quinta-feira, 16 de novembro de 2006

O Pardalzinho

Era uma vez um pardalzinho que detestava deslocar-se para outras paragens, todas as vezes que o inverno chegava. Por esse motivo, deixava sempre para última hora a idéia de abandonar seu aconchego por uns tempos. Costumeiramente, despedia-se dos companheiros, retornando ao ninho para mais umas semanas de um cochilo bem-bom.
Certa feita, com um tempo já desesperadamente frio, ao iniciar seu vôo, deparou-se com uma chuvinha continuada. Molhadas as asas, estas se petrificaram, congelando-se, fazendo o pardalzinho despencar das alturas e cair no interior de uma vacaria de pequeno porte.
Quando já se imaginava próximo do seu final de vida, o pardalzinho recebeu uma descomunal carga excremental, oportunamente quentinha, de uma vaca que de costas para ele se encontrava.
Apesar de todo bostado, o pardalzinho logo percebeu que aquela massa fétida derretia rapidamente o gelo acumulado das suas asas, aquecendo-o providencialmente e tornando-o muito distanciado da morte prematura que se avizinhava.
Sentindo-se feliz, plenamente reaquecido, o pardalzinho começou a cantar alto e bom som, desapercebendo-se por completo de um enorme gato que o espreitava estrategicamente, atraído pelos seus trinados, e que, de uma só abocanhada, matou-o instantaneamente.
Esta história reflete quatro ensinamentos, dignos de serem repassados. O primeiro proclama que “nem sempre aquele que caga em você é seu inimigo”. O famoso ditado “topada só bota pra frente”, muito ouvido nas camadas populares, reflete, contraponto felicíssimo, a lição encerrada naquela advertência.
O segundo ensinamento revela que “nem sempre aquele que tira você da merda é seu amigo”. Uma lição ainda muito desapercebida por inúmeros eleitores nordestinos, responsáveis por feudos oligárquicos conservadores, perpetuados pela gratidão eterna dos “beneficiados” que continuam vítimas.
O terceiro ensinamento é oportuno para muitos: “desde que você se sinta quente e confortável, conserve o bico calado, mesmo que situado num monte de merda”. Reclamar muito, por tudo e todos, quando não se pode dar um passo seguro, é o mesmo que cutucar leão faminto e solto com vara bem curtinha.
E o quarto ensinamento da parábola do pardalzinho é a chave de ouro dos anteriores: “quem está na merda não canta”. Traduzindo: deve-se procurar a melhor das alternativas, jamais se distanciando de uma consistente simancalidade, capacidade de se mancar, perceber-se imaturo, incompleto ou muito inconveniente.

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