quarta-feira, 2 de julho de 2008

Esclarecendo Um Irmão

O João Silvino da Conceição me perguntou, num churrasco bem regado a “refrigerantes” acontecido no espaço do casal Valéria/Jean Pierre, por que tanta admiração eu nutria pelo anglicano John Shelby Spong e encareceu mais dados sobre esse teólogo.
Informei ao Silvino que o bispo Spong, nascido em 1931, na Carolina do Norte, USA, desde 2000 é bispo aposentado da Diocese de Newark, Nova Jersey. É um teólogo, biblicista e escritor. Defende causas liberais, como a da igualdade racial e dos direitos de mulheres e homossexuais. E batalha por uma reavaliação da fé cristã, longe do teísmo e da crença na vida após a morte como recompensa ou punição pelo comportamento humano.
Informei ao Silvino que o bispo Spong foi Professor Palestrante da Universidade de Harvard, lugar de destaque antes ocupado por Hans Küng, H. Richard Niebuhr, Paul Tillich, William Temple e John A. T. Robinson, este último bispo anglicano como ele, uma admiração de Spong, sentida bem antes da publicação de Honest to God, que proporcionou a Robinson pedido de desculpas de Michael Ramsey, arcebispo de Cantuária à época, que reconheceu sua reação negativa como um dos maiores erros da sua primazia. O bispo Robinson morreu em 1983, no ostracismo, ocupando a insignificante posição de deão da Capela do Trinity College, “geralmente ocupada por um recém formado em teologia”.
Satisfazendo a curiosidade do João Silvino da Conceição, enumerei para ele algumas proposições defendidas pelo bispo Spong, seguramente um homem de muita coragem teologal, hoje às vésperas dos seus 77 anos. Ei-las: Uma nova forma de falar a respeito de Deus deve ser encontrada; A narrativa bíblica da criação perfeita e acabada da qual os seres humanos caíram no pecado é mitologia pré-Darwiniana, e absurdo pós-Darwiniano; A Ressurreição é uma ação de Deus. Jesus foi ressuscitado no significado de Deus. Não pode, desta forma, ser uma ressurreição física ocorrida na história humana; Oração não pode ser um pedido feito a uma divindade teística para agir na história humana de uma maneira específica; A esperança de vida após a morte deve ser separada para sempre da mentalidade de controle de comportamento de recompensa e punição. A igreja deve abandonar, então, sua dependência na culpa como um motivador de comportamento; Todos os seres humanos representam a imagem de Deus e devem ser respeitados pelo que são. Desta maneira, nenhuma descrição externa de um ser, seja baseado na raça, etnia, gênero ou orientação sexual, pode apropriadamente ser usada como base para rejeição ou discriminação.
Senti-me asfixiado diante das indagações do Silvino. Ofereci a ele um exemplar do penúltimo livro do bispo Spong – Um Novo Cristianismo para um Novo Mundo, a Fé além dos Dogmas , Verus, 2006 – já combinando a leitura, a vários olhos, de Jesus For The Non-Religious, Harper 2008, com lançamento em português programado para o fim do próximo semestre.
Um texto do Spong de pronto entusiasmou o João Silvino da Conceição: “Precisamos de uma reforma para que a eclésia do futuro convide as pessoas para o universo de Deus, onde elas possam agir corporativamente para enaltecer a vida, expandir o amor e estimular a existência”.
Razão em demasia tinha o rabino Abraham Joshua Heschel, teólogo israelita: “Costuma-se culpar a ciência secular e a filosofia anti-religiosa pelo eclipse da religião na sociedade moderna. Seria mais honesto culpar a religião por suas próprias derrotas. Ela decaiu não porque foi contestada, mas porque se tornou irrelevante, enfadonha, opressiva e insípida. Quando a fé é completamente substituída pelo credo, o culto pela disciplina, amor pelo hábito; quando a crise de hoje é ignorada pelo esplendor do passado; quando a fé se torna um mero objeto herdado em vez de uma fonte de vida; quando a religião fala somente em nome da autoridade em vez da compaixão, sua mensagem se torna sem sentido”.
Silvino e eu assinamos embaixo, sem piscar.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 02.04.2008)

2 comentários:

rodrigo rochin disse...

Boa tarde,gostaria de saber se o bispo John Shelby acredita no juizo final e na segunda vinda de Jesus.Um forte abraço de Rodrigo Rochin

samuel santini disse...

Gostava de perguntar,se o bispo John Shelby acredita no ibferno de fogo?Obrigado Samuel Santini