QUANDO CONHECI O RECIFE – UM TESTEMUNHO
Desde menino, eu tinha uma vontade danada de conhecer o Recife, cidade onde meus pais nasceram, numa rua chamada Da Glória, bairro da Boa Vista. De nome Antônio, o meu velho vez por outra dizia - como se estivesse cantando o Hino Nacional, tamanho era o orgulho dele - que o Recife era uma cidade muito arretada, a mais bonita do Brasil, a única do mundo que possuía rios e pontes, praia e água de coco, caldo de cana e pão doce, frevo e maracatu. E ainda uma universidade rural de verdade, situada em pleno perímetro urbano.
A minha curiosidade aumentou quando uma tia da minha mãe, a Fininha (cento e vinte quilos para desmoralizar o apelido), disse pra todo mundo, na primeira comunhão da prima Carmelita (uma meninota de dez anos e já empeitadinha) que tinha encontrado, no Recife, “mais de quatro séculos de muita história, o moderno misturado com o passado e dois rios que envolvem a cidade, como companheiros inseparáveis de alegrias e decepções”. Uma curiosidade somente saciada quando, numa madrugada de um final de semana de fevereiro de 1952, desembarquei na Estação Central, meus teréns acomodados numa mala de segunda mão, pedida emprestada de um romeiro do padre Cícero Romão Batista, o Zeca de Luizinha, meu padrinho de mesmo por vontade de minha avó materna, mandona que fazia gosto.
Sem nadinha de medo da madrugada daquela época, atravessei a Ponte Velha, registrando-me na pensão da Dona Carlotinha, uma senhora de meia idade, busto farto e corpete, que hospedava quatro mocinhas. Essas que trabalhavam como raparigas, pixito de aluguel, na Chantecler, um cabaré bem freqüentado do bairro do Recife.
Desde os bancos escolares, eu já tinha conhecimento de um bocado de coisas da capital do Nordeste. Mas somente agora identificava o Recife como uma cidade “onde é verão quase o ano inteiro” e onde “as roseiras não se fazem de rogadas para se abrir em botões e em rosas de uma fragrância como só nos trópicos”. Uma cidade acolhedora, “o primeiro ponto do Brasil atingido pelos aviadores portugueses, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, no seu vôo de Portugal ao Rio de Janeiro” e que tem o maior carnaval do Mundo, com seu frevo, uma dança que dispensa canto e exige um acompanhamento orquestral todo apropriado.
Devidamente instalado no quarto 6 (cama patente, colchão de capim, cadeira e quartinha, banheiro no final do corredor), dormi com uma determinação única para os próximos dez dias de permanência: a de esmiuçar o Recife, saborear seu passado libertário, seus atos e fatos, seus rios e suas pontes, seus monumentos patrimoniais, sua folia momesca, que explodiria alguns dias depois, pois os sinais já se explicitavam através das barraquinhas de vender confetes, máscaras e serpentinas.
Pretendia, na minha visita ao Recife, identificar os “derredores históricos” da cidade, que tem um clima especial, “pela doçura das suas manhãs e dos seus fins de tarde”, como assegurou Gilberto Freyre na leitura imperdível do seu Guia Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, livro lido de cabo a rabo, volume tomado emprestado de uma tia quase solteirona que tinha me ensinado as primeiras lições de homem, por bondade sua e também muita necessidade minha.
Numa revista do Arquivo Público, propriedade de uma das “funcionárias” da Chantecler, caracterizei superficialmente o Recife: de uma população portuária, surgida logo depois da fundação de Olinda, em 1536, tornou-se Vila, por conta de Carta Régia, em novembro de 1709, vindo a ser contemplada com o título de Cidade em dezembro de 1823, mediante Carta Imperial. E, por Resolução do Conselho Geral da Província, datada de 1827, foi alçada à categoria de Capital do Estado, pioneira em uma série de empreendimentos que a fizeram por merecer, até hoje, o título de metrópole regional.
Nas paredes da pensão da Dona Carlotinha, observei alguns “pensamentos” escritos, alguns deles merecedores de reprodução:
· “Mulher é um conjunto de curvas capaz de levantar um segmento de reta.”
· “Se barba impusesse respeito, bode não teria chifres.”
· “Deus criou o homem antes da mulher para não ouvir palpites.”
· “Se bebida curasse alguma coisa, cachaça tinha bula.”
· “Tudo na vida é passageiro, menos motorista e cobrador.”
· “Virgindade é que nem picolé: acaba no pau.”
As andanças pelo Recife satisfizeram, e muito, as minhas primitivas expectativas. Não cansava de elogiar o Rio Capibaribe, as pontes do centro da cidade, a hospitalidade recifense e os comes e bebes locais. E também o Ginásio Pernambucano, um educandário de professores famosos pelos saberes que irradiavam, que um dia teve o privilégio de receber a visita do Imperador Dom Pedro II numa festividade acontecida em dezembro de 1859.
À tardinha de um domingo de banho de mar na praia de Boa Viagem, com direito à água de coco, conheci a praça da República e o Teatro Santa Isabel, uma das marcas abolicionistas recifenses, inicialmente chamado de Theatro de Pernambuco, concluído em 1850, depois de quase uma década de muita trabalheira.
Na rua da Aurora, troquei idéias com um vendedor de rolete, rodelas de cana caiana espetadas nuns estiletes de bambu, formando como que um buquê de dez ou doze, molinhas e doces. E o roleteiro ainda me revelou como se fazia nego-bom, uma deliciosa guloseima muito vendida nas ruas e botecos, em festas populares e feiras típicas, também existente na barraquinha móvel da calçada situada no oitão do teatro: “Machucam-se vinte bananas prata com um quilo de açúcar numa caçarola levada ao fogo brando, mexendo-se até soltar da vasilha, isto é, num ponto bem açucarado, quase queimado. Bota-se suco de dois limões, retira-se do fogo e bate-se bem. Quando estiver bem batido, pega-se a massa e fazem-se bolinhas que são enroladas em pedaços de papel e vendidas em tabuleiros ou nas pequenas mercearias dos bairros da cidade.”
Já dizia o gaúcho Érico Veríssimo, em seu livro Solo de Clarineta, que existem duas espécies de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar. E eu me classifiquei no segundo grupo, tamanha a vontade de saber mais sobre o Recife, seu rio, suas pontes, sua gente e sua culinária.
As minhas férias foram turística e raparigalmente bem vividas. As meninas de Dona Carlotinha, principalmente a Simone, o xibiu mais bonito que até hoje vi, perdurarão na minha memória para todo o sempre.
A viagem de volta foi recheada de muitas saudades. De um Recife sempre libertário, das suas pontes e do seu Rio Capibaribe, dos seus cantos e recantos, mil encantos, das suas praias, do seu frevo e do seu maracatu. Uma saudade revestida de muita alegria de ser brasileiro e de ter conhecido um pedaço de Brasil, que é história viva e bem vivida, parida na bravura de uma gente que, recifense por derradeiro, sente um orgulho arretado de ser pernambucana.
Desde menino, eu tinha uma vontade danada de conhecer o Recife, cidade onde meus pais nasceram, numa rua chamada Da Glória, bairro da Boa Vista. De nome Antônio, o meu velho vez por outra dizia - como se estivesse cantando o Hino Nacional, tamanho era o orgulho dele - que o Recife era uma cidade muito arretada, a mais bonita do Brasil, a única do mundo que possuía rios e pontes, praia e água de coco, caldo de cana e pão doce, frevo e maracatu. E ainda uma universidade rural de verdade, situada em pleno perímetro urbano.
A minha curiosidade aumentou quando uma tia da minha mãe, a Fininha (cento e vinte quilos para desmoralizar o apelido), disse pra todo mundo, na primeira comunhão da prima Carmelita (uma meninota de dez anos e já empeitadinha) que tinha encontrado, no Recife, “mais de quatro séculos de muita história, o moderno misturado com o passado e dois rios que envolvem a cidade, como companheiros inseparáveis de alegrias e decepções”. Uma curiosidade somente saciada quando, numa madrugada de um final de semana de fevereiro de 1952, desembarquei na Estação Central, meus teréns acomodados numa mala de segunda mão, pedida emprestada de um romeiro do padre Cícero Romão Batista, o Zeca de Luizinha, meu padrinho de mesmo por vontade de minha avó materna, mandona que fazia gosto.
Sem nadinha de medo da madrugada daquela época, atravessei a Ponte Velha, registrando-me na pensão da Dona Carlotinha, uma senhora de meia idade, busto farto e corpete, que hospedava quatro mocinhas. Essas que trabalhavam como raparigas, pixito de aluguel, na Chantecler, um cabaré bem freqüentado do bairro do Recife.
Desde os bancos escolares, eu já tinha conhecimento de um bocado de coisas da capital do Nordeste. Mas somente agora identificava o Recife como uma cidade “onde é verão quase o ano inteiro” e onde “as roseiras não se fazem de rogadas para se abrir em botões e em rosas de uma fragrância como só nos trópicos”. Uma cidade acolhedora, “o primeiro ponto do Brasil atingido pelos aviadores portugueses, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, no seu vôo de Portugal ao Rio de Janeiro” e que tem o maior carnaval do Mundo, com seu frevo, uma dança que dispensa canto e exige um acompanhamento orquestral todo apropriado.
Devidamente instalado no quarto 6 (cama patente, colchão de capim, cadeira e quartinha, banheiro no final do corredor), dormi com uma determinação única para os próximos dez dias de permanência: a de esmiuçar o Recife, saborear seu passado libertário, seus atos e fatos, seus rios e suas pontes, seus monumentos patrimoniais, sua folia momesca, que explodiria alguns dias depois, pois os sinais já se explicitavam através das barraquinhas de vender confetes, máscaras e serpentinas.
Pretendia, na minha visita ao Recife, identificar os “derredores históricos” da cidade, que tem um clima especial, “pela doçura das suas manhãs e dos seus fins de tarde”, como assegurou Gilberto Freyre na leitura imperdível do seu Guia Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, livro lido de cabo a rabo, volume tomado emprestado de uma tia quase solteirona que tinha me ensinado as primeiras lições de homem, por bondade sua e também muita necessidade minha.
Numa revista do Arquivo Público, propriedade de uma das “funcionárias” da Chantecler, caracterizei superficialmente o Recife: de uma população portuária, surgida logo depois da fundação de Olinda, em 1536, tornou-se Vila, por conta de Carta Régia, em novembro de 1709, vindo a ser contemplada com o título de Cidade em dezembro de 1823, mediante Carta Imperial. E, por Resolução do Conselho Geral da Província, datada de 1827, foi alçada à categoria de Capital do Estado, pioneira em uma série de empreendimentos que a fizeram por merecer, até hoje, o título de metrópole regional.
Nas paredes da pensão da Dona Carlotinha, observei alguns “pensamentos” escritos, alguns deles merecedores de reprodução:
· “Mulher é um conjunto de curvas capaz de levantar um segmento de reta.”
· “Se barba impusesse respeito, bode não teria chifres.”
· “Deus criou o homem antes da mulher para não ouvir palpites.”
· “Se bebida curasse alguma coisa, cachaça tinha bula.”
· “Tudo na vida é passageiro, menos motorista e cobrador.”
· “Virgindade é que nem picolé: acaba no pau.”
As andanças pelo Recife satisfizeram, e muito, as minhas primitivas expectativas. Não cansava de elogiar o Rio Capibaribe, as pontes do centro da cidade, a hospitalidade recifense e os comes e bebes locais. E também o Ginásio Pernambucano, um educandário de professores famosos pelos saberes que irradiavam, que um dia teve o privilégio de receber a visita do Imperador Dom Pedro II numa festividade acontecida em dezembro de 1859.
À tardinha de um domingo de banho de mar na praia de Boa Viagem, com direito à água de coco, conheci a praça da República e o Teatro Santa Isabel, uma das marcas abolicionistas recifenses, inicialmente chamado de Theatro de Pernambuco, concluído em 1850, depois de quase uma década de muita trabalheira.
Na rua da Aurora, troquei idéias com um vendedor de rolete, rodelas de cana caiana espetadas nuns estiletes de bambu, formando como que um buquê de dez ou doze, molinhas e doces. E o roleteiro ainda me revelou como se fazia nego-bom, uma deliciosa guloseima muito vendida nas ruas e botecos, em festas populares e feiras típicas, também existente na barraquinha móvel da calçada situada no oitão do teatro: “Machucam-se vinte bananas prata com um quilo de açúcar numa caçarola levada ao fogo brando, mexendo-se até soltar da vasilha, isto é, num ponto bem açucarado, quase queimado. Bota-se suco de dois limões, retira-se do fogo e bate-se bem. Quando estiver bem batido, pega-se a massa e fazem-se bolinhas que são enroladas em pedaços de papel e vendidas em tabuleiros ou nas pequenas mercearias dos bairros da cidade.”
Já dizia o gaúcho Érico Veríssimo, em seu livro Solo de Clarineta, que existem duas espécies de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar. E eu me classifiquei no segundo grupo, tamanha a vontade de saber mais sobre o Recife, seu rio, suas pontes, sua gente e sua culinária.
As minhas férias foram turística e raparigalmente bem vividas. As meninas de Dona Carlotinha, principalmente a Simone, o xibiu mais bonito que até hoje vi, perdurarão na minha memória para todo o sempre.
A viagem de volta foi recheada de muitas saudades. De um Recife sempre libertário, das suas pontes e do seu Rio Capibaribe, dos seus cantos e recantos, mil encantos, das suas praias, do seu frevo e do seu maracatu. Uma saudade revestida de muita alegria de ser brasileiro e de ter conhecido um pedaço de Brasil, que é história viva e bem vivida, parida na bravura de uma gente que, recifense por derradeiro, sente um orgulho arretado de ser pernambucana.

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