Consultando a Revista da ENA - Escola Nacional de Advocacia, número 5, maio passado, à procura de uma informação solicitada pela minha mulher, advogada especializada em Direito de Família, eis que me deparo com um texto inusitado, de autoria do advogado José Rossini Campos do Couto Corrêa. Logo depois da leitura do ensaio Direito & Teologia: Amós, Profeta de Qual Justiça? fui compulsivamente tentado a ler um pouco mais sobre Amós, um simples boieiro e cultivador de sicômoro, um tipo de figueira africana. Amós nasceu na cidade de Tecoa, distante dezesseis quilômetros ao sul de Jerusalém, por volta de 765 a.C., época de prosperidade econômica, desenfreda idolatria e padrão de vida luxuoso para uma ínfima minoria.
Muito embora não tendo sido educado para ser profeta, nem tido qualquer presença em alguma capacitação específica, Amós, como um ser humano comum, acreditou ser sua obrigação moral alertar as autoridades da época – políticas e religiosas sobretudo – sobre as condições miseráveis vivida pela grande maioria de uma população que se distanciava cada vez mais do mínimo necessário para uma sobrevivência decente.
Sem temer a cara feia do sacerdote Amazias, que o denunciou ao rei Jeroboão II, Amós percebeu que as atividades comerciais se encontravam intimamente mancomunadas com as religiosidades engabelatórias dos sacerdotes, a maioria preocupada em transações que amealhassem cada vez mais tesouros, os despossuídos que se apegassem às migalhas remanescentes das reuniões de compra e venda que semanalmente aconteciam.
Imagino Amós, hoje, relatando sua caminhada:
“O Senhor me tirou do pastoreamento de gado e senti Ele me incentivando com um Vai e adverte às autoridades do povo de Israel. Senti firmeza na voz do meu coração e percebi a imensa responsabilidade de anunciar a palavra do Senhor, bradando indignado diante das condições sociais de exploração e injustiça em que o povo vivia.
Em hipótese alguma poderia calar a minha voz. Além disso, havia toda uma classe de poderosos que vivia do luxo e do fausto às custas dos menos favorecidos, dos que não possuíam nem voz nem vez. E que morriam de fome sem ter ninguém que os ajudasse. Sem que a classe sacerdotal levantasse um dedo para os auxiliar ou denunciar a situação imoral em que viviam.
Era mais que evidente que havia uma clara distinção entre os dois grupos: os ‘oprimidos’ e ‘os que amontoavam opressão e rapina’, sob as bênçãos pútridas das autoridades religiosas, que tinham perdido sensibilidade social, sem atentarem, sequer por um instante, que elas mesmos seriam as vítimas futuras, posto que ‘negar aquela realidade seria prolongar uma duradoura ilusão religiosa’.
A coisa era tão agressivamente anestesiante que os líderes religiosos desrespeitavam por completo o explicitado em Ex 20,4-6, ratificando observação de milhares: “quando os desafios ameaçam a segurança religiosa dos sacerdotes, a verdade passa a não ser o objetivo primacial deles”.
Fui tão rude que acabei sendo expulso do país, na conspiração atuando até o sacerdote Amazias, ávido em agradar os da elite política, ainda que perdendo toda noção de justiça distributivista.
Com raríssimas exceções, os religiosos daquela época “pisavam a cabeça dos necessitados”, “negavam justiça aos oprimidos”, “bebiam o vinho recebido como multa”, pintavam e bordavam como se diz hoje. Desatentos que estavam sobre uma futura “revolução do conhecimento e da maturidade humana que desacreditariam os moldes teístas do passado”.
Voltando aos meus bois e aos meus sicômoros, resolvi escrever algumas páginas, mesmo sem ter sido educado como os outros parecidos comigo, apenas relembrando os ensinamentos parcamente recebidos durante a minha caminhada entre os despossuídos.”
Podemos classificar Amós como um pregador leigo, dotado de um senso de justiça muito acurado, sempre preocupado com os deslizes éticos e morais da sua gente, inclusive dos religiosos. O nome Amós significa “carga” ou “carregador”. Através de um estilo simples, em alguns momentos até pitorescos, sem os rebuscados dos metidos a sério, construiu metáforas nocauteadoras.
Estou convicto da reedição do mesmo discurso enérgico, denunciador dos colapsos éticos e morais da sociedade, se Amós voltasse a este mundo nos tempos de agora. E ele certamente escreveria para os pósteros:
“As manchetes dos jornais modernos estão pródigas em notícias sobre a corrupção em geral, envolvendo figuras que, pelo seu estatuto religioso, social e político, bem poderiam ser pontos de referência. Os problemas sociais estão presentes em todos os quadrantes do mundo. A opressão e as grandes desigualdades da renda mundial, a falta de sensibilidade pelo sofrimento do outro, a exclusão social, a hipocrisia religiosa e a ânsia de grandes lucros estão destruindo os direitos dos mais frágeis. E quando o fosso da desigualdade social se torna cada vez maior, agiganta-se a ânsia de fazer justiça pelas próprias mãos. E quando a fogueira da vaidade se agiganta, mais o fosso se amplia entre os que possuem quase tudo e os que de nada são proprietários.”
Imaginei Amós lendo Wittgenstein sobre a vaidade: “a mais terrível força do mundo. A fonte dos maiores males”. E recordei Fernando Pessoa: “O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação”. E me alegrei visualizando o bater palmas de Amós lendo o que foi escrito por Thomas Sheehan, professor de estudos religiosos da Stanford University: “Se realizarmos a cirurgia radical que é necessária, não desaparecerão somente certas formulações tradicionais da fé, mas também muito do conteúdo pressuposto do cristianismo. Nosso único consolo é que, se não houver uma intervenção radical, e logo, o paciente morrerá”.
Eu desejo ver o Cristianismo plenamente recuperado da gigantesca crise que vivencia na pós-modernidade. Livre das causas pérfidas, muitas delas por ele próprio estatuídas. Continuo com uma arraigada fé na mensagem do Reino do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador, jamais confundindo salvação com igreja, como proclamava Ivan Illich, o inquieto monsenhor de Cuernavaca, México, fundador do CIDOC – Centro Internacional de Documentação Cultural, falecido em 2003, aos 76 anos de idade. Originalidade desconcertante, autor de Sociedade sem Escola, Vozes, Ivan Illich sempre proclamava, mesmo quando retornado à condição laica, que “a maioria das idéias-chave que fazem do mundo contemporâneo esta realidade particular é de origem cristã”.
Muito embora não tendo sido educado para ser profeta, nem tido qualquer presença em alguma capacitação específica, Amós, como um ser humano comum, acreditou ser sua obrigação moral alertar as autoridades da época – políticas e religiosas sobretudo – sobre as condições miseráveis vivida pela grande maioria de uma população que se distanciava cada vez mais do mínimo necessário para uma sobrevivência decente.
Sem temer a cara feia do sacerdote Amazias, que o denunciou ao rei Jeroboão II, Amós percebeu que as atividades comerciais se encontravam intimamente mancomunadas com as religiosidades engabelatórias dos sacerdotes, a maioria preocupada em transações que amealhassem cada vez mais tesouros, os despossuídos que se apegassem às migalhas remanescentes das reuniões de compra e venda que semanalmente aconteciam.
Imagino Amós, hoje, relatando sua caminhada:
“O Senhor me tirou do pastoreamento de gado e senti Ele me incentivando com um Vai e adverte às autoridades do povo de Israel. Senti firmeza na voz do meu coração e percebi a imensa responsabilidade de anunciar a palavra do Senhor, bradando indignado diante das condições sociais de exploração e injustiça em que o povo vivia.
Em hipótese alguma poderia calar a minha voz. Além disso, havia toda uma classe de poderosos que vivia do luxo e do fausto às custas dos menos favorecidos, dos que não possuíam nem voz nem vez. E que morriam de fome sem ter ninguém que os ajudasse. Sem que a classe sacerdotal levantasse um dedo para os auxiliar ou denunciar a situação imoral em que viviam.
Era mais que evidente que havia uma clara distinção entre os dois grupos: os ‘oprimidos’ e ‘os que amontoavam opressão e rapina’, sob as bênçãos pútridas das autoridades religiosas, que tinham perdido sensibilidade social, sem atentarem, sequer por um instante, que elas mesmos seriam as vítimas futuras, posto que ‘negar aquela realidade seria prolongar uma duradoura ilusão religiosa’.
A coisa era tão agressivamente anestesiante que os líderes religiosos desrespeitavam por completo o explicitado em Ex 20,4-6, ratificando observação de milhares: “quando os desafios ameaçam a segurança religiosa dos sacerdotes, a verdade passa a não ser o objetivo primacial deles”.
Fui tão rude que acabei sendo expulso do país, na conspiração atuando até o sacerdote Amazias, ávido em agradar os da elite política, ainda que perdendo toda noção de justiça distributivista.
Com raríssimas exceções, os religiosos daquela época “pisavam a cabeça dos necessitados”, “negavam justiça aos oprimidos”, “bebiam o vinho recebido como multa”, pintavam e bordavam como se diz hoje. Desatentos que estavam sobre uma futura “revolução do conhecimento e da maturidade humana que desacreditariam os moldes teístas do passado”.
Voltando aos meus bois e aos meus sicômoros, resolvi escrever algumas páginas, mesmo sem ter sido educado como os outros parecidos comigo, apenas relembrando os ensinamentos parcamente recebidos durante a minha caminhada entre os despossuídos.”
Podemos classificar Amós como um pregador leigo, dotado de um senso de justiça muito acurado, sempre preocupado com os deslizes éticos e morais da sua gente, inclusive dos religiosos. O nome Amós significa “carga” ou “carregador”. Através de um estilo simples, em alguns momentos até pitorescos, sem os rebuscados dos metidos a sério, construiu metáforas nocauteadoras.
Estou convicto da reedição do mesmo discurso enérgico, denunciador dos colapsos éticos e morais da sociedade, se Amós voltasse a este mundo nos tempos de agora. E ele certamente escreveria para os pósteros:
“As manchetes dos jornais modernos estão pródigas em notícias sobre a corrupção em geral, envolvendo figuras que, pelo seu estatuto religioso, social e político, bem poderiam ser pontos de referência. Os problemas sociais estão presentes em todos os quadrantes do mundo. A opressão e as grandes desigualdades da renda mundial, a falta de sensibilidade pelo sofrimento do outro, a exclusão social, a hipocrisia religiosa e a ânsia de grandes lucros estão destruindo os direitos dos mais frágeis. E quando o fosso da desigualdade social se torna cada vez maior, agiganta-se a ânsia de fazer justiça pelas próprias mãos. E quando a fogueira da vaidade se agiganta, mais o fosso se amplia entre os que possuem quase tudo e os que de nada são proprietários.”
Imaginei Amós lendo Wittgenstein sobre a vaidade: “a mais terrível força do mundo. A fonte dos maiores males”. E recordei Fernando Pessoa: “O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação”. E me alegrei visualizando o bater palmas de Amós lendo o que foi escrito por Thomas Sheehan, professor de estudos religiosos da Stanford University: “Se realizarmos a cirurgia radical que é necessária, não desaparecerão somente certas formulações tradicionais da fé, mas também muito do conteúdo pressuposto do cristianismo. Nosso único consolo é que, se não houver uma intervenção radical, e logo, o paciente morrerá”.
Eu desejo ver o Cristianismo plenamente recuperado da gigantesca crise que vivencia na pós-modernidade. Livre das causas pérfidas, muitas delas por ele próprio estatuídas. Continuo com uma arraigada fé na mensagem do Reino do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador, jamais confundindo salvação com igreja, como proclamava Ivan Illich, o inquieto monsenhor de Cuernavaca, México, fundador do CIDOC – Centro Internacional de Documentação Cultural, falecido em 2003, aos 76 anos de idade. Originalidade desconcertante, autor de Sociedade sem Escola, Vozes, Ivan Illich sempre proclamava, mesmo quando retornado à condição laica, que “a maioria das idéias-chave que fazem do mundo contemporâneo esta realidade particular é de origem cristã”.

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