Lógica, Epistemologia, Ética, Filosofia da Religião, Existencialismo, Filosofia da Linguagem, Filosofia Social e Política, Relatividade e Metafilosofia – poderiam ser ensinadas utilizando-se o humor como indispensável condimento didático. Intitulado Platão e um ornitorrinco entram num bar ...- filosofia explicada com senso de humor, o livro foi escrito por Thomas Cathcart & Daniel Klein, editado pela Objetiva, 2008. E todo o texto é dedicado a Groucho Marx, carinhosamente chamado pela dupla de avô filosófico, que um dia resumiu da seguinte maneira a ideologia básica: “Estes são meus princípios. Se você não gostar deles, tenho outros”.
Apenas como tira-gosto, ressalto três historinhas extraídas do livro de Cathcart e Klein. A primeira é sobre Lógica. “Vendedor: - Madame, este aspirador de pó vai reduzir seu trabalho à metade. Cliente; - Ótimo! Me dê dois.” A segunda é da área de Epistemologia: “Uma mulher comunica à polícia que seu marido desapareceu. Pedem uma descrição e ela diz: - Ele mede 1,85m, musculoso, com cabelos fartos e encaracolado. A amiga diz: - O que é isso que você está dizendo? Seu marido mede 1,60m, é careca e tem barriga imensa. A mulher: - E quem vai querer esse de volta?”. A terceira se relaciona com a relatividade do tempo: “Um caracol foi assaltado por duas tartarugas. Quando a polícia perguntou o que aconteceu, ele disse: - Não sei, foi tudo tão rápido!!”.
As demais historinhas, eu as deixo para o leitor deste Portal, quando saborear o livro. Um trabalho que desabestalha, facilitando a compreensão do mundo, deixando todos com uma irressistível vontade de quero-mais.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

Leituras Reestruturadoras

Uma muito admirada ex-aluna da Universidade Federal de Pernambuco, a Marina, inteligência antenada nos quatro cantos do planeta, me solicita a indicação de uma leitura formativa, agradável e reconstrutora, para presentear uma amiga que está a necessitar de uma consistente reformulação existencial, dessas que afiam corações e mentes, desabestalhando com rapidez, embora sempre inconclusamente diante dos emergentes desafios.
De imediato, três textos recentes me saltam aos olhos, um técnico, outro humanista, o terceiro espiritualidade aplicada à libertação da Terra. Leituras agradáveis, que devem ser efetivadas sem a mínima pressa, imaginando-se autor e ator num mundo que necessita tornar-se mais dignificantes para todos.
O primeiro texto é de Rubem Alves e chama-se O Melhor de Rubem Alves. Organizado pelo educador Samuel Lago, amigo de longa data de Alves e sócio-fundador da Editora Nossa Cultura, responsável pelo lançamento, autor e editor endereçando toda a renda líquida proveniente da venda a entidades compromissadas com a construção de um mundo melhor. A qualidade da edição é primorosa e as reflexões são divididas em nove partes: educação, religião, sabedoria, vida-morte, sentimento, poesia, filosofia, ciências e política. Duas amostras apenas: “ortodoxos são os fortes, aqueles que têm o poder para dizer a última palavra. Por isso eles se definem como portadores da verdade e aos seus adversários como portadores da mentira. A heresia é a voz dos fracos”; “a saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou”. Certamente, você não teria tempo e/ou oportunidade de ler os 80 livros de Rubem Alves. O Melhor de Rubem Alves contém uma síntese do seu pensamento. Um primor de sabedoria.
O segundo texto é técnico. Seu autor, Ha-Joon Chang, um economista de Cambridge, Prêmio Leontief 2005, ao escrever Maus Samaritanos: o Mito do Livre-Comércio e a História Secreta do Capitalismo, Campus-Ordem dos Economistas do Brasil, 2009, ele teve em mente dar uma sapatada técnica nos que aplaudem a ideologia simplista do livre-mercado, sem atentar para as estratégias não-totalitárias que podem resultar num mundo sem as gritantes distâncias sociais do momento presente. Com argumentações baseadas em fatos históricos, ele mostra, em outras coisas, como a Coréia do Norte, considerada em 1950, pela USAID, um “buraco sem fundo”, veio a se tornar um dos países mais ricos do mundo, onde o seu programa de desenvolvimento se respalda numa obsessão nacional pelo desenvolvimento da educação.
O livro terceiro, composto neste mês de janeiro 2009, é trabalho conjunto de duas mentes privilegiadas: Marcelo Barros e Frei Betto. O primeiro, monge beneditino, teólogo e biblista, tem 32 livros publicados, entre eles um que muito me agrada, intitulado Dom Hélder Câmara: profeta para os nossos dias. Defensor intransigente de uma espiritualidade plutalista. O segundo, é dominicano, escritor e jornalista. Autor de 54 textos, ganhou em duas ocasiões o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira, em 1982 e 2005. O livro O Amor Fecunda o Universo, editora Agir, é destinado a todos aqueles que percebem que “o cuidado com a natureza precisa de conhecimentos técnicos, de aprofundamentos científicos e de um trabalho social e político coerente”. O texto “se propõe a ser um ensaio sobre teologia e espiritualidade ecológica, a partir das referências e opções de uma Teologia da Libertação cristã e pluralista”.
No livro do Marcelo Barros e Frei Betto, uma leitura desintoxicante por derradeiro, encontra-se a famosa carta escrita pelo chefe índio Seattle e enviada, em 1854, ao então presidente dos Estados Unidos da América. E análises, sem sentimentalismos mediocrizantes, sobre duas idéias falsas: a crença de que quanto mais melhor, e a de que o único meio de acabar com a pobreza é o econômico, quando é justamente ele o grande gerador de misérias,
Um bom início de semestre universitário, sob a inspiração do Homão da Galiléia. Como eu.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 19 de março de 2009

A Invenção do Futuro

Há algum tempo, em Ilhabela, litoral de São Paulo, dois seminários aconteceram. Em debate a seguinte questão: como lidar com o novo laço social da globalização em nossas múltiplas expressões? Debateram o assunto, em duas grandes semanas, juristas, publicitários, cientistas políticos, psicanalistas e jornalistas. Os dados principais estão contidos no livro de título pra lá de sugestivo: A Invenção do Futuro, editora Manole, Barueri, SP.
Um dos assuntos mais debatidos foi o da violência, hoje nas manchetes principais dos meios de comunicação. A sociedade, atordoada em sua grande maioria, está se percebendo vítima diante de um monstro, o perigo sendo ainda mais assustador pela ignorância acerca das causas.
Essa violência tsumânica que assola os quatro cantos da terra, está vinculada umbilicalmente a alucinantes dados quantitativos, dois aqui citados como uma preocupante amostra: 1. A renda dos 1.125 bilionários do mundo é maior que a obtida pela metade da população adulta do planeta. 2. Somente em agosto de 2008, a Exxon, a maioral do globo, registrou um lucro de noventa mil dólares por minuto!!
Neste século, há uma necessidade de se saber desenvolver equilibradamente quatro mundos: o Mundo do Saber, o Mundo do Ser, o Mundo do Sentir e o Mundo do Fazer. Áreas que somente estarão niveladas através de uma nova configuração financeira internacional. Que possibilitará combater as múltiplas facetas da ignorância, do fanatismo e da tirania.
Grande parte da humanidade principia a perceber que a culpa pelos vexames terrestres é do próprio tresloucado desenvolvimento civilizacional, onde nunca se manifestou tão agressiva a voracidade por um irracional que alavanca, em milhões, a passividade, o mesmismo e um se-Deus-quiser recheado de funestas nostalgias. Não sendo desprezível, em se tratando do povo brasileiro, recente divulgação da Fiocruz: 20% dos nossos depressivos são adolescentes.
No Brasil, é necessário que se diga alto e bom som: “os governos eleitos pelo povo – Collor&Itamar, FHC e Lula – não conseguiram reverter a tendência de empobrecimento dos brasileiros, imposta desde o golpe de 1964. De acordo com o IPEA, órgão do governo federal, a população favelada aumentou 42% em 15 anos (1992-2007), mais de 55 milhões de pessoas vivem em moradias inadequadas, 43% da população urbana não têm acesso a esgoto. Sem mudar o modelo econômico, as condições de vida também não mudam”.
Para uma idéia nítida da crise financeira mundial que abalou as bolsas de valores, prejudicando principalmente os pequenos investidores, as perdas estão sendo até agora estimadas em US$ 33 trilhões, segundo revelação do presidente do Banco Central brasileiro, Henrique Meirelles. Em outras palavras: a perda sofrida pelos sete maiores investidores - US$ 131,3 bilhões - equivale a quase 11 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Paraguai, calculado pelo Banco Mundial em US$ 12 bilhões, dados de 2007.
O escritor Eduardo Galeano, em seu último livro, Espelhos, Uma História Quase Universal, L&PM, 2008, o encerra com lamentável constatação: “O século XX, que nasceu anunciando paz e justiça, morreu banhado em sangue e deixou um mundo muito mais injusto que o que havia encontrado. O século XXI, que também nasceu anunciando paz e justiça, está seguindo os passos do século anterior. Lá na minha infância, eu estava convencido de que tudo o que na terra se perdia ia parar na lua. No entanto, os astronautas não encontraram sonhos perigosos, nem promessas traídas, nem esperanças rotas. Se não estão na lua, onde estão? Será que na terra não se perderam? Será que na terra se esconderam?
Os anéis e os dedos de todos estão a depender da vontade política de todos. O ditado “pimenta no abre-te-sésamo dos outros é refresco” está pairando sobre gregos e troianos. A hora é de muito refletir para um agir rápido e consistente, solidário e não-suicida.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Explicações Desnecessárias

É lamentável que o presidente Inácio da Silva, com sua excelente intuição política, sinta azia quando principia a ler um livro, conforme declarou outro dia à revista Piauí, onde também asseverou que “leio menos que deveria”. Se a patologia orgânica e a deficiência de leituras do presidente inexistissem, interessante seria oferecer-lhe o livro recente do Paul Krugman, Nobel de Economia 2008, também vencedor do Prêmio Medalha Clark, destinado à época ao economista com menos de quarenta anos. Ele mantém bissemanal coluna no New York Times, possuindo um blog chamado The Conscience of a Liberal.
O livro do Krugman, lançamento Elsevier 2009 e intitulado A Crise de 2008 e a Economia da Depressão, carrega um prefácio de André Lara Resende, que dele foi colega no programa de doutorado do Massachussetts Instituto of Technology, um “ambiente intelectualmente estimulante”, com “a sensação de estar num dos centros de formulação da teoria econômica”, segundo o prefaciador.
Polêmico, extremamente crítico da política econômica e externa do ex-presidente George “Nero” Bush, Paul Krugman, por escrever descomplicadamente, é vítima dos olhares raivosos de alguns colegas que acreditam que ele “populariza” demais a teoria econômica, tornando-a palatável aos olhos dos não-iniciados. O que vem a se tornar um tremendo mérito para ele, hoje um dos intelectuais mais convidados do mundo, sendo considerado como o “melhor explicador” da atual crise financeira mundial, a mais grave crise desde a década de 1930, classificada de “marolinha” por alguns farofosos.
Se o presidente Inácio da Silva manuseasse o livro, logo encontraria a recomendação feita pelo Krugman, que foi premiado como Colunista do Ano pela revista Editor and Publisher : “a única maneira de conhecer qualquer sistema complexo, seja o clima mundial, seja a economia global, é trabalhar com modelos – representações simplificadas da realidade que ajudam a compreender seu funcionamento”. Através da leitura de simulações variadas, pode-se estabelecer as melhores alternativas para o equacionamento de um problema, tenha ele a complexidade que tiver.
Mas o presidente deveria tornar-se também atento diante de algumas gigantescas diferenciações. Por exemplo, simplificação não tem nada a ver com simploriedade, a primeira necessária para um enxergamento rápido da problemática, a outra oriunda de posturas mentalmente ananicadas, típicas dos que desejam levar vantagem em todas as conjunturas, esborrachando-se depois dos ilusionismos percebidos pela maioria.
O presidente Inácio necessita ser alertado por analista independente: todos possuem atitudes que precisam ser remodeladas continuadamente, ao longo da existência ou ao longo de um mandato consagrado por milhões de eleitores. Um clima inesperado pode resultar em vendavais inimagináveis para um país. Que precisa apreender a estória da mula de um proprietário rural. Que um dia caiu num poço seco. Imaginando-a perdida, pois era impossível a sua retirada, o agricultor resolveu enterrá-la, jogando pás de areia. Logo logo, aproveitando a acumulação da areia, a mula estava à beira do poço, fazendo um barulho dos diabos. Favorecendo uma notável lição: através de iniciativas aparentemente finalizadoras, ingênuas, imaginando-se a única, pode-se fazer sobreviver até uma mula.
As quatro verdades de toda crise são: decisão errada em hora errada, desastre; decisão errada em hora certa, erro; decisão certa em hora errada, inaceitável; decisão certa na hora certa, sucesso. Intuições com azias podem provocar água no barco. Intuições com puxa-sacos oportunistas, igualmente. Que o presidente Inácio entenda o pensar de João Guimarães Rosa: “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Afinal de contas, intuições bem explicitadas geram excelentes resultados, até eleger uma mulher presidente do Brasil.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 18.03.2009)

terça-feira, 17 de março de 2009

A Propósito de Bestas

Recebo telefonema da querida jornalista Rosália Lima, sempre atuando Brasil de norte a sul com todo gás intelectivo que é merecedor de aplausos múltiplos, inclusive os do João Silvino da Conceição e os meus, seu admirador de carteirinha.
Indagando sobre as novidades episcopais do Recife, ressaltei-lhe as historietas religiosas contadas por Rubem Alves em seu livro recente O Sapo Que Queria Ser Príncipe, Editora Planeta 2009. Ressaltando que algumas pareciam até ter acontecido no Recife de nossos dias, apreensões e decepções múltiplas nos mais diversos escaninhos denominacionais. Aguçada, a Rosália Lima não se fez de rogada, pedindo-me para sintetizar uma historinha de Rubem que se encaixava nos terrenos maurícios. E lhe narrei o seguinte fato do Rubem Alves, vivido quando dos seus tempos de pastor em municípios das Minas Gerais. Repasso para os leitores deste site da ALGOMAIS:
Lá pelas bandas territoriais que estavam sob a responsabilidade do então pastor Rubem Alves, hoje um dos mais notáveis intelectuais brasileiros, um presbítero chamado Malaquias acreditava piamente que a Bíblia tinha sido ditada por Deus, palavra por palavra, posto que Ele sabia hebraico como ninguém. E que tudo que nela estava narrado tinha acontecido de mesmo, na forma a mais literal possível, sem tirar nem uma virgulinha só, por mais desnecessária que fosse. O Malaquias vivia nos calcanhares do Rubem Alves porque o classificava como “pastor diferente”, desses que não falavam muito em inferno e fogo nos traseiros dos merecedores das abrasadas ferroadas do garfo tridentado do Capetão. Rubem Alves, novinho à época, tomava sua caipirinha e jogava seu baralho (buraco) de janelas fechadas, com receio de uma brechada do presbítero Malaquias, aquele que não bebia, não dançava, não fumava, não assobiava nem tinha filhos. Segundo Malaquias, fumar, jogar baralho e tomar uma branquinha era ofensa pra ninguém botar defeito. Certa feita, o próprio Malaquias enviou uma queixa às “otoridades” da denominação, dedurando o Rubem Alves por ele ter tirado uma fotografia de um grupo de fiéis com um deles portando um cigarro acesso numa das mãos!!!
Visto a personalidade fundamentalista do Malaquias, eis que um dia, numa das aulas noturnas ministradas para trinta adultos, o Malaquias, que não perdia uma, desejando flagrar o Rubem Alves numa “heresia”, perguntou-lhe de sopetão, tão logo iniciada a preleção: - Reverendo, o senhor é um modernista?. Indagado sobre a razão do questionamento, retrucou com uma acusação: - O senhor não acredita em milagres ... Por exemplo, o senhor não acredita que a besta de Balaão falou...
Assegurando sob inspiração do Espírito Santo, a resposta de Rubem Alves deixou o Malaquias com o “catabiu” meio afolozado: - Senhor Malaquias. De todos, esse é o milagre mais comum. Porque até hoje há muitas bestas que falam...
Do outro lado da linha, a Rosália, inteligência transpirando por todos os poros, quase de urina de tanto rir: - É mesmo, Fernando, a gente poderia até enumerar as bestas pululantes em nosso meio recifense, que botaram a boca no trombone, imaginando-se em 1483, travestidas de Tomás de Torquemada, aquele inquisidor espanhol que celebrizou-se pela intolerância e rigor. E que só se permitia urinar através de uma pequena colher de metal que facilitava a sustentabilidade, na micção, do seu “engenho”.
A idiotia religiosa é virótica. E recordei ainda para Rosália a história daquela jovem senhora que fez cursilho feminino, foi recebida com salgadinhos e guaranás por familiares e amigos. Na hora de recolher-se, o marido abraçou-a, tocando-lhe o bico de um dos seios. Levou safanão com advertência: - Vá pra lá, Santanás!!!
O coitado passou algumas semanas com o seu “engenho” de licença sem vencimentos, quase tornado ateu ... Necessária uma conversa séria com um religioso de reconhecida idoneidade, para que tudo voltasse aos conformes, de dia e de noite, marido, mulher e bilau...
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Talento Político Feminino

Da primeira vez que eu a vi ao vivo, em Brasília, por ocasião do Concílio da Diocese Anglicana de lá, evento muito bem estruturado por Dom Maurício Andrade, Primaz da IEAB, de pronto não me impressionei muito. Ainda ministra do Meio Ambiente e rodeada de alguns assessores, seu tipo franzino, quase gandhiano, me passou inicialmente sensação de uma pessoa frágil, sem “exuberância d’alma”, usando, aqui, a fraseologia do Fernando Pessoa, esse gênio da cultura lusófona, autor de Tabacaria, aquele que sempre vivia dividido “entre a lealdade que devo à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, e à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro”.
Enganei-me redondamente, quando principiei a escutar a fala da senadora Marina Silva sobre o tema que lhe competia no Concílio. De um corpo debilitado por múltiplas enfermidades amazônicas, emergiu um pensar vigorosamente apaixonado pelas legítimas causas nacionais. Um pensar que muito se distancia da quase totalidade dos parlamentares de agora, que apenas se voltam prostitutamente para espúrios interesses próprios.
Desde aquele dia, tenho acompanhado a senadora Maria Silva através dos seus artigos publicados na Folha de São Paulo, sempre às segundas-feiras. Reflexões recheadas de muita consciência política, sem academicismos desnecessários, voltadas para aqueles leitores que migram de uma transitividade ingênua para uma transitividade crítica, utilizando expressões familiares do pernambucano Paulo Freire, ícone brasileiro de uma educação libertadora.
A senadora Marina Silva, atenta aos primeiros versos de um poema do Pessoa – Deus costuma usar a solidão / Para nos ensinar sobre a convivência. / Às vezes, usa a raiva para que possamos / Compreender o infinito valor da paz. – nos seus textos rejeita as manipulações políticas que denigrem o modo digno de ser político. E binoculiza cenários sobrevivenciais para as agremiações partidárias que deveriam ter uma “renda básica na política”, título de um dos seus últimos textos. Parafraseando o senador Eduardo Suplicy, seu companheiro de partido, a senadora Marina Silva propõe uma “renda básica da governabilidade, assegurando o interesse nacional acima das agendas partidárias”. E apresenta razões: “o futuro exige, no presente, política de futuro: madura, menos mesquinha, apta a enfrentar tempos de instabilidade e vulnerabilidade”.
No seu texto, a senadora conclama o Congresso para um alinhamento ético, um projeto comum: o de “catalisar o que há de melhor em todos os partidos”, evitando que os politicamente responsáveis tornem-se “reféns de maiorias indefinidas”, aquelas que deliberam sob escabrosos conchavos, que se deslocam velozmente “da função de fazer a mediação entre ideais e a vida real”. Ensejando uma crescente desacreditação das atividades políticas.
A senadora Marina Silva de há muito já percebeu que o povo anda cansado de tanta corrupção, das mediocridades e dos cinismos dos parlamentares donos de castelos, ativos torturadores nos anos de ditadura. Ela já compreendeu que os milhões que se sentem impotentes diante das bandalheiras do Congresso entusiasticamente aplaudiriam o seu fechamento, ainda que iludindo-se diante dos autoritarismos que emergeriam.
Uma profunda reforma política é necessária. Mais que necessária, é indispensável para um desenvolvimento nacional consequente, onde todos sejam mais cidadanizados, não mais aceitando o marasmo legislativo, as posturas de fingimento, os sepulcros caiados, os fisiológicos e os que deveriam estar atrás das grades, trancafiados sem dó nem piedade.
Acredito que através de uma amplo movimento pela Cidadanização Brasileira, envolvendo partidos políticos, sociedade civil e quem mais responsável se sentisse, resultaria num fortalecimento consciente do eleitorado nacional, ressuscitando a esperança de milhões, que desejam ultrapassar os limites de um assistencialismo predatório, situando-se bem além de uma simples “implementação do viável”.
PS. Viva a senadora Marina Silva, no Dia Internacional da Mulher!!
(Publicada hoje, 16/03/2009, no Portal da Globo Nordeste / http://pe360graus.globo.com, Coluna BATE & REBATE)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Caras Pintadas, Caras de Bestas

O jagunço-filósofo Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa talvez mais conhecido que o próprio autor, foi categórico: "Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza." É a partir desta assertiva que retiro do baú dos meus ontens a campanha dos caras-pintadas para botar pra fora do Planalto um presidente da República que não tinha se comportado com a hombridade que as atribuições exigiam. Um movimento que contou com o apoio incondicional do então presidente do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, que havia sido derrotado pelo que estava sofrendo a defenestração.
Ratificando o pensar do Riobaldo, eis que a Folha de São Paulo, de 5 de março último, noticia à página A4: “Collor vence PT com apoio de Sarney e bênção de Lula”. Fernando Collor presidirá Comissão de Infraestrutura do Senado, que fiscalizará o PAC, derrotando a senadora petista Ideli Salvatti, contando com os votos do PMDB, do DEM e do PTB.
No atual panorama político nacional, com muita facilidade podem ser identificados as Emgovs e os Brincantes.
Integram as EmgovsEmbromações Governamentais, as obras inacabadas, as fiscalizações que não detectam nem punem as bandalheiras, os cursos superiores promovidos por entidades caça-níqueis, as propagandas e as comunicações engabeladoras, os mil e um disfarces da burocracia e as iniciativas que apenas descidadanizam, fingindo-se de protetoras.
Brincantes, usando terminologia dos folguedos populares, podem ser considerados os que administram sem reponsabilidade, somente atentos para os efeitos midiáticos. Os Brincantes menosprezam a “grande batalha ética pela definição dos valores que devem orientar o futuro de nossa espécie e deste planeta”.
As Emgovs e os Brincantes já perceberam que ainda possuirão muitos anos de usufruto irresponsável. E que o fenômeno dos caras-pintadas não passou de uma manifestação que não mais se repetirá, posto que reduziu-se bastante o clamor por um país mais humano e distributivo, onde terra, água, saneamento, educação, transporte, segurança e trabalho sejam direitos consagrados, numa estrutura social onde a nunca-exclusão deveria ser o lema maior de um desenvolvimento que beneficiasse a grande maioria.
Para certas “coisas” fantasiadas de decisores, uma primorosa reflexão de André Weil: “Um homem de primeira categoria cerca-se de pessoas tão boas ou melhores do que ele. Um homem de segunda categoria cerca-se de pessoas de segunda categoria. Um homem de terceira categoria cerca-se de pessoas de quinta categoria”. Em outras palavras: quem entroniza um cafajeste como líder, um dia será desequilibrado. Do mesmo modo que é acanalhado todo aquele que, se comportando como uma vestal, cinicamente se traveste de defensor dos fracos e oprimidos, nunca enxergando a lama podre que escorre por entre suas pernas e derredores.
Torna-se de ímpar oportunidade a advertência de Marcel Proust, um dos maiores gênios da literatura francesa, caindo como uma luva em tempos de esculhambações e trambicagens pátrias: “Há pessoas que nunca encontraram o seu caminho porque, na verdade, sempre que se aproximam da trilha certa fazem questão de se desviar, embora fingindo estar procurando. É muito mais fácil viver na falsa procura do que a responsabilidade de encontrar”. Carapuças para os que, sempre víboras, posam de inquisidores às vésperas das saideiras.
Encareço aos leitores de ALGOMAIS nunca esquecer o que escreveu, um dia, o teatrólogo Bertolt Brecht: “Nós pedimos com insistência:/ Não digam nunca: isto é natural! / Diante dos acontecimentos de cada dia. / Numa época em que reina a confusão. / Em que corre sangue, / Em que se ordena a desordem, / Em que o arbitrário tem força de lei, / Em que a humanidade se desumaniza. / Não digam nunca: isso é natural!!
O anestesiamento atual da consciência nacional não deve perdurar por muito tempo. E o João Silvino tem toda razão: “A malandragem de alguns homens públicos só acontece porque eles percebem que o melhor caminho ainda é o da Democracia, jamais o do totalitarismo. Mas essa bandalha está com seus dias contados. E uma nova textura ética está se agigantando com o apoio da imprensa ainda não mercenária ”.
PS. Surge uma nova patologia médica: Obsessões Holofóticas, autoridades, inclusive eclesiásticas, que não desejam sair do palco de mando, para continuarem sendo manchetes. Mesmo ridicularizadas.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Mandamentos Brasil 2009

Reli, às vésperas do carnaval, o pensador Allan Bloom, um dos mais comentados ensaistas norteamericanos, autor do muito debatido O Declínio da Cultura Ocidental, 1987, um best-seller que já vendeu mais de um milhão de exemplares até meses atrás. Seus ensaios sobre professores, livros e educação, escritos entre 1960 e 1990, ele os concentrou num outro instigante texto intitulado Gigantes e Anões. Algumas partes de releitura acontecida.
Segundo Bloom, "a essência da educação é a experiência da grandeza". Ele ressalta a perfeição da fórmula de Pascal - sabemos muito pouco para sermos dogmático e muito para sermos cético -, defendendo a vida téorica dos assaltos próprios de um século XXI que ainda não sabe valorizar como deveria a Filosofia, asfixiando as estratégias binoculizadoras, favorecendo táticas imediatistas, às vezes também fisiológicas, eleitoreiras até, nunca políticas, todas oportunistas, algumas desabridas. Públicas e empresariais.
Em seus escritos, o Bloom parece "estar enxergando" o atual quadro brasileiro: "A filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo sempre suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder". A saída por ele oferecida deveria merecer uma respeitosa atenção: a descoberta das nossas próprias idéias.
Do livro se depreende lições sobre a atual ambiência nacional, às vésperas de acontecimentos pouco agradáveis, seqüelas de uma crise nunca marolinhática. Que pode induzir raivosos e impacientes clamores comunitários. A favorecer os autoritários de sempre, reacionários de plantão.
Algumas recomendações de Bloom merecem registro. São balizamentos que se contrapõem aos marasmos e às inércias de um todo que deseja ampliar, na mente dos mais responsáveis, a soberania pátria. Recomendações que poderiam sintetizar-se em dez mandamentos de um desenvolvimento econômico irmão siamês de um igualmente dinâmico desenvolvimento social. Ei-los:
1. Participamos de um único rincão, cada alma sendo reflexo desse mesmo rincão, nele também estando refletidas esperanças, conquistas e lições históricas;
2. Os acidentes da vida obrigam os seres humanos a adotar costumes que os levam a esquecer a parte total e imortal deles próprios, desconstruindo memórias e encaminhamentos;
3. Quem diz "eu prometo", sem ter base para cumprir a promessa, é um enganador;
4. Se aprendemos o que significa viver com livros, somos forçados a torná-los parte de nossa experiência e de nossa vida profissional e familiar;
5. Política significa o governo de seres humanos e isso só pode ser feito em posição de poder legítimo;
6. Se a democracia não pode tolerar a presença dos mais altos padrões de aprendizagem, então a própria democracia se tornará substantivamente questionável;
7. Cultura não deve ser usada para superar as preocupações instintivas com o país, colocando em seu lugar uma lealdade falsa e alimentando uma perigosa ausência de sensibilidade para com a política real;
8. Quem só possuir visão estritamente "econômica" não poderá, de forma consistente, acreditar na dignidade do ser humano ou no status especial da arte e da ciência;
9. Quando a luz inspiradoras dos grandes textos estiver para sempre obscurecida pelas chamas ardentes da interpretação fundamentalista, todas as janelas para o mundo estarão irremediavelmente fechadas;
10. Todos os talentos não passam de recursos disponíveis para a felicidade de todos, o individualismo sendo crime de lesa-humanidade.
Desenvolver uma cultura da cidadania urge depressa. Para erradicar os que apenas fingem ser, sem lastro cívico nem decência, somente aplaudidos em platéias de abobados.
Alexis de Tocqueville, magistrado francês que escreveu A Democracia na América, de primeiro volume publicado em 1835, já dizia que a noção de cidadania requer um mínimo de igualdade social. Que a partir de 2009, sejamos mais solidários e associativos. Mais criativos, jamais miméticos. Universais, ainda que brasileiros acima de tudo.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com, Coluna BATE & REBATE)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Uma dedicatória crepuscular

Numa livraria internética paulista, um título lançado em 2008 pela Paulinas rememorou militâncias de vida, JEC e JUC, CJP, botinadas e torturas, anseios libertários por um mundo menos asfixiante: Bartolomeu de Las Casas – Espiritualidade Contemplativa e Militante. E o seu autor, Frei Carlos Josaphat, dominicano, teólogo, jornalista, escritor e professor emérito da Universidade de Friburgo, Suíça, uma personalidade conhecida pelas destemidas posições assumidas no campo social na década de 60, tendo sido “convidado” a abandonar o país após o golpe militar de 1964. Uma expulsão que redundou num Doutorado em Teologia em Paris, com uma tese sobre Ética da Comunicação Social. Retornando ao Brasil, “tem-se empenhado, especialmente, no confronto do cristianismo com a civilização técnico-científica e nos problemas de justiça social”.
Será que os cristãos de hoje, olhinhos revirados e bracinhos levantados, sabem quem foi o espanhol Bartolomé de Las Casas (1474-1566), tornado Bartolomeu em língua nossa, bispo de Chiapas (México) aos 70 anos de idade e um defensor intransigente dos índios, considerado o primeiro sacerdote ordenado na América? Perceberiam eles, os que fizeram cursilhos, baratilhos e outros tantos “ilhos”, como conjugar uma espiritualidade contemplativa com uma militância libertadora a favor dos menos favorecidos? Principalmente na conjuntura planetária atual, onde trilhões de dólares são destinados para salvar os que mais se locupletaram dos menos favorecidos, onde até se constatou, dias passados, que um dos executivos das instituições falidas por ganância tresloucada de levar vantagem em tudo usufruía um ordenado de apenas dezessete mil dólares por hora? Saberiam eles que a luta de Las Casas a favor dos índios não era bem vista pelos engomadinhos purpurados de então, dada sua indignação contra as destruições e devastações que ocasionavam misérias patrocinadas inclusive pelos devotos?
O livro do frei Carlos Josaphat tem um oferecimento pra lá de evangelizador. Intitulado Dedicatória Crespucular, ele está vazado nos seguintes termos: “Aos meus irmãos dominicanos que, na aurora deste milênio fizeram de frei Bartolomeu de las Casas o estandarte de seus sonhos e de suas lutas e escolheram por divisa: ‘A Verdade Libertará’. A todos os companheiros e companheiras que apostam da utopia urgente de uma ética mundial e militam por uma nova ordem bem globalizada, em que se promovam e defendam todos os direitos para todos e para todas, neste entardecer da vida, de leve clareado pela esperança do amanhecer de um Novo Céu e de uma Nova Terra, livres e limpos da ruindade e dos entulhos dos imperialismos sem alma. A vocês dedico este livro sobre Las Casas, o apaixonado pelo direito e pela liberdade, o Doutor, o Santo Padre, o verdadeiro descobridor da América”.
A coragem de Las Casas deverá balizar a caminhada dos cristãos libertos de todos os “ismos”. Duas reflexões apenas - “a melhor qualidade de um governo consiste em ter sido constituído para o bem comum dos súditos e não para utilidade e glória do governante” e “o governante não pode fazer doações sem o consentimento livre dos seus súditos, nem sequer à Igreja ou a lugares de piedade” – bem revelam a antipatia que poderosos, inclusive eclesiásticos, sentiam pelo bispo de Chiapas.
Numa época onde se estuda o reconhecimento de uma Educação Indígena para o Estado de Pernambuco, o livro de Las Casas poderá fornecer sabedorias múltiplas, mesmo para aqueles que estão distanciados de qualquer religiosidade. E frei Carlos Josaphat, em seu livro sobre Bartolomeu de Las Casas, em muito pode subsidiar a luta daqueles que desejam povos e nações indígenas colaboradores na estruturação de uma nova sociedade, mais sedimentada nos Direitos Humanos. Que devem ser entendidos como acesso de todos aos instrumentos de uma libertação verdadeiramente integral e integralizadora.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 04.03.2009)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Dicionário de Pensações

Durante a semana pré-carnavalesca recebi visita de casal sulista. Que veio assistir ao desfile do Galo pós-Enéas, acontecido no sábado de Zé Pereira. E testemunhar a descaracterização que o está vitimando, desrespeitando a memória do seu fundador. Sinal evidente de um carnaval, o recifense, que vem sofrendo de enfermidade conhecida nos meios especializados: acomodatus virus. Ausência de criatividade foliônica, traduzindo em bom português, eis o que está contaminando o tríduo momesco da capital, inclusive as transmissões televisivas. Virus que já deve estar inoculado no Bloco mais famoso do Brasil, titular no Guinness Book, aquele livro dos arretados.
Depois do desfile, saboreando uma feijoada, o amigo comentou: - Quando se deseja só ganhar dinheiro, relegando-se a criatividade, abandona-se a inteligência, repete-se os ontens e os ante-ontens. E ressente-se de uma pensação trabalhada, como a que foi definida pelo poeta Marcos André Carvalho Lins, em seu poema Pensação. Que diz: “Penso que apenas podem ser as coisas enquanto são... / Penso que o derradeiro momento enquanto sentimento é comunhão.../ Penso que disparates enquanto arte nascem dos nossos cérebros mas florescem nas nossas mãos.../ Penso que a vida enquanto reposta não é sim nem tampouco não... / Penso que as coisas são bonitas enquanto partes do universo em constante translação... / Penso que o pensamento enquanto cimento dos sonhos humanos é mudança e transformação.”
Reproduzindo um alerta de Voltaire – Ouse pensar, amigo! – foi ainda comentado o lançamento recente do Dicionário Filosófico, de Voltaire, editora Escala. Uma mini-enciclopédia que “abrange de uma forma ampla tudo que uma ciência da filosofia e uma filosofia da vida e da história, em suas múltiplas manifestações, podem oferecer”.
Voltaire põe à disposição dos desligadões um instrumento capaz de desmistificar tabus e preconceitos, abrindo mentes e corações para o espírito crítico, tornando a reflexão ajustada a uma contemporaneidade sem receio da própria razão.
Recorrendo a um exemplar do vizinho, incorporado ao papo quando o cafezinho estava sendo servido, atentou-se para o vocábulo “entusiasmo” comentado por Voltaire, que foi aluno brilhante do colégio jesuíta de Clermont e “hóspede” da Bastilha por mais de uma vez. O vocábulo faz entender melhor os “porquês” dos declives dos eventos sempre considerados os maiores e os melhores do mundo.
Entusiasmo é palavra de origem grega que significa “emoção das entranhas, agitação interior”. Voltaire enumera alguns sintomas, inclusive perturbação, arrebatamento, demência, furor e raiva, entre outros. Segundo ele, “o entusiasmo é especialmente a herança da devoção mal compreendida”. E prognostica: “pode excitar tanto tumulto nos vasos sanguíneos e tão violentas vibrações nos nervos que a razão fica totalmente destruída”.
Um jornalista inglês, Joseph Addison, em seu “Onze ensaios sobre a imaginação”, já dizia que “o sentido da vista é o único que fornece idéias à imaginação”. Principalmente à imaginação ativa, “aquela que une a reflexão e a combinação à memória”.
O carnaval recifense tem uma boa memória, conservada pelos pesquisadores especializados. Que perceberam de há muito que “uma memória bem nutrida e exercitada é a fonte de toda imaginação”. E que “as pessoas muito ocupadas com cálculos e com negócios espinhosos têm geralmente a imaginação estéril”.
No pós-cafezinho, uma unânime conclusão: o carnaval recifense, com seu Galo à frente, deve ter como nutriente maior não as propagandas bem boladas, mas uma pernambucanidade criativa transmitida com sadio entusiasmo no sistema de ensino de primeiro e segundo graus. Somente ela, condimentada de muito conhecimento histórico poderá alavancar todo o Estado, inclusive a capital e o próprio Carnaval.
PS. De parabéns Olinda pelo seu Carnaval de beleza 10!
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)