segunda-feira, 21 de julho de 2008

Despertadores para um Brasil século 21

O diagnóstico da jornalista Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo, dias atrás, revelou-se de uma oportunidade ímpar: “o povão está cansado de lero-lero e de ver os céus coalhados de gaviões e as gaiolas entupidas de pardais”. A sociedade trabalhadora está começando a se irritar com os tribunais superiores que, de penca, estão emitindo solturas para bandidões de bilhões, através de “decisões técnicas” metidas a cumpridoras de alta justiça. E anda danada da vida com as trambicagens do Congresso Nacional, vez por outra inventando novos cargos para não-concursados, atendendo conchavos de pé de escada de zona de meretrício.
Lamentavelmente, a maioria da nossa gente está acomodada, apenas cuidando dos seus teréns, não percebendo que um imenso tsumani amoral agiganta-se por todos os setores. Envolvendo num mesmo chiqueiro “ispertos” e os metidos a “de cima”, convictos todos de uma impunidade cada vez mais sólida, punição apenas para os pebas, as prostitutas e os negros. Fenômeno que atingirá gregos e troianos, bispinhos e bispões, socialites e emergentes, todos os “disleriados” que não possuem uma “enxergância bussolínica” capaz de “binoculizar” os amanhãs nacionais, favorecendo a ampliação de uma rapinagem de sobrenomes os mais diferenciados.
Como não se tornar civicamente autofágico na atual quadratura brasileira? Basta perceber que o melhor caminho poderá acontecer nas eleições que se avizinham, oportunidade ímpar de defenestrar políticos acanalhados, lambedores sem senso crítico, vagabundos demagogos, oportunistas de piruetas múltiplas, do tipo abandonar o Morro da Conceição para se lambusar na soleira da porta dos Manguinhos, imaginando-se consciente da lição do genial Fernando Pessoa: “Para vencer – material e imaterialmente – três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades e criar relações”. Como se o “saber trabalhar” fosse para usufrutos ilícitos, o “aproveitar oportunidades” contivesse práticas nepotistas e banditosas e o “criar relações” se destinasse a cafajestadas praticadas a torto e a direito. Como se a maioria da sociedade brasileira tivesse desativado em definitivo seu nível rebelioso, não mais sabendo diferenciar sexismo e sexualidade, emoção e histerismo, generosidade e vampirismo, humor e canalhice, política e deliqüência, pastoral e patrulhismo.
Está na hora de se estudar melhor dois indicadores: o IMI – Índice de Mutabilidade Interna e o IME – Índice de Mutabilidade Externa. As mutabilidades internas acontecendo no interior da sociedade brasileira, as externas explicitadas por um mundo que se apercebe mais distanciado das espiritualidades imaturas, atento às recomendações de Malidoma Somé, líder religioso africano: “Muitas pessoas se apegam à espiritualidade como se esta pudesse servir de abrigo para se esconderem daquilo que é real. Assim não funciona. Sabemos que funciona quando o espírito que está por trás de você acompanha-o aonde quer que você vá e lhe mostra como enfrentar a adversidade”.
Necessário acelerar a hora do agigantar-se da nossa brava gente brasileira. Fazendo cumprir o muito bem dito pelo Jessier Quirino, esse nordestino danado de bom, amigo do Luiz Berto, autor também arretado de A Besta Fubana: “Sois argumento de foice / Sois riacho correntoso / Tu sois carquejo espinhoso / Sois calo de coronel / Sois cor de barro a granel / Sois couro bom que não mofa / Sois um doutor sem farofa / Sem soqueira de anel”.
No mais, é retirar o título de eleitor da gaveta, imaginar-se plantando uma sonora bofetada cívica, seguida de cusparada das boas, nos políticos bandidos, tornando-se cada vez mais consciente, tal e qual aquele que se encontra comprometido com os direitos e deveres, sabendo agir com responsabilidade, sempre atuando para melhorar o estado geral do derredor por onde passa, sendo companheiro, divulgando que a bandidagem não faz bem a ninguém, nem aos próprios criminosos, de dias contados.
(Publicado no site da Globo Nordeste)

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